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À Margem da História
Introdução
Foi
Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar seus livros na
Editôra Lello, de Portugal. O êxito editorial do autor de Livro de Prata
(pelo assunto e pelo estilo) o animou a aconselhar seu colega da Academia à
prestigiosa casa do Pôrto.
A
morte inesperada de Euclides, porém, as naturais dificuldades para os
necessários contactos com editôres e a falta de afinidade dos portuguêses com a
temática euclidiana fizeram com que as seguintes edições de Contrastes e
Confrontos e À Margem da História se epaçassem cada vez mais e não tivessem a
indispensável assistência direta do Autor, ou de revisores afetios à matéria.
À
Margem da História (obra póstuma que só saiu um mês após a morte do escritor)
vem em sua 1ª edição - provàvelmente pela falta de uma revisão final
de Euclides - eivada de erros e descuidos. Graças ao zêlo de seus editôres, as
ediçòes seguintes se apresentam mais corretas e melhor revistas.
Sendo
crescente entre nós o interêsse pela obra euclidiana e dada a importância dos
livros para a perfeita compreensão da problemática do Autor, impunha-se fôssem
eles editados entre nós, na nossa ortografia e sob nosso cuidados revisórios.
Graças
aos entendimentos da Editôra Lello Brasileira, de São Paulo, conseguindo
autorização da Editôra Lello, do Pôrto, e com o estabelecimento de textos feito
pelo Sr. Dermal Monfré, temos agora (como iniciativa da editôra nacional em
comemoração ao Ano Euclidiano) os dois livros editados no Brasil.
À
Margem da História compõe-se de quatro partes: Na Amazônia, Terra Sem História
(7 capítulos, sôbre essa região), Vários Estudos (3 capítulos, assuntos
americanos), Da Independência à República (ensaio histórico) e Estrêlas
Indecifráveis (crônica).
O
livro apresenta, bem nítidas, quatro constantes da personalidade cultural de
Euclides: o cultor da língua e verdadeiro esteta da linguagem, o ensaísta e o
humanista brasileiro.
Não
há preciosismo no falar euclidiano; há, sim, o rigorismo da palavra exata. Seu
vocabulário riquíssimo, técnico e profissional quando necessário, era-lhe o
instrumento próprio para captar tôdas as sutilezas da realidade e expor o
logicismo de seu raciocínio de investigador e a lucidez do intérprete.
Nas
palavras densas, carregadas de emoções e evocações, dispostas numa estruturação
sintática de ritmo veemente, que se torna frêmito de vida e poesia, temos a
própria autenticidade de Euclides, numa linguagem que é bem tropicalmente
brasileira, no transbordamento fenomenológico de formas, sons, calor e luz. Se
n’Os Sertões êle foi mais improvisado e por isso mais grandiloqüente e
espetacular, agora ei-lo mais equilíbrio e maturidade. O capítulo Judas
Ahsverus (que nasceu inteiriço como um bloco de beleza) continua sendo uma das
melhores páginas da língua portuguêsa.
O espírito
científico de Euclides, sempre estudando e sumariando os assuntos (formado na
juventude conforme o espírito da época), dado a hipóteses e prefigurações
muitas vêzes discutíveis, extravasa-se na insopitável vocação ao ensaísmo,
exigindo-lhe conhecimentos e pesquisas, para que se torne mais lúcido, mais
penetrante, melhor intérprete. Por isso achamos que há necessidade de uma
iniciação cultural para se sentir e compreender Euclides. Não estranhamos ser
êle um escritor pouco popular. Sua irrefreável tendência à interpretação
fisiológica dos fenômenos naturais mostra-se através de uma vibração romântica
e idealística, fazendo surgir, dos algarismos e teorias, sua figura inigualável
de artista.
Euclides
é inesgotável. Por mais que se queira defini-lo e caracterizá-lo, ainda se
descobrem novas veredas e magníficas perspectivas que escaparam à
delimitação...
Seu
tema central é a pátria e a gente brasileira. N’Os Sertões o objetivo
último é o homem; n"Amazonia, o tema principal é a terra.
Seu
nacionalismo mais se prende à preocupação do bem comum e da denúncia das
estruturas desequilibradas de nossa sociedade. Já de algum tempo era sua
intenção escrever um "segundo livro vingador". Deveria referir-se à
Amazônia, acusando os descasos pela terra e o desprêzo pelo homem.
Deveria
chamar-se Paraíso Perdido.
Não
o completou, porém, e alguns de seus capítulos constituem a Terra Sem
História, que abre êste volume.
São,
no entender de alguns euclidianos, as mais expressivas e belas páginas de
Euclides.
Quando,
em 1904, escreveu a José Veríssimo sôbre sua ida ao Acre (como Chefe da
Comissão de Reconhecimento das Nascentes do Rio Purus) confessa o intento:
"Aquelas paragens, hoje, depois dos últimos movimentos diplomáticos, estão
como o Amazonas antes de Tavares Bastos; se eu não tenho a visão admirável
dêste, tenho o seu mesmo anelo de revelar os prodígios da nossa
terra".
Seu
desejo era mostrar os aspectos físicos e as riquezas essenciais da exuberante
região.
"Além
disso, se as nações estrangeiras mandam cientistas ao Brasil, que absurdo
haverá no encarregar-se de idêntico objetivo um brasileiro?"
O
grande rio teve o intérprete à altura.
Conhecerá
melhor a Amazônia aquêle que ler as páginas de Terra Sem História. Não é
sòmente a geografia descritiva que o empolga; são suas transfigurações no
tempo.
O
mesmo crítico da caatinga, d’Os Sertões, é aqui o arrebatado revelador
do sistema hidrográfico da (ainda hoje) desordenada região. E se o sertanejo é
antes de tudo um forte, o seringueiro, é um tipo de lutador excepcional.
Devido, porém, ao egoísmo desenfreado dos patrões opulentos, o homem ali
"trabalha para escravizar-se".
Se
n’Os Sertões a denúncia fica mais como um alerta, aqui Euclides é mais
objetivo e recomenda leis trabalhistas (isso em 1906...) para que "salvemos
aquela sociedade obscura e abandonada".
Enquanto
Contrastes e Confrontos está recheado de estudos e ensaios que são o
desdobramento ou a complementação d’Os Sertões, êste outro em nada a
êles se assemelha, a não ser pelo mesmo tema da integração nacional - através
da penetração na Amazônia - e o mesmo desvêlo pelo sofrido homem de nossa
pátria, o que faz de Euclides da Cunha um dos primeiros e mais ardorosos
cultores do humanismo brasileiro.
Continuam
aqui suas preocupações e seus interêsses pelos problemas americanos,
principalmente os referentes à América do Sul. Isso em 1904. Se os tivéssemos
acompanhado e estudado com igual dedicação e cuidado, hoje teríamos uma alinaça
latino-americana melhor e mais eficientemente estruturada e, conseqüentemente, uma
vida econômica e social mais condinzente com nossas possibilidades e
riquezas.
O
historiador Euclides tem, no esbôço Da Independência à República, um
ensaio cuja leitura deve ser obrigatória mesmo para os especialistas no
assunto. É lúcido e original na interpretação do evoluir de nosso processo
histórico-social.
O
livro termina com um capítulo que parece chamar a atenção para os céus
indecifráveis, assunto que hoje seria o ponto alto das pesquisas científicas,
nas penetrações espaciais. É poesia, ciência e confissão do agnóstico diante do
infinito desconhecido e sua ânsia de decifrá-lo...
Os
euclidianos brasileiros, exultantes, muito têm a agradecer à Lello Brasileira
S.A., pelo retôrno dêstes dois filhos pródigos...
<DIV ALIGN=right>
Oswaldo
Galotti
</DIV><DIV
ALIGN=right></DIV><DIV ALIGN=right>Grêmio Euclides da Cunha, </DIV><DIV ALIGN=right>de São José do Rio
Pardo</DIV>
I Parte
Na Amazônia, Terra Sem História
Impressões Gerais
Ao revés
da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, diante do
Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o
grande rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par,
capaz daquele terror a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo
gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei
quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a hiléia prodigiosa,
com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao
defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo
tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente artístico, isto é,
como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem
harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo
inferior a um sem número de outros lugares do nosso país. Tôda a Amazônia, sob
êste aspecto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do
Munduba.
É
sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano
horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme
moldura que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras
graníticas das Guianas. E como lhe falta a linha vertical, preexcelente na
movimentação da paisagem, em poucas horas o observador cede às fadigas de
monotonia inaturável e sente que o seu olhar, inexplicàvelmente, se abrevia nos
sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.
***
A
impressão dominante que tive, e talvez correspondente a uma verdade positiva, é
esta: o homem, ali, é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado
nem querido - quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e
luxuoso salão. E encontrou uma opulenta desordem... Os mesmos rios ainda não se
firmaram nos leitos; parecem tatear uma situação de equilíbrio derivando,
divagantes, em meandros instáveis, contorcidos sem "sacados", cujos
istmos a reveses se rompem e se soldam numa desesperadora formação de ilhas e
de lagos de seis meses, e até criando formas topográficas novas em que êstes
dois aspectos se confundem; ou expandindo-se em "furos" que se
anastomosam, reticulados e de todo incaracterísticos, sem que se saiba se tudo
aquilo é bem uma bacia fluvial ou um mar profusamente retalhado de
estreitos.
Depois
de uma única enchente se desmancham os trabalhos de um hidrógrafo.
A
flora ostenta a mesma imperfeita grandeza. Nos meios-dias silenciosos - porque
as noites são fantàsticamente ruidosas -, quem segue pela mata, vai com a vista
embotada no verde-negro das fôlhas; e ao deparar, de instante em instante, os
fetos arborescentes emparelhando na altura com as palmeiras, e as árvores de
troncos reilíneos e paupérrimos de flôres, tem a sensação angustiosa de um
recuo às mais remotas idades, como se rompesse os recessos de uma daquelas
mudas florestas carboníferas desvendadas pela visão retrospectiva dos
geólogos.
Completa-a,
ainda sob esta forma antiga, a fauna singular e monstruosa, onde imperam, pela
corpulência, os anfíbios, o que é ainda uma impressão paleozóica. E quem segue
pelos longos rios, não raro encontra as formas animais que existem,
imperfeitamente, como tipos abstratos ou simples elos da escala evolutiva. A
"cigana" desprezível, por ex., que se empoleira nos galhos flexíveis
das oiranas, trazendo ainda na asa de vôo curto a garra do réptil...
