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O Estado Novo (1937 – 1945)
O
Surgimento de Novos Partidos
O declínio do
tenentismo – Desde a Constituinte (1933) e a
promulgação da Constituição (1934), o tenentismo estava em declínio. Esse
movimento, um dos mais radicais e reformistas da República Velha, foi também a
mais séria tentativa de superar o domínio das oligarquias estaduais. Todavia,
ideologicamente, o tenentismo era desprovido de coerência; da mesma forma, não
tinha nenhum programa político suficientemente claro, que mobilizasse setores
significativos da sociedade para a reorganização do país.
Em 1934, o tenentismo já tinha deixado de existir como
movimento organizado. Em seu lugar, novas organizações políticas começaram a
surgir, influenciadas pelos acontecimentos europeus.
A conjuntura
internacional – Após o término da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), começaram a se fortalecer na Europa as tendências políticas
contrárias aos ideais burgueses nascidos no século XVIII: o liberalismo e a
democracia. A ideologia burguesa passou a ser criticada tanto pela direita
(fascismo e nazismo) como pela esquerda (marxismo). A primeira crítica não era
revolucionária e buscava, através de um regime ultranacionalista, belicoso e
ditatorial, uma saída para a crise do capitalismo, sem, contudo o destruir. A
segunda, revolucionária, preconizava a superação do capitalismo, com a tomada do
poder pela classe operária e a transformação da sociedade. Em outras palavras, o
fim da propriedade privada dos meios de produção e da exploração do trabalho
assalariado.
Essas duas tendências políticas (ultra-reacionária e
revolucionária) estavam em luta acirrada durante o período entreguerras e
refletiram-se no Brasil com a formação da Ação Integralista Brasileira
(tendência fascista) e da Aliança Nacional Libertadora (tendência esquerdista).
Esses dois partidos eram bem diferentes daqueles até então
existentes, pois tinham um programa político bem delineado e haviam superado os
antagonismos regionais, substituindo-os pelos antagonismos de classes. Portanto,
já não eram agrupamentos políticos de defesa de um estado ou outro, de uma
região ou outra. Ao contrário, defendiam claramente os pontos de vista de uma
classe, independentemente da área geográfica.
O
Integralismo
Características
– O integralismo surgiu no bojo dos acontecimentos europeus e era tributário do
fascismo italiano. Doutrinariamente, o integralismo preconizava o governo
ditatorial ultranacionalista, com base na hegemonia de um único partido, a Ação
Integralista Brasileira (AIB), obediente a um único chefe.
Os fundamentos doutrinais da AIB encontravam-se no Manifesto
à Nação Brasileira (1932), de autoria de Plínio Salgado, ex-integrante do PRP
Nele, o autor fazia a defesa da "Pá tria, Deus, Família", isto é, do
"chauvinismo", da "civilização cristã" e do "patriarcalismo". A AIB encontrava
apoio na oligarquia tradicional, na alta hierarquia militar, no alto clero, em
suma, nos setores mais conservadores da sociedade.
Tal como o seu modelo europeu, a AIB utilizava-se do ódio aos
comunistas para elevar a tensão emocional de seus partidários. O "perigo
vermelho" era visto por toda a parte, o que mantinha a permanente vigilância e o
fervor partidário.
Entre 1932 e 1935, quando os efeitos da crise de 1929 se
faziam sentir com intensidade e as agitações esquerdistas começavam a tomar
corpo, os integralistas formaram, como na Itália, grupos paramilitares que agiam
com violência para dissolver as manifestações esquerdistas.
A
Aliança Nacional Libertadora
A frente antifascista
– A ascensão dos totalitarismos de direita, quase por toda parte, motivou a
formação de frentes antifascistas, com predomínio dos partidos comunistas em
todos os países. Aliás, a Terceira Internacional (Komintern) - reunião dos
partidos comunistas de todo o mundo - havia preconizado essa tática na luta
antifascista: aglutinar todos aqueles que, por uma razão ou outra, eram
contrários ao fascismo. O Partido Comunista do Brasil, fundado no início dos
anos 20, adotou essa linha. A formação da frente antiintegralista resultou na
Aliança Nacional Libertadora. Luís Carlos Prestes, que rompera com o tenentismo
para converter-se ao marxismo, foi eleito presidente de honra da ANL, passando,
assim, rapidamente à cúpula dirigente do PCB.
A "intentona"
comunista – A ANL desde então cresceu
vertiginosamente, despertando, em conseqüência, o receio das camadas dirigentes.
O próprio presidente Getúlio Vargas, a fim de fortalecer o seu poder, serviu-se
da ANL. Depois, através da intervenção policial, invadiu suas sedes e mandou
prender seus líderes. Enfim, impediu a atuação da ANL na legalidade, forçando-a
a passar para a clandestinidade.
Por causa da repressão da polícia, o PCB, movido pela ala
radical, acabou optando pelo método insurrecional, dando origem à intentona
comunista.
A rebelião eclodiu prematuramente (23/11/ 1935) em Natal, no
Rio Grande do Norte, onde o batalhão em levante se uniu a populares, organizando
o Comitê Popular Revolucionário. A repressão foi imediata, com o apoio da
Polícia Militar e de fortes contingentes armados enviados pelos fazendeiros.
