Bhagavad Gita
A
epopéia Mahâbhârata, de que faz parte o Bhagavad-Gîtâ, foi compilada na
forma atual entre os séculos 5 e 1 a.C.
A epopéia se reporta à grande Índia de outrora,
unificada política e culturalmente, estendendo-se do Himalaia ao cabo Camorim.
Os kurus formavam um importante kula
(clã) dessa época. Quando seu rei Dhritarâshtra, o rei cego, envelheceu, decidiu
ceder o trono, não a seu filho Duryôdhana, mas ao primogênito de seu irmão Pându,
Yudishtira; pois Duryôdhana, dado ao mal, não era digno de governar. Mas
Duryôdhana apoderou-se do trono através de intrigas e traições e tratou de
tentar liquidar Yudishtira e seus quatro irmãos.
Krishna, o Deus encarnado, chefe do clã Yâdava,
amigo e parente dos kurus, tentou reconciliar os dois partidos, reclamando para
os príncipes pândavas apenas cinco cidades. Duryôdhana recusou-se a entregar sem
luta a menor parcela de terra. Tornou-se então necessário combater pela justiça
e pelo direito. Todos os príncipes da Índia tomaram um ou outro partido.
Krishna, imparcial, ofereceu uma escolha aos dois partidos: Duryôdhana escolheu
ter aos seu lado todo o exército de Krishna, enquanto que o próprio Krishna,
sozinho, passou para o outro campo, não como guerreiro, mas como simples
condutor do carro de Arjuna.
Drôna, que instruíra os kurus e os pândavas na
arte militar, tomou o partido de Duryôdhana, porque seu velho inimigo Drupada
escolhera o outro campo. Bhîshma, tio-avô dos príncipes kuravas e pândavas, o
homem que sempre vivera em castidade e era o homem mais forte de seu tempo, era
o chefe do partido que tentara reconciliar kurus e pândavas. Quando fracassaram
as tentativas pacíficas e a guerra tornou-se inevitável, ele decidiu, depois de
examinar escrupulosamente seus deveres e sua obrigação, tomar o partido de
Duryôdhana. Sabia que este estava errado e se a batalha envolvesse apenas os
dois ramos da mesma família, teria permanecido neutro; mas quando viu que todos
os antigos inimigos dos kurus estavam se aliando aos pândavas, decidiu lutar
apenas dez dias ao lado de Duryôdhana e depois se retirar para uma morte
voluntária (obtida por meios não violentos).
Do ponto de vista estritamente militar, o
exército de Duryôdhana era claramente superior ao de seu adversário. Mas esta
superioridade era compensada pela presença de Krishna no campo oposto.
Sanjaya, o condutor do carro do velho rei
Dhritarâshtra, relata-lhe o que aconteceu no campo de Kurukshetra, onde os dois
exércitos se reuniram para uma luta sem precedentes na história da antiga Índia.
É então que começa o Bhagavad-Gîtâ, o
Canto Divino, assim chamado por conter as palavras de Krishna, a divindade
encarnada, e por ensinar o homem a elevar-se acima da consciência humana, até
uma consciência divina superior, realizando desta forma na Terra o reinado dos
céus.
Canto I
IGNORÂNCIA E SOFRIMENTO DE ARJUNA
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Fala Krishna:
25. Eis aí reunidos os parentes dos
Kurus!
Fala Sanjaya (o narrador):
26. Então viu Arjuna, nos dois
exércitos, homens ligados a ele pelos vínculos do sangue: pais,
avós, mestres, primos, filhos, netos, sogros, colegas e outros
amigos - todos armados em guerra contra ele:
27. Com o coração dilacerado de dor
e profundamente condoído, assim falou ele:
Fala Arjuna:
28. Ó Krishna! Ao reconhecer como
meus parentes todos esses homens, que devo matar, sinto os meus
membros paralisados, a língua ressequida no paladar, o coração a
tremer e os cabelos eriçados na cabeça... Falha a força do meu
braço... Cai-me por terra o arco que tendera...
29. Mal me tenho em pé... Ardem-me
em febre os membros... Confusos estão os meus pensamentos... A
própria vida parece fugir de mim...
30. Nada enxergo diante de mim
senão dores e ais... Que bem resultaria daí, ó Keshava (um dos
muitos apelidos de Krishna), se eu trucidasse os meus parentes?
31. Não, Krishna, não quero vencer.
Não quero, deste modo, conquistar soberania e glória, riqueza e
prazer.
32. Ó Govinda, como poderia
semelhante vitória dar-me satisfação? Como me compensariam esses
espólios da perda que sofreria? E que gozo teria ainda a minha vida,
se a possuísse pelo preço do sangue dos únicos que me são caros, e
sem os quais a vida me seria sem valor?
33. Avós, pais e filhos, aqui os
vejo. Mestres, amigos, cunhados, parentes - não, não os quero matar,
ó Senhor dos mundos! Nem que eles anseiem por derramar o meu sangue.
34. Não os matarei, Madhusudana,
ainda que com isto lograsse domínios sobre os três mundos - menos
ainda me seduz a posse da terra.
35. Dores somente me caberiam por
semelhante mortandade.
36. Mesmo que os filhos dos
Dhritarashtras sejam pecadores, sobre nossa cabeça recairia a culpa,
se os matássemos. Não, não é lícito matá-los. E como poderíamos ser
felizes, sem os nossos parentes, ó Madhava?
37. E se eles, obsedados de cobiça
e cólera, não vêem pecado na rebeldia e no sangue derramado,
38. Como poderíamos nós fazer o
mesmo, ó Santo? Nós que vemos pecado em matarmos nossos parentes?
39. Quando uma tribo se corrompe,
perece a piedade, e com ela perece o povo - a impiedade é
contagiosa!
40. Corrompe a mulher, mesclando o
puro com o impuro, e abre-se o inferno ao destruído e ao destruidor.
41. Até as divindades, privadas dos
sacrifícios, tombam dos céus.
42. E essa mescla de puros com
impuros produz a ruína das famílias.
43. E o destino do destruidor é o
inferno, consoante as escrituras.
44. Ai, que desgraça seria se
trucidássemos nossos parentes, levados pela ambição do poder!
45. Bem melhor seria se nos
rendêssemos aos inimigos armados e nos deixássemos matar na luta,
sem armas nem defesa.
Assim dizendo, em pleno campo de
batalha, deixou-se Arjuna tombar no assento da carruagem, e das mãos
lhe caíram arco e flechas, porque trazia o coração repleto de
amargura. |
Canto II
REVELAÇÃO DA VERDADE
|
Fala Sanjaya:
1. A ele, que estava repleto de
amargura e com os olhos cheios de lágrimas, dirigiu-se Madhusudana e
o consolou com as seguintes palavras:
Fala Krishna:
2. Neste momento decisivo, ó
Arjuna, por que te entregas a semelhante desânimo, indigno de um
Ariano e que te fecha os céus?
3. Não cedas à fraqueza, que de
nada serve. Enche-te de coragem contra teus inimigos e sê o que
realmente és!
Fala Arjuna:
4. Mas, como posso lutar, ó
Madhusudana, e lançar flechas contra Bhisma e Drohna, que ambos
merecem reverência e simpatia?
5. Bem melhor seria comer pão
mendigado neste mundo do que trucidar esses grandes chefes. E, se os
matasse, manchado de sangue, que seriam toda minha riqueza e os
prazeres da Terra?
6. Melhor seria sucumbir às mãos
deles, donde deriva gozo e felicidade, do que matá-los, a esses, sem
os quais não teria fim o vácuo da minha vida.
7. Com a alma repleta de temor e
compaixão, eu te suplico, Senhor, faze-me saber qual o caminho
certo. Eu, teu discípulo, me refugio a Tí para saber o que devo
fazer e deixar de fazer.
8. De que me serviria um reino
próspero, se não me libertar da culpa? De que me serve possuir o
mundo, se os que amo não mais existem?
Fala Sanjaya:
9. Assim falava Arjuna ao Senhor
dos corações. "Não, não quero lutar!", suspirou - e calou-se.
10. Krishna, porém, sorrindo
benevolamente, ali mesmo, em face dos dois exércitos, assim falou ao
desanimado:
Fala Krishna:
11. Andas triste por algo que
tristeza não merece - e tuas palavras carecem de sabedoria. O sábio,
porém, não se entristece com nada, nem por causa dos mortos nem por
causa dos vivos.
12. Nunca houve tempo em que eu não
existisse, nem tu, nem algum desses príncipes - nem jamais haverá
tempo em que algum de nós deixe de existir em seu Ser real.
13. O verdadeiro Ser vive sempre.
Assim como a alma incorporada experimenta infância, maturidade e
velhice dentro do mesmo corpo, assim passa também de corpo a corpo -
sabem os iluminados e não se entristecem.
14. Quando os sentidos estão
identificados com objetos sensórios, experimentam sensações de calor
e de frio, de prazer e de sofrimento - estas coisas vêm e vão; são
temporárias por sua própria natureza. Suporta-as com paciência!
15. Mas quem permanece sereno e
imperturbável no meio do prazer e do sofrimento, somente esse é que
atinge a imortalidade.
16. O que é irreal não existe, e o
que é real nunca deixa de existir. Os videntes da Verdade
compreendem a íntima natureza tanto disto como daquilo, a diferença
entre o ser e o parecer.
17. Compreende como certo, ó
Arjuna, que indestrutível é aquilo que permeia o Universo todo;
ninguém pode destruir o que é imperecível, a Realidade.
18. Perecíveis são os corpos, esses
templos do espírito - eterna, indestrutível, infinita é a alma que
neles habita. Por isto, ó Arjuna, luta!
19. Quem pensa que a Alma, o Eu,
que mata, ou o Eu que morre, não conhece a Verdade. O Eu não pode
matar nem morrer.
20. O Eu nunca nasceu nem jamais
morrerá. E uma vez que existe, nunca deixará de existir. Sem
nascimento, sem morte, imutável, eterno - sempre ele mesmo é o Eu, a
alma. Não é destruído com a destruição do corpo (material).
21. Quem sabe que a alma de tudo é
indestrutível e eterna, sem nascimento nem morte, sabe que a
essência não pode morrer, ainda que as formas pereçam.
22. Assim como o homem se despoja
de uma roupa gasta e veste roupa nova, assim também a alma
incorporada se despoja de corpos gastos e veste corpos novos.
23. Armas não ferem o Eu, fogo não
o queima, águas não o molham, ventos não o ressecam.
24. O Eu não pode ser ferido nem
queimado; não pode ser molhado nem ressecado - ele é imortal; não se
move nem é movido, e permeia todas as coisas - o Eu é eterno.
25. Para além dos sentidos, para
além da mente, para além dos efeitos da dualidade habita o Eu. Pelo
que, sabendo que tal é o Eu, por que te entregas à tristeza ó
Arjuna?
26. Se o ego está sujeito às
vicissitudes de nascer e morrer, nem por isto deves entristecer-te,
ó Arjuna.
27. Inevitável é a morte para os
que nascem; todo morrer é um nascer - pelo que, não deves
entristecer-te por causa do inevitável.
28. Imanifesto é o princípio dos
sêres; manifesto o seu estado intermediário; e imanifesto é também o
seu estado final. Por isto, ó Arjuna, que motivo há para a tristeza?
29. Alguns conhecem o Eu como
glorioso; alguns falam dele como glorioso; outros ouvem falar dele
como glorioso; e outros, embora ouçam, nada compreendem.
30. Eterno e indestrutível é o Eu,
que está sempre presente em cada ser. Por isto, ó Arjuna, não te
entristeças com coisa alguma.
31. De mais a mais, visando o teu
próprio dever, não vaciles, porquanto, para um príncipe da classe
dos guerreiros, nada é superior à uma guerra justa.
32. Felizes deveras são os
guerreiros chamados a lutar numa batalha dessa natureza, que lhes
vem espontaneamente como uma porta aberta para os céus.
33. Mas, se você se negar a cumprir
o seu dever de combater nesta luta, incorrerá em pecado e perderá
para sempre sua fama de guerreiro.
34. Todos irão comentar sua infame
conduta e para quem se respeita, desonra é pior que a morte.
35. Todos estes generais que lhe
têm em alta conta, por seu nome e sua fama, certamente irão pensar
que foi somente por medo que você não quis lutar.
36. Todos seus inimigos falarão mal
de você, demonstrando menosprêzo pelas suas qualidades. O que
poderia ser mais doloroso que isso?
37. Ó bravo filho de Kunti, ou você
morre na luta e vai viver outra vida nos mundos celestiais ou, se
vencer, você vive para gozar nesta Terra. Por isso, lute com fé.
38. Lute apenas por lutar sem
pensar em perda ou ganho, em alegria ou tristeza, em vitória ou em
derrota, pois, agindo desse modo, você nunca pecará.
39. Até aqui Eu lhe falei do
conhecimento obtido pelo estudo analítico da filosofia Sankhya. Ouça
agora o que direi ó descendente de Bhárata, sobre o trabalho que é
feito sem apego a resultados, que livra do cativeiro do trabalho
mercenário.
40. Nesta via não há perda e nenhum
esforço é em vão, e um pequeno avanço nela liberta do grande medo.
41. Amado filho dos kurus, quem
segue por esta via de maneira resoluta possui a mente indivisa. Mas
a mente do indeciso segue muitas direções.
42-43. Falsos adeptos dos Vedas
desejosos de prazeres, de riqueza e de poder, faze ritos para entrar
nos mundos celestiais. Eles ficam fascinados pelo linguajar florido
dos antigos textos védicos, e só crêem no que existe para o gozo dos
sentidos.
44. Na mente dos apegados aos
prazeres dos sentidos e à riqueza material e que por isso se iludem,
não ocorre a decisão de prestar serviço a Deus.
45. Os Vedas tratam das três
qualidades da matéria. Eleve-se acima delas, livre-se das dualidades
e do desejo de posse, Arjuna, e fixe-se no Eu.
46. O propósito cumprido pela
pequena cisterna cumpre-se melhor ainda pela fonte abundante.
Igualmente as intenções expressas nas escrituras cumprem-se
completamente por quem conhece os propósitos que se ocultam por trás
delas.
47. O direito que é devido é o de
cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação. Não
considere a si mesmo o objetivo dos seus atos nem se prenda à
inação.
48. Fixando a mente na yoga,
abandonando o desejo de vitória ou de derrota, execute o seu
trabalho sem apego ao resultado.
49. Ó ganhador de riquezas,
liberte-se do trabalho motivado pelo lucro mantendo-se bem distante
das ações abomináveis. Os míseros avarentos é que querem desfrutar
dos resultados da ação. Quem é consciente de Mim serve-Me com
devoção.
50. A pessoa que se ocupa em servir
com devoção encontra-se liberada de todas as reações. Por isso
pratique yoga que é fazer tudo com arte.
51. Os que fazem seu trabalho com
inteira devoção, sem apego a resultados, conseguem se libertar do
nascimento e da morte atingindo a perfeição.
