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À Margem da História
Introdução
Foi
Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar seus livros na
Editôra Lello, de Portugal. O êxito editorial do autor de Livro de Prata
(pelo assunto e pelo estilo) o animou a aconselhar seu colega da Academia à
prestigiosa casa do Pôrto.
A
morte inesperada de Euclides, porém, as naturais dificuldades para os
necessários contactos com editôres e a falta de afinidade dos portuguêses com a
temática euclidiana fizeram com que as seguintes edições de Contrastes e
Confrontos e À Margem da História se epaçassem cada vez mais e não tivessem a
indispensável assistência direta do Autor, ou de revisores afetios à matéria.
À
Margem da História (obra póstuma que só saiu um mês após a morte do escritor)
vem em sua 1ª edição - provàvelmente pela falta de uma revisão final
de Euclides - eivada de erros e descuidos. Graças ao zêlo de seus editôres, as
ediçòes seguintes se apresentam mais corretas e melhor revistas.
Sendo
crescente entre nós o interêsse pela obra euclidiana e dada a importância dos
livros para a perfeita compreensão da problemática do Autor, impunha-se fôssem
eles editados entre nós, na nossa ortografia e sob nosso cuidados revisórios.
Graças
aos entendimentos da Editôra Lello Brasileira, de São Paulo, conseguindo
autorização da Editôra Lello, do Pôrto, e com o estabelecimento de textos feito
pelo Sr. Dermal Monfré, temos agora (como iniciativa da editôra nacional em
comemoração ao Ano Euclidiano) os dois livros editados no Brasil.
À
Margem da História compõe-se de quatro partes: Na Amazônia, Terra Sem História
(7 capítulos, sôbre essa região), Vários Estudos (3 capítulos, assuntos
americanos), Da Independência à República (ensaio histórico) e Estrêlas
Indecifráveis (crônica).
O
livro apresenta, bem nítidas, quatro constantes da personalidade cultural de
Euclides: o cultor da língua e verdadeiro esteta da linguagem, o ensaísta e o
humanista brasileiro.
Não
há preciosismo no falar euclidiano; há, sim, o rigorismo da palavra exata. Seu
vocabulário riquíssimo, técnico e profissional quando necessário, era-lhe o
instrumento próprio para captar tôdas as sutilezas da realidade e expor o
logicismo de seu raciocínio de investigador e a lucidez do intérprete.
Nas
palavras densas, carregadas de emoções e evocações, dispostas numa estruturação
sintática de ritmo veemente, que se torna frêmito de vida e poesia, temos a
própria autenticidade de Euclides, numa linguagem que é bem tropicalmente
brasileira, no transbordamento fenomenológico de formas, sons, calor e luz. Se
n’Os Sertões êle foi mais improvisado e por isso mais grandiloqüente e
espetacular, agora ei-lo mais equilíbrio e maturidade. O capítulo Judas
Ahsverus (que nasceu inteiriço como um bloco de beleza) continua sendo uma das
melhores páginas da língua portuguêsa.
O espírito
científico de Euclides, sempre estudando e sumariando os assuntos (formado na
juventude conforme o espírito da época), dado a hipóteses e prefigurações
muitas vêzes discutíveis, extravasa-se na insopitável vocação ao ensaísmo,
exigindo-lhe conhecimentos e pesquisas, para que se torne mais lúcido, mais
penetrante, melhor intérprete. Por isso achamos que há necessidade de uma
iniciação cultural para se sentir e compreender Euclides. Não estranhamos ser
êle um escritor pouco popular. Sua irrefreável tendência à interpretação
fisiológica dos fenômenos naturais mostra-se através de uma vibração romântica
e idealística, fazendo surgir, dos algarismos e teorias, sua figura inigualável
de artista.
Euclides
é inesgotável. Por mais que se queira defini-lo e caracterizá-lo, ainda se
descobrem novas veredas e magníficas perspectivas que escaparam à
delimitação...
Seu
tema central é a pátria e a gente brasileira. N’Os Sertões o objetivo
último é o homem; n"Amazonia, o tema principal é a terra.
Seu
nacionalismo mais se prende à preocupação do bem comum e da denúncia das
estruturas desequilibradas de nossa sociedade. Já de algum tempo era sua
intenção escrever um "segundo livro vingador". Deveria referir-se à
Amazônia, acusando os descasos pela terra e o desprêzo pelo homem.
Deveria
chamar-se Paraíso Perdido.
Não
o completou, porém, e alguns de seus capítulos constituem a Terra Sem
História, que abre êste volume.
São,
no entender de alguns euclidianos, as mais expressivas e belas páginas de
Euclides.
Quando,
em 1904, escreveu a José Veríssimo sôbre sua ida ao Acre (como Chefe da
Comissão de Reconhecimento das Nascentes do Rio Purus) confessa o intento:
"Aquelas paragens, hoje, depois dos últimos movimentos diplomáticos, estão
como o Amazonas antes de Tavares Bastos; se eu não tenho a visão admirável
dêste, tenho o seu mesmo anelo de revelar os prodígios da nossa
terra".
Seu
desejo era mostrar os aspectos físicos e as riquezas essenciais da exuberante
região.
"Além
disso, se as nações estrangeiras mandam cientistas ao Brasil, que absurdo
haverá no encarregar-se de idêntico objetivo um brasileiro?"
O
grande rio teve o intérprete à altura.
Conhecerá
melhor a Amazônia aquêle que ler as páginas de Terra Sem História. Não é
sòmente a geografia descritiva que o empolga; são suas transfigurações no
tempo.
O
mesmo crítico da caatinga, d’Os Sertões, é aqui o arrebatado revelador
do sistema hidrográfico da (ainda hoje) desordenada região. E se o sertanejo é
antes de tudo um forte, o seringueiro, é um tipo de lutador excepcional.
Devido, porém, ao egoísmo desenfreado dos patrões opulentos, o homem ali
"trabalha para escravizar-se".
Se
n’Os Sertões a denúncia fica mais como um alerta, aqui Euclides é mais
objetivo e recomenda leis trabalhistas (isso em 1906...) para que "salvemos
aquela sociedade obscura e abandonada".
Enquanto
Contrastes e Confrontos está recheado de estudos e ensaios que são o
desdobramento ou a complementação d’Os Sertões, êste outro em nada a
êles se assemelha, a não ser pelo mesmo tema da integração nacional - através
da penetração na Amazônia - e o mesmo desvêlo pelo sofrido homem de nossa
pátria, o que faz de Euclides da Cunha um dos primeiros e mais ardorosos
cultores do humanismo brasileiro.
Continuam
aqui suas preocupações e seus interêsses pelos problemas americanos,
principalmente os referentes à América do Sul. Isso em 1904. Se os tivéssemos
acompanhado e estudado com igual dedicação e cuidado, hoje teríamos uma alinaça
latino-americana melhor e mais eficientemente estruturada e, conseqüentemente, uma
vida econômica e social mais condinzente com nossas possibilidades e
riquezas.
O
historiador Euclides tem, no esbôço Da Independência à República, um
ensaio cuja leitura deve ser obrigatória mesmo para os especialistas no
assunto. É lúcido e original na interpretação do evoluir de nosso processo
histórico-social.
O
livro termina com um capítulo que parece chamar a atenção para os céus
indecifráveis, assunto que hoje seria o ponto alto das pesquisas científicas,
nas penetrações espaciais. É poesia, ciência e confissão do agnóstico diante do
infinito desconhecido e sua ânsia de decifrá-lo...
Os
euclidianos brasileiros, exultantes, muito têm a agradecer à Lello Brasileira
S.A., pelo retôrno dêstes dois filhos pródigos...
<DIV ALIGN=right>
Oswaldo
Galotti
</DIV><DIV
ALIGN=right></DIV><DIV ALIGN=right>Grêmio Euclides da Cunha, </DIV><DIV ALIGN=right>de São José do Rio
Pardo</DIV>
I Parte
Na Amazônia, Terra Sem História
Impressões Gerais
Ao revés
da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, diante do
Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o
grande rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par,
capaz daquele terror a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo
gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei
quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a hiléia prodigiosa,
com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao
defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo
tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente artístico, isto é,
como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem
harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo
inferior a um sem número de outros lugares do nosso país. Tôda a Amazônia, sob
êste aspecto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do
Munduba.
É
sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano
horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme
moldura que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras
graníticas das Guianas. E como lhe falta a linha vertical, preexcelente na
movimentação da paisagem, em poucas horas o observador cede às fadigas de
monotonia inaturável e sente que o seu olhar, inexplicàvelmente, se abrevia nos
sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.
***
A
impressão dominante que tive, e talvez correspondente a uma verdade positiva, é
esta: o homem, ali, é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado
nem querido - quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e
luxuoso salão. E encontrou uma opulenta desordem... Os mesmos rios ainda não se
firmaram nos leitos; parecem tatear uma situação de equilíbrio derivando,
divagantes, em meandros instáveis, contorcidos sem "sacados", cujos
istmos a reveses se rompem e se soldam numa desesperadora formação de ilhas e
de lagos de seis meses, e até criando formas topográficas novas em que êstes
dois aspectos se confundem; ou expandindo-se em "furos" que se
anastomosam, reticulados e de todo incaracterísticos, sem que se saiba se tudo
aquilo é bem uma bacia fluvial ou um mar profusamente retalhado de
estreitos.
Depois
de uma única enchente se desmancham os trabalhos de um hidrógrafo.
A
flora ostenta a mesma imperfeita grandeza. Nos meios-dias silenciosos - porque
as noites são fantàsticamente ruidosas -, quem segue pela mata, vai com a vista
embotada no verde-negro das fôlhas; e ao deparar, de instante em instante, os
fetos arborescentes emparelhando na altura com as palmeiras, e as árvores de
troncos reilíneos e paupérrimos de flôres, tem a sensação angustiosa de um
recuo às mais remotas idades, como se rompesse os recessos de uma daquelas
mudas florestas carboníferas desvendadas pela visão retrospectiva dos
geólogos.
Completa-a,
ainda sob esta forma antiga, a fauna singular e monstruosa, onde imperam, pela
corpulência, os anfíbios, o que é ainda uma impressão paleozóica. E quem segue
pelos longos rios, não raro encontra as formas animais que existem,
imperfeitamente, como tipos abstratos ou simples elos da escala evolutiva. A
"cigana" desprezível, por ex., que se empoleira nos galhos flexíveis
das oiranas, trazendo ainda na asa de vôo curto a garra do réptil...
Destarte
a natureza é portentosa, mas incompleta. É uma construção estupenda a que falta
tôda a decoração interior. Compreende-se bem isto: a Amazônia é talvez a terra
mais nova do mundo, consoante as conhecidas induções de Wallace e Frederico
Hartt. Nasceu da última convulsão geogênica que sublevou os Andes, e mal
ultimou o seu processo evolutivo com as várzes quaternárias que se estão formando
e lhe preponderam na topografia instável.
Tem
tudo e falta-lhe tudo, porque lhe falta êsse encadeamento de fenômenos
desdobrados num ritmo vigoroso, de onde ressaltam, nítidas, as verdades da arte
e da ciência - e que é como que a grande lógica inconsciente das coisas.
Daí
esta singularidade: é de tôda a América a paragem mais perlustrada dos sábios e
é a menos conhecida. De Humboldt a Em. Goeldi - do alvorar do século passado
aos nossos dias, perquirem-na, ansiosos, todos os eleitos. Pois bem, lêde-os.
Vereis que nenhum deixou a calha principal do grande vale; e que ali mesmo cada
um se acolheu, deslumbrado, no recanto de uma especialidade. Wallace, Mawe, W.
Edwards, d’Orbigny, Martius, Bates, Agassiz, para citar os que me acodem na
primeira linha, reduziram-se a geniais escrevedores de monografias.
A
literatura científica amazônica, amplíssima, reflete bem a fisiografia
amazônica: é surpreendente, preciosíssima, desconexa. Quem quer que se abalance
a deletreá-la, ficará, ao cabo dêsse esforço, bem cpouco além do limiar de um
mundo maravilhoso.
Há
uma frase do Professor Frederico Hartt que delata bem o delíquio dos mais
robustos espíritos diante daquela enormidade. Êle estudava a geologia do
Amazonas quando em dado momento se encontrou tão despeado das concisas fórmulas
científicas e tão alcandorado no sonho, que teve de colhêr, de súbito, tôdas as
velas à fantasia:
-
"Não sou poeta. Falo a prosa da minha ciência. Revenons!"
Escreveu;
e encarrilhou-se nas deduções rigorosas. Mas decorridas duas páginas não se
forrou a novos arrebatamentos e reincidiu no enlêvo... É que o grande rio,
malgrado a sua monotonia soberana, evoca em tanta maneira o maravilhoso, que
empolga por igual o cronista ingênuo, o aventureiro romântico e o sábio
precavido. As "amazonas" de Orellana, os titânicos curriquerês
de Guillaume de L’Isle e a Mana del Dorado de Walter Raleigh, formando
no passado um tão deslumbrante ciclo quase mitológico, acolchetam-se em nossos
dias às mais imaginosas hipóteses da ciência. Há uma hipertrofia da imaginação
no ajustar-se ao desconforme da terra, desequilibrando-se a mais sólida
mentalidade que lhe balanceie a grandeza. Daí, no próprio terreno das
indagações objetivas, as visões de Humboldt e a série de conjeturas em que se
retravam, ou contrastam, todos os conceitos, desde a dinâmica de terremotos de
Russell Wallace ao bíblico formidável das galerias pré-diluvianas de Agassiz.
Parece
que ali a imponência dos problemas implica o discurso vagaroso das análises: às
induções avantajam-se demasiado os lances da fantasia. As verdades desfecham em
hipérboles. E figura-se alguma vez em idealizar aforrado o que ressai nos
elementos tangíveis da realidade surpreendedora, por maneira que o sonhador
mais desensofrido se encontre bem na parceria dos sábios deslumbrados.
Vai-se,
por ex., com Fred. Katzer a seriar, a escandir e aconfrontar velhíssimos
petrefactos ou graptólitos numa longa romaria ideal pelos mais remotos pontos
nas mais remotas idades - largo tempo, a debater-se entre as classificações
maciças, a enredar-se na trama das raízes gregas das nomenclaturas bravias - e
de improviso, os dizeres da ciência desfecham num quase idealismo: as análises
rematam-nas prodígios; as vistas abreviadas nos microscópios desapertam-se no
descortino de um passado muitas vêzes milenário; e esboçados os contornos
estupendos de uma geografia morta, alonga-se-lhe aos olhos a perspectiva
indefinida daquele extinto oceano médio-devônico que afogava todo o Mato Grosso
e a Bolívia, cobrindo quase tôda a América meridional e chofrando no levante as
antiqüíssimas arribas de Goiás, últimos litorais do continente
brasilio-etiópico que aterrava o Atlântico indo abranger a África... Segue-se
com os naturalistas da Comissão Morgan, e a história geológica, a despeito de
linhas mais seguras, não perde o traço grandioso, desenvolvendo-se às duas
margens do largo canal terciário que por longo tempo separou os planaltos
brasileiros e os das Guianas, até que o vagaroso sublevar dos Andes, no
Ocidente, serrando-lhe um dos extremos, o transmudasse em golfo, em estuário,
em rio.
Ao
cabo, ainda atendo-se aos fatos atuais da fisiografia amazônica, restam outros
agentes nímio perturbadores da fria serenidade das observações científicas.
* * *
Basta
mostrar-se de relance que, ainda nos casos mais simples, há no Amazonas um
flagrante desvio do processo ordinário da evolução das formas topográficas.
Em
tôda a parte a terra é um bloco onde se exercita a molduragem dos agentes
externos entre os quais os grandes rios se erigem como principais fatôres, no
lhe remodelarem os acidentes naturais, suavizando-lhos. Compensando a
degradação das vertentes com o alteamento dos vales, correndo montanhas e
edificando planuras, êles vão em geral entrelaçando as açòes destrutivas e
reconstrutoras, de modo que as paisagens, lento e lento transfiguradas,
reflitam os efeitos de uma estatuária portentosa.
Assim
o Hoang-Ho aumentou a China com um delta, que é uma província nova; e, ainda
mais expressivo, o Mississipi assombra o naturalista, com a expansão secular do
atêrro desmedido que em breve chegará às bordas da profundura onde se encaixa o
Gulf-Stream. Nas suas águas barrentas andam os continentes dissolvidos.
Mudam-se países. Deconstituem-se territórios. E há um encadeamento tão lógico
nos seus esforços contínuos, onde incidem as grandes energias naturais, que o
acompanhá-los implica algumas vêzes o acompanhar-se o próprio rumo de um
aspecto qualquer da atividade humana: das páginas de Herôdoto às de Maspéro,
contempla-se a gênese de uma civilização de par com a de um delta; e o
paralelismo é tão exato, que se justificam os exageros dos que, a exemplo de
Metchnikoff, vêem nos grandes rios a causa preeminente do desenvolvimento das
nações.