Destarte
a natureza é portentosa, mas incompleta. É uma construção estupenda a que falta
tôda a decoração interior. Compreende-se bem isto: a Amazônia é talvez a terra
mais nova do mundo, consoante as conhecidas induções de Wallace e Frederico
Hartt. Nasceu da última convulsão geogênica que sublevou os Andes, e mal
ultimou o seu processo evolutivo com as várzes quaternárias que se estão formando
e lhe preponderam na topografia instável.
Tem
tudo e falta-lhe tudo, porque lhe falta êsse encadeamento de fenômenos
desdobrados num ritmo vigoroso, de onde ressaltam, nítidas, as verdades da arte
e da ciência - e que é como que a grande lógica inconsciente das coisas.
Daí
esta singularidade: é de tôda a América a paragem mais perlustrada dos sábios e
é a menos conhecida. De Humboldt a Em. Goeldi - do alvorar do século passado
aos nossos dias, perquirem-na, ansiosos, todos os eleitos. Pois bem, lêde-os.
Vereis que nenhum deixou a calha principal do grande vale; e que ali mesmo cada
um se acolheu, deslumbrado, no recanto de uma especialidade. Wallace, Mawe, W.
Edwards, d’Orbigny, Martius, Bates, Agassiz, para citar os que me acodem na
primeira linha, reduziram-se a geniais escrevedores de monografias.
A
literatura científica amazônica, amplíssima, reflete bem a fisiografia
amazônica: é surpreendente, preciosíssima, desconexa. Quem quer que se abalance
a deletreá-la, ficará, ao cabo dêsse esforço, bem cpouco além do limiar de um
mundo maravilhoso.
Há
uma frase do Professor Frederico Hartt que delata bem o delíquio dos mais
robustos espíritos diante daquela enormidade. Êle estudava a geologia do
Amazonas quando em dado momento se encontrou tão despeado das concisas fórmulas
científicas e tão alcandorado no sonho, que teve de colhêr, de súbito, tôdas as
velas à fantasia:
-
"Não sou poeta. Falo a prosa da minha ciência. Revenons!"
Escreveu;
e encarrilhou-se nas deduções rigorosas. Mas decorridas duas páginas não se
forrou a novos arrebatamentos e reincidiu no enlêvo... É que o grande rio,
malgrado a sua monotonia soberana, evoca em tanta maneira o maravilhoso, que
empolga por igual o cronista ingênuo, o aventureiro romântico e o sábio
precavido. As "amazonas" de Orellana, os titânicos curriquerês
de Guillaume de L’Isle e a Mana del Dorado de Walter Raleigh, formando
no passado um tão deslumbrante ciclo quase mitológico, acolchetam-se em nossos
dias às mais imaginosas hipóteses da ciência. Há uma hipertrofia da imaginação
no ajustar-se ao desconforme da terra, desequilibrando-se a mais sólida
mentalidade que lhe balanceie a grandeza. Daí, no próprio terreno das
indagações objetivas, as visões de Humboldt e a série de conjeturas em que se
retravam, ou contrastam, todos os conceitos, desde a dinâmica de terremotos de
Russell Wallace ao bíblico formidável das galerias pré-diluvianas de Agassiz.
Parece
que ali a imponência dos problemas implica o discurso vagaroso das análises: às
induções avantajam-se demasiado os lances da fantasia. As verdades desfecham em
hipérboles. E figura-se alguma vez em idealizar aforrado o que ressai nos
elementos tangíveis da realidade surpreendedora, por maneira que o sonhador
mais desensofrido se encontre bem na parceria dos sábios deslumbrados.
Vai-se,
por ex., com Fred. Katzer a seriar, a escandir e aconfrontar velhíssimos
petrefactos ou graptólitos numa longa romaria ideal pelos mais remotos pontos
nas mais remotas idades - largo tempo, a debater-se entre as classificações
maciças, a enredar-se na trama das raízes gregas das nomenclaturas bravias - e
de improviso, os dizeres da ciência desfecham num quase idealismo: as análises
rematam-nas prodígios; as vistas abreviadas nos microscópios desapertam-se no
descortino de um passado muitas vêzes milenário; e esboçados os contornos
estupendos de uma geografia morta, alonga-se-lhe aos olhos a perspectiva
indefinida daquele extinto oceano médio-devônico que afogava todo o Mato Grosso
e a Bolívia, cobrindo quase tôda a América meridional e chofrando no levante as
antiqüíssimas arribas de Goiás, últimos litorais do continente
brasilio-etiópico que aterrava o Atlântico indo abranger a África... Segue-se
com os naturalistas da Comissão Morgan, e a história geológica, a despeito de
linhas mais seguras, não perde o traço grandioso, desenvolvendo-se às duas
margens do largo canal terciário que por longo tempo separou os planaltos
brasileiros e os das Guianas, até que o vagaroso sublevar dos Andes, no
Ocidente, serrando-lhe um dos extremos, o transmudasse em golfo, em estuário,
em rio.
Ao
cabo, ainda atendo-se aos fatos atuais da fisiografia amazônica, restam outros
agentes nímio perturbadores da fria serenidade das observações científicas.
* * *
Basta
mostrar-se de relance que, ainda nos casos mais simples, há no Amazonas um
flagrante desvio do processo ordinário da evolução das formas topográficas.
Em
tôda a parte a terra é um bloco onde se exercita a molduragem dos agentes
externos entre os quais os grandes rios se erigem como principais fatôres, no
lhe remodelarem os acidentes naturais, suavizando-lhos. Compensando a
degradação das vertentes com o alteamento dos vales, correndo montanhas e
edificando planuras, êles vão em geral entrelaçando as açòes destrutivas e
reconstrutoras, de modo que as paisagens, lento e lento transfiguradas,
reflitam os efeitos de uma estatuária portentosa.
Assim
o Hoang-Ho aumentou a China com um delta, que é uma província nova; e, ainda
mais expressivo, o Mississipi assombra o naturalista, com a expansão secular do
atêrro desmedido que em breve chegará às bordas da profundura onde se encaixa o
Gulf-Stream. Nas suas águas barrentas andam os continentes dissolvidos.
Mudam-se países. Deconstituem-se territórios. E há um encadeamento tão lógico
nos seus esforços contínuos, onde incidem as grandes energias naturais, que o
acompanhá-los implica algumas vêzes o acompanhar-se o próprio rumo de um
aspecto qualquer da atividade humana: das páginas de Herôdoto às de Maspéro,
contempla-se a gênese de uma civilização de par com a de um delta; e o
paralelismo é tão exato, que se justificam os exageros dos que, a exemplo de
Metchnikoff, vêem nos grandes rios a causa preeminente do desenvolvimento das
nações.
Ao
passo que no Amazonas, o contrário. O que nêle se destaca é a função destruidora,
exclusiva. A enorme caudal está destruindo a terra. O Professor Hartt,
impressionado ante as suas águas sempre barrentas, calculou que "se sôbre
uma linha férrea corresse dia e noite, sem parar, um trem contínuo carregado de
tijuco e areias, esta enorme quantidade de materiais seria ainda menor do que a
de fato é transportada pelas águas..."
Mas
tôda esta massa de terras diluídas não se regenera. O maior dos rios não tem
delta. A Ilha de Marajó, constituída por uma flora seletiva, de vegetais
afeitos ao meio maremático e ao inconsistente da vasa, é uma miragem de
território. Se a despissem, ficariam só as superfícies rasadas dos
"mondongos" empantanados, apagando-se no nivelamento das águas; ou,
salteadamente, algumas pontas de fragueados de arenito endurecido, esparsas, a
êsmo, na amplidão de uma baía. À luz das deduções rigorosas de Walter Bates,
comprovando as conjeturas anteriores de Martius, o que ali está sob o disfarce
das matas, é uma ruína: restos desmantelados do continente, que outrora se estirava,
unido, das costas de Belém às de Macapá - e que se tem de restaurar,
hipotèticamente, em passado longínquo, para explicar-se a identidade das faunas
terrestres, hoje separadas pelo rio, do Norte do Brasil e das Guianas.
O
Amazonas, entretanto, poderia reconstruí-lo em pouco tempo, com os só 3.000.000
de metros cúbicos de sedimentos, que carrega em vinte e quatro horas. Mas
dissipa-os. A sua corrente túrbida, adensada nos últimos lances de seu
itinerário de 6.000 milhas, com os desmontes dos litorais, que dia a dia se
desbarrancam, fazendo recuar a costa que se desenrola desde o Paru ao Araguari,
decanta-se tôda no Atlântico. E os resíduos das ilhas demolidas - entre as
quais a de Caviana que lhe foi antiga barragem e se bipartiu no correr de nossa
vida histórica - vão cada vez mais delindo-se e desaparecendo, no permanente
assalto daquelas correntezas poderosas. Destarte, desafoga-se mais e mais a
desembocadura principal da grande artéria e acentua-se o seu desvio para o
norte, com o abandono contínuo das paragens que lhe demoram a leste e sôbre as
quais êle passou outrora, deixando ainda, nas áreas recém-desvendadas dos
brejos marajoaras, um atestado tangível daquele deslocamento lateral do leito,
que tem dado aos geólogos inexpertos a ilusão de um levantamento ou de uma
reconstrução da terra.
Porque,
na realidade, esta se reconstitui mui longe das nossas plagas. Neste ponto, o
rio, que sôbre todos desafia o nosso lirismo patriótico, é o menos brasileiro
dos rios. É um estranho adversário, entregue dia e noite à faina de solapar a
sua própria terra. Herbert Smith, iludido ante a poderosa massa de águas
barrentas, que o viajente vê em pleno Oceano antes de ver o Brasil,
imaginou-lhe uma tarefa portentosa: a construção de um continente. Explicou:
depondo-se aquêles sedimentos do fundo tranqüilo do Atlântico, novas terras
aflorariam nas vagas e ao cabo de um esfôrço milenário encher-se-ia o golfão
aberto, que se arqueia do Cabo Orange à Ponta do Gurupi, dilatando-se desta
sorte, consideràvelmente, para nordeste, as terras paraenses.