52. Quando sua inteligência
conseguir ultrapassar a floresta da ilusão, você então se tornará
totalmente indiferente ao que se disse ou dirá.
53. Se sua mente resiste ao florido
linguajar dos antigos textos védicos e permanece fixada em transe
transcendental, então você realiza a consciência divina.
Arjuna fala:
54. Como se mostra a pessoa que
atingiu a transcendência, em que língua ela se expressa, como se
senta e caminha?
O Supremo Senhor fala:
55. Quando um homem renuncia aos
desejos dos sentidos engendrados pela mente, obtendo contentamento
unicamente no Eu, diz-se então que alcançou a consciência divina.
56. Quem está sempre tranquilo
apesar das três misérias; quem não se deixa exaltar quando há
felicidade; quem está livre do apego; quem não tem ódio nem medo;
merece o nome de Sábio.
57. Neste mundo transitório quem
não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que poderão sobrevir, sem
louvá-lo ou maldizê-lo, já se encontra situado na consciência
divina.
58. Aquele que for capaz de retirar
os sentidos de todos os seus objetos assim como a tartaruga recolhe
os membros no casco, deve ser considerado um ser auto-realizado.
59. A alma corporificada consegue
renunciar aos prazeres dos sentidos muito embora ela não perca o
sentido do prazer. Porque, depois de provar o gozo transcendental,
ela fixa a consciência.
60. Os sentidos são tão fortes que
conseguem arrastar mesmo a mente do homem sóbrio que se esforça por
domá-los.
61. Quem controla os seus sentidos
concentrando-se em Mim pode ser considerado um homem de mente
estável.
62. Ao contemplar os objetos a eles
nos apegamos, do apego vem a luxúria, e da luxúria a ira.
63. Da ira vem a ilusão, a ilusão
turba a memória. A memória confundida desbarata a inteligência, e
quando esta se destrói cai-se de novo no poço.
64. Quem controla os seus sentidos
por praticar os princípios da liberdade regrada recebe misericórdia
e então fica liberado da aversão e do desejo.
65. E para quem recebeu
misericórdia divina já não existem misérias, e a inteligência
fixa-se nessa condição feliz.
66. Sem consciência divina a mente
não se controla nem se fixa a inteligência, sem o quê, não existe a
paz. E onde não existe paz, pode haver felicidade?
67. Assim como um vento forte leva
um barco mar afora, apenas um dos sentidos em que a mente se detenha
pode levar para longe a inteligência do homem.
68. Arjuna de braços fortes, aquele
cujos sentidos estão livre dos objetos, tem a inteligência firme.
69. O que é noite para todos é
tempo de despertar para os autocontrolados. E o que é manhã para
todos, para o pensativo é noite.
70. Quem não se deixa agitar pelo
fluir dos desejos que entram qual rios no mar, que no entanto fica
estável, é o único que tem paz; não aceite aquele que se esforça por
saciar seus desejos.
71. A pessoa que abandona o
sentimento de posse e os desejos dos sentidos, desprovida de
egoísmo, alcança a paz verdadeira.
72. Eis o caminho da vida, divina e
espiritual, onde não existe engano. Indo por este caminho, mesmo na
hora da morte, chega-se ao Reino de Deus. |
Canto III
Yoga da Ação
|
Arjuna disse:
1. Por que queres me engajar nesta
terrível batalha, se achas que a compreensão é superior ao trabalho,
ó Keshava, ó Jnardana?
2. Minha mente está confusa com
Tuas palavras dúbias; dize-me, pois, com clareza o que é melhor para
mim.
O Supremo Senhor disse:
3. Eu acabei de explicar que há dois tipos de pessoas tentando
entender o Eu. Umas através da mente, outras por servir à Deus.
4. Não se é livre do dever porque
se deixa de agir nem se atinge a perfeição somente pela renúncia.
5. Todo mundo tem que agir de
acordo com o seu carma. Nem mesmo por um momento pode algúem deixar
de agir.
6. Quem reprime os seus sentidos
mas não livra sua mente dos objetos do desejo está enganando a si
mesmo e não passa de um farsante.
7. Mas aquele que usa a mente no
controle dos sentidos praticando a devoção e agindo com desapego, é
digno de ser louvado.
8. Execute o seu trabalho pois esse
procedimento é melhor que a inação. Sem trabalhar não se pode nem
sequer manter o corpo.
9. Deve ser feito o trabalho como
um sacrifício a Deus. Pois se é feito de outro modo, ele leva ao
cativeiro do mundo material. Por isso ó filho de Kunti, execute o
seu trabalho para a satisfação d'Ele, e assim você será livre.
10. No início da criação o Pai de
todos os seres enviou muitas gerações de homens e semideuses com o
fim de executar sacrifícios para Vishnu e abençoou-os dizendo: "Que
vós sejais bem felizes; através dos sacrifícios tereis o que
desejardes.
11. Agradando aos semideuses eles
vos serão propícios. E assim - os deuses e os homens cooperando
mutuamente - haverá muita fartura".
12. Os semideuses contentes com os
vossos sacrifícios saciarão vossos desejos. Mas quem desfruta das
dádivas sem ofertá-las aos deuses é certamente um ladrão.
13. Os devotos do Senhor estão
livres do pecado porque comem alimento ofertado em sacrifício. Os
que preparam a comida para o gozo dos sentidos apenas comem pecado.
14. Nossos corpos materiais são
nutridos pelos grãos produzidos pelas chuvas. As chuvas são
produzidas por força dos sacrifícios, os quais são provenientes das
obrigações prescritas.
15. Todas as obrigações estão
prescritas nos Vedas, e os Vedas se manifestam diretamente de Deus.
Por isso o Brahman Supremo é presente eternamente no rito de
sacrifício.
16. Quem não adota a sequência de
sacrifícios prescritos pelas escrituras védicas decerto vive em
pecado. Vive em vão quem vive apenas como um servo dos sentidos, ó
descendente de Pritha.
17. Mas para aquele que encontra
contentamento no Eu, e se ilumina no Eu, já não há obrigação.
18. Ele já não tem razão para
cumprir dever algum. Nem tampouco tem razão para não fazer o que
deve. Ele também não precisa depender mais de ninguém.
19. Por isso deve-se agir sem apego
a resultados, mas apenas por dever, pois agindo sem apego, o homem
atinge o Supremo.
20. Mesmo os reis como Janaka
chegaram à perfeição por cumprirem seus deveres. Do mesmo modo você
deve fazer seu trabalho para ensinar pelo exemplo.
21. Qualquer ação praticada por um
homem superior é tomada como exemplo por toda a comunidade como se
fosse um padrão que todos querem seguir.
22. Ó descendente de Pritha, não há
dever que me obrigue em qualquer um dos três mundos. Não sinto falta
de nada nem necessito de nada, mas mesmo assim Eu Me ocupo em
cumprir o que é prescrito.
23. Se alguma vez Eu deixasse de
ocupar-Me com cuidado da execução dos deveres decerto todos os
homens seguiriam o Meu exemplo.
24. Se Eu deixasse de cumprir os
Meus deveres prescritos arruinaria os três mundos criando prole
indesejada, destruindo assim a paz de todos os seres vivos.
25. Assim como os ignorantes
executam seus deveres com apego aos resultados, igualmente os que
são sábios também cumprem seu dever, sem desejar nada em troca,
apenas com o propósito de conduzir as pessoas para o caminho
correto.
26. Que o sábio não confunda a
mente dos ignorantes que trabalham pelo ganho, procurando
encorajá-los a abster-se de trabalhar. Ele só deve ensiná-los a
servir com devoção.
27. A alma estando confundida pelo
mundo material coloca-se como autora do que na verdade é feito pela
ação da natureza.
28. Quem possui conhecimento da
Realidade Absoluta, Arjuna de braços fortes, não se ocupa na procura
dos prazeres dos sentidos, pois bem sabe a diferença entre agir por
devoção ou apegado aos resultados.
29. Por estarem confundidos pelas
três qualidades da matéria, os ignorantes se ocupam com os assuntos
mundanos, ficando muito apegados. Não deve, no entanto, o sábio por
causa disso agitá-los. Eles agem desse modo por falta de
entendimento.
30. Por esse motivo, Arjuna, com a
mente fixa em Mim, sem desejar nada em troca, e ofertando-Me os teus
atos, lute sem deanimar!
31. Quem executa os deveres
conforme os Meus preceitos, quem segue Minhas lições com muita fé e
devoção, sem se levar pela inveja, fica livre da prisão do trabalho
interesseiro.
32. Mas os que, devido à inveja,
não praticam Meus preceitos, privam-se completamente de todo o
conhecimento, malogrando seus esforços de atingir a perfeição.
33. A té mesmo os eruditos não
podem deixar de agir de acordo com os ditames de sua própria
natureza. Que adianta se reprimir?
34. Todo mundo experimenta atração
ou repugnância pelos objetos sensíveis; mas ninguém deve servir ao
império dos sentidos que são pedras no caminho que leva à
libertação.
35. É muito melhor cumprir, embora
imperfeitamente, as próprias obrigações do que cumprir as dos outros
da maneira mais perfeita. Morrer cumprindo o dever é correr menos
perigo do que perder seu caminho.
Arjuna disse:
. Ó descendente de Vrishni,
o que faz o homem pecar, embora contra a vontade, como se fosse
forçado?
O Supremo
Senhor fala:
. É tão-somente a luxúria
gerada pela paixão que mais tarde se transforma em ira, a grande
inimiga pecaminosa e voraz devoradora de tudo.
38. Como o fumo cobre o fogo, a
poeira cobre o espelho e o útero cobre o feto, de maneira similar o
ser vivo está coberto por camadas de luxúria.
39. Desse modo a consciência é
coberta de luxúria, que é sua eterna inimiga, pois nunca se satisfaz
e arde tanto como o fogo.
40. A mente e os cinco sentidos,
assim como a inteligência, são moradas da luxúria, que cobrindo a
consciência do ser vivo, o desnorteia.
41. Sendo assim, filho de Bhárata,
subjugue desde o princípio o causador do pecado controlando os seus
sentidos, e aniquile o matador da alma e do conhecimento.
42. Os sentidos se situam acima dos
seus objetos. Mais acima dos sentidos está situada a mente. Em
posição superior se situa a inteligência e, acima desta, está a
alma.
43. Sabendo então que transcende,
tanto aos sentidos e à mente, assim como à inteligência, deve por
isso a Pessoa, Arjuna de braços fortes, domar o eu inferior e, com a
força do espírito, vencer de vez a luxúria, esse inimigo terrível. |
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Canto IV
Da
Experiência Espiritual |
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O Supremo
Senhor fala:
1. Eu ensinei a Vivasvan esta ciência da Yoga eterna e
trancendental, Vivasvan passou-a a Manu, o pai de todos os homens, e
este então a transmitiu a Ikhsvaku, rei deste mundo.
2. Esta ciência suprema foi
transmitida através da cadeia sucessória, e ela assim foi recebida
também pelos reis devotos. Mas com o passar dos tempos, a cadeia se
interrompeu, e a ciência como tal ficou como que perdida.
3. Hoje estou lhe revelando esta
ciência antiquíssima da união com o Supremo, por você ser Meu devoto
e ser também Meu amigo, podendo, pois, entender seu trancendental
mistério.
Arjuna disse:
. O deus do Sol Vivasvan é
mais velho do que Tu; como posso compreender que num tempo tão
remoto Tu tivesses lhe ensinado essa ciência suprema?
Krishna disse:
5. Tanto você como Eu já vivemos muitas vidas, posso lembrar-Me de
todas; você, no entanto, não pode, ó vencedor de inimigos!
6. Mesmo sendo não nascido e Meu
corpo imperecível não possa se corromper; embora Eu seja Senhor de
todos os seres vivos; ainda assim Eu manifesto Minha forma original
quando se faz necessário.
7. Em qualquer lugar e sempre que a
verdade vacilar e a mentira dominar, Eu me manifestarei, ó
descendente de Bharata.
8. Para restabelecer os princípios
religiosos, para salvar os devotos e aniquilar os canalhas, Eu surjo
em cada milênio.
9. Quem conhece realmente Meu
nascimento divino e Minhas atividades, quando abandona este corpo
não renasce neste mundo, mas passa a viver Comigo, ó ganhador de
riquezas.
10. Estando livres do apego, sem
sentir ódio nem medo, e pensando sempre em Mim, muitos se
purificaram, por saber ou penitência, alcançando amor por Mim.
11. Cada um recompenso conforme se
rende a Mim, ó descendente de Pritha. Mas, de todas as maneiras,
todos seguem Meu caminho.
12. Desejando ter sucesso neste
mundo material, os que trabalham por ganho fazem dádivas aos deuses,
alcançando bem depressa tudo aquilo que desejam.
13. Eu instituí as quatro castas,
segundo a divisão das qualidades e ações. Saiba que sou seu autor.
Eu que sou, no entanto, inativo e imutável.
14. As obras não me contaminam, nem
seu fruto é objeto do desejo para mim; aquele que Me conhece não se
prende por suas ações.
15. Sabendo disso, os homens de
outrora que buscavam a libertação executaram suas obras. Portanto,
aplica-te também à ação, como fizeram teus antepassados.
16. "Que é a ação? Que é a inação"?
Mesmo os sábios se confundem quanto a isso. Vou, portanto,
explicar-te o que é a ação e graças a tal conhecimento estarás
liberto do mal.
17. É preciso saber distinguir a
ação da ação proibida e da inação. É muito intrincado o caminho da
ação.
18. Sábio entre os homens, devoto e
perfeito realizador de toda a obra é aquele que pode ver a inação na
ação e a ação na inação.
19. Aquele que age sem ser impelido
pelo desejo e cujas obras são consumidas pelo fogo do conhecimento,
é considerado sábio pelos inteligentes.
20. O homem que não tem apego ao
fruto da ação e vive sempre satisfeito e independente não age em
absoluto, apesar de se engajar na ação.
21. Livre de anseios e esperanças,
mantendo disciplinados o corpo e a mente, renunciando a todo tipo de
possessividade e executando apenas os atos corporais o homem se
liberta do mal.
22. Aquele que está sempre
satisfeito com tudo que recebe, que superou os "pares contrários",
liberto da má vontade, inalterável no sucesso e na adversidade,
mesmo que execute alguma obra não fica preso a ela.
23. A ação executada pelo homem,
cujos desejos estão extintos, se desvanece por completo. Livre e com
a mente fixa no conhecimento executa suas obras só por sacrifício.
24. Brahma é o sacrifício; Brahma é
a oblação oferecida por Brahma no fogo, que é Brahma; e à Brahma se
encaminha aquele que em sua obra medita em Brahma.
25. Alguns devotos oferecem
sacrifícios apenas aos deuses, outros oferecem até o sacrifício por
sacrifício, no fogo de Brahma.
26. Existem os que sacrificam o
ouvido e os demais sentidos no fogo da continência, outros
sacrificam o som e os demais objetos dos sentidos no fogo dos
sentidos.
