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Correspondência de Euclides da Cunha

 

 

 

 

Rio, 14 de junho de 1890

Meu Pai

Desejo-lhe muitas felicidades e saúde bem como a Adélia, da qual até agora ainda não recebi carta alguma em resposta a muitas que já lhe tenho escrito. Recebi uma carta sua um dia após a um telegrama em que o sr. dizia não poder vir agora por se achar com os trabalhos da colheita de café e esperava o sr. Claudiano. Espero pois o sr. e Adélia em princípios de julho e não posso dizer com que alegria espero o momento de vê-lo abraçar aquela a quem já chamou de nova filha e que verdadeiramente é em tudo digna disto.

Disse o sr. que tendo o casamento de se realizar em setembro havia muito tempo para os aprestos dele; me parece, porém, e será mais conveniente para mim, que ele poder-se-á realizar antes, em agosto, por exemplo e já acordaram neste ponto comigo a d. Túlia e o coronel Solon.

Assim eu terei tempo de harmonizar essa brusca mudança de estado com a quadra trabalhosa dos meses de outubro, novembro sem o menor prejuízo para os meus estudos. Já agora eu sinto e confesso ao sr. com a maior sinceridade que me seria penosíssimo esperar, pois é muito difícil afastar a preocupação constante que alimento e prefiro antes do que pensar nas grandes responsabilidades do futuro, senti-las e desempenhá-las. A conselho do Solon desliguei-me inteiramente de algumas ligações políticas que começava a ter; não escrevo de há muito para a Democracia — Parece-me que fiz bem; desconfio muito que entramos no desmoralizado regime da especulação mais desensofrida e que por aí pensa-se em tudo, em tudo se cogita, menos na Pátria. As minhas aspirações acham-se contudo de pé: retraio-me agora; estudarei, tratarei de formar melhor o meu espírito e o meu coração e mais tarde, passada essa febre egoística e ruim que parece alucinar a todos, quando sentir-se necessidade de homens e os que atualmente escalam cegamente as posições, conscientes da própria fraqueza, delas abdicarem voluntariamente —aparecerei então, se puder, se quiserem. Sei que o sr. aprova esse proceder — pelo menos porque assim procedendo eximo-me à decomposição geral que por aqui parece visar o aniquilamento das mais sólidas individualidades. Imagine o sr. que o Benjamin, o meu antigo ídolo, o homem pelo qual era capaz de sacrificar-me, sem titubear e sem raciocinar, perdeu a auréola, desceu à vulgaridade de um político qualquer, acessível ao filhotismo, sem orientação, sem atitude, sem valor e desmoralizado — dói-me dizer isto — justamente desmoralizado. Eu creio que se não tivesse a preocupação elevada e digna que me nobilita, teria de sofrer muito, ante esse descalabro assustador, ante essa tristíssima rumaria de ideais longamente acalentados... Eu sinto-me feliz considerando que o sr. se acha aí, longe, bem longe do ambiente corrupto que nos envolve aqui.

Peço-lhe que me responda com brevidade. Não posso dar notícias de amigos e conhecidos porque não tenho descido à cidade.

Peço-lhe que dê por mim um apertado abraço em Adélia e abençoe ao seu filho e amº.

 

 

 

 

Euclides

Capital Federal, 11 de dezembro de 1893

Meu Pai

Abraço-vos desejando saúde e felicidades.

Escrevo sob a mais triste impressão. O longo afastamento dos que tanto estimo aliado aos trabalhos da minha posição, as preocupações que a todo momento me agitam, o pensamento constante no futuro e toda a incerteza do presente — têm-se refletido da pior maneira sobre mim. Sinto-me abater dia a dia, minado por doença pertinaz (peço-vos não dizer isto a Saninha) sinto-me cada vez mais fraco e com o pressentimento cada vez maior de um tristíssimo fim. A minha energia moral pode apenas dominar todo esse abatimento da minha natureza. Se há um Deus, ele sabe de quanta virtude eu disponho para arcar com o cumprimento de tão penosos deveres; aliados a sacrifícios tão grandes. Acabo de receber uma carta de Saninha que ainda mais me abateu: diz-me que está doente e pede-me para ir buscá-la. Eu sei que ela deve sofrer muito na dolorosa situação em que está, na iminência constante de uma viuvez que a pode assaltar quando menos a esperar, mas o que hei de fazer? Não posso sair daqui. Não posso abandonar a minha posição. Não posso desonrar-me pela deserção — não posso, não devo e não quero. Apesar disto não a quero contrariar. Ela tem sofrido tanto que eu não seria digno se permanecesse surdo ao seu pedido. Quando surgiu essa maldita revolta que a tantos tem feito sofrer, pensei imediatamente no sr. como a única pessoa capaz de me amparar no doloroso transe, a única a que eu podia confiar a minha mulher e o meu filho. E eu não me iludi. Estou certo de que a Saninha encontrou no sr. um verdadeiro pai (e isto ela me tem dito) — mas como na carta que me acaba de enviar disse-me que se sente doente e teme até morrer aí, desejando voltar, eu, não podendo sair daqui, fico no desespero dos que não podem tomar deliberação alguma. Como contrapeso a tudo isto aparece-me agora uma tosse insistente e rebelde e progredindo espantosamente. Os médicos dizem que eu devo ter muito cuidado, que os sintomas são maus e etc. Nada porém eu posso fazer, nem mesmo para tratar da saúde se dão licenças. Vivo uma vida realmente miserável — não por falta de dinheiro — sem poder ter a mais ligeira higiene como regularidade de alimentação. Reconheço assim que é preferível que aqui estejam a Saninha e o filhinho, apesar de todos os perigos; quando menos eu sairei de um modo de vida ao qual estou certo que o meu organismo não pode resistir. O sr. tem explosões de gênio mas o coração generoso sempre e o pensamento sempre digno — há de compreender a situação dolorosa em que me acho e fazê-la cessar.

Meu pai, eu sinto o maior abatimento — corolário inevitável de preocupações e trabalhos que tenho tido — peço, pois para desculpar o desânimo que transpira desta carta, lembrando-se que ela é de um filho que vos estima muito mas que atualmente sofre também muito. Todos daqui que me vêem acham-me ainda mais abatido e alquebrado. E um dos motivos que fazem com que eu deseje satisfazer o pedido de Saninha é o pressentimento constante de que se tal não fizer talvez não veja mais o filhinho e ela.

Peço para recomendar-me a todos; desculpai e abençoai ao seu filho

Euclides da Cunha

 

 

[Timbre: Comissão Técnica Militar Consultiva - 32, Praça da República]

 

 

 

 

 

 

Capital Federal, 15 de dezembro de 1893

Porchat

Saúdo-te — desejando-te o que mais me falta atualmente, a paz carinhosa e alentadora da família. Li a tua carta, como leio todas as cartas que me chegam de 5. Paulo, com a imensa tristeza dos que escutam a voz dos amigos ausentes, sem a esperança de os tornar a ver. Além disto a tua carta transuda a melancolia que devem realmente sentir os bons, na fase desastrosa que atravessamos. Pelo menos sobre mim a feição última dos acontecimentos refletiu-se da pior maneira. Não que o manifesto Saldanha me fizesse desanimar a mim, republicano feito nas asperezas da propaganda — mas sim por que a rosnadura do nostálgico molosso, que ora mostra os colmilhos perigosos, ladrando à República, faz-me conjeturar num prolongamento da luta, inevitavelmente desastrosa para a nossa terra.

O que haverá pelas bandas do futuro? Esta interrogação, perene no meu espírito, já se me tornou em perigosa obsessão; todos os meus atos, sinto-os em função dela, de sorte que vivo num constante oscilar — do desânimo maior às maiores esperanças. O que nos reserva o futuro? A nossa grande Pátria cindida pelas paixões decompor-se-á em minúsculos estados? Resistirá, forte, amparada pela República, à sinistra conspiração, dos velhos devassos imperiais, emudecidos a 15 de novembro e rugidores hoje? O que traduz a feição dúbia das potências estrangeiras e, sobre todas, a dessa perene inimiga do gênero humano — a Inglaterra — que realiza o fato assombroso de criar dentro de uma alma tão estreita os maiores homens do mundo, os Newtons, os Byrons e os Parnells?

Não vês a maneira pela qual as gentes pseudocivilizadas tratam os selvagens de todo mundo? A França, a Inglaterra, a Alemanha, exercendo miseravelmente o banditismo mais torpe roubando pátrias, saqueando os lares tranqüilos dos bárbaros na África e na Ásia. E ultimamente a Espanha, tão ciumenta da própria liberdade e tão cavalheira para defendê-la, investindo covardemente contra os Cabilas seminus e incultos? Suporão esses países gastos e fúteis, com a sua civilização ridícula de bulevares repletos de boêmios infecundos e desprezíveis, que somos nós uma variedade qualquer dos bôeres ou dos Cabilas? Todas estas interrogações, meu amigo, acodem-me de chofre e com tumulto ao meu espírito. Tenho-as sempre, vivíssimas e insolúveis. Nunca senti tão violento como hoje o que dantes era para mim um sentimento mau, traduzido por uma palavra que eu entendia não dever existir na linguagem humana — o nativismo. Tenho-o hoje, exageradamente. O estrangeiro, o estrangeiro que se diz civilizado — considero-o inimigo. É o inimigo pior e covarde, de luvas de pelica e sorridente, que nos mata e ao mesmo tempo avilta-nos. E eu pressinto que ele tem hoje o olhar cobiçoso sobre a nossa terra. O século XIX porém não testemunhará o desastre do aniquilamento de uma nacionalidade. As usinas do Krupp, Schneider, Bange e tantos outros 1.. .J do progresso não impedirão a majestosa evolução do espírito democrático confiado à política americana.

Já vai longa esta carta; escrevi rapidamente, de propósito, como que para apanhar em flagrante a minha maneira de sentir. Encarrego-te da missão de abraçar a todos os bons companheiros daí. Recomenda-me a toda a família e escreva sempre ao amº. seguro

Euclides da Cunha

 

 

[Timbre: Comissão Técnica Militar Consultiva - 32, Praça da República]

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio, 18 de fevereiro de 1894

Sr. Redator

 

 

Em carta ontem publicada, dirigida ao redator d'O Tempo, o sr. João Cordeiro manifestou sentimentos de tal natureza, que, caso passem em silêncio, provocarão um grande e doloroso espanto no futuro, definindo pela pior maneira a feição atual da sociedade brasileira.

