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Artigos de Clóvis Rossi e Janio de Freitas na Folha de S. Paulo
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Pobre argumento – Clóvis Rossi – Folha de S. Paulo, 11 de agosto de 2004
O argumento mais repetido em defesa do tal CFJ (Conselho Federal de Jornalismo) diz que existem conselhos similares para advogados, médicos e outros profissionais e, portanto, deve haver também para jornalistas. Pena que nenhum dos que usam o argumento parou para examinar se os conselhos similares ao CFJ produziram bons efeitos. Não é preciso muita esperteza para perceber que os resultados não são bons, para dizer o menos. No caso dos advogados, basta lembrar que a grande maioria dos formados não passa no Exame da Ordem, o que significa que as escolas estão despejando no mercado profissionais com imenso déficit de formação. Pior ainda: alguém aí é capaz de dizer que a administração de justiça no Brasil é minimamente eficiente, elogiável, louvável? Ou, posto de outra forma, a existência de um conselho semelhante ao proposto CFJ nem chegou perto de defender a sociedade no seu direito à justiça. No caso dos médicos, já está entrando em debate a criação de um exame similar ao feito pela Ordem dos Advogados do Brasil, o que evidencia que há desconfianças também em relação à qualidade da formação desses profissionais. E, de novo, é escandalosamente óbvio que o direito à saúde não é exatamente uma característica do Brasil. Ou, posto de outra forma, a sociedade não está sendo defendida pelo fato de existir um conselho que supervisiona os médicos. Seria preciso um grau de presunção fenomenal para supor que, no caso do jornalismo, o CFJ faria o que os conselhos das outras profissões não fizeram ou, no mínimo, não puderam evitar. Tanto quanto o direito à saúde ou à justiça, o direito a uma informação veraz só será alcançado se e quando a própria sociedade for vigorosamente atrás de cada um deles. Estruturas burocrático-corporativas podem até ter a melhor das intenções, mas os fatos provam que não defendem nem os profissionais nem a sociedade.
O bando de covardes – Janio de Freitas – Folha de S. Paulo, 19 de agosto de 2004
Outra vez aí? Você não viu o presidente do seu país dizer que os jornalistas são "um bando de covardes"? Você gasta dinheiro para ler esse bando e depois diz que o seu dinheiro é curto porque o Lula é que não tem palavra, até hoje não fez nada para cumprir a promessa de dobrar o poder de compra dos salários, que até diminui mês a mês. Para não deixar a sabedoria presidencial sem um reparo -no jornalismo fica sempre bem um pequeno reparo junto com o aplauso, e vice-versa-, parece-me que o presidente poderia precisar melhor o alcance do adjetivo tão bem escolhido. Nem todos merecem ser atingidos pelo denuncismo de Lula. Covardes, bem entendido, são só essa maioria que não tem a coragem de se pôr a serviço do governo. Ah, que energia, quantas horas valiosas, que elucubrações e que desnudamento o bando de covardes exige de Lula, de Dirceu, Gushiken, Palocci, do Meirelles de tão virtuosas transações. Ou, perdulário comprador de jornal, não fosse pelo bando de covardes, por que você acha que Lula daria a Henrique Meirelles o título e os privilégios judiciais de ministro, por acaso, menos de 24 horas antes de desfechada pelo governo uma coleta, em âmbito nacional, de documentação sobre movimentadores ilegais de dólares? Alguns covardes sugerem que Lula não agiu só pela glória de ser o primeiro na história a elevar um banco à condição de ministério, já que à frente da entidade estará um ministro e não mais um presidente. Banco com status de ministério, aliás, convenhamos que fica muito bem no governo Lula. À primeira vista, parece que o bando de covardes exige do governo apenas projetos de "controle da atividade de jornalismo", da lei da mordaça contra procuradores e promotores, da proibição de informações jornalísticas por funcionários, e outros fascistismos assim notórios. Quem dera. O bando de covardes obriga o pessoal da Presidência a esmiuçar tudo. Com descobertas alarmantes. Caso, por exemplo, você talvez nem saiba, de um tal art. 100 que o Congresso introduziu na Lei de Diretrizes Orçamentárias, normalizando o acesso parlamentar, hoje restrito, ao Siafi, que reúne os dados da administração financeira do governo. Acesso indispensável à fiscalização do Congresso sobre as contas e ações do governo, como exige o art. 71 da Constituição. Mas o bando de covardes gosta muito de descobrir, pelo exame das contas, realidades sombrias que o governo esconde. Logo, com a mesma ligeireza da medida provisória transformada em socorro urgente para Meirelles, Lula derrubou, pelo veto, o art. 100 da transparência que, por mais de 20 anos, o PT cobrava. Como se vê por essas medidas, e por outras não relembradas, todas típicas de governo amedrontado, seria possível discutir quem, de fato, compõe um bando de covardes. Não vale a pena, porém. Todos sabem que mesmo os jornalistas incorretos jamais poderiam trair os leitores como, só para fazer uma comparação, é a traição de certos políticos à boa-fé dos eleitores, e até à própria biografia.
