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Sempre considerei estranho estudar
"independência do Brasil" nas aulas de história e "Brasil
dependente" nas aulas de geopolítica. Vamos tentar entender
isso melhor?
Significado social da emancipação
– Embora a independência política do Brasil tenha sido um
“arranjo político”, segundo a expressão do historiador Caio
Prado Jr., ela implicou uma acirrada luta social. Várias
camadas sociais disputavam a liderança, desejando imprimir
ao movimento libertador o sentido que mais convinha e
interessava a cada uma. No final, venceu a aristocracia
rural dos grandes proprietários escravistas.
As divergências
– Para compreender o processo de independência precisamos
partir do projeto recolonizador das Cortes, pois foi por
causa dele que se definiram vários grupos. O "partido
português" era inteiramente a favor. O "partido brasileiro"
e os liberais radicais eram contra, mas divergiam quanto aos
objetivos a serem atingidos.
Para o "partido brasileiro" o ideal era a
criação de uma monarquia dual, para preservar a autonomia
administrativa e a liberdade de comércio. A intransigência
das Cortes fez, no entanto, esse partido inclinar-se pela
emancipação, mas sem alterar a ordem social e os seus
privilégios.
Os liberais radicais formavam um
agrupamento potencialmente revolucionário e estavam mais
próximos das camadas populares urbanas. Alguns deles eram
republicanos e, em seu conjunto, eram o grupo mais receptivo
às mudanças mais profundas e democráticas da sociedade.
Formação da liderança emancipacionista
– A concretização das aspirações de cada um desses
agrupamentos políticos não tinha as mesmas chances
históricas. Os grandes proprietários rurais ligados ao
"partido brasileiro" eram os que dispunham dos meios
efetivos para a realização de seus objetivos de classe.
Em primeiro lugar, porque a ânsia por um
comércio livre de entraves mercantilistas encontrou apoio em
forças internacionais, lideradas pela burguesia britânica. A
sólida base econômica e social escravista garantia, em
segundo lugar, os recursos materiais para resistir com êxito
à provável ameaça recolonizadora de Lisboa.
A Regência de
D. Pedro e a Ruptura com Portugal
A polarização
– A situação do Brasil permaneceu indefinida ao longo de
todo o ano de 1.821. Mas, em 9 de dezembro, um fato novo
começou a modificar o cenário. Nesse dia chegaram ao Rio de
janeiro os decretos das Cortes que ordenavam:
• a abolição da regência e o imediato
retorno de D. Pedro a Portugal;
• a obediência das províncias a Lisboa e
não mais ao Rio de janeiro;
• a extinção dos tribunais do Rio de
janeiro.
D. Pedro, aparentemente resignado,
começou a fazer os preparativos para o seu regresso.
Entretanto, essa decisão das Cortes gerou
uma onda de inquietação muito grande. Os funcionários
públicos estavam ameaçados de perder seus empregos com o fim
das repartições em que trabalhavam. O "partido brasileiro"
ficou alarmado com a recolonização iminente, mas também com
a possibilidade de uma explosão revolucionária
incontrolável.
Essa nova situação favoreceu a
polarização: de um lado o "partido português", que defendia
a recolonização, e, de outro, o "partido brasileiro" e os
liberais radicais, que passaram a agir abertamente pela
independência.
O Fico (9 de janeiro de 1822) –
No Rio de Janeiro organizou-se o
Clube da Resistência, liderado por José Joaquim da Rocha,
que começou a luta pela permanência do príncipe. A tática
consistia em conquistar D. Pedro para a causa da
independência e conseguir também a adesão das províncias.
Primeiro, fez-se uma sondagem junto ao
príncipe, que se mostrou receptivo à idéia. Depois foram
enviados emissários a Minas e São Paulo para obter a adesão
à causa emancipacionista, com resultados positivos.
No Rio de Janeiro foi elaborada uma
representação (com coleta de assinaturas) em que se pedia a
permanência de D. Pedro. Esse documento foi entregue a D.
Pedro no dia 9 de janeiro de 1822, por José Clemente
Pereira, presidente do Senado da Câmara do Rio de Janeiro.
Em resposta, o príncipe decidiu desobedecer às ordens das
Cortes e permanecer no Brasil: era o Fico.