Dois dias depois a insurreição foi esmagada.
No dia 25, em Recife e Olinda, guarnições militares sob
domínio comunista se sublevaram e também foram reprimidas sem maiores
dificuldades.
O mesmo aconteceu no Rio de janeiro no dia 27 de novembro.
Destacaram-se na época, como representantes das forças repressoras, Eduardo
Gomes (um dos sobreviventes dos 18 do Forte, 1922) e Eurico Gaspar Dutra.
Saiba mais sobre
Getúlio Vargas,
Luís Carlos Prestes e
Olga Benário Prestes.
A preparação do golpe
– Para combater os levantes comunistas, Getúlio Vargas decretou o estado de
sítio em novembro, que se prolongou até o ano seguinte. Era o pretexto de que
necessitava para conduzir o país à ditadura. Era um pretexto, porque Vargas
sabia de antemão dos planos insurrecionais do PCB através de elementos da
polícia infiltrados no partido. E serviu-se do levante comunista - mal
concebido, mal planejado e mal executado, sem a mínima chance de vitória - para
atingir objetivos pessoais. Utilizando o argumento da "ameaça comunista",
preparou, pacientemente, seu próprio caminho.
Quando se iniciou a campanha para a sucessão presidencial, a
oligarquia paulista lançou o seu candidato, Armando de Sales Oliveira; os
getulistas defendiam a candidatura de José Américo de Almeida. Porém, nem um nem
outro estava nos planos de Getúlio, pois ele pretendia continuar no poder. E
tinha fortes argumentos para isso; contava com o apoio do general Góis Monteiro,
chefe do estado-maior do Exército, e do general Dutra, seu ministro da Guerra.
O “Plano Cohen”
(1937) – Contudo, o Congresso Nacional, sentindo
as manobras golpistas de Vargas, o impediu de renovar o estado de sítio. Para
forçar a situação, Vargas simulou a farsa do Plano Cohen, de autoria duvidosa:
tratava-se de um plano supostamente comunista, que visava ao assassinato de
personalidades importantes, a fim de tomar o poder. Segundo a versão dos
interessados na farsa, o documento fora "descoberto" e entregue a Góis Monteiro
pelo capitão Olímpio Mourão Filho, membro integralista. O nome Plano Cohen foi
dado por Góis Monteiro, responsável pela divulgação alarmista por toda a
imprensa.
Diante da "ameaça vermelha", o governo pediu o estado de
guerra, e o Congresso concedeu. Criaram-se assim as condições para o golpe.
Getúlio buscou e conseguiu o apoio do governador de Minas, Benedito Valadares;
no nordeste, a missão Negrão de Lima conseguiu a adesão de vários estados.
No dia 9 de novembro de 1937, Armando de Sales Oliveira
apelou para as Forças Armadas, pedindo a manutenção da legalidade. Inutilmente,
pois Francisco Campos, de tendência integralista e futuro ministro da justiça,
já tinha sido encarregado de redigir a nova Constituição.
No dia seguinte, usando como pretexto a necessidade de se
colocar fim às agitações, Vargas decretou o fechamento do Congresso e anunciou a
nova Constituição. Em 2 de dezembro de 1937, os partidos foram dissolvidos. Era
o início do Estado Novo.
A
Constituição de 1937
Características do
novo regime – Apesar da inegável afinidade entre o
novo regime, instituído pelo golpe de 1937, e o regime dos Estados fascistas
europeus, certas características peculiares destes não apareceram na formação do
Estado Novo. O golpe de 1937, segundo Locardes Sola, "não representou a vitória
de um partido organizado (a participação dos integralistas era adjetiva), nem
teve apoio ativo das massas". Careceu, por outro lado, de força e coerência
ideológica. A instauração do Estado Novo foi - na opinião da mesma autora - "um
golpe de elites político-militares contra elites político-econômicas”.
Nesse sentido, o decreto de 2 de dezembro de 1937, que
dissolveu todos os partidos, é bem elucidativo. Comecemos com as razões do
decreto. Segundo ele, os partidos políticos eram "artificiosas combinações de
caráter jurídico e formal" e tinham "objetivos meramente eleitorais”. A crítica
dirigia-se claramente aos partidos tradicionais herdados da República Velha -
expressões dos interesses locais e incapazes, portanto, de formar a "nação”. Por
isso no decreto se afirmou que os partidos não correspondiam "aos reais
sentimentos do povo brasileiro", pois "não possuem conteúdo programático
nacional”. Essa última denúncia não era aplicável, no entanto, à AIB e à ANL,
pois ambas haviam superado os partidos até então existentes por trazerem
"conteúdo programático nacional”. Entretanto, contra a AIB e a ANL, as acusações
seriam outras: elas espelhavam ideologias e doutrinas contrárias aos postulados
do novo regime. Assim, uma vez que todos os partidos eram inadequados, a
instauração do novo regime foi a solução ideal, pois fora fundado em nome da
nação para atender às suas aspirações e necessidades, devendo estar em contato
direto com o povo.
