
Pesquisa personalizada
|
|
|
O Estado: Alienação e Natureza Mikhail Bakunin
“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a Natureza Humana”
Mikhail Bakunin ( 1814 – 1876) O Estado, como já disse, é, pelo seu próprio princípio: um imenso cemitério onde vêm sacrificar-se, morrer enterrar-se todas as manifestações da vida individual e local, todos os interesses parciais de cujo conjunto deriva a sociedade. É o altar onde a liberdade real e o bem-estar dos povos são imolados à grandeza política e quanto mais esta imolação é completa, tanto mais o Estado é perfeito. Há a convicção de que o Estado cem por cento por excelência, sem retórica, se frases, e, por isso, o mais perfeito Estado da Europa, é o Império Russo. Todos os Estados onde os povos podem ainda respirar são, do ponto de vista de ideal do Estado, incompletos, como são todas as Igrejas em comparação com a Igreja Católica. O Estado é uma abstração devoradora da vida popular, disse já eu; mas para que uma abstração possa nascer, desenvolver-se e continuar a existir no mundo real, é preciso que haja um "corpo" coletivo real que esteja interessado na sua existência. Este, não pode ser constituído pelas massas populares, dado que são elas exatamente suas vítimas; tal corpo deverá ser constituído, isto sim, por pessoas privilegiadas, o corpo sacerdotal do Estado, a classe que possui e governa que é, no Estado, o que são os sacerdotes e os padres da religião na Igreja. Com efeito, que vemos em toda a história? O Estado foi sempre patrimônio de qualquer classe privilegiada: classe sacerdotal, nobiliárquica, classe burguesa - classe burocrática finalmente - quando todas as outras se esgotaram a si próprias como classes privilegiadas. O Estado, ergue-se ou cai, quase como uma máquina, mas o fundamental é que, para sua salvação e existência, haja sempre qualquer classe social privilegiada que se interesse pela existência e é precisamente o interesse desta classe privilefiada que se costuma chamar de *patriotismo*. É evidente, que todos os interesses pessoais e "pretendidos" do conjunto social que o Estado está "encarregado" de representar não são, na verdade, mais do que a negação, geral e permanente, dos reais interesses positivos das regiões, das comunas, das associações que, por serem grandes conjuntos humanos subordinados ao Estado, lhe conferem a categoria abstrata na aparência fictícia da justiça, dado que o Estado é de fato, um gigantesco cemitério onde, à sombra e tomando como pretexto justamente esta abstração, todas as melhores aspirações e todas as forças vivas dos países são imoladas e enxovalhadas. E, como as abstra- ções não existem nem nelas próprias nem para outrem, mas apenas e só para elas, visto que não tem nem mãos para criar, nem pés para caminhar, nem estômago para digerir esta massa de vítimas que vêm junto dela para se fazerem devorar, é claro que, do mesmo modo que a abstração religiosa e celestial de Deus representa, na realidade, os interesses muito positivos e reais do clero que é também o complemento terrestre de Deus, do mesmo modo também a abstração política do Estado representa os interesses não menos positivos e reais da burguesia que é agora a principal, se não a única classe exploradora... A propriedade do Estado é a miséria da nação real, do povo; a grandeza e o poderio do Estado resultam da escravidão do povo. O povo é, de resto, o inimigo natural e legítimo do estado; e como ele se submete, o que aliás acontece muitas vezes, às autoridades, todo o "poder" se lhe torna odioso. O Estado não é Pátria: é a abstração, a ficção metafísica, jurídica, mística e política da Pátria. As massas populares de todos os países amam, profundamente, a sua pátria, mas este amor é natural, real. O patriotismo do povo não é uma idéia mas um fato; o patriotismo político, o amor ao Estado, não é a expressão concreta e adequada deste fato, mas a sua expressão desnaturada por intermédio de uma abstração da qual é de desconfiar e sempre em proveito de uma minoria exploradora. A Pátria, a nacionalidade como individualidade é um fato natural e nacional, fisiológico e histórico simultaneamente e, por isso, não é um princípio abstrato e idealizado; não se pode chamar um princípio humano senão àquilo que é universal e, portanto, comum a todos os homens, mas, neste caso, a nacionalidade separa-os: a pátria não é portanto um princípio. O que é princípio é sim, por outro lado, o respeito que cada um deve ter pelos naturais, reais ou sociais; ora a nacionalidade, é um destes fatos, por ser individualidade e nós devemos respeitá-la. Violá-la é criminoso e, para falar a linguagem de Mazinni, ela torna-se um princípio sagrado de cada vez que é violada ou ameaçada e é por isto que me sinto, francamente e sempre, o patriota entre os patriotas oprimidos. A Pátria representa o direito incontestável e sagrado de todos os homens, de todo o grupo humano, associações, comunas, regiões, nações, etc., de sentir, pensar, de querer e de agir à sua maneira e esta maneira é, sempre, o resultado incontestável de um longo desenvolvimento histórico. Inclinamo-nos, assim, perante a tradição e perante a história, ou melhor dizendo, reconhecêmo-las, não porque as entendamos como sendo bandeiras abstratas, metafisicamente erguidas e suportadas jurídica e politicamente por sábios e intérpretes do passado, mas apenas e somente porque elas passaram de fato, para a carne e para o sangue, nos pensamentos e nas vontades reais, das atuais populações.