Cores, amores e categorias – Clóvis Rossi – Folha de S. Paulo, 8 de setembro de 2004
É incompleta a informação do secretário de Imprensa da Presidência, Ricardo Kotscho, segundo quem o projeto do Conselho Federal de Jornalismo é uma "reivindicação desta categoria profissional" (a dos jornalistas), conforme a nota que Kotscho emitiu para rebater texto do jornal "The New York Times". A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) também representa os jornalistas, mas é contra o projeto. E a ABI tem mais história que a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), que lançou a idéia. Não é demérito da Fenaj, mas fato da vida. Tanto é assim que, quando precisou, o PT (e demais forças de oposição ao governo Fernando Collor) recorreu à ABI para liderar o movimento pelo impeachment. Vê-se, pois, que o projeto do CFJ não é "da categoria", mas de parte dela apenas. Aliás, seria curioso saber por que o governo "comprou" esse projeto, de apenas parte de uma categoria, quando, pouco antes, se opôs ferozmente a um aumento maior do salário mínimo, este, sim, proposto por TODO o movimento sindical. Está igualmente imprecisa a avaliação de Luís Nassif de que a onda verde-e-amarela nas praias italianas neste verão seria decorrência do fato de que o Brasil é "o país mais amado do mundo". A onda verde-e-amarela na Europa vem de alguns meses, mas está determinada por um modismo de cores que se revezam ciclicamente nas lojas, de acordo com a criatividade (ou falta dela) dos desenhistas. Enquete pessoal, feita nos cinco meses que passei na Europa neste ano, mostra que a maior parte dos que usam verde-e-amarelo nem sabe que são as cores do Brasil. Claro que há (sempre houve) carinho pelo país tropical, mesmo desconhecendo-o, porque, afinal, nunca fez mal a ninguém (a não ser a seus próprios filhos e aos paraguaios no século retrasado). A onda atual tem muito mais a ver com cor do que com amor ao Brasil. É bom do mesmo jeito, mas não convém perder a perspectiva.
Secretário de Lula defende "limites" para jornalistas – Folha de S. Paulo 21 de agosto de 2004
Em debate que não teve tréguas nem mesmo durante os intervalos, o colunista da Folha Clóvis Rossi declarou ser contra a proposta de criação de um Conselho Federal de Jornalismo, ao passo que o secretário de Imprensa da Presidência da República, Ricardo Kotscho, disse que o jornalismo "precisa de limites". Os dois debateram na gravação do programa "Dois a um", do SBT, que vai ao ar na madrugada da próxima segunda-feira, à 0h45. A apresentadora Mônica Waldvogel iniciou o programa com a pergunta: "Afinal, quem é a favor e quem é contra o conselho?". Rossi adiantou-se e respondeu de pronto: "Eu sou contra". Kotscho, por sua vez, disse ser favorável ao debate que, na opinião dele, não tem ocorrido na mídia. Kotscho disse que o projeto foi enviado pelos jornalistas por meio da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Para Rossi, não é correto afirmar que a proposta é da classe. "Sem desmerecer a Fenaj, há entidades com mais história que não concordam com esse projeto", disse o colunista da Folha, que mencionou o fato de a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) ser contra o conselho. "O CFJ é proposta de parte dos jornalistas, não de todos", frisou. Para Rossi, o conselho representa a "mania de achar que a sociedade precisa de tutela". Ele disse que já existem dois limites para o jornalismo: as leis e o público. Kotscho discordou. Citou a