Buscando na história pistas possíveis para
soluções aos problemas contemporâneos, deparamo-nos com fenômenos em certa medida
repetitivos e quase sempre ineficientes.
Atenas, Grécia, quinto século antes de
Cristo: Sócrates é condenado à morte, em última análise, por atentar contra a
democracia ateniense (é o que defende, por exemplo I. F. Stone em O Julgamento de
Sócrates, Cia das Letras, 1988). Ao invés do governo do povo ou democracia, pregava o
governo "daquele que sabe" liderar um povo como um pastor lidera suas ovelhas.
Se nos recordarmos que o pastor cuida de suas ovelhas para tosquiá-las, ordenhá-las e
sacrificá-las, tendemos a refletir se esta seria a melhor forma de encaminhamento para a
coisa pública... De mais a mais, dotados que somos todos nós de razão, quem pode ousar
supor saber gerir melhor a nossa vida que cada um de nós? Sócrates, por sua pregação
autoritária, antidemocrática, atraiu a si a ira da democracia ateniense que, contudo,
sendo ele já um ancião digno de consideração e respeito, é contemplado com a
possibilidade de propor um apenamento alternativo. Arrogantemente afrontando os membros da
Agora, informa julgar que esteve fazendo um bem, não um mal à juventude ateniense e, em
conseqüência, propõe ser sustentado no Pritaneu - algo equivalente a um condomínio de
luxo nos jardins paulistanos com todas as despesas pagas... Propusesse ele pagar uma moeda
que fosse e a Agora, satisfeita, comutaria a pena, por exemplo ao ostracismo - ser expulso
da cidade por um dado período. Sócrates prefere morrer pelas idéias que julga corretas.
Ocorre que suas idéias aristocráticas, não "bebendo cicuta" com ele,
permanecem nos corações e mentes de todos os que até hoje idolatram as mais diversas
formas de autoritarismo pelo mundo afora.

Palestina, aproximadamente ano 30 da nossa era;
Jesus de Nazaré, por seu apego inamovível à verdade e à justiça, à bondade e à
beleza, num mundo impregnado de regras políticas e religiosas exageradamente rígidas,
desagrada autoridades civis e eclesiásticas de seu tempo, sendo por isso condenado à
morte infamante na cruz em pleno feriado judaico, o mais importante deles, por sinal, a
Páscoa, momento em que todos se uniam em preces e recordações da libertação
miraculosa do cativeiro no Egito, liderados que foram por Moisés.
Como se sabe, as idéias de Cristo não foram
crucificadas com ele e, na época heróica do cristianismo, ganharam a maioria do povo.
Hoje deploravelmente, alguns dos cultores do Cristo, chamam a si mesmos de
"cristãos" mas apenas lhe prestam honras com palavras. Sua memória e sua suas
obras não têm sido honradas na prática cotidiana dos que se dizem seguidores do divino
Mestre.
Minas Gerais, fins do século dezenove; ecoando
idéias de liberdade que grassavam na Europa e América do Norte, um grupo romântico de
brasileiros procura viabilizar um projeto político sério para o Brasil, principalmente
cortando a evasão de divisas para o exterior (é bem antiga esta demanda, como se
percebe). Os principais integrantes da chamada "Inconfidência Mineira" foram
condenados à morte, pena comutada ao degredo, com exceção daquele que foi então
considerado o líder, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes. Hoje
questiona-se se um simples alferes lideraria um movimento que era composto inclusive por
coronéis, juizes e altos sacerdotes... Somente ele, que hoje é visto por muitos
historiadores como um "bode expiatório" daquela coisa toda, foi enforcado e
esquartejado.

Como os esbirros da Metrópole, então
Portugal, não tiveram com as idéias o mesmo tipo de sucesso que tiveram com os corpos de
alguns de seus portadores, cerca de meio século depois o Brasil conquista sua
emancipação política e, um século a seguir, chegamos à república, não propriamente
a república desejável, como já nos dizia Euclides da Cunha, mas avançou-se, pelo
menos. É muito útil recordar estes sacrifícios todos para que não venhamos a,
desprezando-os, dificultar novos avanços, exigência dos tempos.
Da história nos ficam algumas lições
tremendamente significativas: podem-se matar homens, mas não se pode obrigar suas idéias
a beber cicuta, crucificá-las, enforcá-las, esquartejá-las ou degredá-las. Cada
pequena lanterna intelectual que se apaga pela intolerância política ou religiosa de uns
poucos traz severo ônus à humana espécie, senão vejamos; que rumos teria tomado a
história do ocidente se ao invés de ser condenado à morte Sócrates houvesse tido a
oportunidade de defender livremente suas idéias autoritárias? Talvez a participação
política dos cidadãos fosse ainda mais ampliada e, ao invés de termos uma democracia
representativa, restrita, tivéssemos o que os gregos conseguiram em Atenas, uma
democracia direta, com plena participação de todos os cidadãos nas decisões de todas
as temáticas afeitas à coletividade, enfim. Dizem - não posso dar testemunho ocular
deste fato - que na Suíça contemporânea é praticamente assim que as coisas funcionam
no mundo político, com plena participação e poder decisório de todos os cidadãos que
são chamados a opinar acerca de todos os temas coletivos por telefone, correio ou, hoje
em dia, Internet...
De todo modo, já está mais do que comprovado
historicamente ser muitíssimo mais vantajoso a todos discutir abertamente todas as
idéias e opiniões possíveis e imagináveis, de maneira tal que possamos sempre evitar
novas injustiças e, baseados na aceitação mais plena possível do princípio da
igualdade jurídica entre todos os seres humanos, possamos chegar a formas mais plenas e
saudáveis de convívio social. Que possamos chegar bem próximos pelo menos do tão
almejado consenso.
Lázaro Curvêlo Chaves
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