27. Há também os que sacrificam
todas as funções dos sentidos e da vida no fogo místico do domínio
de si mesmo, avivado pelo conhecimento espiritual.
28. Outros praticam sacrifícios
oferecendo suas riquezas, submetendo-se a privações numa vida
austera, ou executando práticas piedosas. Existem ascetas que,
ligados por votos rígidos, fazem sacrifício de leitura silenciosa e
de conhecimento.
29. Há quem sacrifique a expiração
na inspiração e a inspiração na expiração, ou reprime ambos
movimentos respiratórios, fazendo do exercício do prânayâma sua
tarefa principal.
30. Existem ainda os que,
sujeitando-se a uma alimentação regrada sacrificam seus alentos
vitais nos alentos vitais. Todos estes devotos sabem o que é o
sacrifício e através dele se purificam do pecado.
31. Sustentados com os resíduos dos
sacrifícios, alimento da imortalidade, vão unir-se ao eterno Brahma.
Aqueles que não praticam nenhum sacrifício não podem gozar este
mundo; como poderão pois, gozar o outro, ó melhor dos kurus?
32. Assim, pois, muitos sacrifícios
são oferecidos à boca de Brahma. Saiba que todos eles emanam da
ação, compreendendo bem isto, serás livre.
33. Superior a todo sacrifício
material é o sacrifício da sabedoria, ó perseguidor de teus
inimigos. Toda ação em sua integridade, filho de Pritha, está
consumada no conhecimento.
34. Aprende a buscar esse
conhecimento prostrando-se aos pés dos sábios, interrogando-os e
servindo-os; e os sábios, os que vêem a verdade irão iniciar-te na
sabedoria.
35. Desde que alcances tal
conhecimento, não cairás novamente em confusão, filho de Pandu; pois
graças a ele verás todos os seres em ti mesmo, e consequentemente em
mim.
36. Ainda que fosses o maior dos
pecadores, cruzarias a salvo o oceano dos pecados na barca do
conhecimento espiritual.
37. Assim como o fogo flamejante
reduz a lenha a cinzas, Arjuna, o fogo do conhecimento reduz a
cinzas todas as ações.
38. Na verdade, não há neste mundo
purificador comparável ao conhecimento. Aquele que atingiu a
perfeição pela Yoga, irá encontrá-lo dentro de si mesmo no decorrer
do tempo.
39. O homem cheio de fé obtém o
conhecimento aplicando-se a ele e subjugando os sentidos. Atingindo
o conhecimento, logo alcançará a paz suprema.
40. Pelo contrário o homem
ignorante, sem fé, em cuja alma fermenta a dúvida, caminha para a
perdição; pois aquele que está dominado pela dúvida não goza deste
mundo nem do outro, nem da bem-aventurança.
41. As ações, Dhananjaya, não
aprisionam aquele que, submetido ao Eu, renunciou à ação pela Yoga e
destruiu a dúvida através do conhecimento.
42. Assim, depois de matar com a
espada do conhecimento essa dúvida nascida da ignorância e arraigada
em tua alma, apica-te à Yoga. Levanta-te, pois, filho de Bharata. |
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Canto V
A Sabedoria do Desapego
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Arjuna disse:
1. Por um lado, Krishna, exaltas à renúncia à ação, por outro
exaltas a Yoga (da ação). Diga-me claramente dos dois qual o melhor
caminho.
Krishna disse:
2. Tanto a renúncia como a yoga da ação conduzem à beatitude
suprema, mas, dos dois, a Yoga da ação é sem dúvida superior.
3. Deve considerar-se como
perseverante renunciante aquele que não sente nem aversão nem
desejo; pois aquele a quem não afetam os "pares contrários" se livra
com facilidade das cadeias da ação.
4. Ao contrário do sábio o ingênuo
acredita que o método Sankhya e a Yoga são coisas distintas. Quem se
aplica devidamente a um deles colhe o fruto de ambos.
5. A condição que alcançam os
sankhyas é também alcançada pelos yogues; vê claramente aquele que
considera Sankhya e Yoga como uma coisa só.
6. Mas sem Yoga é difícil chegar à
renúncia, ó tu de braço possante. O sábio que se aplica à Yoga logo
alcança Brahma.
7. Aquele que, vivendo entregue à
Yoga é puro de coração, vence a si mesmo, refreia seus sentidos e
identifica seu Eu com o de todas as criaturas, mesmo que execute uma
ação, não se prende a ela.
8. "Eu nada faço" deve pensar o
devoto instruído na verdade quando vê, ouve, toca, come, anda,
dorme, respira.
9. fala, segura ou solta alguma
coisa, abre ou fecha os olhos, considerando que "são os sentidos que
se relacionam com os objetos sensíveis".
10. Quem age sem o menor apego
depositando suas ações em Brahma não se macula com o pecado, da
mesma forma que a água não adere à folha do lótus.
11. Os yogues executam seus atos
exclusivamente com o corpo, pensamento, intelecto, e mesmo com os
simples sentidos, sem abrigar qualquer desejo, a fim de purificar
seu coração.
12. O devoto que renuncia ao fruto
de suas ações consegue a paz eterna. Ao contrário, o homem sem
devoção, que fustigado pelo desejo se apega ao fruto de suas obras,
mantém-se prisioneiro (de seus próprios atos).
13. O Habitante do Corpo,
renunciando a toda ação, através da mente, se mantém sereno, como
feliz vencedor, na cidade de nove portas (o corpo), sem agir e sem
ser causa de qualquer ação.
14. O Senhor não cria a atividade
nem os atos do mundo, nem tampouco a conexão entre o ato e suas
conseqüências. A natureza individual é que age.
15. O Senhor não assume nem as boas
nem as más ações de alguém. O conhecimento está encoberto pela
ignorância e por isto os mortais vivem em êrro.
16. Aqueles, cuja ignorância se
desvaneceu através do conhecimento espiritual, são iluminados pelo
conhecimento que, resplandecente como o Sol, revela-lhes o supremo.
17. Pensando n'Ele, unidos de
coração a Ele, e fazendo d'Ele sua meta suprema, permanecem limpos
de pecado através do conhecimento e vão para o lugar de onde não se
volta.
18. Os sábios vêm com igualdade o
brâmane, dotado de saber e de modéstia, a vaca, o elefante, o cão e
o pária.
19. Mesmo aqui na Terra, aqueles
cuja mente está firme na igualdade triunfam deste mundo de matéria,
pois o Brahma incorruptível é a própria igualdade e dessa forma
descansam em Brahma.
20. Não se regozija com o que é
agradável, nem se aflige com o desagradável o homem de entendimento
firme e livre de confusão que conhece Brahma e em Brahma repousa.
21. Aquele cujo coração não se atém
às impressões exteriores encontra em si mesmo a felicidade; em união
mística com Brahma através da Yoga, desfruta perpétua
bem-aventurança.
22. Porque os prazeres que emanam
das impressões exteriores são verdadeiros mananciais de dor, porque
tem princípio e fim. O sábio, ó filho de Kunti,não se deleita com
semelhantes prazeres.
23. Aquele que, neste mundo, antes
de livrar-se do corpo aprende a resistir aos impulsos do desejo e do
ódio, goza de união espiritual e vive feliz.
24. O homem que encontra
satisfação, deleite e luz em seu interior é um yogue que, unido a
Brahma, alcança o nirvana em Brahma.
25. Os santos sábios, cujas culpas
foram apagadas e cuja dualidade foi destruída, que conseguiram
vencer-se a si mesmos e se dedicam ao bem-estar de todas as
criaturas, alcançam o nirvana em Brahma.
26. Muito próximos do nirvana em
Brahma estão aqueles que extirpam de seu coração os desejos e o
ódio, aqueles que disciplinaram o corpo e a mente e conhecem o Eu.
27. Evitando que cheguem ao
interior as impressões exteriores, concentrando a visão entre as
sombrancelhas, deixando passar o alento de modo uniforme pelas
narinas na inspiração e na expiração,
28. com os sentidos, o pensamento e
o intelecto subjugados por completo, consagrado unicamente à
liberação final, e isento de anseios, aversões e temores, o sábio é
livre para sempre.
29. Sabendo que sou Eu que recebo
os sacrifícios e que sou o senhor de todos os mundos e o amigo de
todos os seres, encontra a paz. |
Canto VI
Exercício de Meditação
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Fala Krishna:
1. Aquele que executa um ato obrigatório sem esperar por seu fruto é
o renunciador e ao mesmo tempo o yogue e não aquele que simplesmente
descuida do fogo sagrado e deixa de praticar obras piedosas.
2. Sabe, filho de Pandu, que o que
chamam de renúncia é Yoga, pois ninguém pode chegar a ser yogue sem
anter ter renunciado a todas as intenções.
3. Para o asceta que deseja
alcançar a Yoga, a ação é o meio, enquanto que para aquele que já a
alcançou, o meio é o repouso.
4. Quando o homem renuncia a todas
as intenções e não tem nenhum apego aos objetos sensíveis nem às
suas obras, diz-se que atingiu a Yoga.
5. Procure o homem elevar o eu
através do Eu, não permitindo que este afunde. Porque, na verdade, o
Eu é amigo do eu, que mesmo assim é seu inimigo.
6. O eu é um amigo para o homem
cujo eu foi conquistado pelo Eu; mas para aquele que não está de
posse de seu Eu, o eu é como um inimigo..
7. O Eu supremo daquele que vive
tranqüilo e submetido a seu Eu mantém-se inalterável em meio ao
calor e ao frio, alegrias e pesares, honra e desonra.
8. O yogue satisfeito com o
conhecimento de si, tranqüilo, que realizou seu próprio equilíbrio,
senhor de seus sentidos, que vê da mesma forma o barro, a pedra e o
ouro é considerado o verdadeiro místico.
9. Superior é aquele que mantém a
igualdade de sua alma diante de amigos e inimigos, indiferentes e
neutros, estranhos e parentes, homens bons e maus.
10. Trate o yogue de aplicar-se com
afinco ao recolhimento espiritual, vivendo isolado em solitário
retiro, com o pensamento e o corpo subjugados, livre de anseios,
esperanças e possessividade.
11. Em um lugar puro prepare um
assento para si, nem muito alto nem muito baixo, preparado com Kuza
(uma planta indiana), uma pele e uma tela.
12. Então com a mente concentrada
num único ponto, reprimindo a ação do pensamento e dos sentidos
pratique a Yoga para purificar sua alma.
13. Mantendo-se firme, com o corpo,
o pescoço e a cabeça eretos e imóveis, olhando fixamente para a
ponta de seu nariz, sem desviar os olhos,
14. com ânimo sereno e livre de
temor, a mente disciplinada, perseverando no voto de brahmachâri
(celibato), permaneça recolhido e medite só em Mim, considerando-Me
como o Supremo.
15. Vivendo assim continuamente
concentrado em si mesmo, com o pensamento coibido, o yogue obtém a
paz suprema do nirvana, que está em Mim.
16. A Yoga não é para quem come em
excesso ou jejua com exagero, Arjuna; nem tampouco para quem dorme
demais ou se entrega a prolongadas vigílias.
17. A Yoga, bálsamo de todo
sofrimento e dor, só a atinge aquele que é sóbrio em alimentar-se e
divertir-se, regrado em todos os seus atos e moderado no sono e na
vigília.
18. Quando o homem mantém o
pensamento disciplinado fixo no Eu e se mostra indiferente a tudo
que é apetecível, diz-se que goza de união espiritual.
19. O yogue que tem a mente
dominada e, recolhido em si mesmo pratica a yoga, é como uma chama
luminosa que, ao abrigo do vento, não sofre nenhuma oscilação.
20. Quando sua mente, disciplinada
pelo exercício da Yoga, está tranqüila; quando, percebendo o eu
através do Eu, encontra satisfação em si mesmo;
21. quando saboreia o infinito
deleite que está fora do alcance dos sentidos e só pode ser
desfrutado pela inteligência e não se afasta nunca mais da
realidade;
22. e quando, depois de ter
alcançado esse estágio, julga que não há tesouro mais valioso e se
firma nessa situação, nem mesmo a dor mais intensa pode abalá-lo.
23. Esta ruptura de toda relação
com a dor é chamada Yoga. Esta Yoga deve ser praticada com ânimo
constante e sem desalento.
24. Depois de abandonar sem exceção
todos os anseios e desígnios engendrados pela fantasia e de reprimir
com o poder da mente todos os sentidos e órgãos de ação, quaisquer
que sejam os objetos a que se dirijam,
25. deve o yogue chegar ao repouso
através de uma vontade tenaz; e uma vez concentrada a mente no Eu,
não deve pensar em coisa alguma.
26. Sempre que a mente inquieta e
volúvel se desvie, trate de refreá-la, subordinando-a logo ao
domínio do Eu.
27. Porque a suprema beatitude está
reservada ao yogue cuja mente está tranqüila, dominada a natureza
passional, limpo de pecado, participando da essência de Brahma.
28. Assim, consagrando-se sem
cessar à união mística e estando puro de pecado, o yogue obtém sem
dificuldade o infinito deleite da comunhão com Brahma.
29. Quem se aplica de coração à
Yoga, vê o espírito em todos os seres e todos os seres no espírito,
pois por toda parte percebe a identidade.
30. Aquele que Me vê em todas as
coisas, nunca será abandonado por Mim, nem Me abandonará jamais.
31. O yogue que, estabelecido na
unidade, adora Meu ser que habita todas as criaturas, vive em Mim,
qualquer que seja sua condição de vida.
32. Aquele que, através da
identidade do Eu, vê o mesmo em toda parte, no prazer e na dor,
Arjuna, é o yogue perfeito.
Fala Arjuna:
33. Sendo a mente inquieta e volúvel, ó Madhusudana, não compreendo
a estabilidade dessa Yoga que, como me declarastes, baseia-se no
equilíbrio mental.
34. Porque na verdade a mente é
leviana, ó Krishna; é turbulenta, imperiosa e obstinada. A meu ver é
tão difícil de dominar como o vento.
Fala Krishna:
35. Sem dúvida, ó tu de braço poderoso, a mente é movediça e difícil
de subjugar. Contudo, filho de Kunti, pode ser dominada através de
esforços contínuos e da indiferença.
36. Para aquele que não conseguiu
vencer-se a si mesmo, é difícil de alcançar a Yoga, mas aquele que é
dono de si mesmo e luta com afinco pode alcançá-la, valendo-se dos
meios adequados.
Fala Arjuna:
37. Que destino aguarda, ó Krishna, aquele que está cheio de fé, mas
demonstra fraqueza, cuja mente divaga e não consegue perfeição na
Yoga?
38. Privado de um e de outro,
vacilante e confuso no caminho de Brahma, não se perde como a nuvem
desgarrada que desaparece no espaço?
39. Eu te peço Krishna, apague por
completo essa dúvida em meu espírito, pois ninguém além de Ti pode
dissipá-la.
Fala Krishna:
40. Nem neste mundo nem no outro, um homem como esse encontra a
perdição, ó Pârtha, pois aquele que age com retidão, meu filho,
jamais toma o caminho do mal.