declaração do ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, para quem as ações judiciais não têm inibido os excessos do jornalismo. Segundo o secretário de Imprensa, o jornalista "não pode ser comparado a índio, idoso e criança", a quem as leis são aplicadas de forma diferenciada. Para ele, os jornalistas precisam de limites, os quais podem ser estabelecidos por um conselho. Ansiosos, em alguns momentos eles se atropelaram ao falar. "Você não me deixa falar", reclamou Kotscho. "Mas só você fala", respondeu Rossi. Mas ambos concordaram quando o secretário afirmou ser contra "jornalismo de futrica". Rossi, então, disse: "Meu instinto básico é discordar sempre de gente do governo, mas agora vou concordar. Prefiro tomar furo a dar barriga [notícia falsa]". Outro ponto de concordância foi em relação à necessidade de desconcentração da propriedade dos meios de comunicação. (UM)
O jogo das aparências – Janio de Freitas – Folha de S. Paulo, 5 de setembro de 2004
Muito oportuna a vinda ao Brasil do novo diretor-gerente do FMI, que transita entre os resplandecentes gabinetes brasilienses e o fim de semana fosco do Rio. Por acaso ou não, Rodrigo Rato, até há pouco ministro econômico do recém-alijado governo direitista na Espanha, aqui está na abertura da Semana da Pátria. Momento agora declarado por Lula como o mais importante do ano -antes de tudo, suponho, porque a ele dá ocasião a mais um discurso e, a nós outros, a oportunidade de escapulir no feriado. E, para não esquecermos o bem-vindo visitante, a Rodrigo Rato o momento permite refazer-se de sua assustada saída de Buenos Aires, acelerado por protestos furiosos contra sua presença. Mas sobretudo é oportuna a presença do diretor-gerente do FMI quando o governo, sob o impulso de sua índole mais verdadeira, convoca o empresariado e entidades civis a providências para dar ostensidade à celebração do Dia do Independência ou Morte. O diretor-gerente do FMI aprovou as contas submetidas por Lula e Antonio Palocci ao seu exame, mas não se sabe se chegou a ver o documento convocatório do patriotismo de fachada (em duplo sentido, sim, que a Presidência da República cobra dos empresários, entre outras nostalgias medicistas, a "decoração de sedes e fachadas"). À falta das mudanças para as quais Lula foi eleito, o que mais caracteriza a identidade do atual governo é sua fixação nas aparências. Empenha esforços e e gastos imensos para aparentar-se um governo das causas populares, enquanto pratica uma política econômica beneficente do sistema financeiro privado, particularmente dos grandes bancos particulares; e arrocha salários e vencimentos, pune os usuários da previdência social e logo também da previdência privada. Apresenta-se como o governo sem corrupção e pela moralidade, mas impede investigações parlamentares e transforma o título de ministro em proteção contra suspeições de irregularidades ou mais que isso. Todos muito democratas no Planalto, porém proponentes de meios de "controlar e orientar as atividades jornalísticas", que são, no melhor e no pior, o fundamento das liberdades democráticas. Que independência pode celebrar o país cujo governo é orientado, examinado, inspecionado e sujeitado por uma entidade alheia ao país? O governo cobra a exaltação da independência nacional enquanto se submete ao mandatário para aprovação ou crítica do seu grau de obediência. Está certo: farsante pela metade não é farsante. As falsas aparências exigem falsidade total.
