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Colônia Cecília: uma experiência anarquista no Brasil
Em finais do século XIX Milão despontava,
no panorama artístico europeu, pela grandiosidade de seu
teatro, por sua vivência cultural e pelo requintado gosto de
seu povo. Neste contexto, Giovani Rossi expunha idéias
arrojadas a ouvintes atentos. Em conferências e artigos
semanais no jornal Lo Sperimentale, de Bréscia,
notabilizava-se por seu humanismo e alta compreensão dos
problemas sociais dos artesãos, professores e lavradores da
região onde vivia. Filósofo anarquista, pronunciava
palestras a ouvidos atentos.
D. Pedro II, graças à sua doença, é
aconselhado pelos médicos a se tratar na Europa, e depois de
várias escalas chega a Milão, em 29 de abril de 1888. Por
intermédio do conde de Mota Maia, o Imperador tem
conhecimento da obra Il Commune in Riva al Mare, de Rossi, e
mostra-se interessado pelo conteúdo humano de seus escritos
- que descreviam uma hipotética experiência anarquista em
país americano, onde individualismo livre só cederia ao
coletivismo se estivesse totalmente impregnado de egoísmo,
onde o ideal de liberdade suporia amor livre, inexistência
da propriedade privada, ausência de qualquer dogmatismo. Já
em agosto, após o regresso ao Brasil, D. Pedro II escreve ao
jovem professor, oferecendo-lhe oportunidade de efetivar, na
região Sul brasileira, na Província do Paraná, a objetivação
de seu ideal.
Quais seriam as causas de medida tão
inesperada?
Diversos documentos e referências de
época comprovam o descontentamento de D. Pedro II com os
resultados efetivos da política imigracionista brasileira em
geral, e particularmente na província do Paraná. Visconde de
Taunay, a respeito da tentativa frustrada de colonização
russo-alemã afirma: A primeira entrada foi de mil trezentas
e sessenta e seis pessoas, em 31 de dezembro de 1878,
começando desde aí os abusos. Uma fazenda ajustada por três
réis a braça quadrada, foi posteriormente paga a seis réi s.
Amontoados na vila da Palmeira, sem possibilidade de se
mexerem dali, pois lhes eram negados os meios de locomoção,
levantaram-se afinal e exigiram repatriação, porquanto as
terras que lhes impunham eram imprestáveis e más, conforme
haviam verificado com instrumento de sondagem e reagentes
químicos. (...) Houve necessidade de sustentar à custa do
tesouro público milhares de bocas inutilmente por dois meses
inteiros e fretaram-se afinal vapores para levar toda essa
gente para Hamburgo.
O desgaste internacional provocado por
tal episódio pode ter sido a causa principal para que o
Imperador, preocupado em demonstrar que o Brasil oferecia
condições vantajosas aos imigrantes, em relação à Argentina
e aos Estados Unidos, tenha concedido terras a elementos
considerados "nocivos" à ordem política dominante na Itália.
Seria correto afirmar que tal medida constituiria
considerável ganho diplomático e poderia, ao mesmo tempo,
provar que nosso país era realmente capaz de efetuar
política imigratória idônea. No entanto, tais interpretações
carecem de um estudo mais aprofundado.
Servindo-se do semanário Lo Sperimentale,
de Bréscia, Rossi incitou intelectuais, obreiros e
lavradores, à viagem experimental. Não descansava,
propagando o anarquismo. Freqüentando sedes de corporações
operárias, aconselhando lavradores pressionados pelos
desajustes econômicos da Itália, animando os temerosos, foi
engrossando o número de interessados. Pequenos artesãos e
intelectuais aderiram facilmente à idéia, alguns e outros
desiludidos com as lutas cansativas pela unidade política
italiana. Foram sensíveis, desta forma, aos acenos de uma
terra nova, com múltiplas possibilidades de uma vida nova.
Trezentos alqueires de terras - mais do que poderiam obter
em qualquer região da Itália - pareciam mais do que
suficientes para que aquelas famílias pudessem buscar a