The
king is building his monument! bradou o naturalista encantado e acomodando às
ásperas sílabas britânicas um rapto fantasista capaz de surpreender à mais
ensofregada alma latina. Esqueceu-lhe, porém, que aquêle originalíssimo sistema
hidrográfico não acaba com a terra, ao transpor o Cabo Norte; senão que vai,
sem margens, pelo mar dentro, em busca da corrente equatorial, onde aflui,
entregando-lhe todo aquêle plasma gerador de território. Os seus materiais,
distribuídos pelo imenso rio pelásgico que se prolonga com o Gulf-Stream,
vão concentrando-se e surgindo a flux, espaçadamente, nas mais longínquas
zonas: a partir das costas das Guianas, cujas lagunas, a começar no Amapá, a
mais e mais se dessecam avançando em planuras de estepes pelo mar em fora, até
aos litorais norte-americanos, da Geórgia e das Carolinas, que se dilatam sem
que lhes expliquem o crescer contínuo os breves cursos d’água das vertentes
orientais dos Aleganis.
Naqueles
lugares, o brasileiro salta: é estrangeiro, e está pisando em terras
brasileiras. Antolha-se-lhe um contra-senso pasmoso: à ficção de direito
estabelecendo por vêzes a extraterritorialidade, que é a pátria sem a terra,
contrapõe-se uma outra, rudemente física: a terra sem a pátria. É o efeito
maravilhoso de uma espécie de imigração telúrica. A terra abandona o homem. Vai
em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir o seu verdadeiro
delta em zonas tão remotas do outro hemisfério, traduz, de fato, a viagem
incógnita de um território em marcha, mudando-se pelos tempos adiante, sem
parar um segundo, e tornando cada vez menores, num desgastamento ininterrupto,
as largas superfícies que atravessa.
Não
se lhe apontam formações duradouras, ou fixas. Por vêzes, nas arqueaduras de
seus canais remansam-se as águas fazendo que se deponham os sedimentos
conduzidos e as sementes que acarretam. Então as faculdades criadoras do rio
despontam supreendedoramente. O baixio prestes recém-formado e aflorando à superfície,
delineia-se, em contornos indecisos; define-se logo, vivamente; dilata-se e
ascende, bombeando levemente nas águas; e na ilha que se gera, crescendo e
articulando-se a olhos vistos, apontoada de cabuchos, que se alongam e se
retorcem à superfície à maneira de tentáculos de um prodigioso organismo -
desencadeia-se para logo a luta das espécies vegetais tão viva e tão dramática
que nem lhe faltam no baralhamento dos colmos, das hastes ou das ramagens
revôltas, estirando-se, enredando e confundindo-se, todos os movimentos
convulsivos de uma enorme batalha sem ruídos: dos aningais, que consolidam o
tijuco inconsistente com a infibratura dos risomas estirados; aos mangues, que
os suplantam e repelem para as bordas, em violentos e tumultuários bracejos; aos
javaris altaneiros, que por sua vez recalcam os últimos expelindo-os para as
margens apauladas, e senhoreando os tesos consistentes...
Assim
se erigiu recentemente a Ilha de Cururu, com dois km² de área; e se
reconstróem tôdas as que se observam acima dos canais de Breves.
Mas
formam-se para se destruírem, ou desocarem-se incessantemente. As ilhas
trabalhadas pelas mesmas correntes que as geraram, desbarrancam-se a montante e
restauram-se a jusante, e vão lento e lento derivando rio abaixo, ao modo de
monstruosos pontões desmastreados, de longas proas abatidas e pôpas altas, a
navegarem dia e noite com velocidade insensível. Por fim, desgastam-se e
acabam. A de Urucurituba durou dez anos (1840-1850) mercê da superfície
vastíssima; e apagou-se numa enchente...
O
mesmo fato, nas margens. Os litorais do Amazonas mal lhe definem a calha
desmedida. São margens que evitam o rio. Ficam-lhe, normalmente, fora das
águas, para além das vastas planuras salpintadas de "lagos de terra
firme", que atenuam, feito compensadores, a violência das caudais, nas
cheias. Aí, num cenário mais amplo, se desdobra por vêzes a aparência de uma
construção, em larga escala, de solo. O rio, multífluo nas grandes enchentes,
vinga as ribanceiras e desafoga-se nos plainos desimpedidos. Desarraíga
florestas inteiras, atulhando de troncos e esgalhos as depressões numerosas da
várzes; e nos remansos das planícies inundadas, decantam-se-lhe as águas
carregadas de detritos, numa colmatagem plenamente generalizada. Baixam as
águas e nota-se que o terreno cresceu; e alteia-se de cheia em cheia,
aprumando-se as "barreiras" altas, exsicando-se os pantanais e
"igapós", esboçando-se os "firmes" ondeantes, para logo
invadidos da flora triunfal... até que num só assalto, de enchente, todo êsse
delta lateral se abata.
Numa
só noite (29 de julho de 1866) as "terras caídas" da margem esquerda
do Amazonas desmoronaram numa linha contínua de cinqüenta léguas.
É o
processo antigo, invariável - patenteando-se ainda no diminuto raio da nossa
história. As ribanceiras a pique da antiga costa do Paru, onde apareceram aos
condutícios de Orellana as amazonas lendárias, reduzem-se hoje a um baixio
degredado, visível apenas nas vazantes excessivas.
A
inconstância tumultuária do rio retrata-se ademais nas suas curvas infindáveis,
desesperadoramente enleadas, recordando o roteiro indeciso de um caminhante
perdido, a esmar horizontes, volvendo-se a todos os rumos ou arrojando-se à
ventura em repentinos atalhos. Assim êle se precipitou pela angustura afogante
de Óbidos num abandono completo do antigo leito, que ainda hoje se adivinha no
enorme plaino maremático ganglionado de lagoas, de Vila Franca; ou vai, noutros
pontos, em "furos" inopinados, afluir nos seus grandes afluentes,
tornando-se ilògicamente tributário dos próprios tributários; sempre
desordenado, e revôlto, e vacilante, destruindo e construindo, reconstruindo e
devastando, apagando numa hora o que erigiu em decênios - com a ânsia, com a
tortura, com o exaspêro de monstruoso artista incontentável a retocar, a
refazer e a recomeçar perpètuamente um quadro indefinido...
* * *
Tal
é o rio; tal, a sua história: revôlta, desordenada, incompleta.
A
Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização distante.
Desde os primeiros tempos da colônia, as mais imponentes expedições e solenes
visitas pastorais rumavam de preferência às suas plagas desconhecidas. Para lá
os mais veneráveis bispos, os mais garbosos capitães-generais, os mais lúcidos
cientistas. E do amanho do solo que se tentou afeiçoar a exóticas especiarias,
à cultura do aborígine que se procurou erguer aos mais altos destinos, a
Matrópole longínqua demasiara-se em desvelos à terra que sôbre tôdas lhe
compensaria o perdimento da Índia portentosa.
Esforços
vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens
governamentais, com as suas frotas de centenares de canoas, e os seus
astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus
prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários,
e armavam ràpidamente no altiplano das "barreiras" as tendas
suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes;
aformoseavam a terra.
Prosseguiam
a outros pontos, ou voltavam - e as malocas, num momento transfiguradas,
decaíam de chôfre, volvendo à bruteza original.
Já
nos fins do século XVIII, Alexandre Rodrigues Ferreira, ao realizar a sua
"viagem filosófica", pela calha principal do grande rio, andara entre
ruínas. Na Vila de Barcelos, capital da circunscrição longínqua,
antolhara-se-lhe, tangível, a imagem do progresso tìpicamente amazônico,
naquele presuntuoso Palácio das Demarcações - amplíssimo, monumental, imponente
- e coberto de sapé! Era um símbolo. Tudo vacilante, efêmero, antinômico, na
paragem estranha onde as próprias cidades são errantes, como os homens,
perpètuamente a mudarem de sítio, deslocando-se à medida que o chão lhes foge
roído das correntezas, ou tombando nas "terras caídas" das
barreiras...
Vai-se
de um a outro século na inaturável mesmice de renitentes tentativas abortadas.
As impressões dos mais lúcidos observadores não se alteram, perpètuamente
desenfluídas pelo espetáculo de um presente lastimável contraposto à ilusão de
um passado grandioso.
Tenreiro
Aranha em 1852, ao erigir-se a província do Amazonas, assumiu a sua direção, e
numa resenha retrospectiva diz-nos do extraordinário progresso que se perdera,
referindo-se a "manufaturas primorosas", a uma indústria extinta em
que "o algodão, o anil, a mandioca e o café tiveram cultura tal que dava
para o consumo sobrando para a exportação; e assim as fábricas de anil, as
cordoarias de piassaba, de fiação, tecidos e rêdes de algodão, de palhinha ou
de penas; as telhas e alvenaria; as de construção civil e naval, com hábeis
artistas, fazendo aparecer templos, palácios, ou possantes
embarcações..."
Recua-se,
porém, exatamente um século, a buscar o período decantado - e num grande
desapontamento observa-se, à luz do relatório feito em 1752 por outro insigne
governador, o Capitão-General Furtado de Mendonça, que a "capitania estava
reduzida à última ruína..." Assim se desconchavam os pareceres, agitando
idênticos desânimos. Ou então se harmonizavam de modo impressionador no
firmarem a mesma decadência das gentes singulares. Em 1762 o Bispo do Grão-Pará,
aquêle extraordinário Fr. João de S. José - seráfico voltaireano que tinha no
estilo os lampejos da pena de Antônio Vieira - depois de resenhar os homens e
as coisas, "assentando que a raíz dos vícios da terra é a preguiça",
resumiu os traços característicos dos habitantes, dêste modo desalentador: -
"lascívia, bebedice e furto." Passam-se cem anos justos. Procura-se
saber se tudo aquilo melhorou; abrem-se as páginas austeras de Russel Wallace,
e vê-se que alguma vez elas parecem traduzir, ao pé da letra, os dizeres do
arguto beneditino, porque a sociedade indisciplinada passa diante das vistas
surpreendidas do sábio - drinking, gambling and lying - bebendo,
dançando, zombando - na mesma dolorosíssima inconsciência da vida...
Assim,
essa indiferença pecaminosa dos atributos superiores, êsse sistemático
renunciar de escrúpulos e êsse coração leve para o êrro, são seculares; e
surgem de um doloroso tirocínio histórico, que vem da"Casa do Paricá"
à "barraca" dos seringueiros. Compulsai os nossos velhos cronistas,
com especialidade o imaginoso Padre João Daniel, e avaliareis o travamento de
motivos físicos e morais que há muito, ali, entibiam os caracteres. E lêde
Tenreiro Aranha, José Veríssimo, dezenas de outros. Nestes livros se espalham,
fracionadas, tôdas as cenas de um dos maiores dramas da impiedade na
História.