41. Depois de atingir a região dos
justos e ali permanecer anos sem conta, aquele que não progrediu na
Yoga renasce num lugar puro e feliz;
42. ou nasce em uma família de
sábios yogues. No entanto é difícil obter tal nascimento neste
mundo.
43. Recobrando então a mesma
disposição de ânimo, adquirida em seu corpo anterior, luta com maior
empenho para obter a perfeição, filho de Kuru,
44. pois é irresistivelmente
impelido a isso por sua prática anterior. Apenas pelo desejo de
conhecer a Yoga, torna-se superior à palavra divina.
45. Mas o yogue que se esforça sem
descanso e, purificado de toda a culpa, atingiu a perfeição através
de vários nascimentos, alcança a meta suprema.
46. O yogue é superior aos ascetas,
superior aos sábios e também superior aos homens de ação. Assim
sendo, Arjuna, torna-te yogue.
47. Mas entre todos os yogues,
aquele que, cheio de fé, abandonando a Mim todo o seu ser interior,
Me rende adoração, é considerado por Mim como o maior dos místicos. |
Canto VII
Sabedoria da Visão Espiritual
|
Fala Krishna:
. Escuta agora, filho de Pritha, como, mantendo o pensamento
amorosamente voltado para Mim, aplicando-te à Yoga e fazendo de Mim
teu refúgio, chegarás sem dúvida a conhecer-me por completo.
2. Vou revelar-te sem reservas este
conhecimento e o superconhecimento. Desde que os adquira, nada resta
por aprender neste mundo.
3. Entre milhares de mortais,
poucos se esforçam para atingir a perfeição, e entre os que
conseguem atingi-la poucos são os que Me conhecem em essência.
4. Terra, água, fogo, ar, éter,
pensamento, intelecto e consciência pessoal são os oito componentes
que integram a Minha natureza material.
5. Esta é Minha natureza inferior.
Conhece agora, ó tu de braço poderoso, Minha outra natureza, a
superior, o elemento vital que mantém o Universo.
6. Sabe que esta (Minha dupla
natureza) é a fecunda matriz de todos os seres. Sou o princípio do
Mundo e Sou também seu fim.
7. Não há absolutamente nada
superior a Mim, Dhananjaya. Todo Universo está preso a mim, como as
pérolas de um colar estão presas ao fio que as mantém unidas.
8. Eu sou, filho de Kunti, o sabor
da água, a luz do Sol e da Lua, das palavras sagradas Eu sou o
pranava OM (=OM). O som no éter e a virilidade nos homens.
9. Sou puro perfume na terra, o
brilho do fogo, a vida dos vivos, a santidade dos santos.
10. Sabe, filho de Pritha, que Sou
a semente de toda a manifestação, sou a sabedoria dos sábios e o
poder dos poderosos.
11. Sou a força dos fortes, livre
de apego; Eu Sou o puro amor dos amantes, ó príncipe dos bharatas.
12. Entende que de Mim procedem
todas as coisas - consciência, energia e matéria; Eu não estou nelas
mas elas estão em Mim.
13. Iludido pelos três atributos da
natureza (satwa, rajas e tamas), que se revelam em todas as coisas,
não sabe que Eu estou acima delas e sou imperecível e imutável.
14. Difícil, ó príncipe, é romper o
véu de ilusão que cerca a manifestação. Somente aquele que se
aproximam de Mim superam a ilusão.
15. Os maus e os insensatos não Me
procuram; seu entendimento foi arrebatado pela ilusão e eles
participam da natureza demoníaca.
16. Quatro espécies de homens Me
adoram, Arjuna: os aflitos, os que buscam a sabedoria, os que
desejam riquezas e os sábios, ó príncipe dos bharatas.
17. Entre eles, o sábio, sempre
consagrado à união mística e adorando o Uno, excede todos os demais;
pois o sábio Me ama acima de todas as coisas e Eu o amo da mesma
forma.
18. Todos eles são nobres, mas
considero o sábio como a Mim mesmo, pois consagrado à união
espiritual ele vem a Mim, meta suprema.
19. Ao fim de numerosos
nascimentos, o homem dotado de sabedoria chega a Mim pensando:
Vasudeva é o Todo. "Um homem com tão grande alma é difícil de
encontrar".
20. Aqueles, cujo desejo foi
arrebatado por um desejo qualquer, procuram outras divindades,
adotando tal ou qual forma de culto, de acordo com a sua própria
natureza.
21. Qualquer que seja a forma de
divindade a que um devoto pretenda render culto com verdadeira fé,
sou Eu realmente quem inspira essa fé inquebrantável.
22. Cheio dessa fé. o devoto
procura agradar tal divindade, servindo-a com esmêro e dela consegue
a satisfação dos seus desejos. Mas sou Eu que lhe ofereço tais bens.
23. No entanto, a recompensa obtida
por esses homens de pequeno entendimento é limitada. Quem adora os
deuses vai aos deuses; quem Me adora vem a Mim.
24. Os ignorantes, desconhecendo
minha natureza de ser supremo e imperecível, pensam que Eu,
imanifesto como sou, tenho uma forma visível e manifesta.
25. Oculto por Meu poder criador de
ilusão, não me manifesto a todos, e por isso o mundo, vítima do
engano, Me desconhece. Eu que não estou sujeito ao nascimento nem à
morte.
26. Eu conheço todos os seres,
passados, presentes e futuros, Arjuna, mas nenhum deles Me conhece.
27. Pela ilusão dos "pares
contrários", originada da atração e repulsão, ó descendente de
Bharata, toda criatura, ao nascer, é conduzida ao engano, ó terror
de teus inimigos.
28. Mas aqueles homens de atos
virtuosos, cujos pecados chegaram ao fim, libertam-se da ilusão dos
pares contrários e Me adoram com vontade perseverante.
29. Aqueles que se refugiam em Mim,
esforçando-se para livra-se da velhice e da morte, conhecem Brahma,
o espírito supremo e a ação em sua integridade.
30. E aqueles que, com o pensamento
concentrado, Me conhecem como ser supremo, suprema divindade e
supremo sacrifício, também Me conhecem verdadeiramente na hora da
morte. |
Canto
VIII
Integração na
Suprema Divindade
|
Fala Arjuna:
. O que é esse Brahma, o que é o espírito supremo, o que é a ação, ó
Puruchottama? A que se dá o nome de ser supremo, suprema divindade?
2. Que é supremo sacrifício, como
está aqui no corpo, ó Madhusûdana? Dize-me, enfim, como podem
conhecer-Te na hora da morte aqueles que se dominam a si mesmos?
Fala Krishna:
3. Brahma é o Imperecível e o Supremo; sua natureza essencial é
denominada espírito supremo; e a emanação que dá origem a todos os
seres chama-se ação.
4. Ser supremo é minha natureza
perecível; suprema divindade é o princípio criador masculino e Eu
mesmo, encarnado neste corpo, sou o supremo sacrifício, ó tu o
melhor dos mortais.
5. Aquele que nos últimos instantes
de sua vida pensa unicamente em Mim, ao desembaraçar-se de seu corpo
entra em Meus ser.
6. Mas quem abandona seu corpo
pensando em algum (outro) ser, a ele se encaminha, filho de Kuntî;
pois absorto sempre em tal pensamento, amoldou-se a esse ser.
7. Por isso pensa sempre em Mim e
luta. Tendo o coração e o entendimento sempre voltados para Mim,
virás a Mim sem dúvida.
8. O homem que com assiduidade
medita no espírito supremo, e mantém sem cessar a mente aplicada à
Yoga, sem voltar-se para nenhum outro ser, dirige-se a Ele.
9. O Eu supremo é o onisciente, o
eterno, o governador soberano, mais sutil que o sutil, sustém o
Universo. Sua forma é inconcebível, é fulgurante como o Sol que
brilha sobre as trevas.
10. Aquele que medita no eterno, no
momento de sua morte, com a mente imóvel, fortalecida pela Yoga e
com o alento vital (prâna) concentrado entre as sombrancelhas,
dirige-se ao divino espírito supremo.
11. Vou revelar-te em breves
palavras a mansão que os conhecedores dos Vedas chamam de
indestrutível, em que entram aqueles que venceram a si mesmos e
estão livres de paixões.
12. Fechadas todas as portas dos
sentidos, a mente concentrada no coração, retendo na cabeça o alento
vital, concentrado na Yoga,
13. pronunciando o monossílabo
sagrado OM, e concentrado em Mim, quem deixa o Mundo desta forma, ao
abandonar seu corpo encaminha-se à meta suprema.
14. Fácil é atingir a suprema
perfeição quando o homem anda na minha presença, constantemente
consciente de Mim, em todos os caminhos de sua vida e alheio a
outros deuses.
15. Essas grandes almas,
conscientes da sua união comigo, não tornarão a nascer para esta
vida perecível de sofrimentos, mas vêm a mim, a eterna Beatitude.
16. Esses mundos todos, ó Arjuna,
desde o mundo de Brahma, estão sujeitos a um retorno ao nascimento;
mas o homem que chegou a Mim nunca mais será exposto ao
renascimento, ó filho de Kuntî.
17. Aqueles que sabem que o dia de
Brahma tem a duração de mil idades e que a noite dura outras mil,
são os que conhecem o dia e a noite.
18. Com a vinda do dia, o universo
do manifesto surge do imanifesto, e ao chegar a noite, tudo se
desvanece no imanifesto.
19. Toda essa multidão de seres,
vindos repetidamente à existência, desaparece ao chegar a noite,
filho de Prithâ e surge novamente, sem vontade própria, quando vem o
dia.
20. Mas, acima deste imanifesto, há
na verdade outro ser imanifesto que é eterno e não perece quando
perece todo o existente.
21. Aquele que é dito imanifesto é
imperecível, é a meta suprema; quem chega a alcançá-la, jamais
retorna. Esta é a minha morada.
22. Por uma devoção exclusiva a
Ele, filho de Prithâ, pode-se chegar a este espírito supremo, que
contém todos os seres e que preenche todo o Universo.
23. Vou revelar-te agora o momento
em que os yogues partem para não mais voltar e também o momento em
que partem para retornar.
24. Fogo, luz, dia, quinzena em que
cresce a Lua e os seis meses em que o Sol segue sua rota no norte:
este é o tempo em que os homens que morrem conhecendo Brahma, se
dirigem a Brahma.
25. Fumaça, noite, a quinzena em
que a Lua míngüa e os seis meses em que o Sol está no sul, então o
yogue alcança somente a luz lunar para nascer de novo entre os
mortais.
26. Luz e trevas: eis aqui dois
eternos caminhos deste mundo. Por um seguem aqueles que partem para
não mais voltar e por outro, aqueles que devem retornar.
27. Conhecendo estes dois caminhos,
filho de Prithâ, o yogue não se engana. Procura, pois, Arjuna,
aplicar-te constantemente à Yoga.
28. Por maior que seja a justa
recompensa prometida pelos Vedas aos sacrifícios,
austeridades e atos de caridade, o yogue a supera em virtude de tal
conhecimento, pois se encaminha à morada suprema e original. |
Canto
IX
Santificação
Interna pelo Mistério Sublime
|
Fala Krishna:
1. Vou revelar-te agora, a ti que
me ouves com respeito, o maior dos segredos, o conhecimento
acompanhado do superconhecimento. Desde que estejas neles instruído,
estarás livre do mal.
2. É o conhecimento máximo, o
máximo mistério, o purificador supremo, o conhecimento justo e
verdadeiro pela percepção clara e imediata, fácil de realizar e
inesgotável.
3. Os homens que não tem fé nesta
prática piedosa não chegam a Mim, ó perseguidor de teus inimigos;
entram novamente nos caminhos deste mundo mortal.
4. Em minha forma invisível,
preencho todo este Universo; todos os seres estão em Mim, mas Eu não
estou neles.
5. Mas tampouco os seres estão em
Mim: este é o mistério do meu poder divino. Sendo sustentáculo de
todos os seres e a causa de sua existência, meu espírito não está
neles.
6. Da mesma forma que o ar
incomensurável, movendo-se por toda parte, permanece sempre no
espaço etéreo, todos os seres estão em mim.
7. Quando um kalpa chega a seu fim,
filho de Kuntî, todos os seres são absorvidos em minha natureza
material, e de Mim emanam outra vez ao principiar um novo kalpa.
8. Com ajuda de Minha natureza
material Eu emano, repetidas vezes, toda essa multidão de seres que
surgem sem vontade própria, obedecendo ao poder da natureza.
9. No entanto, Dhananjaya, Eu não
permaneço ligado por tais atos, pois Me mantenho acima deles,
indiferente.
10. Sob meu comando a natureza
engendra todos os seres, animados e inanimados; e assim, filho de
Kuntî, o mundo cumpre seu ciclo.
11. Os insensatos, desconhecendo
minha natureza superior, quando estou revestido por uma forma
humana, Me desprezam, a Mim, soberano senhor de todas as criaturas.
12. Privados de entendimento, toda
sua ação, seu conhecimento, suas esperanças são vãs; eles participam
da natureza râkshasas e asuras.
13. Mas os homens de alma elevada,
filho de Prithâ, participando de minha natureza divina e sabendo que
Eu sou a fonte eterna e inesgotável de todos os seres, Me adoram com
o pensamento fixo em Mim.
14. Glorificando-Me sem cessar,
lutando com afinco, firmes em seus votos e prosternando-se diante de
Mim. Me adoram com devoção fervorosa e constante.
15. Outros me oferecem o sacrifício
do conhecimento e Me adoram em minha unidade e em minha
multiplicidade, como presente em toda parte e em diferentes formas.
16. Eu sou a oblação, o sacrifício,
a oferenda aos antepassados, a erva bendita, o hino sagrado, a
manteiga purificada, o fogo e também a vítima consumida em
holocausto.
17. Sou pai, mãe, sustentador, avô
deste Universo. Sou o objeto do conhecimento, o purificador, a
sílaba OM e também o Rik, o Sâma e o Yajur.
18. Sou meta, sustentáculo, senhor,
testemunha, mansão, refúgio, amigo, princípio, fim, fundamento,
receptáculo e semente eterna.
19. Eu dou o calor, retenho e envio
a chuva, sou a imortalidade e a morte, sou o ser e o não-ser,
Arjuna.
20. Os que conhecem os Vedas,
os que bebem o soma, limpos de pecados e oferecendo-me sacrifícios
imploram a Mim o caminho dos céus. Chegando ao glorioso mundo de
Indra participam do banquete celestial dos deuses.
21. Depois de gozar ali as delícias
do vasto mundo paradisíaco, esgotados seus méritos, retornam a este
mundo mortal. Quem segue a lei dos livros sagrados, alimentando
desejos em seu coração, alcança apenas o transitório.
22. Aqueles que, vivendo com a
atenção sempre fixa em Mim. Me adoram sem pensar jamais em outro
ser, ofereço plena segurança de bem-aventurança perpétua.