aplicação prática de seus ideais.
Em 20 de fevereiro de 1890 zarparam em
Gênova cerca de 150 anarquistas italianos. Chegando ao
planalto dos campos gerais, instalaram-se no que seria o
núcleo Cecília em abril de 1890.
O obstáculo com que se defrontou,
inicialmente, o núcleo anarquista foi o da organização para
o trabalho. Os componentes da imigração vinham precedidos de
vocações profissionais, afirmadas em tradições seculares.
Giovanni Rossi pressentia naquele instante que até mesmo
lavradores sentiriam dificuldades, acostumados a outro tipo
de solo. O caso dos artesãos se tornava ainda mais
complicado, sendo que a solução encontrada foi justamente
dar-lhes tarefas aproximadamente similares às suas
profissões. Concluídas as habitações individuais e
coletivas, dividido racionalmente o trabalho, entre o
contingente de mais de 150 pessoas, os anarquistas se
depararam com um fato real: o milho, produto ideal para o
cultivo naquelas circunstâncias, não nasce da noite para o
dia. No começo, tiveram condições de subsistirem e laborarem
a terra graças ao dinheiro que trouxeram, aos instrumentos
de trabalho que adquiriram e à compra de sementes e
mantimentos. No entanto, viram-se obrigados, mais tarde, a
procurar tarefas que lhes proporcionassem o sustento até que
pudessem viver tão somente das atividades do núcleo. Os
anarquistas concentrados, uns na lavoura, outros em
empreitadas contratadas junto ao governo para a construção
da estrada de rodagem Serrinha-Santa Bárbara, recebiam
salários semanais que auxiliavam os companheiros da Colônia.
No suor de cada dia, os anarquistas plantaram mais de
oitenta alqueires de chão, na área em que lhe foi cedida,
mais dez quilômetros de estrada construíram, em época onde
inexistiam possantes máq uinas, nem tratores, muito menos
guindastes de transporte de terras para ajudar. Um barracão
coletivo, vinte barracões individuais, celeiros, casa da
escola, moinho de fubá, tanque de peixes, pavilhão coletivo,
que também servia de consultório médico, viveiro de mudas,
poços, valos, pomar de pêr as, estábulos, grande lavoura de
milho, tudo denunciava dinamismo. Proporcionalmente ao suor
do trabalho cresceu o respeito recíproco e puderam as
famílias, na colônia e fora dela, assentar profundas raízes
de solidariedade humana.
De princípio, em 1890, a estratificação
social não chegou a ser perceptível no interior da Colônia,
porque tudo precisava ser feito e todos queriam fazer,
dentro das possibilidades pessoais e grupais. Chefias e
subordinações eram substituídos por estímulos constantes e
recíprocos que entre si faziam seus membros. No entanto, os
colonos não puderam manter-se afastados das condições
existenciais das comunidades, próximas e distantes. Com elas
interaram-se os anarquistas, através de ligações comerciais
e espirituais. A imprescindível compra de trigo, fubá,
feijão, carne, implicou em revisões de conceitos teorizantes
de anarquismos, e a estratificação social se fez. Diferente,
sem dúvida, daquela maior, avassaladora, fundamento das
comunidades rurais brasileiras, a estratificação que se
observava nos campos gerais, feita de rígida hierarquia
social, a qual se sentia e ainda se sente - prepoderância de
elos de dependência da grande massa de trabalhadores a
limitado número de proprietários rurais. Quando a assembléia
precisou delegar responsabilidades a alguém para gerir todo
o dinheiro do núcleo, criou um estrato que seria, mais
tarde, responsável em grande parte pelo fracasso da
experiência. Contudo, é importante destacar que tal
estratificação complementou-se com convenção objetiva,
determinada pela aceitação e consenso geral.
Entregues à agricultura, à edificação de
casas, às tarefas educacionais, os anarquistas não dispunham
de maior oportunidade de relacionamento com o meio externo.
O núcleo consumia-lhes toda a atenção, e mostravam euforia
