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Folha de S. Paulo PSTU

 

Artigos na Folha de S. Paulo, 21 e 23 de novembro de 2004

 

Fracasso CLÓVIS ROSSI

 

É só fazer a lista dos que direta ou indiretamente têm ou tiveram alguma ou muita responsabilidade pela área social do governo Luiz Inácio Lula da Silva: Oded Grajew, Benedita da Silva, José Graziano, Ana Fonseca, Frei Betto. Todos saíram ou estão saindo.

Quer mais eloqüente e definitiva prova do fracasso rotundo e redondo do governo? É até possível que um ou outro alegue as famosas “razões pessoais” para deixar o cargo. Mas haverá ainda algum tolinho o suficiente para acreditar que se muda time que está ganhando, seja por decisão do jogador ou do técnico?

O time está perdendo e, pior, o técnico não tem a mais remota idéia do que fazer para virar o jogo. Chega a ser inacreditável que o governo de um partido que enchia a boca para falar da área social e para criticar a suposta (ou real) incompetência ou insensibilidade de outras gestões tenha, em apenas dois anos, demitido ou visto demitir-se tanta gente dessa mesmíssima área.

Por tudo isso, é equivocada a análise do sociólogo Francisco de Oliveira (outro que se demitiu, não do governo, para o qual não chegou a ir, mas do PT). Disse à Folha que o governo estaria “se desmilingüindo”.

Não, Chico, é impossível desminlingüir-se o que jamais, jamais “milingüiu”. Não há desmanche do que nunca existiu.

Bom, sempre resta o que passa por política econômica, mas não vai além de aplicação rasa de manual elementar. Vamos e venhamos: qualquer um que tenha completado o curso básico seria capaz de aplicar esse tipo de política.

Não pede um milímetro de imaginação, decisão, ousadia, inteligência. Mas, para governar um país, qualquer país, exigem-se políticos, políticas, ação -não gerentes, com todo o respeito pelos gerentes, que, no entanto, estão no mundo para funções diferentes.

Governar é outra coisa, que até amigos de Luiz Inácio Lula da Silva admitem, em número crescente, que ele não está sendo minimamente capaz de fazer.

 

Debandada tucana - ELIANE CANTANHÊDE

 

Em março de 2003, quando já era evidente que o Fome Zero não passava de uma jogada de marketing, o jornalista Bernardo Kucinski ironizou as críticas da imprensa num dos boletins diários que produz para Gushiken e distribui internamente no governo.

Segundo ele, o enfraquecimento do então ministro José Graziano era coisa do “colunismo tucano”, e dava de ombros: “Aos poucos, o governo impõe sua agenda sobre o noticiário, o que se traduz em mais centímetros de coluna para aspectos substantivos [do Fome Zero]”.

Pois bem. Graziano caiu, o Fome Zero virou um selinho num canto do Bolsa-Família e, um ano e oito meses depois, quem tucanou foi Kucinski, para quem Lula acha que entende, mas não entende, de comunicação, o governo é casuístico e não cumpriu o que prometeu, Duda Mendonça tem de ficar “do outro lado do balcão” e “essas pessoas do Banco Central” precisam ser demitidas. Está tudo no “Jornal do Campus” da USP, como revelou Mônica Bergamo na Folha.

Muita coisa e muito nome também mudou no próprio governo, que perdeu Benedita da Silva, Cristovam Buarque, José Viegas, Oded Grajew, entre outros, e está perdendo Carlos Lessa, Cássio Casseb, Ana Fonseca e Frei Betto. Por enquanto.

Eles vêm confirmando algo que o “colunismo tucano” alertava lá atrás e que está ficando cada dia mais claro: uma crise gerencial movida a disputas internas e a uma incompetência política incompreensível.

Casseb nunca foi da turma, e Lessa não é petista, apesar de ser o símbolo do “desenvolvimentismo”, agora idolatrado pela esquerda e pelos nacionalistas. Fora os dois, os demais são do PT ou muitos ligados ao partido (como Viegas), e a maioria é unha e carne com o próprio Lula.

Donde conclui-se que o governo estava esse tempo todo infiltrado por tucanos fingindo-se de amigos do presidente. Senão a turma virou tucana de lá para cá. Ou será que foi o próprio Lula quem tucanou.