Portanto, o pano de fundo da ideologia do Estado Novo foi o
mito da nação e do povo, duas entidades abstratas que por si sós não significam
absolutamente nada. Na realidade, esse foi o momento em que, através da
ditadura, se procurou suprimir os localismos e viabilizar um projeto realmente
nacional.
Identificando nação e povo, e ambos com o ditador, sem a
distância interposta dos partidos, o Estado Novo tinha a ilusão de que
finalmente o povo governaria a si próprio e a nação se reencontraria. O ditador
era então a encarnação viva do povo e da nação.
A nova Constituição
– A Carta Outorgada de 1937 teve como principal autor Francisco Campos e
caracterizou-se pelo predomínio do poder Executivo, considerado o "órgão supremo
do Estado", usurpando até as prerrogativas do Legislativo. O presidente foi
definido como a "autoridade suprema do Estado, que coordena os órgãos
representativos de grau superior, dirige a política interna e externa, promove
ou orienta a política legislativa de interesse nacional e superintende a
administração do País", conforme o texto constitucional. Passou a ter completo
controle sobre os estados, podendo a qualquer tempo nomear interventores.
Instituiu-se ainda o estado de emergência, que permitia ao
presidente suspender as imunidades parlamentares, prender, exilar e invadir
domicílios; para completar, instaurou-se novamente a pena de morte e
legalizou-se a censura para os meios de comunicação -- jornais, rádio e cinema.
O mandato presidencial foi dilatado para seis anos.
O poder Legislativo seria composto pelo presidente da
República, pelo Conselho Nacional (que substituiu o Senado) e pelo Parlamento
Nacional (Câmara dos Deputados).
O Parlamento Nacional, com três a dez representantes por
estado, seria eleito por voto indireto (vereadores das Câmaras Municipais e dez
eleitores por voto direto).
O Conselho Nacional seria composto por um representante de
cada estado, eleito pelas Assembléias Estaduais, e por dez membros nomeados pelo
presidente, com mandatos de seis anos.
Sob inspiração do Estado corporativo do regime fascista
italiano, a nova Constituição criou o Conselho da Economia Nacional, composto
pelos representantes da produção - indicados por associações profissionais e
sindicatos reconhecidos por lei -, com representação paritária de empregados e
sob a presidência de um ministro de Estado. O Conselho da Economia Nacional
tinha a função de assessoria técnica, visando obter a colaboração das classes, a
racionalização da economia e a promoção do desenvolvimento técnico. Tudo isso
significava também que o Estado iria intervir e dirigir a economia nacional.
A Carta Outorgada de 1937 deveria ter sido submetida a um
plebiscito*, como determinava o seu texto, mas o ditador fez por esquecer esse
compromisso.
O DASP – Departamento
Administrativo do Serviço Público (DASP) foi
criado em 1938 com a finalidade de dar ao Estado um aparato burocrático
racionalizador da administração pública. Em suma, tratava-se de modernizar a
burocracia.
Segundo Hélio de Alcântara Avellar, o DASP tinha a função de
pôr fim ao "caráter político do recrutamento do funcionalismo, partindo do
imperativo técnico da neutralidade do serviço e do servidor público".
Com o DASP, generalizou-se o sistema de mérito, isto é, o
recrutamento passou a ser feito mediante a avaliação da capacidade, através de
concursos e provas de habilitação.
Controle e Repressão
O DIP – Departamento
de Imprensa e Propaganda – Para garantir o
funcionamento do novo regime, foram criados vários instrumentos de controle e
repressão. Inicialmente, destacou-se o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP),
encarregado do controle ideológico. Para tanto, exercia a censura total dos
meios de comunicação - imprensa, rádio e cinema -, através dos quais, inoculando
na sociedade o medo do "perigo comunista", sustentava o clima de insegurança que
justificara o novo regime. Além disso, trabalhava na propaganda do presidente,
formando dele uma imagem sempre favorável. Com esse fim foi instituída a Hora do
Brasil, emissão radiofônica obrigatória. Naturalmente, a intolerância pela
diversificação da informação era a base do novo regime. E qualquer oposição
ideológica era duramente reprimida, a exemplo do confisco do jornal O Estado de
S. Paulo, fundado por Júlio de Mesquita.
A Polícia Secreta
– Ao mesmo tempo em que a repressão ideológica alargou seus horizontes através
da oficialização, avultou o papel da Polícia Secreta, chefiada por F' Filinto
Müller. Tal como nos regimes totalitários europeus, a Polícia Secreta se
especializou em práticas violentas, reprimindo, com torturas e assassinatos, os
indivíduos considerados nocivos à ordem pública.
O controle dos
sindicatos – A preocupação do novo regime era
neutralizar e anular a influência política do operariado, fazendo os
trabalhadores ligarem-se aos sindicatos. O princípio norteador dessa política
trabalhista foi a concepção corporativa do fascismo, que consistia na negação da
luta de classes e na afirmação da colaboração entre elas. Esse princípio não
reconhecia, portanto, as diferenças de interesses entre patrões e empregados,
colocando acima das contradições de classe o suposto interesse, mais geral, da
"nação”. Por isso, pela Constituição de 1937, as greves e o lockout foram
proibidos, por serem "recursos anti-sociais, nocivos ao trabalho e ao capital,
incompatíveis com os superiores interesses nacionais”.