nas ocupações. Giovani Rossi inicialmente supunha que a área
de trezentos alqueires reservada à Colônia possuísse uma
superfície bem delimitada, vizinhos conhecedores de seus
direitos e respeitadores das confrontações estabelecidas.
Sem a posse dos documentos que comprovassem a propriedade
foi, no entanto, surpreendido por um terreno inculto, não
medido, de vizinhos inconscientes do que lhes pertencia e,
ainda, com o regime imperial extinto em nome da República.
Diante de tal conjuntura, desinteressou-se de fazer gestões
para medir, transferir domínio ou qualquer relação jurídica
com a propriedade. Nela simplesmente viveria com seus
companheiros; trabalhariam os campos, fariam riquezas
comuns, levantariam edificações comuneiras, oficinas,
escolas, uma colméia de trabalho e de satisfações
espirituais. Não contava desta forma com uma pol ítica de
concessão de terras, com os favores oficiais e com um
processo pol ítico interno que buscaria reorientar a
administração.
Durante o Império, na constância da
política imigratória, D. Pedro II, através de seus
Ministros, estimulara por todas as formas a instalação de
colônias e núcleos de imigrantes, auxiliando com recursos
financeiros e materiais a formação de comunidades. Todavia,
pela Lei 3396, de 24 de novembro de 1888, todas as dívidas
dos colonos foram transferidas para o Estado do Paraná. Em
razão disso, o Governador Américo Lôbo Leite Pereira baixou
o Decreto 58, de 31 de março de 1890, que dizia, entre
outras coisas: Artigo 1º - Todas as dívidas dos colonos
estabelecidos no Estado do Paraná, e ainda não pagas, ficam
reduzidas ao preço da aquisição dos lotes rústicos,
inclusive as vivendas, perdoados todos e quaisquer outros
adiantamentos, assim como os 20% adicionais e mais outros
tantos 20%.
Em plena fase de formação de núcleos,
muitos chefes de colônias, a maioria sem conhecer a língua
nacional, foram incitados a pagar, por vezes com multas, ao
arbítrio de autoridades, dívidas que não se justificavam,
por vivendas feitas pelos colonos com esforço, suor,
trabalho de toda a família. Se esta política imigratória não
espantou colonos, sacrificou núcleos, tais como o da Colônia
Cecília, Colônia Leopoldina, Colônia Nova Itália, etc.
Ao tomar conhecimento da lei, Rossi
preferiu não se desgastar, de imediato, com a autoridade que
lhe informava da situação. Preferiu deixar a delegacia de
Palmeira e discutir a situação com seus companheiros, antes
de tomar qualquer atitude contra tamanha injustiça.
Exarcebados pela notícia, os colonos individual e
coletivamente comportaram-se com paixão, independência e
dignidade, cada um deles expondo seu modo de ver a questão,
os exaltados a gritar contra a burguesia exploradora, a
exigir reparos na arregimentação dos colonos não só de
Cecília, mas de outros lugares, os corajosos menos
dogmáticos a entender que não deveriam pagar, os mais
prudentes, grupo predominante, a imaginar soluções
conciliatórias. Todos, porém, a protestarem contra a
excessiva tributação, anulatória de seu trabalho e
confiscatória de seus bens, se não pagassem. Por fim,
prevaleceu o entendimento de que pagariam a dívida, se
obtivessem rendimento das colheitas. Caso contrário,
abandonariam a terra.
Até então, o que acontecia fora do núcleo
não os atraía, a não ser, evidentemente, o conhecimento das
notícias internacionais, em particular, notícias italianas.
Agora porém, estavam em face de perigo objetivo, de perder a
terra arada e plantada, de abandonar seus pousos e o
sustentáculo econômico construído com esforço, no suor de
cada dia, de deixarem para outros que nada fizeram aquilo
que legitimamente obtiveram. Então, pela primeira vez em
conjunto, pensaram seriamente em propriedade, em medí-la e
estabelecer divisas naturais, menos como interesse egoístico
de possuí-la, do que para afirmá-la contra quem dela queria