Liberdade original – Janio de Freitas – Folha de S. Paulo, 17 de setembro de 2004
Já ninguém pode dizer que inexiste um traço de originalidade a distinguir o governo Lula de seu antecessor. Por ora é um só e, mesmo que o governo continue tentando ampliá-lo e fazê-lo mais conseqüente, é muito improvável que o consiga. A originalidade está na concepção que o governo tem, e a cada dia demonstra mais, do que é e do que deveria ser o papel dos meios de comunicação. No congresso da Associação Nacional de Jornais, entidade que congrega o patronato da imprensa diária, Lula fez afirmações tão enfáticas a favor da liberdade de imprensa que até ultrapassou o limite dos fatos: "Ao vir aqui, reitero este compromisso [com a liberdade de imprensa], que é o compromisso de uma vida inteira". De muitas vidas inteiras, mas não constam participações de Lula nos embates por tal face das liberdades democráticas. O discurso de Lula foi muito bem recebido pelos associados da ANJ, mas cabe uma pergunta: que outra coisa, senão o apoio à liberdade de imprensa, diria um presidente da República em reunião solene dos donos de jornal? As práticas do governo, porém, não sustentam o discurso gentilmente óbvio. A falácia de que o projeto do Conselho Federal de Jornalismo, com sua pretensão de "orientar a atividade do jornalismo", só foi mandado ao Congresso porque pedido pela Federação Nacional dos Jornalistas não precisaria de mais desmentidos. Apesar disso, o próprio governo proporcionou mais um, menos de 24 horas do discurso de Lula na ANJ. Muito mais importantes do que a Federação dos Jornalistas, todas as federações dos industriais e dos comerciantes têm reivindicado a redução dos juros, como preliminar para a adoção de políticas de crescimento econômico. Discurso na terça, aumento dos juros na quarta. Não é preciso lembrar a idéia de proibir funcionários públicos de proporcionar informações a repórteres, nem outras idéias e referências da mesma família, prodigalizadas por várias das figuras centrais do governo. Bastará ficar na mesma terça-feira do discurso. Horas antes da fala de Lula, o secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência, Ricardo Kotscho, publicou na Folha um artigo com significação muito especial. Tratou-se de uma intervenção na divergência entre dois colunistas do jornal, a propósito de assunto irrisório e sem conotação com o governo, para produzir um julgamento segundo a ótica tipicamente governista e decretar de que lado está a razão. Tenho mais anos de jornal do que deveria ter de vida, mas nunca vi na imprensa brasileira, nem tive conhecimento na imprensa estrangeira, de atitude semelhante. Sob o sotaque vocabular de gesto autorizado pela intimidade, é um ato arbitrário, com a chancela do poder que lhe é dada pela função do autor e com os ingredientes do governismo exacerbado. Dois traços que repelem qualquer sentido jornalístico na atitude e no teor do texto enviado à Folha por Kotscho, jornalista unanimemente respeitável enquanto exerceu o jornalismo profissional. A mesma Secretaria de Comunicação da Presidência, da qual é incumbido o ministro Luiz Gushiken, precisou emitir, anteontem, uma nota oficial incomum: pedido de desculpas a outro ministro e a quem acesse o "site" do governo. Na Secom foram forjadas, e atribuídas a Gilberto Gil, frases gravemente insultuosas à imprensa, chamada em geral de fascista. O "grave erro de edição" (erro de edição?) foi de uma assessora-jornalista (jornalista?) responsável (não seria irresponsável?) pela página na internet. Pode-se dar como certo que tenha sido ato individual. As circunstâncias concorrem, no entanto, para a suspeita de que, como é tão comum, o ato individual exprima um ambiente conceitual, ainda que o faça com exagero de percepção e, daí, de formulação. Os indícios de que a liberdade de imprensa não agrada o governo são sucessivos.
Viva a especulação! – Antônio Ermírio de Moraes – Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 2004
A elevação da taxa básica de juros, em si, foi uma ducha de água fria para quem estava pensando em tomar dinheiro emprestado para investir. Mais grave do que isso, porém, foi o anúncio de que a elevação dos juros nesta semana é apenas a primeira de uma longa série de aumentos que terão lugar daqui para a frente. Não posso pensar em uma frase mais infeliz do que essa. Foi uma senha negativa para os investidores produtivos e um grande presente para os especuladores. Com isso, o Banco Central deu o seguinte recado: "Prezados participantes da ciranda financeira, preparem-se para ganhar muito dinheiro, porque a ciranda vai rodar -e muito". Sei bem que a questão é técnica. É parte da boa técnica, entretanto, não fazer anúncios que orientam os investimentos para a especulação, tirando-os da produção. Os economistas estão cansados de saber que os fatores