Apparício Fernando de Brinkerhoff
Torelly, o Barão de Itararé, nasceu no
interior de uma diligência, no Estado do Rio Grande do Sul, em um local
próximo à fronteira com o Uruguai, no dia 29 de janeiro de 1895.
Em 1906 matricula-se,
como interno, no Colégio Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo-RS,
onde faz o seu primeiro jornal manuscrito, intitulado "Capim Seco",
com tiragem de um exemplar, em 1909.
Deixa o colégio após
cursar o 5º. ano ginasial, em 1911. Anos depois, por pressão familiar,
matricula-se na Faculdade de Medicina de Porto Alegre-RS.
"Pontas de Cigarros",
"versos diversos" e "poemas bem humorados", o primeiro e único livro com
seu nome verdadeiro, é publicado em 1916.
Em 1918, durante suas
férias, sofre um derrame quando andava a cavalo na fazenda de um tio.
Face ao problema surgido, abandona a Faculdade no 4º. ano e inicia
viagens pelo interior do estado, fazendo conferências sobre diversos
assuntos. Publica sonetos e artigos em jornais e revistas, como: "Kodak",
"A Máscara" e "Maneca". A partir de então, dedica-se exclusivamente ao
jornalismo. Nessa mesma época funda "A Noite e a Reação", "A
Tradição" e " O Chico", seu primeiro jornal de humor.
Casa-se com Alzira Alves, com quem tem três filhos: Ady, Ary e Arly.
Já separado, em 1925,
muda-se para o Rio de Janeiro. Começa a trabalhar no jornal "O Globo"
como articulista, tendo como padrinho Irineu Marinho,
Diretor-proprietário daquele matutino. Com sua morte, naquele mesmo
ano, Aparício Torelly desliga-se do jornal e, a convite de Mário
Rodrigues (pai de Nelson Rodrigues), ex-secretário do Correio da
Manhã, começa a escrever uma coluna na primeira página da que, no
futuro, seria "A Manhã". Com ele vai Andres Guevara,
ilustrador, que conhecera há pouco.
No dia 2 de janeiro de
1926 estréia n'"A Manhã" com a coluna intitulada "A manhã tem
mais...", assinada sob o pseudônimo de Apporelly. Diante da
boa receptividade que obteve, o humorista é levado a criar outra coluna,
também na primeira página.
Aproveitando-se da data,
em 13 de maio de 1926 abandona o emprego e funda seu próprio jornal, "A
Manha", um tablóide de circulação nacional. O jornal é um sucesso
completo, superando as fórmulas já velhas conhecidas dos leitores, como
"O Malho", "Fon-Fon" e "Careta".
Historia contada sobre
o autor: Corria o ano de 1928. Em Porto Alegre, uma conferência sobre
pesquisa para descobrir a causa da aftosa (doença que ataca o gado)
mobilizava um público atento. Getúlio Vargas, então deputado no Distrito
Federal (Rio de Janeiro), estava presente. O conferencista, dono de
argumentação técnica consistente, impressionava. No encerramento, disse:
- É imperioso que desenvolvamos esse tipo de pesquisa, para benefício do
Brasil, pois que uma vacina eficaz contra a aftosa tem grande
significado econômico.
Criado o clima de gran finale, aumentou a voltagem atmosférica, ao
desafiar, subitamente:
- Afinal de contas, quem é que somos nós? Repito: quem é que somos nós?
Ato contínuo, frente a uma platéia literalmente hipnotizada, o
conferencista começou a dançar e a cantar o conhecido hino: "Nós somos
da pátria amada, fiéis soldados...". E dançando e cantando saiu da sala.
Em 1929 "A Manha"
circula como encarte semanal do jornal "O Diário da Noite", por
quatro meses. O jornal, do conhecido Assis Chateaubriand, na primeira
semana dobra a tiragem, vendendo 15.000 exemplares, até atingir a marca
de 125.000 exemplares na data da publicação do programa da Aliança
Liberal.
Sempre irreverente, em
1930, com a revolução, o autor proclama-se Duque de Itararé,
herói da batalha que não houve. Semanas depois, rebaixa-se a Barão
como prova de modéstia. No dia 02 de setembro de 1932 é preso pela 4º.
delegacia auxiliar (responsável pela ordem política e social), após
"delirante atividade revolucionária" mantida nas páginas d' "A Manha"
e constantes estocadas contra o governo instalado pela revolução.
O ano de 1934 marca a
abertura do "Jornal do Povo", em outubro, em companhia de Aníbal
Machado, Pedro Mota Lima e Osvaldo Costa. Nos dez dias em durou, o
jornal publica em fascículos a história de João Cândido, um dos
marinheiros da revolta de 1910. O Barão é seqüestrado e
espancado por oficiais da marinha nunca identificados. Depois do
atentado retorna à redação e afixa uma placa na porta: "Entre sem
bater".
