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Estranhamento, capitalismo e moral

 

A Vida pelo Vídeo

 

            A Televisão – como muitas das criações culturais humanas – é uma arma poderosíssima em amplos sentidos. Já se disse, não sem razão, que há muito de realidade nas novelas e muita ficção nos noticiários. Interessante como novelas globais ambientadas, por exemplo, em décadas passadas celebram precisamente as mesmas festas que estamos celebrando hoje. Há não muito tempo acompanhei uns capítulos de uma novela da Globo tangenciando a temática da reencarnação com personagens caricatos, que se prolongou por muitos meses, como normalmente acontece. Eles celebraram o Natal quando o mundo que nos parece real também o fazia, tal se repetindo na virada do ano (na novela penso que era 1934 para 1935; nós virávamos de 2004 para 2005...); a exibição de cenas do carnaval da década de 30 coincidiu com o carnaval do século XXI e assim por diante. Mantém-se o espectador numa ambiência de fantasia que fica bem próxima de seu cotidiano, simplificando o processo de transmissão das mensagens subliminares em termos de valores morais e políticos.

            Este tema precisa ser aprofundado – e o farei oportunamente, mas fica aqui um convite à reflexão.

            Recordo-me de uma charge do Garfield publicada há alguns anos na Folha, que era mais ou menos assim: Garfield sentado na poltrona da sala assistindo TV. O John (um sujeito meio idiota que se considera dono do bichano) chega perto e pergunta: “O que está assistindo?” – e o Garfield responde: “Sei lá!” John, sempre muito chato, insiste: “Qual o enredo?” e o Garfield já começando a se irritar retruca: “Não sei, pô!”. John continua chato como sempre e prossegue: “Mas é futebol, novela, noticiário, filme... O que é?” Neste ponto Garfield se levanta da poltrona, pega o John pelo colarinho e esbraveja (ou o equivalente felino em caricatura desse tipo de atitude): “Pare de me fazer pensar! Estou assistindo televisão!”

            Fica-se por vezes tão entorpecido que se alguém ousa interromper o que não estamos prestando atenção para saber de que se trata, normalmente nos irritamos.

            Pessoalmente gosto de assistir documentários, TV Senado, alguns filmes (ainda não tenho TV a cabo ou satélite e os filmes da TV aberta são dublados, o que obriga a uma seleção rigorosa) e entrevistas... Mas prestando atenção e com um senso crítico aguçadíssimo. Por outro lado, eu mesmo já me peguei trabalhando ao computador com a TV ligada no Senado sem ter a menor idéia do que estavam discutindo. Temos de focar nossa atenção. Assim como não podemos ler livros andando de bicicleta, assistir TV sem prestar atenção é perigoso para o espírito. Distrai e destrói.

            Mas é precisamente essa a atitude da maior parte dos telespectadores: passiva, não crítica e muito menos reflexiva! A maior parte da população do Brasil ainda não tem acesso à TV por assinatura e já se está trabalhando em torno da implantação da TV Digital (o modelo Europeu, meu predileto, está praticamente fora das cogitações governamentais e empresariais, estão escolhendo miseravelmente entre o modelo japonês e o estadunidense. Para poder assistir coisas na tela do telefone celular. Saudades de um tempo em que telefone era para falar – breve, só combinar o encontro pessoal e ponto final. Hoje ele tira fotos, faz agenda, toca musiquinhas e filminhos... Frequentemente só falta falar! Êh... Parêntese comprido, sô!). Distração. É só no que se pensa (será mesmo que se pensa?) quando a questão é televisão.

