É só fazer a lista dos que direta ou indiretamente
têm ou tiveram alguma ou muita responsabilidade pela área social do governo Luiz
Inácio Lula da Silva: Oded Grajew, Benedita da Silva, José Graziano, Ana
Fonseca, Frei Betto. Todos saíram ou estão saindo.
Quer mais eloqüente e definitiva prova do fracasso
rotundo e redondo do governo? É até possível que um ou outro alegue as famosas
“razões pessoais” para deixar o cargo. Mas haverá ainda algum tolinho o
suficiente para acreditar que se muda time que está ganhando, seja por decisão
do jogador ou do técnico?
O time está perdendo e, pior, o técnico não tem a
mais remota idéia do que fazer para virar o jogo. Chega a ser inacreditável que
o governo de um partido que enchia a boca para falar da área social e para
criticar a suposta (ou real) incompetência ou insensibilidade de outras gestões
tenha, em apenas dois anos, demitido ou visto demitir-se tanta gente dessa
mesmíssima área.
Por tudo isso, é equivocada a análise do sociólogo
Francisco de Oliveira (outro que se demitiu, não do governo, para o qual não
chegou a ir, mas do PT). Disse à Folha que o governo estaria “se desmilingüindo”.
Não, Chico, é impossível desminlingüir-se o que
jamais, jamais “milingüiu”. Não há desmanche do que nunca existiu.
Bom, sempre resta o que passa por política
econômica, mas não vai além de aplicação rasa de manual elementar. Vamos e
venhamos: qualquer um que tenha completado o curso básico seria capaz de aplicar
esse tipo de política.
Não pede um milímetro de imaginação, decisão,
ousadia, inteligência. Mas, para governar um país, qualquer país, exigem-se
políticos, políticas, ação -não gerentes, com todo o respeito pelos gerentes,
que, no entanto, estão no mundo para funções diferentes.
Governar é outra coisa, que até amigos de Luiz
Inácio Lula da Silva admitem, em número crescente, que ele não está sendo
minimamente capaz de fazer.
Em março de 2003, quando já era evidente que o Fome
Zero não passava de uma jogada de marketing, o jornalista Bernardo Kucinski
ironizou as críticas da imprensa num dos boletins diários que produz para
Gushiken e distribui internamente no governo.
Segundo ele, o enfraquecimento do então ministro
José Graziano era coisa do “colunismo tucano”, e dava de ombros: “Aos poucos, o
governo impõe sua agenda sobre o noticiário, o que se traduz em mais centímetros
de coluna para aspectos substantivos [do Fome Zero]”.
Pois bem. Graziano caiu, o Fome Zero virou um
selinho num canto do Bolsa-Família e, um ano e oito meses depois, quem tucanou
foi Kucinski, para quem Lula acha que entende, mas não entende, de comunicação,
o governo é casuístico e não cumpriu o que prometeu, Duda Mendonça tem de ficar
“do outro lado do balcão” e “essas pessoas do Banco Central” precisam ser
demitidas. Está tudo no “Jornal do Campus” da USP, como revelou Mônica Bergamo
na Folha.
Muita coisa e muito nome também mudou no próprio
governo, que perdeu Benedita da Silva, Cristovam Buarque, José Viegas, Oded
Grajew, entre outros, e está perdendo Carlos Lessa, Cássio Casseb, Ana Fonseca e
Frei Betto. Por enquanto.
Eles vêm confirmando algo que o “colunismo tucano”
alertava lá atrás e que está ficando cada dia mais claro: uma crise gerencial
movida a disputas internas e a uma incompetência política incompreensível.
Casseb nunca foi da turma, e Lessa não é petista,
apesar de ser o símbolo do “desenvolvimentismo”, agora idolatrado pela esquerda
e pelos nacionalistas. Fora os dois, os demais são do PT ou muitos ligados ao
partido (como Viegas), e a maioria é unha e carne com o próprio Lula.
Donde conclui-se que o governo estava esse tempo
todo infiltrado por tucanos fingindo-se de amigos do presidente. Senão a turma
virou tucana de lá para cá. Ou será que foi o próprio Lula quem tucanou.
