1º de Maio de 2006 - #
Prisioneiros da Matrix #
O Estado-Matrix
Com a Internet o mundo fica pequenininho. Esta semana conheci uma comunidade
magnífica no Orkut, comunidade neste momento com cerca de 100 membros, muito
inteligentes e educados debatendo a temática levantada pelos Irmãos Waschowski
na Obra de Arte “Matrix” – alguns colocam a ênfase no aspecto teológico que o
filme suscita, outros em aprofundamentos técnicos em informática (riquíssimos
tutoriais), outros ainda, dentre os quais me incluo, debatem a Matrix como
metáfora da máquina estatal que nos domina.
Aproveito a oportunidade em que nos
recordamos dos Mártires do Massacre de Chicago a 1º de Maio de 1866 para trazer
esta reflexão para perto. Como sair da Matrix?
Pessoalmente, vejo em filmes
como “Matrix” (mas também “Exterminador do Futuro” e algumas dezenas de outros)
uma consciência do surgimento de um dramático domínio do ser humano pelo
universo mecânico.
Quando pela primeira vez se
lascou uma pedra para com ela raspar as carnes de uma presa, o ser humano criava
a primeira ferramenta, a primeira máquina. Com o passar dos séculos esta máquina
se sofistica e hoje serve-se de nós de maneira quase imperceptível. "Mas você
percebe que há algo errado" – como diz Morpheus a Neo num de seus primeiros
diálogos.
O Estado Nacional, a
Burocracia é esta máquina gigantesca que nos domina e, na metáfora, Morpheus,
Neo e outros idealistas lutam para que o Humano vença a Máquina ou, utilizando
um linguajar mais claramente Anarquista: que o Capital sirva ao ser humano, não
mais servindo-se dele.
Um dos participantes
contra-argumenta ser necessário dominar a máquina estatal para que ela sirva o
humano – o que já se tentou na antiga URSS, na China e em Cuba – com resultados
práticos pouco alentadores. Sem a menor sombra de dúvida o sistema de economia
planificada trouxe maior bem-estar e uma distribuição de rendas incrivelmente
mais justa e equânime que esta do capitalismo.
Mas é inegável que houve corrupção e
o Estado, ao invés de se encaminhar ao desmantelamento – meta comum a
socialistas libertários (Anarquistas) e socialistas autoritários (Comunistas) –
este ficou ainda mais forte e opressivo ao ser humano em outros níveis de
liberdade e igualdade que não a econômica. A fraternidade, terceiro ponto do
triângulo que se tornou clássico a partir da Revolução Francesa, foi a primeira
esquecida no processo, aliás...
Joycemar, o intelectual com quem
dialogo no início do debate, clarifica minhas idéias, mas sou levado a refletir
e discordar de seu ponto de vista – mantendo um nível de camaradagem
elevadíssimo, e esta é a grande magia! Precisamos destruir a Matrix. Destruir o
Estado. Sem etapas.
O jovem Agnóstico ingressa no debate
e sugere que, se a função do Estado/Matrix é criar ilusões deve realmente ser
destruído, sem etapas. Se, contudo, se puder usar a máquina a favor do humano,
será melhor ainda.
Volto a meu argumento, partindo
agora do princípio de que o Estado é intrinsecamente um Mal. Minha veia
anarquista começa a pulsar mais forte que a comunista e argumento:
_ O problema colocado transformou-se naquele que
provocou a expulsão do Ir.'. Bakunin (Mestre-Maçom de primeira cepa!) da I
Internacional pelo Sr. Marx e seus espiões:
A proposta de encaminhamento
socialista autoritária indica que a última das classes, o proletariado, tome o
poder. Esta seria a condição necessária à extinção do Estado. Na prática
(critério último da verdade, ponto em que Marx está pleno de razão), onde
partidos de trabalhadores tomaram o poder do Estado, não houve sequer esboço de
amplitude de libertação, ao contrário. Aí recorro a Wilhelm Reich: quando
colocamos um pedaço de carne podre próximo a um pedaço de carne fresca o mais
provável é que a carne podre corrompa aquela fresca e não o contrário.
Trabalhadores no poder estatal (o Brasil atual não é o primeiro exemplo
histórico, convenhamos) deixam-se corromper pela máquina com mais facilidade do
que sequer tentam transformá-la.
