Decálogo do Bom Escravo, de Louise
Michel (comentado)
O periódico libertário letralivre publicou em seu número 45, na
forma de Editorial, o decálogo que abaixo transcrevo e passo a comentar.
1 – Pense primeiro em
você, sempre em você e só em você.
2 – Pense que a realidade
que lhe coube viver é assim e não pode mudar.
3 – Aceite a miséria, a
injustiça e a desigualdade como coisa da fatalidade, a vontade de Deus ou da
Natureza.
4 – Pense que o Estado, os
tribunais de justiça, o parlamento e demais instituições foram criados porque
pessoas como você não sabem ou não conseguem governar-se a si mesmos.
5 – Creia que é verdade
tudo o que vê na TV, escuta no rádio e lê nos jornais de grande circulação, que
eles não ocultam nada de nada.
6 – Pense que é natural
que haja pessoas que mandem e outras que obedecem, que haja ricos e haja pobres
e que é natural que os ricos mandem e os pobres obedeçam.
7 – Creia que seus patrões
fazem a você um benefício ao permitir-lhe trabalhar para eles em troca de um
salário.
8 – Creia que a polícia
cuida de você, que os militares protegem a pátria e que a Igreja vela pelos
pobres.
9 – Pense que só tem
direito a ter aquilo que possa comprar, mesmo que necessite daquilo para viver,
como os alimentos.
10 – Aceite sem reclamar
que haja pessoas que pensem por você porque é o que a você lhe convém.
Comentários
1 – O
egoísmo é a mola-mestra do capitalismo. A dominação é mais fácil, macia e suave
quando a massa está desunida, desarticulada e é egoísta, quando cada um é
persuadido de que seus problemas são culpa exclusivamente sua a dominação é
muito mais simples. Neste sentido, algumas religiões cumprem um papel
importantíssimo. O surgimento de uma proposta de relacionamento individual e
exclusivo com uma divindade antropomórfica, como o faz o protestantismo, tem um
papel de elevadíssima relevância na desagregação do movimento dos trabalhadores
por melhores condições de existência. Todos vivem os mesmos problemas, mas cada
qual os encara como exclusivamente seus e busca soluções escapistas, fugas, como
são as taras e aberrações.
2
e 3 – Cito aqui Berthold Brecht:
“Nada
é impossível de mudar
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que
parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem
sangrenta,
de confusão organizada, de
arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada
deve parecer impossível de mudar.”
Aceitar as coisas como são e
procurar “ajustar-se” como recomenda toda a pseudo-literatura de auto-ajuda, não
por acaso tão na moda nesta época sombria do capitalismo é mais uma tara, um
escapismo, uma fuga da realidade.
A espécie animal se
diferencia da mineral e da vegetal pela mobilidade e pelo sistema nervoso
complexo, que compele a evitar a dor e buscar o prazer. Dentre os animais, o ser
humano é o mais dotado de vontade, razão e capacidade de se rebelar e
transformar a realidade a seu talante! Jogar fora estas qualidades é desprezar a
condição humana, a essência do ser do homem no mundo. Conformar-se com o mundo
como está, injusto, cruel, traiçoeiro e mal gerido é renegar até mesmo a
condição básica de animais racionais que temos. E até isto, desumanizar o ser
humano, o capitalismo consegue. A ponto de termos de lembrá-lo do básico por
todo o tempo...
4 –
Nós criamos Instituições para simplificar o encaminhamento de nossas vidas, não
o contrário. Criamos uma ferramenta para nos facilitar a existência e esta
ferramenta hoje se alimenta de carne humana. Isto está na raiz dos filmes e
livros que enfatizam existir “algo de errado”, que precisa ser revolucionado.
Vemos isso em “O Exterminador do Futuro”, em “Matrix”, em “Aeonflux” e em muitos
outros da produção estadunidense. Além daqueles filmes em que o bom policial é
aquele que, ao lado da população, só consegue sucesso em sua empreitada após
romper com o sistema, pedir demissão ou ser temporariamente afastado. Dentro das
instituições formais pouco ou nada se consegue fazer de bom ou bem. Quem tentou,
de alguma forma, domesticar a máquina foi por ela domesticado ou se decidiu a
romper com suas condicionantes. O aparato estatal não é passível de “reforma” a
favor do humano, o que se vem tentando desde praticamente a Revolução Francesa
até nossos dias. Há que se subverter o aparelho estatal. Nossa luta não é por um
Estado melhor ou sequer por um governo melhor, mas para que cresçamos
intelectual e moralmente a tal ponto que governemos a nós mesmo sem necessidade
deste tipo espúrio de intermediação.
