NOTA: Temos de estabelecer os
parâmetros, as metas, temos enfim de montar as maquetes da sociedade do Futuro.
Se sabemos o que queremos do Futuro, seguramente chegaremos lá! Se não temos
sequer um esboço, como chegaremos onde quer que seja? Esta proposta Libertária
visa contribuir para que o Estado valorize mais o profissional de Educação, que
o Estado valorize mais o Educando e o Educador, enfim. Meta suprema se queremos
melhorar de fato as condições de vida de nossa gente e se queremos,
efetivamente, reduzir a criminalidade, a violência e melhorar a distribuição de
renda, de oportunidades e de saberes entre nossa brava gente, BRASILEIRA! Se
você concorda com as
CONCLUSÕES deste arrazoado, ajude a difundir, a divulgar. Lutemos juntos por
uma Educação melhor para nós, nossos filhos e netos!
"Este ensaio de Lázaro Curvêlo Chaves explicita
humana e cientificamente seu objeto. O espectro de leituras, o crivo
metodológico, o enlace unívoco do sujeito com seu tema atestam a vocação
intelecto-espiritual do Autor. Seu perfil, seu tônus moral, sua medula ética
são, inescapavelmente, alento especial àqueles que, como eu, acreditam na
assunção final da espécie humana".
Ricardo Máximo Gomes Ferraz
I - Visitando o ventre do monstro
Vivemos numa sociedade injusta em grau superlativo, haja visto que cerca de
10% da parcela mais privilegiada da população detêm cerca de 70% da renda
nacional, enquanto vemos cerca de 60% da população brasileira a viver muito
abaixo da linha da pobreza, segundo dados da FIBGE de 1995 (o processo
concentracionista de rendas, sem dúvida, agudizou seriamente este quadro, já
caótico, de 1995 para cá). Em recente reportagem da "Folha de São Paulo"
percebemos um grande acréscimo no consumo de bens de altíssimo luxo, como
automóveis e outros bens importados, tudo levando a crer que, para aqueles que
se situam no topo da pirâmide de distribuição de rendas no Brasil as condições
de vida em poucos momentos históricos lhes foram tão favoráveis, felizes e
plenas como agora. Segundo relato acurado do padre John Drexel e da professora
Leila Rentróia Iannone, 1% da população do Brasil detêm mais de 50% da renda
nacional. A dupla coletou estes dados no relatório do Banco Mundial de 1985
enquanto elaborava um libelo humanista em prol das crianças carentes e
abandonadas no terceiro mundo, intitulado Criança e Miséria, Vida ou Morte?, ed.
Moderna. Ainda neste riquíssimo libelo, somos informados de que o Brasil é o
quarto produtor mundial de alimentos mas, como proprietários de animais
domésticos do primeiro mundo pagam melhor preço pela comida que produzimos,
nosso país acaba sendo o 6º do mundo em subnutrição, ao lado de Bangladesh, por
exemplo. Cerca de 1.000 crianças por ano são assassinadas no Brasil de formas
variadas - o Capital tem se mostrado particularmente criativo neste tipo
específico de crueldade - fome, doenças infecto-contagiosas, violência policial
ou paramilitar de "esquadrões da morte" etc. O sistema cria o problema e
providencia o seu extermínio, literalmente falando.
A recessão a nós imposta pela política econômica internacional, Estados
Unidos à frente, afeta de maneira desigual a população, como se percebe nas
dobras dos discursos das autoridades ou mesmo em dados como os relatados acima.
Ainda assim, proliferam discursos de empresários e investidores "se queixando"
da recessão. Dada a crueza da situação concreta em que vivemos, a dedução óbvia
é que tais discursos não passam de peça de propaganda voltada a que todos pensem
- a despeito do testemunho dos fatos e dados estatísticos - estarmos todos
sofrendo, embora em gradações diferentes numa sociedade como a nossa, com a
recessão programada, na verdade, para agudizar este processo concentracionista
absurdamente perverso, inapelavelmente imoral e totalmente injustificável.
Ao factual acima um dado mais recente, publicado na "Folha de São Paulo" de
11/02/98, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 96:
de cada 1.000 alunos que iniciam a 1ª série nas escolas públicas, apenas 43
chegam a formar-se em oito anos, ou seja, 4,3% apenas dos alunos que se
matriculam em escolas públicas concluem o 1º grau... Há mais, ainda segundo o
Pnad, cerca de 750.000 estudantes na faixa dos 8 aos 12 anos não sabem ler. Fica
no ar a pergunta: o quê aprendem nas escolas?
Os casos de prostituição infanto-juvenil (havendo não raros casos de
escravidão sexual, particularmente em áreas fronteiriças e de garimpo)
envergonham a Nação diante do mundo. Há miríades de menores famintos abandonados
por pais desesperados, morrendo à míngua de pão, vestimenta, educação básica
(sem mencionar o amor, o afeto, o carinho da família...).
Torna-se comum e há até um certo
nível de complacência para com a toxicomania como fuga a uma realidade
absolutamente insuportável; os índices de criminalidade estão assustadores. Por
outro lado há abundância, fartura, éden e cornucópia no topo da pirâmide social,
com direito a importação de produtos de alto luxo, como vimos acima;
investimentos de recursos sociais em obras não-prioritárias (NB: Não são "obras
desnecessárias", são simplesmente "não prioritárias" dada a crueza da situação
existencial atual e exemplifico: se ao invés de construir novas escolas e
hospitais se valorizasse salarialmente o trabalho dos profissionais de ensino e
da saúde as verbas estariam seguramente melhor empregadas!). Outra questão é a
das privatizações. Não há como recusar que muitas coisas funcionam melhor nas
mãos da iniciativa privada, mas é preciso reconhecer que, em muitos casos, os
serviços prestados pelo poder público são primorosos e lucrativos - estes, que
estão passando por processo de privatização também, precisam ser mantidos na
esfera estatal ou pelo menos o processo todo repensado. Ofende a Razão perceber
a devastação perpetrada contra a Natureza: florestas seculares sendo abatidas
por industrias madeireiras; o plantio da cana em "terra roxa" é quase um crime,
pois ali se poderia plantar vegetais vitais ao consumo humano, deixando o
fabrico do álcool combustível para um outro plano.
O Brasil se mostra, efetivamente, como observava muito bem Roger Bastide,
uma Terra de Contrastes. Contrastes. Com trastes a dirigir e orientar os rumos
que a Nação deve seguir, mantendo o concentracionismo de rendas e todas as
mazelas dele decorrentes. Aguarda-se o momento em que uma tempestade varra estes
trastes e os contrastes deles decorrentes. Como dizia André Breton em A Lâmpada
no Relógio: "Do seio da terrível miséria física e moral deste tempo, espera-se
sem desesperar ainda que energias rebeldes a toda a domesticação retomem pela
base a tarefa da emancipação humana!"
