Instituto de Pesquisas Sociais Euclides da Cunha
Aumenta a dívida e(x)terna brasileira e PT joga no esgoto sua antiga aura de pureza éticaDurante os meses de janeiro e fevereiro as cenas se repetem: as águas invadem casas, enchem ruas, causam mortes. Famílias, desesperadas, vêem-se do dia para noite sem nada. O pouco que acumularam com tanto esforço perde-se na lama.
O presidente Lula, depois de visitar três estados, declarou em Brasília que “sente pena dos prefeitos quando dá um trovão”, saindo em defesa da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e dos demais prefeitos do país. Ele disse também que “não existe poder ainda para a humanidade controlar a força da natureza”.
Mas a culpa pela tragédia das enchentes nas grandes cidades, especialmente nas periferias, não é da “força incontrolável” da natureza. Faltam serviços essenciais de saneamento, não há investimentos suficientes em sistemas de drenagem e nenhuma política de reforma urbana que ataque a especulação imobiliária e garanta moradia digna, fora de áreas de risco para a população pobre.
E isso é culpa dos sucessivos governos municipais, estaduais e, principalmente, do governo federal, que num ato de completa irresponsabilidade social, continuam drenando o grosso de sua arrecadação para pagamento de juros e parcelas da dívida externa aos banqueiros.
Em 2003, os juros pagos aos banqueiros pelas esferas federal, estadual, municipal e empresas estatais foram de 145,2 bilhões de reais.
Apenas o governo federal destinou nada menos que 132,5 bilhões ao pagamento da dívida, enquanto destinou a todas as áreas sociais existentes, incluindo saúde e educação, 70,8 bilhões de reais. Além dos baixos montantes programados, estes não foram aplicados em sua totalidade. Áreas como urbanismo, habitação, saneamento e gestão ambiental, que deveriam prevenir as enchentes, receberam menos de 40% das verbas programadas.
O governo Lula está pagando mais juros aos banqueiros do que FHC!
Não bastasse se comprometer com o FMI a realizar um superávit primário (economia para pagamento de juros) de 4,25% do PIB, superior ao de FHC, Lula economizou ainda mais dinheiro para pagar a dívida: 66 bilhões, ou 4,32% do PIB.
Mas toda essa “economia” não foi suficiente para pagar sequer metade dos juros. Faltaram 79 bilhões de reais, pagos com novos empréstimos, o que, por sua vez, aumentou a dívida...
A Economia e os mercados vão muito bem, o povo vai de mal a pior...
O governo e a televisão não se cansaram de comemorar, neste início de ano, as “boas notícias” na área da economia: queda do risco país, subida da bolsa de valores, aumento das exportações. Comemoraram também as “reformas” da Previdência e a Tributária, como vitórias que levariam o Brasil ao “espetáculo do crescimento” – com maior justiça se falaria em “espetáculo da desigualdade”, mormente porque todos esses indicadores que o governo Lula tem comemorado – conforme antecipei neste mesmo espaço semana que passou – são financeiros e indicam a saúde dos ricos, dos grandes capitalistas nacionais e estrangeiros, daquele 1% da população que abocanha uma fatia da renda nacional em muito maior do que aquela ganha pelos 50% mais pobres...
A economia dos ricos, deste país, menos de 1% da população, vai muito bem. Já a dos trabalhadores vai de mal a pior. Não há um único indicador social a comemorar!
O desemprego atingiu, no final do ano passado, sua maior taxa. Ainda segundo o Dieese/Seade, o desemprego atingiu 19,9%, constituindo-se no maior índice de toda a História do Brasil! Apenas na região metropolitana de São Paulo, estima-se que 1,94 milhão de trabalhadores estejam desempregados.
Os salários e a renda da classe trabalhadora têm vivido um processo de queda ininterrupta. Desde 1998, sempre segundo o IBGE, a renda dos trabalhadores ocupados encolheu 30%. No ano passado caiu 6,4% em 13,3% nos informais. Ainda segundo o IBGE, só na indústria a queda foi de 5,3%.
O trabalho precário ou informal (sem direitos) cresceu ao ponto de atingir, hoje, 58,1% dos trabalhadores ocupados, ou 38,1 milhões de pessoas.
Sendo que, em 2003, cresceu em 42,5% o contingente de trabalhadores sub-ocupados. Sem falar da situação de permanente sucateamento da educação, saúde e demais serviços públicos, que vêm sendo desmontados e privatizados.
A Estranha ética do PT
Como disse, com muita propriedade, o jornalista Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo, em síntese: as mudanças econômicas ativeram-se à promessa, a política social não se sustenta mais sequer no discurso diante da realidade cruel em que mergulha a maior parte dos nossos compatriotas. Agora, com o rumoroso caso de um cidadão, assessor direto de José Dirceu, que é o “Capitão da Equipe” de Lula, foi pilhado cobrando propina de bicheiros e traficando influência com vistas a “angariar fundos” para as diversas campanhas petistas – de novo, como eu já havia mencionado semana passada, cabe fiscalizar muito de perto mesmo de onde virá tanto dinheiro para as campanhas petistas este ano! Enfim, subornam e intimidam o Congresso para evitar a implantação de um CPI para investigar os fatos com as mesmas desculpas usadas anteriormente pelo Collor de Mello, deixando no ar a dúvida: será que o sr. Waldomiro Diniz é o equivalente ao PC Farias do governo Lula? O partido mais interessado nesta CPI deveria ser o PT, para provar que não deve nada. Ao comprar consciências para evitar a CPI o desgaste do Partido será muito maior, com reflexos profundos em todas as eleições municipais deste ano.
Com este último episódio o Partido (dito) dos Trabalhadores renuncia ao pouco que lhe restava, “o patrimônio simbólico do petismo”, que era a sua imagem ética. O PT agora é um partido como os outros, imoral, fisiológico, corrupto, mentiroso e entreguista.
É com muita dor no coração que escrevo estas linhas, membro-fundador do Partido da Esperança, como fui... Já encaminhei ao Exmo. Sr. presidente do diretório municipal o PT meu pedido formal de afastamento. Estou sem partido novamente. Desta vez por minha própria escolha, por vergonha de pertencer aos quadros de um partido com estas características que o PT – no poder – adotou...
Eleições
Este ano se decidirá como ficará a economia brasileira a partir do próximo ano: taxas de juros, superávit primário, desemprego ou subemprego como medida de contenção inflacionária. E o mais interessante é que a gente nem vai precisar sair de casa para isso. A decisão ocorrerá nos EUA, pelos patrões destes lacaios do capital multinacional que ocuparam o Planalto...
O que se fez e o que se poderia fazer com R$ 145 bilhões?
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