A ascensão de José Bonifácio
– A decisão do príncipe de permanecer no Brasil e desafiar
as Cortes foi produto de um amplo movimento, no qual se
destacou José Bonifácio.
Como membro destacado do governo
provisório de São Paulo, José Bonifácio escreveu em 24 de
dezembro de 1821 uma carta a D. Pedro, na qual criticava
duramente a decisão das Cortes de Lisboa e chamava a sua
atenção para o importante papel reservado ao príncipe nesse
momento de crise.
No Rio, D. Pedro divulgou a carta, que
foi publicada na Gazeta do Rio de 8 de janeiro de 1822, com
grande repercussão. Dez dias depois, chegou ao Rio uma
comitiva paulista, integrada por José Bonifácio, para
entregar ao príncipe a representação paulista. Nesse mesmo
dia, D. Pedro nomeou José Bonifácio ministro do Reino e dos
Estrangeiros, cargo que este resolveu aceitar depois da
insistência do próprio príncipe. Essa nomeação tinha um
forte significado simbólico: pela primeira vez o cargo era
ocupado por um brasileiro
A partir desse momento, os Andradas (José
Bonifácio e seus irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco)
tornaram-se figuras políticas de destaque nacional.
Conselho de Procuradores Gerais das
Províncias do Brasil – Para
resistir às ameaças de recolonização foi decretada, em 16 de
fevereiro de 1822, a convocação de um Conselho de
Procuradores Gerais das Províncias do Brasil. Esse conselho,
teoricamente, tinha por finalidade auxiliar o príncipe. Na
prática, porém, tratava-se de uma manobra dos conservadores,
liderados por José Bonifácio, contra os radicais,
representados por Gonçalves Ledo, um funcionário público.
Para este, a preservação da unidade político-territorial do
Brasil deveria ser feita através da convocação de uma
Assembléia Constituinte eleita pelo povo. O conselho foi
convocado exatamente para evitar isso e manter a unidade sob
controle do poder central e dos conservadores.
O “Cumpra-se”
– Em maio de 1822, a cisão entre D. Pedro e as Cortes
aprofundou-se ainda mais: o regente determinou que qualquer
decreto das Cortes só poderia ser executado mediante o
"Cumpra-se" assinado por ele. Na prática, isso significava
conferir plena soberania ao Brasil. Essa medida teve
imediato apoio: a 13 de maio, o Senado da Câmara do Rio de
Janeiro conferiu ao príncipe regente o título de Defensor
Perpétuo do Brasil.
A convocação da Constituinte
– Enquanto isso, os liberais radicais mantinham-se ativos.
Por iniciativa de Gonçalves Ledo e outros, uma representação
foi dirigida a D. Pedro para expor a conveniência de se
convocar uma Assembléia Constituinte. O príncipe acatou a
sugestão e decretou a sua convocação em junho de 1822.
Divergência
entre conservadores e liberais
– José Bonifácio resistiu à idéia de convocar uma
Constituinte, mas foi obrigado a aceitá-la. Procurou,
entretanto, descaracterizá-Ia, propondo eleição indireta,
que acabou prevalecendo contra a vontade dos liberais
radicais, que defendiam a eleição direta.
Embora os conservadores tenham obtido o
controle da situação e o texto da convocação da Constituinte
apresentasse declarações favoráveis à permanência da união
entre Brasil e Portugal, as Cortes insistiam: o príncipe
deveria retornar imediatamente. Em 7 de setembro de 1822,
impelido pelas circunstâncias, D. Pedro rompeu
definitivamente os laços de união política com Portugal.
Culminou, dessa forma, o longo processo de emancipação,
iniciado em 1808 com a vinda da família real. A 12 de
outubro de 1822, D. Pedro foi aclamado, e em 1 ° de dezembro
do mesmo ano tornou-se o primeiro imperador do Brasil.
A
“Independência” – Vitória dos Conservadores
A
cisão política – Embora o
rompimento político com Portugal fosse o desejo da maioria
dos brasileiros, havia muitas divergências entre eles.
Podem-se identificar no movimento emancipacionista grupos
sociais claramente distintos: a aristocracia rural do
sudeste (“partido brasileiro”), as camadas populares urbanas
(liberais radicais) e, por fim, a aristocracia rural do
norte e nordeste, que se caracterizava pela defesa do
federalismo e mesmo do separatismo.