Preso, novamente, em 09
de dezembro de 1935, por ser militante e um dos fundadores da Aliança
Nacional Libertadora, permanece "em cana" durante todo o ano de 1936,
primeiro a bordo do navio presídio D. Pedro I, depois na Casa de
Detenção do Rio de Janeiro; juntamente com Hermes Lima, Eneida de
Morais, Nise da Silveira e Graciliano Ramos. Dona Zoraide, sua segunda
mulher, falece nesse ano.
Este último, em "Memórias
do Cárcere", referiu-se por diversas vezes ao Barão, tendo
dito: "... Ao fundo, Apporelly arrumava cartas sobre uma pequena
mesa redonda, entranhado numa infinita paciência. Avizinhei-me dele,
pedi notícias do livro que me anunciara antes: a biografia do Barão de
Itararé. Como ia esse ilustre fidalgo? A narrativa ainda não começara,
as glórias do senhor barão conservavam-se espalhadas no jornal.
Ficariam assim, com certeza: o panegirista não se decidia a pôr em ordem
os feitos do notável personagem."
Mas suas citações sobre o
Barão em seu famoso livro desagradaram a amigos do enfocado, como
se pode perceber nas declaração de Carminda de Azevedo Mendes Steed,
amiga de Apparício: "...E quem leu "Memórias do Cárcere" e
quem conheceu o Apporelly, fica com uma bruta duma raiva do seu Autor, o
insigne, amargo, festejado, realista, seco como o sertão -- ah, um
cactos o cáustico Graciliano, quando relata o dia a dia de seus
companheiros presos e onde focaliza um Apporelly piadista, loquaz e
festeiro, durante o dia sempre tentando levantar o moral de todo o mundo
e um pobre desvalido, acometido de tremuras e suadeiras à noite como que
atrapalhando, incomodando o repouso de seus companheiros. Um covarde
travestido de bufo? Não seria isso mesmo que a gente lê nas
entrelinhas?".
E concluía: "...Sabia
lá Graciliano se essas noites nos dormitórios extensos de altas paredes
e silêncios seculares onde o interno de São Leopoldo, nas mãos daqueles
Mestres (que Ele, convenhamos, amava) alemães e jesuítas, como se não
bastasse serem só alemães ou só jesuítas, aquele menino carente e
vulnerável, órfão de mãe e premiado por um pai truculento e lacônico, ou
seriam essas noites no Pedro I não o reflexo de sua infância já tão
antiga, mas, a realidade do aqui e agora da infância e adolescência de
seus filhos -- sem mãe também e jogados às traças por um amigo desleal a
quem Apporelly os confiou."
Solto em 21 de dezembro
de 1936, com outros 100 presos, reabre "A Manha", que só consegue
funcionar por um ano, sob severa censura do DIP. Casa-se, pela terceira
vez, com D. Juracy, que lhe dá mais um filho, Amy Torelly.
Janeiro de 1938 marca sua
volta ao "Diário de Notícias", do Rio de Janeiro, e da coluna "A
manhã tem mais...", onde colabora por quase seis anos.
No dia 27 de janeiro de
1939 é preso novamente ´por três dias. O fato se repetirá diversas
vezes até o fim do Estado Novo.
D. Juracy, sua esposa,
falece em 1940, ao dar à luz àquele que seria seu segundo filho com
ela. A criança também falece. Apporelly retira-se para uma
chácara em Bangu, no Rio, cedida pelo industrial Guilherme da Silveira
Filho, e ali instala um laboratório onde desenvolve pesquisas sobre a
vacina contra a febre aftosa, baseado em teorias de Pasteur.
Sua filha Ady morre em
1943, vitima de complicações pós-operatórias provocadas pela extração do
apêndice.
Homenageado com um jantar
na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), por amigos e jornalistas,
em 1944, pelos seus 25 anos de jornalismo, no ano seguinte o Barão
encabeça, no ano seguinte, um abaixo-assinado por liberdades
democráticas. Ressurge "A Manha" com enorme sucesso, superando o
que havia feito nas décadas de 20 e 30, contando com a colaboração de
renomados escritores, tais como: José Lins do Rego, Sérgio Milliet,
Rubem Braga, Raimundo Magalhães Jr. e Álvaro Lins. Arnon de Melo assume
a área comercial do jornal e incentiva o aparecimento da figura do
Barão como garoto-propaganda. Participa ativamente da campanha de
Yedo Fiuza, candidato oficial do Partido Comunista Brasileiro (PCB) à
presidência da República.
