Chaves, Lázaro
É assim que meu nome consta na lista telefônica da minha
cidade. Ligações como a que descrevo abaixo acontecem pelo menos uma vez por
semana. Em geral são pessoas compreensivelmente perturbadas e com a capacidade
cognitiva diminuída pela situação aflitiva em que se encontram. Tento ser
paciente. Nem sempre com sucesso, confesso.
_ Pronto!
_ Quem ‘tá falanu? – voz feminina,
parece nervosa.
(Eu sempre considerei exótica esta
maneira de falar ao telefone com estranhos. Não seria mais interessante
perguntar “é o fulano?” ou “é da casa do fulano?” ou “é da loja tal?”)
_ “XXXX” – recito o número do meu
telefone – “com quem deseja falar?”
_ O Lázaro.
_ Pois não? Sou eu mesmo!
_ Sabe o que é? Eu tranquei minha
chave dentro do carro, ‘tô aqui perto da Fazenda Tubaca...
(Interrompo o que promete ser uma
longa narrativa em torno de algo que eu não posso fazer absolutamente nada além
do que a própria pessoa tenta: procurar um chaveiro pela mesma lista telefônica
que ela tem em mãos)
_ Minha senhora, meu sobrenome é
“Chaves”, mas eu não sou chaveiro e, infelizmente, não conheço nenhum.
_ ... Mas é que eu tranquei a chave
dentro do meu carro...
_ Bem, sugiro que a senhora procure
um chaveiro, há um bom número deles aí na lista...
(Longo silêncio do outro lado. Acho
que desligou. Desligo também. Minutos depois nova ligação, de outro número.)
_ Pronto!
_ Quem ‘tá falanu? – voz masculina,
afável, mas o mesmo pecado. Não sabe para quem ligou...
_ “XXXX”- recito o número de meu
telefone e prossigo: “deseja falar com quem?”
_ O seu Lázaro está?
_ Pois não, sou eu mesmo!
_ Oh... Seu Lázaro... – o tom é
amistoso, busca parecer alguém de minhas relações de intimidade ou algo assim –
Seu Lázaro... Eu estou aqui perto da Tubaca...
(Interrompo, já começando a perder a
paciência)
_ Veja, meu senhor, há poucos
minutos ligou uma senhora, talvez a sua senhora ou alguém de suas relações.
Precisava de um chaveiro...
_ Isso! Isso mesmo! Sabe aqui a
Tubaca? Bem na sede.
(Não declinou o nome. Tampouco me
lembrei de perguntar.)
_ Meu senhor, vou tentar uma
abordagem diferente. O Sr. Já ouviu falar no Hugo Chavez? É o atual presidente
da Venezuela, a profissão dele é “militar”, ele não é “chaveiro”. Há ainda o
Juca Chaves, que é comediante (enfatizo bem a última expressão) e não
chaveiro. Assim, meu nome é Lázaro Chaves, mas eu sou professor, não sou
chaveiro e, infelizmente, não conheço nenhum chaveiro...
_ Ah... Então o Sr. me desculpe, me
deram o número errado...
_ Não tem problema, essas coisas
acontecem...
_ Mas, como eu ia dizendo, estou
aqui perto da Tubaca e tranquei minha chave dentro do carro...
(Interrompo com palavras cautelosas
em tom o mais afável possível. Não parece ser uma pessoa equilibrada do outro
lado)
_ Meu senhor, compreendido que eu
não sou chaveiro e não conheço nenhum, o Sr. não preferiria utilizar melhor o
seu tempo e seu telefone (penso cá com os meus botões: “e os meus!”) procurando
por um chaveiro?
_ O Sr. é muito mal educado! – e
bate o telefone.
Anotação para mim mesmo: encontrar o
telefone celular de algum bom chaveiro e deixar ao lado do meu aparelho,
urgente!
Anotação dois: tentar, com a turma
da ACI, que meu nome conste da lista como Professor Lázaro Chaves...
Lázaro Curvêlo Chaves – 19/04/2005