Ao
passo que no Amazonas, o contrário. O que nêle se destaca é a função destruidora,
exclusiva. A enorme caudal está destruindo a terra. O Professor Hartt,
impressionado ante as suas águas sempre barrentas, calculou que "se sôbre
uma linha férrea corresse dia e noite, sem parar, um trem contínuo carregado de
tijuco e areias, esta enorme quantidade de materiais seria ainda menor do que a
de fato é transportada pelas águas..."
Mas
tôda esta massa de terras diluídas não se regenera. O maior dos rios não tem
delta. A Ilha de Marajó, constituída por uma flora seletiva, de vegetais
afeitos ao meio maremático e ao inconsistente da vasa, é uma miragem de
território. Se a despissem, ficariam só as superfícies rasadas dos
"mondongos" empantanados, apagando-se no nivelamento das águas; ou,
salteadamente, algumas pontas de fragueados de arenito endurecido, esparsas, a
êsmo, na amplidão de uma baía. À luz das deduções rigorosas de Walter Bates,
comprovando as conjeturas anteriores de Martius, o que ali está sob o disfarce
das matas, é uma ruína: restos desmantelados do continente, que outrora se estirava,
unido, das costas de Belém às de Macapá - e que se tem de restaurar,
hipotèticamente, em passado longínquo, para explicar-se a identidade das faunas
terrestres, hoje separadas pelo rio, do Norte do Brasil e das Guianas.
O
Amazonas, entretanto, poderia reconstruí-lo em pouco tempo, com os só 3.000.000
de metros cúbicos de sedimentos, que carrega em vinte e quatro horas. Mas
dissipa-os. A sua corrente túrbida, adensada nos últimos lances de seu
itinerário de 6.000 milhas, com os desmontes dos litorais, que dia a dia se
desbarrancam, fazendo recuar a costa que se desenrola desde o Paru ao Araguari,
decanta-se tôda no Atlântico. E os resíduos das ilhas demolidas - entre as
quais a de Caviana que lhe foi antiga barragem e se bipartiu no correr de nossa
vida histórica - vão cada vez mais delindo-se e desaparecendo, no permanente
assalto daquelas correntezas poderosas. Destarte, desafoga-se mais e mais a
desembocadura principal da grande artéria e acentua-se o seu desvio para o
norte, com o abandono contínuo das paragens que lhe demoram a leste e sôbre as
quais êle passou outrora, deixando ainda, nas áreas recém-desvendadas dos
brejos marajoaras, um atestado tangível daquele deslocamento lateral do leito,
que tem dado aos geólogos inexpertos a ilusão de um levantamento ou de uma
reconstrução da terra.
Porque,
na realidade, esta se reconstitui mui longe das nossas plagas. Neste ponto, o
rio, que sôbre todos desafia o nosso lirismo patriótico, é o menos brasileiro
dos rios. É um estranho adversário, entregue dia e noite à faina de solapar a
sua própria terra. Herbert Smith, iludido ante a poderosa massa de águas
barrentas, que o viajente vê em pleno Oceano antes de ver o Brasil,
imaginou-lhe uma tarefa portentosa: a construção de um continente. Explicou:
depondo-se aquêles sedimentos do fundo tranqüilo do Atlântico, novas terras
aflorariam nas vagas e ao cabo de um esfôrço milenário encher-se-ia o golfão
aberto, que se arqueia do Cabo Orange à Ponta do Gurupi, dilatando-se desta
sorte, consideràvelmente, para nordeste, as terras paraenses.
The
king is building his monument! bradou o naturalista encantado e acomodando às
ásperas sílabas britânicas um rapto fantasista capaz de surpreender à mais
ensofregada alma latina. Esqueceu-lhe, porém, que aquêle originalíssimo sistema
hidrográfico não acaba com a terra, ao transpor o Cabo Norte; senão que vai,
sem margens, pelo mar dentro, em busca da corrente equatorial, onde aflui,
entregando-lhe todo aquêle plasma gerador de território. Os seus materiais,
distribuídos pelo imenso rio pelásgico que se prolonga com o Gulf-Stream,
vão concentrando-se e surgindo a flux, espaçadamente, nas mais longínquas
zonas: a partir das costas das Guianas, cujas lagunas, a começar no Amapá, a
mais e mais se dessecam avançando em planuras de estepes pelo mar em fora, até
aos litorais norte-americanos, da Geórgia e das Carolinas, que se dilatam sem
que lhes expliquem o crescer contínuo os breves cursos d’água das vertentes
orientais dos Aleganis.
Naqueles
lugares, o brasileiro salta: é estrangeiro, e está pisando em terras
brasileiras. Antolha-se-lhe um contra-senso pasmoso: à ficção de direito
estabelecendo por vêzes a extraterritorialidade, que é a pátria sem a terra,
contrapõe-se uma outra, rudemente física: a terra sem a pátria. É o efeito
maravilhoso de uma espécie de imigração telúrica. A terra abandona o homem. Vai
em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir o seu verdadeiro
delta em zonas tão remotas do outro hemisfério, traduz, de fato, a viagem
incógnita de um território em marcha, mudando-se pelos tempos adiante, sem
parar um segundo, e tornando cada vez menores, num desgastamento ininterrupto,
as largas superfícies que atravessa.
Não
se lhe apontam formações duradouras, ou fixas. Por vêzes, nas arqueaduras de
seus canais remansam-se as águas fazendo que se deponham os sedimentos
conduzidos e as sementes que acarretam. Então as faculdades criadoras do rio
despontam supreendedoramente. O baixio prestes recém-formado e aflorando à superfície,
delineia-se, em contornos indecisos; define-se logo, vivamente; dilata-se e
ascende, bombeando levemente nas águas; e na ilha que se gera, crescendo e
articulando-se a olhos vistos, apontoada de cabuchos, que se alongam e se
retorcem à superfície à maneira de tentáculos de um prodigioso organismo -
desencadeia-se para logo a luta das espécies vegetais tão viva e tão dramática
que nem lhe faltam no baralhamento dos colmos, das hastes ou das ramagens
revôltas, estirando-se, enredando e confundindo-se, todos os movimentos
convulsivos de uma enorme batalha sem ruídos: dos aningais, que consolidam o
tijuco inconsistente com a infibratura dos risomas estirados; aos mangues, que
os suplantam e repelem para as bordas, em violentos e tumultuários bracejos; aos
javaris altaneiros, que por sua vez recalcam os últimos expelindo-os para as
margens apauladas, e senhoreando os tesos consistentes...
Assim
se erigiu recentemente a Ilha de Cururu, com dois km² de área; e se
reconstróem tôdas as que se observam acima dos canais de Breves.
Mas
formam-se para se destruírem, ou desocarem-se incessantemente. As ilhas
trabalhadas pelas mesmas correntes que as geraram, desbarrancam-se a montante e
restauram-se a jusante, e vão lento e lento derivando rio abaixo, ao modo de
monstruosos pontões desmastreados, de longas proas abatidas e pôpas altas, a
navegarem dia e noite com velocidade insensível. Por fim, desgastam-se e
acabam. A de Urucurituba durou dez anos (1840-1850) mercê da superfície
vastíssima; e apagou-se numa enchente...
O
mesmo fato, nas margens. Os litorais do Amazonas mal lhe definem a calha
desmedida. São margens que evitam o rio. Ficam-lhe, normalmente, fora das
águas, para além das vastas planuras salpintadas de "lagos de terra
firme", que atenuam, feito compensadores, a violência das caudais, nas
cheias. Aí, num cenário mais amplo, se desdobra por vêzes a aparência de uma
construção, em larga escala, de solo. O rio, multífluo nas grandes enchentes,
vinga as ribanceiras e desafoga-se nos plainos desimpedidos. Desarraíga
florestas inteiras, atulhando de troncos e esgalhos as depressões numerosas da
várzes; e nos remansos das planícies inundadas, decantam-se-lhe as águas
carregadas de detritos, numa colmatagem plenamente generalizada. Baixam as
águas e nota-se que o terreno cresceu; e alteia-se de cheia em cheia,
aprumando-se as "barreiras" altas, exsicando-se os pantanais e
"igapós", esboçando-se os "firmes" ondeantes, para logo
invadidos da flora triunfal... até que num só assalto, de enchente, todo êsse
delta lateral se abata.
Numa
só noite (29 de julho de 1866) as "terras caídas" da margem esquerda
do Amazonas desmoronaram numa linha contínua de cinqüenta léguas.
É o
processo antigo, invariável - patenteando-se ainda no diminuto raio da nossa
história. As ribanceiras a pique da antiga costa do Paru, onde apareceram aos
condutícios de Orellana as amazonas lendárias, reduzem-se hoje a um baixio
degredado, visível apenas nas vazantes excessivas.
A
inconstância tumultuária do rio retrata-se ademais nas suas curvas infindáveis,
desesperadoramente enleadas, recordando o roteiro indeciso de um caminhante
perdido, a esmar horizontes, volvendo-se a todos os rumos ou arrojando-se à
ventura em repentinos atalhos. Assim êle se precipitou pela angustura afogante
de Óbidos num abandono completo do antigo leito, que ainda hoje se adivinha no
enorme plaino maremático ganglionado de lagoas, de Vila Franca; ou vai, noutros
pontos, em "furos" inopinados, afluir nos seus grandes afluentes,
tornando-se ilògicamente tributário dos próprios tributários; sempre
desordenado, e revôlto, e vacilante, destruindo e construindo, reconstruindo e
devastando, apagando numa hora o que erigiu em decênios - com a ânsia, com a
tortura, com o exaspêro de monstruoso artista incontentável a retocar, a
refazer e a recomeçar perpètuamente um quadro indefinido...
* * *
Tal
é o rio; tal, a sua história: revôlta, desordenada, incompleta.
A
Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização distante.
Desde os primeiros tempos da colônia, as mais imponentes expedições e solenes
visitas pastorais rumavam de preferência às suas plagas desconhecidas. Para lá
os mais veneráveis bispos, os mais garbosos capitães-generais, os mais lúcidos
cientistas. E do amanho do solo que se tentou afeiçoar a exóticas especiarias,
à cultura do aborígine que se procurou erguer aos mais altos destinos, a
Matrópole longínqua demasiara-se em desvelos à terra que sôbre tôdas lhe
compensaria o perdimento da Índia portentosa.
Esforços
vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens
governamentais, com as suas frotas de centenares de canoas, e os seus
astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus
prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários,
e armavam ràpidamente no altiplano das "barreiras" as tendas
suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes;
aformoseavam a terra.
Prosseguiam
a outros pontos, ou voltavam - e as malocas, num momento transfiguradas,
decaíam de chôfre, volvendo à bruteza original.
Já
nos fins do século XVIII, Alexandre Rodrigues Ferreira, ao realizar a sua
"viagem filosófica", pela calha principal do grande rio, andara entre
ruínas. Na Vila de Barcelos, capital da circunscrição longínqua,
antolhara-se-lhe, tangível, a imagem do progresso tìpicamente amazônico,
naquele presuntuoso Palácio das Demarcações - amplíssimo, monumental, imponente
- e coberto de sapé! Era um símbolo. Tudo vacilante, efêmero, antinômico, na
paragem estranha onde as próprias cidades são errantes, como os homens,
perpètuamente a mudarem de sítio, deslocando-se à medida que o chão lhes foge
roído das correntezas, ou tombando nas "terras caídas" das
barreiras...
Vai-se
de um a outro século na inaturável mesmice de renitentes tentativas abortadas.
As impressões dos mais lúcidos observadores não se alteram, perpètuamente
desenfluídas pelo espetáculo de um presente lastimável contraposto à ilusão de
um passado grandioso.
Tenreiro
Aranha em 1852, ao erigir-se a província do Amazonas, assumiu a sua direção, e
numa resenha retrospectiva diz-nos do extraordinário progresso que se perdera,
referindo-se a "manufaturas primorosas", a uma indústria extinta em
que "o algodão, o anil, a mandioca e o café tiveram cultura tal que dava
para o consumo sobrando para a exportação; e assim as fábricas de anil, as
cordoarias de piassaba, de fiação, tecidos e rêdes de algodão, de palhinha ou
de penas; as telhas e alvenaria; as de construção civil e naval, com hábeis
artistas, fazendo aparecer templos, palácios, ou possantes
embarcações..."
Recua-se,
porém, exatamente um século, a buscar o período decantado - e num grande
desapontamento observa-se, à luz do relatório feito em 1752 por outro insigne
governador, o Capitão-General Furtado de Mendonça, que a "capitania estava
reduzida à última ruína..." Assim se desconchavam os pareceres, agitando
idênticos desânimos. Ou então se harmonizavam de modo impressionador no
firmarem a mesma decadência das gentes singulares. Em 1762 o Bispo do Grão-Pará,
aquêle extraordinário Fr. João de S. José - seráfico voltaireano que tinha no
estilo os lampejos da pena de Antônio Vieira - depois de resenhar os homens e
as coisas, "assentando que a raíz dos vícios da terra é a preguiça",
resumiu os traços característicos dos habitantes, dêste modo desalentador: -
"lascívia, bebedice e furto." Passam-se cem anos justos. Procura-se
saber se tudo aquilo melhorou; abrem-se as páginas austeras de Russel Wallace,
e vê-se que alguma vez elas parecem traduzir, ao pé da letra, os dizeres do
arguto beneditino, porque a sociedade indisciplinada passa diante das vistas
surpreendidas do sábio - drinking, gambling and lying - bebendo,
dançando, zombando - na mesma dolorosíssima inconsciência da vida...
Assim,
essa indiferença pecaminosa dos atributos superiores, êsse sistemático
renunciar de escrúpulos e êsse coração leve para o êrro, são seculares; e
surgem de um doloroso tirocínio histórico, que vem da"Casa do Paricá"
à "barraca" dos seringueiros. Compulsai os nossos velhos cronistas,
com especialidade o imaginoso Padre João Daniel, e avaliareis o travamento de
motivos físicos e morais que há muito, ali, entibiam os caracteres. E lêde
Tenreiro Aranha, José Veríssimo, dezenas de outros. Nestes livros se espalham,
fracionadas, tôdas as cenas de um dos maiores dramas da impiedade na
História.
Depois
há o incoercível da fatalidade física. Aquela natureza soberana e brutal, em
pleno expandir das suas energias, é uma adversária do homem. No perpétuo banho
de vapor, de que nos fala Bates, compreende-se sem dúvida a vida vegetativa sem
riscos e folgada, mas não a delicada vibração do espírito na dinâmica das
idéias, nem a tensão superior da vontade nos atos que se alheiem dos impulsos
meramente egoísticos. Não exagero. Um médico italiano - belíssimo talento - o
Dr. Luigi Buscalione, que por ali andou há pouco tempo, caracterizou as duas
primeiras fases da influência climatérica - sôbre o forasteiro - a princípio
sob a forma de uma superexcitação das funções psíquicas e sensuais, acompanhada,
depois, de um lento enfraquecer-se de tôdas as faculdades, a começar pelas mais
nobres...
Mas
neste apelar para o clássico conceito da influência climática esqueceu-lhe,
como a tantos outros, influxo porventura secundário, mas apreciável, da própria
inconstância da base física onde se agita a sociedade.
A
volubilidade do rio contagia o homem. No Amazonas, em geral, sucede isto: o
observador errante que lhe percorre a bacia em busca de variados aspectos,
sente, ao cabo de centenares de milhas, a impressão de circular num itinerário
fechado, onde se lhe deparam as mesmas praias ou barreiras ou ilhas, e as
mesmas florestas e igapós estirando-se a perder de vista pelos horizontes
vacios; - o observador imóvel que lhe estacione às margens, sobressalteia-se, intermitentemente,
diante de transfigurações inopinadas. Os cenários, invariáveis no espaço,
transmudam-se no tempo. Diante do homem errante, a natureza é estável; e aos
olhos do homem sedentário que planeie submetê-la à estabilidade das culturas,
aparece espantosamente revôlta e volúvel, surpreendendo-o, assaltando-o por
vêzes, quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.
A
adaptação exercita-se pelo nomadismo.
Daí,
em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três
séculos, numa agitação tumultuária e estéril.
* * *
Como
quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se integralmente, na
definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma - ultra
equinotialem non peccavi - que Barlaeus engenhou para os desmandos da época
colonial.
Os
mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À entrada de Manaus existe
a belíssima Ilha de Marapatá - e essa ilha tem uma função alarmante. É o mais original
dos lazaretos - um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a
consciência... Meça-se o alcance dêste prodígio da fantasia popular. A ilha que
existe fronteira à bôca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se
"Ilha da Consciência"; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na
foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam
ao paraíso diabólico dos seringais, abdica às melhores qualidades nativas e
fulmina-se a si próprio, a rir, com aquela ironia formidável.