A aristocracia rural do sudeste, de longe
a mais poderosa, era conservadora e lutava pela
independência defendendo ao mesmo tempo a unidade
territorial, a escravidão e seus privilégios de classe.
Os liberais radicais queriam não apenas a
independência, mas também a democratização da sociedade
brasileira. Porém, seus principais líderes, Joaquim
Gonçalves Ledo (funcionário público) e José Clemente Pereira
(juiz e presidente do Senado da Câmara do Rio de janeiro),
permaneceram atrelados à aristocracia rural e não revelaram
nenhuma vocação genuinamente revolucionária.
Quanto à aristocracia rural do norte e
nordeste, enfrentava a forte resistência dos comerciantes e
militares portugueses, que eram particularmente fortes no
Pará, Maranhão e Bahia. Além disso, desconfiavam da política
centralizadora de José Bonifácio.
José Bonifácio – Na disputa
contra os conservadores, os radicais cometeram o grave erro
de reduzir toda questão à luta pela influência sobre o
príncipe regente. Era inevitável que este preferisse os
conservadores. Ademais, os conservadores encontraram em José
Bonifácio um líder particularmente bem preparado para dar à
independência a forma que convinha às camadas dominantes.
Nascido em Santos (1763), de família
abastada, José Bonifácio residiu na Europa de 1783 a 1819.
Formou-se em Ciências Naturais em Coimbra e viajou pela
Europa durante dez anos. Em Portugal criou reputação como
cientista, exercendo o magistério como professor da cadeira
de Metalurgia na Universidade de Coimbra. Ingressou na
burocracia reinol como Intendente Geral das Minas e Metais
do Reino, sendo ainda membro do Tribunal das Minas.
Quando retornou ao Brasil, já era um
homem maduro (56 anos), experiente e dono de um prestígio
sem rival. Assim, quando a revolução do Porto repercutiu em
São Paulo, José Bonifácio foi imediatamente chamado para
presidir a junta Provisória. Nas eleições para
representantes nas Cortes, foram escolhidos seis deputados
paulistas sob a liderança de seu irmão Antônio Carlos. Lá
deveriam atuar segundo instruções contidas num documento
denominado Lembranças e apontamentos, cuja autoria é
atribuída a José Bonifácio. Nesse documento estão as suas
principais idéias:
•
criação de um governo executivo no Brasil ao qual estariam
sujeitas as províncias;
•
fundação de colégios e universidades;
•
desenvolvimento do povoamento do interior;
•
integração das índios;
•
emancipação gradual dos escravos e proibição do tráfico;
•
alteração da estrutura fundiária, com a reintegração ao
domínio do poder público das terras improdutivas.
Como se pode observar, José Bonifácio era
contrário tanto à escravidão quanto ao latifúndio. E nesse
ponto chocou-se com os poderosos interesses dos grandes
proprietários e dos traficantes.
D. Pedro – Apesar de D. Pedro
ter servido de instrumento dos interesses da aristocracia
rural, à qual convinha a solução monárquica para a
independência do Brasil, não se deve desprezar os interesses
próprios de D. Pedro no processo.
D. Pedro tinha formação absolutista e por
essa razão se opôs à revolução do Porto, que era liberal e
antiabsolutista. Da mesma forma, a política recolonizadora
das Cortes desagradou à opinião pública brasileira. E é
nisso que se baseou a aliança entre D. Pedro e o "partido
brasileiro". Assim, se a independência do Brasil pode ser
vista, objetivamente, como obra da aristocracia rural, é
preciso considerar que ela se iniciou como um compromisso
entre o conservadorismo da aristocracia rural e o
absolutismo do príncipe.
Os excluídos –
A emancipação política do Brasil não
trouxe nenhuma alteração na secular estrutura social. A
enorme população de escravos e de homens livres não
proprietários, dispersa pelo Brasil e distante dos
principais centros, permaneceu absolutamente indiferente à
independência. Entretanto, nos centros urbanos do sul, em
especial no Rio de janeiro, a massa popular aderiu, em
várias ocasiões, aos impulsos revolucionários, mas foi
prontamente esmagada por José Bonifácio.

O Grito do
Ipiranga, de Pedro Américo (1888)

História Geral e do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual
Bibliografia:
História do Brasil - Luiz
Koshiba - Editora Atual
História do Brasil - Bóris
Fausto - EDUSP |