A Clóvis Rossi, da Folha de
S. Paulo
Há tempos estou para
te escrever umas linhas porque realmente admiro muito o seu trabalho.
Honestidade profissional e bom jornalismo raramente correm juntos e na
Folha encontramos as mais fenomenais exceções. É realmente, e de longe,
o melhor jornal existente no país.
Você toca o dedo na
ferida ao enfatizar com vigor o aspecto econômico desses desgovernos
todos. Também o fazem Jânio de Freitas e Fernando Rodrigues, como hoje
em
Juízes e Patrocínios.
De uma semana para
cá mergulhei no livro “Para
entender o Poder” – compilação de palestras de Noam Chomsky
elaborada por Peter Mitchell e John Schoeffel (cada nome que esses caras
arrumam...), Editora Bertrand Brasil. Seguramente já conheces com vasta
vantagem sobre mim os argumentos de Chomsky. E ele é realmente
persuasivo.

O cerne do Poder
está em grandes conglomerados econômicos internacionais e, para eles, a
questão do crescimento ou desenvolvimento nacional, se incompatível com
seus lucros (o que parece ser o caso há muitos anos pelo mundo afora) é
simplesmente desprezada na prática mesmo se para isso o discurso deva
estar em completa contradição com os fatos.
Isto permite
entender também os motivos que levam Lula da Silva a falar tanto em
“espetáculos”, “crescimento” e “desenvolvimento”. Neste caso, “falar
pode, não pode é fazer” – no caso do lodaçal de corrupção, contudo, a
regra se inverte, daí a implicância com a imprensa, naturalmente.
Antes de ontem pela
manhã, por um destes acidentes da vida, assisti a um trechinho do “Bom
Dia Brasil”, da Rede Globo de Televisão. Os patrocinadores do programa
de entretenimentos e doutrinação travestido de “noticiário” são os
Bancos Bradesco, Itaú e Unibanco (o tal que, de mais simpático que
consegue dizer a seu próprio respeito é que “nem parece banco”).
Naturalmente, estas organizações não patrocinariam um programa que fosse
sincero a respeito do que eles estão fazendo, portanto a gente já
assiste com todas as lâmpadas vermelhas acesas.
Na chamada de uma
reportagem sobre economia – a macumba que esses caras chamam de ciência,
como você percebe e enfatiza de maneira magistral e perspicaz –
repetia-se hipnoticamente o antigo mantra: “o governo gasta muito e
gasta mal”. Enquanto via o pessoal do Cirque de Soleil fazendo
malabarismos para o Bradesco, um imbecil fazendo uma rodinha no ar com
um “i” no meio para encher a bola do Itaú e ouvia uma voz cálida e
simpática dizendo “Unibanco, nem parece banco!” Pensava com meus botões:
será que a Globo vai falar sobre as centenas de bilhões de reais
desperdiçados no sistema bancário face a uma dezena de milhão para
bolsas-esmola? Não... A Globo não falaria isso “sob o patrocínio do
Bradesco, do Itaú e do Unibanco”, ora bolas. Então, segui pensando:
talvez falem do desperdício com a corrupção, os sanguessugas,
mensaleiros, vampiros e quejandos enquanto nossa infraestrutura
terrestre e aeroportuária virou sucata por falta de investimentos. Não
vai ao cerne da questão, mas pelo menos seria uma abordagem honesta...
À direita da
direita, aparece Miriam Leitão, vestida de vermelho, a dizer que os
gastos com “encargos trabalhistas e a previdência social inviabilizam o
crescimento do Brasil.” Para a propaganda dos grandes conglomerados e do
governo a eles obediente, portanto, o que impede ou “trava” o
crescimento do Brasil não é o desperdício com a dívida já paga e jamais
auditada conforme compromisso, não é a especulação voraz em torno das
mais altas taxas de juros do mundo ou os mais elevados e desperdiçados
impostos do planeta; tampouco a corrupção, já devidamente computada e
absorvida pela Rede Globo, pelo respeitável público e pela chamada
“oposição de direita”. O que impede o crescimento do Brasil, segundo
esta propaganda travestida de “análise econômica” é, em última análise,
o trabalho produtivo. Repita-se isso à exaustão em moduladas e variadas
apresentações e estamos conversados com a maioria convencida. O dono da
birosca ali na esquina se queixa: “ah.. professor... Tem de diminuir os
tais encargos trabalhistas mesmo, senão eu não consigo pagar meu
funcionário...” – enquanto nós ficamos nos digladiando por migalhas, o
andar de cima se refestela. A sociedade está sob controle.