A leitura dos jornais diários, nos proporciona uma indignação cruel e um
forte sentimento de injustiça! Lado a lado notícias de infelicidade humana
daqueles que estão na base da pirâmide social brasileira (morticínio,
latrocínio, prostituição, desemprego, inadimplência e desespero) com as de
abundância e plenitude dos sempre e permanentemente privilegiados (desfiles de
moda de alta costura internacional, anúncios de vestimentas suntuárias, colunas
sociais desprovidas de eticidade num país com tão severos problemas sociais
etc).
Sendo, como é de fato, uma sociedade injusta - insisto aqui no adjetivo:
superlativamente injusta - urge remanejá-la, transformar a organização social em
algo que venha a promover, efetivamente, a vida, a plenitude requerida por todos
os seres humanos, por todos, sem exceção, sem exclusão. O grande pré-requisito
para tanto, claro, é a abolição da propriedade privada dos meios materiais e
espirituais de produção - e como é difícil falar sobre isso no momento de mais
severo retrocesso histórico do mundo, com o colapso do socialismo dito real e a
proliferação modista do neoliberalismo com todo o seu cortejo de retrocessos nos
direitos trabalhistas fundamentais! É preciso criar condições ao livre
desabrochar da autogestão, de uma justa e equânime distribuição da riqueza por
todos produzida mas apropriada por pouquíssimos, como nos informam as
estatísticas mais recentes.
O irracionalismo, a pseudo-racionalidade que rege o sistema, esta orientação
sócio-econômica aviltante, cujas regras favorecem sempre os mais fortes, já
detentores do poder político e econômico, não havendo - e quando as há,
dificilmente são cumpridas - leis que protejam os menos favorecidos, tem sido o
corrente na sociedade afluente.
É necessário e urgente lutar em todos os campos possíveis e imagináveis para
que seja fundada uma nova organização social, voltada agora à promoção da vida
dos seres humanos, transformar o mundo, enfim, na morada do homem. Para isso:
1 - Submeter a realidade irracional da organização social existente a um
julgamento a partir de um critério maior, a Razão Radical!
2 - Atuar em conjunto e mesmo isoladamente com o mínimo possível de submissão às
"normas" vigentes, irracionais porém hegemônicas, visando a quebra da espinha
dorsal desta estrutura social aviltante. Uma submissão prático-pragmática em sua
plenitude ao irracionalismo que rege o todo inviabilizaria a luta por
transformações sociais radicais reificando, portanto, a estrutura social
atualmente vigente.
Os anarquistas, humanistas radicais, de Gandhi a Thoureau, de Buber
a Kropotkin, passando pelos marxistas heterodoxos, de linhagem humanista como
Ernst Bloch, Leon Trotski, Rosa Luxemburgo, Roger Garaudy, Herbert Marcuse, José
Carlos Mariátegui, Camilo Torres, Che Guevara, entre milhares de outros diferem
radicalmente dos liberais e mesmo dos marxistas filo-liberais num ponto nodal:
os primeiros rompem claramente com as normas vigentes, entendendo ser impossível
criar o novo a partir da velha e ossificada "ordem" ou mesmo mentalidade
tradicional, entendendo, por fim, ser vital banir a possibilidade de composições
com o necrosado, com o moribundo, particularmente onde a realidade social é de
tal sorte anômica, de tal forma assimétrica e desigual que não há mesmo como
ceder espaços sem que com isso se acabe por preservar o existente. Os segundos
(liberais e filo-liberais) consideram ser possível aperfeiçoar gradualmente a
sociedade sem qualquer tipo de ruptura ou transformação social súbita, aceitando
composições de ocasião com a chamada "ordem" em alguns aspectos, visando
pequenos e pífios "avanços" que pouco mais fazem no fundo que arrefecer,
amortecer o conflito de classes, trabalhando assim, em última análise, em prol
da preservação do existente - isto em sua vertente, digamos, "otimista" que,
involuntariamente quiçá, trabalha em prol da perpetuação da "ordem" injusta em
que vivemos enquanto em seu discurso (e possivelmente em sua vontade) haja uma
plêiade de propostas bem-intencionadas de chegar a uma sociedade com novas
características. A vertente "realista" deste grupo ocupa-se mais, no campo
intelectual, em "provar" que "não tem jeito", "tudo será como está, sempre foi
assim e assim sempre será", "chegamos ao fim da história e das utopias" e outros
pseudo-alegatos reificadores do Modo de Produção Capitalista, que existe há não
mais de 400 anos em cerca de 5.000 anos de história humana no mundo.
É absurdo, ilógico, cruel do ponto de vista do humano que nossa espécie
consiga enviar sondas ao Cosmo ou às profundezas abissais dos oceanos, viajar
com velocidade inacreditável a distâncias enormes e tenha, em síntese, atingido
tantas conquistas na área da tecnologia por um lado e, por outro, esteja lidando
com condições tão sórdidas ao nível mais básico da sobrevivência material.
Tornou-se lugar-comum nos meios radicais, mas nunca é demais enfatizar, que
balas de fuzil são muito mais caras que o leite, granadas são incrivelmente mais
dispendiosas que livros, tanques custam mais que escolas... Mas no mundo não há
falta de balas, granadas, tanques ou fuzis; falta leite, falta pão, faltam
escolas, falta fazer o que os surrealistas vêm verberando e reverberando há
décadas: RECONHECER E VALORIZAR O AMOR COMO PRINCIPAL MOTOR ÉTICO DA HUMANIDADE!
Quem ama está, por princípio, plantado numa agonística humanista radical. Aquele
que de fato ama, quer o melhor para si e os seus. Como posso ser feliz se há
irmãos meus morrendo de fome à noite, abandonados, sem lar nem carinho? Como é
que posso estar em paz com a "ordem" se esta "ordem" condena arbitrariamente,
"por nascença", milhares de seres humanos à miséria material e afetiva, com
requintes de crueldade, onde se percebe que milhares de menininhas são
submetidas, anualmente, a formas diversas de brutalidade na esfera mais bela e
sublime de suas vidas?
Quem pode ousar erguer-se em defesa
desta "ordem"? Uma "ordem" que consegue banir a satisfação dos anseios mais
básicos e seus primeiros derivados, uma "ordem", como diz nosso querido
dominicano Frei Betto, que deixa a maioria dos seres humanos "faminta de pão e
de beleza"... Não! Uma tal "ordem" é total e absolutamente indefensável!
