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Crise do Logos

 

            De que adianta falar se o idioma raramente é empregado em direções úteis como a comunicação, por exemplo? De que adianta avaliar Lula da Silva, por exemplo, pelo que ele diz quando o contato de sua fala com a realidade é, quando ocorre, miseravelmente circunstancial?

            A palavra já foi empregada com muitas finalidades, mas raramente na história da humanidade se conhecerá período mais complicado para a análise da língua como este que estamos vivendo hoje.

            Peguemos “terrorismo”, por exemplo. O pato manco dos EUA ainda fala – e encontra um impressionante número de ouvintes que com ele concordam – em “guerra ao terrorismo”. A própria expressão é contraditória. O emprego excessivo da força contra gente indefesa, definição razoavelmente aproximada do que seja “terrorismo”, é precisamente o que os EUA vêm perpetrando pelo mundo afora a mais tempo do que gostamos de aceitar ou mesmo admitir.

            A apropriação do recente passado histórico com finalidades de propaganda ofende a Razão, mas ganha corpo e encontra eco impressionante na massa ignara e mantida nesta situação por ordem de quem pretensa e pretensiosamente a governa.

            No Brasil atual vemos um descaso tão grande e um desprezo tão fenomenal pela educação e a cultura que todos nos contaminamos, vítimas e cúmplices “disso tudo que aí está”. Difícil imaginar como sairemos desta, muito difícil. Sequer sugestões proveitosas se encontram, mesmo no discurso dos senadores mais veementemente contrários ao governo no discurso e a ele favoráveis quando votam, ampliando o fosso entre o logos e a práxis.

            Os trabalhadores são mantidos na mais abissal ignorância diante de uma situação em que se privilegia o ensino privado e se relega o público ao nada. Subliminarmente – por vezes descaradamente – cria-se uma situação tão esdrúxula que, na falta de melhor alternativa, empregarei a expressão “preconceito às avessas”: “analfabetos governam melhor que os doutores”; “não seria preciso passar sequer na porta de faculdade alguma para governar estepaíz” e por aí vai. Tornaram-se comuns os casos de jovens completamente desinteressados pelos estudos – arremessar os professores à mais baixa remuneração de todos os tempos em classes abarrotadas não contribui muito para o entusiasmo, ça va sans dire – a dizer coisas como: “estudar para quê? Tenho um vizinho adevogado (assim mesmo, com um “e” meio gritado e engasgado no português que se esvai pelo ralo) que ganha a vida como motorista de caminhão. E olha o Lula, nunca estudou e chegou a Presidente da República” – o que está em perfeita sintonia com o discurso do citado.

            O mercado de capitais precisa de uma economia bem calma, quase inerte, para poder faturar mais e, para tanto, mantêm um elevadíssimo número de seres humanos fora da formalidade no trabalho. Para piorar o estrago, injeta-se uma abominação, a bolsa-esmola que, teoricamente, destina-se àqueles que conseguem se manter abaixo da linha da pobreza, incentivando o incremento deste imenso exército de reserva de mão de obra gratuita. “Teoricamente”. Na prática não há sequer fiscalização sobre o emprego destas verbas portentosas – seria escandaloso se vivêssemos em tempos civilizados, uma “otoridade” falar em tantos e tantos milhões e bilhões a uma multidão que luta por migalhas.

            Dia desses o maldito de ontem respondia aos diuturnos ataques a ele dirigidos pelo traidor de hoje, surpreendentemente com palavras sábias: “eu só queria pontuar ao povo brasileiro que estudar até o doutorado e saber se expressar corretamente no nosso e em outros idiomas é um bem e não um mal...”

            Como é que vamos sair desta situação de ignorância induzida e inércia incentivada? Apelo para a sabedoria dos antigos: o I Ching diz que até mesmo o esgotamento se cansa dele mesmo e pede mudança em algum momento. Imagino que os economistas, a única casta cujo saber, quando favorável à desordem instituída, é incentivado, tenham este problema equacionado e estejam trabalhando para manter tudo mais ou menos como está que a isso compele o mercado de capitais; deve estar claro até ao economista mais idiota, ao maior defensor da inacreditável lucratividade da especulação sem fazer absolutamente nada de produtivo que um sistema assim não se sustenta e há que se soltar algumas migalhas aqui e ali, gerar alguma coisa em torno da qual possam especular. Afinal, uma economia absolutamente inerte e paralisada é tão danosa a seus lucros fabulosos quanto uma economia cujo dinamismo se ensandece e conduz a altas taxas de inflação. Evidentemente, uma economia dinâmica e produtiva, com justiça na distribuição da renda nacional está absolutamente fora de questão na prática desde a derrubada de João Goulart pelos militares brasileiros obedientes a Washington. Aparece somente no discurso dos políticos – aqueles a que me refiro logo no início destas linhas, que dizem uma coisa e fazem outra totalmente diferente. Não podemos confiar no que dizem os políticos. Os economistas estão todos, a princípio, sob suspeição: se conseguiram se manter na profissão obrigatoriamente cederam às pressões do mercado de capitais: sem o apoio deste, ficariam desempregados ou simplesmente não seriam reconhecidos. Buscamos em vão os dissidentes, que usualmente os há, em qualquer tempo e em qualquer circunstância. Hoje o pensamento único aparentemente os dobrou a todos e/ou conseguiu silenciar.