psicológicos contam muito na formação das expectativas e das decisões de investir. Foi uma sinalização descabida e que atendeu aos interesses de quem não produz, em especial dos alquimistas que se põem a fazer análises de riscos na casa dos vizinhos. Esses devem estar felizes. Não só a taxa de juros aumentou como as autoridades monetárias prometeram que irão iniciar um processo de aumentos seqüenciados "para garantir o futuro". Os gurus que hoje festejam a decisão do Copom falam bem do Brasil e de sua política econômica, anunciando para o mundo que o país fez o que deveria ser feito. Gostaria de saber quantos deles recomendam aos seus clientes que venham produzir no país. Os investimentos estrangeiros diretos neste ano ficarão em torno de US$ 10 bilhões, enquanto o total para os países emergentes de todo o mundo chegará a US$ 230 bilhões. Se estamos fazendo tudo certo, por que eles não vêm investir em nossa produção? Por que eles se negam a nos ajudar a criar empregos para os brasileiros? Qual é o significado do seu aplauso? São perguntas que me intrigam. A resposta que dou a mim mesmo é muito simples. Para os especuladores, estamos fazendo tudo certinho para encher os seus bolsos! É por isso que eles aplaudem. E o lado real da economia brasileira continua sujeita às lamentáveis políticas de "stop and go", que arrocham os produtores e consumidores toda vez que eles se põem a trabalhar sério, a gerar emprego e a ativar a economia. É claro que as teorias dos defensores de juros altos são sofisticadas. Mas seu propósito é simples. Eles procuram provar que o Brasil não pode crescer, porque isso instiga a inflação. E daí para o amargo remédio é um pulo: "Não deixem a economia se aquecer. Aumentem os juros. Aniquilem os consumistas. Segurem os produtores". Está na hora de darmos um basta. Temos de nos livrar dos sofismas maliciosos de quem só pensa em si e no enriquecimento sem trabalho. Repito a minha pergunta aos defensores dos juros altos: "Quantos de vocês estão investindo na produção nacional?".
E agora, que teoria - Emir Sader - 6/2003
Estamos saindo de uma década miserável para a política e para a vida intelectual. Ao invés da elevação do debate teórico, a eleição de um presidente de origem intelectual, ao adotar uma teoria já elaborada – o Consenso de Washington -, implicou na renúncia a teorizar o que fazia, porque tudo já estava escrito. A desqualificação dos adversários e da própria possibilidade de divergência e de debate correspondia à impossibilidade de se escrever o que se fez – no fundo resumido ao filtro financeiro do ajuste fiscal, que dizia o que podia e não podia ser feito, o que era bom e mau para o país. O fracasso e a derrota desse governo e dessa forma de encarar a prática política e o debate teórico representam uma nova possibilidade de valorizar a vida intelectual. Não apenas uma possibilidade, mas uma necessidade urgente já que, pela primeira vez nos últimos grandes projetos históricos do Brasil, entramos num novo período político sem uma elaboração teórica à altura dos desafios colocados. O governo de João Goulart podia se fundamentar no Plano de Metas elaborado por Celso Furtado. A ditadura militar se inspirava na Doutrina de Segurança Nacional. A transição democrática se apoiava na teoria do autoritarismo. Quando o Brasil inova politicamente e se lança ao primeiro governo posneoliberal, se colocam desafios enormes para a recuperação do atraso na análise e nas proposições teóricas entre nós. Entre suas características específicas, o Brasil dispõem de uma extensa gama de intelectuais que têm revelado uma extraordinária capacidade de produção teórica. No entanto, desqualificada pelo governo e pouco mobilizada pela oposição, essa intelectualidade, em sua grande maioria, viveu o período negro de que saímos refluída na universidade, mais ou menos prisioneira da divisão técnica do trabalho, sem se aventurar aos grandes desafios teóricos contemporâneos. Justamente quando se deram as maiores transformações globais na sociedade brasileira – e no mundo e geral -, grassaram as teses de renúncia aos que passaram a ser chamados de “grandes relatos”, que acabaram deixando lugar ao reinado do economicismo com essa renúncia. É hora de recuperar esse atraso. Quais são os principais desafios teóricos atuais, quando os brasileiros votaram majoritariamente por um novo governo, anti-neoliberal? Em primeiro lugar, avaliar devidamente as transformações que o neoliberalismo – com suas doutrinas e com as transformações reais que operou – introduziu na sociedade brasileira. Em outras palavras, nos reapropriarmos do que é hoje o capitalismo no Brasil, com seus processos de acumulação de capital, de reprodução social, de representação política, de expressão cultural, de dependência externa – para alimentar nossa luta por um outro Brasil