“Cruzada”-
“Kingdom of Heaven” – uma sinopse

Cruzada - Kingdom of Heaven
Trata-se de mais um filme
épico, monumental, sobre tolerância, honra e humanidade, passado durante a época
das turbulentas e emocionantes Cruzadas. Realizado pelo mestre Ridley Scott,
mesmo diretor de “O Gladiador”, traz grandes aportes em termos de precisão
histórica e, infelizmente, algumas falhas lamentáveis. A principal delas é
centrar a visão das cruzadas a partir do ponto de vista dos Hospitalários, Ordem
Religiosa e Militar adversária histórica dos Cavaleiros Templários...

Um Cavaleiro Templário
Antes de o filme começar...
No início do século XI a
Europa vivia o auge do feudalismo, quando este começava a entrar em declínio.
Superpopulação, a exploração feudal superior à capacidade de sobrevida material
dos camponeses, somente os filhos mais velhos herdavam as posses dos pais nobres
(os outros seguiam carreira sacerdotal ou partiam a aventuras – ou ambas) e
estava isolada, cercada de inimigos ferozes.
As construções de castelos de
pedra, com fossos cheios de animais perigosos, pontes levadiças, soldados em
vigília permanente tinham sua razão de ser: ao Leste o perigo de invasões
magiares, de hunos ou mongóis, em épocas diversas, era concreto. Ao Norte viviam
os Vikings que, cruzando os rios europeus saqueavam o que lhes estava ao
alcance. Ao Sul, o Mar Mediterrâneo se havia transformado num “lago muçulmano”
no qual, durante muitos séculos, os cristãos não conseguiam fazer sequer uma
tábua flutuar sem serem atacados.
O primeiro colégio em que
estudei foi o “Externato Pio XII”, colégio de freiras. Elas nos ensinavam o
significado de eternidade e ficávamos entre deslumbrados com sua imaginação e
aterrorizados com uma idéia tão assustadora:
“Imagine uma bola de aço do
tamanho do Sol. A cada mil anos uma pequenina mariposa se aproxima desta bola de
aço e passa suavemente as asas uma vez sobre ela. Quando toda a bola de aço se
consumir terá passado um segundo na vida da Eternidade”. É tempo!
A crença num castigo eterno
num inferno de fogo é um dos dogmas inquestionáveis de toda a cristandade. Mas
nesses tempos de relativismos e racionalismos, fica-se a pensar: Deus não é
Amoroso, todo Bondade e Perdão? Onde a justiça de se castigar por um ato
delituoso – mesmo que dure uma vida consideravelmente longa, aí de uns 80 anos –
com a Eternidade em sofrimento sem remissão? Eu estudei catecismo, fui batizado
e crismado na Igreja de São Judas Tadeu. Era repreendido por questionar
determinados valores, pois “os desígnios de Deus são insondáveis”. Mas nunca me
pareceu compatível com um Deus de Justiça essa história de inferno. Enfim, dogma
é uma coisa que não se discute. Aceita-se ou se está sendo herege e, portanto,
candidato à eternidade em condições nada auspiciosas, que Deus me proteja! Poder
e democracia nunca foram compatíveis. A poderosíssima Igreja Católica Romana
impõe valores. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. A Razão passa longe...
Essas histórias chegaram a
mim ali pelo início da década de 60 do século XX – época em que já existia
rádio, Sputnik, telefone, televisão, armas de fogo... – imagine aquele tipo de
pregação de uma “verdade inquestionável” à mente medieval simples, simplória,
quase infantil.
O que fazer com a população
excedente e fundamentalista religiosa cristã?
Em 1095 o papa Urbano II,
sensibilizado com a situação miserável do povo na Europa além das ameaças que se
diziam pesar sobre os cristãos em peregrinação para a Palestina convocou uma
Guerra aos Infiéis sob o mote repetido ad nauseam durante todo o
período das Cruzadas: “Deus o quer! Deus o quer!” Foi prometida uma ampla
indulgência e o caminho direto ao paraíso – não importam quais fossem os pecados
– a todo o cristão que “tomasse a cruz” e fosse “libertar a Terra Santa”.
O fervor religioso era
tamanho que o primeiro contingente de cristãos despreparados, liderados por um
destes loucos sensacionais chamado de “Pedro, o Eremita”, foram à Palestina
armados apenas com a sua fé e, naturalmente, foram massacrados ou escravizados
pelos muçulmanos atacados em sua própria terra...
Os ânimos europeus se
acirraram e uma Cruzada de Nobres foi convocada. Cavaleiros bem preparados e
armados se dirigiram em contingentes gigantescos primeiro ao Egito e Chipre e, a
seguir a um cerco direto a Jerusalém. Um comentarista da época relata
entusiasmado o resultado final da vitória cristã sobre os muçulmanos em
Jerusalém: “caminhava-se pelas ruas da cidade com sangue sarraceno até os
joelhos”. O local onde fora construído o Templo de Salomão, transformado em
Mesquita de Al-Aqsa, foi depredado e os sacerdotes passados todos a fio de
espada (ainda hoje existem grupos muçulmanos que envergam o nome “Mártires de
Al-Aqsa”, por sinal). O lugar era sagrado para os judeus pois tratava-se da
Construção de um Templo cuja planta tinha sido divinamente inspirada; sagrado
aos cristãos pois foi em Jerusalém que Jesus de Nazaré pregou, morreu supliciado
na cruz e ressuscitou trazendo a seus seguidores o batismo com o Espírito Santo;
sagrado para os muçulmanos porque se acredita que o profeta Maomé, o mais
recente porta-voz de Deus na Terra, havia subido aos céus da Cúpula do Rochedo.
Três religiões que cultuam o
mesmo Deus bíblico em confronto por detalhes de importância no mínimo
discutível...
Começa o Filme
Elenco:
Orlando Bloom faz o papel do
ferreiro Bailian de Ibelin, filho bastardo do Barão Godfrey de Ibelin,
interpretado brilhantemente por Liam Neeson. A lindíssima atriz Eva Green
trabalha como a Princesa Sibylla, irmã do rei leproso Balduíno IV do Reino
Cristão de Jerusalém. David Thewlis representa o Cavaleiro Hospitalário que
funciona como Capelão do Barão de Ibelin.
Colocados no papel antipático
de vilões – convenhamos, não sem uma certa razão, Marton Csokas como o esposo de
Sybilla e cunhado do rei Balduíno, Guy de Lusignan, curiosamente sempre
envergando um uniforme Templário sem que nunca o houvesse sido; Brendan Gleeson
no papel de Reynald de Chatillon, um homem amargo, rancoroso, traiçoeiro e
imoral que detinha considerável ascendência sobre os Cavaleiros Templários.
Embora a religião muçulmana recomende a não representação de figuras humanas em
pinturas, esculturas ou o que o valha, não se tem certeza sobre o aspecto do
grande líder Saladino, interpretado no filme de maneira soberba por Ghassan
Massoud.

