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Bilhetes Surrealistas ao Le Libertaire O que pensam, o que querem os Surrealistas
Entre outubro de 1951 e janeiro de 1953, os surrealistas colaboraram com o hebdomadário anarquista francês Le Libertaire. Aqui estão alguns de seus textos.
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Evolução Adonis Kyrou Seja nas famílias bem-comportadas, nas escolas tristes, nas escolas do domingo e dos outros dias da semana, ou nos cenáculos de velhotes condecorados, ferimentos de guerra e bons conselhos já encheram bastante nossos ouvidos com frases do gênero: “Vocês verão, o mundo evolui. Principalmente depois das guerras. E vocês evoluirão com ele... Sem choques, sem violências, tudo evolui... O progresso...” Pois bem, podemos hoje imaginar esse progresso. Após a guerra, e alguns anos do que os manuais de história denominarão paz, a evolução caminhou a passos de gigante. Deixemos a outros o cuidado de se ocupar da tecnologia (bombas atômicas, aviões a jato, televisão, iluminação indireta das igrejas, etc.) e voltemo-nos para os progressos morais, intelectuais, culturais, sobre “o espírito”, em resumo. É preciso confessar que houve uma bizarra evolução. Outrora, a mais pesada grosseria reinava, e toda palavra podia ser adivinhada de antemão graças a um rápido olhar ao uniforme, às luvas, ao chapéu do possuidor da boca anunciadora. Quando um padre encontrava outro padre, podia-se apostar que eles contariam, um ao outro, histórias de padre e quando um militar manejava sua pena em Gringoire, podia-se estar certo de que o resultado seria um artigo sobre a necessidade de uma boa e bela guerra que sacudiria os jovens de seu torpor. Hitler não escondia seu ódio pelos judeus e Chamberlain proclamava em todos os lugares seu amor pelos guarda-chuvas, enquanto o papa não cessava de elogiar Mussolini. Candide era fascista, L’Humanité stalinista e La Croix, cruz. Havia até mesmo uma “direita” que era orgulhosa de ser direita e colaborar, se fosse o caso, com os stalinistas para golpear a “esquerda” que lutava na Espanha. Hoje, acabaram-se as etiquetas, e procurando-se bem não se encontra sequer um gato que ouse miar para mostrar sua natureza de gato. O bom e velho hábito dos tiras à paisana prolifera. Deve ser a guerra que os aconselhou tão bem a todos. Eles compreenderam que para chegar a alguma coisa (de asqueroso, evidentemente) é preciso embaralhar as cartas, inverter os papéis, dizer o contrário, misturar as fumaças. Os monges, acreditando desmentir a ridícula “sabedoria das nações”, rejeitam a batina e sob falsas vestimentas camuflam-se cuidadosamente e colocam uma máscara. Não se apresenta mais o rosto nu, a mentira se tornou a melhor arma de propaganda e os “falsos” semeiam a confusão, graças à sua falsidade, atingindo, assim, seu objetivo (sempre o mesmo) com muito mais segurança. Os operários? Nunca se sabe: talvez sejam padres camuflados. A grande ambição dos padres é celebrar missas clandestinas nas privadas: sem dúvida que assim ganharão mais facilmente o reino dos céus. E o que dizer da camuflagem dos jornais, das peças de teatro, dos filmes de padres? Vêem-se garotas nuas, lêem-se histórias pornográficas e, por seu intermédio, chega-se sem dificuldade à conclusão de que – idêntico às imbecilidades evangélicas – tornou-se mais digestiva. É o que se chama “dourar a pílula”. E o papa fala livremente do amor, dá conselhos sexuais, como o primeiro psicanalista americano, esquecendo suas próprias aventuras com garotos quando ainda era aspirante ao trono. A direita? Não existe. Vocês conhecem reacionários? De Gaulle é socialista, Herriot grande revolucionário, Truman apóstolo da reforma social e todos falam da paz. Lá eles se juntam aos outros “grandes revoltados”, os stalinistas, que também trabalham pela paz, protegem as liberdades individuais, a justiça coletiva e a ... criação artística. Jornais que não pertencem a ninguém são comandados pelos stalinistas ou por seus irmãos em ignomínia, os atlânticos, mas esses jornais são todos livres e de tendência esquerdista porque não pertencem a ninguém. Quem disse a vocês que os negros eram linchados nos Estados Unidos da livre América? Negros vem nos assegurar que se trata de fofocas malévolas. Quem disse a vocês que nas