É
que, realmente, nas paragens exuberantes das heveas e castilloas, o
aguarda a mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais
desaçamado egoísmo.
De
feito, o seringueiro - e não designamos o patrão opulento, senão o freguês
jungido à gleba das "estradas" -, o seringueiro realiza uma tremenda
anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se.
Demonstra-se
esta enormidade precitando-a com alguns cifrões secamente positivos e seguros.
Vêde
esta conta de venda de um homem:
No
próprio dia em que parte do Ceará, o seringueiro principia a dever: deve a
passagem de proa até ao Pará (35$000), e o dinheiro que recebeu para
preparar-se (150$000). Depois vem a importância do transporte, num
"gaiola" qualquer de Belém ao barracão longínquo a que se destina, e
que é, na média, de 150$000. Aditem-se cêrca de 800$000 para os seguintes
utensílios invariáveis: um boião de furo, uma bacia, mil tigelinhas, uma
machadinha de ferro, um machado, um terçado, um refle (carabina Winchester) e
duzentas balas, dois pratos, duas colheres, duas xícaras, duas panelas, uma
cafeteira, dois carretéis de linha e um agulheiro. Nada mais. Aí temos o nosso
homem no "barracão" senhoril, antes de seguir para a barraca, no
centro, que o patrão lhe designará. Ainda é um "brabo", isto é, ainda
não aprendeu o "corte da madeira" e já deve 1:135$000. Segue para o
pôsto solitário encalçado de um comboio levando-lhe a bagagem e víveres,
rigorosamente marcados, que lhe bastem para três meses: 3 paneiros de farinha
de água, 1 saco de feijão, outro, pequeno, de sal, 20 quilos de arroz, 30 de
xarque, 21 de café, 30 de açúcar, 6 latas de banha, 8 libras de fumo e 20
gramas de quinino. Tudo isto lhe custa cêrca de 750$000. Ainda não deu um talho
de machadinha, ainda é o "brabo" canhestro, de quem chasqueia o
"manso" experimentado, e já tem o compromisso sério de
2:090$000.
Admitamos
agora uma série de condições favoráveis, que jamais concorrem: a) que seja
solteiro; b) que chegue à barraca em maio, quando começa o "corte";
c) que não adoeça e seja conduzido ao barracão, subordinado a uma despesa de
10$000 diários; d) que nada compre além daqueles víveres - e que seja sóbrio,
tenaz, incorruptível; um estóico firmemente lançado no caminho da fortuna
arrostando uma penitência dolorosa e longa. Vamos além - admitamos que,
malgrado a sua inexperiência, consiga tirar logo 350 quilos de borracha fina e
100 de sernambi, por ano, o que é difícil, ao menos no Purus.
Pois
bem, ultimada a safra, êste tenaz, êste estóico, êste indivíduo raro ali, ainda
deve. O patrão é, conforme o contrato mais geral, quem lhe diz o preço da
fazenda e lhe escritura as contas. Os 350 quilos remunerados hoje a 5$000
rendem-lhe 1:750$000; os 100 de sernambi, a 2$500, 250$000. Total
2:000$000.
É
ainda devedor e raro deixa de o ser. No ano seguinte já é "manso":
conhece os segredos do serviço e pode tirar de 600 a 700 quilos. Mas
considere-se que permaneceu inativo durante todo o período da enchente, de
novembro a maio _ sete meses em que a simples subsistência lhe acarreta um
excesso superior ao duplo do que trouxe em víveres, ou seja, em números
redondos, 1:500$000 - admitindo-se ainda que não precise renovar uma só peça de
ferramenta ou de roupa e que não teve a mais passageira enfermidade. É evidente
que, mesmo nêste caso especialíssimo, raro é o seringueiro capaz de
emancipar-se pela fortuna.
Agora
vêde o quadro real. Aquêle tipo de lutador é excepcional. O homem de ordinário
leva àqueles lugares a imprevidência característica da nossa raça; muitas vêzes
carrega a família, que lhe multiplica os encargos; e quase sempre adoece, mercê
da incontinência generalizada.
Adicionai
a isto o desastroso contrato unilateral, que lhe impõe o patrão. Os
"regulamentos" dos seringais são a êste propósito dolorosamente
expressivos. Lendo-os, vê-se o renascer de um feudalismo acalcanhado e bronco.
O patrão inflexível decreta, num emperramento gramatical estupendo, coisas
assombrosas.
Por
exemplo: a pesada multa de 100$000 comina-se a êstes crimes abomináveis: a)
‘fazer na árvore um corte inferior ao gume do machado"; b) "levantar
o tampo da madeira na ocasião de ser cortada"; c) "sangrar com
machacinhas de cabo maior de quatro palmos". Além disto o trabalhador só
pode comprar no armazém do barracão, "não podendo comprar a qualquer outro,
sob pena de passar pela multa de 50% sôbre a importância comprada".
Farpeiem-se
de aspas êstes dizeres brutos. Ante êles é quase harmoniosa a gagueira terrível
de Caliban.
É
natural que ao fim de alguns anos o "freguês" esteja
irremediàvelmente perdido. A sua dívida avulta ameaçadoramente: três, quatro,
cinco, dez contos, às vêzes, que não pagará nunca. Queda, então, na mórbida
impassibilidade de um felá desprotegido dobrando tôda a cerviz à servidão
completa. O "regulamento" é impiedoso: "Qualquer
"freguês" ou "aviado" não poderá retirar-se sem que liqüide
tôdas as suas transações comerciais..." Fugir? Nem cuida em tal. Aterra-o
o desmarcado da distância a percorrer. Buscar outro barracão? Há entre os
patrões acôrdo de não aceitarem, uns os empregados de outros, antes de saldadas
as dívidas, e ainda há pouco tempo houve no Acre numerosa reunião para
sistematizar-se essa aliança, criando-se pesadas multas aos patrões
recalcitrantes.
Agora,
dizei-me, que resta, no fim de um qüinqüênio, do aventuroso sertanejo que
demanda aquelas paragens, ferretoado da ânsia de riquezas?
Não
o ligam sequer à terra. Um artigo do famoso "regulamento" torna-o
eterno hóspede dentro da própria casa. Citemo-lo com todo o brutesco de sua
expressão imbecil e feroz: "Tôdas as benfeitorias que o liqüidado tiver
feito nesta propriedade perderá totalmente o direito uma vez que
retire-se."
Daí
o quadro doloroso que patenteiam, de ordinário, as pequenas barracas. O
viajante procura-as e mal descobre, entre as sororocas, a estreitíssima trilha
que conduz à vivenda, meio afogada no mato. É que o morador não despende o mais
ligeiro esfôrço em melhorar o sítio de onde pode ser expelido em uma hora, sem
direito à reclamação mais breve.
Esta
resenha comportaria alguns exemplos bem dolorosos. Fôra inútil apontá-los. Dela
ressalta impressionadoramente a urgência de medidas que salvem a sociedade
obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esfôrço do homem; uma
justiça austera que lhe cerceie os desmandos; e uma forma qualquer do homestead
que o consorcie definitivamente à terra.
Rios em Abandono
O
geógrafo norte-americano Morris Davis revelou o "ciclo vital" dos
rios. Era uma concepção revolucionária; e não houve cientista jungido à
enfezada geografia descritiva, dominante ainda entre nós, que se não
escandalizasse ante o conceito desassombrado do yankee. Mas o
antagonismo foi passageiro e frágil. Uma simples monografia, Rivers and
Valleys of Pennsylvania, deslocou, de golpe, desde 1889, tôda a fortaleza
inerte da rotina; e firmou um nôvo rumo ao critério geográfico, não já apenas
pelo associar à forma a estrutura dos terrenos, completando os facies
inexpressivos das superfícies com os elementos geológicos, senão também
esclarecendo a gênese dos mais breves acidentes e descobrindo nas linhas
pinturescas da móvel fisionomia da terra a expressão eloqüente das energias
naturais que a modelaram e sem cessar a transfiguram. Por fim ninguém mais
estranhou que Morris Davis, impelido aos últimos corolários da nova doutrina,
se abalançasse a uma espécie de fisiologia monstruosa e descrevesse
dramàticamente as complexas vicissitudes da existência milenária dos fartos
cursos de águas, mostrando-no-los com uma infância irrequieta, uma adolescência
revôlta, uma virilidade equilibrada e uma velhice ou uma decrepitude
melancólica, como se êles fôssem estupendos organismos sujeitos à concorrência
e à seleção, destinados ao triunfo, ou ao aniquilamento, consoante mais ou
menos se adaptam às condições exteriores.
Não
acompanharemos o genial biógrafo dos rios pensilvânicos no explanar a teoria
admirável, que é o caso impressionador de uma entrada triunfante - ou de uma rush
atrevida - da imaginação e da fantasia nos remansos da ciência. Baasta-nos notar
que ela foi aceita em tôda a linha e é infrangível, esteando-se em dados
indutivos e seguros.
Tôdas
as caudais, de feito, atravessam períodos inevitáveis, de ritmos uniformes e
constantes, malgrado a variabilidade do teatro em que se operam: a princípio
indecisas, errantes e frágeis, derivando ao acaso, ao viés dos pendores, como à
procura de um berço em cada dobra do chão, e acumulando-se nos numerosos lagos,
incoerentemente esparsos, onde repousam; depois, definidas nas primeiras linhas
de drenagem mais estáveis e fundas para onde convergem, adensadas, as chuvas,
formando-se o aparelho das correntes, reprofundando-se os leitos esboçados e
iniciando-se com a energia tumultuária das cachoeiras o choque secular com as
asperezas da terra, longo tempo; até que, extintos os empeços estruturais,
estabelecido um leito e definido um traçado, o rio se constitua, com os seus
afluentes fixos, um declive contínuo em curvaturas regulares, um talvegue
ajustado à contextura do solo e à diferenciação morfológica que lhe reflete a
um tempo os seus vários estádios - das cabeceiras onde perduram as águas
selvagens do antigo regime torrencial, ao curso médio que lhe caracteriza a
situação presente, e ao trecho inferior, prefigurando-lhe a decrepitude, onde
êle se espraia repousadamente e constrói pela colmatagem das vasas que acarreta
com velocidade insensível, a própria planície aluvial em que descansa.
É a
fase de madureza. O rio está na plenitude da vida, depois da molduragem
complexa de todos os relevos. Atinge-a rematando um esfôrço pertinaz, que é por
vêzes tôda a história geológica da região.
Não
houve um ponto em todo o percurso de centenares ou de milhares de quilômetros
que êle não atacasse, um grão de areia que não removesse, balanceando as
escavações a montante com os aterros a jusante - construindo-se a si mesmo -
obediente à tendência universal para as situações estáveis. Adquiriu, por fim,
o seu perfil longitudinal de equilíbrio, e êste, ainda abrupto nas vertentes,
onde a correnteza é máxima e o volume mínimo, vem contìnuamente amortecendo-se,
em sucessivo decair de declive, até ao quase horizontalismo no nível de base,
da foz, onde aquêles elementos se invertem, resultando o equilíbrio dinâmico do
sistema da relação inversa entre as massas liqüidas e as velocidades que se
arrastam.
Como
quer que seja, desde que alcança êste período, todos os elementos do seu
talvegue, projetados em plano vertical, desenham-se com a forma aproximada de
um ramo de desmedida parábola, de concavidade volvida para as alturas.
Assim
se traduz geomètricamente um fato mecânico complexo. E bem que a tendência para
aquela figura seja em geral perturbada ou extinta nas camadas de resistência
variável, onde as rochas desvendadas originam o antagonismo das cachoeiras, é
inegável que a curva parabólica se delineia nos terrenos homogêneos como sendo
a forma definitiva da secção longitudinal de todos os rios no remate de suas
vicissitudes evolutivas.
* * *
O
Purus é um dos melhores exemplos.
Desenhando-se-lhe
o perfil em tôda a extensão itinerária de 3210 quilômetros que vai da
embocadura no Solimões aos últimos manadeiros do Ribeirão Pucani, na serrania
deprimida e sem nome que separa as maiores bacias hidrográficas da Terra,
chega-se muito aproximadamente àquele ramo de parábola.
Pelo
menos nenhuma outra curva o definirá melhor.
Demonstra-o
êste quadro onde os vários trechos se sucedem de modo a acompanhar-se em todo o
seu percurso a queda regularíssima das águas:
|
SECÇÕES
|
Distâncias
|
Diferenças
|
Declividade
|
Declive
|
|
|
itinerárias
|
de nível
|
geral
|
quilométrico
|
|
|
(Km)
|
(metros)
|
|
(metros)
|
|
Das
nascentes ao Curiuja
|
117
|
189
|
1/619
|
1,60
|
|
Do
Curiuja a Curanja
|
278
|
60
|
1/4500
|
0,22
|
|
De
curanja à foz do Chandless
|
304
|
49
|
1/6500
|
0,16
|
|
Do
Chandless à foz do Iaco
|
300
|
39
|
1/7700
|
0,13
|
|
Do
Iaco ao Acre
|
237
|
27
|
1/8700
|
0,115
|
|
Do
Acre ao Pani
|
233
|
20
|
1/11000
|
0,085
|
|
Do
Pani ao Mucuím
|
740
|
58
|
1/12900
|
0,077
|
|
Do
Mucuím ao Solimões
|
990
|
15
|
1/66700
|
0,015
|
Aí
só há um dado vacilante: o que resulta da diferença de nível nos pontos
extremos do último trecho. Deduzimo-lo adotando um mínimo de 18 metros para altura
da foz do Purus, sôbre o nível do mar, quando ela é certamente maior e mais
favorável, portanto, às nossas conclusões. Os demais elementos, devemo-los aos
trabalhos de William Chandless e às nossas observações recentes.
Ora,
ao mais rápido lance de vistas, e sem que se exija um desenho facílimo,
verifica-se que o grande rio, atravessando um terreno homogêneo e mais ou menos
impermeável, subordinado a um declive que, apesar de diminuto, é dominante na
vasta planura, onde as chuvas se distribuem com regularidade incomparável - é
dos que mais se adaptam às condições teóricas indicadas por Morris Davis; e no
ultimar a sua evolução geológica retrata-se admiràvelmente na parábola
majestosa de que tratamos há pouco.
No
estudar o seu regime geral vamos, portanto, com a firmeza de quem discute a
equação de uma curva.
Assim,
considerando o primeiro trecho, aquela declividade de 1,60m por quilômetro, tão
diversa da que se lhe sucede, de 0,22m, diz-nos para logo, dispensando o exame local,
que o verdadeiro Alto-Purus - demarcado oficialmente a partir da bôca do Acre,
e estendido por alguns geógrafos ainda mais para jusante - principia de fato
muito além, a 3079 quilômetros da foz, na confluência do Cujar e do Curiuja, os
dois tributários em que êle se reparte numa dicotomia perfeita, perdendo o nome
e esgalhando-se largamente fracionado pelos mais remotos pontos da sua vasta
bacia de captação.
Por
outro lado, o declive real de mal se aproxima da conhecida relação firmada como
o limite mínimo das vertentes torrenciais.
Conclui-se,
então, de pronto, que o rio, até no seu último segmento, onde é sempre mais
difícil e remorada a regularização dos leitos, está numa fase avançadíssima de
desenvolvimento. É o caso excepcional de uma grande artéria, entre as maiores
existentes, capaz de ser navegada nas mais extremas nascentes, durante as
cheias que lhe encubram os numerosos degraus das corredeiras - porque em tal
quadra, admitindo que as águas subam de três metros numa calha de dez, com
aquêle declive, que corresponde a 0,0015m por metro, o simples emprêgo da
fórmula de D’Aubuisson, nos diz que as corrrentes derivarão com a velocidade
máxima de apenas 2,20m, fàcilmente balanceada por uma lancha veloz.
Ora,
estas deduções resultantes de breve contemplação de um quadro tão expressivo
que dispensa o diagrama correspondente, ressaltam, vivamente, às mais
incuriosas vistas de observador escoteiro, que ali passe depois de varar a
planura amazônica num itinerário de quinhentas léguas.
De
fato, o que sobremaneira o impressiona é o espetáculo da terra profundamente
trabalhada pelo indefinido e incomensurável esfôrço dos formadores do rio.
Chega, depois de trilhar o canyon coleante do Pucani, ao sopé das
últimas vertentes; defronta a clivosa escarpa de uma corda insignificante de
cerros deprimidos; vinga-lhe em três minutos a altura relativa de sessenta
metros escassos - e não acredita que esteja na fronteira hidrográfica mais
extraordinária do globo, podendo ir de uma passada única do Vale do Amazonas ao
Vale do Ucaiáli...
