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O Mito de Eros e Psiquê

A Pedidos, para Patrícia Roberta Andrade, com apreço

 

 

Afrodite (Venus), filha de Cronos com a Espuma do Mar, a mais bela das deusas, foi forçada a se casar com Hefesto (Vulcano), filho de Hera (Juno) que o gerou sozinha pois já estava "pelas tamancas" com as infidelidades conjugais de seu marido e irmão. Vulcano foi arremessado do alto do Olímpo caindo no fundo do mar, o que o tornou ainda mais disforme e revoltado. A infidelidade conjugal de Afrodite também é amplamente difundida por Hesíodo em Teogonia, por Ovídio na Eneida e por Apuleio em O Asno de Ouro. Em Ares (Marte) encontrou um amante perfeito e, com ele, gerou Eros, a quem repudiou. É o que nos conta Hesíodo em Teogonia. Na versão de Lúcio Apuleio, poeta latino do II Século Da Nossa Era (nasceu no ano 125 e faleceu em 170, oito séculos depois do grego Hesíodo, portanto) em seu trabalho “O Asno de Ouro” esse mito, como ocorre com todos os mitos de todos os tempos, evoluiu e Cupido aparece como filho dileto do Amor entre Vênus e Marte.

Sandro Boticelli - O Nascimento de Venus - 1560

Vênus e Marte - Agostino Carracci - 1600

Vênus dota seu filho Cupido com um arco e uma aljava com flexas capazes de transtornar de paixão qualquer ser vivo (deuses, mortais e animais). Na “Teogonia”, de Hesíodo (que viveu entre 750 e 650 anos Antes da Nossa Era, aproximadamente contemporâneo de Homero, segundo algumas versões [Hesíodo era] o próprio Homero e teria vivido, vale a redundância, uns oito séculos antes de Apuleio), Cupido (Eros) ainda não é dotado de flexas e quem causa Paixão Avassaladora é Afrodite (Vênus) diretamente.

Cupido (usualmente representado como uma criança alada com olhos vendados) "Na Espreita", em tela de Adolphe Bouguereau - 1890

Psiquê (Alma) era uma menina mortal que, dotada de raríssima beleza física e moral, passou a ser adorada pelos seus concidadãos, acima de Vênus, já cogitando em lhe construir um Templo, o que enfurece seriamente a filha de Cronos - os mortais deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal!

           A deusa ordena a seu filho que atinja Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais física e moralmente monstruoso existente. Ao vê-la, contudo, e desobedecendo a ordem recebida, Cupido (Eros) acaba se apaixonando pela moça – segundo relato de Apuleio, se espetou acidentalmente numa de suas próprias setas.

           Uma curiosidade é o paralelo quase exato com o Deus Kama, que havia surgido no Panteão Hindu pelo menos quinze mil anos antes dos deuses gregos (alguns Autores vão mesmo mais longe: os deuses hindus existiriam no imaginário daquela antiquíssima civilização uns cinquenta mil anos antes mesmo do surgimento da civilização Creto-Micênica! Diferentemente de Cupido, apresentado como um anjinho usualmente com os olhos vendados – “o amor é cego...” – Kama (ou Kamadeva) é um gigante terrível com flexas explosivas que trazem na ponta inscrições como “Trago Dor, Agonia e Desespero”, “Abra-se!”; “Acacabou a sua Paz”...

 

 

Voltando: com o próprio deus do Amor apaixonado por ela, suas setas a poupam. O tempo passava, e, embora Psiquê contasse com uma legião de admiradores, nenhum deles se habilitou a ser seu pretendente. O rei, pai de Psiquê, preocupado com o fato de já ter casado duas de suas filhas, que nem de longe eram tão belas como Psiquê, quis saber a razão que a levava a não conseguir encontrar um noivo. Consulta então o Oráculo de Apolo, que prevê, induzido por Afrodite (Vênus), ser o destino de sua filha se casar com uma entidade monstruosa, uma espécie de demônio maligno.

Após muito pranto, mas sem ousar contrariar a vontade de Apolo, a jovem Psiquê é levada ao alto de um rochedo e deixada à própria sorte, até adormecer e ser conduzida por Zéfiro (deus dos ventos, amigo e aliado de Cupido) a um palácio magnífico, que daquele dia em diante seria seu.