servir-se, em nome do novo regime político dominante.
Ironicamente, apenas em 1897, quando já então os anarquistas
haviam abandonado o núcleo, a burocracia vinha a apresentar
pedido de medição de terras.
A produção agrícola foi razoável, dentro
das previsões dos colonos, em 1890 e 1891. Pequena, mas
compensadora ao que se plantou. No entanto, todos os
esforços do núcleo foram concentrados na safra de 1893. Cem
alqueires de ch ão foram plantados. Os anarquistas
selecionaram trabalhadores para o corte do capim - futuro
feno -, para a derrubada das espigas, para seu transporte
até o pátio do celeiro. Empilhadas em gigantesco pavilhão,
construído ao lado do barracão coletivo dos solteiros, as
espigas de milho estavam preparadas para a venda. Gariga,
misto de argentino e italiano, seria o responsável pelas
negociações de venda do milho na cidade.
Entregues ao trabalho de colheita, os
anarquistas não pressentiram a desgra ça iminente. O crupe,
de caráter epidêmico, deixou cicatrizes nos barracões
anarquistas. Sete crianças do núcleo anarquista faleceram.
Todo o otimismo da comunidade havia sido arrasado. Rossi
perdera duas filhas, e a estrutura dos espíritos estavam
abaladas.
Por sua facilidade em fazer amigos,
Gariga era o homem do leva e traz, da Colônia à cidade e
vice-versa. Responsável pelas compras e vendas de
mercadorias, trazia da cidade as cartas, jornais, embrulhos
e novidades. Toda a produção de milho foi por ele
transportada. Todas as possibilidades não de lucro, mas de
sobrevivência do núcleo repousavam no aproveitamento
racional do cereal. No entanto, passaram-se dias e José
Gariga havia sumido. Para Rossi e os outros idealizadores do
projeto o furto representou a destruição de seus ideais
postos em termos práticos. Quando Gariga apresentou-se pela
primeira vez ao núcleo, apenas indagaram-no se gostaria de
viver em colônia anarquista e, respondido que sim, deram-lhe
encargos e posição de prestígio. O furto dera a certeza da
precariedade moral dos homens, de seu despreparo para
experiência do tipo que idealizavam. Na somatória de crises
que vivia o núcleo, o furto representou a mais ponderável,
porque violentou a ordem anárquica dominante. A semente da
desconfiança nascera com o episódio, e poucos demonstraram
interesse em tentar tudo de novo, partindo do zero.
Oportunidades de trabalho em outras comunidades, vantagens
materiais em cidades servidas de luz, água, diversões,
fizeram com que o núcleo fosse, aos poucos, abandonado.
Consideramos que a Colônia Cecília não
foi um fracasso. Se, materialmente, não atingiu tudo o que
se exige de um aglomerado social, serviu, pela ação
doutrinária e pelo trabalho de seus membros para consolidar
valores. Afirma-se, antes, nas idéias germinadas, na
tradição operária de lutas que criou e estimulou. Seus
líderes não foram poucos, e cada anarquista deu sua
contribuição efetiva ao movimento operário do Paraná, no fim
do século.
Lázaro Curvêlo Chaves - Outono de 2001
De Oscar Wilde:
"A Desobediência é a Virtude
Original do Homem"

Outros trabalhos anarquistas:
Conheça os princípios éticos
norteadores dos anarquistas!

A Ilusão do Sufrágio Universal...

O Estado é a negação da humanidade, a negação da
Natureza!


Conheça uma proposta
educacional libertária
Ensaio sobre o Socialismo
Científico:


Neste link você encontra os
pontos de aliança e harmonia entre as duas formas mais
elevadas de humanismo na modernidade: o surrealismo e a
anarquia
Visite a página do
Manifesto Anarquista!

Sobre liberdades individuais e
direitos dos brasileiros, leia o artigo 5º da Constituição
Federal neste link

Leia ainda:

A Alma do Homem sob o Socialismo
e Escritos do Cárcere - OSCAR WILDE

Desobediência Civil - Henry
Thoureau

Por uma Arte Revolucionária
Independente ANDRE BRETON LEON TROTSKI
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