Nem um minuto de descanso! Guerra à "ordem". É necessário quebrar a cadeia
do Mal, cortar a garganta do diabo do Capital, parafraseando aqui Nikos
Kazantzakis em A Última Tentação de Cristo. A Grande Recusa que aqui se propõe
só é viável se universal. Passo a palavra, neste ponto, a Herbert Marcuse, que
defende este ponto de vista em seu prefácio político a Eros e Civilização: "...Hoje, a recusa organizada dos cientistas, matemáticos, técnicos,
psicólogos industriais e pesquisadores de opinião pública poderá muito bem
consumar o que uma greve, mesmo em grande escala, já não pode conseguir, mas
conseguia noutros tempos, isto é, o começo da reversão, a preparação do terreno
para a atuação política. Que a idéia pareça profundamente irrealista não reduz a
responsabilidade política subentendida na posição e na função do intelectual na
sociedade industrial contemporânea. A recusa do intelectual pode encontrar apoio
noutro catalisador, a recusa instintiva entre jovens em protesto. É a vida deles
que está em jogo e, se não a deles, pelo menos a saúde mental e a capacidade de
funcionamento deles como seres humanos livres de mutilações. O protesto dos
jovens continuará porque é uma necessidade biológica. "Por natureza", a
juventude está na primeira linha dos que vivem e lutam por Eros contra a Morte e
contra uma civilização que se esforça por encurtar o atalho para a morte, embora
controlando os meios capazes de alongar esse percurso. Mas, na sociedade
administrativa, a necessidade biológica não redunda imediatamente em ação; a
organização exige contra-organização. Hoje, a luta pela vida, a luta por Eros, é
a luta política."
Esta Grande Recusa, esta ruptura política, precisa ter a força sugerida por
Maurice Blanchot, citado também por Marcuse, desta vez em A Ideologia da
Sociedade Industrial, ed. Zahar: "Ce que nous refusons n'est pas sans valeur ni sans importance. C'est bien à
cause de cela que le refus est nécessaire. Il y a une raison que nous
n'acceptarons plus, il y a une apparence de sagesse qui nous fait horreur, il y
a une offre d'accord et de conciliation que nous n'entendrons pas. Une rupture
s'est produite. Nous avons été ramenés à cette franchise qui ne tolère plus la
complicité. "
Em português claro: "O que nós recusamos não é destituído de valor ou de
importância. Precisamente por isso a recusa é necessária. Há uma razão que não
aceitaremos mais, há uma aparência de sabedoria que nos causa horror, há um
apelo de acordo e de conciliação a que não mais atenderemos. Ocorreu uma
ruptura. Fomos reduzidos àquela franqueza que não tolera mais a cumplicidade".
Maurice Blanchot
Nenhuma conciliação possível com as propostas dos ideólogos da sociedade
afluente. Devemos lutar pelo fim da opressão, da repressão, da exploração do
homem pelo homem. queremos um mundo no qual as pessoas possam viver mais
felizes. Um mundo, enfim, mais bonito.
A primeira providência a se tomar, perfeitamente realizável na era de
abundância econômica em que vivemos em termos planetários, é que haja alimento,
moradia e vestimenta garantidos a todos os seres humanos vivos. Ver a cessação
das hostilidades entre os seres humanos na esfera da mera sobrevivência material
já seria um grande passo! Em O Capital, capítulo VIII, Marx informa ser este o
vampiro da vida humana; textualmente: "O Capital é trabalho morto que como um
vampiro se reanima sugando o trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte se
torna".
E nós nascemos num tempo em que a autoridade tornou-se difusa, ou, como diz
Erich Fromm em O Medo à Liberdade, anônima, invisível, é o lucro, a opinião
pública, o mercado o senso-comum... Se este tipo de autoridade promovesse o
humano de alguma forma, seria tolerável, mas acontece precisamente o oposto,
trata-se de uma autoridade irracional, tolhedora, inibidora, fator de limitação
do humano. E as pessoas nascidas e criadas em sociedades com as características
aqui descritas tornam-se, via-de-regra, inseguras, subnutridas, acuadas,
esfarrapadas, em suma, transformadas em seres abúlicos pelo vampiro da vida. Que
tipo de educação se pode oferecer dentro de uma tal "organização" social?
Estou persuadido de que chegamos sempre - às vezes com alguma dificuldade -
a bom porto se sabemos para onde nos dirigimos, se temos uma meta ou, como o
dizem sabiamente os surrealistas, um graal a conquistar. Se não sabemos sequer
para onde nos encaminhamos, a chegada, evidentemente, será muito mais difícil...
Neste sentido, mencionando palavras de Ernst Bloch, citadas por Pierre Furter em
Dialética da Esperança:
"O filósofo é um militante especializado na interpretação dos sinais do
nosso tempo. Tem como tarefa específica distinguir onde está a esperança dos
homens e para onde estes conduzem o nosso tempo (...) Um revolucionário,
portanto, é um sonhador, é um amante, é um poeta, porque não se pode ser
revolucionário sem lágrimas nos olhos, sem ternura nas mãos. Os poetas de hoje,
os verdadeiros poetas de hoje, são os que desenham o amanhã, os artistas estão
construindo com palavras, com argila, com aquarelas, as maquetes que vão servir
de base à Sociedade do Futuro."
Este o mote principal destas notas: a partir da constatação empírica da
inadiável necessidade de um movimento multitudinário que transforme o mundo,
efetivamente, na morada do homem, serão traçados alguns esboços do que se tem
proposto em termos educacionais para a sociedade ácrata que, estou seguro, será
a tônica no mundo em algumas décadas.
II - Educação para a Esperança:
Programa Educacional Libertário
Tendo uma visão peculiar da necessária e
impostergável revolução social, os anarquistas lutam pelo fim do Estado, pelo
fim da velha ordem ao mesmo tempo em que se constrói - sem forma alguma de
ditadura intermediária - a ordem social libertária. Ou seja, a "revolução da
esperança" por eles proposta é um ato de destruição de tal ordem que traz já
dentro de si a nova sociedade.
Nada mais distante do pensamento libertário, antiautoritário por definição,
que a instituição de alguma forma de governo revolucionário provisório. Seria
ilusório supor - e a história o tem comprovado - que um governo revolucionário,
fosse de que natureza fosse, se satisfizesse com a interinidade. Ao contrário o
poder, onde existe, busca sua perpetuação e é precisamente contra isso que se
insurgem os defensores da sociedade ácrata. "O caminho que conduz à liberdade,
só pode ser a própria liberdade", reza antigo ditado anarquista. Não somos
"inversivos", caso em que desejaríamos a tomada do poder político e econômico
para um partido ou classe social, somos antes subversivos, ou seja, queremos
atingir o fim do Estado, do poder e da dominação política, econômica ou de
qualquer natureza preservando apenas e unicamente aquela Autoridade natural,
emancipatória, estimuladora do crescimento e realização humanas.
A temática da educação, de resto presente em praticamente todas as correntes
do pensamento social, é privilegiadíssima nos clássicos do pensamento anarquista
como Kropotkin, Bakunin, Proudhon, Buber, Landauer, Robin e Malatesta,
principalmente porque sem uma real modificação na mentalidade das pessoas - e a
educação cumpre papel crucial, basilar neste ponto - a revolução social poderia
não alcançar o êxito desejado.
Cumpre fazer aqui uma breve digressão acerca do êxito da Revolução, a partir
do pensamento de Mariátegui, bem como de Ernst Bloch, ambos marxistas
heterodoxos, de linhagem humanista. O revolucionário peruano, citando Sorel,
fala do vigor inesgotável dos lutadores por justiça social no mundo informando
que nunca se abatem: "A cada experiência frustrada, recomeçam. Não encontraram a
solução: a encontrarão! Jamais lhes assalta a idéia de que a solução não exista.