É muitíssimo justo que se dêem a um amigo parabéns pelo malogro de um atentado covarde como aquele que, segundo se afirma, foi ideado à redação de O Tempo. É porém, profundamente condenável aliar-se à justíssima condenação de um crime uma represália talvez ainda mais criminosa. Assim é que o sr. João Cordeiro sugeriu o alvitre singular e bárbaro de lançar-se mão das mesmas armas criminosas e reduzir a retalho as prisões onde estão os rebeldes, etc..., caso não se possa conseguir o fuzilamento dos dinamitistas. Confesso, sr. Redator, que uma tal proposição, ousadamente atirada à publicidade, num país nobilitado pela forma republicana, deve cair de pronto sob a revolta imediata dos caracteres, que na fase dolorosa que atravessamos tenham ainda o heroísmo da honestidade.

E necessário ainda que este protesto parta justamente dos arraiais daqueles que, pelo fato mesmo de lutarem sob a égide da lei, se consideram bastante fortes, para não descerem a selvatiquezas de tal ordem. E o que faço, desafiando embora a casuística singular que por aí impera, mercê da qual é fácil estabelecer-se a suspeição em torno das individualidades mais puras, tornando-as passíveis dos piores juízos.

Este protesto não exprime a quebra de solidariedade com os companheiros ao lado dos quais tenho estado; exprime simultaneamente um dever e um direito.

De fato, quem quer que tenha uma compreensão mais ou menos lúcida do seu tempo, deve procurar evitar a revivescência do barbarismo antigo; quem quer que seja medianamente altivo, pode afastar a camaradagem deprimente de quem almeja o morticínio sem os perigos do combate.

Euclides da Cunha, engenheiro militar.

 

 

 

 

 

 

Rio, 20 de fevereiro de 1894

Sr. Redator

A fim de reduzir corolários ilogicamente deduzidos da minha carta anterior, peço mais uma vez lugar nas colunas do vosso jornal, afirmando-vos que não renovarei este apelo ao vosso cavalheirismo, porque não devo malbaratear em polêmicas que se tornem pessoais o tempo que devo empregar trabalhando pelo meu pais. Afeito a proceder retilineamente, não temo os perigos das posições definidas, e afirmo mesmo que, por maiores que sejam aqueles, estas são sempre as mais cômodas.

As conseqüências que aprouve à redação d'O Tempo tirar das minhas palavras são tão profundamente irritantes e falsas, que exigem uma réplica imediata. Não sei que modalidades deva assumir a minha linguagem para fazer compreender aos que comigo lutam pela mesma causa com sentimentos diversos, que também condeno inexoravelmente a turbamulta perigosa que irrompe atualmente de todas as sociedades, planeando o mais condenável ataque a todo o capital humano, e tentando macular, cobrir com uma fumarada de incêndio o vasto deslumbramento do nosso século. Por isso mesmo que os condeno, é que entendo que eles devem cair esmagados pela reação de todas as classes; mas por isso mesmo que odeio os seus meios de ação repilo-os, entendendo que a reação pode perfeitamente, com maior intensidade, definir a serenidade vingadora das leis.

E necessário que tenhamos a postura corretíssima dos fortes! Não é invadindo prisões que se castigam criminosos. Nada mais falível e relativo do que esta justiça humana condecorada pela metafísica com o qualificativo

de absoluta. Há nos sentimentos que ambos tributamos à República uma diferença enorme: V. x. tem por ela um amor tempestuoso e cheio de delírios de amante, eu tenho por ela os cuidados e a afeição serena de um filho.

Persisto, pois, na deliberação fortemente tomada de o não considerar como um companheiro de lutas.

O futuro dirá quem melhor cumpriu o seu dever.

Euclides da Cunha, primeiro tenente.

 

 

 

 

 

 

S. Paulo, 9 de outubro de 1895

João Luís

Saúdo-te assim como a toda a família.

Até que afinal!...! Afinal consegui a suprema ventura de ter uma carta tua, duplamente valiosa, porque trouxe as duas fotografias fidelíssimas, a moral e a física do companheiro e bom amigo ausente. ~ andava bastante contrariado com o silêncio dos meus amigos Campanha e achava singular que não encontrassem nas suas longas horas de tranqüilidade cinco minutos para escreverem-me; rompeste felizmente o criminoso silêncio.

Lamentei que a tua carta, tão vibrante e iluminada, trouxesse, dividindo-a transversalmente na sua primeira página, tristíssima novidade que ali estava anômala como um farrapo de treva, como um trapo de nuvem tempestuosa num céu claríssimo e vasto. Devias tê-la enviado num de papel, à parte, porque ela é um traço eloqüentíssimo da feição dolorosa da alma humana... Passemos porém, a outro assunto.

Ficamos muito satisfeitos com a notícia da tua próxima vinda aqui. Que ela não fique apenas em projeto e se vieres previne-me antecedência a fim de esperá-los porque não dispenso absolutamente a satisfação de acolher o meu amigo e família na minha tenda de árabe.

O que poderei dizer-te de novo sobre a minha vida? E sem mesma, incoerente, sulcada, de desânimos profundos, agitada, de ações tumultuosas, iluminada às vezes por esperanças imensas...

mente porém, meu caro João Luís, prendi-a à de dois filhos pequenos, transformei-a de direito que é para quase toda a gente em dever imprescritível (se é que admites tão singular dever) e sigo avante. Deves saber que a minha índole é contraposta ao meio tumultuoso em que estou, aonde a luta pela vida lembra, pela ferocidade e pelo bárbaro egoísmo a agitação da idade das Cavernas.

Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e lêem Stuart Mill e Spencer — com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e — fato singular —! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora, cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. Em compensação, a sociedade moderna — essa que nós também conhecemos encontra no meu lar ampla, iluminada, vastíssima — limitada pelos quatro ângulos da minha estante. E assim vivo aqui nesta boa terra.

E você? Persiste ainda no propósito de permanecer ai perenemente, na Tebaida — como um monge imberbe, ilogicamente desalentado? Não te atrai uma estrada mais perigosa e abrupta para o futuro? Conta-me alguma coisa neste sentido, na resposta a esta que espero breve.

Diga ao nosso grande amigo dr. Brandão compreendo perfeitamente que somente raras vezes terá tempo para escrever aos amigos, com a vida atarefada que aí leva.

Recebemos o broche que aí ficara e não comuniquei porque era desnecessário.

Recomende-nos muito a todos da tua família e do dr. Brandão. Mal resta-me espaço para assinar-me como sempre. Amº. obrmo.

Euclides da Cunha

 

 

S. Paulo, 23 de abril de 1896

João Luís

Saúde, desejando felicidades.

Atribuo a motivo plenamente justificável o silêncio do meu digno amigo e desejo imensamente que não seja moléstia e sim grandes preocupações a causa principal do fato de não haver respondido às minhas ultimas cartas.

Cumprindo o que me determinou enviei daqui, competentemente registrado o Direito das Obrigações e encarregarei a um amigo do Rio o st. Alfredo Chaves de mandar de lá o Direito das Famílias — que atualmente não existe aqui. Ora, não tendo comunicação alguma daí e sendo natural qualquer extravio peço-te mandar dizer se os recebestes. A vida atarefada que tenho impediu-me até hoje de completar as encomendas com que me honrou; deve desculpar-me — e nem para outra coisa foram feitos os amigos. Mande-me, pois, qualquer resposta a respeito.

Nós continuamos sem maior novidade os filhinhos fortes e robustos, reagindo a este clima deprimente.

Absorvido pelo estudo da Mineralogia, vivendo numa áspera sociedade de pedras, esqueci-me da minha situação presente, de modo que ontem fui surpreendido com ordem para me apresentar ao Comando do Distrito por haver terminado o tempo de agregação — e devo entrar amanhã em nova inspeção de saúde, cujos resultados te comunicarei. Qualquer que ele seja, creio que persistirei no objetivo que tracei. Em todo o caso, fazendo, creio, juízo seguro acerca dos sentimentos dos meus amigos, estou certo que eles não atribuirão à falta de orientação tanta vacilação de minha parte em tomar uma solução definitiva.

Quem vive nesta tranqüila e boa Campanha não pode ajuizar acerca do estado da nossa terra, estado atumultuado e indefinível dentro do qual a normalidade, para os que não se deixaram corromper ainda, consiste mesmo neste vacilar, a todo o instante, incessantemente. Você tem bastante espírito para compreender as coisas atuais e dar-me razão. Aí vai um exemplo característico das torturas porque passa quem quer que ainda seja sincero ou antes ingênuo, nesta adorável terra:

Comecei, com todo o afinco a estudar para um próximo concurso (ao qual ainda não renunciei); no fim quase de um mês, porém — começou a dar-se o seguinte: o cidadão A, cheio de íntima convicção, baseado em anteriores exemplos, fatos passados com outros, afirmava-me que isto de concurso em 5. Paulo não valia nada, sendo invariavelmente nomeado persona grata do governo, citando-se mesmo o fato recente da anulação de um concurso pelo fato de ter má colocação cidadão favorecido pelo apoio oficial. Logo após o cidadão B, confidencialmente, fazia alusão à minha seita positivista (eu, positivista!) e à birra especial de algumas influências pelos que a professam.

O cidadão C, lembrava-me artigos meus, de 92, no Estado, em que combati energicamente a maneira pela qual foi organizada a Escola etc. Um outro, comunicava-me a existência de terrível adversário, um dos primeiros geólogos do Brasil, discípulo e braço direito de Gorceix etc. etc.

Imagina que imenso esforço para ficar a cavaleiro de tudo isto ( João Luís — convença-se de que a nossa geração é a mais desta terra; — a nossa mocidade dá-nos uma esplêndida energia mas, neste meio, esta energia... é uma fraqueza deplorável. Os lori os maleáveis de todos os tempos; os vitoriosos são os que se deixai vencer a todo o instante, passíveis, como autômatos, a todos os caprichos.

Paradoxal, embora, é a verdade o que aí vai escrito.

Você dirá que estou num dos meus momentos de pessimismo agudo; não estou, escrevo-te calmo, sem contrariedades e com a neutralidade a mais perfeita de observador. Referindo-me ao mau estado das coisas da nossa terra se alguma mágoa me assalta é a mesma de física qualquer examinando a marcha da sífilis num organismo estragado.

Daí... talvez seja isto progresso, talvez esta decomposição do ponto crítico da passagem de uma homogeneidade indefinida e incoerente a uma heterogeneidade coerente na frase mais artística do que profunda de Spencer.

Falemos, porém, de coisas mais íntimas: como vão os nossos amigos da Campanha, o dr. Brandão, comdor. Veiga, etc. etc.? Peço-lhes um grande abraço por mim.

Quando pretende vir até cá, a fim de defender a tese como A propósito, devo comunicar que se vão abrir diversos concursos na Escola de Direito, sendo candidato a um deles o ultra-eminente Pujol.

Por que não vens, rapidamente embora, dar uma volta até minha tenda de árabe está armada pronta a receber os velhos companheiros. Responda qualquer coisa neste sentido.

A Saninha manda muitas recomendações a d. Fernandina, d. Messias, enfim a todos. Não escreve porque esteve doente e muito atrapalhada com os filhinhos que quanto mais crescem mais cuidados dão. encerrar esta que já vai longa. Realmente abusei um pouco — mas também há quanto tempo não conversamos?

Adeus - dê por mim saudades a teu sogro e demais amigos sempre às ordens aqui está amº. obrmo.

Euclides

 

 

B. — Não se esqueça de dizer-me logo se recebeu os livros.

 

 

 

 

 

 

Lorena, 19 de outubro de 1902

Escobar

Respondo a tua carta, agora recebida. Pilhérico sonho, o teu... Ministro! Ministro da Viação este teu pobre amigo! Só mesmo em sonhos... Mas queres saber de uma coisa? Prefiro ser realmente ministro nos breves minutos de um sonho, ocupando a imaginação de um amigo, do que o ser, de fato, nesta terra onde não há mais altas e baixas posições... Minado tudo.

Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus Sertões; fui lê-lo com mais cuidado e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente... Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro? Manda-me dizer daí algo a respeito. Imagina que lá encontrei à fa/câo, à pranchada, braço à braço, tempos à tempos, etc. etc.

Não te posso dizer como fiquei. Por fim abrindo, ao acaso, depois do jantar, uma página, encontrei isto: "Não iludiu à história..."

Não te descrevo o que houve! Quer isto dizer que estou à mercê de quanto meninote erudito brune as esquinas; e passível da férula brutal dos terríveis gramatiqueiros que passam por ai os dias a remascar preposições e a disciplinar pronomes!

Felizmente disseram também que o Victor Hugo não sabia francês.

Vou escrever ao Laemmert para reduzir quanto possível, a primeira edição, se houver tempo.

Minal, egoisticamente, falei-te só no que me dizia respeito. Desculpa-me; e escreva-me logo. Quero que venha daí, de longe partindo dessa boa alma de velho companheiro, uma palavra que me anime um pouco.

Adeus. Recomenda aos teus — o velho amº.

Euclides

O Napoleão de Roseberry... Extraordinário.

 

 

 

 

Lorena, 3 de dezembro de 1902

Exmo. sr. José Veríssimo

Ao ler no Correio de ontem a notícia do seu juízo critico sobre os Sertões, tive, renascida, uma velha comoção que já supunha morta — a de calouro, nos bons tempos passados, em véspera de exame. E não era para menos, dada a competência do juiz. Felizmente este foi generoso. Demonstra-o o belo artigo que acabo de ler, no qual, atendendo principalmente às observações relativas à minha maneira de escrever, colhi proveitosos ensinamentos.

Num ponto apenas vacilo — o que se refere ao emprego de termos técnicos. Aí, a meu ver, a crítica não foi justa.

Sagrados pela ciência e sendo de algum modo, permita-me a expressão, os aristocratas da linguagem, nada justifica o sistemático desprezo que lhes votam os homens de letras — sobretudo se considerarmos que o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, e a tendência mais elevada do pensamento humano. Um grande sábio e um notável escritor, igualmente notável como químico e como prosador, Berthelot, definiu, faz poucos anos, o fenômeno, no memorável d com que entrou na Academia Francesa.

Segundo se colhe de suas deduções rigorosíssimas, o escritor futuro será forçosamente um polígrafo; e qualquer trabalho literário se distinguirá dos estritamente científicos, apenas, por uma síntese mais delicada, excluída apenas a aridez característica das análises e das experiências.

Se não mo impedisse esta minha vida perturbada de commis-voyageur da engenharia (e hoje mesmo seguirei para 5. Luís do Paraitinga em viagem urgente!) abordaria esta questão pela imprensa. Mais competente, porém, para isto, é o sr., que, ademais, tem grandes responsabilidades pelo nosso movimento literário. Por que não a agita? Eu estou convencido que a verdadeira impressão artística exige, fundamentalmente, a noção científica do caso que a desperta — e que, nesse caso, a comedida intervenção de uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente — e é justo desde que se não exagere ao ponto de dar um aspecto de compêndio ao livro que se escreve, mesmo porque em tal caso a feição sintética desapareceria e com ela a obra de arte.

Desejo muito conhecer o seu pensamento acerca desta questão; e comprometo-me desde já a defender, na medida das minhas forças, a tese acima esboçada.

Terminando, resta-me agradecer de todo o coração o nobilitador juízo que manifestou por mim e a verdadeiramente admirável compreensão que teve do meu livro, em que pese a uma leitura naturalmente rápida.

Peço-lhe que me recomende à Exma. senhora e filhos, acreditando sempre na alta consideração do — amº. e admirador

Euclides da Cunha

 

 

P. S. — Estarei de volta, de 5. Luís, no domingo, 7 do corrente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Lorena, 27 de fevereiro de 1903

Amigo dr. Araripe Júnior,

Recebi o seu cartão e aguardo — nem imagina com que ansiedade! — o seu juízo sobre os meus Sertões.

Na véspera havia lido o seu último artigo sobre os "Comentários" da nossa Constituição Federal, do dr. João Barbalho, e, francamente, ali notei, sob um aspecto inteiramente novo, ajustado ao destino dos povos americanos, a doutrina, sem número de vezes discutida e falseada, de Monroe.

Mas o que sobretudo me impressionou foi o desassombro, a magnífica rebeldia de um espírito em plena insurreição contra o nosso sentimentalismo mal educado e estéril. Considero o paralelo, ou melhor, o contraste lucidamente exposto, entre as duas expansões, a teutônica e a ianque, como raio de uma visão que nos últimos tempos mais se tem dilatado no perquirir o destino superior da civilização.

Sou um discípulo de Gumplowicz, aparadas todas as arestas duras daquele ferocíssimo gênio saxônico. E admitindo com ele a expansão irresistível do circulo singenético dos povos, é bastante consoladora a idéia de que a absorção final se realize menos à custa da brutalidade guerreira do "Centauro que com as patas hípicas escarvou o chão medieval" do que à custa da energia acumulada e do excesso de vida do povo destinado à conquista democrática da terra.

Não calculo até que ponto se possa aceitar o seu otimismo sobre a hegemonia norte-americana. Mas, dado mesmo que ele falhe por completo, e que o malsinado imperialismo ianque se exagere até a posse dos países estranhos, — de que nos valeriam lamúrias de superstições patrióticas?

Vi no seu artigo um significado superior, sugerindo uma medida prática; subordinados à fatalidade dos acontecimentos, agravados pela nossa fraqueza atual, devemos antes, agindo inteligentemente, acompanhar a nacionalidade triunfante, preferindo o papel voluntário de aliados à situação inevitável de vencidos.

É o pensar dos que não desejam ser amigos ursos da Pátria, embora atraindo a pedrada patriótica dos que por aí, liricamente, a requestam numa adorável inconsciência de perigos que a rodeiam.

E julga-se feliz com esta perfeita uniformidade de vistas, o seu patrício admor.

Euclides da Cunha

 

 

Lorena, 9 de março de 1903

Dr. Araripe Júnior

Cheguei de 5. Paulo onde li o magistral artigo sobre Os Sertões e posso escrever-lhe desafogadamente porque não transmito a minha impressão, mas a de todos que sabem ler naquela cidade.

O seu artigo fora anunciado por um telegrama vindo para o jornal da tarde A Platéia. O Jornal era esperado. Às dez horas da noite tinha-o lido quase toda a roda literária paulista e às dez e meia eu saí da redação do Estado de 5. Paulo com o enorme estonteamento de um recruta transmudado repentinamente num triunfador.

Compreendi então quanto é inerte (na significação que damos em mecânica à palavra) a opinião, mesmo entre espíritos cultos; absolutamente passiva, como a cera, um molde admirável para corporizar o pensamento dos eleitos.

Porque, no dia seguinte, eu — que até então era um engenheiro-letrado, com o defeito insanável de emparceirar às parcelas dos orçamentos as idealizações da Arte era um escritor, apenas transitoriamente desgarrado na engenharia. A sua grande generosidade, a sua honrosíssima simpatia, garantidas ambas por um espírito robusto, impuseram-me — libertando-me do aspecto dúbio, meio profissional, meio artista, que me tornava um intruso em todas as carreiras.

Nem sabe quanto lhe devo...

Além disto aquela análise recorda a crítica reconstrutora de Macaulay.

A significação histórica do grande agitador sertanejo que delineei apenas, ajustando-se à escola antropológica, aparece mais nítida, explicada pelas circunstâncias especiais do meio que não tive tempo de conhecer e pelo caráter essencial do indivíduo que não apreendi com segurança, dadas as causas perturbadoras que radicavam a minha observação.

Ao chegar encontrei reclamações de empreiteiros que me obrigam a seguir já, em viagem. — Até muito breve, porém.

Creia sempre no patrício e admor.