23. Mesmo aqueles que adoram outras
divindades com fé e devoção ardorosas, Me adoram, ó filho de Kuntî,
mas não de acordo com a verdadeira lei.
24. Porque Eu sou o senhor de todos
os sacrifícios e aquele que os recebe, mas tais homens não Me
conhecem em essência e por isso caem.
25. Aqueles que adoram os deuses
vão aos deuses; aqueles que servem os antepassados vão a eles,
aqueles que cultuam os espíritos elementares vão aos espíritos
elementares, mas aqueles que Me adoram vêm a Mim.
26. Se alguém Me oferece com
devoção uma folha, uma flor, um fruto ou apenas água, aceito tal
presente de uma alma piedosa e sincera.
27. Assim, pois, filho de Kuntî,
qualquer coisa que faças, qualquer alimento que comas, qualquer
objeto que ofereças em sacrifício, qualquer esmola que dês, qualquer
mortificação a que te submetas, faça-o como uma oferenda a Mim.
28. Desta forma estarás livre das
cadeias da ação, sejam seus frutos bons ou maus. Aplicando-te com
fervor à Yoga e à renúncia, estarás livre e virás a Mim.
29. Eu sou o mesmo para todos os
seres, ninguém Me é querido ou odioso; mas aqueles que Me adoram com
devoção estão em Mim e Eu estou neles.
30. Mesmo o homem mais depravado,
se Me adora com dedicação exclusiva, deve ser considerado um justo,
porque anseia pela verdade.
31. Um homem assim logo se torna
virtuoso e se encaminha para a paz eterna. Tem certeza, filho de
Kuntî, que quem Me ama, não se perde jamais.
32. Porque aqueles que buscam
refúgio em Mim, ó filho de Prithâ, mesmo que tenham sido engendrados
no pecado, mulheres, vaishyas e até os shüdras chegam ao fim
supremo.
33. Com muito mais razão, pois, os
santos brâmanes e os piedosos rishis reais! Adora-Me, pois, neste
mundo transitório e cheio de amarguras.
34. Fixa teu pensamento em Mim,
prostra-te diante de Mim adorando-me e rendendo-Me culto devoto.
Assim unido de coração comigo e considerando-Me como meta suprema,
virás a Mim. |
Canto X
Das
Manifestações de Deus no Universo
|
Fala Krishna:
1.Meu
querido Arjuna, guerreiro de braços fortes, escute mais uma vez
Minha palavra suprema. O que vou dizer agora é para seu benefício e
dar-lhe-á grande alegria.
2.Nem
os deuses nem os grandes rishis conhecem minha origem pois Eu sou o
princípio absoluto dos deuses e dos grandes rishis.
3.Aquele
que Me conhece como inato e sem origem, senhor soberano do Universo,
está livre do erro e do pecado.
4.Entendimento,
sabedoria, libertação do erro e da ignorância, paciência,
sinceridade, domínio de si mesmo, tranqüilidade de ânimo, prazer e
dor, miséria e prosperidade, coragem e medo,
5.mansidão,
eqüanimidade, alegria, ascetismo, liberalidade, glória e infâmia:
todas essas qualidades dos seres procedem de Mim.
6.Os
sete grandes rishis, os quatro kumâras e também os Manus de quem
emanam todas as gerações do mundo, participando de Meu ser, nasceram
de Minha mente.
7.Quem
conhece em essência Minha magnitude e Meu poder místico goza de uma
Yoga inalterável. Quanto a isso não há nenhuma dúvida.
8.Eu
sou a origem de todo ser, de Mim procede a obra do universo. Sabendo
disto, os sábios Me adoram em amorosa contemplação.
9.Com
o pensamento fixo em Mim, tendo em Mim concentrada a sua vida,
instruindo-se uns aos outros e falando de Mim sem cessar, vivem
satisfeitos e felizes.
10.A
estes homens que se consagram à união mística e Me servem com amor.
Eu lhes inspiro aquela devoção baseada no conhecimento, através da
qual chegam a mim.
11.Movido
pela compaixão e residindo em sua alma, dissipo neles as trevas
nascidas da ignorância, através da luz refulgente da sabedoria.
Fala
Arjuna:
12.Tu
és o supremo Brahma, a glória suprema, a suprema pureza, o espírito
perpétuo e divino, a divindade original, sem princípio, onipresente
e o Senhor todo-poderoso.
13.Os
sábios mais eminentes, Nárada, Assita, Devala e Vyassadeva, declaram
tudo isso a Teu respeito. E agora ouvi de Teus lábios a mesma
declaração.
14.Creio
firmemente na verdade de Tuas palavras, ó Keshava, porque nem os
deuses nem os dânavas Te conhecem, Senhor bendito.
15.Apenas
Tu conheces a Ti mesmo, por Ti mesmo, ó Puruchottama, autor de todas
as coisas, rei dos seres, deus dos deuses, Senhor do Universo.
16.Apenas
Tu podes mostrar-me sem reservas teus divinos atributos, graças aos
quais penetras estes mundos.
17.Como
poderei eu conhecer-Te, através de meditação contínua. Senhor de
poderes misteriosos? Sob que forma especial me será dado
considerar-Te, divino Senhor?
18.Fala-me
em detalhe de teu poder misterioso e de tuas divinas perfeições,
Janârdana, e fala mais e mais, pois tuas palavras são para mim o
néctar da imortalidade e por mais que eu Te ouça, nunca me sacio.
Fala
Krishna:
19.Assim
seja: vou enumerar-te meus atributos divinos, ainda que me limite
aos principais, ó melhor dos kurus, pois não há limites para minha
grandeza.
20.Eu
sou, ó Gudâsheza, o espírito entronizado no coração de todas as
criaturas.
21.Entre
os adityas sou Vishnu; entre as luzes, o Sol radiante; sou Marîchi
entre os maruts; a Lua, entre as estrelas.
22.Entre
os Vedas sou Sâma-Veda; Vâsava, entre os deuses; o
sentido eterno, entre os sentidos; a inteligência nos seres vivos.
23.Sou
Zankara entre os rudras e Vitteza entre os yakshas e râkshasas;
Pâvaka entre os vasus e o Meru entre os picos elevados.
24.Sabe,
filho de Prithâ, que entre os sacerdotes Eu sou Brihaspati; entre os
chefes guerreiros sou Skanda e entre as águas, sou o oceano.
25.Sou
Brighu entre os grandes rishis; entre as palavras sou a sílaba OM
(); entre os sacrifícios sou japa; entre as montanhas, o Himalaia.
26.A
figueira sagrada entre as árvores; Nârada entre os rishis divinos;
Chitraratha, entre os cantores celestes e o inspirado asceta Kapila
entre os siddhas.
27.Sabe
que entre os cavalos sou Uchchaizravas, ó tu que nasceste do néctar;
sou Airâvata entre os nobres elefantes e entre os homens sou o
soberano.
28.Entre
as armas Eu sou o raio; Kamadhuk entre os rebanhos; Kandarpa, entre
os que têm descendentes e Vâsuki entre as serpentes.
29.Sou
Ananta entre os nagas; Varuna entre os habitantes da água; Aryaman
entre os antepassados e Yama entre os juízes.
30.Entre
os daityas sou o Prahlâda; entre as medidas, o tempo; entre os
animais selvagens sou o rei dos animais e entre os seres alados,
Vainateya.
31.Entre
os agentes purificados sou o vento; sou Râma entre os guerreiros;
Makara entre os peixes e Jâhnavi entre os raios.
32.Sou
princípio, meio e fim de todas as coisas criadas, Arjuna; entre as
ciências sou a ciência do espírito supremo e sou o argumento Vâda
entre os que discutem.
33.Sou
a vogal A entre as letras; o composto copulativo entre as palavras
compostas. Sou o tempo infinito, o mestre ordenador, cujas faces
estão em toda parte.
34.Sou
a morte que tudo arrebata e o nascimento de tudo que adquire vida.
Entre os atributos femininos sou a glória, a beleza, a eloqüência, a
memória, a inteligência, a constância e a misericórdia.
35.Sou
também o grande hino entre os hinos do Sama-Veda; entre as
formas métricas sou Gâyatri; sou Mârgazircha entre os meses, e a
primavera entre as estações.
36.No
aventureiro sou o espírito de risco; no forte, a força. Sou a
resolução, a perseverança e a vitória; a verdade do verdadeiro e a
bondade do bem.
37.Entre
os descendentes de Vrishni sou Vâsudeva; entre os filhos de Pându
sou Dhananjaya; Vyâsa entre os munis e, entre os sábios, o sábio
Ushanâ.
38.Soua
soberania dos que reinam, a tática dos que querem triunfar. Sou o
silêncio do segredo e a sabedoria dos sábios.
39.Sou
o germe de todos os seres, Arjuna. Sem Mim não há coisa alguma,
animada ou inanimada que possa existir.
40.Meus
atributos divinos não tem fim, ó perseguidor de inimigos. O que
acabo de mostrar-te é apenas uma amostra de minha glória infinita.
41.Tudo
quanto há de sublime, perfeito e poderoso, entende, Arjuna, que é
produto de uma partícula de minha grandeza.
42.Mas
que necessidade tens de conhecer todos esses detalhes, Arjuna? Sabe
que o Universo se constituiu e se mantém apenas com uma parcela
infinitesimal de Mim mesmo. |
Canto XI
A Visão da Forma Cósmica
de Deus
|
Fala Arjuna:
1. Meu erro se desvaneceu ao
escutar tuas palavras sobre o supremo mistério do Adhyâtma, que para
meu bem me revelastes.
2. De Teus lábios aprendí em
detalhe a origem e a dissolução dos seres, ó Tu de olhos de lótus,
assim como sua eterna grandeza.
3. Gostaria de contemplar tua forma
soberana, Senhor supremo, tal como me foi descrita por Ti, ó
Puruchottama.
4. Se julgas possível para mim
semelhante visão, mostra-Te a meus olhos, senhor da yoga, em Tua
totalidade.
Fala Krishna:
5. Contempla, filho de Prithâ,
minhas centenas de milhares de formas divinas, todas variadas, de
diversas cores e formas.
6. Contempla os adytyas, os vasus,
os rudras, os ahvins e os maruts. Admira, filho de Bharata, esta
multidão de maravilhas até agora nunca vistas.
7. Contempla hoje aqui o Universo
inteiro, animado e inanimado, reunido em Meu corpo, Gudâkesha, e
tudo aquilo que desejes ver.
8. Mas não é possível que me vejas
com teus olhos. Dou-te, pois, um olho divino. Contempla-Me agora em
minha Yoga divina.
Fala Sanjaya:
9. Tendo assim falado, ó Rei, Hari,
Senhor da Yoga, mostrou a Pârtha Sua forma suprema de divindade
infinita, com rostos voltados para toda parte,
10. que contém em si todas as
maravilhas do existente, que multiplica infinitamente todas as
esplêndidas manifestações de Seu ser, uma divindade vasta como o
Mundo, que vê através de inumeráveis olhos e fala através de
inúmeras bocas, brandindo armas refulgentes,
11. gloriosa em seus ornamentos
divinos, vestida com um raio celeste de divindade, suave com suas
guirlandas de flores divinas, envolta em divinos aromas.
12. Tão luminoso era aquele ser
magnânimo como mil sóis que surgissem juntos no firmamento.
13. O Mundo inteiro, múltiplo e no
entanto uno era visível no corpo do Deus dos deuses.
14. E então, maravilhado,
estupefato e amedrontado Dhananjaya prosternou-se e, juntando as
mãos, dirigiu-se à divindade:
Fala Arjuna:
15. Em Teu corpo, ó Deus, contemplo
todos os deuses e as inúmeras variedades de seres ao lado de Brahma,
sentado em seu trono de lótus, e todos os rishis e serpentes
divinas.
16. Vejo braços, ventres, olhos e
bocas inúmeros, mas não vejo em Ti, origem, meio ou fim, ó Senhor do
Universo, forma universal.
17. Vejo-Te com a fronte cingida
pela tiara e armado com a maça e o disco, mas mal posso
distinguir-Te pois és por toda parte a meu redor uma massa luminosa
de energia, imensurável, resplandescente como o fogo e como o Sol.
18. Tu és o imortal e o mais
sublime de todos os seres que se possa conceber, sustentáculo e
morada do Universo; perene guardião da lei eterna e causa perpétua
de tudo quanto existe.
19. Em Ti não há princípio, meio ou
fim; Teu poder é imenso; infinitos são Teus braços; Tens por olhos o
Sol e a Lua; Teu rosto é flamejante como o fogo do sacrifício e com
Tuas irradiações abrasas este Universo.
20. Apenas Tu preenches o espaço
entre o céu e a Terra. Os três mundos estremecem, ó ser magnânimo,
ao contemplar Tua forma tremenda e prodigiosa.
21. A Ti acorrem as legiões de
deuses; alguns deles cheios de temor Te invocam, juntando as mãos.
"Salve!", exclamam em coro as multidões de grandes rishis e siddhas,
louvando-Te em cânticos sublimes.
22. Os rudras, adityas, vasus,
sâdhyas, vishvas, ashvins, maruts e uchmapas, assim como os músicos
celestes, yashkas, asuras e sidhas Te contemplam todos maravilhados.
23. Os mundos se amedrontam como
eu, ó Tu de braços poderosos, ao ver Tua forma monstruosa, com
tamanha profusão de bocas e olhos, tantos braços pernas e pés,
tantos ventres e dentes ameaçadores.
24. Pois ao ver-Te tocando o céu,
resplandecendo em diversos matizes, ao contemplar Tuas bocas
desmesuradamente abertas e Teus olhos enorme e fulgurantes, minha
alma estremece, ó Visnhu, perco a paz e sinto-me desfalecer.
25. Quando vejo tuas bocas armadas
de dentes ameaçadores e ardentes como o fogo devorador do fim do
mundo, meu ânimo se conturba e a alegria me abandona. Tem piedade de
mim, Senhor dos deuses, coluna do Universo.
26. Os filhos de Dhritarashtra
juntamente com os exércitos dos reis e dos heróis, Bhisma, Drona,
Suta e Karma, com o escol dos nossos guerreiros.
27. Todos eles somem nas terríveis
fauces, nesse abismo eriçado de dentes - ai! quantos vejo de membros
dilacerados, suspensos por entre esses dentes pontiagudos!...
28. Quais torrentes, em veloz
demanda do mar, assim vejo a flor de nossos heróis a
precipitarem-se, irresistíveis, nas fauces hiantes de fogo...
29. Como mariposas enlouquecidas
pela luz encontram morte súbita na chama, assim vão esses mundos,
sem cessar, ao encontro da destruição...
30. Devorando com teus lábios de
fogo, engoles todos os mortais; tua luz pervade os mundos, Senhor, e
teus raios aniquilam todos os povos.
31. Quem és tú, nessa forma
terrífica?... Curvo-me diante de Ti... De todo o coração anelo por
conhecer-Te - mas não compreendo a Tua revelação...