Eis aí sua força!" Já o Filósofo da Esperança compara o niilista ao
revolucionário nos seguintes termos: "Enquanto o niilista conclui do Não ao
Nunca, o revolucionário ascende do Não ao Ainda-não. ("NOCH-NICHT-SEIN"). Não
vamos, contudo, ficar de braços cruzados à espera da inevitável vitória da
revolução social, pois somos nós mesmos os seus protagonistas. Mas a certeza da
vitória final renova, a cada recuo histórico - de resto dialeticamente
inevitável - a nossa força e, por que não dizê-lo, a nossa FÉ!
A elaboração de um Programa Educacional Libertário foi precedida por uma
crítica feroz à educação burguesa e teve lugar na Europa em meados do século
passado.
Sendo a grande meta comum a todos os combatentes em prol da Justiça Social no
mundo o fim da luta de classes, como dizia Errico Malatesta: "...Anarquia,
este sonho de justiça e de amor entre os homens..."
Outra crítica importante ao sistema educacional burguês era dirigida à
educação religiosa, cada vez mais conflitante com as descobertas das ciências
naturais da época, além de desviar a atenção dos educandos dos problemas deste
mundo **. Também a falta de unidade no ensino era ferozmente combatida pelos
anarquistas; a divisão formal entre "educação científica" e "educação
profissional", entre "ensino" e "aprendizagem", segundo Proudhon só servia para
manter a divisão da sociedade de classes, perpetuando a condição existente entre
subalternos e trabalhadores. Hoje, por compreendermos a verdadeira religiosidade
como elemento importantíssimo não apenas da emancipação humana, como também de
sua elevação intelectual e moral, pensamos que a educação religiosa deve
ocorrer, sim, mas de maneira obrigatoriamente não-dogmática! Nosso combate,
passe a redundância, deve dar-se, isso sim, contra todas as formas de
dogmatismo, seja ele religioso, científico, filosófico ou de qualquer natureza
(Esta temática será devidamente aprofundada no capítulo III - Da metodologia).
Bakunin, insurgindo-se contra a existência de dois tipos de educação, uma
mais aprimorada, para a burguesia, outra bastante simplificada, limitada e
limitadora dirigida aos trabalhadores, já neste momento influenciado pelas
teorias educacionais de Paul Robin, proporá a criação de uma educação integral.
Em 1882 o Comitê Para o Ensino Anarquista reúne-se e prepara seu Programa
Educacional que centraliza-se, num primeiro momento, na supressão de três
práticas, muito habituais nos estabelecimentos de ensino mas sem dúvida
execráveis; são elas:
1. A disciplina artificial, coativa, à margem da vida. Esta precisa ser
suprimida pois causa dispersividade e medo, além de fomentar mentiras e delações
entre professores e alunos. Mais tarde os Anarquistas proporão uma disciplina
conciliada com a naturalidade humana, uma disciplina em nome da esponteinade
humana que, com base na Autoridade Natural, possa promover o humano, conduzir e
despertar, EDUCAR no sentido mais elevado e sublime desta expressão:
possibilitar a cada um o desenvolvimento daquilo que cada um tem de melhor em si
mesmo em termos de espontaneidade e humanidade. Esta proposta tem a vantagem
suplementar de possibilitar ao educador libertário crescer intelectual e
humanamente também, como bem o enfatiza Mário Lodi, quando fala da "Criatividade
Liberada", na coletânea de textos Educação e Liberdade, inicialmente publicado
no volume 1/87 da revista italiana Volontà, traduzido e publicado no Brasil por
Nelson Canabarro, ed. Imaginário, 1990.
2. Os programas apriorísticos e genérico-formais, também à margem da vida, onde
não se dá voz ou vez aos interessados, os educandos. Numa etapa posterior, os
anarquistas proporão a implantação de programas sérios, voltados a auscultar as
particularidades, onde não mais haverá o culto do indivíduo em favor do social.
Ai do social que não possa contar com indivíduos sazonados! Os programas
apriorísticos, genérico-formais, têm de ser suprimidos pois tolhem a liberdade
dos educandos, sua originalidade, sua capacidade de iniciativa e mesmo inibem a
sua responsabilidade fazendo com que pensem que só "de cima" podem vir verdades
acerca das relações dos homens entre si e destes com a natureza.
3. As classificações, finalmente, deveriam ter o mesmo destino (a lata de lixo
da história), por serem fonte de comportamentos baseados na riva-
lidade, na inveja e no rancor, além de provocar distinções dos educandos entre
si com base exclusivamente na avaliação subjetiva do professor. Também neste
item, em etapa posterior, os Anarquistas passam a pensar em classificações sim,
mas nunca de maneira apriorística, sempre suscetíveis de modificações, onde o
respeito às particularidades subjetivas seja o centro das considerações. Vale
ressaltar ainda uma vez que o indivíduo pleno, sazonado, é decisivo para a
perspectiva anarquista. Só podemos ter o coletivo salvo se tivermos salvo o
particular. Qualquer forma de classificação que não contemple a dimensão da
promoção intelectual e moral do humano será permanente anátema para a
perspectiva anarquista!
Reformuladas estas práticas nocivas, o ensino, segundo o Programa
Educacional Anarquista, poderá ser verdadeiramente integral, racional, misto e
libertário.
Integral, porque poderá "favorecer o desenvolvimento harmonioso de todo o
indivíduo e fornecer um conjunto completo, coerente, sintético e paralelamente
progressivo em todos os domínios do conhecimento intelectual, físico, manual e
profissional, sendo as crianças exercitadas nesse sentido desde os primeiros
anos" Flávio Luizetto, Utopias Anarquistas, Brasiliense, 1992.
Racional, porque liberto do dogmatismo religioso ou mesmo científico (hoje
em dia mais pernicioso e perigoso este último), fundamentado na Razão e de
acordo com os princípios da dignidade e independência do homem, não mais na
obediência cega a qualquer forma de orientação exterior ao humano ou ao
racional.
Misto, ou seja, voltado a favorecer a co-educação sexual, onde a figura da
discriminação nesta esfera não passe de triste recordação de um tempo sombrio -
há que se reconhecer que muito se avançou nesta área específica do século XIX às
margens que estamos do século XXI.
Libertário ou, "numa palavra, consagrar em proveito da liberdade o
sacrifício da autoridade repressora, uma vez que o objetivo final da educação é
formar seres humanos livres que respeitem e amem a liberdade alheia!" Flávio
Luizetto, op. cit.
Traçar, a este ponto, mais que um esboço, além de extrapolar em muito os
modestos conhecimentos e habilidades de quem assina estas notas, encontra ainda
a dificuldade suplementar de serem planos e programas anarquistas
consideravelemente incompletos, o que é perfeitamente compreensível, traçar mais
que um esboço do que se propõe ultrapassaria também os limites dialéticos
recomendáveis; a construção da Sociedade do Futuro é tarefa eminentemente
social, coletiva, daí dever dar-se com o assentimento e o entendimento de todos
os interessados no processo ensino-aprendizagem (pais, professores e alunos,
fundamentalmente) de modo livre, evidentemente.