Depois
há o incoercível da fatalidade física. Aquela natureza soberana e brutal, em
pleno expandir das suas energias, é uma adversária do homem. No perpétuo banho
de vapor, de que nos fala Bates, compreende-se sem dúvida a vida vegetativa sem
riscos e folgada, mas não a delicada vibração do espírito na dinâmica das
idéias, nem a tensão superior da vontade nos atos que se alheiem dos impulsos
meramente egoísticos. Não exagero. Um médico italiano - belíssimo talento - o
Dr. Luigi Buscalione, que por ali andou há pouco tempo, caracterizou as duas
primeiras fases da influência climatérica - sôbre o forasteiro - a princípio
sob a forma de uma superexcitação das funções psíquicas e sensuais, acompanhada,
depois, de um lento enfraquecer-se de tôdas as faculdades, a começar pelas mais
nobres...
Mas
neste apelar para o clássico conceito da influência climática esqueceu-lhe,
como a tantos outros, influxo porventura secundário, mas apreciável, da própria
inconstância da base física onde se agita a sociedade.
A
volubilidade do rio contagia o homem. No Amazonas, em geral, sucede isto: o
observador errante que lhe percorre a bacia em busca de variados aspectos,
sente, ao cabo de centenares de milhas, a impressão de circular num itinerário
fechado, onde se lhe deparam as mesmas praias ou barreiras ou ilhas, e as
mesmas florestas e igapós estirando-se a perder de vista pelos horizontes
vacios; - o observador imóvel que lhe estacione às margens, sobressalteia-se, intermitentemente,
diante de transfigurações inopinadas. Os cenários, invariáveis no espaço,
transmudam-se no tempo. Diante do homem errante, a natureza é estável; e aos
olhos do homem sedentário que planeie submetê-la à estabilidade das culturas,
aparece espantosamente revôlta e volúvel, surpreendendo-o, assaltando-o por
vêzes, quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.
A
adaptação exercita-se pelo nomadismo.
Daí,
em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três
séculos, numa agitação tumultuária e estéril.
* * *
Como
quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se integralmente, na
definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma - ultra
equinotialem non peccavi - que Barlaeus engenhou para os desmandos da época
colonial.
Os
mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À entrada de Manaus existe
a belíssima Ilha de Marapatá - e essa ilha tem uma função alarmante. É o mais original
dos lazaretos - um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a
consciência... Meça-se o alcance dêste prodígio da fantasia popular. A ilha que
existe fronteira à bôca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se
"Ilha da Consciência"; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na
foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam
ao paraíso diabólico dos seringais, abdica às melhores qualidades nativas e
fulmina-se a si próprio, a rir, com aquela ironia formidável.
É
que, realmente, nas paragens exuberantes das heveas e castilloas, o
aguarda a mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais
desaçamado egoísmo.
De
feito, o seringueiro - e não designamos o patrão opulento, senão o freguês
jungido à gleba das "estradas" -, o seringueiro realiza uma tremenda
anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se.
Demonstra-se
esta enormidade precitando-a com alguns cifrões secamente positivos e seguros.
Vêde
esta conta de venda de um homem:
No
próprio dia em que parte do Ceará, o seringueiro principia a dever: deve a
passagem de proa até ao Pará (35$000), e o dinheiro que recebeu para
preparar-se (150$000). Depois vem a importância do transporte, num
"gaiola" qualquer de Belém ao barracão longínquo a que se destina, e
que é, na média, de 150$000. Aditem-se cêrca de 800$000 para os seguintes
utensílios invariáveis: um boião de furo, uma bacia, mil tigelinhas, uma
machadinha de ferro, um machado, um terçado, um refle (carabina Winchester) e
duzentas balas, dois pratos, duas colheres, duas xícaras, duas panelas, uma
cafeteira, dois carretéis de linha e um agulheiro. Nada mais. Aí temos o nosso
homem no "barracão" senhoril, antes de seguir para a barraca, no
centro, que o patrão lhe designará. Ainda é um "brabo", isto é, ainda
não aprendeu o "corte da madeira" e já deve 1:135$000. Segue para o
pôsto solitário encalçado de um comboio levando-lhe a bagagem e víveres,
rigorosamente marcados, que lhe bastem para três meses: 3 paneiros de farinha
de água, 1 saco de feijão, outro, pequeno, de sal, 20 quilos de arroz, 30 de
xarque, 21 de café, 30 de açúcar, 6 latas de banha, 8 libras de fumo e 20
gramas de quinino. Tudo isto lhe custa cêrca de 750$000. Ainda não deu um talho
de machadinha, ainda é o "brabo" canhestro, de quem chasqueia o
"manso" experimentado, e já tem o compromisso sério de
2:090$000.
Admitamos
agora uma série de condições favoráveis, que jamais concorrem: a) que seja
solteiro; b) que chegue à barraca em maio, quando começa o "corte";
c) que não adoeça e seja conduzido ao barracão, subordinado a uma despesa de
10$000 diários; d) que nada compre além daqueles víveres - e que seja sóbrio,
tenaz, incorruptível; um estóico firmemente lançado no caminho da fortuna
arrostando uma penitência dolorosa e longa. Vamos além - admitamos que,
malgrado a sua inexperiência, consiga tirar logo 350 quilos de borracha fina e
100 de sernambi, por ano, o que é difícil, ao menos no Purus.
Pois
bem, ultimada a safra, êste tenaz, êste estóico, êste indivíduo raro ali, ainda
deve. O patrão é, conforme o contrato mais geral, quem lhe diz o preço da
fazenda e lhe escritura as contas. Os 350 quilos remunerados hoje a 5$000
rendem-lhe 1:750$000; os 100 de sernambi, a 2$500, 250$000. Total
2:000$000.
É
ainda devedor e raro deixa de o ser. No ano seguinte já é "manso":
conhece os segredos do serviço e pode tirar de 600 a 700 quilos. Mas
considere-se que permaneceu inativo durante todo o período da enchente, de
novembro a maio _ sete meses em que a simples subsistência lhe acarreta um
excesso superior ao duplo do que trouxe em víveres, ou seja, em números
redondos, 1:500$000 - admitindo-se ainda que não precise renovar uma só peça de
ferramenta ou de roupa e que não teve a mais passageira enfermidade. É evidente
que, mesmo nêste caso especialíssimo, raro é o seringueiro capaz de
emancipar-se pela fortuna.
Agora
vêde o quadro real. Aquêle tipo de lutador é excepcional. O homem de ordinário
leva àqueles lugares a imprevidência característica da nossa raça; muitas vêzes
carrega a família, que lhe multiplica os encargos; e quase sempre adoece, mercê
da incontinência generalizada.
Adicionai
a isto o desastroso contrato unilateral, que lhe impõe o patrão. Os
"regulamentos" dos seringais são a êste propósito dolorosamente
expressivos. Lendo-os, vê-se o renascer de um feudalismo acalcanhado e bronco.
O patrão inflexível decreta, num emperramento gramatical estupendo, coisas
assombrosas.
Por
exemplo: a pesada multa de 100$000 comina-se a êstes crimes abomináveis: a)
‘fazer na árvore um corte inferior ao gume do machado"; b) "levantar
o tampo da madeira na ocasião de ser cortada"; c) "sangrar com
machacinhas de cabo maior de quatro palmos". Além disto o trabalhador só
pode comprar no armazém do barracão, "não podendo comprar a qualquer outro,
sob pena de passar pela multa de 50% sôbre a importância comprada".
Farpeiem-se
de aspas êstes dizeres brutos. Ante êles é quase harmoniosa a gagueira terrível
de Caliban.
É
natural que ao fim de alguns anos o "freguês" esteja
irremediàvelmente perdido. A sua dívida avulta ameaçadoramente: três, quatro,
cinco, dez contos, às vêzes, que não pagará nunca. Queda, então, na mórbida
impassibilidade de um felá desprotegido dobrando tôda a cerviz à servidão
completa. O "regulamento" é impiedoso: "Qualquer
"freguês" ou "aviado" não poderá retirar-se sem que liqüide
tôdas as suas transações comerciais..." Fugir? Nem cuida em tal. Aterra-o
o desmarcado da distância a percorrer. Buscar outro barracão? Há entre os
patrões acôrdo de não aceitarem, uns os empregados de outros, antes de saldadas
as dívidas, e ainda há pouco tempo houve no Acre numerosa reunião para
sistematizar-se essa aliança, criando-se pesadas multas aos patrões
recalcitrantes.
Agora,
dizei-me, que resta, no fim de um qüinqüênio, do aventuroso sertanejo que
demanda aquelas paragens, ferretoado da ânsia de riquezas?
Não
o ligam sequer à terra. Um artigo do famoso "regulamento" torna-o
eterno hóspede dentro da própria casa. Citemo-lo com todo o brutesco de sua
expressão imbecil e feroz: "Tôdas as benfeitorias que o liqüidado tiver
feito nesta propriedade perderá totalmente o direito uma vez que
retire-se."
Daí
o quadro doloroso que patenteiam, de ordinário, as pequenas barracas. O
viajante procura-as e mal descobre, entre as sororocas, a estreitíssima trilha
que conduz à vivenda, meio afogada no mato. É que o morador não despende o mais
ligeiro esfôrço em melhorar o sítio de onde pode ser expelido em uma hora, sem
direito à reclamação mais breve.
Esta
resenha comportaria alguns exemplos bem dolorosos. Fôra inútil apontá-los. Dela
ressalta impressionadoramente a urgência de medidas que salvem a sociedade
obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esfôrço do homem; uma
justiça austera que lhe cerceie os desmandos; e uma forma qualquer do homestead
que o consorcie definitivamente à terra.