A
altura em que se vê não lhe basta a desapertar os horizontes, ou a atalaiar as
distâncias. É inapreciável. Não há abrangê-la com a escala mais favorável dos
mapas. E sem dúvida jamais compreenderia tão indeciso divortium aquarum a
tão opulentas artérias, se ao buscar aquêles rincões, varando, ao arrepio das
itaipavas, por dentro das calhas reprofundadas do Cujar, do Cavaljane e do
Pucani, o observador se não habituasse a contemplar, longos dias, os mais
enérgicos efeitos da dinâmica poderosa das águas que transmudaram a paragem
outrora mais em relêvo e dominante. Não lhe importa a inópia de conhecimentos
paleontológicos ou a carência de fósseis norteadores. Está, evidentemente,
sôbre a ruinaria de uma sublevação quase extinta, cujo sinclinal êle pôde
reconstruir, prolongando as linhas dos estratos que afloram nos sulcos onde se
encaixam aquêles últimos tributários, denunciando todos na tranqüilidade
relativa, quase remansados nos intervalos de suas corredeiras (restos de
velhíssimas catadupas destruídas), a derradeira fase de uma luta em que o
Purus, para alongar a sua seção de estabilidade, teve que derruir montanhas.
Pelo menos a atividade erosiva e o volume de materiais arrebatados de todos
aquêles pendores, foram incalculáveis, para que as linhas de drenagem se
abatessem até aos substrato rochoso e declinasse, como vimos, aos graus
apropriados aos cursos navegáveis.
Apesar
disto, a transição para o trecho seguinte ainda é repentina. Passa-se da
declividade quilométrica de 4,60m, para a de 0,22m.
Mas
é o único salto. Daí por diante, como o revela o quadro anterior, até ao último
segmento extremado pela foz, onde para descer-se um metro se tem de caminhar
66,700, a atenuação dos declives prossegue com uma regularidade perfeita,
incluindo o Purus entre as caudais de todo regularizadas, cujo "ciclo
vital" progressivo vai cerrrando-se.
Não
aprofunda mais o leito. Os próprios afloramentos de grés (Parasandstein)
aparecendo nas vazantes, dispersos entre Huitanaã e a embocadura do Acre, e
dali para cima ainda mais raros até pouco além do Iaco, reforçam a afirmativa,
bem que na aparência a invalidem. Restos de antigas corredeiras desmanteladas
surgem como testemunhos das erosões primitivas e não provocam, em geral, o
mínimo desnivelamento. O pequeno povoado da Cachoeira, que se erige defrontando
um trecho tranqüilo do rio, tem o mais impróprio dos nomes, expressivo apenas
no recordar um acidente perdido em remoto passado geológico e do qual perduram
apenas alguns blocos desordenadamente acumulados em minúsculos recifes, e
breves "travessões". Ali, como nos outros trechos, o mesmo quadro da
terra estirando-se, complanada, pelos quadrantes, ou docemente ondulada
denunciando a mais completa molduragem, associa-se aos demais caracteres no sugerir
a derradeira fase do processo evolutivo do vale.
Um
elemento apenas falta: a regularidade na sucessão das curvas de nível das
vertentes imediatas às margens, que se fronteiam. Qualquer seção transversal do
Purus representa as mais das vêzes uma praia deprimida que mal se alteia
vagarosamente até ao rebordo longínquo da planície pouco elevada, contraposta a
uma barranca despenhada, como a da margem oposta à bôca do Chandless, ou caindo
às vêzes a prumo, feito uma muralha, como na situação admirável do Catai.
É que
à imutabilidade daquele perfil de equilíbrio se antepões a variabilidade da sua
planta, em escala capaz de justificar os que o incluem entre os rios
"cujos leitos e margens não estão sequer delineados em seus perfis de
estrutura definida a assente".
Realmente,
o Purus, um dos mais tortuosos cursos d’água que se registram, é também dos que
mais variam de leito. Divaga, consoante o dizer dos modernos geógrafos. A
própria velocidade diminuta, que adquiriu e vai decrescendo sempre até ao quase
rebalsamento, nas cercanias da foz, aliada à inconsistência dos terrenos
aluvianos, formados por êle mesmo com os materiais conduzidos das nascentes,
determina-lhe êste caráter volúvel. Às suas águas, derivando em correntezas
fracas, falta a quantidade de movimento necessária às direções intorcíveis. O
mínimo obstáculo desloca-as. Um tronco de samaúma que tombe de uma das margens,
abarreirando-se ligeiramente, desvia o empuxo da massa líqüida contra a outra,
onde de pronto se exercita, menos em virtude da fôrça viva da corrente que da
incoerência das terras, intensíssima erosão de efeitos precipitados.
A
indecisa arqueadura, que logo se forma, circularmente, se acentua, e, à medida
que aumenta, vai tornando mais violentos os ataques da componente centrífuga da
correnteza que lhe solapa a concavidade crescente, fazendo que em poucos anos
todo o rio se afaste, lateralmente, do primitivo rumo. Mas como êste se traçou
adscrito aos pontos determinantes de um perfil de equilíbrio inviolável, aquêle
desvio nunca é uma bifurcação, ou definitiva mudança. O rio, depois de rasgar o
amplo círculo de erosão, procura volver ao antigo canal, como quem contorneou
apenas um obstáculo encontrado em caminho.
O
círculo por onde êle se alonga tende a fechar-se. De sorte que tôda a área de terrenos
abrangidos se transmuda em verdadeira peníncula, ligada por um istmo tão
delgado, às vêzes, que o caminhante o atravessa em minutos, enquanto gasta um
dia inteiro de viagem, embarcado, para perlongar o contôrno da terra quase
insulada. Por fim esta se destaca, ilhando-se de todo. No sobrevir de uma
enchente o Purus despedaça a frágil barreira do istmo; e retoma, de golpe, o
primitivo curso, deixando à margem, a relembrar o desvio por onde divagou, um
lago anular, não raro amplíssimo. Prossegue. Reproduz adiante outros meandros
caprichosos, completados sempre pela criação dos mesmos lagos, ou
"sacados". E assim vai - perpètuamente oscilante aos lados de seu
eixo invariável - num ritmo perfeito, refletindo o jogar de leis mecânicas
capazes de se sintetizarem numa fórmula, que seria a tradução analítica de
curioso movimento pendular sôbre um plano de nível.
Desta
maneira, ali se resolve naturalmente um dos mais sérios problemas de hidráulica
fluvial. De fato, aquêles lagos são verdadeiros diques, funcionando com um
duplo efeito: de um lado impedem as inundações devastadoras, absorvendo os
excessos das cheias transbordantes; de outro lado, regulam o regime das águas,
durante as grandes estiagens, em que se abrem por si mesmos, automàticamente,
"estourando", para usar uma expressão local, e restituindo ao rio
empobrecido da vazante parte das massas líqüidas que economizaram.
Não
se calcula o valor dêstes trabalhos colossais da natureza.
Revela-no-los
bem um confronto expressivo. Os hidráulicos franceses que averbaram em 1856,
como pormenor inverossímil, uma subida de 10,90m, das águas do Garona,
originando uma das inundações mais funestas que têm ocorrido na Europa, - certo
não compreenderiam a própria existência do vasto território amazônico
convizinho ao Purus (que vale cêrca de cinqüenta Garonas cheios) se soubessem
que êle se alteia 15 metros na foz, onde tem uma milha de largo, e que dali a
montante as águas tufam num crescendo espantoso até 23 metros sôbre as
estiagens, na confluência do Acre.
No
entanto estas enchentes são inócuas.
A
massa líqüida, inflada logo às primeiras chuvas, sobe, galgando velozmente as
barrancas, e em poucos dias vai bater nos esteios dos barracões eretos nos
"firmes" mais altos do terreno... e todo êste dilúvio em marcha não
acachoa, não tumultua, não se arremessa em correntezas vertiginosas, não enleia
as embarcações torcendo-as nas espirais vibrantes dos remoinhos e não devasta a
terra. Difunde-se; extingue-se silenciosamente; perde-se inofensivo naqueles
milhares de válvulas de segurança; e espraiando-se, raso, pelo chão das matas,
ou espalmando-se, desafogadamente, em desmarcadas superfícies onde repontam,
salteadas, as últimas ramas floridas dos igapós afogados, vai, ao contrário,
regenerando aquela mesma terra, e reconstruindo-a porque a torna de ano em ano
mais elevada com a colmatagem perfeita de tôda a vasa que acarreta.
Assim,
em tôda aquela planura, o notável afluente amazônico, serpenteando nas
inumeráveis sinuosas que lhe tornam as distâncias itinerárias duplas das
geográficas, inclui-se entre os mais interessantes "rios
trabalhadores", construindo os diques submersíveis que o aliviam nas
enchentes - e lhe repontam, intermitentemente às duas bandas, ora próximos, ora
afastados, salpintando tôdas as várzeas ribeirinhas, e avultando maiores e mais
numerosos à medida que se desce, e se amortecem os declives, até a larga
baixada centralizada em Canutama onde as grandes águas tranqüilas derivam
majestosamente, equilibradas, sulcando de meio a meio a vastidão de nível de um
mediterrâneo esparso.
* * *
Mas
esta formação de lagos ou reservatórios naturais, cuja função benéfica vimos de
relance, acarreta inconvenientes de tal porte, que tornam, por vêzes, em alguns
pontos, quase impenetrável uma artéria fluvial que pelos elementos
privilegiados de seu perfil concorre com as mais acessíveis à navegação
regular.
Realmente
nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incontáveis
meandros, o Purus entope-se com as raízes e troncos das árvores que o marginam.
Às
vêzes é um lanço unido, de quilômetros, de "barreira", que lhe cai de
uma vez e de súbito em cima, atirando-lhe, desarraigada, sôbre o leito, uma
floresta inteira.
O
fato é vulgaríssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam. Não raro o
viajante, à noite, desperta sacudido por uma vibração de terremoto, e aturde-se
apavorado ouvindo logo após o fragor indescritível de miríades de frondes, de
troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo, estalando e caindo todos a um
tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando o assalto fulminante de um
cataclismo e um desabamento da terra.
São,
de fato, "as terras caídas", das quais resultam sempre duas sortes de
obstáculos: de um lado o inextricável acervo de galhadas e troncos, que se
entrecruzam à superfície d’água, ou irrompem em pontas ameaçadoras, do fundo; e
de outro as massas argilosas, ou argilo-arenosas que a corrente pouco veloz não
dissolve, permitindo-lhes acumularem-se nas minúsculas ilhotas dos
"torrões", ou, mais prejudiciais, nos rasos bancos compactos dos
"salões", impropriando a passagem aos mais diminutos calados.
Não
precisamos insistir neste fato.
A
sua gravidade é intuitiva. E considerando-se que êle se reproduz em tôda a extensão
de 480 quilômetros, que vai da embocadura ao Iaco à do Curiuja, onde se
acumulam cada vez mais aquêles entraves, indefinidamente crescentes, chega-se a
concluir que o Purus, depois de haver conseguido um dos mais regulares perfis
de tôda a hidrografia e de aparelhar-se com os melhores elementos predispostos
a uma rara fixidez de regime, erigindo-se modêlo admirável entre as caudais
mais bem talhadas à grande navegação - está, agora, a pouco e pouco perdendo a
maior parte dos seus resquisitos superiores, com o progredir de um
atravancamento em larga escala, que o tornará mais tarde inteiramente
impenetrável.
Dizemo-lo
baseando-nos em penosa experiência culminada por um naufrágio. Sobretudo além
da embocadura do Chandless, multiplicam-se tanto êstes empecilhos de todo
estranhos à "tectônica" especial do rio, que em longos
"estirões", com a profundidade média de cinco a seis pés, nas
vazantes, onde passariam carregadas as mais poderosas lanchas, mal pode
deslizar uma montaria ligeira. Escusamo-nos de exemplificar alongando estas
considerações ligeiras. Notemos apenas que a partir do tributário precitado até
a bifurcação Cujar-Curiuja, o Purus em vários lugares parece correr por cima de
uma antiga derrubada. Vai-se como entre os galhos estonados e revoltos de uma
floresta morta. E se observarmos que, além dos empeços em si mesmas encerrados,
estas tranqueiras, rebalsando as águas que se filtram entre os ramos unidos,
facilitam a formação de tôda a sorte de baixios, compreender-se-á em tôda a sua
latitude o progredimento contínuo dessa obstrução prejudicialíssima.
Porque
os homens que ali mourejam - o caucheiro peruano com as suas tanganas
rijas, nas montarias velozes, o nosso seringueiro, com os varejões que lhe
impulsionam as ubás, ou o regatão de tôdas as pátrias que por ali mercadeja nas
ronceiras alvarengas arrastadas à sirga - nunca intervêm para melhorar a sua
única e magnífica estrada; passam e repassam nas paragens perigosas; esbarram
mil vêzes a canoa num tronco caído há dez anos junto à beira de um canal;
insinuam-se mil vêzes com as maiores dificuldades numa ramagem revôlta
barrando-lhes de lado a lado o caminho, encalham e arrastam penosamente as
canoas sôbre os mesmos "salões" de argila endurecida; vêzes sem conta
arriscam-se ao naufrágio, precipitando, ao som das águas, as ubás contra as
pontas duríssimas dos troncos que se enristam invisíveis, submersos de um palmo
- mas não despendem o mínimo esfôrço e não despedem um golpe único de facão ou
de machado num só daqueles paus, para desafogar a travessia.
As
lanchas, e até os vapores, que ali vão aparecendo mais a miúdo, à medida que
avultam as safras dos cento e vinte opulentos seringais que já se abriram acima
da confluência do Iaco, viajam, invariàvelmente, nas quadras favoráveis das
cheias, quando aquêles entraves se afogam em alguns metros de fundo.
Sobem,
velozes, o rio; descarregam, precipitadamente, em vários pontos as mercadorias
consignadas; carregam-se de borracha; e tornam logo, precípites, águas abaixo,
fugindo. Apesar disto, algumas não se forram a repentinas descidas de nível,
prendendo-as. E lá se ficam, longos meses - esperando a outra enchente, ou o
inesperado de um "repiquete" propício, invernando paradoxalmente sob
as soalheiras caniculares - nas mais curiosas situações: ora em pleno rio,
agarradas pelos centenares de braços das árvores sêcas, que as imobilizam; ora
a meio da barranca, onde as surpreendeu a vazante, grosseiramente especadas,
encombentes, com as proas afocinhando, inclinadas, em riscos permanentes de
queda; ora no alto de uma barreira, como autênticos navios-fantasmas,
aparecendo, de improviso e surpreendedoramente, em plena entrada da mata
majestosa.
O
contraste desta navegação com as admiráveis condições técnicas imanentes ao rio
é flagrante. O Purus - e como êle todos os tributários meridionais do Amazonas,
à parte o Madeira - está inteiramente abandonado.
Entretanto
o simples enunciado dêstes inconvenientes, evidentemente alheios às suas
admiráveis condiões estruturais, delata que a remoção dêles, embora demorada,
não demanda trabalhos excepcionais de engenharia e excepcionais dispêndios.
O
que resta fazer, ao homem, é rudimentar e simples.
Os
grandes, os sérios problemas de hidráulica fluvial que ali houve, resolveu-os o
próprio rio agindo no jôgo harmonioso das forças naturais que o modelaram.
E
êles representam um trabalho incalculável. O Purus é uma das maiores dádivas
entre tantas com que nos esmaga uma natureza escandalosamente perdulária.
Vejamo-lo,
de relance.
Tôda
a hidráulica fluvial parece ter nascido entre os leitos do Garona e do Loire,
tais e tantos os monumentos que ali levantou a engenharia francesa. Nunca o
homem arremeteu com tamanha pertinácia o brilho com a brutalidade dos
elementos. Os romanos transfigurando a Argélia e os holandêses construindo a
Holanda, emparelham-se bem com os abnegados profissionais que durante um
século, impassíveis ante sucessivos reveses, se devotaram à emprêsa exaustiva
de paralisar torrentes, de atenuar inundações e de encadear avalanchas, na
dupla tentativa de facilitar a navegação e de proteger os territórios
ribeirinhos.. E todo êsse magnífico esfôrço em que se imortalizaram Deschamps,
Dieulafoy e Belgrand, resuktou em grande parte inútil. Inútil ou
contraproducente. Os primores da engenharia estragaram o Loire.
Os
diques submersíveis ou insubmersíveis destinados a salvarem as povoações, os
canais de socorro que se lhes anexavam, as margens artificiais ladeando em
dezenas de quilômetros o leito menor das caudais, os enrocamentos antepostos às
erosões, as barragens antepostas às correntezas - tinham em geral a duração
efêmera dos seis meses da estiagem, tal a inconstância irreparável daquelas
artérias.
Por
fim engenharam-se estupendos reservatórios alcandorados nos Pireneus,
escalonando-se por todos os pendores, para armazenar as inundações. E
armazenavam catástrofes - rompendo-se-ljes os muros, de onde saltavvam as ondas
despenhadas varrendo povoados inteiros...
Mas
ainda quando estas ruturas dos reservatórios compensadores não formassem os
episódios mais dramáticos da história da engenharia, e êles pudessem erigir-se
estáveis e sem riscos, nós, quaisquer que fôssem os nossos esforços e os nossos
dispêndios, jamais os construiríamos como no-los construiu o Purus.