Dois extremos: o Lula que, tão logo eleito, foi à
casa de Celso Furtado para agradecer-lhe, e a Maria da Conceição Tavares, o
apoio dos chamados intelectuais é o mesmo que, por temor de ser mal recebido,
cancelou a ida ao velório de Celso Furtado. Não, não é o mesmo Lula. E confundir
um e outro é uma visão perversa.
Esse Lula que temeu reencontrar amigos aos quais
decepcionou é o Lula que precisou adiar, para amanhã, o almoço com deputados do
PMDB. Convidados para fazer o almoço na sexta-feira passada, os fisiológicos do
PMDB preferiram voltar logo a seus Estados a encontrar Lula. Ao que se saiba,
jamais houve algo parecido, ainda mais em se tratando de encontro para oferta de
cargos e favorecimentos. Mas ficou lançada essa nova (e humilhante) aferição do
prestígio político de presidente da República.
O Lula que temeu a despedida de Celso Furtado é o
que está escolhendo, em comum com os interessados, o ministério que presenteará
para incorporar o grupo de Maluf ao seu governo. Dizia uma manchete de ontem:
"Lula quer reforma para melhorar desempenho". Quem dera. A reforma, como ele
disse várias vezes, seria em 2005, a ser pensada só a partir de janeiro. Agora o
que há é oferta de pedaços do governo e verbas, muitas verbas, para enlaçar-se
com os fisiológicos do PMDB. Chegou a hora, também, de pagar o apoio de Maluf a
Marta Suplicy, nos termos do acordo aqui informado, e negado pelo governo, muito
antes da disputa eleitoral. E começa a hora de encarar o aumento de apetite do
PTB, excitado pelo que assiste em relação aos seus congêneres de fisiologismo do
PMDB.
Esse Lula que temeu ir ao velório de Celso Furtado,
para a homenagem de que ficou devedor, todos os dias faz o velório do outro
Lula, aquele a quem Celso Furtado homenageou com o apoio da esperança que teve
por toda a vida. Levou-a, inatendida.
Salve a mídia
Vitória fica logo ali. Apesar disso, as tevês e os
jornais levam cinco dias para saber que a cidade está sob situação dramática,
com os ataques incendiários que tornaram necessária a presença de tropas do
Exército nas ruas. Vitória é uma capital, no Sudeste dito desenvolvido, e fica
logo ali. É, porém, como se estivesse no lado obscuro da Lua.
Talvez o
jornalismo nunca tenha sido muito melhor, mas nunca foi tão rico de recursos e
tão pobre de si mesmo. O que vai mal no Brasil não são só as coisas que os
jornalistas dizem que vão mal.
Duas avaliações recentes sobre o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva são devastadoras, mas ficaram meio escondidas, como se a
mídia tivesse medo de expô-las e delas tirar as conclusões devidas.
Primeira definição, do cardeal dom Paulo Evaristo
Arns, arcebispo emérito de São Paulo, em entrevista para o número de outubro da
"Revista dos Bancários": "O Lula continua a mesma pessoa bondosa de sempre. Mas
não estava preparado para ser presidente da República, então entrega tudo para
aqueles que parecem estar preparados, e esses muitas vezes se enganam", disse
dom Paulo.
Segunda
definição, de Carlos Lessa, que era o presidente do BNDES até a semana passada,
indicado pelo próprio Lula:
Lula "está sendo enganado pela elite brasileira e
pela elite mundial". Segundo Lessa, há no Brasil "uma manobra forte de desvio de
uma iniciativa popular", em referência à eleição de Lula em 2002.
Em qualquer dos
casos, os petistas primários não podem desta vez recusar a avaliação dizendo,
como costumam fazer, que é coisa de tucanos. Lessa e dom Paulo estão acima de
qualquer suspeita.
Os dois dizem, a rigor, a mesma coisa com diferentes
palavras: quem governa o Brasil não é Lula, mas fantasmas não identificados.
Se verdadeira a avaliação, o país está diante de uma
fraude gigantesca, está diante de um governo fantasma. O pior é que a hipótese
soa ainda mais verossímil quando se lê que José Dirceu defende que o PT peça
mudanças a Lula.
Ora, por que não as pede ele, que despacha todos os
dias com o presidente e que é, segundo a mídia, um dos homens mais poderosos do
governo? Será que não adianta pedir a Lula porque o presidente "entrega tudo
para aqueles que parecem estar preparados", como diz dom Paulo?