possível. Sem isso não seremos contemporâneos do nosso presente, não estamos pisando com graus mínimos de certeza no chão da sociedade brasileira realmente existente. Disto depende nossa capacidade de avaliação das reais relações de forças existentes, da definição de adversários e aliados, dos obstáculos e dos elementos favoráveis com que contar, das forças a derrotar e daquelas a conquistar, daquelas a que é preciso apoiar para que se constituam como sujeitos sociais, políticos e culturais. Promover e participar ativamente de um grande mutirão intelectual e cultural, de debates, propostas, seminários, de produção teórica e de discussão ampla, que recupere o prestígio e o costume da leitura, do debate, da produção teórica, fortalecendo a idéia de que sem compreensão teórica não há transformação consciente da realidade, que a realidade cobra muito caro o preço dos erros teóricos cometidos – torna-se indispensável. Para tanto será necessário criar e ampliar órgãos e espaços escritos e visuais de debate e de divulgação que possam materializar esse mutirão e contribuir para a construção de uma hegemonia alternativa no Brasil. Nesse processo, será preciso fortalecer e disseminar a cultura e a formação histórica e política das novas gerações, tanto dos seus setores que estão nas escolas, quanto daqueles – majoritários – que estão excluídos, através de cursos, seminários, de todas as formas de capacitar a maior quantidade de pessoas para que a nova etapa histórica a que o Brasil ingresse represente não apenas um passo na democratização econômica, política e social do Brasil, mas também na sua democratização intelectual e cultural. Necessitamos de uma teoria da saída do neoliberalismo e do tipo de sociedade que o subsituirá. Sabemos que a mercantilização – marca do capitalismo na sua fase atual – tem que ser combatida frontalmente e, com ela, a exploração, a dominação política, a discriminação, mas também a alienação, em todas suas formas. Mas precisamos propor as formas que assumirá esse Brasil posneoliberal. Para tanto, os intelectuais – no sentido amplo, gramsciano da palavra, de todos os que trabalham com as palavras e com as idéias, de todos os que se propõem a construir de um outro mundo possível – têm um papel essencial, indispensável. As condições políticas estão dadas: através de uma campanha eleitoral memorável, em que desembocou a acumulação de forças das décadas anteriores, derrotamos ao neoliberalismo. Trata-se agora de consolidar esses avanços contribuindo para dar-lhe consistência teórica e massificando a participação intelectual, cultural, social e política do enorme caudal de gente que votou pela esperança e pela mudança.
O nó cego da economia política - Vinicius Torres Freire – Folha de S. Paulo – 20 de setembro de 2004
No que depende do governo e de seus guardiães (bancos, grande investidor), o que determina a política econômica são as metas de inflação e o tamanho da dívida pública, nessa ordem. Fome, emprego, investimento em necessárias obras públicas, nada disso importa quando o governo avalia as medidas centrais da política econômica. Nenhuma avaliação correta do que está acontecendo ou do que deveria acontecer pode ignorar tais fatos. O Banco Central anunciou, a quem quiser ouvir, que cumprirá as metas de inflação a ferro e fogo e juros e não importa o quanto isso custe em dívida pública. Enorme, ela será abatida. A fim de que o crescimento não seja por demais sacrificado, deve aumentar o superávit público primário, a economia feita pelo governo para pagar juros da dívida. São essas as circunstâncias de um país de várias distorções de mercado, dívida enorme e economia aberta. As metas de inflação estão definidas até o final de 2005. Bom ou ruim, mexer nisso vai causar turbulência financeira contraproducente. Para cumprir metas, controlar a dívida e preparar alguma reforma da política econômica será preciso mais superávit pelo menos até 2005. Por ora, não dá para conter juros e fazer menos superávit ao mesmo tempo. Isto é, há a alternativa de detonar a política econômica. Ignorar inflação e dívida. A depender do tamanho do descaso, viveríamos crise semelhante à de 2002, quando o mercado imaginava que Lula aplicaria o programa econômico que sempre pregou, que redundou em dois anos de estagnação. Não dá para ter política econômica de outra cor e não enfrentar crise feia ao mesmo tempo. Há o caminho da reforma. Não baixar as metas de inflação para 2006. Mexer um pouco no modo de calcular o superávit. Realizar algumas reformas microeconômicas. Modificar as circunstâncias. As circunstâncias e a maníaca e exagerada ortodoxia do governo Lula não nos deixam alternativas no curtíssimo prazo.
Lula pune pobres devido à eleição - Kennedy Alencar - Folha de S. Paulo 21 de setembro de 2004
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