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De balanços e expectativas
2003
2003 foi o pior ano civil, político, que este país já teve nos últimos 30 (TRINTA) anos. Confissão amarga para quem sinceramente considerava impossível piorar. Neste período, o melhor foi o governo Sarney que tanto criticávamos – e com justa razão! – e hoje nos traz saudades... Havia inflação mas havia “gatilho salarial” e mecanismos de reajuste, de maneira que a perda de poder aquisitivo era amenizada, particularmente para a Classe Trabalhadora. Havia desemprego, mas sempre em índices abaixo de 3%, uma vez que produzir ainda era mais lucrativo – havia mais estímulo governamental a tanto – do que especular, as taxas de juros giravam em torno de 2% ao mês, ao contrário do momento presente, com taxas de juros absolutamente descontroladas. Resultado? Com uma taxa de desemprego – como é frio isso, “taxa de desemprego”, milhões de chefes de família, seres vivos com vontade e necessidade de vender seus corpos, sua força de trabalho física sem encontrar compradores – superior a 21%, batendo todos os recordes, a concentração de renda se agudizando radicalmente, poucos momentos da história nacional trouxeram tantos lucros para os mais ricos e tanto desespero para os mais pobres quanto o ano que findou. Filhos contratando assassinos para matar pais ou fazendo-o com suas próprias mãos, pais matando filhos perdidos para drogas, seres humanos seqüestrando e matando seres humanos para roubar calçados ou meros trocados, policiais sendo perseguidos por bandidos a balas onde moram e onde trabalham – policiais com medo de trabalhar, salários baixos, recursos (viaturas, armamento, instalações, tecnologia) precaríssimos diante de traficantes muito melhor aparelhados, etc – apresentadores de programas de entretenimento fazendo apologia ao crime organizado, juízes venais vendendo sentenças, juízes honrados sendo assassinados à luz do dia em vista da família, jovens obrigados a jogar-se de trens em movimento por usar trajes assim ou assado, ou ter o cabelo assim ou assado, escolas diplomando analfabetos, médicos esquartejando pacientes, enfim, tudo de cabeça para baixo, a destruição da Razão imperando mais uma vez.
Stalinismo ou nazismo?
De todas as loucuras que li, vi e ouvi de balanços do ano que passou foi a acusação de “comportamento stalinista” por parte do governo petista. Stalin não foi propriamente um exemplo de candura, lá isso é verdade, nem o é Fidel Castro, com quem se assemelha. Dizem-me amigos que, ao chegar no aeroporto de Havana vêem cartazes – nenhuma propaganda de gêneros de consumo – com dizeres como “Somente hoje, dez mil crianças morreram de fome. Nenhuma delas é cubana”. “Há no mundo cerca de 2 milhões de crianças sem lar. Nenhuma delas é cubana”. Governo autoritário. Sim. Poucas conquistas? Jamais! Stalin tem diferenciais radicais em relação a Lula. Tratava-se de um intelectual proletário e de esquerda – Lula já disse várias vezes que não é, nunca foi “de esquerda”. – Stalin e Béria promoveram uma verdadeira “caça às bruxas”, com rituais sumaríssimos de julgamento e execução de gente corrupta e direitista, traidora do proletariado. Lula e Zé Dirceu promovem uma “caça às bruxas” que mais lembra a “noite das longas facas”, com ameaças e punições severas a gente de esquerda, que não aceita os descaminhos de quem deveria estar defendendo a classe trabalhadora e não dificultando-lhe a existência. Sem mencionar a competência de, com mão de ferro sim, promover a Classe Trabalhadora e erradicar todos os eivores de capitalismo da então URSS, além de liderar a coalização vitoriosa da II Guerra Mundial, ficando apenas na questão – para mim atualíssima! – da esquerda ou da direita, basta lembrar que seria ilógico sequer pensar em “stalinismo de direita” e que Lula não é de esquerda, confessadamente, assumidamente. A brutalidade da expulsão de parlamentares autênticos, justamente sob acusação de “autenticidade”, tira o PT definitivamente do espectro da esquerda e faz lembrar os contemporâneos de direita de Stalin, na Itália e na Alemanha, por ele derrotados. Por favor, que ninguém mais ouse comparar Lula, traidor do proletariado, protagonista de um dos mais graves estelionatos eleitorais que este país já viveu (comparável talvez àquele de Collor de Mello), com Josip Djugashvili, o “Homem de Aço”, “Stalin”. Nada a ver. Até porque Stalin não foi conduzido à liderança de sua nação pelo voto popular direto – ao contrário de Lula, Hitler e Mussolini, que o foram... – demonstração de sabedoria popular? A maioria tem sempre razão? A democracia representativa realmente expressa a vontade do povo?
Outra abordagem desta questão aqui
Resgate espiritual e moral
Um ponto fundamental, diante de uma realidade absolutamente irracional na qual fomos imersos é a busca de um resgate espiritual, fundamentalmente de fé e de moral. O que cada um de nós pode fazer, do ponto de vista pessoal é, no mínimo, reforçar os valores cristãos da nossa tradição, buscar até a construção e a concepção de um mito novo. Povos que vivem sem ritos e mitos tendem a comportar-se como bárbaros e encher nossos jornais com estas maluquices que testemunhamos. Mas será só isso? Se todo o povo brasileiro vivenciar o fervor da fé cristã todos os problemas práticos da vida concreta estarão resolvidos? Sim, mas somente na medida em que se ponha na prática o que se diz nas igrejas!
Aí já é política
Decretação de uma moratória diante do FMI, afirmação da soberania nacional – pode ser de um único dia, como fez a Argentina, com resultados mais espetaculares que o Brasil com duas décadas de subserviência! O senador José Sarney está certíssimo neste ponto. Se no primeiro ano de governo seria inoportuna uma medida desta natureza, neste momento já cabe! Redução drástica nas taxas de juros com vistas à retomada do crescimento e do pleno emprego. Sonhar ainda não é taxado, é? As famílias deste país já não suportam mais tanta monstruosidade. Em 2003, quem não perdeu o emprego, perdeu poder aquisitivo. Diz o governo que foi a “vacina”, o “remédio amargo” necessário. Vamos ver o que acontece agora que está todo mundo amargamente “vacinado”. Sem poder fazer uma reforma cancelando direitos trabalhistas, conquista histórica de um tipo de sindicalismo hoje renegado pelo PT, por ser “ano eleitoral”, a prioridade do governo é a privatização do Banco Central, ou seja, deixar de governar. Que o país seja governado pelo “deus-mercado”, ficando o Estado meramente com encargos... Quais mesmo? Educação Pública? Saúde Pública? Segurança Pública? Então tá...
Boas novas
Vamos terminar estas linhas com pelo menos uma boa nova: 2004 é – vale a repetição – ano eleitoral. Todos escolheremos os vereadores e prefeitos de todas as cidades do país. Em ano eleitoral os políticos tendem a lembrar-se da gente que vota neles e acaba, no processo, efetivando políticas públicas efetivamente populares. Esta é a única esperança que temos...
Lázaro Curvêlo Chaves - 3 de janeiro de 2004 Ajude a manter esta página ativa! - Clique aqui e veja como fazer Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
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