(Artigo publicado originalmente no jornal
Folha de S. Paulo, reproduzido nesta página com autorização do Autor)
Indagados sobre os três principais problemas que os
fariam tirar os filhos da escola, 16 mil pais, todos de classes A e B -e,
portanto, supostamente bem informados-, fizeram a seguinte lista: drogas (69%),
aumento das mensalidades (44%) e pouco rigor na disciplina (35%).
Preparada pelo Sistema Anglo de Ensino, essa pesquisa, divulgada na
quinta-feira, revela como os pais estão apavorados e desinformados. Apavorados
com a disseminação das drogas. Desinformados por não conhecer os riscos para a
saúde de seus filhos.
A desinformação está no fato, comprovado estatisticamente, de que o consumo do
álcool provoca mais -e cada vez mais- estragos entre os jovens do que as drogas.
Está associado a acidentes de trânsito e a homicídios. Mas a bebida é tolerada
socialmente e estimulada pela publicidade.
Nestas últimas semanas, ícones da juventude vêm bombardeando as pessoas por
todos os lados com o bordão "Experimenta. Experimenta. Experimenta" para
promover uma cerveja. Usam os recursos de marketing, com todos os seus
requintes, para dizer, em essência, que, se você não experimentar, vai estar
"por fora". Não é preciso ser um estudioso de psicologia para avaliar como tal
tipo de mensagem atinge a auto-estima do jovem, sempre aberto a experimentações.
Depois da gritaria, uma rápida frase do anunciante, quase clandestina,
silenciosa, sugere a quem tem menos de 18 anos que não experimente.
A Folha revelou estudo feito pela Universidade Federal de São Paulo que aponta
que as crianças e adolescentes não encontram nenhuma dificuldade para comprar
álcool. Nem nas proximidades das escolas. Segundo o trabalho, 90% dos donos de
bares não se interessam pela idade de quem está comprando a bebida.
O estudo está focalizado em Paulínia, cidade do interior de São Paulo
transformada em laboratório da universidade. Os pesquisadores acompanharam 126
pessoas atendidas no pronto-socorro, vítimas de quedas, brigas ou acidentes de
trânsito. Todas -não é exagero, todas- estavam sob o efeito do álcool.
Condenar a propaganda é uma saída óbvia. "Muitos dos meninos entrevistados
disseram que as propagandas de álcool os encorajavam a beber", escreveu, na
Folha, a psicóloga Ilana Pinsky, com a autoridade de quem trabalha em um
ambulatório (na Universidade Federal de São Paulo) que trata só de jovens
vítimas do abuso do álcool. "No Brasil, onde o preço de um litro de pinga é
comparável ao de um litro de leite e é raríssimo um menor de idade ter
dificuldade de adquirir qualquer bebida alcoólica, o consumo do produto tem
apresentado tendência de crescimento."
Seria ótimo se bastasse conscientizar pais, enquadrar publicitários ou punir
donos de bares. Mas limitar a propaganda sem oferecer um projeto de
esclarecimento, a ser implantado a partir da família e da escola, é tão eficaz
quanto proibir a venda de abridores de garrafa para coibir o consumo. Não
funciona.
Já se sabe que ficar papagueando tenebrosamente, num tom moralista, que beber
faz mal produz baixa resposta. Até porque as pessoas bebem porque dá prazer -e
os jovens tendem a acreditar que viver seja buscar prazeres, ainda mais numa
sociedade que reverencia a química do hedonismo com o consumismo.
As melhores experiências de prevenção feitas em várias partes do mundo são as
que não demonizam a droga ou a bebida, mas valorizam a vida e enfatizam que a
alegria está em sentir-se criando sempre -de amizades a viagens, passando por
músicas ou livros.
É o que se chama educação de valores, baseada no respeito a si e aos outros, na
importância da independência individual e da consideração ao coletivo. Quem
reverencia a independência individual não perde a perspectiva de futuro e cuida
de sua auto-estima pode experimentar o que quiser e quando quiser, que sempre
terá uma voz interna a recomendar-lhe cautela.
Os resultados positivos dessas experiências vêm da aposta de que se deve educar
menos pelo medo da morte e mais pelo prazer da vida -exatamente, aliás, como
fazem os publicitários, que não associam bebida a nada sombrio, mas aos encantos
de uma praia num dia de sol.
O problema é que estamos no meio de um porre social: governos omissos sem um
programa educacional, sociedade tolerante, pais desinformados e geniais
publicitários livres para associar a bebida a vigor, sexualidade e liberdade.
Para completar a combustão, jovens ensinados que a suprema vivência humana está
em consumir.
Não é preciso experimentar nada para saber como isso acaba.
PS - Está no site do Aprendiz (
www.aprendiz.org.br ) uma série de artigos sobre o
tema "álcool, drogas e juventude", que mostram experiências realizadas dentro e
fora do Brasil. Entre eles, encontra-se o artigo de Ilana Pinsky, que considero
leitura obrigatória.