Considere-se,
para isto, êste exemplo. Duponchel, para dar ao Neste - um pequeno rio com a
despesa média de 25 metros cúbicos - um modêlo constante, que lhe amortecesse
as inundações, calculou um reservatório de 300.000.000.000 de litros e recuou
antte o algarismo colossal.
Ora,
o Neste é três vêzes menor que o Iaco, que, entretanto, não se inclui entre os
maiores afluentes do Purus.
Diante
dêstes dados formidáveis põe-se de manifesto que a construção de reservatórios
compensadores no grande rio seria o mesmo que fazer um mar; e conclui-se que os
existentes, numerosíssimos, às suas margens, representam um capital inestimável
e acima dos mais ousados orçamentos.
Precisamos
ao menos conservá-lo. Aproveitemos uma lição velha de um século. O Mississipi,
que no seu curso inferior retrata o traçado do Purus com a exação de um
decalque, era, pelas mesmas causas, ainda mais inçado de empecilhos, tornando-o
quase impenetrável e em muitos lugares de todo intransponível. Alguns dos seus
tributários não estavam apenas trancados: desapareciam, literalmente, sob os
abatises.
No
entanto o grande rio, hoje transfigurado, desenha-se como um dos traços mais
vivos da pertinácia norte-americana.
Lá
está, porém, no seu vale, em um de seus afluentes, o Rio Vermelho, um caso
desalentador. É um rio perdido. O yankee descobriu-o tarde demais. A
desmedida tranqueira, the great raft, exatamente formada como as que
estão formando-se no Purus, estira o labirinto de seus madeiros e das suas
frondes mortas por 630 quilômetros - e lá está, indestrutível, depois de
desafiar durante vinte e dois anos os maiores esforços para uma desobstrução
impossível.
Estabelecida
a proporção entre aquêle rio minúsculo e o Purus, entre nós e os
norte-americanos, aquilatam-se as dificuldades que nos aguardarão, se
progredirem os obstáculos apontados, e cuja remoção atual, completando-se com a
defesa, embora rudimentar, das margens mais ameaçadas pelas erosões, é ainda de
relativa facilidade. Ao mesmo passo se atenuarão consideràvelmente as
"divagações" precitadas, que constituem verdadeira anomalia num rio
aparelhado de um perfil de estabilidade demonstrável até geomètricamente, como
vimos.
De
qualquer modo urge iniciar-se desde já modestíssimo, mais ininterrupto,
passando de govêrno a govêrno, numa tentativa persistente e inquebrantável, que
seja uma espécie de compromisso de honra com o futuro, um serviço organizado de
melhoramentos, pequeno embora em comêço, mas crescente com os nossos recursos -
que nos salve o majestoso rio.
Von
den Stein, com a agudeza irrivalizável de seu belo espírito, comparou, algures,
pinturescamente, o Xingu a um "enteado" da nossa geografia.
Estiremos
o paralelo.
O
Purus é um enjeitado.
Precisamos
incorporá-lo ao nosso progresso, do qual êle será, ao cabo, um dos maiores
fatôres, porque é pelo seu leito desmedido em fora que se traça, nestes dias,
uma das mais arrojadas linhas da nossa expansão histórica.
Um clima caluniado
Na
definição climática das circunscrições territoriais criadas pelo Tratado de Petrópolis
tem-se incluído sempre um elemento curiosíssimo, ante o qual o psicólogo mais
rombo suplanta a competência do Professor Hann, ou qualquer outro mestre em
coisas meteorológicas: o desfafflecimento moral dos que para lá seguem e levam
desde o dia da partida a preocupação absorvente da volta no mais breve prazo
possível. Cria-se uma nova sorte de exilados - o exilado que pede o exílio,
lutando por vêzes para o conseguir, repelindo outros concorrentes, ao mesmo
passo que vai adensando na fantasia alarmada as mais lutuosas imagens no
prefigurar o paraíso tenebroso que o atrai.
Parte,
e leva no próprio estado emotivo a receptividade a tôdas as moléstias.
Atravessa
quinze dias infindáveis a contornear a nossa costa. Entra no Amazonas.
Reanima-se um momento ante a fisionomia singular da terra; mas para logo
acabrunha-o a imensidade deprimida - onde o olhar lhe morre no próprio quadro
que contempla, certo enorme, mas em branco e reduzido às molduras indecisas das
margens afastadas. Sobe o grande rio; e vão-se-lhe os dias inúteis ante a
imobilidade estranha das paisagens de uma só côr, de uma só altura e de um só
modêlo, com a sensação angustiosa de uma parada na vida: atônicas tôdas as
impressões, extinta a idéia do tempo, que a sucessão das aparências exteriores,
uniformes, não revela - e retraída a alma numa nostalgia que não é apenas a
saudade da terra nativa, mas da Terra, das formas naturais tradicionalmente
vinculadas às nossas contemplações, que ali se não vêem, ou se não destacam na
uniformidade das planuras...
Entra
por um dos grandes tributários, o Juruá ou o Purus. Atinge ao seu objetivo
remoto; e todos os desalentos se lhe agravam. A terra é, naturalmente,
desgraciosa e triste, porque é nova. Está em ser. Faltam-lhe à vestimenta de
matas os recortes artísticos do trabalho.
Há
paisagens curtas que vemos por vêzes, subjetivamente, como um reflexo
subconsciente de velhas contemplações ancestrais. Os cerros ondulantes, os
vales, os litorais que se recortam de angras, e os próprios desertos recrestados,
afeiçoam-se-nos às vistas por maneira a admitirmos um modo qualquer de
reminiscência atávica. Vendo-os pela primeira vez, temos o encanto de
equipararmos o que imaginamos com o que se nos antolha, numa exteriorização
tangível de contornos anteriormente idealizados.
Ali,
não. Desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Há
alguma coisa extraterrestre naquela natureza anfíbia, misto de águas e de
terras, que se oculta, completamente nivelada, na sua própria grandeza. E
sente-se bem que ela permaneceria para sempre impenetrável se não se
desentranhasse em preciosos produtos adquiridos de pronto sem a constância e a
continuidade das culturas. As gentes que a povoam talham-se-lhe pela braveza.
Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na. O cearense, o paraibano, os
sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma
das maiores emprêsas dêstes tempos. Estão amansando o deserto. E as suas almas
simples, a um tempo ingênuas e heróicas, disciplinadas pelos reveses,
garantem-lhes, mais que os organismos robustos, o triunfo na campanha
formidável.
O
recém-vindo do Sul chega em pleno desdobrar-se daquela azáfama tumultuária, e,
de ordinário, sucumbe. Assombram-no, do mesmo lance, a face desconhecida da
paisagem e o quadro daquela sociedade de caboclos titânicos que ali estão
construindo um território. Sente-se deslocado no espaço e no tempo; não já fora
da pátria, senão arredio da cultura humana, extraviado num recanto da floresta
e num desvão obscurecido da História.
Não
resiste. Concentra todos os alentos que lhe restam para o só efeito de
permanecer algum tempo, inútil e inerte, no pôsto que lhe marcaram; mal
desempenhando os mais simples deveres; indo-se-lhe os olhos em todos os vapôres
que descem - e o espírito ausente nos lares afastados, longo tempo, em um
exaustivo agitar de apreensões e conjeturas - até que o sacuda,
inesperadamente,, em pleno dia canicular, um súbito estremeção de frio,
delatando-lhe a vinda salvadora, e por vêzes recônditamente anelada, da febre.
E é uma surprêsa gratíssima. A vida desperta-se-lhe de golpe, naquela
cotovelada da morte que passou por perto. O impaludismo significa-lhe, antes de
tudo, a carta de alforria de um atestado médico. É a volta. A volta sem
temores, a fuga justificável, a deserção que se legaliza, e o mêdo sobredoirado
de heroísmo, desafiando o espanto dos que lhe ouvem o romance alarmante das
moléstias que devastam a paragem maldita.
Porque
é preciso coonestar o recuo. Então cada igarapé sem nome é um Ganges pestilento
e lúgubre; e os igapós, ou os lagos, espalmam-se nas várzeas empantanadas como
lagunas Pontinas incontáveis. Traça-se um quadro nosológico arrepiador e
trágico, num imaginoso fabular de agruras; e, dia a dia, a natureza caluniada
prlo homem vai aparecendo naquelas bandas, ante as imaginações iludidas, como
se lá se demarcasse a paragem clássica da miséria e da morte...
* * *
O
exagêro é palmar. O Acre, ou, em geral, as planuras amazônicas cindidas a meio
pelo longo sulco do Purus, têm talvez a letalidade vulgaríssima em todos os
lugares recém-abertos ao povoamento. Mas consideràvelmente reduzida.
Demonstra-no-lo
um ligeiro confronto.
As
Escolas de Medicina Colonial da Inglaterra e da França, revelam-nos, pelos
simples títulos, os resguardos com que se rodeia sempre o transplante dos povos
para os novos habitats. Há esta linha de nobreza no moderno imperialismo
expansionista capaz de absolver-lhe os máximos atentados: os seus brilhantes
generais transmudam-se em batedores anônimos dos médicos e dos engenheiros; as
maiores batalhas fazem-se-lhe simples reconhecimento da campanha ulterior,
contra o clima; e o domínio das raças incompetentes é o comêço da redenção dos
territórios, num giro magnífico que do Tonquim à Índia, ao Egito, à Tunísia, ao
Sudão, à Ilha de Cuba, e às Filipinas, vai generalizando em todos os meridianos
a emprêsa maravilhosa do saneamento da terra.
Da
terra e do homem. A tarefa é dúplice. Aos conquistadores tranqüilos não lhes
basta o perquirir as causas meteorológicas ou telúricas das moléstias imanentes
aos trechos recém-consquitados, na escala indefinida que vai das anemias
estivais às febres polimorfas. Resta-lhes o encargo maior de justapor os novos
organismos aos novos meios, corrigindo-lhes os temperamentos, destruindo-lhes velhos
hábitos incompatíveis, ou criando-lhes outros até se construir, por um processo
a um tempo compensador e estimulante, o indivíduo inteiramente aclimado, tão
outro por vêzes nos seus caracteres físicos e psíquicos que é, verdadeiramente,
um indígena artificial transfigurado pela higiene. Para isto o colono, ou o
emigrante, torna-se em tôda a parte um pupilo do Estado. Todos os seus atos,
desde o dia da partida, prefixo nas estações mais convenientes, aos últimos
pormenores de alimentação, ou de vestir, predeterminam-se em regulamentos
rigorosos. Dentro dos lineamentos largos das características fundamentais do
clima quente para onde êle se desloca, urde-se a trama de uma higiene
individual, onde se prevêem tôdas as necessidades, todos os acidentes e até os
perigos da instabilidadde orgânica inevitável à fase fisiológica da adaptação a
um meio cósmico, cujo influxo deprimente sôbre o europeu vai da musculatura,
que se desfibra, à própria fortaleza de espírito, que se deprime. Assim as
medidas profiláticas, que começam inspirando-se no estudo dos fatôres físicos
acabam, não raro, prolongando-se em belíssimo código de moral demonstrada. De
permeio com os preceitos vulgares para o reagir contra a temperatura alta, e a
umidade excessiva que lhe abatem a tensão arteerial e a atividade, lhe trancam
as válvulas de segurança dos poros e lhe fatigam o coração e os nervos,
criando-lhe, ao cabo, a iminência mórbida para os males que se desdobram do
impaludismo que lhe solapa a vida, às dermatoses que lhe devastam a pele -
despontam, mais eficazes e decisivos, os que o aparelham para reagir aos
desânimos, à melancolia da existência monótona e primitiva; às amarguras
crescentes da saudade; à irritabilidade provinda dos ares intensamente
eletrizados e refulgentes; ao isolamento - e, sobretudo, ao quebrantar-se da
vontade numa decadência espiritual subitânea e profunda, que se afigura a
moléstia únida de tais paragens, de onde as demais se derivam como exclusivos
sintomas.
Abra-se
qualquer regulamento de higiene colonial. Ressaltam à mais breve leitura os
esforços incomparáveis das modernas missões e o seu apostolado complexo que, ao
revés das antigas, não visam arrebatar para a civilização a barbaria
transfigurada, senão transplantar, integralmente, a própria civilização para o
seio adverso e rude dos territórios bárbaros.
Nas
suas páginas, o que por vêzes nos maravilha maos do que os prodígios da
previdência e do saber, desenvolvidos para afeiçoar o forasteiro ao meio, é o
curso sobremaneira lento, senão o malôgro dos mais pertinazes esforços.
A
França na Indochina, de clima quase temperado, despendeu quinze anos de
trabalhos contínuos para que sobrestivesse a mortalidade; e, obedecendo aos
pareceres dos seus melhores cientistas, renunciou, depois de longas tentativas,
ao povoamento sistemático da África equatorial. O mesmo sucede no geral das
colônias inglêsas, alemãs ou belgas. Basate-nos notar que a estadia
regulamentar dos seus agentes oficiais tem o período máximo de três anos. A
volta aos lares nativos é uma medida de segurança indispensável a
restaurar-lhes os organismos combalidos. Dêste modo, a despeito de tão grandes
sacrifícios e dispêncdios, e dos prodígios de engenharia sanitária que
transformam a rudeza topográfica dos lugares novos, formando-se uma verdadeira
geografia artística, o que nêles se forma, por fim, são umas sociedades
precárias de perpétuos convalescentes jungidos a dietas inflexíveis e vivendo
através das fórmulas inaturáveis dos receituários complexos.
Ora,
comparando-se estas colonizações adstritas às cláusulas de rigorosos estatutos
- e de efeitos tão escassos - com o povoamento tumultuário, com a colonização à
gandaia do Acre - de resultados surpreendentes - certo não se faz mister
registrar um só elemento para o asserto de que o regime da região malsinada não
é apenas sobradamente superior ao da maioria dos trechos recém-abertos à
expansão colonizadora, senão também ao da grande maioria dos países normalmente
habitados.
De
fato - à parte o favorável deslocamento paralelo ao equador, demandando as mesmas
latitudes - não se conhece na História exemplo mais golpeante de emigração tão
anárquica, tão precipitada e tão violadora dos mais vulgares preceitos de
aclimamento, quanto o da que desde 1879 até hoje atirou, em sucessivas levas,
as populações sertanejas do território entre a Paraíba e o Ceará, para aquêle
recanto da Amazônia. Acompanhando-a, mesmo de relance, põe-se de manifesto que
lhe faltou desde o princípio, não só a marcha lenta e progressiva das migrações
seguras, como os mais ordinários resguardos administrativos.
O
povoamento do Acre é um caso histórico inteiramente fortuito, fora da diretriz
do nosso progresso.
Tem
um reverso tormentoso que ninguém ignora: as sêcas periódicas dos nossos
sertões do Norte, ocasionando o êxodo em massa das multidões flageladas. Não o
determinou uma crise de crescimento, ou excesso de vida desbordante, capaz de
reanimar outras paragens, dilatando-se em itinerários que são o diagrama
visível da marcha triunfante das raças; mas a escassez da vida e a derrota
completa ante as calamidades naturais. As suas linhas baralham-se nos traçados
revoltos de uma fuga. Agravou-o sempre uma seleção natural invertida: todos os
fracos, todos os inúteis, todos os doentes e todos os sacrificados expedidos a
êsmo, como o rebotalho das gentes, para o deserrto. Quando as grandes sêcas de
1879-1880, 1889-1890, 1900-1901 flamejavam sôbre os sertões adustos, e as
cidades do litoral se enchiam em poucas semanas de uma população adventícia de
famintos assombrosos, devorados das febres e das bexigas - a preocupação
exclusiva dos podêres públicos consistia no libertá-las quanto antes daquelas
invasões de bárbaros moribundos que infestavam o Brasil. Abarrotavam-se, às
carreiras, os vapôres, com aquêles fardos agitantes consignados à morte. Mandavam-nos
para a Amazônia - vastíssima, despovoada, quase ignota - o que eqüivalia a
expatriá-los dentro da própria pátria. A multidão martirizada, perdidos todos
os direitos, rotos os laços de família, que se fracionava no tumulto dos
embarques acelerados, partia para aquelas bandas levando uma carta de prego
para o desconhecido; e ia, com os seus famintos, os seus febrentos e os seus
variolosos, em condições de malignar e corromper as localidades mais salubres
do mundo. Mas feita a tarefa expurgatória, não se curava mais dela. Cessava a
intervenção governamental. Nunca, até aos nossos dias, a acompanhou um só
agente oficial, ou um médico. Os banidos levavam a missão dolorosíssima e única
de desaparecerem...