Candidata-se à Câmara do
Distrito Federal pelo PCB e, provando sua popularidade, é o oitavo mais
votado de sua bancada, a qual obtém maioria na Câmara de Vereadores. O
slogan da campanha foi: "Mais leite, mais água, mas menos água
no leite -- Vote no Barão de Itararé, Apparício Torelly." A convite
de Luiz Carlos Prestes, passa a colaborar com a "Folha do Povo".
Faziam parte da equipe Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcanti, Jorge
Amado e o jovem Sérgio Porto (posteriormente conhecido como Stanislaw
Ponte Preta). No final do ano o registro do PCB é cassado e seus
representantes eleitos perdem seus mandatos.
Fortuna,
um dos melhores humoristas que este país já teve, disse: "...Se,
primeiro por inexistência e depois por criancice, não o alcancei nos
anos 30, nem por isso ele deixou de me alcançar através d' "A Manha"
de 46, "o único quintaferino que sai às sextas". Ele podia achar o
máximo essa autogozação, mas em São Luís do Maranhão eu tinha que
reciclá-la para "o único quintaferino que chega dois meses depois".
Parece que devido a gastos de guerra estava em vigor o racionamento de
troco. "A Manha" custava um passe de bonde. Eu ia para o
colégio a pé, rindo. Sou-lhe grato por ter amenizado as ladeiras que
por sua causa tive que subir."
Em virtude de problemas
financeiros, "A Manha" deixa de circular, em 1948.
O Barão associa-se
a Guevara e lança o primeiro "Almanhaque" ou "Almanaque
d'"A Manha" em São Paulo (1949).
Com o sucesso do
lançamento, anima-se o Barão e, em 1950 "A Manha" volta a
circular, editada em São Paulo, onde o humorista passa a viver por algum
tempo, ou seja, até setembro de 1952, quando o jornal deixa de circular,
definitivamente.
Em 1955 lança dois "Almanhaques",
no 1º. e 2º. semestres. Colabora com o jornal "Última Hora". Velho e
cansado, fixa-se novamente no Rio e casa-se, pela quarta e última vez
com Aida Costa, que teve fim trágico anos depois.
Viaja pela China, em
1963, a convite do governo de Pequim, com passagem por Praga e Moscou.
Nos anos seguintes (1964/1970), dedica-se a seus "horóscopos biônicos" e
"quadrados mágicos". Passa a maior parte do tempo estudando e vive só
em um pequeno apartamento em Laranjeiras, bairro do Rio de Janeiro.
Carminda diz mais: "...Esclerose
-- só é! Sentenciavam alguns sectários, donos da verdade. Pureza, alma
sensível, gentil. Caráter impoluto. Teve dignidade por toda sua vida
-- respeito por todo mundo e por todas coisas.
E teve dignidade ao morrer. Morreu sozinho para não sofrerem por Ele
enquanto estava morrendo."
No dia 27 de novembro de
1971, falece aos 76 anos de idade, Apparício Torelly.
Livros
Publicados:
Do Autor:
- Pontas de Cigarros,
Apparício Torelly, Rio de Janeiro - 1925
- "O Globo" - Rio de Janeiro - 1925 - artigos
- "A Manhã" - Rio de Janeiro - 1926 - artigos
- "A Manha" - Rio de Janeiro - 1926-1952 - artigos
- "Jornal do Povo" - Rio de Janeiro - 1934 - artigos
- "Avante", "Homem Livre", "O Povo" - Rio de Janeiro - Década de 30 -
artigos
- "Diário de Notícias" - Rio de Janeiro - 1938-1942 - artigos
- "Almanhaque" - São Paulo - 1949 - 1º. semestre
- "Almanhaque" - São Paulo - 1955 - 1º. semestre
- "Almanhaque" - São Paulo - 1955 - 2º. semestre
- "Última Hora" - São Paulo - 1955-1959 - artigos esparsos
- "Almanhaque" - Agência Studioma Editora - S.Paulo - 1989 (reedição de
1955)
Sobre o Autor:
- "Apporely Cientista",
in Revista Diretrizes, 06-03-1941 - Otávio Malta
- "O único Barão da República", in Realidade, janeiro/1970 - Fortuna
- "Barão de Itararé" - Leandro Konder, Edit. Brasiliense - S.Paulo/1983
- "O Barão de Itararé" - Ernani Ssó, Porto Alegre/1984
- "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé" - Afonso Felix de Souza (org)
- Editora Record - Rio de Janeiro/1986
- "As duas vidas de Apparício Torelly", Cláudio Figueiredo, Editora
Record- Rio de Janeiro/1987
Homenagens:
Há duas escolas com o nome "Barão de
Itararé" no Rio de Janeiro: uma em Marechal Hermes e outra em Santa
Cruz.
Leia ainda on line:
Máximas e Mínimas do Barão de Itararé
Aqui pode-se ver o brasão da Casa de Itararé:
