Jogando a criança fora
Os costumes de higiene jamais foram como os atuais e certamente o futuro nos
trará costumes ainda mais diversos.
Há uns 400 anos, na Europa, por
exemplo, não se tomava um banho diário com uma ducha elétrica ou numa banheira
com hidromassagem. Semanalmente juntava-se uma quantidade de água numa grande
bacia e toda a família tomava banho naquela água. Primeiro entrava o chefe da
família, seguido dos homens, por idade, a seguir as mulheres, também por idade
e, por último, caso houvesse, os bebês. A água do banho do bebê já estava tão
suja que vem deste tempo o ditado recomendando cuidados para não jogar fora a
água do banho com a criança dentro.
As mães desesperadas não jogam seus
filhos fora porque têm alguma forma de má-índole ou coisa que o valha. É
desespero mesmo... Falta educação, falta tratamento de saúde (acompanhamento
físico e psicológico da gestante e seu rebento), faltam condições de emprego e
renda... Se uma criança assim nascida escapa de ser assassinada ou abandonada
pelos pais biológicos, dificilmente escapará do abandono do Estado, que já
atingiu seus pais, levando avante este círculo vicioso.
Os casos desta semana conquistaram
notoriedade porque um deles foi filmado em Belo Horizonte: o resgate de um bebê
recém-nascido de um saco de lixo na lagoa da Pampulha. Dois outros chegaram aos
noticiários também por conta desta mesma onda. Provavelmente algumas pessoas
perceberam que este tipo de procedimento está aparecendo na televisão e se
decidiram a denunciar casos de que sabiam: duas outras menininhas recém-nascidas
sofreram esta agressão; uma delas foi abandonada no portão de uma casa elegante
também em Belo Horizonte (estando ainda com o cordão umbilical!) a terceira de
que se tem notícia foi arremessada num rio e, infelizmente, veio a óbito.
Quantos esqueletinhos será que existem no fundo dos rios, mares e lagos deste
Brasilzão de meu Deus? Como acontece com episódios de suicídio ou saques esta
notícia rapidamente será suprimida do noticiário. Primeiramente porque pode “dar
idéias” às pessoas que, desesperadas, ainda não haviam pensado nesta
possibilidade. Em segundo lugar porque neste mundo maluco, globalizado e veloz
em comunicações mesmo uma notícia deste porte deixa de ser interessante aos
patrocinadores e cai no esquecimento.
Três crianças jogadas fora em
horário nobre da TV brasileira somente esta semana... E ainda querem que a gente
acredite que há governo e este vem sendo exercido no interesse dos mais
pobres... Pagamos impostos. Mais do que todos os outros povos do mundo o
brasileiro é sobretaxado. Cerca de 40% de tudo o que produzimos e consumimos vão
para o governo. E para onde vão estes impostos? Em que são empregados? É o
suborno a parlamentares, durante o governo Lula na forma de “Mensalão” ou
similar; é a manutenção de um superávit primário recorde; são os empréstimos
tomados junto aos especuladores brasileiros para pagar a especuladores
estrangeiros...
O que se faz pela educação e pela
saúde pública aparece precisamente nestes episódios de desespero. Vivemos num
país em que mães arremessam suas crianças recém-nascidas em lagos e rios; jovens
se perdem no mundo das drogas; a violência campeia solta pelas ruas e pelos
campos; mendigos são massacrados a pauladas nas grandes cidades; freiras são
assassinadas a tiros em matagais, juízes protegem criminosos e generais se
suicidam em países estrangeiros. Tudo isto para preservar as contas externas.
Para proteger o capitalismo e a concentração de rendas, relega-se os miseráveis
ao abandono, ao desespero, à angústia, aos crimes.
Não podemos confiar nas
estatísticas: todas mentem. Exemplifico com a taxa de desemprego. Entrevistei um
grupo específico de homens maiores de 21 anos e constatei que, num meio outrora
considerado elitizado, há uma média de 30% de cidadãos em idade laborativa sem
exercer atividade remunerada formal alguma.
Apresentam-nos números edulcorados,
maquiados para que representem o que o governo bem entender e apresentam taxas
de 8% de desemprego (não são considerados desempregados aqueles que ainda
conseguem alguma forma de atividade remunerada, seja ela qual for; não são
considerados desempregados aqueles que desistiram de procurar emprego e aqueles
que foram demitidos recentemente, etc.). Depois nos dizem: “você não pode
discutir com os números!” – não. Mas podemos sonhar com um tempo em que tenhamos
uma forma autogestionária de Poder ou, na pior das hipóteses numa liderança que
governe para os seres humanos que vivem, amam e trabalham, não para os números!
Na presente realidade social e
política brasileira os únicos números ainda dignos de alguma credibilidade são
as pesquisas de opinião pública porque há um grande interesse em que sejam tão
fiéis e isentas quanto possível.
O Trilhão
Que número, não? Saudades do tempo em que a palavra “milionário” fazia sentido e
preenchia pelo menos os sonhos... Sob o governo Lula ultrapassamos a barreira de
1 trilhão de reais de endividamento público num processo lucidamente definido
como a troca da inflação pelo endividamento. Os impostos cavalares que pagamos
vão maciçamente para a engorda do capital e o emagrecimento dos seres humanos.
Aumentam-se os impostos para pagar juros de uma dívida crescente e se mantêm os
juros elevados para garantir que a dívida siga ascendente. Não é burrice. É
muita esperteza e sabedoria dos que estão no poder exercendo a mais fantástica
transferência de rendas dos assalariados para os grandes conglomerados
financeiros e especuladores que se tem notícia em nossa história. Bobos fomos
nós que votamos nessa cambutadefedapada!
Cadê o Meirelles?
Esse cara até hoje não explicou, no mínimo, onde morava em 2001. Protegido e
blindado, aliviado pela sucessão de denúncias filmadas e gravadas de corrupção
envolvendo praticamente todos os setores deste governo, fica calado, afastado do
noticiário e levando adiante a mais devastadora das armas de destruição em massa
que o Brasil já desenvolveu: fazem-nos acreditar que temos de optar entre
inflação ou juros altos. A alternativa de crescimento sem inflação nem juros não
se apresenta, pois deixaria os banqueiros, para quem o banqueiro Meirelles, na
prática, governa, sem essa lucratividade estratosférica que vem tendo na era
Lula.
Mas será que os Senadores e
Deputados Federais – todos, sem exceção – se esqueceram do convite que ele disse
atender pois, não atendendo, seria convocado? Já faz mais de 1 ano, ele continua
devastador com suas armas de destruição em massa e não diz se morava nos EUA –
caso em que teria cometido crime de falsidade ideológica – ou no Brasil – caso
em que teria sonegado imposto de renda.
Bem o “caso Meirelles” está no
Supremo, aí é outra história...
Político ou Juiz?
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ao utilizar o poder
para atingir seus propósitos político-partidários, protege seletivamente algumas
pessoas altamente suspeitas de crimes de responsabilidade e terá, ele mesmo, de
responder a uma interpelação apresentada por diversos magistrados sérios ao
próprio STF. Nelson Jobim precisa se decidir. Se segue carreira política tem de
deixar a magistratura. Se opta pela magistratura deve abandonar suas pretensões
políticas. Inconstitucional é que um Ministro do Supremo Tribunal Federal – e na
posição de presidente do Poder Judiciário – use de seu cargo para tornar viável
a sua candidatura seja a que cargo for!
Só nesta semana cometeu duas
violências contra o Congresso Nacional. Na terça-feira Jobim emitiu uma liminar
impedindo que o Senado Federal levasse adiante a quebra dos sigilos do Sr. Paulo
Okamoto, atualmente presidente do SEBRAE, que não explicou bem de onde vinha o
dinheiro que utilizou para pagar uma conta de Lula da Silva. Na quarta-feira
nova liminar impedindo a quebra dos sigilos de Roberto Kurzweil – que alugou
duas peruas para o PT na campanha de 2002 e é suspeito de transportar recursos
do exterior ao partido dos trabalhadores naquele pleito.
Independente da forma – que Jobim
considerou questionável – e quanto ao mérito? O que levaria dois cidadãos
honestos a procurar a proteção do STF já havendo sido inquiridos pelos Senadores
e ficando a dever explicações?
Tudo indica que será mesmo candidato
em apoio a Lula. Provavelmente a vice-presidente da República. Na prática já
exerce o cargo informal e não existente de “líder do governo no Supremo”. E suas
decisões, como juiz, apontam precisamente nesta direção. Sempre decide a favor
do governo Lula em qualquer caso. Com este tipo de magistrado no Supremo
Tribunal Federal que esperança existe para a justiça no Brasil?
Lázaro
Curvêlo Chaves – 03/06/2006
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