            Alienação é estranhamento. Palavra derivada do latim alien – estranho. A frase predileta de Marx entre as citações latinas era aquela de Públio Terêncio Afer: “Homo sum: humani nihil a me alienum puto” – “Sou homem e nada do que é humano me será estranho”. O mundo burguês se tornou estranho a nossos desejos, sentimentos e sensações. Tornou o trabalhador alienado do processo de produção – traduzindo: o cara não tem noção do que faz, por exemplo, na linha de montagem de uma fábrica: um torce parafusos, outro embala produtos, outro aperta botões e não é raro que o trabalhador (além de não possuir nada daquilo que está usando como ferramentas ou produtos; mesmo o uniforme que usa frequentemente pertence à empresa...) não tenha rendimento suficiente para sequer poder comprar o que está produzindo. Se tornou estranho para ele. Trabalha em troca de um pagamento mensal e dá graças a Deus – se ainda crê – quando não sobra muito mês no final do salário....

Capitalismo e moral

 

 

“Que ninguém seja tão pobre que precise vender-se e ninguém tão rico que possa comprar a outrem”.  - Jean-Jacques Rousseau

 

            De vez em quando precisamos enfatizar os motivos que nos levam a condenar o Capitalismo. Acima de tudo por sermos cristãos. Não toleramos que poucos usufruam dos frutos do trabalho de muitos.

            Houve um tempo em que esquerda e direita, socialistas e fascistas concordavam em um ponto: “quem não trabalha não tem o direito de comer!” A extrema esquerda jamais concordou com esta assertiva, os Anarquistas percebiam com clareza a crueldade desta assertiva dentro de um quadro de desemprego e a denunciavam como um adágio reacionário.

            Aliás, cabe informar que eu me conto entre os que consideram haver direita e esquerda em política, sim, pois hoje em dia encontra-se os conservadores que, em nome de uma embromação qualquer preferem dizer “não existe mais esse negócio de direita e esquerda, não...” Conversa que só serve para manter as coisas como estão.

Se você está satisfeito com as coisas como estão, ou seja, com a concentração de renda trazendo violência inaudita ao nosso mundo, com milhões de seres humanos empobrecidos, espoliados, com medo do desemprego, da miséria e mesmo da fome e outro tanto de seres, também humanos, com medo daqueles que estão na miséria material, espiritual, moral (causada pelo próprio sistema capitalista, por sinal) mantenha seu apoio ao capitalismo – “internacional” ou “globalizado” por definição.

É imoral que o Estado defenda grandes empresas e abandone o trabalhador, o cidadão comum, a seu próprio destino. É imoral que grupetos rapinantes tomem conta da máquina estatal para dá-la de presente a mercadores internacionais em detrimento do ser humano, como aconteceu no Brasil na “década maldita”. Por isso o neoliberalismo sofre este refluxo. Não resolve, pelo contrário, agrava os problemas da maioria dos seres humanos.

Até por isso, pessoalmente prefiro o caminho da condenação moral. O capitalismo é um sistema político e econômico que se fundamenta no mercado, não na produção. E o que é o Mercado? O que faz o Mercador? Compra coisas a preços baixos (ou as “consegue” de modos ainda menos confessáveis...) e vende mais caro. Isso não pode ser considerado “trabalho”! Não há benemerência, não há consideração de cunho humanitário alguma; há somente a água fria do cálculo egoísta. “Compro por ‘x’ e vendo por ‘2x’”, eis o resumo do pensamento do mercador. O sistema de distribuição do mercado é péssimo! Não foi pensado para servir ao ser humano, mas para servir-se do humano. É VITAL inverter esta equação se quisermos ver a humana espécie chegar a algum lugar neste mundão de meu Deus.

Tem valor sobretudo o camponês, responsável pela produção do que comemos, do que vestimos, do que usamos em nossas vidas cotidianas. Têm valor aqueles que ensinam, aqueles que aprendem, aqueles que PRODUZEM coisas (materiais ou imateriais, como o saber). Aqueles que somente trocam coisas são puro lixo. Um lixo muitas vezes cheiroso e perfumado, mas não passam de lixo humano. Um lixo humano que controla o mundo há uns 500 anos, mas como não era assim antes, nada indica que será assim no Futuro, pelo contrário! Este sistema está chegando a tal esgotamento que surpreende a sua durabilidade...

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 15/06/2006


 

 

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