Liberdade é a palavra-chave em todo o processo ensino-aprendizagem. Assim
como é inimaginável, em relacionamentos amorosos que alguém diga a outrem por
quem se interesse: "me ame!" como numa ordem, é ridiculamente ilógico ordenar ou
coagir as pessoas a estudar o que quer que seja. Assim como na conquista
amorosa, também nesta esfera tudo deve dar-se em termos de persuasão, de
conquista mesmo!
Também os professores que, em sua esmagadora maioria, ministram aulas em
condições tão aviltantes (baixos salários, classes abarrotadas, excessiva carga
horária etc) sendo até levados muitas vezes a exercer atividade tão nobre como o
magistério por imperativo categórico de necessidade financeira, inexistindo a
vocação, propriamente dita, para ensinar e aprender, caminhar junto com os
educandos rumo ao saber com amor e alegria precisam ser trabalhados,
persuadidos, conquistados às propostas libertárias...
Uma grande campanha de elucidação e persuasão, a nível federal - diria mesmo
que internacional - através dos meios de comunicação é fundamental ao sucesso de
tal empreitada. Trata-se aqui, nem mais nem menos, que de uma guinada
radical à forma como a educação vem sendo encaminhada há séculos.
Platão, discípulo de Sócrates, ministrava suas aulas na famosa Academia,
residência do herói ateniense Academo. Aristóteles, "a inteligência", discípulo
mais eminente de Platão, no Bosque dos Lobos ( Lukeion em grego arcaico), em
aulas peripatéticas, criou o Liceu. Tempos depois, já por ocasião do domínio
macedônico sobre o mundo grego, Epicuro criou o Jardim, onde se cultuava acima
de tudo o amor, a liberdade e a alegria.
Hoje em dia percebemos haver muitos "liceus" e "academias" pelo mundo afora,
numa claríssima manifestação do tipo de comprometimento daquelas instituições
com o pensamento socrático, platônico e mesmo aristotélico, em grande medida
autoritário.
O "jardim" até pouco tempo existia somente para crianças, eram famosos e
agradabilíssimos os "Jardins da Infância". Hoje, nem isso, a tendência mundial é
a de se preparar a criança desde a mais tenra idade para o que encontrará pela
frente nos níveis mais avançados, ou seja, vão desaparecendo do cenário os
"jardins-de-infância", substituídos pela chamada "pré-escola"...
Sem problemas, avanços e recuos são comuns na história da humanidade e, se
vivemos um tempo de recuo na direção autoritária do platonismo ou do
aristotelismo (sem demérito algum à grande riqueza intelectual e erudição
daqueles gênios da humanidade, menos ainda a seus ricos aportes à filosofia) por
um lado e um recuo do epicurismo ético, tempo chegará em que se assistirá e
vivenciará uma inversão - também provisória, ou estaríamos exorbitando a
dimensão da dialética - de todo este quadro.
III - Da Metodologia
Em primeiro lugar, é necessário enfatizar a diferença entre o
saber científico e aquele do senso-comum. Aquilo que Erich Fromm chama em O Medo
à Liberdade de "validação consensual", ou seja a opinião da maioria acerca de um
dado fato, quase nunca é bom começo à pesquisa científica, embora seja útil ao
dia-a-dia das pessoas. Todos "percebem" a solidez da Terra e como o Sol segue o
seu caminho nos céus no período que vai da aurora ao crepúsculo, mas a pesquisa
científica séria e aprofundada demonstra que a Terra tem vários movimentos, como
rotação, translação etc, e é precisamente o movimento de rotação que nos dá a
percepção de "nascer e por-do-sol", além disso, em relação à Terra, o Sol está
imóvel no céu, mas também esta estrela de sexta grandeza tem um movimento em
torno da Via Láctea que, por sua vez, desloca-se em grande velocidade também,
como estilhaços da grande explosão que especula-se ter dado início a tudo, o
"Big Bang".
Tais descobertas científicas, num tempo em que o dogmatismo religioso
detinha todo o poder, por pouco não custou cabeças privilegiadíssimas como a de
Galileu Galilei, que precisou retratar-se diante do Tribunal do Santo Ofício
para salvar-se mas si muove... Ocorre que a verdade da constatação científica
empírica se impõe finalmente e hoje não se encontra mais quem conteste
seriamente o movimento dos astros no universo.
O segundo passo é perceber as diferenças cruciais entre a metodologia das
ciências humanas e aquela das ciências naturais. O filósofo romeno-francês
Lucien Goldmann em Ciências Humanas e Filosofia, Difel, 1986, às pág. 31 e
seguintes coloca:
"Na realidade, sabemos hoje que a diferença entre as condições de trabalho
dos "fisiólogos, físicos e químicos" e a dos sociólogos e dos historiadores não
é de grau, mas de natureza; no ponto de partida da investigação física ou
química há um acordo real e implícito entre todas as classes que constituem a
sociedade atual a respeito do valor, da natureza e do fim da pesquisa. O
conhecimento mais adequado e mais eficaz da realidade física e química é um
ideal que hoje (a situação não era a mesma nos séculos XVI e XVII) não choca nem
os interesses nem os valores de qualquer classe social (...) Nas ciências
humanas, ao contrário, a situação é diferente. Pois se o conhecimento adequado
não funda logicamente a validade dos juízos de valor, é certo porém que favorece
ou desfavorece psicologicamente essa validade na consciência dos homens. A
assimilação do revolucionário ao criminoso, por exemplo, é de natureza a afastar
o leitor do primeiro (...) em tudo o que respeita aos principais problemas que
se colocam para as ciências humanas, os interesses e os valores sociais divergem
totalmente. Em lugar da unanimidade implícita ou explícita nos juízos de valor
sobre a pesquisa e o conhecimento que está na base das ciências naturais,
encontramos nas ciências humanas diferenças radicais de atitude, que se situam
no início, antes do trabalho de pesquisa, permanecendo muitas vezes implícitas e
inconscientes (...) Nas ciências humanas não basta, pois, como o queria
Durkheim, aplicar o método cartesiano, por em dúvida verdades adquiridas e
abrir-se inteiramente aos fatos, pois o pesquisador aborda muitas vezes fatos
com categorias e pré-noções implícitas mas não conscientes que lhe fecham de
antemão o caminho da compreensão objetiva."