A refletir ainda: por que será que a
maioria – sempre a maioria... – se rejubila ao enaltecer os rebeldes do passado
(Jacques DeMolay, Che Guevara...) enquanto faz questão de impedir que sejamos
nós os rebeldes de hoje?
5 –
Rádios, TV’s, jornais, escolas e Igrejas, por definição, são Aparelhos
Ideológicos do Estado. Estão a serviço da Classe Dominante. No Brasil/2006 a
classe dominante é formada por uma coalizão entre os megaespeculadores e o
lumpemproletariado, unidos contra os trabalhadores. Os Aparelhos Ideológicos de
Estado estão a seu serviço, portanto, a princípio, é precisamente o oposto: não
devemos acreditar ou acreditar pouco no que transmitem em noticiários ou
ficções, particularmente através da TV aberta. Aquela história de “todos juntos
na mesma emoção” é conduzida, na TV, ao paroxismo de manipular o momento de rir,
de chorar, de sentir esta ou aquela emoção e manter a todos passivos diante da
teletela de um mundo que não deve ser modificado.
6 –
No Estado de Natureza existem lideranças naturais, que se vivem em tudo e por
tudo em prol da maioria. Isto é nítido e perceptível nas sociedades ainda não
tocadas pela infecção capitalista da qual um dia, esperamos, a humanidade se
verá curada. À medida que a sociedade se sofistica e o capital se transforma em
valor supremo, quem governa o faz pelo e para o capital, desprezando
olimpicamente o ser humano que vive, ama e trabalha.
Assim, em nossa sociedade, todos os
valores estão embaralhados: valoriza-se a mediocridade das aparências e
desvalorizam-se as ciências, filosofias, artes e cultura mais relevantes e
profundas. Exceções, como sabem muito bem os matemáticos, são muito úteis para
confirmar a regra.
A atual hierarquização da sociedade
é resultado de séculos de artificialismo, não há nada, absolutamente nada de
“natural” no tipo de encaminhamento de que somos hoje vítimas. Quem manda deve-o
mais à sorte ou capacidade de rapina do que a qualquer tipo de capacidade de
trabalho altruísta ou coisa que o valha e a propaganda se esmere em reforçar. E
a quem obedece, falta o senso crítico, destruído por séculos de domesticação.
7 –
Quem gera a riqueza é o trabalhador. No capitalismo clássico, o patrão usufrui
da maior parte da riqueza gerada pelo trabalhador. No capitalismo especulativo
do século XXI a coisa piorou muito: instituições bancárias, megaespeculadores
ficam com o grosso do produto do trabalho e este passa a ser distribuído, em
partes desiguais, entre patrões e empregados – com o requinte de se reservar
somas consideráveis à manutenção de uma massa de clientes do Estado, dóceis
eleitores incapacitados para a consciência política.
8 –
Aqui, novamente, faço referência a filmes hollywoodianos – a única dimensão
cultural em que o Império Ianque se destaca em raras e preciosas exceções.
Retrato muitas vezes metafórico da vida concreta, aqueles que conseguem fazer
algo de bom e útil pelo ser humano são sempre os “ousiders”, aqueles que se
rebelam contra a ordem e o poder constituído, seja na polícia, nas forças
armadas ou nas igrejas formalmente estabelecidas.
9 – “Chi
no lavora no mangierá” – refrão do hino comunista italiano
Bandiera Rossa – informava da ojeriza que os trabalhadores sentem pela
classe que lhes parasita e usufrui do fruto de seu trabalho. Anarquistas há
séculos informam que este princípio está equivocado. O único pré-requisito a ser
exigido a que seja garantido o alimento na sociedade da fartura, abundância e
desperdício em que vivemos é simplesmente “estar vivo”. Que a disputa entre
seres humanos, se tem de ocorrer, que o seja em nível mais elevado do que a luta
pela sobrevivência.
10 –
Discorde. Discorde por princípio de tudo o que lhe impingem contra a vontade.
Zangue-se. Lute por melhoras. Nada dê por definitivo ou natural. Pense. Jamais
aceite delegar competência a que pensem ou decidam por você, seja em que
dimensão for. Quem sabe governar a sua vida melhor que você mesmo?
Lázaro
Curvêlo Chaves – 23/06/2006
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