Euclides da Cunha

 

 

 

 

Lorena, 12 de março de 1903

Dr. Araripe Júnior

Chego de viagem; fantástica viagem em que, rompendo pelos caminhos deste velho recanto de 5. Paulo, eu fui bater na Bahia e no século XVII... É que o trole me conduzia a Silveiras e a Areias, enquanto o meu companheiro de viagem, o infernal Gregório de Matos, "um diabo passado por crivo de fios aristofanescos trançados com luxúria por mãos de feiticeiras", suplantando o gordo empreiteiro que gaguejava ao lado não sei mais que estafantes conceitos sobre um orçamento — o estupendo Homero dos lundus, arrebatava-me num prodigioso salto mortal do espírito sobre dois séculos, para a grande matriz das nossas tradições. E lá segui com ele, embetesgado nas vielas da velha capital... Belo sonho! Um dia estranho de vilegiatura ideal... Por uma evocação, exagerada talvez, eu vi a vida tumultuária da Arcada original dos Capadócios, nos velhos tempos e em plena vernação dos seus atributos característicos. E foi num verdadeiro estonteamento — entre risos, rasgados de violas, dolências de modinhas, saracoteios de sambas, e, aqui, passando entre serpentinas e cadeirinhas adamascadas, ali acotovelando reinóis recém-chegados ou esbarrando num volver de esquina com o frívolo Rocha Pita, contemplando de relance o padre Damaso, evitando, adiante, o feroz "Braço de Prata", saudando mais longe o previdente Lancastre — que eu vi pela primeira vez o terrível trombeteiro de má morte, o vilanaz Aristófanes das mulatas.

Que ressurreição e que figura!

E quando o pobre velho me desapareceu, afinal, obscuramente, num engenho de Pernambuco, toda a sua ironia de fogo e as suas rimas cauterizantes e as suas risadas vingadoras extinguiram-se também, de chofre.

É uma vida a que se assiste entre risos e comenta-se com austeridade. Porque o que ressalta, sobrepujando toda a sua desenvoltura pagodista — é o eterno martírio dos predestinados.

Mais do que o homem, biologicamente falando, Gregório de Matos foi um admirável órgão social quase passivo, feito uma alavanca, cuja força eram as próprias forças coletivas: uma máquina simples em que se corporizaram muitas tendências da raça nova que surgia. Foi "herói" na alta significação dada à palavra pelo dramático Carlyle: prefigurou, fundindo-se na sua individualidade isolada, muitos aspectos de um povo.

E passou pela vida obedecendo à fatalidade mecânica de uma resultante intorcível: incorrigível, rebelde sempre à visão estreita dos que pensavam morigerá-la, como se houvesse preconceitos ou regras para estes avant-coureurs das nacionalidades, títeres privilegiados, arrebatados pelas leis desconhecidas da história. Foi um grande sacrificado o desenvolto folgazão! E maior que os seus êmulos, de Juvenal a Bocage, a sua sátira, em que pese ao tom ferocíssimo e maligno, pertence-lhe menos do que às rebeldias nascentes e relaxamentos inevitáveis de uma sociedade em que se chocavam os vícios de um povo velho, agravados pela "bebedeira tropical" e os instintos inferiores de duas raças bárbaras.

Desta alquimia horrorosa, tendo como reagentes o deslumbramento solar, a canícula mordente e a terra fecunda, só podia surgir naquela retorta da Bahia desmedida aquele precipitado.

Foi tão natural e espontâneo que ainda não se extinguiu. Difundiu-se em dois séculos, e aí está, impressionante, nesta adorável capadoçagem nacional que atenua em boa hora a nossa melancolia de semibárbaros...

Mas noto a tempo o desgarrão que me desorienta, escrevendo, rápidas, estas linhas, tomando-lhe o tempo e expondo aí, desalinhadas e em tiagrante, a impressão ou antes uma das impressões que me deixou seu belo livro. Vou relê-lo e talvez melhor o compreenda.

Recebi o seu cartão. Não devia surpreendê-lo o efeito do artigo. A sua ação intelectual, afirmo-o, e confirmam-me algumas cartas que a respeito recebi, — é muito maior do que julga.

Pretendia falar sobre o notável mimetismo psíquico da obnubilação exposto no livro com tanta clareza. Mas onde iriam parar os meus orçamentos e os meus projetos e os meus empreiteiros, se eu firmasse a pena nesta discussão?

Até breve, e creia sempre na alta consideração e estima do patrício e admirador

Euclides da Cunha  
 

 

Lorena, 18 de outubro de 1903

Meu venerando compatriota J. Nabuco, dando a preferência de seu sufrágio ao almirante Jaceguay, e implicando-a com tanta superioridade, o sr. deu à carta, com que me distinguiu, um raro traço de nobreza, sobredoirando o valiosíssimo autógrafo que guardarei carinhosamente entre as melhores relíquias, que possuo. De pleníssimo acordo com o seu pensar, e agradecendo-lhe muito, o tê-lo exposto sem rodeios, (porque me fez justiça de acreditar que de modo algum eu me poderia sentir abatido, no plano secundário que naturalmente ocupo ante aquele notável compatriota) posso afirmar-lhe que não aventurara a minha candidatura se a tivesse de opor à do autor do Dever do Momento, livro a que devemos em parte a felicidade de vermos restituído à atividade política aquele cuja Formação reflete incisivamente, sintetizado numa existência individual, a própria formação do que há de mais brilhante, de mais sério e de mais robusto na nossa consciência coletiva atual.

Não vai a mínima lisonja nestas linhas. Todos os de minha geração devemos muito à sua palavra, porque a ouvimos precisamente na quadra em que sua tonalidade prodigiosa se harmonizou admiravelmente a todos os grandes arrojos e desinteresses da mocidade.

Ela — que por uma circunstância notável tantas vezes se alevantou em frente a Escola Politécnica — dominava, não raro a dos nossos mestres e ampliou o nosso destino subalterno de engenheiros, dando-lhe um significado superior tão bem expresso naquele "triangulador do futuro", a que se refere imaginamente, golpeando de súbitos lances de gênio a secura matemática da aula de Construção, o bom e genial André Rebouças.

Não me demorarei neste assunto, para não me delongar. Basta-me assegurar-lhe que nenhum de nós, rapazes daquele tempo, traiu aquela admiração antiga para que o sr. aquilate bem a verdadeira ufania com que recebi as suas letras.

Quanto aos Sertões — aguardo tranqüilo o resultado de sua leitura. Os deslizes na forma que o inquinam (o José Verissimo inflexivelmente os denunciou) empalidecerão na escala de sinceridade com que esboço as suas páginas. Aí está o seu único valor, mas este é desmesura. Releve-me esta verdade, o Dante, para zurzir os desmandos de Florença idealizou o inferno; eu, não, para bater de frente alguns vícios do n~ singular momento histórico, copiei, copiei apenas, incorruptivelmente um dos seus aspectos... e não tive um Virgílio a amparar-me ante o furor dos condenados!

Não lhe devo tomar mais seu tempo que nesta ocasião pertence todo à nossa terra. Termino assegurando-lhe o meu maior apreço, a certeza e crescente admiração como comp. at. e amº.

Euclides da Cunha

  

 

 

 

Lorena, 22 de novembro de 1903

Coelho Neto

Cheguei hoje do Rio onde tomei revolucionariamente posse de meu lugar no Instituto Histórico. Os jornais limitaram-se a transcrever a resposta do conselheiro Corrêa que pronunciou o seu 10 008º discurso. Não transcreveram o meu; não podiam arquivá-lo tão a fundo, tão de frente, embora sob um aspecto geral, eu feri o presente abominável em que estamos. Sem vaidade — tive, por alguns momentos, em tomo de mim, a simpatia tocante de alguns trêmulos velhinhos, e aqueles minutos irão consolar a minha vida inteira...

Depois conversaremos: em dezembro (em princípio) irei visitar meu velho, e passarei aí para te abraçar.

Então. eu não creio em Deus?! Quem te disse isto? Puseste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam do ateísmo como usam de gravatas — por chic, e para se darem ares de sábios... Não. Rezo, sem palavras, no meu grande panteísmo, na perpétua adoração das coisas; e na biha miserabilíssima e falha ciência sei, positivamente, que há alguma que eu não sei... Aí está neste bastardinho (e é a primeira vez, depois da aula primária, que o escrevo) a minha profissão de fé. Há de adivinhá-lo teu valente coração. Se existir o teu céu, meu brilhante amigo, — para lá irei direitinho, num vôo, um largo vôo retilíneo desta alma aquilina e Unta — com assombro de não sei quantos rezadores, cujas asinhas de bacurau servem para os voejos, na penumbra do Purgatório. E serás o meu companheiro de jornada, porque é na nossa superenervação, e é no nosso idealismo sem fadigas, e é na nossa perpétua ânsia do belo, que eu adivinho e sinto o que não sei. Singularíssimo ateu...

Mas não quero tomar-te mais tempo. Até breve. Recomendações e abraços do

Euclides

 

 

 

 

 

 

[?,?,?, 1904]

[A Lúcio de Mendonça]

Li com o máximo interesse a sua carta de 22 onde estão alguns apontamentos sobre o nosso homem. Não se surpreenda com o desejo de conhecer tais pormenores, por parte de quem, (estudante militar e formando-se precisamente na época em que — em pleno poder — nos colocava acima de todos os homens deste país) devia-os conhecer perfeitamente. Explico: naquela quadra não calculei bem a situação; vi no homem apenas um do. muitos soldats heureux que entram estonteadamente na história. Além fui sempre um tímido; nunca perdi esse traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja. Daí o ter perdido.

Aqui tenho um convite que leio hoje com tristeza e que na ocasião recebi com indiferença. "29 de janeiro de 1893. Euclides — o marechal precisa lhe falar hoje. Pinto Peixoto".

Lá fui constrangido na minha farda de 2º tenente e atrapalhado com a espada. Encontrei o homem na sala de jantar, à vontade, e em um dos seus dias de expansão. A filha mais velha, d. Ana, que já naquela hora matinal estava junto a uma máquina de costura — retirou-se logo que a cumprimentei.

E o grande dominador abriu-me a apertadíssima pasta da sua intimidade: Veio em ar de guerra... não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados.

Decorei textualmente. Agora meu caro dr. Lúcio, vá preparando o mais fulminante alexandrino das Vergastas para fulminar a minha horrorosa inaptidão. O grande doador de posições, referindo-se à minha recente formatura e ao meu entusiasmo pela República, declarou-me que tendo eu direito a escolher por mim mesmo uma posição, não se julgava competente para indicá-la... Que perspectiva! Basta dizer-lhe que estávamos em pleno despencar dos governadores estaduais!...

E eu (nesta época sob o domínio cativante de Augusto Comte, e que isto vá como recurso absolutório) — declarei-lhe ingenuamente que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na E. F. C. do Brasil!

Não lhe conto o resto. Quando me despedi pareceu-me que no olhar mortiço do interlocutor estava escrito: nada vales.

E tive ainda a inexplicável satisfação de descer orgulhosamente as escadas do Itamarati, atravessar alegremente o saguão, embaixo, e sair agitando não sei quantos sonhos de futuro... um futuro que desastradamente eu tinha destruído.

Conto-lhe o caso para que avalie a insciência em que estava daquele momento histórico, o que explica a minha ignorância atual.

Por isso, sempre que puder, sem que isto seja um compromisso que lhe tome o tempo tão bem empregado — transmita-me as suas impressões pessoais.

 

 

 

 

 

 

Rio, 22 de abril de 1904

Coelho Neto

Tens razão. Li a tua carta, e para logo, rompendo com um propósito que me parecia inflexível, procurei o Lauro Müller e pedi um emprego. Aquele velho companheiro, com enorme surpresa minha, — tão destemperados andam os homens e os tempos! — recebeu-me admiravelmente. Não era o ministro, era o antigo companheiro de ideal, o sócio daqueles estupendos sonhos de mocidade (ó República!...) que não sei mais onde existem. Mas antepõe-se um obstáculo grave: a legião inumerável de engenheiros desempregados, que entope as escadas das secretarias. Não imaginas o que eu vi... Vê se concebes, de momento, com o melhor da sua fantasia, o quadro de uma espécie de Encilhamento da Miséria. Há em cada caracol das escadas que levam aos gabinetes dos ministros urna espiral de Dante. Considera agora isto: eu entrei por uma delas; ninguém me conhecia; esquecera-me a preliminar de um cartão, de um empenho; de sorte que, a breve trecho, no apertão dos candidatos afoitos, capazes de pagarem com dois anos de vida cada degrau da subida, me vi frechado de olhares rancorosos... Estaquei, arfando, espetado, em pleno peito, por um cotovelo rígido e duro, de concorrente indomável; não ouvi o trágico ranger de dentes; ouvi grunhidos. Quis voltar; impossível: não havia romper-se a falange que se unia, em baixo, inteiriça, ombros colados como os dos suíços medievais na hora da batalha. Tirei desesperadamente o lenço

e amaldiçoei-te, ó homem, que, a cem léguas de distância, com um movimento da pena e um bater do coração, me atiravas naquela ciscalhagem de almas, de músculos e de nervos! Mas naquele instante alvorou um rosto amigo e desconhecido e, logo após, sacudida por um gesto, que roçou um impertinente cavanhaque vizinho, como a asa de um pássaro num capão de mato, uma pergunta: — É o sr....? O cavanhaque contemplou-me curioso, um sujeito gordo e tressuante por sua vez recuou, e na face cheia espalmou-se-lhe um sorriso; um outro, também gordo (a que mais podem aspirar estes homens? Noto que na sua maioria os candidatos são repletos de carnes) fez o milagre de afastar-se um pouco... e num minuto, nem sei como isso foi, estava lá em cima. E lá em cima empolgou-me a vaidade, porque, em verdade, quem me levara até lá, com tanta felicidade, fora o Euclides da Cunha!

Estas tolices escandalosas só se dizem aos irmãos.

Em resumo, — volto amanhã para Guarujá, já repleto de esperanças; e conto que dentro de 2 ou 3 meses estarei restituído à engenharia. Tenho a boa vontade incondicional dos dois Lauros — Müller e Sodré, além de muitos outros. Mas como não poderei ficar inativo (repito: a minha demissão foi uma cartada no vácuo; preciso trabalhar já e já), aceitei o convite que me fez o Lage para escrever n' O Pais. Escreverei também n' O Estado. Mas tudo isto é provisório. — Conversaremos melhor depois.

Recomenda-me aos teus e aos bons amigos de Campinas.

Abraço-te

Euclides da Cunha

 

 

 

 

 

 

Manaus, 30 de dezembro de 1904

Meu Pai

Muitas felicidades é o que lhe desejo e a todos.

Acabamos de chegar e como temo que o vapor volte amanhã muito escrevo esta ainda de bordo para não perder a oportunidade de mandar algumas notícias. Fizemos sempre boa viagem embora o meu estômago incorrigível me trouxesse num meio enjôo intolerável desde a partida do Rio! Foi bom. Preciso afeiçoar-me ao mal-estar. Considero estas coisas como um preparatório à minha empresa arrojada.

Em todos os pontos onde saltei fui gentilmente recebido graças à influência de seu grande neto — os Sertões. Realmente nunca imaginei que ele fosse tão longe. No Pará tive uma lancha especial oferecida pelo senador Lemos e alguns rapazes de talento. Passei ali algumas horas inolvidáveis — e nunca esquecerei a surpresa que me causou aquela cidade. Nunca 5. Paulo e Rio terão as suas avenidas monumentais largas de 40 metros e sombreadas de filas sucessivas de árvores enormes. Não se imano resto do Brasil, o que é a cidade de Belém, com os seus edifícios

desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus, cavalheira e generosa. Foi a maior surpresa de toda a viagem. Na volta hei de demorar-me ali alguns dias.

Nada lhe direi sobre o Amazonas. Não teria tempo. Escrevo na atrapalhação do desembarque.

Peço-lhe que me mande notícias suas.

Devemos permanecer aqui mais de um mês, porque os peruanos chegaram com as lanchas desarranjadas — e mandaram-nas para Belém onde estão consertando-se e ainda não as vi. Direi depois sobre a impressão que me causaram estes desconhecidos com os quais terei de passar tantos dias na mais estreita intimidade.

Peço-lhe dizer ao Otaviano que lhe escreverei, infalivelmente, pelo primeiro vapor. Ele que me mande também noticias suas e de todos.

Mandei-lhes brevíssimas notícias de todos os pontos onde estivemos cartões-postais. Não sei se aí chegaram.

Felizmente reina boa harmonia entre todos os da minha comissão .; entre esta e a do coronel Belarmino.

Apenas o Otávio andou querendo sair fora da trilha mas lá o coloquei de novo, severamente — de modo que se corrigiu em tempo.

Estou animado. Avalio bem as minhas responsabilidades. Não vacilo. Hei de cumprir inflexivelmente o dever e tanto quanto possível corresponder à confiança com que me honraram.

Muitos e muitos abraços a todos.

Receba saudades do filho e amº.

Euclides

 

O Material digitalizado pelo nosso colaborador está incompleto. Para a obra completa, confira o trabalho da professora Walnice Nogueira Galvão:

 

 

 

Manaus, 13 de janeiro de 1905

José Veríssimo

Meu bom amigo,

escrevo-lhe dissentindo abertamente da sua opinião sobre este singularíssimo clima da Amazônia — e embora ela, já de si mesmo valiosa, tenha o reforço de Wallace Walleis, Maury e quantos cuidaram deste assunto, não posso forrar-me à experiência dolorosa neste instante — menos pela sujeição da coluna mercurial desde ontem firme em 30o, que por um completo aniquilamento orgânico — me revela as exigências excepcionalíssimas de uma aclimação difícil. Em carta neste momento escrita ao Arinos disse que quem resiste a tal clima tem nos músculos a elástica firmeza das fibras dos buritis e nas artérias o sangue frio das sucuriubas. E, sem o querer, achei o traço essencial deste portentoso habitat. É uma terra que ainda se está preparando para o homem — para o homem que a invadiu fora de tempo, impertinentemente, em plena armação de um cenário maravilhoso. Hei de tentar demonstrar isto. Mostrarei, talvez, esteiando-me nos mais secos números meteorológicos, que a natureza, aqui, soberanamente brutal ainda na expansão de suas energias, é uma perigosa adversária do homem. Pelo menos em nenhum outro ponto lhe impõe mais duramente o regime animal. Neste perpétuo banho de vapor todos nós compreendemos que se possa vegetar com relativa vantagem, mas o que é inconcebível, o que é até perigoso pela soma de esforços exigidos, é a delicada vibração do espírito e a tensão superior da vontade a cavaleiro dos estimulantes egoísticos. É possível que uma maior acomodação me faça pensar de outro modo, mais tarde. Neste momento, porém — em que a pena me escorrega dos dedos inundados — não sei como traduzir o glorious clime de Bates. Não há exemplo de um adjetivo desmoralizado (felizmente em inglês!).

Falta-me o tempo para continuar neste desabafo, o único que me permite o ambiente irrespirável. Preciso dar-lhe breve conta de mim.

Entreguei a sua carta ao dr. Goeldi e não preciso dizer-lhe como me recebeu ele, e que duas horas inolvidáveis passei a seu lado pelos repartimentos e entre as maravilhas de um dos mais notáveis arquivos do mundo. Mais tarde, e talvez pela imprensa, direi a minha impressão integral.

Escrevo-lhe às carreiras, sem tempo e sem saber como... não dizer, como evitar o tumulto de coisas que desejava contar-lhe. Se o fizesse, deixaria de escrever não sei quantas outras cartas e não sei quantos ofícios.

Levo — nesta Meca tumultuária dos seringueiros — vida perturbada e fatigante. Ao mesmo tempo que atendo a sem número de exigências do cargo, sofro o assalto de impressões de todo desconhecidas. Foi um mal esta parada obrigatória, que não sei até quando se prolongará: perdi uma boa parte de movimento adquirido, para avançar no deserto. Mas resignei-me, bem certo de que a minha velha boa vontade não afrouxará com tão pouco e confiante na minha abstinência espartana no reagir ao clima. Alguns graus de febre que tive, ao chegar, passaram — e espero que não tenham sido um lugubremente gentil cartão de vista do impaludismo, pressuroso em atender ao hóspede recém-chegado.

Em outra carta serei bem mais extenso. Agora, é impossível. Escrevo apenas para dizer-lhe que estou bom, animado e seguro de cumprir a missão. Quero que abrace por mim ao nosso grande e querido mestre Machado de Assis, Araripe Júnior, Graça Aranha e João Ribeiro. Recomende-me muito à Exma. senhora e filhos - e creia que é com as maiores saudades que lhe mando um abraço

Euclides da Cunha

[*O autógrafo está datado de 1904, por engano]

 

 

 

 

A Machado de Assis

Anverso: Casebre com coqueiros

Reverso: Nesta choupana de roça,

De aparência tão tristonha,

Mora, às vezes, uma moça

Gentilíssima e risonha.

E o incauto viajante

Quase sempre não descobre

A moradora galante

De uma choupana tão pobre

E passa na sua lida,

Para a remota cidade,

Deixando, às vezes, perdida

Num ermo, a Felicidade...

Manaus, 5 de fevereiro de 1905

[Cartão-postal]

Manaus, 10 de março de 1905

Coelho Neto

Quando fui hoje ao correio para assistir à abertura da mala do "Gonçalves Dias" levava a preocupação absorvente de encontrar cartas de casa porque vai para dois meses que não as recebo. Nem uma! Mas (temperamento singular o meu, feito para todas as dores e para todas as alegrias) recebi toda garrida, embora vestida de preto, a tua carta gentilíssima. E foi como uma janela que se abrisse de repente no quarto de um doente... Obrigado, meu esplêndido companheiro de armas! Jamais avaliarás os resultados da tua verve tumultuada neste meu tédio lúgubre de Manaus. Manaus — ha uma onomatopéia complicada e sinistra nesta palavra — feita do soar melancólico dos cabarés e da tristeza invencível do Bárbaro. Não te direi os dias que aqui passo, a aguardar o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador onde pretendo entrar com os arremessos britânicos de Livingstone e a desesperança italiana de um Lara, em busca de um capítulo novo no romance mal-arranjado desta minha vida. E eu

devia estar dominando as cabeceiras do rio suntuoso, exausto nos primeiros boleios dos Andes ondulados. Mas, que queres? Manietaram-nos aqui as malhas da nossa administração indecifrável e só a 19 ou 20 deste receberemos as instruções que nos facultarão a partida. Imagina, se puderes, as minhas impaciências. Esta Manaus rasgada em avenidas, largas e longas, pelas audácias do Pensador, faz-me o efeito de um quartinho estreito. Vivo sem luz, meio apagado e num estonteamento. Nada te direi da terra e da gente. Depois, aí, e num livro: Um Paraíso Perdido, onde procurarei vingar a Hibe maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século XVIII. Que tarefa e que ideal! Decididamente nasci para Jeremias destes tempos. Faltam-me apenas umas longas barbas brancas, emaranhadas e trágicas. Vamos a outro assunto. Chegou tarde o teu pedido sobre a próxima eleição da Academia. Já o Veríssimo me comunicara a renúncia do Vicente, indicando-me o Sousa Bandeira. Mandei-lhe o meu voto pelo vapor passado. Entretanto da tua carta à dele modearam apenas 30 e poucas horas que foram do avançamento do "S. Salvador" sobre o 'Gonçalves Dias". Caprichos da fortuna.

Não te esqueças de ir com tua Senhora visitar as minhas quatro enormes saudades na minha fazendinha de Laranjeiras. Escreve-me sempre e sempre. As tuas cartas serão recebidas mesmo no Alto Purus.

l2º filho! Não sei se devo dar-te parabéns por esse transbordamento de vida. Neste tempo e nesta terra as criancinhas deviam nascer de cabelos brancos e um coração murcho, meu velho Coelho Neto. De mim penso que uns restos de mocidade nacional estão nas almas de meia dúzia de sexagenários dos bons tempos de outrora. Entre esses desfibrados e jovens imbecis tenho às vezes, vontade de perguntar a um Andrade Figueira, a um Lafayette e a um Ouro Preto se já fizeram vinte anos. Ma façamos ponto, alto! neste rolar pelo declive do meu pessimismo abominável.

Adeus. Até a volta, porque, — infalivelmente — ainda te apertará em um abraço o teu

Euclides da Cunha

 

 

 

 

Rio, 23 de maio de 1906

Meu ilustre amº. dr. Oliveira Lima,

Saúdo-o muito afetuosamente, desejando-lhe felicidades e a sua Exma. sra.

Neste momento o José Veríssimo entregou-me a sua prezada carta. li-a e reli-a, lamentando ao mesmo tempo que os meus muitos trabalhos me houvessem impedido escrever-lhe há mais tempo. É que não queria mandar-lhe apenas meia dúzia de linhas incolores. Ainda hoje, porém, tenho de escrever-lhe a carreira — Falham-me ainda os últimos retoques da Comissão. Somente mais tarde conversaremos melhor.

Não preciso dizer-lhe que o seu nome aparece sempre a intermitência nas nossas palestras, principalmente quando nos artigos do Estado rebrilham as suas observações destemerosas sobre a vida americana. Entretanto, se eu pudesse aconselhar-lhe, diria que não destacasse enquanto tão incisivamente certos aspectos da existência ianque... posso ir além desta reticência que entrego à sua sutileza. Não sei se Venezuela. Vontade, tenho-a de sobra, a mais decidida boa vontade. o barão nada me disse ainda a esse respeito. Assim considero problemática a empresa em que teria como companheiro e mestre o dr. Firado, tanto merece da sua simpatia pelos nobilíssimos conceitos que dele mudou. Pois é pena! Uma estadia nas montanhas em que se levantou dia a miragem do "Eldorado" — compensaria bem os longos dias tristonhos que passei na infinita monotonia do Purus. Aguardemos o futuro.

Creio que a minha recepção será em julho — em pleno Panamericanismo. Acho a idéia desastrada. Deviam escolher outro, menos por atender à plástica. Felizmente me responderá o Arinos:

meus escassos decímetros de envergadura corrigi-los-ão os 2 metros alentados do Titã!

Que pena não poder continuar! Felizmente diz-me que aqui estará breve. Então lhe contarei algo desta minha vida erradia e desassossegada

Respeitosas recomendações à Exma. sra. um aperto de mão ao dr. Firado, a quem estimo pela sugestão da sua simpatia, e creia sempre e sempre no

Euclides da Cunha

Rua Humaitá, 67

Rio, 15 de fevereiro de 1907

Meu ilustre am0. dr. Oliveira Lima

Desejo-lhes as maiores venturas, e à Exma. sra., no belo remanso que me revelou na sua carta anterior. Realmente, se não fossem as exigências desta vida de pai de família com três filhos às costas, eu correria com a maior satisfação ao seu delicado convite. Mas não devo deixar, agora, o Rio. Fui sempre um descuidado; e neste andar sempre em comissões, sem um emprego fixo gastei imprudente uma boa parte da vida. Não posso distrair-me ainda. Se aí fosse teria, também, vejo-o pela sua carta o prazer encontrar-me com Alfredo de Carvalho a quem devo tantas gentilezas, que com tanta generosidade tem-me perdoado os descuidos inevitáveis minha existência trabalhosa. Peço-lhe abraçá-lo por mim. Li o seu o no Estado. O que ali está é a sua bondade e a sua nobilitadora afeição. Obrigadíssimo.

Leu os juízos de Verissimo e de Araripe? O primeiro voltou à sua birra contra a minha fraseologia arrevesada. Tem, talvez, razão. Mas agora é um pouco tarde para que eu me liberte de semelhante estigma. Estou escrevendo no Jornal, por obedecer a reiterados pedidos do José Carlos Rodrigues. Mas como terá notado é uma colaboração espaçada, de 20 em 20 dias. Guardo, do meu vírus positivista, um pequenino rancor ao jornalismo. O pensamento também exige recatos. O livro abriga-o de algum modo. Um jornal é um resumo de praça pública. Felizmente o do Comercio, na sua imponência conservadora, tem quase o aspecto austero de uma revista de páginas estiradas.

Continuo no Ministério de Relações Exteriores, onde, felizmente, sempre tenho encontrado alguns mapas a rever. Mas não julgo que dure muito este resto de Comissão agonizante.

Tudo muito arrependido de haver recusado uma, pessoalmente oferecida pelo dr. Afonso Pena, e que é a mesma confiada agora ao Bueno de Andrada. Mas como voltar já, tão cedo, outra vez, à monotonia acabrunhadora da Amazônia? Além disto teria de contrariar ao meu velho, e cometer o pecado de dar-lhe um desgosto numa idade em que devo poupar.

Nada de novo. Aqui continuamos com a avenida Beira-Mar e o calor. É um encanto passar-se por ali às três horas! Decididamente os velhos portugueses tiveram carradas de razão para recortarem a velha metrópole de bitesgas estreitíssimas.

A velha metrópole evoca-me d. João VI; e daí, naturalmente, algumas perguntas: vai muito adiantado o trabalho? Não poderemos ler aqui, no Jornal ou no Estado algum excerto antes da leitura definitiva no Instituto?

Creia que todos os seus amigos o aguardam com a mais simpática e ardente expectativa.

Mostrei ao Gastão o artigo sobre o Cabo Frio, que ele fez transcreveram no Diário de Notícias, tendo agradado a todos que o leram. Recomende-nos muito à Exma. Sra. e receba um apertado abraço do seu amº. e admor.

Euclides da Cunha

 

 

Rio, 15 de agosto de 1907

Domício da Gama

Somente hoje posso responder à tua prezadíssima carta, cheia do misterioso encanto que as distâncias dão às palavras carinhosas dos amigos. Andei e ando muito doente de mapite aguda, porque certo há um micróbio sinistro emparceirado às traças vingadoras das velhas cartas geográficas feitas há trezentos anos para maior tormento dos que hoje as deletreiam. Quer isto dizer que muito pouco te poderei contar do que vai por aqui. Ando nos séculos XVII e XVIII. Poderia dar-te notícias de d. Gaspar de Munine Leon Garabito Tello y Espinosa, ou dos marqueses de Grimaldi e Floriblanca; mas não sei por onde anda Pires Ferreira, ou o que é feito de Glicério. É um encanto este exílio no tempo. O próprio barão, com a sua estranha e majestosa gentileza, recorda-me uma idade de ouro, muito antiga, ou acabada. Continuo a aproximar-me dele sempre tolhido, e contrafeito pelo mesmo culto respeitoso. Conversamos; discutimos; ele franqueia-me a máxima intimidade — e não há meio de poder eu considerá-lo sem as proporções anormais de homem superior à sua época. Felizmente ele não saberá nunca este juízo, que não é somente meu — senão que se vai generalizando extraordinariamente. De fato, é o caso virgem de um grande homem justamente apreciado pelos contemporâneos. A sua influência moral, hoje, irradia triunfalmente pelo Brasil inteiro. Os efeitos da conferência de Haia — onde Rui Barbosa teve o bom senso de reproduzir-lhe o pensar — consagraram-lhe definitivamente o prestígio. E este fato reconcilia-me com a nossa gente, demonstrando sobretudo a persistência de uma veneração antiga e já agora de todo sobranceira à volubilidade de uma opinião pública tão instável, como a nossa.

Não sei se já aí chegaram notícias da Reforma Orthográphica... (Aí deixo, nestes maiúsculos e nestes h h, o meu espanto e a minha intransigência etimológica!) Realmente, depois de tantos anos de alarmante silêncio, a Academia fez uma coisa assombrosa: trabalhou! Trabalhou deveras durante umas três dúzias de quintas-feiras agitadas — e ao cabo expeliu a sua obra estranhamente mutilada, e penso que abortícia. Há ali coisas inviáveis: a exclusão sistemática do y, tão expressivo na sua forma de âncora a ligar-nos com a civilização antiga e a eliminação completa do k, do hierático k (kapa como dizemos cabalisticamente na Álgebra)...

Como poderei eu, rude engenheiro, entender o quilômetro sem o empertigado k, com as suas duas pernas de infatigável caminhante, a dominar distâncias? Quilômetro, recorda-me kilometro singularmente esmagado ou reduzido; alguma coisa como um relíssimo decímetro, ou grosseira polegada. Mas decretou a enormidade; e terei, doravante, de submeter-me aos ditames dos mestres.

Mas a discussão foi vantajosa. A importância da Academia cresceu. As suas resoluções estenderam-se ao país inteiro — da rua do Ouvidor à Amazônia, da porta do Garnier ao último seringal do Acre.

A próxima eleição, a quem concorrem Jaceguai, João do Rio, Virgílio Várzea, anuncia-se renhida... e o achatado palacete do cais da Lapa fez-se definitivamente a kaaba (caba, deveria escrever-se pela nova ortografia!!) de todos os neophitos, ou neófitos, literários.

O Rio continua melhorando, aformoseando-se. A concorrência do estrangeiros, extraordinária. Os bondes e automóveis apinham-se do rubros saxões espantadíssimos e deslumbrados. Ressoam, nestes ares, ohs! em todas as línguas. Até em castelhano... Há dias vinham no inaturável bonde da Gávea nada menos de seis argentinos (seis argentinos, es una legión!), e quando voltamos à rua Voluntários, penetrando na Avenida Beira-Mar, o mais trêfego deles, precisamente o que me vinha a envenenar a bílis patriótica com uns instantes mira! mira! todas as vezes que deparava uma negra de trunfa escandalosa, — precisamente este gringo irrequieto não se pode conter: "Pero és hermosa, caramba!!" — rugiu e abalou do bonde, acompanhado dos companheiros eletrizados. Foi um encanto. Quero hoje um bem extraordinário ao anônimo gringo, que nem sei mais por onde anda, mas que é, com certeza, um artista inteligente e entusiasta.

Assim nos rodeiam, cada vez mais velhas, as nossas opulências naturais. Pena é o que na ordem moral não se notem idênticos primores. Mas não enveredarei por aí. Seria imperdoável o atirar-te tão longe os respingos amargos do meu pessimismo e desta melancolia irremediável. Além disto, há na tua carta profundos traços de tristeza, que não devo agravar. Ali se desenha nas entrelinhas a saudade da terra; e fora impiedade apontar o que esta tem de ruim.

Com esta carta mando um volume dos Sertões para a Biblioteca de Lima; e ulteriormente irão os livros de outros autores. Se não te causar muito trabalho, peço-te que me mandes o que aí houver acerca das modernas indagações históricas e geográficas do Peru; folhetos, ou livros.

Ando a pensar num livro, essencialmente sul-americano, e preciso estudar muito; e estou estudando muito. Mas a nossa pobreza de livros correspondentes é absoluta. Não preciso dizer-te que o teu nome de quando em vez ressalta nas nossas palestras: o Machado, o Verissimo, o Gastão e muitos outros, não te esquecem nunca, e harmonizam-se todos na mesma estima e nas mesmas saudades.

Aguardo mais amplas impressões sobre essa encantadora Lima de los Reyes, que imagino deslumbrante sob um céu eternamente límpido.

Até breve. Saudades, saudades e saudades do teu

Euclides da Cunha

S. — A breve escala de 4 horas, que aqui fez Guilermo Ferrero, na sua passagem para Buenos Aires, foi magnífica. O barão recebeu-o gentilmente. No Itamarati, antes e depois do jantar, que lhe foi oferecido, o extraordinário evocador da velha Roma lendária foi verdadeiramente cativante. É impressionadora a sua modéstia. O gênio tem ares tímidos e perturbados de mestre-escola da roça. E a sua Senhora é a mulher mais feia e mais encantadora que ainda viram estes meus olhos selvagens.

Chegaram ai uns artigos, "Peru versus Bolívia", que publiquei no Jornal do Comércio? É uma das minhas quixotadas. Constituiu-me, por satisfazer à índole romântica, um cavaleiro andante da Bolívia, contra o Peru. Por quê? Talvez porque a Bolívia... é mulher. De qualquer modo, manda-me dizer a tua impressão sobre o lance.

 

 

 

 

 

 

Rio, 10 de dezembro de 1907

Alberto Rangel

 
 

 

Rio, 10 de dezembro de 1907

Alberto Rangel

Aqui estou eu a invejar-te a existência deliciosa — tão diferente da minha nesta triste agitação de servo amarrado pelas linhas geográficas à gleba dos papéis de uma secretaria. Que os deuses propícios te prolonguem os dias da felicidade...

Recebo sempre os teus cartões-postais, gentilíssimos e breves, e tão sinceramente admirativos ante os encantos do velho mundo. Mas penso, com tristeza, que eles te estejam apagando na alma a lembrança da nossa rude e formosíssima terra. Precisas reagir contra a feitiçaria da Velha toda ataviada de primores e que, afinal, não vale a nossa Pátria tão cheia de robusta e esplêndida virgindade.

E tenho a esperança de que em breve te enjoem essas velharias enganadoras... e não mais te deslumbrará esse relíssimo Mônaco, que por si só empesta uma Civilização inteira. Que estranheza, meu querido amigo, não estarás sentindo, ao escutar a magnífica sinceridade de nossa robusta alma brasileira, ante o papaguear das trogloditas cultas que aí andam! Mas escrevo-te como a um irmão mais moço.

Estive há dias, pela primeira vez, em casa do Cavalcanti — e lá vi os trechos de tua carta em que te referes a vários lances do meu prefácio. Tive imenso prazer verificando que ele te agradou. Quando surgirá, afinal, o Inferno Verde? Espero-o todos os dias. Tenho já três críticos a postos, de penas perfiladas, prontos à primeira voz. — No teu último cartão referes-te a palavra "comunhão" a propósito da Maior, supondo que deve ser "criatura". É comunhão mesmo. Generalizei a tua idéia.

A mulher torturada é a Terra torturada. Apenas, esta palavra "comunhão" é medonha. Peço-te que substituas: comunidade, ou sociedade; o que faz melhor conforme a música do período que não tenho presente porque não tirei cópia.

Adeus. Muitas recomendações a todos. Aqui fica, cheio de saudades; esperando o livro magnífico, o teu velho colega e adm0R.

Euclides da Cunha

P. S. — Sei que acrescentaste mais um capítulo: "Pirites." Deves num posfácio prometer o reverso do quadro: o livro antítese do Inferno, em que se considere, otimistamente, a nossa prodigiosa Amazônia.

 

 

 

 

 

 

Rio, 27 de maio de 1908

Escobar

Recebi a tua carta estimando que tivesse feito boa viagem encontrando todos os teus bons. Aqui vou indo com os meus mapas e velhos alfarrábios — até que se me abram outra vez as estradas perigosas do deserto.

Depois que partiste — pensei ainda melhor sobre o teu belo sonho — chegando mais uma vez a este resultado: abandonar de vez qualquer idéia da minha candidatura revolucionária. Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer — para a qual decididamente não me preparei. Os homens repelem, com razão, o intruso. Além disto, absolutamente não desejo que te sacrifiques numa atitude rebelde — sobretudo considerando que — fatalmente — um sacrifício inútil.

Sinto-me bem na minha posição — e seria para mim, deplorável, os nossos grotescos pais da pátria imaginassem que eu invejo a deles.

Portanto, seu Escobar, passemos uma esponja sobre o nosso romance eleitoral. Acho que não deves abandonar a idéia de deixar essa terra. Não por causa do pobre Jaguari, com o qual simpatizo, embora nunca o tenha visto. Mas sim porque terás aqui melhores elementos para desenvolver a tua atividade. Não preciso dizer-te que farei o que em mim caiba para te auxiliar em qualquer pretensão.

Dê muitas lembranças ao dr. Castelo Branco e Adalgiso.

Saudades nossas aos teus.

Um abraço do

Euclides

 

 

P. S. — Contei ao João Luís, a magnífica tirada do maravilhoso Pacheco de Belo Horizonte — e o João Luís, o esperto, o inteligente amigo, garantiu-me que ele não disse semelhante coisa!!...

 

 

[Obs. Há na carta uma mancha de tinta preta; no rodapé, na ponta de uma seta desenhada por Euclides, encontra-se escrito o seguinte:]

Não repares: foi uma lágrima negra que me espirrou dos olhos, em

cima da defunta candidatura!

Que a terra lhe seja leve...

 

 

 

 

 

 

Rio, 7 de outubro de 1908

Ludgero Prestes

Recebi a tua prezada carta de 3 do corrente; li-a com surpresa indescritível, verdadeiramente encantado; e não poderei traduzir-te a minha comoção ao ver aparecer-me quase homem — e homem na mais digna significação da palavra — o pobre jaguncinho que me apareceu pela primeira vez há onze anos no final de uma batalha. Mas na mesma ocasião associei-te a recordação de um amigo a quem deves muito mais do que a mim. O que fiz foi, na verdade muito pouco: — o trabalho material de livrar-te das mãos dos bárbaros e conduzir-te a S. Paulo. A minha ação verdadeiramente útil foi confiar-te a Gabriel Prestes. A ele, sim, deves a tua maior e até incalculável gratidão. Quero que me estendas sempre a tua mão de amigo — mas a Gabriel Prestes deves devotar, incondicionalmente, todo o teu coração. Ao lado da tua fotografia veio a tua carta e nesta vi refletir-se um espírito capaz de grande desenvolvimento. O modesto professor complementar de agora — iniciado, como foi, na vida, por um mestre daquele porte, há de subir mais alto.