Como se percebe, em ciências humanas encontra-se uma produção de
conhecimento comprometida com a manutenção do statu quo ante ou, para utilizar
expressão própria, com a manutenção da "ordem" como a conhecemos e uma outra
produção de conhecimento voltada à transformação radical deste mesmo statu quo
ante a partir da constatação empírica de que esta "ordem" está transformando
nosso mundo num verdadeiro inferno. Neste pequeno trabalho, parto da constatação
da existência da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de
produção e, num juízo de valor voltado à emancipação do homem de toda e qualquer
forma de opressão ou tolhimento da liberdade, proponho um reordenamento social,
para longe da opressão e do tolhimento da liberdade em todas as esferas. Neste
caso específico, na esfera das relações profissionais, no processo
ensino/aprendizagem. Aqui passo a mais uma breve citação, agora de Errico
Malatesta em Escritos Revolucionários, Novos Tempos Editora, 1989 que no escrito
"Um pouco de teoria", pág. 39 em diante informa:
"Nós desejamos a liberdade e o bem-estar de todos os homens, de todos sem
exceção. Queremos que cada ser humano possa se desenvolver e viver do modo mais
feliz possível. E acreditamos que esta liberdade e este bem-estar não poderão
ser dados por um homem ou por um partido, mas todos deverão descobrir neles
mesmos suas condições, e conquistá-las. Consideramos que somente a mais completa
aplicação do princípio da solidariedade pode destruir a luta, a opressão e a
exploração, e a solidariedade só pode nascer do livre acordo, da harmonização
espontânea e desejada de todos os interessados (...) Evidentemente, não queremos
tocar sequer num fio de cabelo de ninguém, enxugando as lágrimas de todos, sem
fazer verter nenhuma. Mas é necessário combater no mundo tal qual é, sob pena de
permanecermos sonhadores estéreis (...) É por amor aos homens que somos
revolucionários; não é nossa culpa se a história nos obriga a esta dolorosa
necessidade."
Quanto à questão religiosa, ainda uma vez, percebe-se na citação do
revolucionário italiano que muitas das metas dos anarquistas são comuns às metas
mais elevadas de correntes religiosas sérias como o cristianismo, por exemplo.
Combatendo num tempo em que o dogmatismo religioso aliava-se ao Capital em prol
da manutenção do statu quo ante, da "ordem", socialistas autoritários (os que
pregam a ditadura do partido único), assim como socialistas libertários, que
propõem uma caminhada de lutas sem cessar rumo à anarquia, à sociedade ácrata,
sem classes, não contemplando ditadura de qualquer natureza entre os dois
instantes, estes socialistas todos, ao se contrapor ao dogmatismo religioso
"pró-ordem", acabam por criticar e propor mesmo a erradicação do fenômeno
religioso in totum. No mundo atual, contudo, ao percebermos haver cientistas da
área de humanas a fazer profissão de fé socialista, por vezes, caindo em outras
formas de dogmatismo ainda mais nefandas que aquelas encontradas pelos primeiros
socialistas nos religiosos de outros tempos, percebemos que o combate não é mais
ao fenômeno religioso, mas ao dogmatismo, seja ele de que natureza for.
Nossa perspectiva é aquela do humanismo radical, queremos a emancipação do homem
de todos os entraves à sua liberdade, por conseguinte, à sua felicidade e saúde
plenas. Hoje em dia encontramos entre os mais sérios e abnegados religiosos,
homens de elevada fé e amor ao humano, grandes aliados à causa libertária. Roger
Garaudy, por exemplo, em Apelo aos Vivos, Nova Fronteira, 1979, à pág. 248
coloca:
"Nossa longa busca através da sabedoria e do profetismo de três mundos
revelou-nos que podemos viver de outro modo.
Viver de outro modo as relações com a natureza, quer dizer, as relações
econômicas.
Viver de outro modo as relações do homem com a sociedade, quer dizer, as
relações políticas.
Viver de outro modo as relações do homem consigo mesmo e com o divino, isto
é, as relações da sabedoria e da fé.
Como conceber, realizar, nestes três níveis, o projeto necessário à
sobrevivência da vida da espécie? O projeto é necessário para passar de um
crescimento cego, sem finalidade humana e suicida para o mundo, a um
desenvolvimento do homem e do desabrochar daquilo que nele é divino. Ele exige
radical inversão em nossas relações com a natureza, com a sociedade, conosco
mesmos e com o divino (...) Compreender a vida é, em primeiro lugar, percebê-la
em sua unidade. Restaurar a unidade perdida no Ocidente entre o homem e a
natureza, o senso da comunhão com o Todo. Tomar consciência de que pertencemos
ao real e de que toda a realidade se resume e se mira em nós."
Como fica bem claro, não se faz aqui apologia da metodologia científica
exclusivamente, embora a sua aplicação seja consideravelmente necessária ao
mundo contemporâneo. É fundamental encontrar os aportes do que há de mais
elevado e avançado nas ciências humanas (mais em seu aspecto humano que em seu
aspecto científico), na filosofia portanto e no fenômeno religioso ou profético
em seu sentido mais amplo.
Há finalmente uma questão terminológica, a incomodar alguns espíritos mais
sensíveis, o que é compreensível dado o poder da máquina propagandística que
trabalha para a "ordem" impedindo a clara visão dos fatos em ciências humanas,
como se percebe na citação supra de Lucien Goldmann. Que a Revolução Francesa
tanto quanto a Revolução Americana foram fatores de avanço para o Ocidente, não
se questiona, mas a expressão "revolução" ou "revolucionário" é tida, lida e
vista com preconceitos infundados, ou melhor, fundados apenas na mencionada
máquina de propaganda, o que Adorno e Horkheimer chamam de Indústria Cultural.
Outra expressão que precisa ser lida, vista e
tratada com mais respeito, a despeito da indústria cultural, é aquela que fala
de "subversão". Chamamos de aos defensores da "ordem" tal qual está de
"versivos". Aqueles que almejam alcançar o poder para impor coercitivamente sua
mundividência a outros sem alterar as estruturas existentes em qualquer ponto,
são os "inversivos". "Subversivos" somos os que propomos a cessação das
hostilidades entre os homens, o fim da luta de classes, os que lutamos por um
mundo de Paz, Harmonia, Plenitude e Fartura, um mundo no qual todos os seres
humanos, "todos sem exceção", possam viver livres do medo e do ódio, possam ter
enfim plenificados seus anseios por FELICIDADE.
Lamentavelmente, todos os subversivos da história têm sido por ela muito
maltratados em vida, como já nos informa Wilhelm Reich em O Assassinato de
Cristo: numa sociedade fundada em falsidades e hipocrisias, que elegeu o blefe e
a fraude como "bezerros de ouro", todo o subversivo sofre os ataques constantes
da Peste Emocional, que leva seres humanos encouraçados a suprimir (não raro
fisicamente mesmo) aquele que luta por Amor, Liberdade, Fraternidade... Mario
Lodi, em sua entrevista no trabalho já mencionado, tem de se haver com estas
dificuldades. Colegas professores, pais encouraçados, portadores de verdadeiras
blindagens por vezes, alunos aprisionados nas malhas da "ordem", vêem o quão
humanisticamente BOM (bom cidadão, bom profissional, bom familiar, bom cristão,
bom ser humano, enfim) se pode ser. Não conseguindo fazer ou mesmo ou verem-se
retratados ou espelhados naquele exemplo, farão de tudo, de acordo com a atuação
neles da Peste Emocional, para perseguir, buscar afastar ou, no limite, levar à
supressão física mesmo se possível lhes for, o subversivo inovador. Claro,
depois de morto e bem morto o revolucionário inovador, a sociedade afluente
hipócrita lhe erguerá estátuas ou mesmo templos, que tempos...