 

Mistérios no céu JANIO DE FREITAS

 

Um homem de mãos atadas. E dominado por temores.

Essa é a imagem, induzida progressivamente nos primeiros 12 a 15 meses do atual governo, que fiz de Lula na presidência. Não a tenho mais. A imagem, que é uma hipótese, tornou-se convicção. Não por si mesma. Foi transformada por Lula e sua tibieza em convicção.

       É fácil concordar com a percepção, generalizada, de que Lula se sente no céu, e o que se passa abaixo das nuvens é indiferente ao seu êxtase. Os deslumbramentos de Fernando Henrique e Fernando Collor não foram menores, e foram até mais patéticos, um com os exibicionismos físicos, o outro com a presunção intelectual. O chamado deslumbramento é primário, mas é o de menos.

Sem prejudicar o seu encantamento com o nirvana presidencial, o que dá a idéia de um Lula de mãos atadas é mais e é diferente disso. E, por ora, sem evidência da origem de tamanha limitação. Mas com abundância de exemplos factuais que ajudam a notar o homem de mãos atadas, sabe-se lá por que comprometimentos, e contido por medos injustificados. Dois casos, nesse sentido, são suficientes para ilustrar o que se passa sob a denominação de presidência. Mais recente, um pode ser a substituição do ministro da Defesa.

A nota oficial de apologia dos crimes cometidos por oficiais, nos quartéis da ditadura, compôs-se de rica variedade: desacato às leis do país, pelo teor; insulto à sociedade, por sua prepotência; quebra da ordem e da hierarquia militar e funcional; e, para não irmos mais longe, desafio à autoridade presidencial. A ser verdade que o Exército emitiu a nota sem conhecimento do seu comandante, estaria caracterizada a incapacidade de comando justificadora de pronta designação de novo comandante; sendo inverdadeiro o desconhecimento prévio, o próprio comando do Exército era parte do ato comprometedor do governo e do presidente, cuja autoridade só se recomporia com o pronto afastamento do desafiante.

Só houve uma segunda nota, de sucinta negação ao sentido subversivo da anterior, porque o então ministro da Defesa se mostrou irredutível ao exigi-la. O comandante do Exército resistiu ao próprio Lula, que precisou fazer, ele mesmo, um remendo de última hora no texto, para torná-lo um pouco menos fugidio.

Quem saiu, com um pedido de demissão digno, foi o ministro José Viegas. E Lula, temeu ser derrubado só porque decidisse trocar o comandante do Exército, em nome da ordem constitucional e da disciplina? Se não houve tal indistinção entre fantasia e realidade, por que a atitude tão temerosa? O fato é que Lula se portou, em todo o episódio, como se fosse ele o infrator.

Outro exemplo, entre tantos possíveis, é a presidência do Banco Central. Lula teve à sua disposição, como tem ainda, uma infinidade de pessoas com idêntica ou maior habilitação que Henrique Meirelles para o cargo. O que se passou, no entanto, foi o acinte da entrega do Banco Central do Brasil ao então presidente do Bank Boston, nem ao menos da sucursal brasileira, mas da própria matriz norte-americana desse banco. De quem se tratava? De alguém que se filiou, não ao PT ou a partido aliado do PT, mas ao adversário PSDB, apoiou a candidatura de José Serra e obteve, com mais despesa do que campanha, um mandato de deputado federal peessedebista por Goiás. Como e por que foi içado daí para a presidência do Banco Central no governo Lula? Nem Lula, nem ninguém no governo, teve jamais condições de dar ao seu eleitorado uma explicação admissível.

Note-se ainda: antes mesmo da formalidade de diplomação, Henrique Meirelles abdicou do mandato, renunciou à sua eleição, porque ia receber a presidência do Banco Central. Alguém que anunciara o início de uma carreira política, de grandes ambições, só abriria mão de um mandato, para assumir um cargo no governo, se protegido por condições excepcionalíssimas. Indemissível, autonomia, carta branca, o que mais?

Lula e seu governo estão envolvidos em mistérios. E, no caso, mistérios são sinônimos de comprometimentos, que atam mãos e inspiram mais medos do que os naturais. Um dia isso se esclarece, queiram ou não o próprio Lula, José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci.