A autonomia sindical foi finalmente liquidada com a
instituição do Imposto Sindical, cobrado compulsória e anualmente de todos os
trabalhadores e equivalente a um dia de trabalho.
Esse imposto - destinado a remunerar o pessoal encastelado no
aparato burocrático sindical - era recolhido pelo Ministério do Trabalho, que
então fazia a redistribuição entre os sindicatos. Assim, os sindicatos
tornaram-se entidades dependentes do Estado e, portanto, facilmente manipuláveis
por ele.
Uma das conseqüências para os sindicatos foi o surgimento dos
"pelegos", trabalhadores que não representam autenticamente os interesses de sua
classe; beneficiados pelo sistema sindical, identificavam-se com o governo.
As
Transformações Econômicas
O fortalecimento do
mercado interno – Até os fins da República Velha,
o Brasil não havia superado de todo a pesada herança colonial. Continuava um
país monocultor (café) e estritamente dependente do mercado externo. Porém,
desde a abolição da escravatura, esse esquema econômico estava condenado, por
causa da generalização do trabalho assalariado. Em muito contribuiu, ainda, a
maciça imigração estrangeira. Dessa maneira, com o aumento da mão-de-obra livre
e assalariada, criou-se necessariamente um mercado interno.
Essa transformação estava relacionada com o desenvolvimento
do capitalismo: ao ampliar o seu potencial produtivo, a Europa passou a
necessitar de um mercado cada vez maior. Foi o que determinou no Brasil, segundo
Caio Prado Jr., a emergência do "fator consumo, praticamente imponderável no
conjunto do sistema anterior, em que prevalece o elemento produção".
A crise do modelo
agrário-exportador – Evidentemente, num sistema
voltado para a produção de bens primários - café, borracha, açúcar, algodão,
cacau - e exclusivamente para fora, as crescentes necessidades do mercado
interno tornaram-se um problema de difícil solução, pois a única saída era
importar cada vez mais, o que acarretava um sério desequilíbrio na balança
comercial.
A direção do desenvolvimento econômico começou então a mudar,
com a crescente diversificação no que se refere à produção tanto de alimentos
quanto de manufaturas.
Essa tendência à "nacionalização da economia" já era visível
durante e após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e com a crise de 1929 ela
se intensificou, pois a política de valorização do café, que até então
sustentava o modelo agrário-exportador, entrou em seu ciclo descendente. A falta
de financiamento e o bloqueio às importações favoreceram o desenvolvimento
industrial. A fisionomia econômica começou a se alterar profundamente.
A queima do café
– A demonstração mais evidente da inadequação do modelo agrário-exportador
brasileiro ao mercado internacional capitalista foi o beco sem saída em que se
encontrava a política cafeeira. Mesmo após a ascensão de Vargas, procurou-se
proteger o café com base na mesma política de valorização herdada da República
Velha. Qual o resultado? Empréstimo externo, endividamento crescente e queima do
café assim adquirido. O aumento extraordinário da dívida externa levou
finalmente o governo ao seu congelamento, em 1938-39. Queimaram-se 78 milhões de
sacas de café até 1944. O absurdo da situação, por si mesmo, indicou novos
caminhos.
Na verdade, desde o Convênio de Taubaté (1906), a economia
cafeeira havia entrado numa crise que se repetiria de forma permanente, como um
círculo vicioso. O empréstimo externo para financiar e depois queimar e destruir
a produção excedente, a fim de manter o preço e a lucratividade dos
cafeicultores, estimulava a produção, tornando necessários novos empréstimos.
Dessa forma, a situação foi se agravando cada vez mais, e a política de
valorização apenas adiou a catástrofe final, que veio com a crise de 1929. Nesse
contexto, o desenvolvimento industrial e a diversificação da economia eram um
rumo "natural" a ser tomado.
O
Desenvolvimento Industrial
As inovações de
Vargas – Já nos referimos anteriormente à relação
existente entre a economia cafeeira e a industrialização. Na verdade, a
industrialização no Brasil começou sem apoio decidido do Estado, sem uma clara
política voltada para ela. Na era de Vargas, esse reforço finalmente apareceu, e
as realizações efetivamente inovadoras tomaram forma.
Um plano qüinqüenal, elaborado em 1939 por iniciativa de
Vargas e seu ministro da Fazenda, Sousa Costa, tinha como meta "uma usina de
aço, fábrica de aviões, usinas hidrelétricas em Paulo Afonso, drenagem do rio
São Francisco, estrada de ferro e de rodagem e a compra na Alemanha de navios
para o Lloyd Brasileiro, de destróieres e aviões". Apenas parte desse plano foi
levada a cabo, mas a importância para a vida nacional das inovações efetivadas
não foi pequena.