É doloroso perceber que todos os que tiveram como objeto privilegiado de
análise a alma humana, colocando em prática suas descobertas e inovações, em
suas múltiplas manifestações, foram negligenciados - freqüentemente sepultados -
em favor dos que privilegiaram a coisa, o Capital, o produto inerte, a
materialidade mercadológica, o tecnicismo cientificista, como eixo de seu
pensamento. O mercado pode contar como uma de suas realizações mais
representativas o haver podido fundar a legenda, tão disseminada, do técnico
superior ao humanista.
IV - Proposta educacional libertária
Urge revolucionar toda a sociedade, subvertê-la recolocando o ser humano no
cerne de todas as considerações políticas, sociais e econômicas, isto já está
claro.
Vejamos agora o que pode fazer o educador libertário em sua profissão para
aperfeiçoar o homem e o mundo a caminho da sociedade ácrata que, estou seguro,
será a tônica do terceiro milênio.
Tomemos inicialmente a experiência de A. S. Neil em Summerhill. Ao contrário
do que muitos pensam, não é inédita, nem se trata de "um lugar em que se brinca
ao invés de estudar" menos ainda fracassou. Os jovens são recebidos naquele
estabelecimento de ensino aos cinco ou seis anos de idade, ali podendo
permanecer até os dezesseis ou dezessete e têm total liberdade para escolher os
rumos a dar à sua própria educação. Neil deixa claro lá haver sempre professores
gabaritados a preparar os jovens a todo e qualquer exame a que porventura deseje
submeter-se na sociedade afluente, sendo seu desempenho naqueles casos, muitas
vezes superior ao de jovens egressos de outros estabelecimentos de ensino
autoritários. A impressão que se tem, ao travar contato com relatos acerca
daquela "república de crianças" é a de que, por não haver ali qualquer forma de
coerção, os jovens dela saem com enorme erudição nos campos de saber de seu
livre interesse e, o que é mais importante, delas saem livres do medo!
O processo pedagógico, com amor e como o amor precisa contemplar amplamente
as esferas erótica*, lúdica e onírica de todos os envolvidos. Ora, todo o tipo
de coerção é antitético tanto ao erótico, quanto ao lúdico, quanto ao onírico,
antitético ao amor portanto, assim como a todo o verdadeiro e sério trabalho
pedagógico. Educação sem coerção não é pouca coisa, como se percebe. Inclusive
pela sua raridade no mundo atual. Talvez nisso, na abolição da égide do medo na
Instituição, para os jovens tanto quanto para seus educadores, resida o sucesso
deles em sua vida profissional e, o que é mais importante, em sua vida afetiva -
pelo menos até que a sociedade afluente acabe por fagocitá-los também.
Mas Summerhill, com toda a sua beleza, está bem longe de nós no espaço e, o que
é mais grave, na ideologia.
* - Deve-se ter por base ainda que todo o agir humano no mundo está impregnado
de erotismo, em suas acepções científica e psicanalítica. Sublimação da
erotização básica na erudição por exemplo é muito comum. Há mesmo, dentre os
libertários e surrealistas quem fale em "eros-dição" em adição à estéril
erudição...
Passo portanto, a falar de minha experiência como professor de história,
filosofia e sociologia a jovens e adultos nas redes secundária e de terceiro
grau, tanto públicas quanto privadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e
Minas Gerais. Descrevo o quadro caótico-enlouquecedor que encontro e passo a
fazer propostas emergenciais, embora utópicas (lembrando aqui e sempre que
utopia é algo possível e atingível; trata-se, numa definição clara, de "local ou
situação que não existe", AINDA. Não de uma proibição ontológica definitiva).
O professor vê-se, em geral, diante do seguinte quadro:
_ Salários da ordem de US$ 250 por estabelecimento em que trabalha.
_ Precisa trabalhar, ministrar aulas mesmo, em pelo menos quatro
estabelecimentos de ensino onde dá - uma dádiva quase que literal mesmo - aulas
em cada um a cerca de dez turmas diferentes para que possa auferir rendimentos
compatíveis pelo menos com sua sobrevida material.
_ Cada turma tem, em média, cinqüenta alunos, sendo freqüente encontrar
estabelecimentos de formação (uma deformação, isso sim!) secundária ou mesmo de
terceiro grau com até cento e vinte alunos por classe!
_ Os estabelecimentos de ensino, em geral, têm sua filosofia própria, sendo
enormemente refratários a qualquer tipo de inovação não-ortodoxa.
Percebe-se que o professor precisa lidar com mais de mil seres humanos por
ano letivo, em sua maioria carentes material e/ou afetivamente nestes tempos de
crise interminável, muitas vezes trazidos a estudar de maneira coercitiva, sem
persuasão ou convencimento minimamente diplomático. Via-de-regra vêem-se
compelidos a expressar a insatisfação para com a repressão a que se vêem
submetidos pelos pais e/ou pelo estabelecimento de ensino em classe, seja
fazendo estardalhaço, seja "fugindo" da situação em desenhos, rabiscos, poemas e
atividades paralelas congêneres.
O educador se vê, portanto, face a uma situação que, para ser classificada
como meramente caótica teria de melhorar muito: onde conseguir memória
suficiente para gravar os nomes de mais de mil seres humanos por ano letivo que
estão, em sua maioria, passando pela fase em que mais precisam de carinho e
atenção para que possam adequadamente auto-afirmar-se na vida? De que forma
conseguir tempo para reciclar-se, auto-aprimorar-se e aperfeiçoar seus métodos e
conteúdos se precisa trabalhar em classe freqüentemente mais de 50 (cinqüenta)
horas semanais, além do tempo que fica, em casa, corrigindo e preparando aulas
trabalhos e testes? De onde tirar o bom estado de ânimo que permita o transe
empático, VITAL a qualquer processo pedagógico, com quarenta turmas diferentes,
quase sempre abarrotadas de jovens, alguns dos quais expressando ruidosamente
sua insatisfação, seu justificado inconformismo ou mesmo necessidade de
auto-afirmação? Como conjugar a arte de transmitir e receber conhecimentos no
processo ensino/aprendizagem entabulando interlocuções fecundas com os jovens à
repressão, quase sempre necessária para conter aqueles que se manifestam de
maneira inadequada? De que maneira manter permanente concentração e elevado
nível intelectual e moral em classe com os diversos compromissos sociais dele
exigidos por uma sociedade assim tão desequilibrada?
Minha prática pedagógica, que data aí de uns doze anos quando reescrevo
estas linhas, tem permitido algumas soluções emergenciais, embora esteja bem
claro que o problema é muito mais amplo do que comporta este breve estudo.
Há que considerar a permanente luta por melhorias salariais, através da
união sindical, embora limitada e dificílima - o medo perpassa corações e mentes
de colegas em situação profissional precária, a compaixão para com a situação
dos educandos, que em nada ou quase nada são culpados pela situação a que os
professores foram jogados - é uma das mais severas armas patronais e por aí vai
- traz, contudo pequeníssimos resultados positivos no sentido de sensibilizar as
autoridades governamentais para com a questão.