Mas ainda que isto não aconteça, a tua posição atual, já é um triunfo. Continua, portanto, na trilha que te apontou um dos mais belos caracteres que eu conheço; e sempre que puderes manda notícias tuas a quem também se preza em ser teu amº. muito afetuoso

Euclides da Cunha

 

 

P. 5. — Moro na rua Humaitá 61, e não preciso dizer-te que ali tens, francamente aberta, uma casa, tão hospitaleira quanto a minha rude barraca de Canudos.

Muitas saudades a Gabriel Prestes.

Euclides

 

 

 

 

 

 

Rio, 5 de maio de 1909

Meu digno amO. dr. Oliveira Lima,

O motivo essencial da falta de minhas cartas é este: Andei perdido, dentro da Caverna de Platão... Conhece com certeza a alegoria daquele máximo sonhador — de sorte que bem pode avaliar os riscos que passei. Volto à claridade embora ainda sinta a repercussão formidável das rixas intermináveis dos filósofos e os últimos ecos irritantes da algazarra das Teorias. Tudo isto quer dizer que me preparei para o concurso de Lógica. Mas surge um contratempo: a mesa examinadora (oficial) demitiu-se há um mês, e até hoje não foi possível organizar-se outra! De sorte que o problema se complicou singularmente. Ontem: serei feliz no concurso? Hoje:... e haverá concurso?

Nesta situação de espírito, não há alinhar-se idéias — para uma conversa calma com um bom amigo ausente. Escrevo-lhe apenas para que o sr. e d. Flora não nos incluam entre os ingratos.

Uma notícia a correr: foram no dia 12 eleitos o velho Lafayette e Vicente de Carvalho e embora a do 1º seja eleição de uma vaga, o velho lutador merecia bem essa homenagem de seus patrícios.

Muitas e respeitosas saudações a d. Flora, e receba um abraço do

Euclides da Cunha

 

 

P. S. — Não preciso dizer-lhe que transmiti logo ao Calmon o seu recado sobre a Flora Brasiliensis — há dias ele afirmou que já tinha satisfeito o seu pedido. Muito agradecido pela sua lembrança a propósito das terras do alto Paraná. Logo que me desembarace do Kant, do Comte, do Spencer, do Espinosa (o mais maravilhoso dos malucos) e não sei mais quantos sujeitos que vieram a este mundo apenas para tortura e desespero do espírito humano — logo que me veja livre desses felizes medalhões — irei dedicar-me de corpo e alma à tarefa.

Mas ao falar nos sujeitos precitados, não tenho meios de conter uma expansão de sinceridade: que desapontamento, lendo-os detidamente! Até então eu rodeava-os de uma veneração religiosa. De perto, vi-lhes a inferioridade. Kant, sobretudo, assombra-me, não já pela incoerência (porque é o exemplo mais escandaloso de um filósofo a destruir o seu próprio sistema) senão pelos exageros apriorísticos que o reduzem. A minha opinião de bugre é esta: o famoso solitário de Konigsberg, diante do qual ainda hoje se ajoelha a metade da Europa pensante, é apenas um Aristóteles estragado. Comte (que eu só conhecia e admirava através da matemática) revelou-se-me, no agitar idéias preconcebidas e prenoções, e princípios, um ideólogo, capaz de emparceirar-se ao mais vesânico dos escolásticos, sem distinção de nuances, em toda a linha agitada que vai de Roscelin a S. Tomás de Aquino. E quanto a Espinosa, supreende-me que durante tanto tempo a humanidade tomasse ao sério um sujeito que arranjou artes de ser doido com regra e método, pondo a alucinação em silogismos!

Mas faço ponto. Não pararia mais se desse curso à onda [dei rancor que me abala diante desses nomes outrora tão queridos. Felizmente aí estão George Dumas, Durkheim, Poincaré, e na Áustria, o lúcido e genial Ernesto Mach — almas novas e claras, que nos reconciliam com a filosofia. Adeus outra vez; e outra vez um abraço do

Euclides

 

 

Em tempo — Recebi o seu recado, dado pelo Primitivo Moacir, e já escrevi ao Alves e ao Laemmert — para que enviem os livros desejados.

Saiu ontem — simultaneamente — no Jornal e no Estado o seu notável artigo sobre Machado de Assis. Ainda estou num terço da leitura, mas já ajuizei dele o bastante para dar-lhe os meus parabéns pela precisão e lucidez com que considerou o inolvidável mestre.

 

 

Rio, 8 de agosto de 1909

Otaviano

Respondo a tua prezada carta de 7 — agradecendo-te as palavras animadoras — embora recordes, melancolicamente, que já estamos na reserva. Para você, elegante e faceiro, o caso é desastroso; para mim desarranjado e revolto, é uma [...]. Estou na reserva desde os vinte anos, quadra em que me assaltou o pessimismo incurável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. Talvez não acredites: ando nas ruas desta aldeia de avenidas, com as nostalgias de um inglês smart perdido numa enorme aringa da África Central. Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol! Na Câmara e no Largo de S. Francisco, os mirabeaux andam aos pontapés. Em cada esquina um O'Connel; em cada degrau de Secretaria um salvador das instituições e da Pátria. Da noite para o dia surgem não sei quantos imortais... É asfixiante! A atmosfera moral é magnífica para batráquios. Mas apaga o homem. Já [...] vezes penso em romper a fundo com tudo isto: dois ou três artigos desabalados e rijos — tomando a frente de toda essa sujeira [...] canalha com o meu rubro desassombro de caboclo sanspeur et sans reproche. Mas contenho-me. Lembro-me do único Homem que reúne o resto das esperanças do país, e ao lado do qual ainda estou, porque ele ainda não me dispensou. Mas no dia em que não houver mais trabalhos para o cartógrafo da Secretaria do Exterior... que desabafo! Como eu açularei nervosamente no rastro destas raposas insaciáveis a matilha feroz dos meus adjetivos implacáveis!

Ponto, porém. Deves estar espantadíssimo! Absolutamente não contavas com esta tirada do ex-rebelde da Praia Vermelha... Nem eu. Escapou-me no final de um artigo de fundo, hipócrita, como a maioria dos que por aí se imprimem. E como a tua carta coincidiu com a leitura dele — apanhaste uns restos de rajada.

Tornando ao assunto principal da tua carta: a Saninha diz que combinou com o velho em buscá-lo nos princípios de setembro, depois que ele ordenar as coisas na fazenda. Diz também que ele prefere a ida dela à do Arnaldo. Mas pela tua carta deduzo que ele quer vir já. Se assim for manda-me dizer logo, para providenciarmos.

Ontem estive com o comendador Chaves, que se mostrou muito interessado pela saúde do meu pai, a quem vai escrever. Também o dr. Gomes e Erico manda-lhe muitas recomendações, desejando vê-lo, breve, aqui.

Já iniciei o meu curso de Lógica no ex-Ginásio Nacional (hoje Pedro II graças a um lance de histeria republicana). Curso principiado no meio do ano — serei obrigado a sapecar a matéria para preencher o programa. Mas levo-o por diante numa grande convicção pedagógica. Ao menos direi aos meus alunos a simples e límpida lógica de Stuart Mill, ao invés de transcendentais tolices metafísicas. Diz-me a consciência que serei mais útil do que o funambulesco filósofo (diz-se ele o único filósofo brasileiro!) da Finalidade do Mundo, que há 25 anos escreveu um livro que ninguém lê e estuda uma lógica que ninguém entende.

Muitas lembranças ao dr. Deolindo. Saudades à Adélia e sobrinhos. Escrevo-te deitado — não por doença, mas porque é domingo e como não posso ainda andar muito, aproveito a ocasião para pagar o meu silêncio anterior. Daí os exageros desta carta, a que darás todos os devidos descontos.

Abraça-te cordialmente o

Euclides

 

 

[À margem]

A Saninha disse-me que o sr. Ellis aí contou uma porção de coisas (que lhe revelara grandes dificuldades na vida, etc.). Embora eu já esteja fatigado de repelir as torpezas desta pobre humanidade — não tenho ânimo em mim que não declare: o sr. Ellis mentiu. E peço que não dês ouvidos a tais indivíduos com os quais falo de ano em ano, e fortuitamente.

[*Apógrafo no Álbum da Correspondência de Euclides — Biblioteca Nacional. Junto está a carta da mesma data, 8 de agosto de 1909, ao pai]

 

 

 

 

Rio, 12 de agosto de 1909

Otaviano

Anteontem te escrevi. Renovo hoje o velho assunto: mande-me dizer quanto antes se o Velho quer vir já, ou em princípios de setembro. No 12 caso irá o Arnaldo buscá-lo; no 2º eu ou Saninha. Esta última alternativa provém do meu estado de saúde, que me impossibilita dizer desde já se poderei ou não ir naquela ocasião. Sei que aí não se acredita nisto; sei ainda que umas boas almas são-carlenses estranham e criticam muito o que chamam a minha indiferença ou ingratidão. Paciência... A pobre humanidade é frágil, e para os seus juízos despropositados e injustos resta-nos a instância superior da consciência, que realmente nos absolve ou condena. Infelizmente não é de todo verdadeiro o teu otimismo. O haver dobrado o cabo melancólico dos 40 não remove inteiramente o espantalho da tísica.

A prova está em que somente hoje deixei de acordar com febre; e estou plenamente certo de que se abandonar o regime que me impuseram não resistirei — tal o depauperamento e miséria orgânica a que cheguei. Felizmente me sinto cada dia melhor e penso que em menos de um mês terei readquirido a robustez antiga.

Não tenho cartas de meu pai. Acompanhará ele também o falso conceito dos espontâneos e numerosos juizes que aí tenho? Neste caso peço-te que sejas o meu advogado.

Muitas saudades a todos e escreve logo ao teu amº.

Euclides

 
 

 
 
 
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