E
não desapareceram. Ao contrário, em menos de trinta anos, o Estado que era uma
vaga expressão geográfica, um deserto empantanado, a estirar-se, sem lindes,
para sudoeste, definiu-se de chôfre, avantajando-se aos primeiros pontos do
nosso desenvolvimento econômico
A
sua capital - uma cidade de dez anos sôbre uma tapera de dois séculos -
transformou-se na metrópole da maior navegação fluvial da América do Sul. E
naquele extremo sudoeste amazônico, quase misterioso, onde um homem admirável,
William Chandless, penetrara 3.200 quilômetros sem lhe encontrar o fim - cem
mil sertanejos, ou cem mil ressuscitados,, apareciam inesperadamente e
repatriavam-se de um modo original e heróico: dilatando a pátria até aos
terrenos novos que tinham desvendado.
Abram-se
os últimos relatórios das prefeituras do Acre. Nas suas páginas maravilha-nos
mais do que as transformaçòes sem par que ali se verificam, o absoluto abandono
e o completo relaxo com que ainda se efetua o seu povoamento. Hoje, como há
trinta anos, mesmo fora das aperturas e dos tumultos das sêcas, os imigrantes avançam
sem o mínimo resquardo, ou assistência oficial.
No
entanto, as populações transplantadas se fixam, vinculadas ao solo; o progresso
demográfico é surpreendente - e das cabeceiras do Juruá à confluência do Abunã alonga-se,
cada vez mais procurada, a terra da promissão do Norte do Brasil.
* * *
O
paralelo é expressivo. Não se compreende a reputaçào de insalubridade de um tal
clima. Evidentemente o que se realizou e se realiza ainda, embora em menor
escala no Acre, foi a "seleção telúrica", de que nos fala Kirchoff:
uma sorte de magistratura natural, ou revista severa exercida pela natureza nos
indivíduos que a procuram, para só conceder o direito da existência aos que se
lhe afeiçoam.
Mas
o processo é geral.
Em tôdas
as latitudes foi sempre gravíssima nos seus primórdios a afinidade eletiva
entre a terra e o homem. salvam-se os que melhor balanceiam os fatôres do clima
e os atributos pessoais. O aclimado surge de um binário de fôrças físicas e
morais que vão, de um lado, dos elementos mais sensíveis, térmicos ou
higrométricos, ou barométricos, às mais subjetivas impressões oriundas dos
aspectos da paisagem; e de outro, da resistência vital da célula ou do tonus
muscular, às energias mais complexas e refinadas do caráter. Durante os
primeiros tempos, antes que a transmissão hereditária das qualidades de
resistência, adquiridas, garanta a integridade individual com a própria
adaptação da raça, a letalidade inevitável, e até necessária, apenas denuncia
os efeitos de um processo seletivo. Tôda a aclimação é dêsse modo um plebiscito
permanente em que o estrangeiro se elege para a vida. Nos trópicos, é natural
que o escrutínio biológico tenha um caráter gravíssimo.
Não
há fraudes que lhe minorem as exigências. Caem-lhe sob o exame incorruptível,
por igual, - o tuberculoso inapto à maior atividade respiratória nos ares
adurentes, pobres de oxigênio, e o lascivo desmandado; o cardíaco sucumbido
pela queda da tensão arterial, e o alcoólico candidato contumaz a tôdas as endemias;
o infático colhido de pronto pela anemia e o glutão; o noctívago desfibrado nas
vigílias, ou o indolente estagnado nas sestas enervantes; e o colérico, o
neurastênico de nervos a vibrarem nos ares eletrizados, descompassadamente, sob
o influxo misterioso dos firmamentos deslumbrantes, até aos paroxismos da
demência tropical que o fulmina, de pancada, como uma espécie de insolação do
espírito.
A
cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o coretivo da reação física. E
chama-se insalubridade o que é um apuramento, a eliminação generalizada dos
incompetentes. Ao cabo verifica-se algumas vêzes que não é o clima que é mau; é
o homem.
Foi
o que suedeu em grande parte no Acre. As turmas povoadoras que para lá
seguiram, sem o exame prévio dos que as formavam e nas mais deploráveis
condições de transporte, deparavam, além de tudo isto, com um estado social que
ainda mais lhes engravescia a instabilidade e a fraqueza.
Aguardava-as
e ainda as aguarda, bem que numa escala menor, a mais imperfeita organização do
trabalho que ainda engenhou o egoísmo humano.
Repitamos.
O sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia sôbre a qual nunca é demasiado
insistir: é o homem que trabalha para escravizar-se.
Enquanto
o colono italiano se desloca de Gênova à mais remota fazenda de S. Paulo,
paternalmente assistido pelos nossos podêres públicos, o cearense efetua, à sua
custa e de todo em todo desamparado, uma viagem mais difícil, em que os
adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas
fantásticas e de preços inauditos, o transformam as mais das vêzes em devedor
para sempre insolvente.
A
sua atividade, desde o primeiro golpe de machadinha, constringe-se para logo
num círculo vicioso inaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida
que se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe os esforços e as fadigas para
saldá-la.
E
vê-se completamente só na faina dolorosa. A exploração da seringa, neste ponto
pior que a do caucho, impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele
trabalho. Dostoïewski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com esta
tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vida inteira a mesma
"estrada", de que êle é o único transeunte, trilha obscurecida,
estreitíssima e circulante, que o leva, intermitentemente e desesperadamente,
ao mesmo ponto de partida. Nesta emprêsa de Sísifo, a rolar em vez de um bloco
o seu próprio corpo - partindo, chegando e partindo - nas voltas constritoras
de um círculo demoníaco, no seu eterno giro de encarcerado numa prisão sem
muros, agravada por um ofício rudimentar que êle aprende em uma hora para
exercê-lo tôda a vida, automàticamente, por simples movimentos reflexos - se
não o enrija uma sólida estrutura moral, vão-se-lhe, com a inteligência
atrofiada, tôdas as esperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante
alacridade que o arrebataram àquele lance, à aventura, em busca da fortuna.
Paralelamente,
a decadência orgânica.
A
alimentação, que é a base mais firme da higiene tropical, não lha fornece,
durante largos anos, a mais rudimentar cultura. Constitui-se, ao revés de todos
os preceitos, adstrita aos fornecimentos escassos de tôdas as conservas
suspeitas e nocivas, com o derivativo aleatório das caçadas.
Sobretudo
isto, o abandono. O seringueiro é, obrigatòriamente, profissionalmente, um solitário.
Mesmo
no Acre pròpriamente dito, onde a densidade maior das árvores de borracha
permite a abertura de 16 "estradas" numa légua quadrada, tôda esta
área capaz de sustentar, de acôrdo com a unidade agrícola corrente, cinqüenta
famílias de pequenos lavradores, requer a atividade de oito homens apenas, que
lá se espalham e raramente se vêem. Calcule-se um seringal médio, de duzentas
"estradas": tem cêrca de 15 léguas quadradas; e êste latifúndio, que
se povoaria à larga com 3.000 habitantes ativos, comporta apenas a população
invisível de 100 trabalhadores, exageradamente dispersos.
É a
conservação sistemática do deserto, e a prisão celular do homem na amplitude
desafogada da terra.
* * *
Ante
êstes lineamentos de um quadro social tão anômalo, não é apenas opinável a
letalidade do Acre. O que ressalta, irreprimível, é o conceito de uma
salubridade capaz de garantir tantas existências submetidas a tão imperfeito
regime. Acredita-se até que as características tropicais meramente teóricas, se
reduzem aos paralelos de baixas latitudes, de 8º a 11º, que
interferem a região; e aquilatando-se a influência moderadora sem dúvida
exercida pela estupenda massa de florestas, que a circulam e a invadem,
chega-se a concluir que ulteriores observações meteorológicas, mal iniciadas
agora, talvez lhe apaguem nos mapas a isoterma de 25 graus que a êsmo lhe
traçaram.
Porque
a despeito do incorreto e do vicioso do povoamento e da vida, a sociedade
recém-chegada aclima-se e progride.
Ao
mais incurioso viajante que perlustre o Purus não escapa a transformação lenta
e contínua.
O
primitivo explorador vai, afinal, ajustando-se ao solo, sôbre o qual pisou
durante tanto tempo indiferente. As suas barracas desafogam-se nas derrubadas;
e já nas praias, que as vazantes desvendam, já nos "firmes", a
cavaleiro das cheias, se delineiam as primeiras áreas de cultura. Os tristonhos
barracões cobertos de fôlhas de ubuçu, transmudam-se em vivendas regulares, ou
amplos sobrados de pedrra e cal. Sebastopol, Canacori, S. Luís de Cassianã,
Itatuba, Realeza, e dezenas de outros sítios do Baixo-Purus; Liberdade e
Concórdia, nos mais longínquos trechos, com as suas casas numerosas, que se
arruam às vêzes ao lado de pequenas igrejas, ampliam-se em verdadeiras vilas.
São a imagem material do domínio e da posse definitiva.
A
evolução é, dêste modo, tangível.
Delatam-na
até os nomes originais, extravagantes alguns, mas eloqüentes todos, das
primitivas e das recentes fundações. Na terra sem história os primeiros fatos escrevem-se,
esparsos e desunidos, nas denominações dos sítios. De um lado está a fase
inicial e tormentosa da adaptação, evocando tristezas, martírios, até gritos de
desalento ou de socorro; e o viajante lê nas grandes tabuletas suspensas às
paredes das casas, de chapa para o rio: Valha-nos Deus, Saudades, S. João da
Miséria, Escondido, Inferno... De outro um forte renascimento de esperanças
e a jovialidade desbordante das gentes redimidas: Bom Princípio, Nôvo
Encanto, Triunfo, Quero ver!, Liberdade, Concórdia, Paraíso...
À
medida que se sobe o rio a renascença se acentua. Passada a confluência do Acre
vai-se, em vários trechos, entre as estâncias que se defrontam ou se ligam às
margens, como se se percorresse cultíssima paragem há muito descoberta. Nada mais
do tôsco e do brutesco dos primitivos abarracamentos.
Em
Catiana, em Macapá, como nas demais a montante, até à última, Sobral, com a
minúscula plantação de cafeeiros que lhe bastam ao consumo, nota-se em tudo, da
pequena cultura que se generaliza, aos pomares bem cuidados, o esfôrço
carinhoso do povoador que aformoseia a terra para não mais a abandonar.
E
os homens são admiráveis.
Vimo-los
de perto; conversamo-los.
Guardamos-lhes
os nomes e os apelidos bizarros - do opulento Caboclo-Real, da
Cachoeira, ao gárrulo Cai N’água das cercanias do Chandless; do velho João
Amarelo, que fundou Catai, e leva ainda, sem titubear, pelos torcicolos das
"estradas", os seus setenta anos trabalhosos, ao destemeroso Antônio
Dourado, da Terra Alta, impecável atirador de rifle, cujos lances de
ousadia nas arrancadas de 1903, com os caucheiros, são uma página vibrante de
bravura.
Considerando-os,
ou revendo-lhes a integridade orgânica a ressaltar-lhes das musculaturas
interiças, ou a beleza moral das almas varonis que derrotaram o deserto - e
recordando as circunstâncias lastimáveis, que os rodearam nos primeiros dias do
povoamento ou que ainda os rodeiam, porventura minoradas - não se lhes explicam
as existências vigorosas sob regime climatológico tão maligno e bruto como o que
se fantasiou no Acre.
Não
vinga, ademais, o argumento de que o sertanejo nortista, ou mais incisivamente,
o jagunço, dotado da abstinência pastoral e guerreira do árabe, se tenha
apercebido para o nôvo habitat, sob a disciplina inexorável das sêcas,
além de haver-se deslocado seguindo mais ou menos os paralelos do torrão nativo
O
Purus e o Juruá abriram-se há muito à entrada dos mais díspares forasteiros -
do sírio, que chega de Beirute, e vai pouco a pouco suplantando o português no
comércio do "regatão"; ao italiano aventuroso e artista que lhes bate
as margens, longos meses, com a sua máquina fotográfica a colecionar os mais
típicos rostos de silvícolas e aspectos bravios de paisagens; ao saxônio
fleumático, trocando as suas brumas pelos esplendores dos ares equatoriais. E,
na grande maioria, lá vivem todos; agitam-se, prosperam e acabam longevos.
Registre-se
êste caso. Em 1872, Barrington Brown e William Lidstone percorreram o
Baixo-Purus, até Huitanaã, embarcados na lancha Guajará, sob o comando
do Capitão Hoefner, a german speaking both english and portuguese in
addition, consoante explicam os dois viajantes no interessante livro que
escreveram.
Há
trinta e cinco anos...
E
o Capitão Hoefner lá está, eterno comandante de lancha, a mourejar sem descanso
sôbre aquelas águas malditas, onde fervilham os piuns sugadores, os carapanãs
emissários das febres, e se espalmam, derivando à feição da correnteza
insensível, os mururés boiantes, de flôres violáceas recordando as grinaldas
tristonhas dos enterros. Mas não agourentaram o germano.
Vimo-lo,
em fins de 1905, na confluência do Acre. É um velho vivaz e prestadio,
diligente e ativo, de rosto aberto e rosado, emoldurado de cabelos inteiramente
brancos. Se aparecesse em Berlim, mal lhe descobririam na pele, de leve
amorenada, o sombrio estigma dos trópicos.
Multiplicam-se
os casos dêste teor, acordes todos na extinção de uma lenda.
Resta,
talvez, à teimosia no propagá-la, um derradeiro argumento: aquêles caboclos
rijos e êsse saxônico excepcional não são efeitos do meio; surgem a despeito do
meio; triunfam num final de luta, em que sucumbiram, em maior número, os que se
não aparelhavam dos mesmos requisitos de robustez, energia e abstinência.
Neste
caso atiremos de lado, de uma vez, um estéril sentimentalismo e reconheçamos
naquele clima um função superior. Ante as circunstâncias nocivas que originaram
e impulsionaram o povoamento do Acre, largos anos aberto à intrusão de tôdas as
moléstias e de todos os vícios favorecidos pela indiferença dos podêres públicos,
êle exercitou uma fiscalização incorruptível, libertando aquêle território de
calamidades e desmandos, que seriam além de tôda a proporção, muito maiores do
que os que ainda hoje lá se observam.
Policiou,
saneou, moralizou. Elegeu e elege para a vida os mais dignos. Eliminou e
elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte.
E
é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes,
para os perseverantes e para os bons.
Os Caucheiros
Aquém
da margem direita do Ucaiáli e das terras onduladas, onde se formam os
manadeiros do Javari, do Juruá e do Purus, apareceu há cêrca de cinqüenta anos
uma sociedade nova. Formara-se obscuramente. Perdida longo tempo no afogado das
selvas, apenas a conheciam raros comerciantes do Pará, onde, desde 1862,
começaram a chegar, provindas daqueles pontos remotos, as pranchas
pardo-escuras de uma outra goma elástica concorrente com a seringa às
exigências da indústria.
Era
o caucho. E caucheiros apelidaram-se para logo os aventurosos sertanistas que
batiam atrevidamente aquêles rincões ignorados.
Vinham
do ocidente, transpondo os Andes e suportando todos os climas da Terra, dos
litorais adustos do Pacífico às punas enregeladas das cordilheiras.
Entre êles e o torrão nativo ficavam duas muralhas altas de seis mil metros e
um longo valo escancelado em abismos. Adiante os plainos amazônicos: um
estiramento de centenares de milhas para NE, a perder-se, indefinido, na
prolongação atlântica, sem a ajuda de um cêrro balizando a imensidade.
Nunca
se armou tão imponente cenário a tão pequeninos atôres.
É
natural que os sertanistas pervagassem largos anos, esparsos, diminutos,
invisíveis, tateantes no perpétuo crepúsculo daquelas matas longínquas, onde,
mais sérias que o desmedido das distâncias e os bravios da espessura, outras
dificuldades lhes renteavam ou perturbavam os passos vacilantes.
Realmente,
tôda a zona em que se traça, ainda pontuada, a linha limítrofe
brasílio-peruana, e irradiam para os quadrantes os formadores do Purus e do
Juruá, as vertentes mais setentrionais do Urubamba e os últimos esgalhos do
Madre de Diós, figurava entre as mais desconhecidas da América, menos em
virtude de suas condiçòes físicas excepcionais, vencidas em 1844 por F.
Castelnau, que pelo renome temeroso das tribos que a povoam e se tornaram, sob
o nome genérico de chunchos, o máximo pavor dos mais destemerosos
pioneiros.