Lá chegando a linda princesa não encontrou ninguém, mas tudo era suntuoso e, quando sentiu fome, um lauto banquete estava servido. À noite, uma voz suave a chamava e, levada por Cupido (Eros) , a ele se entrega e conhece as delícias do Amor, pelas mãos do próprio deus do Amor...

Os dias se passavam, e ela não se entediava, tantos prazeres tinha: acreditava estar casada com um monstro, pois Eros não lhe aparecia e, quando estavam juntos, ele ficava invisível. Ele não podia revelar sua identidade: qualquer mortal que veja um Deus em sua plena glória é fulminado em cinzas imediatamente. Apuleio ressalta ainda que, caso Eros (Cupido) se revelasse a Psiquê, sua mãe descobriria que não cumprira suas ordens - apesar disso, Psiquê passou a amar tanto o esposo, que chega mesmo a prometer jamais sequer tentar descobrir seu rosto.

Cupido Escapando Sorrateiramente de Psyche - François-Edouard Picot - 1817

Passado um tempo, a bela jovem sentiu saudade de suas irmãs e, implorando ao marido que permitisse que elas fossem trazidas a seu encontro. Eros resistiu e, ante sua insistência, conhecedor do comportamento e sentimento dos mortais, a advertiu quanto à situação potencialmente invejosa para com as irmãs em que ela (Psiquê) na verdade se encontrava: as irmãs a imaginam morta ou refém de um demônio maligno. Tanta é a saudade e tantas as insistências de Psiquê a Eros que as duas irmãs são, por Zéfiro, enfim, levadas ao palácio em que moravam. A princípio mostraram-se apiedadas do triste destino da sua irmã, mas vendo-a feliz, num palácio muito maior e mais luxuoso que o delas, foram sendo tomadas pela inveja. Constataram, então, que a irmã nunca tinha visto a face do marido. Disseram ter ouvido falar que ela havia se casado com uma monstruosa serpente que a estava alimentando para depois devorá-la, então sugeriram-lhe que, à noite, quando este adormecesse, tomasse de uma lâmpada alimentada a azeite e uma faca: com uma iluminaria o seu rosto; com a outra, se fosse mesmo um monstro, o mataria. Psiquê resistiu os conselhos das irmãs o quanto pôde, mas o efeito das palavras e a curiosidade da jovem tornaram-se fortes. Pôs em execução o plano que elas lhe haviam dito: Após perceber que seu marido entregara-se ao sono, levantou-se tomando uma lâmpada e uma faca, e dirigiu a luz ao rosto de seu esposo, com intenção de matá-lo.

Quando ela vê o belo jovem de rosto corado e cabelos loiros, espantada e admirada, desastradamente deixa pingar uma gota de azeite quente sobre o ombro dele. Eros acorda - o lugar onde caiu o óleo fervente de imediato se transforma numa chaga: o Amor está ferido.

Percebendo que fora traído, Eros enlouquece, e foge, gritando repetidamente: O amor não sobrevive sem confiança!

Cupido e Psiquê: a confiança quebrada - John Roddam Spencer Stanhope - 1880

Psiquê fica sozinha, e desesperada com seu erro, no imenso palácio. Precisa reconquistar o Amor perdido.

Eros voa pela janela e Psiquê tenta segui-lo, cai da janela e fica desmaiada no chão. Então o castelo desaparece. Psiquê volta para a casa dos pais, onde reecontra as irmãs que fingem piedade para com a irmã. Acreditam que o lindo Eros, solteiro, as aceitaria e seguem em direção ao belo palácio. Chamam por Zéfiro e, acreditando estar seguras pelo mordomo invisível de Cupido, morrem ao arrojar-se ao precipício.

Psiquê caminha noite e dia, sem repouso nem alimentação. Avista um belo templo no cume de uma montanha e acreditando ali reencontrar seu amor. Ao chegar no topo depara-se com montões de trigo, centeio, cevada e ferramentas, todas misturadas e ela os separa e organiza. O Templo pertencia a deusa Deméter (deusa dos grãos e da fertilidade, mãe de Perséfone, que passava quatro meses por ano com o marido no Hades). Grata pelo favor da bela moça lhe diz o que fazer para reconquistar o marido. Primeiro ela precisaria conseguir o perdão da sogra. Deméter a auxilia ainda a aproximar-se de Júpiter (rei dos deuses) e de Mercúrio (seu mensageiro).