O Corte
Internacional
Ontem assisti a um
filme extraordinário de Konstantin Costa-Gavras, chamado “O Corte” (Le
Couperet, título em francês). Para quem imaginava que somente aqui nos
países subdesenvolvidos temos problemas com os tais “ajustes estruturais
macroeconômicos” nome pomposo dado pelo mundo afora a um conjunto de
medidas voltadas a maximizar lucros dos grandes conglomerados a não
importa que custo humano somado a uma propaganda maciça que realmente
“fabrica consenso”, este filme é mesmo emblemático. Assim como os textos
de Chomsky, que descreve as péssimas condições de trabalho nos EUA,
particularmente para trabalhadores não especializados, mulheres, negros,
latinos e asiáticos (cerca de 80% da força de trabalho daquele país).
Algumas notas
A “insidiosa
moléstia” que nós desejamos ver erradicada (dívida/serviço da
dívida, etc.) é o cerne mesmo da enorme lucratividade de quem se incumbe
de nos impingir o modelo de “ajustes estruturais macroeconômicos” por
aqui, como o presidente do Banco Central do Brasil, que representa os
interesses de sua categoria profissional (especuladores e jogadores das
mais diversas espécies). Diga-se o que se disser, não podem sequer
permitir que se procure alguma forma de cura pois vivem da própria
moléstia. Naturalmente, não podem declará-lo pois, na melhor das
hipóteses isto está além de sua consciência possível, na pior, é
desonestidade intelectual mesmo!
Falsas notícias
abundam por aqui (Boa
notícia, mas Falsa). E não é de hoje! Lembro-me que no período
tucano eles fizeram algo parecido: coagiram uma enormidade de estudantes
pelo país afora a irem às salas de aulas (uma das formas de terem acesso
à bolsa-esmola daquele período, tentativa eivada de “boas intenções”,
quiçá...) contudo não se trabalhou um átimo na questão salarial de
professores, na infraestrutura educacional brasileira etc. O resultado
foi uma ligeira melhora na avaliação do Brasil segundo este quesito e,
na prática, a formação de uma geração de analfabetos diplomados. Este
quadro segue piorando muito – embora, naturalmente, a propaganda siga na
direção contrária. Ficamos penalizados com o que pode vir a ser o futuro
desta Nação...
Como sugestão de
pauta, gostaria de conhecer detalhes sobre o tal “crescimento das
exportações”. Desconfio haver algo muito errado nisso. Será que estão
computando as transferências internas de estoques de fábricas
estrangeiras de um país para outro como se fossem “exportações”? Algo
como a fábricas estrangeiras de automotores transferindo peças ou
automóveis montados à matriz a fim de agregar valor e isto acabar sendo
computado como “exportação”? Temos como conferir isso?
Combater a realidade
no gogó é uma prática que o lulo-petismo inaugurou por aqui com raro
sucesso!
Os exemplos que você apresenta são primorosos. A estes acrescento:
_ Por um lado fica o Banco
Central encarregado de garantir (via juros elevados e outras medidas
assim) a enorme lucratividade dos grandes conglomerados, bancos,
jogadores e especuladores em detrimento do trabalho produtivo. No
discurso se combatem “os juros altos”. Não é pra valer, é porque dá
votos e popularidade, claro.
_ O crescimento do PIB sofre
quedas consecutivas em conseqüência da política econômica subserviente e
irresponsável que o Banco Central pratica. No discurso: “nunca antes
neste país as condições para o crescimento foram tão favoráveis...”
_ Os jovens estão ficando cada
vez menos esclarecidos – mesmo os que não completaram sequer a fase de
doutrinação, cerca de 37% – e o discurso, como de hábito: “nunca antes
neste país se fez tanto pela educação...”
_ O Procurador Geral da
República localiza no núcleo duro do lulo-petismo uma quadrilha; o TCU
aponta falcatruas da ordem de 60% de malversação de recursos destinados
a ONG’s diversas. O discurso? “Nunca antes neste país se combateu tanto
a corrupção...”
Concluindo
Enquanto o critério da verdade for o discurso, não a prática e não se
romper com a jaula de ferro deste modelo econômico gestado nas vísceras
dos grandes conglomerados e de espertalhões que lucram com suas
especulações estaremos a caminho de uma situação cada dia mais drástica.
Lázaro Curvêlo Chaves - 15/11/2006