Fala Krishna:
32. Eu sou o tempo eterno, o
destruidor dos mundos; eu destruo qualquer gênero humano; de todos
os guerreiros que aqui contemplas, não sobreviverá um só.
33. Ergue-te, pois, e reveste-te de
coragem! Conquista vitória e glória! O meu poder já derrotou o
inimigo - seja teu braço apenas o instrumento do meu poder!
34. Esmaga-os todos. Drona e
Bhisma, Jayadratha e Karma e todos os demais guerreiros valentes. Eu
já os matei. Não temas! Lança-te à luta - e serás vencedor!
Fala Sanjaya:
35. Depois de ouvir estas palavras,
ergueu Arjuna as mãos com reverência ao Senhor dos mundos e, repleto
de temor, com os lábios trêmulos, assim falou a Krishna:
Fala Arjuna:
36. Com razão, ó Krishna, exulta o
mundo em Tua luz e glória. Fogem espavoridos, os gigantes, e os
anões tombam a Teus pés.
37. Só a Ti compete a glória, ó
soberano dos mundos; mais alto que Brahman, o criador, és Tu a causa
primeira, o Ser Supremo, o Deus dos deuses que habitam o Universo.
Tu, o uno, que existes e inexistes, porque trancendes um e outro.
38. Tu és a divindade primordial, o
antigo princípio gerador, o supremo receptáculo de todo o cosmo; és
aquele que conhece e o objeto do conhecimento, a morada suprema; o
Universo está pleno de Ti, ó senhor todo-poderoso.
39. Tu é o Deus do ar, o Deus do
fogo, o Deus dos oceanos e o Deus dos mortos; és a Lua, o gerador e
o bisavô do mundo. Louvado sejas mil e mil vezes!
40. Adoro-Te diante de Ti, a Tuas
costas, e por toda a parte, ó Tu qie és o todo! Imenso é Teu poder,
infinita Tua força; em Ti se encontram todas as coisas, portanto és
o todo.
41. Se considerando-Te como simples
amigo fui irreverente dizendo:"Krishna, Yâdava, meu amigo"; se
desconhecí Tua inefável majestade, seja por inadvertência, seja
porque me cegara o afeto;
42. Se Te odendí algum dia,
brincando, estando deitado ou à mesa, a sós ou em companhia de
outros, imploro o Teu perdão, Deus imenso e inconcebível.
43. Tu és o pai do mundo animado e
inanimado, és digno de veneração e o mais respeitável mestre
espiritual. Não há nada que possa igualar-Te, como poderia alguém
superar-Te, se nos três mundos é sem par Tua grandeza?
44. Prostrado pois, humildemente a
Teus pés, imploro Tua clemência, ó ser digno de louvor. Perdoa-me
senhor, como o pai perdoa o filho; o amigo, o amante, sua amada!
45. Meu coração se rejubila ao ver
a maravilha até agora oculta a todos os olhares, mas ao mesmo tempo
se sobressalta temeroso. Mostra-Te pois, em Tua forma; ouve meus
rogos, Senhor dos deuses, sustentáculo dos mundos.
46. Anseio por ver-Te como antes,
coroado com a tiara empunhando a maça e o disco. Assume de novo Tua
forma de quatro braços, ó Tu que estás dotado de mil braços e formas
inumeráveis.
Fala Krishna:
47. Por uma graça especial e em
virtude de meu poder místico, revelei-te, Arjuna, minha forma
suprema, gloriosa, infinita, universal e primitiva, que até o
presente, ninguém além de ti pôde admirar.
48. Nem pelo estudo dos Vedas,
nem através de sacrifícios, dádivas, obras piedosas e mortificações
acerbas, nenhum mortal, além de ti, pode alcançar semelhante visão,
ó príncipe dos kurus.
49. Não tenhas receio, nem te
conturbes por essa visão terrível. Afasta o temor, alegra-te e
contempla Minha outra forma.
Fala Sanjaya:
50. Dizendo isso, Vâsudeva
manifestou-Se novamente em sua forma humana. Mostrando-Se assim em
sua forma plácida, o Senhor magnânimo tranqüilizou o aterrado
Arjuna.
Fala Arjuna:
51. Ao ver-Te novamente em Tua
aprazível forma humana, ó Janârdana, minha razão serena e a calma
renasce em meu peito.
Fala Krishna:
52. A forma superior que acabas de
admirar, raramente pode ser percebida. Mesmo os deuses anseiam por
contemplá-la.
53. Mas ninguém pode ver-Me tal
como Me vistes, nem pelo estudo dos Vedas, nem à custa de
mortificações, esmolas e oferendas.
54. Somente através de uma
dedicação exclusiva a Mim é possível conhecer-Me em essência e
entrar em Meu ser, ó terror de teus inimigos.
55. Aquele que se torna instrumento
de minhas ações, que faz de Mim a meta suprema de seus anseios e Me
serves com devoção, livre de apegos e de inimizade por qualquer
criatura vem a Mim, ó filho de Pându. |
Canto
XII
Do Amor
Universal
|
Fala Arjuna:
1. Entre os homens piedosos, quem
tem maior conhecimento da Yoga: os que Te adoram com devoção
constante, ou os que adoram o imperecível imanifesto?
Fala Krishna:
2. Aqueles que com o pensamento
fixo em Mim, Me servem com assídua devoção e fé inquebrantável, são
a meu ver os que melhor praticam a Yoga.
3. Mas aqueles que adoram o
imperecível e o inefável imanifesto, que é onipresente,
inconcebível, excelso, imutável e eterno,
4. Dominando todos os sentidos e
órgãos de ação, guardando perfeita equanimidade, regozijando-se com
o bem de todas as criaturas, esses certamente também chegam a Mim.
5. Aqueles, cujo pensamento se
dirige ao Imanifesto, enfrentam grandes dificuldades, pois os seres
encarnados, só com muito trabalho, alcançam a meta imanifesta.
6. Mas aqueles que Me entregam
todos os seus atos, para quem Eu sou a meta suprema de suas
aspirações, e que, meditando em Mim, Me adoram com devoção
exclusiva,
7. Eu os salvo sem demora do oceano
da existência ligada à morte, filho de Prithâ, pois seu pensamento
está fixo em Mim.
8. Dirige pois, só a Mim teu
pensamento, deposita em Mim tua razão e, sem dúvida, viverás em Mim
depois da morte.
9. Mas se não tens aptidão para
fixar com persistência teu pensamento em Mim, procura alcançar-me, ó
Dhananjaya, com a Yoga da perseverança.
10. Se tampouco te sentires capaz
de tal esforço, dedica-te à ação em minha honra; executando tuas
obras por amor a Mim, chegarás à perfeição.
11. Mas se isso ainda exceder as
tuas forças, recorre então à devoção a Mim e subjugando-te a ti
mesmo, renuncia ao fruto de tuas obras.
12. Porque, na verdade, melhor que
o esforço perseverante é o conhecimento; melhor que o conhecimento é
a meditação, e preferível à meditação é a renúncia ao fruto de tuas
obras.
13. O homem que não odeia nenhum
ser vivente, benévolo e compassivo, desinteressado e isento de
amor-próprio, inalterável na ventura e na desventura, sofrido,
14. sempre contente e aplicado à
Yoga, dono de si mesmo, firme em seu propósito, com o coração e o
entendimento dedicados a Mim. tal homem é amado por Mim.
15. Aquele que não perturba o
mundo, nem se deixa perturbar por ele, que está livre das emoções
nascidas da alegria, aversão, temor e inquietude, é amado por Mim.
16. O homem indiferente (às coisas
terrenas), puro, correto, desapaixonado, de ânimo sereno, que
renunciou à toda ação e é Meu devoto, é amado por Mim.
17. Aquele que não sente prazer ou
aversão, não abriga tristeza ou desejos, que não distingue
acontecimentos felizes e infelizes e é Meu devoto, é amado por Mim.
18. Aquele que se mostra o mesmo
diante do amigo e do inimigo, inalterável na honra e na desonra,
impassível no frio e no calor, no sofrimento e no prazer; aquele que
está livre de afeições,
19. que vê da mesma forma a lisonja
e o insulto e vive silencioso, contente e feliz com tudo que lhe
acontece, sem lugar, mantendo a mente firme e o coração cheio de
fervor, tal homem é amado por Mim.
20. Mas aqueles que fazem de Mim
sua finalidade suprema e única e que seguem até o fim, com fé e
perseverança, o dharma que acabo de expor e que leva à imortalidade,
esses são amados com predileção |
Canto
XIII
Relação entre
corpo e alma
Fala Arjuna:
1. O que é matéria e o que é espírito? O que
significa "meio", e "conhecedor do meio"?. O que é conhecimento e ojeto do
conhecimento? Eis o que desejo saber, ó Keshava.
Fala Krishna:
1. Este corpo, filho de Kuntî, é chamado meio e
aquele que o conhece é chamado pelos sábios de conhecedor do meio.
2. Sabe também que Eu sou o conhecedor do meio
em todos os meios, filho de Bharata. A ciência que abarca o meio e o conhecedor
do meio, é a meu ver o que constitui a verdadeira sabedoria.
3. Escuta agora o que vou expor-te sobre o que
é o meio, suas qualidades, modificações e origens, assim como sobre o que é o
espírito e quais são seus poderes.
4. Ele já foi celebrado de várias maneiras
pelos rishis nos diversos hinos védicos e também nos Brahma-sûtras que dele
apresentam a análise racional e filosófica.
5. A energia imanifesta, indiscriminada; os
cinco estados elementares da matéria; os dez sentidos e o sentido interno e os
cinco domínios dos sentidos;
6. atração e aversão, prazer e dor,
consciência, resistência e o organismo; eis o que constitui o meio e suas
diversas modificações.
7. Modéstia, sinceridade, mansidão, paciência,
retidão, submissão ao mestre, pureza, constância, domínio de si mesmo;
8. indiferença pelos objetos dos sentidos,
falta de egoísmo, reflexão sobre os males inerentes ao nascimento, decrepitude,
enfermidade, dor e morte;
9. desinteresse, ausência de idolatria pelos
filhos, esposa, moradia e tudo o mais; contínua igualdade de ânimo nos
acontecimentos agradáveis e desagradáveis;
10. constante, fervorosa e exclusiva devoção a
Mim, retiro em lugares solitários, aversão ao Mundo;
11. aplicação assídua ao conhecimento do
supremo espírito e reflexão sobre o bem que decorre do conhecimento da verdade;
eis em que consiste a sabedoria; tudo que se opõe a isso é ignorância.
12. Vou mostrar-te agora o que se deve
conhecer; aquele, através de cujo conhecimentos se alcança a imortalidade: o
eterno e supremo Brahma, que não é qualificado nem como ser, nem como não-ser.
13. Suas mãos e seus pés estão por toda parte à
nossa volta, suas cabeças, seus olhos e suas bocas são esses rostos inúmeros que
vemos por toda a parte, seus ouvidos estão em toda parte, seus ouvidos estão em
toda parte; incomensurável Ele preenche e envolve todo o Universo. Ele é o ser
universal e nele vivemos.
14. Carecendo de sentidos, reflete-se em todas
as funções sensitivas; desligado de todas as coisas, é seu suporte e isento de
qualidades, participa de todas elas.
15. Encontra-se dentro e fora de todos os
seres, é imóvel e ao mesmo tempo dotado de movimento, é imperceptível em sua
sutileza extrema, e está ao mesmo tempo próximo e distante.
16. Indivisível, parece dividir-se em formas e
criaturas distintas, sustentáculo de todos os seres, éo que as engendra e
devora.
17. Luz de todas as luzes, brilha acima das
trevas profundas. É o conhecimento e o objeto do conhecimento que reside em
todos os corações.
18. Assim, brevemente expliquei-te o que é o
meio, o conhecimento e o objeto do conhecimento. Meu devoto, sabendo isto, entra
em minha essência.
19. Entende que tanto a matéria como o espírito
não tem princípio e sabe igualmente que as modificações e qualidades nascem da
matéria.
20. A matéria é considerada o agente produtor
de causa e efeitos, enquanto que o espírito é o princípio que experimenta as
sensações de prazer e dor.
21. Pois desde que o espírito reside na
matéria, experimenta as (influências das) qualidades nela originadas; e seu
apego a tais qualidades é causa de sua reencarnação em uma matriz boa ou má.
22. Testemunha, fonte de assentimento,
experimentador, Senhor soberano e também Eu supremo, assim é o supremo espírito
que habita este corpo.
23. Aquele que assim conhece o espírito e a
matéria com suas qualidades, seja qual for sua condição, deixa de estar sujeito
ao renascimento.
24. Este conhecimento pode ser alcançado pela
meditação anterior, através da qual o Eu eterno se revela em nós mesmos, ou pela
Sânkhya-yoga, ou ainda pela ypga da ação.
25. Existem alguns que, ignorando estes
caminhos da yoga, meditam sobre o que ouviram de lábios alheios. Também eles,
atendo-se de coração ao que ouviram, libertam-se da morte.
26. Sabe, príncipe dos Bhâratas, que todos os
seres existentes, animados ou inanimados, são produto da união do meio e do
conhecedor do meio.
27. Vê a verdade aquele que percebe o Senhor
excelso presente da mesma forma em todas as criaturas, imperecível no seio do
perecível.
28. Aquele que vê o senhor sempre igual, como
habitante espiritual de todas as forças, todas as coisas e todos os seres, não
se perde a si mesmo e, desta forma, atinge a meta suprema.
29. Também vê a verdade aquele que percebe que
todas as ações são executadas pela matéria, e que o espírito permanece ativo.
30. Quando reconhece que todas as numerosas
variedades de seres radicam no Uno e somente d'Ele procedem, alcança Brahma.
31. Carecendo de princípio e estando isento de
qualidades, o imperecível espírito supremo não age, nem é maculado pela ação,
ainda que esteja alojado no corpo, filho de Kuntî.
32. Assim como o éter, que tudo penetra, não é
afetado por nenhuma impureza graças a sua sutileza, o espírito, presente em
todas as partes, permanece imaculado no corpo.
33. Como um único Sol ilumina toda a terra, o
Senhor do meio ilumina todo o meio, ó descendente de Bhârata.
34. Aqueles que, com o olho da sabedoria, vêem
desta forma a diferença entre o meio e o conhecedor do meio, e como os seres se
libertam da matéria, atingem o supremo.
Canto XIV
Vitória
sobre as Três Forças da Natureza
|
Fala Krishna:
1. Vou continuar te expondo a
ciência das ciências, a mais eminente de todas, através da qual
todos os sábios contemplativos atingiram a perfeição suprema.
2. Recorrendo a tal conhecimento,
identificados comigo, não renascem ao chegar o tempo da emanação,
nem são atingidos pela dissolução universal.
3. O grande Brahma é minha matriz e
nela eu deposito a semente que dá origem a todos os seres, fillho de
Bhârata.
4. Qualquer que sejam as matrizes
em que tenham sido engendrados os corpos, o grande Brahma é a vasta
matriz de todos eles, filho de Kuntî, e Eu sou o pai que atira a
semente.