Ora, a inovação mais importante consistiu “em um novo tipo de
interferência do Estado, em nível da economia. Até então, ele organizara e
centralizara, intensificando os processos econômicos já existentes: na
agricultura, estimulando a diversificação da produção e suportando, em nível
mais oneroso do que se fizera na República Velha, os preços do café; na
indústria, concedendo facilidades de financiamento, de créditos a juros baixos
através do Banco do Brasil. Agora, através da instalação de novas indústrias,
estatais, o Estado assumia o papel de principal investidor. Criavam-se também,
com isso, as bases institucionais de que emergiria uma nova espécie de grupo
burocrático - composta de militares e civis, bem mais duradoura do que o próprio
regime de Vargas, e que proliferaria nos anos 50 -, uma” burocracia industrial
“, amplamente remunerada e prestigiada. Surgia um novo agente econômico (e
político), o ‘tecnocrata’”.
“Além disso, esses investimentos tinham uma significação
intrínseca: em sua maioria canalizados para a indústria pesada, setor pouco
atraente para os investidores particulares, em que a remuneração do capital se
faz a longo prazo, resultaram na instauração das condições infra-estruturais
para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil”.
Os efeitos da Segunda
Guerra (1939-1945) – A eclosão da Segunda Guerra
Mundial (19391945) teve efeitos favoráveis à política de industrialização em
curso no Brasil, pois, "além de passarem a ter o mercado interno a seu inteiro
dispor, muitas indústrias brasileiras viram-se chamadas a preencher o vácuo
deixado, em outros países, pela perda de contato com os seus fornecedores
tradicionais de produtos manufaturados. Assim, a exportação de tais artigos
tornou-se, pela primeira vez, um item ponderável na pauta exportadora do país".
Conseqüentemente, os industriais, sobretudo do Rio de Janeiro
e de São Paulo, puderam ampliar suas funções. O Estado encarregou-se de criar a
infra-estrutura necessária. Através de empréstimos do Eximbank (banco
semi-oficial norte-americano), Vargas obteve o empréstimo desejado para
construir a Usina de Volta Redonda (1941). Os meios de transporte para alimentar
a usina foram viabilizados: incrementou-se o transporte marítimo para trazer o
carvão do sul (Santa Catarina); equipou-se a estrada de ferro Central do Brasil
para transportar o minério extraído em Minas Gerais, onde foi criada a Companhia
do Vale do Rio Doce (1942).
De acordo com o mesmo espírito nacionalista que presidiu a
formação da indústria pesada no Brasil, o Estado interveio na formação do
Conselho Nacional do Petróleo (1938), a fim de controlar o refinamento e a
distribuição do combustível, essencial para assegurar o desenvolvimento dos
transportes.
A aviação
– A aviação comercial no Brasil começou em 1925, com a instalação de uma linha
aérea francesa ligando Rio de Janeiro e Buenos Aires. Em Porto Alegre, foi
fundada a Viação Aérea Rio-Grandense (Varig). Outras companhias apareceram, como
a Cia. Sindicator Condor (1927), futura Cruzeiro do Sul, e a Nyrba do Brasil
(1928), futura Panair do Brasil.
Contradições do
Estado Novo – Desde a Primeira Guerra (1914-1918),
passando pela crise de 1929 até a Segunda Guerra (1939-1945), havia no Brasil
uma conjuntura favorável à industrialização, que, não obstante, se efetivou
associada à economia cafeeira e não em oposição a ela. Na realidade, os capitais
investidos nas indústrias eram provenientes da acumulação no setor agrícola,
donde se conclui que a exploração da grande massa rural era a chave daquela
acumulação. Por isso, apesar de sua aparência antioligárquica, o Estado Novo
manteve intocado o sistema de dominação no campo. Daí, para Lourdes Sola, "as
características contraditórias do Estado Novo, combinando aspectos
progressistas, como o impulso à industrialização, e conservadores, como a
repressão aos movimentos de coerção apoiado nos grupos militares(...)”. Tomado
em conjunto, na era de Vargas, particularmente no período do Estado Novo, o
Estado funcionou, efetivamente, como o mais poderoso instrumento de promoção da
acumulação de capitais, colocando o Brasil nos trilhos do capitalismo. À medida
que o Estado autoritário getulista criou condições para o deslanche da
industrialização, inevitavelmente criou também condições para a ampliação do
debate em torno da forma do desenvolvimento. A burguesia passou a exigir uma
participação maior nas decisões, e isso implicava a passagem do Estado para o
segundo plano, apagando sua pesada e incômoda presença no campo econômico. Em
outros termos, o Estado Novo foi "adequado" para promover a "acumulação
primitiva" de capital. Uma vez cumprida essa etapa, a própria forma do Estado
passou a ser obstáculo a superar, e a "redemocratização" tornou-se o caminho
inevitável, selando o destino de Vargas.
O
Brasil na Conjuntura da Segunda Guerra Mundial
As indecisões
– Embora identificado com os regimes totalitários europeus, o Estado Novo
getulista conservava-se neutro em relação ao conflito que eclodira em 1939,
entre os Estados liberais e o nazi-fascismo europeus.
Apesar das
pressões norte-americanas, o governo continuava indeciso. E essa indecisão era
reflexo das tendências contraditórias dos homens do governo: enquanto Filinto
Müller, chefe da polícia do Rio, e Francisco Campos eram favoráveis às potências
fascistas do eixo Berlim-Roma-Tóquio, Osvaldo Aranha colocava-se contra. Entre
as duas tendências oscilavam os generais Góis Monteiro e Dutra.