Como trabalho com matérias bastante flexíveis em termos programáticos e as
consigo tornar interessantes por si mesmas, optei por não ser nada rígido quanto
a cobrança de presenças nem mesmo impor qualquer tipo de coerção nos estudos das
matérias que ministro. Quem se esmera mais tem nota máxima e aqueles menos
dedicados - guardados os limites impostos pelas instituições em si - recebem
pelo menos o grau mínimo à aprovação, com as gradações justas entre aqueles e
estes últimos.
Entre meus pares, às vezes encontro incompreensão, uma vez ser quase de
praxe o controle disciplinar através da avaliação, ocorrendo mesmo de a
"disciplina em classe" freqüentemente constar dos itens de avaliação dos alunos,
o que deploro. Em certos casos, mais severos, admoestações como "cuidado, sua
atitude, não sendo você quem é, pode ser interpretada como simples descaso para
com a educação..." Fato é que o índice de absenteísmo de minhas aulas jamais foi
superior a 2%, sendo freqüentes os casos de jovens que trazem colegas de outras
turmas ou mesmo familiares para ouvir minhas prédicas. Paralelamente a isso, os
trabalhos que solicito em caráter opcional, os alunos podem ser avaliados apenas
"por participação", são apresentados em profusão e, não raro, têm elevadíssimo
nível intelectual, alguns até chegando mesmo a ser publicados!
Sentindo-se livres os jovens produzem mais e melhor, participando
sempre com grande entusiasmo e motivação. O que vou relatar não deveria ser
motivo de surpresa, mas muitas vezes me pego verdadeiramente estupidificado
diante da dedicação e esmero de alguns. Uma jovem aí com seus quinze anos de
idade apresentou um bom trabalho, todavia com pequenas imprecisões que me
impossibilitavam de conceder-lhe nota máxima. Atribuí o segundo melhor conceito
possível e recomendei maior atenção para com as pequenas imprecisões que
encontrei. A jovem decidiu-se a reelaborar o trabalho inteiro - e era longo -
enriquecendo-o com novos aportes e me senti obrigado a atribuir-lhe a então
justa e merecida nota máxima.
Aos que não compreendem bem esta postura, argumento: não estaria eu, com
esta atitude, sendo um repressor moral num nível ainda mais profundo que o
trivial e grosseiro? Os jovens ficam tristes, envergonhados mesmo quando não são
aquinhoados com uma nota ou conceito elevado, o que faz com que estudem mesmo e
elaborem trabalhos cada vez melhores. Difícil expressar em palavras o quão
compensador se mostra esse retorno dos alunos, podendo aqui repetir as palavras
do já citado Mário Lodi naquele mesmo trabalho: "Das crianças um professor
antiautoritário recebe muito!" Pura verdade!
Vamos agora arrolar algumas propostas sérias e emergenciais para a educação
no Brasil - aproveitem-se as idéias; fica aos detentores de poder decisório o
"dever de casa" de encontrar os meios mais adequados de colocá-las em prática:
1. Limitação no número de alunos por turma, para que o educador possa melhor
acompanhar o desenvolvimento de cada um de seus pupilos e para que também não se
veja lançado numa situação em que, por não haver espaço temporal à livre
manifestação e criatividade de cada educando, acabe reduzido à condição de
palestrante ou, no limite, repressor em seu sentido mais grosseiro mesmo. Um
educador pode acompanhar bem, de perto, o desenvolvimento intelectual, moral,
humano, enfim, de cada um de seus alunos em turmas de, no máximo, vinte alunos.
Fica claro que qualquer intelectual competente é capaz de proferir palestras
a verdadeiras multidões. A situação, evidentemente, é bem outra no cotidiano dos
jovens estudantes. Aula é para formar, palestra, para informar.
2. Limitação na quantidade de turmas em que o educador deve exercer suas
atividades. Lidar com um máximo de cinco turmas com vinte alunos em cada uma por
ano permitirá ao educador acompanhar de perto, com toda a seriedade, gravidade e
atenção o desenvolvimento de cada um dos cem jovens cujos nomes e
características pode memorizar tranqüilamente, com rapidez e facilidade até.
Este ponto fala do respeito humano que possa permitir aos alunos terem suas
identidades particulares reconhecidas, ponto também fundamental numa proposta
pedagógica séria.
3. Autonomia pedagógica, melhor aceitação de metodologias alternativas. Não é
concebível que se trate seres humanos como máquinas. Que as
instituições educacionais tenham suas próprias filosofias é compreensível.
Acolher com urbanidade, reconhecimento e respeito idéias diferentes, contudo
operacionais, diria mesmo que ainda mais operacionais que as anteriores, é o
mínimo que a prática democrática pede às vésperas do terceiro milênio. Seguir
com práticas medievais às margens do 21º século é um disparate!
4. Ponderável aumento salarial. É isso mesmo, chegamos a uma situação tão
absurda que somente com propostas aparentemente "loucas" se pode reverter o
quadro. Estou propondo uma diminuição na jornada de trabalho de 50 aulas
semanais para no máximo 25 e uma contrapartida salarial condigna ao respeito que
merece o profissional formador de seres humanos para a vida.
Com salários melhores e mais tempo livre, o profissional do ensino poderá
dedicar-se com maior empenho a seu auto-aperfeiçoamento, exercendo um trabalho
cada vez melhor.
O que está aqui proposto, com todas as letras, em síntese, é que se coloque
a ênfase no ser humano, na atividade pedagógica em si, não mais na lucratividade
da "empresa" escola ou mesmo nas regras draconianas do mercado. Discutir a
situação do mercado, a "corrida de lobos" da sociedade industrial é, quiçá, tema
para outro trabalho. Aqui digo que mercado é uma coisa e atividade educacional é
outra totalmente diferente. Dentro das atuais regras colocadas pelo mercado -
daí a expressão "emergenciais" que apodo às medidas propostas - o professor
precisa resgatar o seu valor mesmo. Caso se prefira um linguajar diferente,
enquanto o mercado ditar suas regras, a "mercadoria" professor precisa ser
melhor valorizada!
Expondo estas idéias em seminários a colegas professores, obtive muita
solidariedade e a crítica solitária: "trata-se de um sonho, de um delírio", mas
ocorre o contrário! A realidade é que se transformou num pesadelo macabro e
irracional, só crível porque existente de forma material, só por esse motivo
falar no racional soa como sonho ou delírio.
De todo o modo, enquanto nosso modelo educacional estiver, como está,
distanciado da Razão - embora obedeça a algum tipo de lógica que me escapa -
estaremos assistindo e vivenciando o inferno dantesco da deterioração assombrosa
das condições intelectuais e morais de nossa gente. Urge reverter este quadro!
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75. ZIMMER, Heinrich. Filosofias da Índia, Palas Atena, 1991.
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Maurício Tragtenberg sobre Pedagogia Libertária