O rei leproso Balduíno IV sempre se apresentava com
suas pústulas recobertas de seda e usando máscaras de prata.
O Sonho
Logo ao início, Godfrey de
Ibelin (Liam Neeson) deixa claro que sua idéia, também partilhada pelo rei de
Jerusalém, é precisamente conseguir uma paz duradoura entre cristãos, muçulmanos
e judeus na Terra Santa. Consta que o próprio Saladino era também partidário
deste propósito: o sonho de construir um “Reino de Deus” – “Kingdom of Heaven” –
na Terra Santa. Moribundo, o Barão Godfrey de Ibelin sagra seu filho Bailian
Cavaleiro e é digna de nota a vestimenta de seu confessor, um Cavaleiro
Hospitalário ostentando a cruz branca em sua veste negra.
As cruzadas foram palco de
grandes gestos de cavalheirismo e grandeza moral de parte a parte, mas também de
graves e sérios desvios. Não há comprovação histórica de que os Templários
desejassem a destruição dos muçulmanos e, por isso, tenham sido os culpados pela
derrota dos cristãos nas Cruzadas, tese apresentada contra eles em seu
julgamento forjado entre 1307 e 1314. Há, sim, grandes relatos de troca de
informações e alianças entre os Templários que eram estudiosos com os moradores
de Jerusalém e adjacências, com quem aprenderam detalhes sobre as diferenças no
encaminhamento inicial do cristianismo humanista e pacifista segundo Maria
Madalena, a discípula mais próxima de Cristo, segundo Lynn Picknet em “O Segredo
dos Templários” e aquele autoritário, vencedor, de Saulo de Tarso. Madalena foi
compelida a evadir-se da Palestina diante da vitória do cristianismo na sua
forma “paulina”, inclusive porque sua própria vida estaria em risco! Não é
casual que, nas muitas Igrejas Templárias pela Europa, Ilha de Chipre e mesmo
Patmos (onde São João escreveu o livro de Apocalipse) se encontrem tantas
estátuas de Maria Madalena e Igrejas a ela dedicadas...
Os Templários não eram
preconceituosos fechados ao diálogo, como o filme tenta fazer passar, a partir
do ponto de vista da Igreja Católica Romana e da Ordem dos Cavaleiros de Malta,
sucessores dos Hospitalários, ao contrário!