O rompimento com o Eixo
– A inclinação a favor das potências aliadas deu-se a partir do sucesso das
negociações de empréstimos entre o Brasil e o Eximbank, em 1941. Já na II
Conferência de Consulta dos Chanceleres no Rio de janeiro, em meados de janeiro
de 1942, a aliança política entre Brasil e Estados Unidos foi efetivada.
Tornou-se inevitável o rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. Em março
do mesmo ano, o comprometimento do Brasil se aprofundou, com a assinatura de um
acordo que permitia aos Estados Unidos a utilização das costas nordestinas como
bases aeronavais.
A entrada do Brasil na guerra
– A participação direta do Brasil no conflito mundial aconteceu após repetidos
ataques aos navios brasileiros por parte da força submarina alemã. Cerca de
dezoito navios foram perdidos nesses ataques, realizados até em águas
brasileiras. Além das perdas materiais, 607 brasileiros foram mortos.
Evidentemente, isso provocou reações espontâneas que resultaram em manifestações
populares exigindo a entrada do Brasil na guerra. Em 21 de agosto de 1942,
finalmente, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, declarou
oficialmente guerra contra a Itália e a Alemanha.
A
participação do Brasil limitou-se de início ao fornecimento de matérias-primas
estratégicas e ao auxílio no policiamento do Atlântico Sul. Somente em 1944 foi
enviado à Itália um contingente de 23 334 soldados, que formaram a Força
Expedicionária Brasileira (FEB), sob o comando do general Mascarenhas de Morais.
Na Itália, incorporada ao 5°. Exército norte-americano - chefiado pelo general
Clark -, a FEB obteve algumas vitórias contra as tropas fascistas, destacando-se
as batalhas de Monte Castelo e Montese.
No entanto,
o triunfo das forças democráticas do mundo contra a barbárie fascista pôs o
Estado Novo em posição extremamente incômoda. No dia seguinte ao final da
guerra, a ditadura de Vargas já não tinha lugar, pois havia sido ultrapassada
pelos acontecimentos.
A
Queda do Estado Novo
Reflexos políticos da
Segunda Guerra – A partir de 1942, quando a
posição do Brasil se definiu claramente a favor das potências liberais, o
engajamento no grande conflito não pôde deixar de repercutir na conjuntura
política interna. Como resolver a contradição de um Estado inspirado no fascismo
italiano que se empenhara na luta antifascista, em defesa dos ideais
antiautoritários.
A crise interna –
É claro que as repercussões da Segunda Guerra, por si sós, não explicam a
transformação política no Brasil. Na verdade, elas se entrelaçaram à crise
política interna, formando uma complexa rede de contradições que resultou na
criação de conjunturas favoráveis ao desmantelamento do Estado Novo.
Em 1943, esgotou-se o limite que o Estado Novo impusera “para
a legitimação, por meio de um plebiscito, da Constituição outorgada em 1937”.
Nessa conjuntura surgiu o Manifesto dos Mineiros (outubro de 1943), assinado por
Virgílio de Melo Franco, Afonso Arinos, Milton Campos, Magalhães Pinto, Adauto
Lúcio Cardoso, Odilon Braga, Pedro Aleixo e Bilac Pinto, futuros líderes da
União Democrática Nacional (UDN). O citado documento, reconhecendo "que o Brasil
está em fase de progresso material e tem sabido mobilizar muitas das suas
riquezas naturais, aproveitando inteligentemente as realizações do passado e as
eventualidades favoráveis do presente", criticava a "ilusória tranqüilidade e a
paz superficial que se obtêm pelo banimento das atividades cívicas, [que] podem
parecer propícias aos negócios e ao comércio, ao ganho e à própria prosperidade,
mas nunca benéficas ao revigoramento dos povos”. Em síntese, o manifesto exigia
a participação política dos agentes do progresso econômico, isto é, um
desenvolvimento político correspondente e compatível com a prosperidade
material.
A vitória dos Aliados
– A crise interna acompanhou o progressivo avanço dos Aliados na Segunda Guerra.
E, aliás, a coincidência desse avanço com as etapas de redemocratização no
Brasil, como afirma Weffort, “não é simples fruto do acaso”. O próprio Vargas,
sentindo o comprometimento de seu poder, assumiu, ambiguamente, uma posição mais
flexível. No seu discurso de novembro de 1943 declarou: “Quando terminar a
guerra, em ambiente próprio de paz e ordem, com as garantias máximas à liberdade
de opinião, reajustaremos a estrutura política da nação, faremos de forma ampla
e segura as necessárias consultas ao povo brasileiro”.
Apesar dessa declaração, as forças de oposição que estavam
emergindo não acolheram com entusiasmo a promessa de Vargas. Em 1945, quando a
guerra chegou ao fim, essas forças se manifestaram, levando o Estado Novo à
inelutável desagregação.