Não
há nomeá-las tôdas. Quem sobe o Purus, contemplando de longe em longe, até às
cercanias da Cachoeira, os paumaris rarescentes, mal recordando os antigos donos
daquelas várzeas; e dali para montante os ipurinás inofensivos; ou a partir do
Iaco, os tucunas que já nascem velhos, tanto se lhes reflete na compleição
tolhiça a decrepitude da raça - tem a maior das surprêsas ao deparar nas
cabeceiras do rio com os silvícolas singulares que as animam. Discordes nos
hábitos e na procedência, lá se comprimem em ajuntamento forçado; os amauacas
mansos que se agregam aos puestos dos extratores do caucho; os coronauas
indomáveis, senhores das cabeceiras do Curanja; os piros acobreados, de
rebrilhantes dentes tintos de resina escura que lhes dão aos rostos, quando
sorriem, indefiníveis traços de ameaças sombrias; os barbudos caxibos afeitos
ao extermínio em correrias de duzentos anos sôbre os destroços das missões do
Pachitéa; os conibos de crânios deformados e bustos espantadamente listrados de
vermelho e azul; os setebos, sipibos e iurimauas; os mashcos
corpulentos, do Mano, evocando no desconforme da estatura os gigantes fabulados
pelos primeiros cartógrafos da Amazônia; e, sôbre todos, suplantando-os na fama
e no valor, os campas aguerridos do Urubamba...
A
variedade das cabildas em área tão reduzida trai a pressão estranha que as
sonstringe. O ajuntamento é forçado.
Elas
estão, evidentemente, nos últimos redutos para onde refluíram no desfecho de
uma campanha secular, que vem do apostolado das Maynas às expedições modernas e
cujos episódios culminantes se perderam para a História.
O
narrados dêstes dias chega no final de um drama, e contempla supreendido o seu
último quadro prestes a cerrar-se.
A
civilização, bàrbaramente armada de rifles fulminantes, assedia completamente
ali a barbaria encantoada: os peruanos pelo ocidente e pelo sul; os brasileiros
em todo o quadrante de NE; no de SE, trancando o vale do Madre de Diós, os
bolivianos.
E
os caucheiros aparecem como os mais avantajados batedores da sinistra catequese
a ferro e fogo, que vai exterminando naqueles sertões remotíssimos os mais
interessantes aborígenes sul-americanos.
* * *
Esta
missão histórica advém-lhes da fragilidade de uma árvore. O caucheiro é
forçadamente um nômade votado ao combate, à destruição e a uma vida errante ou
tumulturária, porque a castilloa elástica que lhe fornece a borracha
apetecida, não permite, como as heveas brasileiras, uma exploração
estável, pelo renovar periòdicamente o suco vital que lhe retiram. É
execepcionalmente sensível. Desde que a golpeiem, morre, ou definha durante
largo tempo, inútil. Assim o extrator derruba-a de uma vez para aproveitá-la
tôda. Atora-a, depois, de metro em metro, desde as sapopembas aos últimos
galhos das frondes; e abrindo no chão, ao longo do madeiro derrubado, rasas
cavidades retangulares correspondentes às secções dos toros, delas retira, ao
fim de uma semana, as pranchas valiosas, enquanto os restos aderidos à casca,
nos rebordos dos cortes, ou esparsos a êsmo pelo solo, constituem, reunidos, o
sernambi de qualidade inferior.
O
processo, como se vê, é rudimentar e rápido. Esgota-se em pouco tempo o cauchal
mais exuberante; e como as castilloas não se distribuem regularmente
pelas matas, viçando em grupos por vêzes bastante separados, os exploradores
deslocam-se a outros rumos, reeditando quase sem variantes tôdas as peripécias
daquela vida aleatória de caçadores de árvores.
Dêste
modo o nomadismo impõe-se-lhes. É-lhes condição inviolável de êxito. Afundam
temeràriamente no deserto; insulam-se em sucessivos sítios e não revêem nunca
os caminhos percorridos. Condenados ao desconhecido, afeiçoam-se às paragens
ínvias e inteiramente novas. Alcançam-nas: abandonam-nas. Prosseguem e não se
restribam nas posições às vêzes àrduamente conquistadas.
Atingindo
qualquer trecho onde os pés de caucho se descubram, levantam à beira de uma
quebrada o primeiro tambo de paxiúba, e atiram-se à tarefa agitadíssima. Os
seus primeiros instrumentos de trabalho são a carabina Winchestewr - o rifle
curto adrede disposto aos recontros no trançado das ramarias -, o machete
cortante que lhes destrana os cipoais, e a bússola portátil, norteando-se no
embaralhado das veredas. Tomam-nos e lançam-se a uma revista cautelosa das
cercanias. Vão em busca do selvagem que devem combater e exterminar ou
escravizar, para que do mesmo lance tenham tôda a segurança no nôvo pôsto de
trabalhos e braços que lhos impulsionem.
São
bem poucos às vêzes os que se abalançam a esta preliminar obrigatória e
temerária: meia dúzia de homens, dispersando-se e mergulhando silenciosamente
na espessura. E lá se vão, perquirindo e sondando todos os recessos; batendo
palmo a palmo todos os recantos suspeitos; anotando de cor, num exaustivo
levantamento topográfico, de memória, os mais variados acidentes; ao mesmo
passo que com os olhos e ouvidos armados aos mais fugitivos aspectos e aos mais
vagos rumôres dos ares murmurantes da floresta, vão premunindo-se dos
resguardos e ardilezas que se exigem naquele assombroso duelo sevilhano com o
deserto.
Alguns
não tornam mais. Outros, volvem indenes aos pousos, depois da perquirição
inútil. Algum, porém, ao cabo da pesquisa fatigante, lobriga ao longe, meio
indistintas nas folhagens, as primeiras cabanas do selvagem.
Mal
refreia um grito de triunfo, e não volve logo a comunicar aos companheiros o
achado.
Refina
a sua astúcia extraordinária. Cose-se com o chão, e, de rastros, fareando el
peligro, aproxima-se quando pode do inimigo descuidado.
Há,
realmente, neste lance, um traço comovente de heroísmo. O homem perdido na
solidão absoluta vai procurar o bárbaro, levando a escolta única das dezoito
balas de seu rifle carregado.
É
um rastejamento longo, tortuoso e lento, em que êle aproveita todos os
acidentes, encobrindo-se por detrás dos troncos ou entaliscando-se nos ângulos
das sapopembas, deslizando sem ruído sôbre as camadas das ramas decompostas, ou
insinuando-se entre as hastes unidas das helicônias de largas fôlhas
protetoras, até que possa, no têrmo da investida surda e angustiosa, contemplar
e ouvir de perto, quase à orla do terreiro claro, os adversários inexpertos, e
inscientes do civilizado sinistro que os espia e os conta e lhes observa as
maneiras e lhes avalia os recursos - e volta depois do exame minucioso, levando
aos companheiros, que o aguardam, todos os informes necessários à
"conquista".
Conquita
é o têrmo predileto, usado por uma espécie de reminiscência atávica das
antiqüíssimas algaras dos condutícios de Pizarro. Mas não a efetuam pelas armas
sem esgotarem os efeitos da diplomacia rudimentar dos presentes mais apetecidos
do selvagem. A um ouvimos certa vez o processo seguido: "Se los atrae
al tambo por medio de regalos: ropa, rifles, machetes, etc.; y sin hacerlos
trabajar, se les deja que vayan al tolderio a decir a sus compañeros el como
son tratados por los caucheros, que nos los obligan a trabajar, sino que les
aconsejan que trabajen un poco y a voluntad, para pagar aquello que les
dieron..."
Êstes
meios pacíficos, porém, são em geral falíveis. A regra é a caçada impiedosa, à
bala. É o lado heróico da emprêsa: um grupo inapreciável arrojando-se à
montaria de uma multidão.
Não
se lhe pormenorizam os episódios.
Subordina-se
a uma tática invariável: a máxima rapidez do tiro e a máxima temeridade. São
garantias certas do triunfo. É incalculável o número de minúsculas batalhas
travadas naqueles sertões onde reduzidos grupos bem armados suplantam tribos
inteiras, sacrificadas a um tempo pelas suas armas grosseiras e pela afoiteza
no arremeterem com as descargas rolantes das carabinas.
Citemos
um exemplo único. Quando Carlos Fiscarrald chegou em 1892 às cabeceiras do
Madre de Diós, vindo do Ucaiáli pelo varadouro aberto no istmo que lhe conserva
o nome, procurou captar do melhor modo os mashcos indomáveis que as
senhoreavam. Trazia entre os piros que conquistara um intérprete
inteligente e leal. Conseguiu sem dificuldades ver e conservar o curaca selvagem.
A
conferência foi rápida e curiosíssima.
O
notável explorador, depois de apresentar ao "infiel" os recursos que
trazia e o seu pequeno exército, onde se misturavam as fisionomias díspares das
tribos que subjugara, tentou demonstrar-lhe as vantagens da aliança que lhe
oferecia contrapostas aos inconvenientes de uma luta desastrosa. Por única
resposta o mashco perguntou-lhe pelas flexas que trazia. E Fiscarrald
entregou-lhe, sorrindo, uma cápsula de Winchester.
O
selvagem examinou-a, longo tempo, absorto ante a pequenez do projétil.
Procurou, debalde, ferir-se, roçando rijamente a bala contra o peito. Não o
conseguindo, tomou uma de suas flexas; cravou-a, de golpe, no outro braço,
varando-o. Sorriu, por sua vez, indiferente à dor, contemplando com orgulho o
seu próprio sangue que esguichava... e sem dizer palavra deu as costas ao
sertanista surpreendido, voltando para o seu tolderío com a ilusão de
uma superioridade que a breve trecho seria inteiramente desfeita. De fatom meia
hora depois, cêrca de cem mashcos, inclusive o chefe recalcitrante e
ingênuo, jaziam trucidados sôbre a margem, cujo nome, Playa Mashcos,
ainda hoje relembra êste sanguinolento episódio...
Assim
vai desbravando-se a região bravia. Varejadas as redondezas, mortos ou
escravizados num raio de poucas léguas os aborígenes, os caucheiros agitam-se
febrilmente na azáfama estonteadora. Em alguns meses ao lado do primitivo tambo
multiplicam-se outros; a casucha solitária transmuda-se em amplo barracón
ou embarcadero ruidos; e adensam-se por vêzes as vivendas em caseríos,
a exemplo de Cocama e Curanja, à margem do Purus, a espelharem, repentinamente,
no deserto, a miragem de um progresso que surge, se desenvolve e acaba num
decênio. Os caucheiros ali estacionam até que caia o último pé de caucho.
Chegam, destróem, vão-se embora. Nada pedem, em geral, à terra, à parte exíguas
plantações de iúcas e bananas, a que se dedicam os índios domesticados. A única
agricultura regular, embora diminuta, que se observa no Alto-Purus, para lá das
últimas barracas dos nossos seringueiros, e a do algodão, dos campas
aldeados, que até nisto delatam a independência nativa: colhendo, cardando,
fiando, tecendo e pintando as cushmas de que se revestem, e descem-lhes
dos ombros até aos pés, com o feitio de longas togas grosseiras. Assim, entre
os estranhos civilizados que ali chegam de arrancada para ferir e matar o homem
e a árvore, estacionando apenas o tempo necessário a que ambos se extingam,
seguindo a outros rumos onde renovam as mesmas tropelias, passando como uma
vaga devastadora e deixando ainda mais selvagem a própria selvageria - aquêles
bárbaros singulares patenteiam o único aspecto tranqüilo das culturas. O
contraste é empolgante. Seguindo do povoado campa de Tingoleales para o
sítio peruano de Shamboyaco, perto da foz do Rio Manuel Urbano, o viajante não
passa, como a princípio acredita, dos estádios mais primitivos aos mais
elevados da evolução humana. Tem uma surprêsa maior. Vai da barbaria franca a
uma sorte de civilização caduca em que todos os estigmas daquela ressaltam,
mais incisivos, dentre as próprias conquistas do progresso.
Aborda
a estância peruana; e nas primeiras horas encanta-o o quadro de uma existência
movimentada e ruidosa. A vivenda principal e as que se lhe subordinam, arruadas
alguma vez à maneira de pequenas vilas, erigem-se sempre num ponto bem
escolhido a cavaleiro do rio; e a despeito de se construírem exclusivamente com
as fôlhas e estípites da paxiúba - que é a palmeira providencial da Amazônia -
são em geral de dois andares e têm na elegância das linhas e nas varandas
desafogadas, que as circuitam, uma aparência de todo contraposta ao aspecto
tristonho dos chatos barracões dos nossos seringueiros.
No
terreiro amplo, acabando na crista da baranca caindo em talude vivo sôbre o
rio, uma agitação animadora e álacre; carregadores possantes passando em longas
filas sucessivas arcados sob as pranchas de caucho; administradores ativos
rompendo das portas do andar térreo e correndo para tôda a banda, para os
armazéns refertos de conservas ou para as tendas fulgurantes, onde estridulam
malhos e bigornas, reparando as achas e machetes.
Embaixo
no embarcadero, coalhado das ubás velozes, onde as tanganas fisgam
vivamente os ares, vozeia a algazarra dos práticos e proeiros, e espalmam-se nas
águas as balsas feitas exclusivamente de caucho, formando-se sôbre o
"caminho que marcha" a "mercadoria que conduz os
condutores". E em todo o correr da ladeira que dali serpeia até em cima,
as saias vermelhas e os corpinhos brancos das cholas graciosas de
Iquitos, passando e entrecruzando-se, num embandeiramento festivo...
O
viajante atravessa os grupos agitados e as surprêsas não cessam. Galga a escada
que o leva à varanda da frente, para onde dão os principais repartimentos da
vivenda. No alto o caucheiro - um triunfador jovial e desempenado sôbre os
rijos tacões das suas botas de mateiro - recebe-o ruidosamente, abrindo-lhe de
par em par as portas numa hospitalidade espetaculosa e franca. E completa-se o
encanto. Extinta a noção do tempo, ou do longo espaço de milhares de
quilômetros gastos no sulcar os rios solitários para atingir aquela estância
longínqua, o forasteiro insensìvelmente se imagina em algum entreposto
comercial de qualquer cidade da costa. Nada lhe falta ao engano: o longo balcão
de pinho abarreirando a sala principal e cerrando o recinto, onde se aprumam as
prateleiras atestadas de mercadorias; os empregados solícitos obedientes às
ordens do guarda-livros corretíssimo, que o cumprimentou ao entrar e volveu
logo à sua escrita, acurvado sôbre a secretária inclinada; o copo de cerveja
que lhe oferecem, ao invés da chicha tradicional; a folhinha artística a
um lado, marcando o dia certo do ano; os jornais de Manaus e de Lima; e até - o
que é inverossímil - a tortura requintada e culta de um fonógrafo, gaguejando,
emperradamente, naquele fundo de desertos, uma ária predileta de tenor
famoso...
* * *
Mas
tôda esta exterioridade surpreendente desaparece ante uma observação permitindo
ao visitante ver o que lhe não mostra o seu garboso hospedeiro. A desilusão
assalta-o então de chôfre; e é impressionadora. Aquêle reflexo de vida superior
não vai além da escassa nesga de chão, de menos de um hectare, constrita entre
a mata ameaçadora e próxima, ao fundo, e a barranca despenhada rio adiante.
Fora
dêste falso cenário, o drama real que se desenrola é quase inconcebível para o
nosso tempo.
Abaixo
do caucheiro opulento, numa escala deplorável, do mestiço loretqno que ali vai
em busca de fortuna ao quíchua deprimido trazido das cordilheiras, há uma série
indefinida de espoliados. Para vê-los tem-se que varar os obscuros recessos da
mata sem caminhos e buscá-los nas urmanas solitárias, onde assistem
completamente sós, acompanhados apenas do rifle inseparável, que lhes garante a
existência com os recursos aleatórios das caçadas. Ali mourejam
improfàicuamente longos anos; enfermam, devorados das moléstias; e extinguem-se
no absoluto abandono. Quatrocentos homens às vêzes, que ninguém vê, dispersos
por aquelas quebradas, e mal aparecendo de longe em longe no castelo de palha
do acalcanhado barão que os escraviza. O "conquistador" não os vigia.
Sabe que lhe não fogem. Em roda, num raio de seis léguas, que é todo o seu
domínio, a região, inçada de outros infieles, é intransponível. O
deserto é um feitor perpètuamente vigilante. Guarda-lhe a escravatura numerosa.
Os mesmos campas altanados, que êle captou esgrimindo uma perfídia
magistral contra a bravura ingênua do bárbaro, não o deixam mais, temendo os
próprios irmãos bravios, que nunca lhes perdoam a submissão transitória.
Desta
sorte o aventureiro feliz que dois anos antes, em Lima ou Arequipa, exercitava
o trato mais gentil - sente-se inteiramente livre da pressão e dos infinitos
corretivos da vida social, e adquirindo a consciência do mando ilimitado, ao
mesmo tempo que o invade o sentimento da impunidade para todos os caprichos e
delitos, cai, de um salto, numa selvageria originalíssima, em que entra sem ter
tempo de perder os atributos superiores do meio onde nasceu.
Realmente,
o caucheiro não é apenas um tipo inédito na História. É, sobretudo, antinômico
e paradoxal. No mais pormenorizado quadro etnográfico não há um lugar para êle.
A princípio figura-se-nos um caso vulgar de civilizado que se barbariza, num
recuo espantoso em que se lhe apagam os caracteres superiores nas formas
primitivas da atividade.