Rios em Abandono
O
geógrafo norte-americano Morris Davis revelou o "ciclo vital" dos
rios. Era uma concepção revolucionária; e não houve cientista jungido à
enfezada geografia descritiva, dominante ainda entre nós, que se não
escandalizasse ante o conceito desassombrado do yankee. Mas o
antagonismo foi passageiro e frágil. Uma simples monografia, Rivers and
Valleys of Pennsylvania, deslocou, de golpe, desde 1889, tôda a fortaleza
inerte da rotina; e firmou um nôvo rumo ao critério geográfico, não já apenas
pelo associar à forma a estrutura dos terrenos, completando os facies
inexpressivos das superfícies com os elementos geológicos, senão também
esclarecendo a gênese dos mais breves acidentes e descobrindo nas linhas
pinturescas da móvel fisionomia da terra a expressão eloqüente das energias
naturais que a modelaram e sem cessar a transfiguram. Por fim ninguém mais
estranhou que Morris Davis, impelido aos últimos corolários da nova doutrina,
se abalançasse a uma espécie de fisiologia monstruosa e descrevesse
dramàticamente as complexas vicissitudes da existência milenária dos fartos
cursos de águas, mostrando-no-los com uma infância irrequieta, uma adolescência
revôlta, uma virilidade equilibrada e uma velhice ou uma decrepitude
melancólica, como se êles fôssem estupendos organismos sujeitos à concorrência
e à seleção, destinados ao triunfo, ou ao aniquilamento, consoante mais ou
menos se adaptam às condições exteriores.
Não
acompanharemos o genial biógrafo dos rios pensilvânicos no explanar a teoria
admirável, que é o caso impressionador de uma entrada triunfante - ou de uma rush
atrevida - da imaginação e da fantasia nos remansos da ciência. Baasta-nos notar
que ela foi aceita em tôda a linha e é infrangível, esteando-se em dados
indutivos e seguros.
Tôdas
as caudais, de feito, atravessam períodos inevitáveis, de ritmos uniformes e
constantes, malgrado a variabilidade do teatro em que se operam: a princípio
indecisas, errantes e frágeis, derivando ao acaso, ao viés dos pendores, como à
procura de um berço em cada dobra do chão, e acumulando-se nos numerosos lagos,
incoerentemente esparsos, onde repousam; depois, definidas nas primeiras linhas
de drenagem mais estáveis e fundas para onde convergem, adensadas, as chuvas,
formando-se o aparelho das correntes, reprofundando-se os leitos esboçados e
iniciando-se com a energia tumultuária das cachoeiras o choque secular com as
asperezas da terra, longo tempo; até que, extintos os empeços estruturais,
estabelecido um leito e definido um traçado, o rio se constitua, com os seus
afluentes fixos, um declive contínuo em curvaturas regulares, um talvegue
ajustado à contextura do solo e à diferenciação morfológica que lhe reflete a
um tempo os seus vários estádios - das cabeceiras onde perduram as águas
selvagens do antigo regime torrencial, ao curso médio que lhe caracteriza a
situação presente, e ao trecho inferior, prefigurando-lhe a decrepitude, onde
êle se espraia repousadamente e constrói pela colmatagem das vasas que acarreta
com velocidade insensível, a própria planície aluvial em que descansa.
É a
fase de madureza. O rio está na plenitude da vida, depois da molduragem
complexa de todos os relevos. Atinge-a rematando um esfôrço pertinaz, que é por
vêzes tôda a história geológica da região.
Não
houve um ponto em todo o percurso de centenares ou de milhares de quilômetros
que êle não atacasse, um grão de areia que não removesse, balanceando as
escavações a montante com os aterros a jusante - construindo-se a si mesmo -
obediente à tendência universal para as situações estáveis. Adquiriu, por fim,
o seu perfil longitudinal de equilíbrio, e êste, ainda abrupto nas vertentes,
onde a correnteza é máxima e o volume mínimo, vem contìnuamente amortecendo-se,
em sucessivo decair de declive, até ao quase horizontalismo no nível de base,
da foz, onde aquêles elementos se invertem, resultando o equilíbrio dinâmico do
sistema da relação inversa entre as massas liqüidas e as velocidades que se
arrastam.
Como
quer que seja, desde que alcança êste período, todos os elementos do seu
talvegue, projetados em plano vertical, desenham-se com a forma aproximada de
um ramo de desmedida parábola, de concavidade volvida para as alturas.
Assim
se traduz geomètricamente um fato mecânico complexo. E bem que a tendência para
aquela figura seja em geral perturbada ou extinta nas camadas de resistência
variável, onde as rochas desvendadas originam o antagonismo das cachoeiras, é
inegável que a curva parabólica se delineia nos terrenos homogêneos como sendo
a forma definitiva da secção longitudinal de todos os rios no remate de suas
vicissitudes evolutivas.
* * *
O
Purus é um dos melhores exemplos.
Desenhando-se-lhe
o perfil em tôda a extensão itinerária de 3210 quilômetros que vai da
embocadura no Solimões aos últimos manadeiros do Ribeirão Pucani, na serrania
deprimida e sem nome que separa as maiores bacias hidrográficas da Terra,
chega-se muito aproximadamente àquele ramo de parábola.
Pelo
menos nenhuma outra curva o definirá melhor.
Demonstra-o
êste quadro onde os vários trechos se sucedem de modo a acompanhar-se em todo o
seu percurso a queda regularíssima das águas:
|
SECÇÕES
|
Distâncias
|
Diferenças
|
Declividade
|
Declive
|
|
|
itinerárias
|
de nível
|
geral
|
quilométrico
|
|
|
(Km)
|
(metros)
|
|
(metros)
|
|
Das
nascentes ao Curiuja
|
117
|
189
|
1/619
|
1,60
|
|
Do
Curiuja a Curanja
|
278
|
60
|
1/4500
|
0,22
|
|
De
curanja à foz do Chandless
|
304
|
49
|
1/6500
|
0,16
|
|
Do
Chandless à foz do Iaco
|
300
|
39
|
1/7700
|
0,13
|
|
Do
Iaco ao Acre
|
237
|
27
|
1/8700
|
0,115
|
|
Do
Acre ao Pani
|
233
|
20
|
1/11000
|
0,085
|
|
Do
Pani ao Mucuím
|
740
|
58
|
1/12900
|
0,077
|
|
Do
Mucuím ao Solimões
|
990
|
15
|
1/66700
|
0,015
|
Aí
só há um dado vacilante: o que resulta da diferença de nível nos pontos
extremos do último trecho. Deduzimo-lo adotando um mínimo de 18 metros para altura
da foz do Purus, sôbre o nível do mar, quando ela é certamente maior e mais
favorável, portanto, às nossas conclusões. Os demais elementos, devemo-los aos
trabalhos de William Chandless e às nossas observações recentes.
Ora,
ao mais rápido lance de vistas, e sem que se exija um desenho facílimo,
verifica-se que o grande rio, atravessando um terreno homogêneo e mais ou menos
impermeável, subordinado a um declive que, apesar de diminuto, é dominante na
vasta planura, onde as chuvas se distribuem com regularidade incomparável - é
dos que mais se adaptam às condições teóricas indicadas por Morris Davis; e no
ultimar a sua evolução geológica retrata-se admiràvelmente na parábola
majestosa de que tratamos há pouco.
No
estudar o seu regime geral vamos, portanto, com a firmeza de quem discute a
equação de uma curva.
Assim,
considerando o primeiro trecho, aquela declividade de 1,60m por quilômetro, tão
diversa da que se lhe sucede, de 0,22m, diz-nos para logo, dispensando o exame local,
que o verdadeiro Alto-Purus - demarcado oficialmente a partir da bôca do Acre,
e estendido por alguns geógrafos ainda mais para jusante - principia de fato
muito além, a 3079 quilômetros da foz, na confluência do Cujar e do Curiuja, os
dois tributários em que êle se reparte numa dicotomia perfeita, perdendo o nome
e esgalhando-se largamente fracionado pelos mais remotos pontos da sua vasta
bacia de captação.
Por
outro lado, o declive real de mal se aproxima da conhecida relação firmada como
o limite mínimo das vertentes torrenciais.
Conclui-se,
então, de pronto, que o rio, até no seu último segmento, onde é sempre mais
difícil e remorada a regularização dos leitos, está numa fase avançadíssima de
desenvolvimento. É o caso excepcional de uma grande artéria, entre as maiores
existentes, capaz de ser navegada nas mais extremas nascentes, durante as
cheias que lhe encubram os numerosos degraus das corredeiras - porque em tal
quadra, admitindo que as águas subam de três metros numa calha de dez, com
aquêle declive, que corresponde a 0,0015m por metro, o simples emprêgo da
fórmula de D’Aubuisson, nos diz que as corrrentes derivarão com a velocidade
máxima de apenas 2,20m, fàcilmente balanceada por uma lancha veloz.
Ora,
estas deduções resultantes de breve contemplação de um quadro tão expressivo
que dispensa o diagrama correspondente, ressaltam, vivamente, às mais
incuriosas vistas de observador escoteiro, que ali passe depois de varar a
planura amazônica num itinerário de quinhentas léguas.
De
fato, o que sobremaneira o impressiona é o espetáculo da terra profundamente
trabalhada pelo indefinido e incomensurável esfôrço dos formadores do rio.
Chega, depois de trilhar o canyon coleante do Pucani, ao sopé das
últimas vertentes; defronta a clivosa escarpa de uma corda insignificante de
cerros deprimidos; vinga-lhe em três minutos a altura relativa de sessenta
metros escassos - e não acredita que esteja na fronteira hidrográfica mais
extraordinária do globo, podendo ir de uma passada única do Vale do Amazonas ao
Vale do Ucaiáli...
A
altura em que se vê não lhe basta a desapertar os horizontes, ou a atalaiar as
distâncias. É inapreciável. Não há abrangê-la com a escala mais favorável dos
mapas. E sem dúvida jamais compreenderia tão indeciso divortium aquarum a
tão opulentas artérias, se ao buscar aquêles rincões, varando, ao arrepio das
itaipavas, por dentro das calhas reprofundadas do Cujar, do Cavaljane e do
Pucani, o observador se não habituasse a contemplar, longos dias, os mais
enérgicos efeitos da dinâmica poderosa das águas que transmudaram a paragem
outrora mais em relêvo e dominante. Não lhe importa a inópia de conhecimentos
paleontológicos ou a carência de fósseis norteadores. Está, evidentemente,
sôbre a ruinaria de uma sublevação quase extinta, cujo sinclinal êle pôde
reconstruir, prolongando as linhas dos estratos que afloram nos sulcos onde se
encaixam aquêles últimos tributários, denunciando todos na tranqüilidade
relativa, quase remansados nos intervalos de suas corredeiras (restos de
velhíssimas catadupas destruídas), a derradeira fase de uma luta em que o
Purus, para alongar a sua seção de estabilidade, teve que derruir montanhas.
