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Ode ao Burguês
Dia desses viajando pela rede encontrei uma página interessantíssima
sobre Mário de Andrade e lembrei-me de outros tempos e outros pensamentos. O modernista,
na década de 20, compôs uma página brilhante chamada "Ode ao Burguês", que
transcrevo abaixo e me inspirou uma releitura buscando ser fiel a toda a estética
modernista de desrespeito às regras de metrificação, rima ou ordem ou, caso assim se o
deseje, obedecendo àquelas criadas pelos modernistas a quem admiro demais.
Não há acordo possível com a burguesia. No Brasil contemporâneo
só há duas classes sociais com as quais ainda consigo dialogar com alguma desenvoltura,
a classe trabalhadora e a elite intelectual.
Lumpemproletariado está fora do meu
alcance dialógico. Pseudo-intelectuais também. Políticos burgueses idem. Mas de todas
as categorias sociais possíveis é a burguesia que menos inspira confiança, pelo que
fica claro, tanto no poema excepcional do Mário de Andrade quanto nesse macaquear meu
logo abaixo...
Ode ao Burguês
Mário de Andrade
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro,
italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os
duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam
o francês
e tocam os "Printemps" com as
unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das
tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
" Ai, filha, que te darei pelos
teus anos?
Um colar... Conto e
quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina
pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à
infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem
arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor
inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e
mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em
Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio
cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
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Ode ao Burguês nº 2
Lázaro Curvêlo Chaves
("Contra burguês, vote 16" PSTU/98)
Eu odeio burguês!
Burguês-centavos-contados.
Indigesto burguês brasileiro.
Classe nédia, adiposa, delicada,
Classe sem classe, burguesia medrosa.
Eu odeio burguês!
Burguês-medo, burguês-cautela.
Burguês fáustico, pomposo e circunstante.
Bela aparência, completamente oca.
Burguês é sepulcro caiado.
Burguês chora ao ver naufragar o Titanic
E manda à polícia o pedinte à porta do
cinema.
Porque no Titanic morreram
burgueses.
Poucos, mas todos burgueses.
E mendigo não compreende essas coisas...
Eu odeio burguês!
Burguês cheio de regras,
Cheio de nove-horas,
Burguês que "trabalha por amor"
Depois apresenta a conta:
"_ É que estou de saída para a
Europa..."
"_ É que tenho de trocar os fru-frus
da cortina da sala..."
"_ É que vou a Miami comprar orelhas
de Mickey Mouse para minha filha..."
Vai, burguês idiota!
Vai botar orelha de rato imperialista no
teu rebento!
Burguês fútil, burguês frágil, burguês
covarde, burguês de nada!
"Ouviram do Ipiranga às margens
poluídas,
Do herói cobrado coitado - o brado
retumbante:
_ O sol da liberdade em raios fugidios
Brilhou em outra pátria muito
distante!"
E assim a burguesia (de lá) tomou conta do
pedaço (daqui)
Eu odeio burguês!
Burguês Celular, burguês Pentium,
burguês FMI...
Burguês tecnologia, burguês veloz,
Que viaja de Omega mas não sabe soletrar a
palavra
V-O-L-A-N-T-E...
Burguês filhinho-de-papai,
Passa de carro com o som estourando.
E a batida do som revela sua fragilidade
burguesa:
"_ Quero parecer moderno e perigoso,
mas aqui dentro, protegido,
Lembro fetal as batidas do coração
materno: tum-tum, tum-tum..."
Insulto e ódio! Insulto e ofensa! Insulto
e mais insulto!
Morte cruel ao burguês ateu!
Deus existe burguês estúpido!
E como Deus existe o povo o suprimirá a
golpes de foice e de martelo.
Desaparece, burguês!
Viva o povo brasileiro!
Sobre Mário de Andrade, leia:

A Estética Aberta de Mário de Andrade - -
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MIRANDA HUHNE
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