 

Celso e Lula – Janio de Freitas

 

Dois extremos: o Lula que, tão logo eleito, foi à casa de Celso Furtado para agradecer-lhe, e a Maria da Conceição Tavares, o apoio dos chamados intelectuais é o mesmo que, por temor de ser mal recebido, cancelou a ida ao velório de Celso Furtado. Não, não é o mesmo Lula. E confundir um e outro é uma visão perversa.

Esse Lula que temeu reencontrar amigos aos quais decepcionou é o Lula que precisou adiar, para amanhã, o almoço com deputados do PMDB. Convidados para fazer o almoço na sexta-feira passada, os fisiológicos do PMDB preferiram voltar logo a seus Estados a encontrar Lula. Ao que se saiba, jamais houve algo parecido, ainda mais em se tratando de encontro para oferta de cargos e favorecimentos. Mas ficou lançada essa nova (e humilhante) aferição do prestígio político de presidente da República.

O Lula que temeu a despedida de Celso Furtado é o que está escolhendo, em comum com os interessados, o ministério que presenteará para incorporar o grupo de Maluf ao seu governo. Dizia uma manchete de ontem: "Lula quer reforma para melhorar desempenho". Quem dera. A reforma, como ele disse várias vezes, seria em 2005, a ser pensada só a partir de janeiro. Agora o que há é oferta de pedaços do governo e verbas, muitas verbas, para enlaçar-se com os fisiológicos do PMDB. Chegou a hora, também, de pagar o apoio de Maluf a Marta Suplicy, nos termos do acordo aqui informado, e negado pelo governo, muito antes da disputa eleitoral. E começa a hora de encarar o aumento de apetite do PTB, excitado pelo que assiste em relação aos seus congêneres de fisiologismo do PMDB.

Esse Lula que temeu ir ao velório de Celso Furtado, para a homenagem de que ficou devedor, todos os dias faz o velório do outro Lula, aquele a quem Celso Furtado homenageou com o apoio da esperança que teve por toda a vida. Levou-a, inatendida.

 

Salve a mídia

Vitória fica logo ali. Apesar disso, as tevês e os jornais levam cinco dias para saber que a cidade está sob situação dramática, com os ataques incendiários que tornaram necessária a presença de tropas do Exército nas ruas. Vitória é uma capital, no Sudeste dito desenvolvido, e fica logo ali. É, porém, como se estivesse no lado obscuro da Lua.

Talvez o jornalismo nunca tenha sido muito melhor, mas nunca foi tão rico de recursos e tão pobre de si mesmo. O que vai mal no Brasil não são só as coisas que os jornalistas dizem que vão mal.

 

O fantasma que nos governa – Clovis Rossi

 

Duas avaliações recentes sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva são devastadoras, mas ficaram meio escondidas, como se a mídia tivesse medo de expô-las e delas tirar as conclusões devidas.

Primeira definição, do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, em entrevista para o número de outubro da "Revista dos Bancários": "O Lula continua a mesma pessoa bondosa de sempre. Mas não estava preparado para ser presidente da República, então entrega tudo para aqueles que parecem estar preparados, e esses muitas vezes se enganam", disse dom Paulo.

Segunda definição, de Carlos Lessa, que era o presidente do BNDES até a semana passada, indicado pelo próprio Lula:

Lula "está sendo enganado pela elite brasileira e pela elite mundial". Segundo Lessa, há no Brasil "uma manobra forte de desvio de uma iniciativa popular", em referência à eleição de Lula em 2002.

         Em qualquer dos casos, os petistas primários não podem desta vez recusar a avaliação dizendo, como costumam fazer, que é coisa de tucanos. Lessa e dom Paulo estão acima de qualquer suspeita.

Os dois dizem, a rigor, a mesma coisa com diferentes palavras: quem governa o Brasil não é Lula, mas fantasmas não identificados.

Se verdadeira a avaliação, o país está diante de uma fraude gigantesca, está diante de um governo fantasma. O pior é que a hipótese soa ainda mais verossímil quando se lê que José Dirceu defende que o PT peça mudanças a Lula.

Ora, por que não as pede ele, que despacha todos os dias com o presidente e que é, segundo a mídia, um dos homens mais poderosos do governo? Será que não adianta pedir a Lula porque o presidente "entrega tudo para aqueles que parecem estar preparados", como diz dom Paulo?

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