A proposta de encaminhamento
socialista libertária, por seu turno, recomenda uma caminhada perene, sem etapas
transitórias, direto ao fim do Estado. Direto à destruição da MATRIX. Abrir mão
do controle sobre coisas e pessoas - tema que tangencia a teologia: para que não
seja necessária a existência da polícia, das forçar armadas, de fronteiras (como
em "Imagine", o grande hino anarquista composto por John Lennon) o ser humano
precisará chegar a situar-se melhor intelectual e moralmente. O Estado tem se
mostrado, sempre, tolhedor, cerceador, um impeditivo categórico ao
progresso do ser humano (se nos desenvolvêssemos em humanismo com metade da
velocidade do desenvolvimento tecnológico, onde não estaríamos...)
A seguir, visitemos, com
Pierre Clastres, algumas sociedades sem Estado, entendida a expressão “sem
Estado” não como carência, mas como recusa, negação: Nas
"Sociedades Contra o Estado" encontraremos seres humanos com menos
domínio tecnológico (chamadas comunidades tribais ou expressões equivalentes) e
uma capacidade de convívio humano inacreditavelmente superior às comunidades
curiosamente alcunhadas de “civilizadas”.
Aqui entra uma observação: "O
Estado - a Matrix - é um Mal a ser erradicado!" – Não se pode usar granadas
para alimentar pintassilgos ou canhões para distribuir rosas; menos ainda o
Estado para fazer melhor o Ser Humano! Tomar o aparato estatal e a seguir
desmantelá-lo não tem funcionado. A empulhação neoliberal de propor um “Estado
Mínimo” arremessa o ser humano de volta ao Estado de Natureza, é uma regressão à
lei da selva, da sobrevivência do mais forte. O ferramental marxista ainda é o
mais sofisticado para a análise sociológica, mas a prática proposta pelos
marxistas se mostrou ineficaz para destruir o Estado. Por isso a esquerda está
buscando alternativas e, em meu caso pessoal, com todo o respeito e conhecimento
de teses marxistas, leninistas, maoístas e trotskistas que defendi por décadas a
fio (algumas ainda arraigadas) percebo que o nó górdio
da questão está no momento em que a organização autoritária montada por Karl
Marx urdiu a expulsão dos socialistas libertários (Bakunin à frente) da I
Internacional. Neste instante, busco aprender com os fragmentos que nos deixaram
os socialistas libertários em termos de alternativas. O caminho parece este.
Mas o debate, na comunidade #
Prisioneiros da Matrix # segue se aprofundando. Vamos consertar o mundo! Ali há
um espaço nobilíssimo para que cérebros pensantes busquem encontrar a saída para
esta armadilha sórdida em que nós mesmos nos enfiamos.
Ficam todos convidados a participar,
acompanhar os debates e dar também seus “pitacos” por lá.
Indicações de Leitura
Filmes
Indicados
Findo estas linhas com a minha
humilde homenagem aos Trabalhadores do mundo passando a palavra ao grande
Vladímir Maiakóvski em “Meu Maio”
A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
Lázaro
Curvêlo Chaves – 27/04/2006
ADENDO
IMPORTANTÍSSIMO: 1º de Maio de 2006
Recomendação: 13º Andar - 1999 - Um precursor...
01/05/2006 03:23
Para quem ainda não assistiu - como eu que acabo de assistir, recomendo
um filme precursor de MATRIX ::
13º Andar, de Josef Rusnak, de 1999.
O filme é baseado na Obra de
Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard, de 1981.
Como todos devem se recordar, a Obra
de Baudrillard aparece em
MATRIX justamente no momento em que Neo, acordado por Trinity pela primeira
vez via computador, recebe o convite - o mesmo feito em
Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll: "Siga o Coelho Branco" - à
porta um cidadão compra dele o que parece ser um programa pirata seguramente
oculto dentro do espaço oco de um exemplar de Simulacros e Simulação, de
Baudrilard.
O jogo de espelhos no filme
13º Andar, de Josef Rusnak provocou em mim o mesmo tipo de sensação que tive
ao assisitir
MATRIX: “este mundo não é real, é criação de um outro em nível superior e,
por sua vez, cientistas criados, criam um outro mundo simulado.” As três
dimensões interagem de maneira impressionante neste filme, precursor de
MATRIX.
Encontrei uma ótima resenha de
13º Andar, (para quem compreende bem o inglês)
AQUI
Fica aberto o tema. A
genealogia do filme
MATRIX remonta ao livro
Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard, 1981 e passa pelo filme
13º Andar, de Josef Rusnak, de 1999.
Fica a recomendação
e o debate aberto.
A todos um Magnífico 1º de Maio!
Com apreço,
Lázaro Chaves.'.
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