Prestes a entrar em combate
com os poderosos senhores da noite, seus familiares e amigos de infância,
Arjuna, o guerreiro perfeito, desfalece e cogita abandonar a luta. Estimulado
por Krishna, seu conselheiro espiritual, ouviu dele a explanação dos motivos
que o levavam ao combate. “A Sabedoria do Desapego”, breve diálogo de
Krishna com Arjuna, é o cerne de toda a
Bhagavad Gita.
A
Sabedoria do Desapego
Bom é agir e bom é abster-se da
atividade; tanto isto como aquilo conduz à meta suprema. Mas, para o
principiante, melhor é agir corretamente.
O verdadeiro renunciante é somente
aquele que nada deseja e nada recusa, inatingido pelos opostos, tanto no seu
agir como no seu desistir; não afetado nem por esperança nem por medo.
Os ignorantes tecem teorias sobre o
agir e o conhecer, como se se tratasse de duas coisas distintas: mas os sábios
estão convencidos de que quem faz isto, não deixa de colher os frutos daquilo.
O reino da quietude que os sábios
conquistam pela meditação é também conquistado pelos que praticam ações; sábio
é aquele que compreende que essas duas coisas – a consciência mística e a ação
prática – são uma só em sua essência.
Difícil tarefa, herói, é alcançar
o estado de renúncia sem ação e sem que o espírito da fé penetre o coração.
O sábio que, pela força da verdade, renuncia a si mesmo, integra-se em Brahman.
Esse é puro de coração, forte no
bem e senhor de todos os seus sentidos; a sua vida está a serviço da vida de
todos, e ele realiza todas as ações sem ser escravizado por nenhuma delas.
Porquanto reconhece que não é ele
que age, quando vê, ouve ou sente.
Pois, quando vê ou ouve, cheira ou
come, dorme ou respira, quando abre ou fecha os olhos, quando dá ou recebe ou
exerce outro ato sensório qualquer – nãosão senão seus sentidos que operam com esses objetos externos.
Quem tudo faz sem apego ao resultado
dos seus atos faz tudo no espírito de Deus, e, como a flor de lótus,
incontaminada pelo lago em que vive, permanece isento do mal.
Com todas as forças do espírito, da
mente, do coração e do corpo luta o yogui
pela purificação de sua alma, sem nada buscar para si mesmo em tudo o que faz.
Quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança,
já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras
é escravizado pelos seus desejos.
O sábio que, em corpo terrestre, se
libertou do egoísmo, habita, mesmo quando age, no céu da sua paz, na “cidade
dos nove portais”; não tem desejos, nem induz outros a terem desejos.
O Senhor do Universo não cria a ação
nem o impulso de agir, nem o desejo dos frutos da atividade – tudo isso nasce
da natureza finita do indivíduo.
O Senhor do Universo não toma sobre
si as culpas dos homens, porque está acima de todas as ações, perfeito em si
mesmo. Erram os homens por sua própria ignorância, porque a luz da verdade está
envolta nas trevas da ilusão.
Mas quando as trevas sedem à luz,
amanhece o dia, e, assim como o sol em pleno esplendor, revela-se ao Ser
Supremo.
Quem se integra no Ser Supremo e nele
repousa está livre da incerteza e trilha caminho luminoso, do qual não há
retorno, porque a luz da verdade o libertou do mal.
Quem vive na luz da Verdade vê Deus
em todos os seres – no brâhmane e no cão, no elefante e na vaca, e até no
desprezado paria.
Os que estão firmes na luz da verdade
venceram o mundo, já aqui na terra, pela fé na harmonia universal; porquanto
Brahman transcende todas as condições da dualidade, habitando na suprema
unidade – quem o conhece, repousa em Brahman.
Quem vive firmemente consolidado na
consciência de Brahman não sucumbe à alegria, na prosperidade, nem à frustração,
na adversidade – mas remonta à claridade sem nuvens e se integra na
Divindade.
Quem preserva sua alma livre de todas
as coisas que vêm de fora realiza o seu verdadeiro EU, atinge a Paz Profunda, a
beatitude do verdadeiro ser.
As alegrias que brotam do mundo dos
sentidos encerram germes de futuras tristezas; vêm e vão; por isso, ó príncipe,
não é nelas que o sábio busca a sua felicidade.
Feliz é aquele que, durante a vida
terrestre, consegue libertar-se dos impulsos que geram paixão e ódio,
estabelecendo-se firmemente no espírito da união com Deus.
É ele, na verdade, um santo, que
encontra o céu dentro de si mesmo; a sua vida é uma com Brahman e abre-se-lhe
a porta do nirvana.
É assim que os rishis, livres
de incertezas e senhores de si mesmos, já aqui na terra, entram no nirvana
da Divindade, vivendo a vida de todos os seres.
Todos os que, libertos de ódio e paixões,
fortes na humildade e iluminados pela fé, superaram o seu ego humano e
realizaram em si o Eu divino, todos eles se aproximaram da verdadeira Paz em
Deus.
O yogui que habita na luz, que
se abstém do contato com o mundo dos sentidos, cujo olho espiritual se abriu e
cuja respiração espiritual se sintonizou com a respiração corporal.
Ele, que repleto da virtude de Deus,
governa o coração e a mente, e, sem egoísmo, anseia pela redenção – esse
se libertou de si mesmo e vive na paz eterna, aqui e por toda a parte.
Ele sabe, que EU SOU a Essência em
todas as Existências; eu, o Imanifesto em todos os Manifestos: eu, a suprema e
imutável Realidade em todos os mundos em incessante mutação; eu, refúgio e
proteção de todas as criaturas. Quem isto sabe, encontrou a paz...
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