democracias livres do Leste Europeu inocentes são condenados à morte? Os próprios acusados nos asseguram que são culpados. Quem disse a vocês que os povos da Espanha, da Grécia ou da Argentina morrem sob regimes dignos de Hitler e de Stalin? Documentos nos asseguram que se trata de regimes mais do que “democráticos”. Evolução em todos os lugares. Os falsos são estimados e para poder se exprimir, na imprensa ou alhures, é-se obrigado a permanecer estranho às idéias que se manipulam esquecendo suas próprias crenças. Os excrementos fétidos de um Salvador Dali são desnudados por que se trata de falsos, enquanto um grande pintor como Toyen viu fecharem as portas de uma galeria para ele porque, segundo lhe disseram em substância, “você é um verdadeiro surrealista, e só os falsos nos interessam”. A cultura evolui, a imprensa se encarrega disso: tudo o que é verdadeiro, sincero, é banido, tudo o que não bajula todo mundo, o burguês e seu pai, é mau. Inclusive o amor não ousa mais dizer seu nome, e as asquerosas aventuras dos ricaços, putas em vestidos de noite, príncipes e atores empoados tornaram-se o exutório daqueles que deveriam começar por amar, a fim de poder cuspir sobre a decomposição da ordem. Em breve, somente os pederastas, tendo à sua frente a sua prima-cocote Cocteau serão bem vistos, não somente por seus confrades, mas também pelos bem-pensantes, gênero Sartre, que, por excesso de cabotinismo, pisoteiam a liberdade. Os “revoltados” seguem Camus, eles falam da revolta, analisam-na, dissecam-na, e acabam por enterra-la (conscientemente ou não) sob seu escalpelo. Todos esses batráquios modelam as idéias, as palavras à sua imagem e essas idéias, essas palavras tornam-se em suas mãos monstruosidades, becos sem saída, vazios. Eles esperam, assim, que toda força explosiva deserte os grandes relâmpagos. Mas não é porque Camus viola a palavra “revolta” que a revolta lhe pertence. A revolta somos nós, e a revolta não sofre contatos impuros, permanece a revolta. O amor somos nós, e todos os Cocteau do mundo não macularão o amor. Continuaremos a amar e a nos revoltar e deixaremos os cães ladrarem. Assim forjaremos correntes que os manterão solidamente presos em seus canis fétidos. E saberemos sempre reconhecer um padre e um militar e um político e um falso pintor e um falso pacifista, sob qualquer aspecto que ele se apresente. Destruiremos sua camuflagem e lhe diremos: eu te esbofeteio porque sou libertário, porque sou surrealista, porque sou livre. E clamaremos o que somos sem nos escondermos por trás de mãos transparentes. E diremos a mesma coisa aos professores mormosos e declararemos as profecias dos velhotes, boas para os animais domésticos, e sua evolução murchará como um balão, com um barulho de peido libertador. Le Libertaire, 30 de maio de 1952
Generalidades “É preciso não somente que cesse a exploração do homem pelo homem, mas que cesse a exploração do homem pelo pretenso “Deus”, de absurda e provocante memória. É preciso que seja inteiramente revisado o problema das relações do homem e da mulher. É preciso que o homem passe, com armas e bagagem, para o lado do homem. Basta de flores sobre os túmulos, basta de instrução cívica entre duas aulas de ginástica, basta de tolerância, basta de engolir sapos!” André Breton, 1942
“O poeta não deve alimentar em outrem uma ilusória esperança humana ou celeste, nem desarmar os espíritos insuflando-lhes uma confiança sem limite num pai ou num chefe contra quem toda a crítica se torna sacrílega. Muito pelo contrário, cabe a ele pronunciar as palavras sempre sacrílegas e as blasfêmias permanentes!” Benjamin Péret, 1945
“Do seio da terrível miséria física e moral deste tempo, espera-se, sem desesperar ainda que energias rebeldes a toda a domesticação retomem pela base a tarefa da emancipação humana!” André Breton, 1948
Textos foram extraídos do livro “Surrealismo e Anarquismo – “Bilhetes Surrealistas” de Le Libertaire”, organizado por Plínio Augusto Coelho, editora Imaginário Outros Trabalhos: Bilhetes Surrealistas ao Le Libertaire Exposição Virutal de René Magritte Por uma Arte Revolucionária Independente No formato tradicional (papel). Clique sobre a figura. Por uma Arte Revolucionária Independente ANDRE BRETON LEON TROTSKI
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