|
||
|
Que é portanto o estado? É, respondem-nos os metafísicos e doutores em direito, a coisa
pública; os interesses, o bem coletivo e o direito de toda a gente, opostos, jurídica e
politicamente, `ação dissolvente dos interesses e das paixões egoístas de cada um. É
a justiça e a realização da moral e da virtude sobre a terra e, por conseqüência,
não há ato mais sublime nem maior dever para os indivíduos do que devotarem-se,
sacrificarem-se e mesmo morrer pelo triunfo e poderio de Estado. Eis em poucas palavras a
Teologia do estado. Vejamos agora se esta Teologia política, do mesmo modo que a
religiosa, não esconde, sob as suas belas e muito políticas aparências, muito comuns e
muito "lamacentas" paixões e interesses. Vimos atrás o que chamamos de
teologia política do Estado. Analisamos primeiramente a própria idéia de Estado tal
como ela é apresentada por seus teóricos e defensores. É o sacrifício da liberdade
natural e dos interesses de cada um, quer dos indivíduos quer ainda das unidades
coletivas comparativamente pequenas (comunas, associações e províncias) aos interesses
e à libertação de toda a gente, à propriedade do grande conjunto de toda a sociedade.
Mas esta "toda a gente" e este "grande conjunto" o que são na
realidade? É a aglomeração de todos os indivíduos e de todas as coletividades mais
restritas que a compõe. Mas desde o instante em que, para formar esse "grande
conjunto" e para coordenar aí os interesses individuais e locais, para os
sacrificar, então, desde este instante, de que se trata? Já não é o conjunto vivo que
ao deixar "respirar" cada um à sua vontade, e se torna, por essa via, mais
fecundo, mais livre e poderoso quanto mais se desenvolvem no seu seio a plena liberdade e
prosperidade de cada um; já não é a sociedade humana natural, que confirma e aumenta a
vida de cada um pela vida de todos, é, pelo contrário, a imolação de cada indivíduo
como de todas as formas associativas locais, à abstração destrutiva da sociedade viva,
a limitação ou, para melhor dizer, a completa negação da vida e dos direitos de todas
as partes que constituem esse "toda a gente" para que se realize o apregoado bem
de todo o mundo; isso é o Estado, é o altar da religião política sobre a qual é
imolada, sempre, a sociedade natural... Outros trabalhos anarquistas: Conheça os princípios éticos norteadores dos anarquistas! Conheça uma experiência anarquista no Brasil - COLÔNIA CECÍLIA O Estado é a negação da humanidade, a negação da Natureza! - Mikhail Bakunin
Leia ainda: A Alma do Homem sob o Socialismo e Escritos do Cárcere - OSCAR WILDE Desobediência Civil - Henry Thoureau
Por uma Arte Revolucionária Independente ANDRE BRETON LEON TROTSKI
|
||
|
© Copyleft LCC Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação do Autor e da fonte e esta nota seja incluída. Contato |