 
 

 

A Busca pelo Amor Perdido...

 

Psiquê vaga pelo mundo, desesperada, até que resolve consultar-se num templo de Afrodite. A deusa, já cientificada de que fora enganada, e mantendo Eros sob seus cuidados, tratando da chaga aberta em seu ombro, decide impor à pobre Alma uma série de tarefas, esperando que delas nunca se desincumbisse, ou que tanto se desgastasse a ponto de perder sua beleza...

Como primeiro trabalho, a princesa é aprisionada num quarto onde uma montanha de grãos de diversos tipos (arroz, trigo, centeio, cevada, etc.) tinha sido misturada. Psiquê devia separá-los, conforme cada espécie, no espaço de uma noite. A jovem começou a trabalhar, mas, mal fizera alguns montículos e adormece extenuada. Durante seu sono, surgem milhares de formigas, enviadas por Cupido e, grão a grão, os separam do monte e os reúnem consoante sua categoria. Ao acordar, Psiquê constata - e demonstra à sogra - que a tarefa fora cumprida dentro do prazo.

Num segundo trabalho, Psiquê precisa colher a Lã de Ouro dos Velocinos que se parecem com cordeiros suaves, contudo são monstros devoradores de gente. Mercúrio, instruído por Júpiter, sussurra a Psiquê que, para conseguir uma boa quantidade da lã, deveria dirigir-se a um espinheiro onde os Velocinos se coçavam com frequência e dali retirar a Lã que a sogra ordenou que obtivesse. Assim é feito e Vênus fica a cada momento mais enfurecida com Psiquê!

A sogra lhe ordena então que consiga um pouco de água da nascente do Rio Estige, o rio que separa o Mundo dos Vivos do Hades. Mas a nova tarefa logo se revela impossível: o Estige nascia numa alta montanha tão íngreme, que era impossível escalar. Levando um frasco numa das mãos, a princesa não consegue galgar a escarpa pratciamente vertical: humanamente impossível. Mais uma vez lhe surge um socorro extraordinário: as águias de Júpiter aparecem, tomando-lhe o frasco, voam com ela até o alto, enchendo-o. O trabalho, mais uma vez, foi realizado.

Vênus resolve apelar para uma tarefa que considera definitiva e irrealizável, enviá-la ao Hades! Alegando-se menos bela devido ao desgaste com o tratamento dos ferimentos sofridos pela queimadura no ombro de Cupido, exije que Psiquê vá até o Hades (nenhum mortal descia ao Hades impunemente) e convensa Perséfone, filha de Deméter que está passando seus quatro meses com o marido por lá, a lhe ceder um pouco de sua beleza. Vênus estava segura de que Psiquê não voltaria viva ainda que realizasse a Missão Impossível. Psiquê consegue comover Perséfone e a persuade a encher uma caixa com a sua beleza para que seja levada a Vênus.  A princesa está voltando ao Templo onde encontraria Vênus, quando lhe ocorre que a SUA própria beleza havia se desgastado depois de tantos trabalhos. Não resistindo, toma a decisão de abrir a caixa. Cai em sono profundo e Vênus, já curado, de sua queimadura vai ao socorro de sua amada, põe de volta o conteúdo na caixa, desperta Psiquê e ordena a ela que entregue a caixa à sua mãe.

Cupido e Psiquê Finalmente Unidos - William-Adolphe Bouguereau - 1757

Após Psiquê entregar a caixa de Perséfone a Vênus, Cupido alia-se a Mercúrio e se dirige ao Olimpo onde conversa com Zeus (Júpiter) e suplica por Psiquê. Zeus se comove com o Amor de ambos e posteriormente conquista mesmo a concordância de Vênus!. Hermes (Mercúrio) leva Psiquê a uma Assembleia dos Deuses no Olimpo e ela é tornada imortal. Finalmente, Psiquê pode se unir em matrimônio formal a Eros e mais tarde tem com ele uma filha, a quem chama de Hedonê (Prazer).

O Mito de Eros e Psiquê é uma alegoria à alma humana, que é testada e depurada por provações diversas, enfatizando Valores Morais relevantes como a Honra, a Dignidade, a Entrega, a Devoção, a Persistência e sobretudo o Amor!

Lázaro Curvêlo Chaves - 17/04/2015

 

 
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