Pelo menos a atividade erosiva e o volume de materiais arrebatados de todos
aquêles pendores, foram incalculáveis, para que as linhas de drenagem se
abatessem até aos substrato rochoso e declinasse, como vimos, aos graus
apropriados aos cursos navegáveis.
Apesar
disto, a transição para o trecho seguinte ainda é repentina. Passa-se da
declividade quilométrica de 4,60m, para a de 0,22m.
Mas
é o único salto. Daí por diante, como o revela o quadro anterior, até ao último
segmento extremado pela foz, onde para descer-se um metro se tem de caminhar
66,700, a atenuação dos declives prossegue com uma regularidade perfeita,
incluindo o Purus entre as caudais de todo regularizadas, cujo "ciclo
vital" progressivo vai cerrrando-se.
Não
aprofunda mais o leito. Os próprios afloramentos de grés (Parasandstein)
aparecendo nas vazantes, dispersos entre Huitanaã e a embocadura do Acre, e
dali para cima ainda mais raros até pouco além do Iaco, reforçam a afirmativa,
bem que na aparência a invalidem. Restos de antigas corredeiras desmanteladas
surgem como testemunhos das erosões primitivas e não provocam, em geral, o
mínimo desnivelamento. O pequeno povoado da Cachoeira, que se erige defrontando
um trecho tranqüilo do rio, tem o mais impróprio dos nomes, expressivo apenas
no recordar um acidente perdido em remoto passado geológico e do qual perduram
apenas alguns blocos desordenadamente acumulados em minúsculos recifes, e
breves "travessões". Ali, como nos outros trechos, o mesmo quadro da
terra estirando-se, complanada, pelos quadrantes, ou docemente ondulada
denunciando a mais completa molduragem, associa-se aos demais caracteres no sugerir
a derradeira fase do processo evolutivo do vale.
Um
elemento apenas falta: a regularidade na sucessão das curvas de nível das
vertentes imediatas às margens, que se fronteiam. Qualquer seção transversal do
Purus representa as mais das vêzes uma praia deprimida que mal se alteia
vagarosamente até ao rebordo longínquo da planície pouco elevada, contraposta a
uma barranca despenhada, como a da margem oposta à bôca do Chandless, ou caindo
às vêzes a prumo, feito uma muralha, como na situação admirável do Catai.
É que
à imutabilidade daquele perfil de equilíbrio se antepões a variabilidade da sua
planta, em escala capaz de justificar os que o incluem entre os rios
"cujos leitos e margens não estão sequer delineados em seus perfis de
estrutura definida a assente".
Realmente,
o Purus, um dos mais tortuosos cursos d’água que se registram, é também dos que
mais variam de leito. Divaga, consoante o dizer dos modernos geógrafos. A
própria velocidade diminuta, que adquiriu e vai decrescendo sempre até ao quase
rebalsamento, nas cercanias da foz, aliada à inconsistência dos terrenos
aluvianos, formados por êle mesmo com os materiais conduzidos das nascentes,
determina-lhe êste caráter volúvel. Às suas águas, derivando em correntezas
fracas, falta a quantidade de movimento necessária às direções intorcíveis. O
mínimo obstáculo desloca-as. Um tronco de samaúma que tombe de uma das margens,
abarreirando-se ligeiramente, desvia o empuxo da massa líqüida contra a outra,
onde de pronto se exercita, menos em virtude da fôrça viva da corrente que da
incoerência das terras, intensíssima erosão de efeitos precipitados.
A
indecisa arqueadura, que logo se forma, circularmente, se acentua, e, à medida
que aumenta, vai tornando mais violentos os ataques da componente centrífuga da
correnteza que lhe solapa a concavidade crescente, fazendo que em poucos anos
todo o rio se afaste, lateralmente, do primitivo rumo. Mas como êste se traçou
adscrito aos pontos determinantes de um perfil de equilíbrio inviolável, aquêle
desvio nunca é uma bifurcação, ou definitiva mudança. O rio, depois de rasgar o
amplo círculo de erosão, procura volver ao antigo canal, como quem contorneou
apenas um obstáculo encontrado em caminho.
O
círculo por onde êle se alonga tende a fechar-se. De sorte que tôda a área de terrenos
abrangidos se transmuda em verdadeira peníncula, ligada por um istmo tão
delgado, às vêzes, que o caminhante o atravessa em minutos, enquanto gasta um
dia inteiro de viagem, embarcado, para perlongar o contôrno da terra quase
insulada. Por fim esta se destaca, ilhando-se de todo. No sobrevir de uma
enchente o Purus despedaça a frágil barreira do istmo; e retoma, de golpe, o
primitivo curso, deixando à margem, a relembrar o desvio por onde divagou, um
lago anular, não raro amplíssimo. Prossegue. Reproduz adiante outros meandros
caprichosos, completados sempre pela criação dos mesmos lagos, ou
"sacados". E assim vai - perpètuamente oscilante aos lados de seu
eixo invariável - num ritmo perfeito, refletindo o jogar de leis mecânicas
capazes de se sintetizarem numa fórmula, que seria a tradução analítica de
curioso movimento pendular sôbre um plano de nível.
Desta
maneira, ali se resolve naturalmente um dos mais sérios problemas de hidráulica
fluvial. De fato, aquêles lagos são verdadeiros diques, funcionando com um
duplo efeito: de um lado impedem as inundações devastadoras, absorvendo os
excessos das cheias transbordantes; de outro lado, regulam o regime das águas,
durante as grandes estiagens, em que se abrem por si mesmos, automàticamente,
"estourando", para usar uma expressão local, e restituindo ao rio
empobrecido da vazante parte das massas líqüidas que economizaram.
Não
se calcula o valor dêstes trabalhos colossais da natureza.
Revela-no-los
bem um confronto expressivo. Os hidráulicos franceses que averbaram em 1856,
como pormenor inverossímil, uma subida de 10,90m, das águas do Garona,
originando uma das inundações mais funestas que têm ocorrido na Europa, - certo
não compreenderiam a própria existência do vasto território amazônico
convizinho ao Purus (que vale cêrca de cinqüenta Garonas cheios) se soubessem
que êle se alteia 15 metros na foz, onde tem uma milha de largo, e que dali a
montante as águas tufam num crescendo espantoso até 23 metros sôbre as
estiagens, na confluência do Acre.
No
entanto estas enchentes são inócuas.
A
massa líqüida, inflada logo às primeiras chuvas, sobe, galgando velozmente as
barrancas, e em poucos dias vai bater nos esteios dos barracões eretos nos
"firmes" mais altos do terreno... e todo êste dilúvio em marcha não
acachoa, não tumultua, não se arremessa em correntezas vertiginosas, não enleia
as embarcações torcendo-as nas espirais vibrantes dos remoinhos e não devasta a
terra. Difunde-se; extingue-se silenciosamente; perde-se inofensivo naqueles
milhares de válvulas de segurança; e espraiando-se, raso, pelo chão das matas,
ou espalmando-se, desafogadamente, em desmarcadas superfícies onde repontam,
salteadas, as últimas ramas floridas dos igapós afogados, vai, ao contrário,
regenerando aquela mesma terra, e reconstruindo-a porque a torna de ano em ano
mais elevada com a colmatagem perfeita de tôda a vasa que acarreta.
Assim,
em tôda aquela planura, o notável afluente amazônico, serpenteando nas
inumeráveis sinuosas que lhe tornam as distâncias itinerárias duplas das
geográficas, inclui-se entre os mais interessantes "rios
trabalhadores", construindo os diques submersíveis que o aliviam nas
enchentes - e lhe repontam, intermitentemente às duas bandas, ora próximos, ora
afastados, salpintando tôdas as várzeas ribeirinhas, e avultando maiores e mais
numerosos à medida que se desce, e se amortecem os declives, até a larga
baixada centralizada em Canutama onde as grandes águas tranqüilas derivam
majestosamente, equilibradas, sulcando de meio a meio a vastidão de nível de um
mediterrâneo esparso.
* * *
Mas
esta formação de lagos ou reservatórios naturais, cuja função benéfica vimos de
relance, acarreta inconvenientes de tal porte, que tornam, por vêzes, em alguns
pontos, quase impenetrável uma artéria fluvial que pelos elementos
privilegiados de seu perfil concorre com as mais acessíveis à navegação
regular.
Realmente
nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incontáveis
meandros, o Purus entope-se com as raízes e troncos das árvores que o marginam.
Às
vêzes é um lanço unido, de quilômetros, de "barreira", que lhe cai de
uma vez e de súbito em cima, atirando-lhe, desarraigada, sôbre o leito, uma
floresta inteira.
O
fato é vulgaríssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam. Não raro o
viajante, à noite, desperta sacudido por uma vibração de terremoto, e aturde-se
apavorado ouvindo logo após o fragor indescritível de miríades de frondes, de
troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo, estalando e caindo todos a um
tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando o assalto fulminante de um
cataclismo e um desabamento da terra.
São,
de fato, "as terras caídas", das quais resultam sempre duas sortes de
obstáculos: de um lado o inextricável acervo de galhadas e troncos, que se
entrecruzam à superfície d’água, ou irrompem em pontas ameaçadoras, do fundo; e
de outro as massas argilosas, ou argilo-arenosas que a corrente pouco veloz não
dissolve, permitindo-lhes acumularem-se nas minúsculas ilhotas dos
"torrões", ou, mais prejudiciais, nos rasos bancos compactos dos
"salões", impropriando a passagem aos mais diminutos calados.
Não
precisamos insistir neste fato.
A
sua gravidade é intuitiva. E considerando-se que êle se reproduz em tôda a extensão
de 480 quilômetros, que vai da embocadura ao Iaco à do Curiuja, onde se
acumulam cada vez mais aquêles entraves, indefinidamente crescentes, chega-se a
concluir que o Purus, depois de haver conseguido um dos mais regulares perfis
de tôda a hidrografia e de aparelhar-se com os melhores elementos predispostos
a uma rara fixidez de regime, erigindo-se modêlo admirável entre as caudais
mais bem talhadas à grande navegação - está, agora, a pouco e pouco perdendo a
maior parte dos seus resquisitos superiores, com o progredir de um
atravancamento em larga escala, que o tornará mais tarde inteiramente
impenetrável.