As agitações
– As agitações pela redemocratização iniciaram-se com o I Congresso Brasileiro
de Escritores, em janeiro de 1945, que se manifestou favoravelmente ao
restabelecimento da democracia. As declarações de José Américo de Almeida, no
jornal Correio da Manhã, tiveram um grande impacto. Francisco Weffort assim vê o
momento: "Da parte do governo há o ato adicional prometendo a realização de
eleições para o dia 2 de dezembro. Quase ao mesmo tempo rompe-se o dique da
censura à imprensa. Logo depois, aparece a candidatura do brigadeiro Eduardo
Gomes, articulada pela oposição liberal, que, por sua vez, passa a constituir-se
em partido: União Democrática Nacional (UDN). E em março surge a candidatura do
general Enrico Dutra, que fora ministro da Guerra do Estado Novo. À sua volta
articulavam-se as forças governistas, que logo dariam origem ao Partido Social
Democrático (PSD); a segunda agrupação governista deveria surgir depois e para
aderir igualmente à candidatura de Dutra" 9.
A descompressão da vida política promoveu a formação de
agremiações partidárias que exprimiam os anseios até então represados. Para
Lourdes Sola, o "Partido Social Democrático, que tinha Dutra por candidato, era
integrado pelas oligarquias rurais, por industriais e banqueiros habituados a
negociações com o governo central" 1°. Todavia, esse partido não possuía unidade
ideológica, embora controlasse uma poderosa máquina eleitoral.
O Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB) – mobilizava a burocracia
sindical ligada ao trabalhismo, sob a direção de seus criadores, Marcondes
Filho, Hugo Borghi, e de seu principal ideólogo, Alberto Pasqualini. O governo
procurava organizar assim, agora sob forma partidária, um dos outros pólos em
que se baseara seu prestígio, as camadas populares urbanas, que passaram a
representar um conjunto significativo de votos. A ideologia populista desse
partido mantinha e reforçava a tradição inaugurada por Vargas.
A União Democrática
Nacional (UDN) – Ainda segundo a autora, fundada
em 1944, a UDN reunia os elementos antigetulistas: antigos liberais
constitucionais como Armando Sales, Júlio de Mesquita Filho, proprietários de
uma cadeia de jornais como Assis Chateaubriand, o dono do Correio da Manhã,
Paulo Bittencourt, e a burguesia comercial urbana, ligada aos interesses
exportadores e importadores, prejudicados em seus lucros pelo intervencionismo
econômico do Estado Novo. Contava também com a adesão das classes médias
urbanas, assustadas com a retomada do processo inflacionário, que se acentuara a
partir de 1942. A ideologia da UDN, politicamente liberal, no plano econômico se
manifestava também liberal, reivindicando a liquidação do protecionismo,
identificado como causa principal do aumento dos preços. Isso conquistava a
simpatia daquelas camadas médias, cujas perspectivas econômicas se orientavam
pelo ponto de vista do consumidor. Uma ala da UDN, a Esquerda Democrática, mais
tarde se desdobraria numa nova organização, o Partido Socialista Brasileiro
(PSB).
A Anistia
– Diante das pressões crescentes da opinião pública, Getúlio decretou anistia
aos presos políticos, inclusive ao líder comunista Luís Carlos Prestes, que
estava preso desde 1936, com o fracasso da intentona comunista de 1935. Depois
de nove anos na prisão do Estado Novo, Prestes voltou a atuar, organizando no
dia 23 de maio de 1945 uma gigantesca manifestação popular no Rio de Janeiro.
Curiosamente, nessa manifestação, o Partido Comunista, legalizado desde maio,
expressou seu apoio ao governo de Getúlio. Apesar de estranha, tal atitude do
PCB estava de acordo com sua linha política, baseada no antiiperialismo e na
aliança com as forças progressistas nacionais. Além disso, o apoio a Getúlio
expressava também a presença da diretriz, fixada pela União Soviética, de
formação de uma frente popular nos países que lutaram contra o Eixo.
O queremismo
– No segundo semestre de 1945, a tônica das movimentações políticas mudou a
ênfase. Até o primeiro semestre do mesmo ano, a campanha eleitoral absorvera as
energias políticas. A partir do semestre seguinte, a tônica recaiu sobre a
questão da Constituinte, que deveria reunir-se somente depois da eleição
presidencial, marcada para 2 de dezembro daquele ano. Foi quando se expandiu a
pregação do "queremismo" (" Queremos Getúlio"), orientada pelos trabalhistas e
apoiada pelos comunistas. Vargas discretamente alimentou esses movimentos
populares urbanos, propondo a "lei malaia" (junho de 1945), como ficou conhecida
a lei antitruste, que tinha um caráter nitidamente nacionalista e
antiimperialista.
A queda de Vargas
– O queremismo representou, portanto, o respaldo - ainda que indefinido - de que
Getúlio necessitava para continuar no poder. E isso despertou na UDN uma
desconfiança extrema a qualquer ação de Getúlio. A situação se tornou mais clara
a partir de agosto de 1945, quando a manobra continuísta se evidenciou com a
evolução do queremismo para o grito de "Constituinte com Getúlio”. Isso veio
inquietar a oposição udenista, pois a Constituinte antes das eleições
presidenciais significaria a preservação do poder nas mãos de Vargas, segundo
Weffort, "pelo menos até o momento em que estivesse estabelecida uma nova ordem
institucional, assegurando-se a possibilidade de uma influência decisiva sobre a
sua elaboração" 13. No início do mês de outubro, o Partido Comunista estava
inteiramente disposto a apoiar Vargas. Mas "é precisamente nesse momento, em que
as forças getulistas e seus aliados estão no máximo de sua capacidade de ação,
que se desencadeia o Golpe de Estado" 14. Um grande comício pró -getulista,
marcado para o dia 27, foi proibido pelo chefe de policia do Distrito Federal.