            Aqui e ali encontramos quem concorde com nossas visões, mas, a princípio, qualquer tentativa de utilização do idioma na direção correta é vigorosamente combatida. Por vezes somos silenciados até pelo desânimo! Que raios adianta escrever ou falar o que eles mesmos já falam, mas não fazem?

            No noticiário encontramos algumas coisas muito boas, mas é preciso fazer um garimpo tão complicado que nos exaure quase por completo. O noticiário escrito – em jornais e revistas lidas pelos que teimam em se manter alfabetizados e informados a despeito de todos os esforços em contrário do governo – ainda apresenta boas exceções; há pouco li uma pérola de extraordinário valor num pé de página de um jornal pequeno que copia coisas de outros e a fonte ficava omitida. Algo, se não me falha a memória, como “um órgão do governo, o IBAMA, proíbe o emprego do couro de jacaré na confecção de bolsas ou malas de bagagem, mas não há órgão algum que impeça que se esfole o trabalhador para usar o seu couro na confecção do bolsa-esmola.” O noticiário televisivo está bem abaixo da crítica. Há mais “realidade” nos momentos em que a TV brasileira apresenta peças de ficção que nos programas jornalísticos ditos “informativos”. Escrevo um dia antes da estréia de algo que promete piorar e confundir ainda mais as coisas, a rede Lulo-petista de televisão, apelidada de “televisão pública”, "TV Brasil" ou algo que o valha.

Corruptos de ontem e de hoje

 

            É algo bem comum no Brasil, desde que os portugueses vieram para cá em busca de saques para levar à sua terra: o Valerioduto começou em Minas Gerais sob os auspícios dos tucanos, mas foi federalizado e incrivelmente ampliado no tempo petista. Valerioduto, mensalão... Seja como for, acabou, certo? Com este nome e personagens, aparentemente, sim. Segue firme com outros nomes e personagens com o cuidado suplementar de o governo zelar por ele mesmo acima de tudo e de todos, principalmente contra e acima do interesse genuíno do povo brasileiro: informar-se corretamente sobre o que está acontecendo, seja quando um funcionário público utiliza seu cartão de crédito pago por nós, seja quando Lula da Silva compra mais um deputado ou senador que, repentinamente, diminui sua verve oposicionista e se alia aos ex-adversários. “De onde vem o dinheiro” que permite tanta farra e gastança? A resposta é tão óbvia que até a pergunta virou tabu.

 

Vem aí mais um aumento cavalar na carga tributária

 

            Lula da Silva e seus associados já deixaram claro que não querem jogar para perder, para ficarmos nas metáforas futebolísticas mais rasteiras, ao gosto popular e do presidente analfabeto.

            Esse teatrinho em torno da CPMF já jogou tanta poeira nos olhos de todos que se esgotou. No interdito ou entredito das autoridades da “área econômica” fica revelada a estratégia. Aconteça o que acontecer, vão aumentar os impostos. Se aprovada a CPMF, algo que Lula da Silva pode gerenciar sem prestar contas a seus chefes no Banco Central, muito menos ao povo brasileiro, a farra da gastança se incrementará de maneira exponencial. Se a CPMF não for aprovada, também! Quem pagará por isso? Você, eu e as torcidas de todos os times de futebol e os crentes de todas as fés nestepaíz.

 

Cadê aquela história do crescimento?

 

            Como era o nome da empulhação mais recente mesmo? Algo como PAC, Plano de Aceleração do Crescimento das grandes fortunas... Saiu da pauta. Agora só se fala em coisas como “Lula disputará um terceiro mandato ou não?”; “aprovam a CPMF ou não?”; “e o Renan, será que dessa vez cassam ou não?” Às vezes acordo no escuro me imaginando no ano 2016 e o Conselho de Ética do Senado Federal examinando a 1145º (milionésima centésima quadragésima quinta) denúncia de corrupção contra o Senador Renan Calheiros... Nos intervalos, informações sobre a carga tributária estar acima de 50%, com ou sem CPMF e o Calheiros se safa mais uma vez com a ajuda crucial de Lula já em seu 4º mandato e sua corja de traidores reeleitos.