Bandeira Templária. Segundo John J.
Robinson, as cores usadas, preto e branco, estão na Raiz da criação do
Pavimento Mosaico visto nas Lojas Maçônicas. |

Bandeira Templária. Segundo John J.
Robinson, as cores usadas, preto e branco, estão na Raiz da criação do
Pavimento Mosaico visto nas Lojas Maçônicas. |
Um fato, contudo, é inegável:
a canalhice de Guy de Lusignan e Reinald de Chatillon causou tamanho dano à
Causa dos Templários que, após a sua passagem, a Regra da Ordem tenha sofrido
modificações para evitar novos dissabores similares no futuro. Decisão
importante e significativa, mas tardia e inócua, infelizmente.
Guy de Lusignan, já como novo
rei cristão de Jerusalém, junto com Reinald de Chatillon, lideram Templários,
Hospitalários e Teutônicos em direção à morte certa no deserto deixando a cidade
de Jerusalém sob a frágil proteção de Bailian de Ibelin que precisou nomear 30
cavaleiros emergencialmente para reforçar a resistência.
A genialidade bélica de
Saladino, jamais questionada, foi implacável: todas as fontes de água entre
Jerusalém e o ponto de encontro com os exércitos sarracenos foram soterrados ou
envenenados. No local do combate o chão foi recoberto com petróleo bruto e os
sedentos cruzados morreram no calor das chamas, sufocados pela fumaça ou a fio
de cimitarra. Poucos foram aprisionados. A cada prisioneiro era oferecida,
segundo os preceitos muçulmanos, a proposta de aceitar o Islã ou ser executado.
A maioria dos prisioneiros foi degolada. No topo da lista Reinald de Chatillon
que já estava na “lista negra” de Saladino desde que tentara roubar os restos
mortais de Maomé da cidade de Meca, trazê-los à sua fortaleza em Kerak e cobrar
– caro – a muçulmanos que desejassem visitar os restos do Profeta. Chatillon foi
derrotado e preso na ocasião e as autoridades de Jerusalém se arrependeram
amargamente de pagar o resgate pela sua libertação, que só trouxe desgraças para
a causa dos cristãos na Terra Santa...
O rei Guy de Lusignan foi
aprisionado, humilhado diante das portas de Jerusalém e também mais tarde
libertado.
Bailian de Ibelin, após uma
resistência impressionante de vários dias aos ataques maciços dos muçulmanos,
solicitou um diálogo com Saladino para oferecer termos à sua rendição. Pediu
pela vida das pessoas que ali viviam. Saladino ameaçou recusar, pois era
consensual entre os muçulmanos retribuir o massacre de muçulmanos inocentes em
1099 na mesma Jerusalém. Bailian lançou intimoratamente sua cartada final: “se
não nos garantirem a segurança do regresso a terras cristãs, mataremos cada
homem, mulher e criança dentro da cidade e destruiremos todos os lugares
sagrados de judeus, cristãos e muçulmanos”. Não estava blefando e Saladino o
percebeu. Tanto que garantiu um Salvo Conduto para a retirada de todos os
cristãos de Jerusalém, sob escolta, até terras cristãs.
Outras cruzadas ocorreriam,
hoje são vistas como algo exageradamente etnocêntrico (“ver a própria cultura ou
civilização como superior ou a única válida”) e desnecessariamente cruel. O fato
de o principal resultado haver sido a reabertura de rotas comerciais no
Mediterrâneo impulsionando o crescimento do capitalismo que, à época, não
passava de um pequenino câncer que hoje toma conta do mundo parece mais um mal
do que uma vantagem para a humanidade...
Trata-se de tema FASCINANTE e
inesgotável que nos envolve com grande entusiasmo. Ao interessado fica a
recomendação de uma visita à minha página no endereço exato
www.culturabrasil.org/os_templarios.htm
onde insiro muito mais informações e forneço sugestões de leitura, de filmes e
links para páginas relevantes ao tema.

O Selo dos Templários - "Pobres Cavaleiros de
Cristo e do Templo de Salomão" - dois cavaleiros montados numa única montaria
demonstrando sua pobreza e sua solidariedade.
Lázaro
Curvêlo Chaves – 03/03/2006
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