Getúlio reagiu, substituindo-o pelo seu irmão, Benjamim Vargas. Contudo, a
derradeira manobra encontrou forte resistência em Góis Monteiro. Dois dias
depois, em 29 de outubro de 1945, Getúlio foi obrigado a abandonar o poder,
transmitindo-o ao Judiciário. Terminou aí o Estado Novo.
A
Redemocratização de 1946
As duas fases da redemocratização
– O processo de redemocratização comportou pelo menos duas etapas distintas: a
primeira vai de outubro de 1943, data do Manifesto dos Mineiros, até 29 de
outubro de 1945; a segunda começa com a presidência transitória de Linhares (29
de outubro de 1945 a 1° de fevereiro de 1946) e vai até setembro de 1946, com o
encerramento dos trabalhos da Constituinte. A primeira fase correspondeu às
agitações democráticas que culminaram com a queda de Vargas. A segunda - que
Weffort considera "a fase da colheita" - correspondeu à reorganização do país
segundo as determinações da fase anterior.
A vitória aparente da UDN
– Com o golpe de 9 de outubro de 1945 e a deposição de Vargas, a UDN
aparentemente tinha saído vitoriosa. Visto mais de perto, o golpe desencadeado
pela UDN limitou-se à mera conspiração, com caráter palaciano, sem o concurso da
mobilização popular. De modo que a derrubada de Vargas não teve, como se
esperava, a devida repercussão política e popular. Ao contrário, a forma como
Getúlio caiu fez com que ele aparecesse, aos olhos da opinião pública, como
vítima do "partido dos ricos". O prestígio do ditador não diminuiu e,
inversamente ao que se poderia supor, o "queremismo" não fora motivado apenas
por forças oficiais. Surpreendentemente, a popularidade de Getúlio, "pai dos
pobres", mostrou-se bem acima das expectativas criadas nas eleições
presidenciais que levaram o general Dutra ao poder.
O PCB –
O PCB, por sua vez, manteve-se dentro da orientação anterior à queda de Vargas.
Para preservar a "frente" e a aliança com as "forças progressistas", ofereceu
apoio a Linhares e, posteriormente, a Dutra.Afastou-se de Getúlio, acusando-o de
ter traído o povo. Estranhamente, a esquerda tinha como linha política apoiar
sempre a situação, evitando - parece - a qualquer custo passar para a oposição.
A persistência do Estado Novo
– A redemocratização ambicionada por toda a oposição antigetulista estava
limitada desde o início, pois as forças políticas em jogo tinham sido formadas
no seio do Estado Novo e não se haviam libertado do passado recente. Basta
referir aqui o fato de o próprio Dutra ter sido ministro da Guerra de Getúlio.
Dutra dependia de Vargas, uma vez que não podia governar senão com o apoio dos
grandes partidos (PSD e PTB) formados por Getúlio no fim do Estado Novo.
A
persistência do Estado Novo foi favorecida ainda pela emergência do movimento
operário, que retomou seu vigor no princípio do ano de 1946, sem, todavia
encontrar ressonância nos partidos políticos organizados. Estes não possuíam a
sabedoria de compreender que a verdadeira democracia tinha que passar pelo teste
da incorporação das forças operárias. A cisão entre as elites políticas e a
massa popular facilitou a adoção de medidas repressivas, próprias do Estado
Novo: intervenções nos sindicatos, dispositivos legais que permitiam o controle
e a repressão do operariado. Mesmo o PCB não soube canalizar as forças
operárias, pois era adepto da "ordem e tranqüilidade" e estava aquém da proposta
do operariado.
A alteração
da conjuntura das relações internacionais, logo após o término da Segunda Guerra
Mundial, também contribuiu para a manutenção de traços do Estado Novo. Com
efeito, depois da derrota do nazi-fascismo, o declínio da Europa - antes, o
centro hegemônico mundial - era evidente. O eixo das relações internacionais
deslocou-se para as duas superpotências em ascensão: Estados Unidos e União
Soviética. A relação bipolar que se impôs daria origem ao principal fenômeno do
pós-guerra: a guerra fria.
Bibliografia:
História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual
História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
Quem foi Getúlio
Dorneles Vargas? Qual a sua real importância para o Brasil? De que maneira as
medidas trabalhistas a favor do povo vêm sendo sistematicamente suprimidas pelo
neoliberalismo global em detrimento do povo brasileiro? Por que os últimos
governos vêm desfazendo tudo de bom que Getúlio havia feito e passam
literalmente a entregar o Brasil aos Norte-americanos?
Esta e outras
perguntas estão respondidas nos links abaixo:
Presidente Getúlio Vargas
FHC, o pior governante que este país já teve!
Governo Lula - a Era da Traição!
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
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