Dizemo-lo
baseando-nos em penosa experiência culminada por um naufrágio. Sobretudo além
da embocadura do Chandless, multiplicam-se tanto êstes empecilhos de todo
estranhos à "tectônica" especial do rio, que em longos
"estirões", com a profundidade média de cinco a seis pés, nas
vazantes, onde passariam carregadas as mais poderosas lanchas, mal pode
deslizar uma montaria ligeira. Escusamo-nos de exemplificar alongando estas
considerações ligeiras. Notemos apenas que a partir do tributário precitado até
a bifurcação Cujar-Curiuja, o Purus em vários lugares parece correr por cima de
uma antiga derrubada. Vai-se como entre os galhos estonados e revoltos de uma
floresta morta. E se observarmos que, além dos empeços em si mesmas encerrados,
estas tranqueiras, rebalsando as águas que se filtram entre os ramos unidos,
facilitam a formação de tôda a sorte de baixios, compreender-se-á em tôda a sua
latitude o progredimento contínuo dessa obstrução prejudicialíssima.
Porque
os homens que ali mourejam - o caucheiro peruano com as suas tanganas
rijas, nas montarias velozes, o nosso seringueiro, com os varejões que lhe
impulsionam as ubás, ou o regatão de tôdas as pátrias que por ali mercadeja nas
ronceiras alvarengas arrastadas à sirga - nunca intervêm para melhorar a sua
única e magnífica estrada; passam e repassam nas paragens perigosas; esbarram
mil vêzes a canoa num tronco caído há dez anos junto à beira de um canal;
insinuam-se mil vêzes com as maiores dificuldades numa ramagem revôlta
barrando-lhes de lado a lado o caminho, encalham e arrastam penosamente as
canoas sôbre os mesmos "salões" de argila endurecida; vêzes sem conta
arriscam-se ao naufrágio, precipitando, ao som das águas, as ubás contra as
pontas duríssimas dos troncos que se enristam invisíveis, submersos de um palmo
- mas não despendem o mínimo esfôrço e não despedem um golpe único de facão ou
de machado num só daqueles paus, para desafogar a travessia.
As
lanchas, e até os vapores, que ali vão aparecendo mais a miúdo, à medida que
avultam as safras dos cento e vinte opulentos seringais que já se abriram acima
da confluência do Iaco, viajam, invariàvelmente, nas quadras favoráveis das
cheias, quando aquêles entraves se afogam em alguns metros de fundo.
Sobem,
velozes, o rio; descarregam, precipitadamente, em vários pontos as mercadorias
consignadas; carregam-se de borracha; e tornam logo, precípites, águas abaixo,
fugindo. Apesar disto, algumas não se forram a repentinas descidas de nível,
prendendo-as. E lá se ficam, longos meses - esperando a outra enchente, ou o
inesperado de um "repiquete" propício, invernando paradoxalmente sob
as soalheiras caniculares - nas mais curiosas situações: ora em pleno rio,
agarradas pelos centenares de braços das árvores sêcas, que as imobilizam; ora
a meio da barranca, onde as surpreendeu a vazante, grosseiramente especadas,
encombentes, com as proas afocinhando, inclinadas, em riscos permanentes de
queda; ora no alto de uma barreira, como autênticos navios-fantasmas,
aparecendo, de improviso e surpreendedoramente, em plena entrada da mata
majestosa.
O
contraste desta navegação com as admiráveis condições técnicas imanentes ao rio
é flagrante. O Purus - e como êle todos os tributários meridionais do Amazonas,
à parte o Madeira - está inteiramente abandonado.
Entretanto
o simples enunciado dêstes inconvenientes, evidentemente alheios às suas
admiráveis condiões estruturais, delata que a remoção dêles, embora demorada,
não demanda trabalhos excepcionais de engenharia e excepcionais dispêndios.
O
que resta fazer, ao homem, é rudimentar e simples.
Os
grandes, os sérios problemas de hidráulica fluvial que ali houve, resolveu-os o
próprio rio agindo no jôgo harmonioso das forças naturais que o modelaram.
E
êles representam um trabalho incalculável. O Purus é uma das maiores dádivas
entre tantas com que nos esmaga uma natureza escandalosamente perdulária.
Vejamo-lo,
de relance.
Tôda
a hidráulica fluvial parece ter nascido entre os leitos do Garona e do Loire,
tais e tantos os monumentos que ali levantou a engenharia francesa. Nunca o
homem arremeteu com tamanha pertinácia o brilho com a brutalidade dos
elementos. Os romanos transfigurando a Argélia e os holandêses construindo a
Holanda, emparelham-se bem com os abnegados profissionais que durante um
século, impassíveis ante sucessivos reveses, se devotaram à emprêsa exaustiva
de paralisar torrentes, de atenuar inundações e de encadear avalanchas, na
dupla tentativa de facilitar a navegação e de proteger os territórios
ribeirinhos.. E todo êsse magnífico esfôrço em que se imortalizaram Deschamps,
Dieulafoy e Belgrand, resuktou em grande parte inútil. Inútil ou
contraproducente. Os primores da engenharia estragaram o Loire.
Os
diques submersíveis ou insubmersíveis destinados a salvarem as povoações, os
canais de socorro que se lhes anexavam, as margens artificiais ladeando em
dezenas de quilômetros o leito menor das caudais, os enrocamentos antepostos às
erosões, as barragens antepostas às correntezas - tinham em geral a duração
efêmera dos seis meses da estiagem, tal a inconstância irreparável daquelas
artérias.
Por
fim engenharam-se estupendos reservatórios alcandorados nos Pireneus,
escalonando-se por todos os pendores, para armazenar as inundações. E
armazenavam catástrofes - rompendo-se-ljes os muros, de onde saltavvam as ondas
despenhadas varrendo povoados inteiros...
Mas
ainda quando estas ruturas dos reservatórios compensadores não formassem os
episódios mais dramáticos da história da engenharia, e êles pudessem erigir-se
estáveis e sem riscos, nós, quaisquer que fôssem os nossos esforços e os nossos
dispêndios, jamais os construiríamos como no-los construiu o Purus.
Considere-se,
para isto, êste exemplo. Duponchel, para dar ao Neste - um pequeno rio com a
despesa média de 25 metros cúbicos - um modêlo constante, que lhe amortecesse
as inundações, calculou um reservatório de 300.000.000.000 de litros e recuou
antte o algarismo colossal.
Ora,
o Neste é três vêzes menor que o Iaco, que, entretanto, não se inclui entre os
maiores afluentes do Purus.
Diante
dêstes dados formidáveis põe-se de manifesto que a construção de reservatórios
compensadores no grande rio seria o mesmo que fazer um mar; e conclui-se que os
existentes, numerosíssimos, às suas margens, representam um capital inestimável
e acima dos mais ousados orçamentos.
Precisamos
ao menos conservá-lo. Aproveitemos uma lição velha de um século. O Mississipi,
que no seu curso inferior retrata o traçado do Purus com a exação de um
decalque, era, pelas mesmas causas, ainda mais inçado de empecilhos, tornando-o
quase impenetrável e em muitos lugares de todo intransponível. Alguns dos seus
tributários não estavam apenas trancados: desapareciam, literalmente, sob os
abatises.
No
entanto o grande rio, hoje transfigurado, desenha-se como um dos traços mais
vivos da pertinácia norte-americana.
Lá
está, porém, no seu vale, em um de seus afluentes, o Rio Vermelho, um caso
desalentador. É um rio perdido. O yankee descobriu-o tarde demais. A
desmedida tranqueira, the great raft, exatamente formada como as que
estão formando-se no Purus, estira o labirinto de seus madeiros e das suas
frondes mortas por 630 quilômetros - e lá está, indestrutível, depois de
desafiar durante vinte e dois anos os maiores esforços para uma desobstrução
impossível.
Estabelecida
a proporção entre aquêle rio minúsculo e o Purus, entre nós e os
norte-americanos, aquilatam-se as dificuldades que nos aguardarão, se
progredirem os obstáculos apontados, e cuja remoção atual, completando-se com a
defesa, embora rudimentar, das margens mais ameaçadas pelas erosões, é ainda de
relativa facilidade. Ao mesmo passo se atenuarão consideràvelmente as
"divagações" precitadas, que constituem verdadeira anomalia num rio
aparelhado de um perfil de estabilidade demonstrável até geomètricamente, como
vimos.
De
qualquer modo urge iniciar-se desde já modestíssimo, mais ininterrupto,
passando de govêrno a govêrno, numa tentativa persistente e inquebrantável, que
seja uma espécie de compromisso de honra com o futuro, um serviço organizado de
melhoramentos, pequeno embora em comêço, mas crescente com os nossos recursos -
que nos salve o majestoso rio.
Von
den Stein, com a agudeza irrivalizável de seu belo espírito, comparou, algures,
pinturescamente, o Xingu a um "enteado" da nossa geografia.
Estiremos
o paralelo.
O
Purus é um enjeitado.
Precisamos
incorporá-lo ao nosso progresso, do qual êle será, ao cabo, um dos maiores
fatôres, porque é pelo seu leito desmedido em fora que se traça, nestes dias,
uma das mais arrojadas linhas da nossa expansão histórica.
Um clima caluniado
Na
definição climática das circunscrições territoriais criadas pelo Tratado de Petrópolis
tem-se incluído sempre um elemento curiosíssimo, ante o qual o psicólogo mais
rombo suplanta a competência do Professor Hann, ou qualquer outro mestre em
coisas meteorológicas: o desfafflecimento moral dos que para lá seguem e levam
desde o dia da partida a preocupação absorvente da volta no mais breve prazo
possível. Cria-se uma nova sorte de exilados - o exilado que pede o exílio,
lutando por vêzes para o conseguir, repelindo outros concorrentes, ao mesmo
passo que vai adensando na fantasia alarmada as mais lutuosas imagens no
prefigurar o paraíso tenebroso que o atrai.
Parte,
e leva no próprio estado emotivo a receptividade a tôdas as moléstias.
Atravessa
quinze dias infindáveis a contornear a nossa costa. Entra no Amazonas.
Reanima-se um momento ante a fisionomia singular da terra; mas para logo
acabrunha-o a imensidade deprimida - onde o olhar lhe morre no próprio quadro
que contempla, certo enorme, mas em branco e reduzido às molduras indecisas das
margens afastadas. Sobe o grande rio; e vão-se-lhe os dias inúteis ante a
imobilidade estranha das paisagens de uma só côr, de uma só altura e de um só
modêlo, com a sensação angustiosa de uma parada na vida: atônicas tôdas as
impressões, extinta a idéia do tempo, que a sucessão das aparências exteriores,
uniformes, não revela - e retraída a alma numa nostalgia que não é apenas a
saudade da terra nativa, mas da Terra, das formas naturais tradicionalmente
vinculadas às nossas contemplações, que ali se não vêem, ou se não destacam na
uniformidade das planuras...
