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O Anjo da História

"Onde aparece para nós uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que continua a amontoar destroços sobre destroços e os arroja a seus pés. O anjo gostaria de se deter, despertar os mortos e reunir o que foi despedaçado, mas está soprando uma tempestade no paraíso que o impele irresistivelmente para o futuro a que volta suas costas, enquanto à sua frente o monte de ruínas cresce em direção ao céu. O que chamamos de "Progresso" é justamente esta tempestade" Walter Benjamin

Angelus Novus - Paul Klee (Clique sobre a figura para vê-la ampliada)

Angelus Novus - Paul Klee

    Dialogando com alguns amigos médicos, gente da mais elevada eticidade em tudo o que faz, seres humanos que têm muito de anjo, auxiliadores dos próximos, agentes ou lutadores pela cura, pela felicidade das pessoas, percebo o quanto de afinidades e similitudes existem entre nossas profissões: médicos e professores, que lidam com o humano, não com a materialidade mercadológica, têm em geral vida muito difícil, são muito maltratados pelos donos do Capital.

    Filósofo, amante do saber, sinto falta de maiores conhecimentos acerca do funcionamento orgânico do ser humano em determinadas circunstâncias. Os médicos, por seu lado, também buscam conhecer mais acerca das mais diversas maneiras de ver o mundo que as pessoas têm tido ao longo dos séculos e, quando dialogamos, percebemos claramente as convergências, por assim dizer, de Hipócrates até Fritjof Capra.

    Um dos pontos mais polêmicos do que temos visto, eu e alguns amigos humanistas, envolve justamente a questão do progressismo vago, sem finalidades humanas. Todos aplaudem os avanços tecnológicos, poucos param para pensar no elevadíssimo preço humano pago para se chegar a tais conquistas...

    Quando Walter Benjamin analisou o Angelus Novus, tela de Paul Klee retratada na epígrafe a estas linhas - ressalvando-se que toda e qualquer pessoa que se dê ao trabalho de observar acuradamente uma dada pintura terá uma visão diferente - imediatamente seus próprios companheiros, marxistas apontavam falhas numa análise considerada "não dialética": "Como? De costas para o futuro? Está politicamente errado!" Correção ou incorreção política, por sinal, é o que menos deveria contar na análise de uma Obra de Arte, convenhamos! O artista tem de ser livre de qualquer ingerência estranha ao seu campo de atuação ou genialidade. Pelo menos isso a humanidade deveria ter aprendido com as tentativas autoritárias, por exemplo, de Hitler à direita e de Stálin à esquerda, tentarem implementar uma forma qualquer de arte "politicamente correta" do ponto de vista do Estado forte. Arte é arte. Assim como a Cultura deve ter sua esfera própria e independente. Política é outra coisa, por favor!

    Mas especificamente no quadro analisado, as duas esferas se entrechocam, instigando o pensamento crítico: O progresso invade lares, desagrega famílias, transforma e transtorna a sociedade, traz desemprego, polui, chacoalha, mói e tortura os humanos e ainda é aplaudido em programas populistas e popularescos da mídia (também fruto ou produto do "progresso"). Neste sentido, compreende-se o anjo, face torturada, observando a pilha de escombros a acumular-se à sua frente sem que nada possa fazer a respeito simplesmente por causa da "tempestade" chamada progresso. Basta! Ver o quadro, ler a respeito em Benjamin, faz com que tenhamos ganas de travar, sabotar ( como os franceses faziam no início da Revolução Industrial: meter o sabout no meio das engrenagens das máquinas frias!), paralisar o progresso para salvar o humano perdido na tempestade. Aí já se começa a ingressar no campo da política e a incomodar os cultores do progressismo, tanto à esquerda quanto à direita quando bradamos indignados: "Mais humanidade e menos progresso! Que a máquina sirva ao humano, não mais servindo-se dele!"

Você encontra uma abordagem mais aprofundada desta questão na Obra:

Rua de Mão Única - - WALTER BENJAMIN

Conheça Walter Benjamin:

Walter Benjamin : O Marxismo da Melancolia LEANDRO KONDER

 

 

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