5. As três qualidades, nascidas da
natureza material, sattva, rajas e tamas, aprisionam no corpo o
imperecível e imutável Senhor do corpo, ó tu de braço poderoso.
6. Entre elas a qualidade sattva,
po sua pureza, luminosa e saudável, prende (o Eu) pelo apêgo à
felicidade e à sabedoria, ó tu que não tens pecado.
7. Sabe que rajas, cuja natureza é
passional, sendo origem de afeições e desejos, filho de Kuntî,
encadeia o senhor do corpo pelo apego à ação.
8. Mas sabe também, ó descendente
de Bhârata, que a qualidade tamas, nascida da ignorância, confunde
todas as almas, escravizando-as pela negligência, indolência e pelo
sono.
9. Sattva produz apego à
felicidade; rajas à ação; enquanto tamas, turvando o conhecimento,
prende à insensatez.
10. Subjugadas rajas e tamas,
predomina sattva, ó filho de Bhârata, dominadas sattva e tamas,
predomina rajas e subjugadas sattva e rajas, predomina tamas.
11. Quando em todas as portas do
corpo resplandece a luz da sabedoria, pode-se saber que sattva está
em seu apogeu.
12. A ambição, a cobiça, a
atividade, o ardor das empresas, a inquietação e o desejo do
predomínio de rajas, ó príncipe dos Bhâratas.
13. A cegueira, a inércia, a
insensatez e a confusão nascem do incremento de tamas, ó filho de
Kuntî.
14. Se prevalece sattva quando o
mortal chega à dissolução do corpo, ele se encaminha às regiões
puras daqueles que possuem grande sabedoria.
15. Se, ao ocorrer a morte, se
encontra sob o domínio de rajas, renasce entre aqueles que estão
afeitos à ação; mas se em tal momento, prepondera tamas, se
reencarna em matrizes de criaturas irracionais.
16. O fruto de uma boa obra é
qualificado de puro e sáttvico, enquanto a dor é conseqüência de
rajas e a ignorância resulta de tamas.
17. De sattva provém a sabedoria;
de rajas se origina a cobiça e de tamas nascem a insensatez, a
confusão e a ignorância.
18. Quem está sob a influência de
sattva se eleva; quem se apega a rajas permanece na região
intermediária e quem está submerso em tamas desce às regiões
inferiores, sob o peso da pior das qualidades.
19. Quando o homem percebe que não
há outro agente além das três qualidades e descobre Aquele que está
acima delas, entra em meu ser.
20. Quando a alma se eleva acima
destas três qualidades, de que se originam os corpos, liberta-se da
sujeição ao nascimento e à morte, decrepitude e sofrimento e bebe o
néctar da imortalidade.
Fala Arjuna:
21. Quais são os sinais que
distinguem o homem que se elevou acima das três qualidades, Senhor?
Qual é a sua conduta de vida e como chega a superar essas três
qualidades?
Fala Krishna:
22. Aquele que em presença da
lucidez, atividade e confusão não sente aversão por elas, nem as
deseja em sua ausência;
23. aquele que permanecendo
passivo, não se sente impulsionado pelas três qualidades e se mantém
tranqüilo e alheio a elas dizendo: "Isto é a ação das três
qualidades";
24. aquele que, inalterável no
prazer e na dor, vive no Eu, contemplando com a mesma indiferença o
barro, a pedra e o ouro, mostrando-se o mesmo no prazer e desprazer,
no elogio e no insulto, firme,
25. indiferente na glória e na
ignomínia, assim como emface do amigo e do inimigo, alheio a todo
tipo de ação, esse homem superou as qualidades.
26. E quem Me serve com devoção
amorosa e exclusiva, superando as qualidades e está pronto para
participar da essência de Brahma.
27. Porque Eu sou o fundamento de
Brahma, do inesgotável néctar da imortalidade, da lei eterna e da
felicidade suprema |
Canto
XV
YOGA DO ALCANCE
DO PRINCÍPIO SUPREMO
|
Fala Krishna:
1. Eterno é chamado o ashvattha, a
figueira sagrada que tem suas raízes para cima e os ramos para
baixo; suas folhas são os hinos védicos, Quem o conhece, conhece os
Vedas.
2. Seus ramos se espalham para cima
e para baixo, nutridos pelas três qualidades; suas folhas são os
objetos dos sentidos. Suas raízes se estendem para baixo, os
vínculos da ação no mundo dos mortais.
3. Neste mundo não é possível
compreender sua forma real, seu começo, seu fim e sua base. Quando o
homem consegue derrubar esta árvore de raízes profundas com o
poderoso machado do desinteresse,
4. pode ir à procura daquela meta,
da qual desde que se consiga alcançá-la, não se retorna jamais.
Refiro-me àquele princípio primordial, de que brotou a antiga
emanação.
5. Aqueles que, isentos de orgulho
e erro, venceram o mal das afecções mundanas e vivem concentrados no
espírito supremo, tendo extinguido seus desejos, libertos dos pares
contrários denominados prazer e dor, encaminham-se sem desvio à meta
perdurável;
6. aquela esplendorosa meta que não
é iluminada nem pelo Sol, nem pela Lua, nem pelo fogo e de onde não
retornam aqueles que a alcançaram. Esta é minha morada suprema.
7. Uma parte eterna de mim mesmo,
convertida em espírito individual no mundo dos viventes, atrai o
sentido interno e os outros cinco sentidos que têm sua sede na
natureza material.
8. Quando o Senhor toma posse de um
corpo, ou quando o abandona, leva consigo o sentido interno e os
demais, assim como a brisa transporta o perfume das flores.
9. Pelo domínio que tem sobre o
ouvido, visão, tato, olfato e paladar, assim como sobre o sentido
interno, entra em relação com os objetos dos sentidos.
10. Os que vivem em erro não vêem o
Senhor ausentando-se ou permanecendo no corpo, ou experimentando
sensações, influenciado pelas qualidades; mas percebem-no, aqueles
que estão dotados do olho da sabedoria.
11. Através de seus esforços os
yogues o vêem situado neles mesmos; mas os insensatos, tendo a mente
mal preparada não o percebem, por mais que o desejem.
12. O esplendor desprendido pelo
Sol e que ilumina toda a Terra, assim como o da Lua e o do fogo,
sabe que procedem de Mim.
13. Penetrando na Terra, sustento
todas as criaturas com minha energia vital e transformado em soma
suculento, nutro todas as plantas e lhes dou sabor.
14. Transformado em calor penetro
no corpo de todos seres que respiram e, unindo-me ao ar inspiratório
e expiratório, produzo a digestão dos quatro tipos de alimentos.
15. Habito o coração de todos e de
Mim provêm a memória, o conhecimento e a provação de ambos. Sou o
que se deve conhecer em todos os Vedas; sou o autor da
Vedanta e o conhecedor dos Vedas.
16. Neste mundo há dois princípios:
um perecível e outro imperecível. O perecível é a totalidade dos
seres viventes; o imperecível é denominado o imutável.
17. Mas há outro princípio, o mais
elevado, a que se dá o nome de espírito supremo, o senhor eterno e
infinito que preenche e mantém os três mundos.
18. Porque sou superior ao
perecível e ao imperecível, o mundo e os Vedas me proclamam
princípio supremo.
19. Aquele que, livre de ilusão, Me
conhece como espírito supremo, Me adora com um conhecimento completo
e em todas as condições de seu ser natural.
20. Assim acabo de revelar-te a
mais misteriosa doutrina, ó tu que não tens pecado. Quem chega a
conhecê-la, merece o nome de sábio e toda sua obra está consumada, ó
descendente de Bhârata. |
Canto
XVI
O Destino dos
insensatos
|
Fala Krishna:
1. Valor, sinceridade, perseverança
na yoga do conhecimento, benevolência, domínio de si mesmo, devoção,
estudo dos livros sagrados, austeridade, retidão,
2. mansidão, veracidade, ausência
de cólera, abnegação, tranqüilidade de ânimo, ausência de
maledicência, compaixão por todos os viventes, impassibilidade
diante da tentação, doçura, modéstia, circunspecção,
3. energia, paciência, firmeza,
pureza, misericórdia, recato - tais são os dotes daquele que nasceu
na condição divina.
4. Hipocrisia, soberba, presunção,
ira, insolência e ignorância - tais são, filho de Prithâ, as
qualidades daquele que nasceu na condição demoníaca.
5. A qualidade divina conduz à
libertação; a demoníaca leva à escravidão. Mas não temas, filho de
Prithâ, tu nasceste na condição divina.
6. Neste mundo há duas linhagens de
seres: a divina e a demoníaca. A divina foi longamente descrita por
mim; escuta agora, filho de Prithâ, o que é a demoníaca.
7. Os homens de condição demoníaca
não sabem o que se deve e o que não se deve fazer; neles não se
encontra a pureza, nem boa conduta, nem veracidade.
8. "No Universo", dizem eles, "não
há verdade, nem base moral, nem Deus. Seu desenvolvimento não
obedece a um plano ordenado; é produto da união sexual. Não tem
outra causa além da sensualidade".
9. Baseados nessas idéias, esses
homens, de alma perdida, de fraco entendimento e de atos brutais,
aparecem como inimigos nascidos para ruína do gênero humano.
10. Escravos de desejos
insaciáveis, dissimulados, arrogantes e orgulhosos, o erro os induz
a noções falsas em todos atos de suas vidas agem movidos por
desígnios impuros.
11. Aferrado à sua perene idéia de
que tudo acaba com a morte, persuadidos de que o bem supremo
consiste na satisfação de seus desejos e que tudo se resume nisso;
12. aprisionados por centenas de
cadeias de expectativas, deixando-se arrastar por seus desejos e
paixões, procuram, apelando a meios ilícitos, acumular riquezas para
satisfazer seus apetites desordenados.
13. "Isto", dizem, "adquiri hoje,
satisfiz tal desejo; amanhã terei muito mais.
14. Matei este inimigo, assim
também me livrarei dos outros. Sou senhor dos homens, saboreio
prazeres, sou rico, poderoso e feliz;
15. Sou privilegiado e de berço
nobre. Quem pode se igualar a mim? Oferecerei sacrifícios,
distribuirei esmolas, gozarei a vida". Enganados por sua insensatez,
16. dispersos por uma multidão de
pensamentos, presos nas malhas da ilusão e entregues aos prazeres
sensuais, terminam caindo no inferno de seus próprios vícios.
17. Imbuídos de si mesmos,
obstinados, orgulhosos e posuídos pela embriaguez das riquezas,
oferecem hipócritamente sacrifícios vãos, por mera ostentação, sem
ater-se às prescrições do ritual.
18. Egoístas, violentos, vaidosos,
lascivos e coléricos esses maledicentes Me odeiam em seu próprio
corpo e no corpo alheio.
19. Mas esses homens cheios de
ódio, cruéis, impuros, escória da humanidade, Eu os condeno
perpétuamente às misérias da vida transmigratória, atirando-os em
matrizes demoníacas.
20. Caídos em tais matrizes
demoníacas, submergindo gradualmente no erro, de geração em geração,
sem nunca alcançar-Me, esses infelizes vão caindo até a condição
mais baixa.
21. São três as portas do inferno e
todas elas são causa de perdição para a alma: luxúria, avareza e
ira. Por isso é preciso fugir delas.
22. O homem que consegue escapar
destas três portas das trevas, filho de Kuntî cultiva sua própria
salvação, alcançando assim a meta suptrema.
23. Mas aquele que, desdenhando os
preceitos das escrituras, se entrega aos impulsos do desejo, não
alcança nem a perfeição, nem a felicidade, nem a meta suprema.
24. Faze pois, com que os livros
sagrados sejam tua norma na determinação do que se deve e do que não
se deve fazer. Conhecendo as regras das escrituras, age neste mundo
de acordo com elas. |
Canto
XVII
Os Três Motivos
de Agir
|
Fala Arjuna:
1. Qual é, ó Krishna, a condição
daqueles que, sem ater-se aos preceitos das escrituras, praticam o
culto com fé? É a de sattva, rajas ou tamas?
Fala Krishna:
2. Entre os mortais há três tipos
de fé, nascidas de sua natureza individual. A fé pode ser sattvica,
rajasica ou tamasica. Escuta adescrição das três.
3. A fé de cada pessoa, ó filho de
Bhârata, concorda com seu caráter. Cada um se constitui por sua
própria fé: tal é a fé, tal é o homem.
4. Os homens de índole sattvica,
adoram os deuses; os que têm caráter rajasico adoram os yashkas e os
râkshasas; e os de natureza tamasica prestam culto às sombras e aos
espíritos elementares.
5. Os homens que praticam acerbas
penitências, não prescritas nos livros sagrados, estando por outro
lado cheios de hipocrisia e egoísmo, deixando-se arrastar pela
violência de seus desejos e paixões;
6. torturando em sua insensatez o
conjunto de elementos do corpo, e também a Mim, que nele resido,
entenda que tais homens têm intenções demoníacas.
7. Os alimentos preferidos pelos
homens, assim como os sacrifícios, as penitências e as esmolas, são
de três tipos, correspondentes às disposições individuais. Ouve o
que os distingue.
8. Os alimentos que fortalecem a
vida, a energia, a saúde, a alegria e o bem-estar; os que são
saborosos, suaves, nutritivos e agradáveis são os alimentos
preferidos dos homens de temperamento sattvico.
9. Os homens dotados de um
temperamento rajasico preferem os alimentos ácidos, amargos,
salgados, picantes, muito quentes, áridos e ardentes, que propiciam
moléstias, dores e enfermidades.
10. Os alimentos passados,
rançosos, corrompidos, insípidos, restos de comida e pratos impuros
são os preferidos pelos homens de temperamento tamasico.
11. O sacrifício oferecido segundo
as prescrições da lei, sem esperança de recompensas, na convicção de
que tal ato é um dever, é de natureza sattvica.
12. O sacrifício oferecido com
intenção de obter favores, ou por hipocrisia, ó melhor dos Bhâratas,
é um ato de índole rajasica.
13. O sacrifício que é oferecido de
forma contrária à lei, sem fé, sem distribuição de alimentos,
recitação de textos sagrados, e sem o estipêndio do sacerdote, é um
ato de índole rajasica.
14. A veneração aos deuses, dvijas,
mestres espirituais e sábios; a pureza, retidão, castidade e
mansidão constituem a ascese do corpo.
15. A linguagem comedida, honesta,
verídica, agradável e proveitosa e também a leitura habitual dos
livros sagrados são a ascese da palavra.
16. Serenidade mental, doçura,
placidez, silêncio, domínio de si mesmo e pureza de ânimo é no que
consiste a ascese da mente.
17. Esta ascese tripla, praticada
pelos homens piedosos, com fé fervorosa se visar recompensa é dita
sattvica.
18. A ascese praticada com
hipocrisia, com a intenção de obter agasalho, respeito e honra, é
dita rajasica.
19. A ascese praticada com o tolo
propósito de torturar-se a si mesmo, ou de fazer mal a alguém, é
dita tamasica.