            Adianta alguma coisa “mudar de presidente” nas próximas eleições, mesmo que essa hipótese seja viável? Quem quer que chegue a se lançar por essas alianças enormes que conseguem rios de dinheiro para propaganda, seja de dinheiro público (o nosso, pago pelos nossos impostos), seja com os bancos, principais interessados em manter o Brasil governado por gatunos e salafrários, indiferentes à coloração política que utilizem; seja quem for, uma vez eleito, dará continuidade, de uma forma ou de outra, a isso tudo que aí está desde a derrubada de João Goulart. Se em algum momento no Brasil se conseguiu melhorar alguma coisa para a maioria através do voto, atualmente isto já não é mais possível: o poder da mídia, associado à ignorância induzida e aos programas assistencialistas que somente agravam a questão social, se incumbe de dirigir o voto da maioria na direção errada.

            O voto no Brasil não deveria ser obrigatório. Ter de passar pelo aborrecimento de sair de sua rotina usual para enfrentar um “programa de índio”: encontrar um bocado de gente chata que acredita nisso ou naquilo e enche teu saco, driblar isso tudo para conseguir chegar à tal “urna eletrônica”, a modernidade brasileira capaz de revelar o resultado antes mesmo que todos tenham comparecido, anular, pegar aquele pedacinho de papel que te permite manter uma conta bancária ou o que o valha e voltar para a casa. Saco!

            Sinceramente, espremo os miolos aqui, como tem um bocado de gente fazendo o mesmo por aí e não encontro uma solução. O voto compulsório dentro do assim chamado “sistema representativo” é um teatro social que não muda absolutamente nada e enche o saco!

 

O discurso e a prática

 

            Valerioduto, Mensalão, Sanguessugas, um bilhão em dólares e reais para comprar um dossiê contra adversário e se assevera: “não há partido mais ético que o PT”. Se isso for verdade – o que não é de todo improvável... – estamos realmente muito mal!

            “Não temos de cortar gastos públicos, precisamos contratar médicos e professores para melhorar a saúde e a educação nestepaíz”. E a prática? Uma consulta médica remunerada à base de R$ 2,50. O médico que se sujeita a este valor já aparece diante do eventual paciente sob suspeição. O professor que se permite ser remunerado por um valor equivalente ao preço de uma banana nanica por aula dificilmente terá um bom desempenho em suas atividades. Aqui, de novo: o discurso está correto, não há reparo a fazer, no máximo, talvez, indicar um bom fonoaudiólogo. Já a prática...

            “Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Senadores, esta proposta do governo é um insulto à inteligência do povo brasileiro, uma infâmia e uma indignidade....” segue falando, inflamado, correto, irretocável. De repente o cara ou a cara, faz um malabarismo desgraçado e frustra quem se deu ao trabalho de acompanhar seu discurso. A mim não pegam nunca mais! “contudo tenho de apoiar, por um acordo da maioria da bancada de meu partido...”

            A impressionante certeza de se estar lidando com um povo idiotizado se reflete nas cartas dos leitores lulo-petistas xingando e maltratando tanto a nossa língua portuguesa quanto a realidade dos fatos. Citam os números da ONU – que se fundamenta nos números fornecidos pelas Inidôneas Instituições Governamentais Brasileiras – para insultar um articulista ou jornalista de campo que aponta as brutais e monstruosas deficiências do governo, dentre as quais esta dissociação irracional, ensandecida, entre o discurso e a prática política. Sabe o “Excelentíssimo Senhor Senador” ou a “Excelentíssima Senhora Senadora” que se está a insultar a inteligência de quem foi treinado para não empregá-la na análise da realidade. Em síntese: adestramento da maioria para compreender a realidade como o governo quer, frequentemente modificando sua interpretação, acompanhe quem conseguir, pode ser tudo, menos incentivo à cidadania e à utilização da inteligência para a análise de fatos concretos.

            Se você se deu ao trabalho de ler esse desabafo, desculpa aí os erros que encontrar, viu? Atribuo-os, todos, ao Lula, à corja de bajuladores eleitos ou contratados que o cercam e a um tempo cada vez mais difícil para a educação e a cultura...

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 1º de dezembro de 2007

 

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