Entra
por um dos grandes tributários, o Juruá ou o Purus. Atinge ao seu objetivo
remoto; e todos os desalentos se lhe agravam. A terra é, naturalmente,
desgraciosa e triste, porque é nova. Está em ser. Faltam-lhe à vestimenta de
matas os recortes artísticos do trabalho.
Há
paisagens curtas que vemos por vêzes, subjetivamente, como um reflexo
subconsciente de velhas contemplações ancestrais. Os cerros ondulantes, os
vales, os litorais que se recortam de angras, e os próprios desertos recrestados,
afeiçoam-se-nos às vistas por maneira a admitirmos um modo qualquer de
reminiscência atávica. Vendo-os pela primeira vez, temos o encanto de
equipararmos o que imaginamos com o que se nos antolha, numa exteriorização
tangível de contornos anteriormente idealizados.
Ali,
não. Desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Há
alguma coisa extraterrestre naquela natureza anfíbia, misto de águas e de
terras, que se oculta, completamente nivelada, na sua própria grandeza. E
sente-se bem que ela permaneceria para sempre impenetrável se não se
desentranhasse em preciosos produtos adquiridos de pronto sem a constância e a
continuidade das culturas. As gentes que a povoam talham-se-lhe pela braveza.
Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na. O cearense, o paraibano, os
sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma
das maiores emprêsas dêstes tempos. Estão amansando o deserto. E as suas almas
simples, a um tempo ingênuas e heróicas, disciplinadas pelos reveses,
garantem-lhes, mais que os organismos robustos, o triunfo na campanha
formidável.
O
recém-vindo do Sul chega em pleno desdobrar-se daquela azáfama tumultuária, e,
de ordinário, sucumbe. Assombram-no, do mesmo lance, a face desconhecida da
paisagem e o quadro daquela sociedade de caboclos titânicos que ali estão
construindo um território. Sente-se deslocado no espaço e no tempo; não já fora
da pátria, senão arredio da cultura humana, extraviado num recanto da floresta
e num desvão obscurecido da História.
Não
resiste. Concentra todos os alentos que lhe restam para o só efeito de
permanecer algum tempo, inútil e inerte, no pôsto que lhe marcaram; mal
desempenhando os mais simples deveres; indo-se-lhe os olhos em todos os vapôres
que descem - e o espírito ausente nos lares afastados, longo tempo, em um
exaustivo agitar de apreensões e conjeturas - até que o sacuda,
inesperadamente,, em pleno dia canicular, um súbito estremeção de frio,
delatando-lhe a vinda salvadora, e por vêzes recônditamente anelada, da febre.
E é uma surprêsa gratíssima. A vida desperta-se-lhe de golpe, naquela
cotovelada da morte que passou por perto. O impaludismo significa-lhe, antes de
tudo, a carta de alforria de um atestado médico. É a volta. A volta sem
temores, a fuga justificável, a deserção que se legaliza, e o mêdo sobredoirado
de heroísmo, desafiando o espanto dos que lhe ouvem o romance alarmante das
moléstias que devastam a paragem maldita.
Porque
é preciso coonestar o recuo. Então cada igarapé sem nome é um Ganges pestilento
e lúgubre; e os igapós, ou os lagos, espalmam-se nas várzeas empantanadas como
lagunas Pontinas incontáveis. Traça-se um quadro nosológico arrepiador e
trágico, num imaginoso fabular de agruras; e, dia a dia, a natureza caluniada
prlo homem vai aparecendo naquelas bandas, ante as imaginações iludidas, como
se lá se demarcasse a paragem clássica da miséria e da morte...
* * *
O
exagêro é palmar. O Acre, ou, em geral, as planuras amazônicas cindidas a meio
pelo longo sulco do Purus, têm talvez a letalidade vulgaríssima em todos os
lugares recém-abertos ao povoamento. Mas consideràvelmente reduzida.
Demonstra-no-lo
um ligeiro confronto.
As
Escolas de Medicina Colonial da Inglaterra e da França, revelam-nos, pelos
simples títulos, os resguardos com que se rodeia sempre o transplante dos povos
para os novos habitats. Há esta linha de nobreza no moderno imperialismo
expansionista capaz de absolver-lhe os máximos atentados: os seus brilhantes
generais transmudam-se em batedores anônimos dos médicos e dos engenheiros; as
maiores batalhas fazem-se-lhe simples reconhecimento da campanha ulterior,
contra o clima; e o domínio das raças incompetentes é o comêço da redenção dos
territórios, num giro magnífico que do Tonquim à Índia, ao Egito, à Tunísia, ao
Sudão, à Ilha de Cuba, e às Filipinas, vai generalizando em todos os meridianos
a emprêsa maravilhosa do saneamento da terra.
Da
terra e do homem. A tarefa é dúplice. Aos conquistadores tranqüilos não lhes
basta o perquirir as causas meteorológicas ou telúricas das moléstias imanentes
aos trechos recém-consquitados, na escala indefinida que vai das anemias
estivais às febres polimorfas. Resta-lhes o encargo maior de justapor os novos
organismos aos novos meios, corrigindo-lhes os temperamentos, destruindo-lhes velhos
hábitos incompatíveis, ou criando-lhes outros até se construir, por um processo
a um tempo compensador e estimulante, o indivíduo inteiramente aclimado, tão
outro por vêzes nos seus caracteres físicos e psíquicos que é, verdadeiramente,
um indígena artificial transfigurado pela higiene. Para isto o colono, ou o
emigrante, torna-se em tôda a parte um pupilo do Estado. Todos os seus atos,
desde o dia da partida, prefixo nas estações mais convenientes, aos últimos
pormenores de alimentação, ou de vestir, predeterminam-se em regulamentos
rigorosos. Dentro dos lineamentos largos das características fundamentais do
clima quente para onde êle se desloca, urde-se a trama de uma higiene
individual, onde se prevêem tôdas as necessidades, todos os acidentes e até os
perigos da instabilidadde orgânica inevitável à fase fisiológica da adaptação a
um meio cósmico, cujo influxo deprimente sôbre o europeu vai da musculatura,
que se desfibra, à própria fortaleza de espírito, que se deprime. Assim as
medidas profiláticas, que começam inspirando-se no estudo dos fatôres físicos
acabam, não raro, prolongando-se em belíssimo código de moral demonstrada. De
permeio com os preceitos vulgares para o reagir contra a temperatura alta, e a
umidade excessiva que lhe abatem a tensão arteerial e a atividade, lhe trancam
as válvulas de segurança dos poros e lhe fatigam o coração e os nervos,
criando-lhe, ao cabo, a iminência mórbida para os males que se desdobram do
impaludismo que lhe solapa a vida, às dermatoses que lhe devastam a pele -
despontam, mais eficazes e decisivos, os que o aparelham para reagir aos
desânimos, à melancolia da existência monótona e primitiva; às amarguras
crescentes da saudade; à irritabilidade provinda dos ares intensamente
eletrizados e refulgentes; ao isolamento - e, sobretudo, ao quebrantar-se da
vontade numa decadência espiritual subitânea e profunda, que se afigura a
moléstia únida de tais paragens, de onde as demais se derivam como exclusivos
sintomas.
Abra-se
qualquer regulamento de higiene colonial. Ressaltam à mais breve leitura os
esforços incomparáveis das modernas missões e o seu apostolado complexo que, ao
revés das antigas, não visam arrebatar para a civilização a barbaria
transfigurada, senão transplantar, integralmente, a própria civilização para o
seio adverso e rude dos territórios bárbaros.
Nas
suas páginas, o que por vêzes nos maravilha maos do que os prodígios da
previdência e do saber, desenvolvidos para afeiçoar o forasteiro ao meio, é o
curso sobremaneira lento, senão o malôgro dos mais pertinazes esforços.
A
França na Indochina, de clima quase temperado, despendeu quinze anos de
trabalhos contínuos para que sobrestivesse a mortalidade; e, obedecendo aos
pareceres dos seus melhores cientistas, renunciou, depois de longas tentativas,
ao povoamento sistemático da África equatorial. O mesmo sucede no geral das
colônias inglêsas, alemãs ou belgas. Basate-nos notar que a estadia
regulamentar dos seus agentes oficiais tem o período máximo de três anos. A
volta aos lares nativos é uma medida de segurança indispensável a
restaurar-lhes os organismos combalidos. Dêste modo, a despeito de tão grandes
sacrifícios e dispêncdios, e dos prodígios de engenharia sanitária que
transformam a rudeza topográfica dos lugares novos, formando-se uma verdadeira
geografia artística, o que nêles se forma, por fim, são umas sociedades
precárias de perpétuos convalescentes jungidos a dietas inflexíveis e vivendo
através das fórmulas inaturáveis dos receituários complexos.
Ora,
comparando-se estas colonizações adstritas às cláusulas de rigorosos estatutos
- e de efeitos tão escassos - com o povoamento tumultuário, com a colonização à
gandaia do Acre - de resultados surpreendentes - certo não se faz mister
registrar um só elemento para o asserto de que o regime da região malsinada não
é apenas sobradamente superior ao da maioria dos trechos recém-abertos à
expansão colonizadora, senão também ao da grande maioria dos países normalmente
habitados.
De
fato - à parte o favorável deslocamento paralelo ao equador, demandando as mesmas
latitudes - não se conhece na História exemplo mais golpeante de emigração tão
anárquica, tão precipitada e tão violadora dos mais vulgares preceitos de
aclimamento, quanto o da que desde 1879 até hoje atirou, em sucessivas levas,
as populações sertanejas do território entre a Paraíba e o Ceará, para aquêle
recanto da Amazônia. Acompanhando-a, mesmo de relance, põe-se de manifesto que
lhe faltou desde o princípio, não só a marcha lenta e progressiva das migrações
seguras, como os mais ordinários resguardos administrativos.
O
povoamento do Acre é um caso histórico inteiramente fortuito, fora da diretriz
do nosso progresso.
Tem
um reverso tormentoso que ninguém ignora: as sêcas periódicas dos nossos
sertões do Norte, ocasionando o êxodo em massa das multidões flageladas. Não o
determinou uma crise de crescimento, ou excesso de vida desbordante, capaz de
reanimar outras paragens, dilatando-se em iti |