20. A esmola oferecida a uma pessoa
merecedora de tal benefício e que não possa retribuí-lo, com a idéia
de cumprir um dever e em tempo e lugar adequados, é sattvica.
21. Mas a esmola dada com
expectativa de retorno ou recompensa, ou dada de má vontade, é
rajasica.
22. A esmola distribuída a pesoas
indignas, com ar desdenhoso, sem guardar as devidas atenções e em
tempo e lugar inoportunos, é tamasica.
23. OM, TAT, SAT; é esta a tríplice
designação de Brahma, por ela foram criados em tempos antigos os
brâmanes, os Vedas e os sacrifícios.
24. Por essa razão os conhecedores
de Brahma jamais iniciam os atos de sacrifício, caridade ou
mortificação ordenados pela lei, sem antes pronunciar o monossílabo
OM.
25. Pronunciando o monossílabo TAT
e sem visar os frutos de suas obras, aqueles que anseiam pela
libertação aos diversos atos de sacrifício, penitência e esmola.
26. O monossílabo SAT é usado para
exprimir realidade e bondade; esta palavra também se aplica a obras
meritórias, filho de Prithâ.
27. A constância no sacrifício, na
penitência e na escola é também designada com a palavra SAT. Da
mesma forma, toda ação executada em honra daquele que se denomina
SAT.
28. Todo sacrifício, toda escola,
toda mortificação, ou qualquer outro ato praticado sem fé é chamado
a-sat, filho de Prithâ, e é completamente nulo, tanto nesta
vida como na futura. |
Canto
XVIII
Yoga da
Libertação Total
|
Fala Arjuna:
1. Gostaria de saber, ó Tu de braço
poderoso, qual é a verdadeira natureza da renúncia, ó
Hrishîkesha, a do abandono, assim como o que diferencia um do
outro, ó matador de Keshin.
2. Os sábios entendem por renúncia
a abstenção das ações sugeridas pelo desejo; e por abandono entendem
os que conhecem a renúncia ao fruto de todas as ações.
3. Afirmam alguns pensadores que
toda ação deve ser abandonada como um mal; enquanto outros declaram
que não se podem abandonar os atos de sacrifício, esmola e
ascetismo.
4. Escuta, pois, ó príncipe dos
Bhâratas, minhas conclusões acerca do abandono. Este é de três
tipos, ó esforçado guerreiro.
5. Não se deve abandonar os atos de
sacrifício, esmola e ascetismo. Tais obras devem ser praticadas,
pois o sacrifício, a esmola e o ascetismo são meios de purificação
para o sábio.
6. Mas mesmo essas obras devem ser
executadas de forma desinteressada, sem o menor apego a ela ou a
seus frutos. Esta é, filho de Prithâ, minha suprema e firme
convicção.
7. Na verdade, não é justa nem
conveniente a renúncia aos atos obrigatórios. O abandono de tais
atos, nascidos do erro, é de natureza tamásica.
8. Aquele que por temor a moléstias
corporais abandona alguma obra dizendo:"Isto é penoso", pratica um
abandono de natureza rajásica, enão recolhe o fruto de tal abandono.
9. Se alguém pensando: "Tal coisa
deve ser feita",executa uma obra prescrita, sem se apegar a ela ou a
seu fruto, Arjuna, pratica um abandono sattvico.
10. O homem sábio que, livre de
toda dúvida, pratica o abandono sob a luz de uma mente inteiramente
sattvica, não tem aversão às obras desagradáveis, nem apego às
agradáveis.
11. Na verdade não é possível um
ser encarnado abandonar completamente a ação, mas quem abandona o
fruto de suas obras é considerado um tyâgin (renunciador).
12. Pode ser de três tipos o fruto
da ação que, depois da morte, colhe o homem que não pratica o
abandono: bom, mau e misto. Mas não o recolhe em parte alguma aquele
que renuncia à ação.
13. Escuta agora, ó tu de braço
poderoso, meus ensinamentos sobre os cinco fatores que, segundo o
sistema Sânkhia, são necessários para a consumação de todo ato:
14. o corpo, o agente, os diversos
órgãos, as múltiplas funções e em quinto lugar a intervenção divina.
15. Toda ação, justa ou injusta que
o homem execute através do corpo, da palavra ou do pensamento, tem
por causa esses cinco fatores.
16. Assim, pois, aquele que, por
falta de conhecimento, considera seu Eu como único agente, tem a
inteligência distorcida e não vê.
17. Aquele que está livre de
egotismo e cujo entendimento não está ofuscado, ainda que mate todos
esses homens, não mata e não se prende a semelhante ação.
18. O conhecimento, o objeto
cognoscível e o conhecedor constituem o impulso para a ação. O
órgão, a operação e o agente são os três elementos que integram a
ação.
19. O conhecimento, a obra e o
agente são de três tipos, correspondentes a cada uma das três
qualidades. Ouve qual é a sua natureza.
20. Aquele conhecimento, graças ao
qual se percebe em todos os seres a mesma essência, única, imutável
e imperecível, indivisível no seio do divisível, é de natureza
sattvica.
21. Mas o conhecimento que vê
apenas a multiplicidade das coisas em sua existência distinta é um
conhecimento de natureza rajásica.
22. O conhecimento tamasico se
aplica a um objeto particular como se fosse o todo; é um
conhecimento mesquinho, desprovido de razão e alheio à realidade.
23. Uma ação obrigatória, executada
com desapego, sem prazer nem repugnância e sem expectativa de
recompensa, é chamada sattvica.
24. Mas aquela que é levada a cabo
com grande esforço pelo homem ansioso pela satisfação de seus
desejos, ou dominado pelo egotismo, é chamada uma ação rajasica.
25. Aquela que, originada do êrro,
é empreendida sem que se considere suas conseqüências, o dano ou o
prejuízo que possa acarretar a outros, e sem que se considere as
próprias forças, é chamada uma ação tamásica.
26. O agente, livre de afecções e
egoísmo, dotado de firmeza e energia, que não é afetado pelo êxito
nem pelo fracasso, é um agente sattvico.
27. O agente apegado, que aspira
aos frutos de suas obras, ambicioso, impuro e escravo da alegria e
da tristeza, é um agente rajasico.
28. O que se mostra negligente,
preguiçoso, torpe, teimoso, falso, malévolo, desanimado e moroso, é
um agente tamasico.
29. Há também três tipos de juízo e
de firmeza, correspondentes às três qualidades, conforme vou
expor-te em ordem e sem reserva, Oh Dhananjaya.
30. Aquele juízo que distingue a
ação e a inação, o que se deve e o que não se deve fazer, o temor e
a coragem, a escravidão e a libertação, é o juízo sattvico.
31. Aquele através do qual o homem
não distingue devidamente o bem e o mal, o justo e o injusto, o que
se deve e o que não se deve fazer, ó Pârtha, é um juízo rajasico.
32. Aquele que, envolto em trevas,
considera o mal como bem, o injusto como justo e vê todas as coisas
numa nuvem de concepções falsas, ó filho de Prithâ, é um juízo
tamasico.
33. Sattvica, ó Partha, é a firmeza
através da qual se reprime a ação do pensamento, dos alentos vitais
e dos órgãos dos sentidos em inalterável yoga.
34. Rajasica, no entanto, é a
firmeza, graças à qual o homem se atém aos deveres piedosos, ao
prazer e às riquezas, movido pelo desejo da recompensa, filho de
Prithâ.
35. É de natureza tamasica, ó
Parthâ, a firmeza obstinada que mantém o homem insensato imerso em
letargia, temor, tristeza, abatimento e embriaguez.
36. Escuta agora de meus lábios,
ilustre Bhâratha, o que se refere aos três tipos de. prazer. Aquele
prazer, que é obtido pela disciplina de si mesmo e que põe fim aos
pesares do homem;
37. aquele que de início parece
amargo veneno, mas que ao fim é como o néctar, sendo resultado da
placidez e do claro conhecimento do espírito, é um prazer sáttvico.
38. Aquele que, originado da
relação dos sentidos com os objetos sensíveis, é de início saboroso
como o néctar, mas ao fim se transforma em veneno amargo, é um
prazer rajásico.
39. Aquele que tanto no início como
ao final turva o ânimo e provoca letargia, indolência e insensatez,
é um prazer tamásico.
40. Nem na Terra, nem no céu entre
os deuses, existe uma só criatura que se ache isenta destas três
qualidades, nascidas da natureza material.
41. Entre os brâmanes, kshatriyas,
vaishyas e shûdras, ó terror de teus inimigos, foram distribuídos os
karmas, de acordo com as qualidades predominantes em suas
respectivas naturezas.
42. Serenidade, domínio de sí
mesmo, austeridade, pureza, paciência, retidão, conhecimento e
superconhecimento, fé nas coisas divinas, tal é o karma dos
brâmanes.
43. Heroísmo, arrojo, firmeza,
resolução, sagacidade, coragem no combate, generosidade e domínio,
tal é o karma dos kshatriyas, de acordo com sua natureza.
44. A agricultura, o pastoreio e o
comércio são o karma natural dos vaishyas. Finalmente, a servidão
constitui o karma inerente aos shûdras, originado de sua própria
natureza.
45. O homem que se aplica com
prazer a seu próprio karma, qualquer que seja, alcança a perfeição.
Escuta como alcança a perfeição aquele que se atém a seu karma.
46. Venerando, através do
cumprimento de seu próprio karma, Aquele de que emanaram todos os
seres e que preenche todo o universo, o homem alcança a perfeição.
47. Mais vale cumprir o dever
próprio, ainda que de modo imperfeito, do que o dever alheio, ainda
que com perfeição. Cumprindo o karma imposto por sua própria
natureza, o homem não incorre em pecado.
48. Ninguém deve recusar o karma
que lhe é inato, ainda que seja inferior, filho de Kûnti, pois toda
empresa está rodeada de imperfeições, como a chama é envolvida pela
fumaça
49. O homem cuja mente está livre
de todo apêgo, que se venceu a sí próprio e em quem estão extintos
os desejos, chega através da renúncia à perfeição suprema da inação.
50. Vou revelar-te em breves
palavras, filho de Kûnti como aquele que conseguiu tal perfeição
alcança a divindade, fim supremo do conhecimento.
51. Dotado de uma mente pura,
refreando- se com firmeza, isolado do ruído e dos demais objetos dos
sentidos, extirpando do peito o afeto e o ódio;
52. freqüentando paragens
solitárias, sendo frugal, dominando a palavra, o corpo e o
pensamento, consagrando-se assiduamente à yoga da contemplação,
fugindo de anseios e paixões;
53. livre de egoísmo, violência,
orgulho, concupiscência, cólera e de sentimento de posse, vivendo
com o ânimo tranqüilo, está pronto para unir-se a Brahma.
54. Unido a Brahma e mantendo o
animo sereno, o homem cessa de gemer e ansiar e mostrando-se igual a
todas as criaturas, alcança a suprema devoção a Mim.
55. Através dessa devoção, ele me
conhece em realidade: em minha verdadeira essência e em toda minha
grandeza. Desde que consiga conhecer-Me entra em mim.
56. Refugiado em Mim, ainda que se
aplique sem cessar a todo tipo de obras, chega, graças a Mim, à
morada eterna e imutável.
57. Renuncia, pois, mentalmente em
Mim a todas as obras, concentra em Mim todas as tuas aspirações e
entrega-te à devoção do conhecimento, mantendo o pensamento fixo em
Mim.
58. Pensando em Mim, vencerás por
minha graça todo tipo de perigos e dificuldades. Mas se levado pelo
orgulho te recusares a ouvir minhas palavras, perder-te-ás
irremissivelmente.
59. Se, confiando em ti mesmo,
pensas "eu não lutarei", inútil será tua resolução, pois a natureza
irá obrigar-te a lutar.
60. Preso por teu karma, nascido de
tua própria natureza, filho de Kuntî, farás exatamente o que te
obstinas em não fazer, ainda que contra tua vontade.
61. O Senhor, que mora no coração
de todos os seres, Arjuna, constrange-os, graças a seu poder de
ilusão, a executar sua revolução, como se estivessem presos a um
disco giratório.
62. Dirige-te a Ele com toda a
alma, em busca de refúgio, ó descendente de Bharata, e por sua
graça, obterás a paz suprema e perdurável.
63. Com isso, dei-te a conhecer
aquela sabedoria que é o mais recôndito dos mistérios. Medita com
vagar sobre ela e age como quiseres.
64. Mas escuta ainda minhas
palavras supremas que contém o maior dos mistérios. És meu amado e
tens firmeza de ânimo, por isso quero revelar-te o que resulta em
teu bem.
65. Concentra em Mim teus
pensamentos, serve-me devotadamente, rende-me fervoroso culto,
prostra-te diante de Mim e virás a Mim. Eu te prometo, pois é meu
amado.
66. Abandona toda prática religiosa
e refugia-te em Mim somente. Não temas: Eu te libertarei de todos os
teus pecados.
67. Não reveles jamais estas minhas
palavras ao homem sem devoção e sem ascetismo, ao que se recusa a
ouvir ou ao que me ultraja.
68. Mas aquele que revelar a meus
devotos este supremo mistério, servindo-me com esse ato de sublime
devoção, sem dúvida virá até Mim.
69. Pois ninguém entre os mortais
poderá oferecer-Me algo que Me seja mais caro, nem nenhum outro
homem na Terra será tão amado por Mim.
70. Quem se aplicar ao estudo de
nosso santo diálogo, estará Me oferecendo o sacrifício da sabedoria,
tal é minha determinação.
71. E mesmo o homem que, cheio de
fé, escutá-lo sem crítica ou menosprezo, livre, encaminhar-se-á às
regiões serenas e gloriosas dos justos.
72. Escutastes atentamente minhas
palavras, filho de Prithâ? Desvaneceu-se tua confusão, nascida da
ignorância, ó Dhananjaya?
Fala Arjuna:
73. Desvaneceu-se minha confusão.
Por Tua graça, Senhor Imortal, recebi a iluminação. Estou firme,
minhas dúvidas se dissiparam. Seguirei Teus preceitos.
Fala Sanjaya:
74. Assim ouvi o diálogo entre
Vâsudeva e o magnânimo filho de Prithâ; diálogo maravilhoso que fez
com que meus cabelos se eriçassem.
75. Por graça especial de Vyâsa
pude ouvir esse supremo mistério da yoga, revelado pelo Senhor da
yoga, pelo próprio Krishna, em minha presença.
76. Ó Rei! Cada vez que relembro
esse maravilhoso e santo diálogo entre Keshava e Arjuna, renova-se o
deleite em meu coração.
77. E sempre que me lembro daquela
prodigiosa transfiguração de Hari, aumenta o meu assombro, ó Rei e
se renova o prazer em meu peito.
78. Onde quer que esteja Krishna,
Senhor da yoga, e onde quer que esteja o arqueiro, filho de Prithâ,
lá reinam permanentemente a grandeza, a vitória, a prosperidade e a
justiça.
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