E
é um engano. Êstes estádios contrapostos êle não os combina criando uma
atividade híbrida embora, mas definida e estável. Junta-os apenas sem os
caldear. É um caso de mimetismo psíquico de homem que se finge bárbaro para
vencer o bárbaro. É caballero e selvagem, consoante as circunstâncias. O
dualismo curioso de quem procura manter intactos os melhores ensinamentos
morais ao lado de uma moral fundada especialmente para o deserto - reponta em
todos os atos da sua existência revôlta. O mesmo homem que com invejável
retitude esforça-se por satisfazer os seus compromissos, que às vêzes sobem a
milhares de contos, com os exportadores de Iquitos ou Manaus, não vacila em
iludir o peón miserável que o serve, em alguns quilos de sernambi
ordinário; ou passa por vêzes da mais refinada galanteria à máxima brutalidade,
deixando em meio um sorriso cativante e uma mesura impecável, para saltar com
um rugido, de cuchillo rebrilhante em punho, sôbre o cholo
desobediente que o afronta.
A
selvageria é uma máscara que êle põe e retira à vontade.
Não
há ajustá-la ao molde incomparável dos nossos bandeirantes. Antônio Rapôso, por
exemplo, tem um destaque admirável entre todos os conquistadores
sul-americanos. O seu heroísmo é brutal, maciço, sem frinchas, sem dobras, sem
disfarces. Avança ininteligentemente, mecânicamente, inflexìvelmente, como uma
fôrça natural desencadeada. A diagonal de mil e quinhentas léguas que traçou de
São Paulo até ao Pacífico, cortando tôda a América do Sul, por cima de rios, de
chapadões, de pantanais, de corixas estagnadas, de desertos, de cordilheiras,
de páramos nevados e de litorais aspérrimos, entre o espanto e as ruínas de cem
trilhos suplantadas, é um lance apavorante, de epopéia. Mas sente-se bem
naquela ousadia individual a concentraçào maravilhosa de tôdas as ousadias de
uma época.
O
bandeirante foi brutal, inexorável, mas lógico.
Foi
o super-homem do deserto.
O
caucheiro é irritantemente absurdo na sua brutalidade elegante, na sua galanteria
sanguinolenta e no seu heroísmo à gandaia. É o homúnculo da civilização.
Mas
compreende-se esta antilogia. O aventureiro ali vai com a preocupação exclusiva
de enriquecer e voltar; voltar quanto antes, fugindo àquela terra melancólica e
empantanada que parece não ter solidez para agüentar o próprio pêso material de
uma sociedade. Acompanha-o, em tôdas as conjunturas da sua atividade nervosa e
precipitada, o espetáculo das cidades vastas, onde brilhará um dia,
transformado em esterlinos o oro negro do caucho. Dominado de todo pela
nostalgia incurável da paragem nativa, que êle deixou precisamente para a rever
apercebido de recursos que lhe facultem maiores somas de felicidades - atira-se
às florestas: enterreira e subjuga os selvagens; resiste ao impaludismo e às
fadigas; agita-se, adoidadamente, durante quatro, cinco, seis anos; acumula
algumas centenas de milhares de soles e desaparece, de repente...
Surge
em Paris. Atravessa em pleno esplendor dos teatros ruidosos e dos salões, seis
meses de vida delirante, sem que lhe descubram, destoando da correção impecável
das vestes e das maneiras, o mais leve resquício do nomadismo profissional.
Arruína-se galhardamente; e volta... Reata a faina antiga: novos quatro ou seis
anos de trabalhos forçados; nova fortuna prestes adquirida; nôvo volver ansioso
em busca da fortuna perdidiça, numa oscilação estupenda das avenidas
fulgurantes para as florestas solitárias.
A
êste propósito correm as mais curiosas versões, em que se destacam famosos
caucheiros conhecidíssimos em Manaus.
Neste
viver oscilante êle dá a tudo quanto pratica, na terra que devasta e desama, um
caráter provisório - desde a casa que constrói em dez dias para durar cinco
anos, às mais afetuosas ligações que às vêzes duram anos e êle destrói num dia.
Neste ponto, sobretudo, desenha-se-lhe a inconstância irrivalizável. Um dêles,
como lhe perguntássemos, em Curanja, onde desposara a amauaca gentilíssima que
lhe assistia há dez anos com os desvelos de uma espôsa exemplar, retorquiu-nos,
levemente irônico:
-
Me han hecho regalo em Pachitéa.
Um
regalo, um presente, um traste que êle abandonaria à primeira
eventualidade, sem cuidados.
Reportado
negociante daquele vilarejo decaído, que em Lima ou Iquitos seria um belo molde
de burguês pacífico e abstêmio, ali hambriento de mujeres, apresenta aos
amigos e ao forasteiro adventício, o seu harém escandaloso, onde se estremam a
interessante Mercedes, de ojillos de venado, que custou uma batalha
contra os coronauas, e a encantadora Facunda de grandes olhos selvagens e
cismadores, que lhe custou cem soles. E narra o tráfico criminoso, a
rir, absolutamente impune, e sem temores.
Não
há leis. Cada um traz o código penal no rifle que sobraça, e exercita a justiça
a seu alvedrio, sem que o chamem a contas. Num dia, de julho de 1905, quando
chegava ao último puesto caucheiro do Purus uma comissão mi9sta de
reconhecimento, todos os que a compunham, brasileiros e peruanos, viram um
corpo desnudo e atrozmente mutilado, lançado à margem esquerda do rio, num
claro entre as frecheiras. Era o cadáver de uma amauaca. Fôra morta por
vingança, explicou-se vagamente depois. E nào se tratou mais do incidente -
coisa de nonada e trivialíssima na paragem revolvida pelas gentes que a
atravessam e não povoam, e passam deixando-a ainda mais triste com os escombros
das estâncias abandonadas...
* * *
Estas
lá estão em tôdas as voltas do Alto-Purus, aparecendo, entristecedoras, sob os
vários aspectos que vão das urmanas humildes dos peões às vivendas outrora
senhoris dos caucheiros.
Pouco
acima do Shamboyaco, uma, sôbre tôdas, nos impressionou, quando descíamos.
Fôra
um pôsto de primeira ordem. Saltamos para o examinar; e vingando a custo a
barranca malgradada, descobrindo em cima o velho caminho invadido de vassouras
bravas, chegamos ao terreiro onde o matagal inextricável ia peneirando e
cobrindo os acervos de vasilhas velhas, farragens repugnantes, restos de
ferramentas, e ciscalhos em montes deixados pelos prófugos habitantes. A casa
principal, defronte, meio estruída, tetos abatidos, paredes encombentes e a
tombarem despegando-se dos esteios desaprumados, figurava-se sustida apenas
pelas lianas que lhe irrompiam de todos os pontos, furando-lhe a cobertura,
enleando-se-lhe nas vigas vacilantes, amarrando-lhas, e estirando-se à feição
de cabos até as árvores mais próximas, onde se enlaçavam impedindo-lhe o
desabamento completo; e as vivendas menores, anexas, cobertas de trepadeiras
exuberando floração ridente, apagavam-se, desaparecendo a pouco e pouco na
constrição irresistível da mata que reconquistava o seu terreno primitivo.
Mal
atentamos, porém, no magnífico lance regenerador, da flora, juncando de corolas
e festões garridos aquela ruinaria deplorável. Não estava inteiramente
desabitada a tapera.
Num
dos casebres mais conservados aguardava-nos o último habitante. Piro,
amauaca ou campa, nào se lhe distinguia a origem. Os próprios traços da
espécie humana, transmudava-lhos a aparência repulsiva: um tronco desconforme,
inchado pelo impaludismo, tomando-lhe a figura tôda, em pleno contraste com os
braços finos e as pernas esmirradas e tolhiças como as de um feto monstruoso.
Acocorado
a um canto, contemplava-nos impassível. Tinha a um lado todos os seus haveres:
um cacho de bananas verdes.
Esta
coisa indefinível que por analogia cruel sugerida pelas circunstâncias se nos
figurou menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a êsmo, esquecida
pelos extratores - respondeu-nos às perguntas num regougo quase extinto e numa
língua de todo incompreensível. Por fim, com enorme esforço levantou um braço;
estirou-o, lento, para a frente, como a indicar alguma coisa que houvesse
seguido para muito longe, para além de todos aquêles matos e rios; e balbuciou,
deixando-o cair pesadamente, como se tivesse erguido um grande pêso:
-
"Amigos".
Compreendia-se:
amigos, companheiros, sócios dos dias agitados das safras, que tinham partido
para aquelas bandas, abandonando-o ali, na solidão absoluta.
Das
palavras castelhanas que aprendera restava-lhe aquela única; e o desventurado
murmurando-a como um tocante gesto de saudade, fulminava sem o saber - com um
sarcasmo pungentíssimo - os desmandados aventureiros que àquela hora
prosseguiam na faina devastadora: abrindo a tiros de carabinas e a golpes de
machetes novas veredas a seus itinerários revoltos, e desvendando outras
paragens ignoradas, onde deixariam, como ali haviam deixado, no desabamento dos
casebres ou na figura lastimável do aborígene sacrificado, os únicos frutos de
suas lides tumultuárias, de construtores de ruínas...
<!DOCTYPE
HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 3.2//EN">Judas-Ahsverus
No
sábado da Aleluia os seringueiros do Alto-Purus desforram-se de seus dias
tristes. É um desafôgo. Ante a concepção rudimentar da vida santificam-se-lhes,
nesse dia, tôdas as maldades. Acreditam numa sanção litúrgica aos máximos
deslizes.
Nas
alturas, o Homem-Deus, sob o encanto da vinda do filho ressurreto e despeado
das insídias humanas, sorri, complacentemente, à alegria feroz que arrebenta cá
embaixo. E os seringueiros vingam-se, ruidosamente, dos seus dias tristes.
Não
tiveram missas solenes, nem procisões luxuosas, nem lavapés tocantes, nem
prédicas comovidas. Tôda a Semana Santa correu-lhes na mesmice torturante
daquela existência imóvel, feita de idênticos dias de penúrias, os meios jejuns
permanentes, de tristezas e de pesares, que lhes parecem uma interminável
Sexta-feira da Paixão, a estirar-se, angustiosamente, indefinida, pelo ano todo
afora.
Alguns
recordam que nas paragens nativas, durante aquela quadra fúnebre, se retraem
tôdas as atividades - despovoando-se as ruas, paralisando-se os negócios,
ermando-se os caminhos - e que as luzes agonizam nos círios bruxuleantes, e as
vozes se amortecem nas rezas e nos retiros, caindo um grande silêncio
misterioso sôbre as cidades, as vilas e os sertões profundos onde as gentes
entristecidas se associal à mágoa prodigiosa de Deus. E consideram, absortos,
que êsses sete sias excepcionais, passageiros em tôda a parte e em tôda a parte
adrede estabelecidos a maior realce de outros dias mais numerosos, de felicidade
- lhes são, ali, a existência inteira, monótona, obscura, dolorisíssima e
anônima, a girar acabrunhadoramente na via dolorosa inalterável, sem princípio
e sem fim, do círculo fechado das "estradas". Então pelas almas
simples entra-lhes, obscurecendo as miragens mais deslumbrantes da fé, a sombra
espêssa de um conceito singularmente pessimista da vida: certo, o Redentor
universal não os redimiu; esqueceu-os para sempre, ou não os viu talvez, tão
relegados se acham à borda do rio solitário, que no próprio volver das suas
águas é o primeiro a fugir, eternamente, àqueles tristes e desfreqüentados
rincões.
Mas
não se rebelam, ou blasfemam. O seringueiro rude, ao revés do italiano artista,
não abusa da bondade de seu deus desmandando-se em convícios. É mais forte; é
mais digno. Resignou-se à desdita. Não murmura. Não reza. As preces ansiosas
sobem por vêzes ao céu, levando disfarçadamente o travo de um ressentimento
contra a divindade; e êle não se queixa. Tem a noção prática, tangível, sem
raciocínios, sem diluições metafísicas, maciça e inexorável - um grande pêso a
esmagar-lhe inteiramente a vida - da fatalidade; e submete-se a ela sem
subterfugir na covardia de um pedido, com os joelhos dobrados. Seria um esforço
inútil. Domina-lhe o critério rudimentar uma convicção talvez demasiado
objetiva, ou ingênua, mas irredutível, a entrar-lhe a todo o instante pelos
olhos a distância que o afasta dos homens; e os grandes olhos de Deus não podem
descer até àqueles brejais, manchando-se. Não lhe vale a pena penitenciar-se, o
que é um meio cauteloso de rebelar-se, reclamando uma promoção na escala
indefinida da bem-aventurança. Há concorrentes mais felizes, mais bem
protegidos, mais vistos, nas capelas, nas igrejas, nas catedrais, e nas cidades
ricas onde se estadeia o fausto do sofrimento uniformizado de prêto, ou
fulgindo na irradiação das lágrimas, e galhardeando tristezas...
Ali
- é seguir, impassível e mudo, estóicamente, no grande isolamento da sua
desventura.
Além
disto, só lhe é lícito punir-se da ambição maldita que o conduziu àqueles
lugares para entregá-lo, maniatado e escravo, aos traficantes impunes que o
iludem - e êste pecado é o seu próprio castigo, transmudando-lhe a vida numa
interminável penitência. O que lhe resta a fazer é desvendá-la e arrancá-la da
penumbra das matas, mostrando-a, nuamente, na sua forma apavorante, à
humanidade longínqua...
Ora,
para isso, a Igreja dá-lhe um emissário sinistro: Judas; e um único dia feliz:
o sábado prefixo aos mais santos atentados, às balbúrdias confessáveis, à
turbulência mística dos eleitos e à divinizaçào da vingança.
Mas
o mostrengo de palha, trivialíssimo, de todos os lugares e de todos os tempos,
não lhe basta à missão complexa e grave. Vem batido demais pelos séculos em
fora, tão pisoado, tão decaído e tão apedrejado que se tornou vulgar na sua
infinita miséria, monopolizando o ódio universal e apequenando-se, mais e mais,
diante de tantos que o malquerem.
Faz-se-lhe
mister, ao menos, acentuar-lhe as linhas mais vivas e cruéis; e mascarar-lhe no
rosto de pano, a laivos de carvão, uma tortura tão trágica, e em tanta maneira
próxima da realidade, que o eterno condenado pareça ressuscitar ao mesmo tempo
que a sua divina vítima, de modo a desafiar uma repulsa mais espontânea e um
mais compreensível revide, satisfazendo à saciedade as almas ressentidas dos
crentes, com a imagem tanto possível perfeita da sua miséria e das suas agonias
terríveis.
E
o seringueiro abalança-se a êsse prodígio de estatuária, auxiliado pelos filhos
pequeninos, que deliram, ruidosos, sem risadas, a correrem por tôda a banda, em
busca das palhas esparsas e da farragem repulsiva de velhas roupas
imprestáveis, encantados com a tarefa funambulesca, que lhes quebra tão de
golpe a monotonia tristonha de uma existência invariável e quieta.
O
judas faz-se como se fêz sempre: um par de calças e uma camisa velha,
grosseiramente cosidos, cheios de palhiças e mulambos; braços horizontais,
abertos, e pernas em ângulo, sem juntas, sem relevos, sem dobras, aprumando-se,
espantadamente, empalado, no centro do terreiro. Por cima uma bola desgraciosa
representando a cabeça. É o manequim vulgar, que surge em tôda a parte e
satisfaz à maioria das gentes. Não basta ao seringueiro. É-lhe apenas o bloco
de onde vai tirar a estátua, que é a sua obra-prima, a criação espantosa do seu
gênio rude longamente trabalhado de reveses; onde outros talvez distingam
traços admiráveis de uma ironia sutilíssima, mas que é para êle apenas a
expressão concreta de uma realidade dolorosa.
E
principia, às voltas com a figura disforme: salienta-lhe e afeiçoa-lhe o nariz;
reprofunda-lhe as órbitas; esbate-lhe a fronte; acentua-lhe os zigomas; e
aguça-lhe o queixo, numa massagem cuidadosa e lenta; pinta-lhe as sobrancelhas,
e abre-lhe com dois riscos demorados, pacientemente, os olhos, em geral tristes
e cheios de um olhar misterioso; desenha-lhe a bôca, sombreada de um bigode
ralo, de guias decaídas aos cantos. Veste-lhe, depois, umas calças e uma camisa
de algodão, ainda servíveis; calça-lhe umas botas velhas, cambadas...
Recua
meia dúzia de passos. Contempla-a durante alguns minutos. Estuda-a.
Em
tôrno a filharada, silenciosa agora, queda-se expectante, assistindo ao
desdobrar da concepção, que a maravilha.
Volve
ao seu homúnculo: retoca-lhe uma pálpebra; aviva um ricto expressivo na
arqueadura do lábio; sombreia-lhe um pouco mais o rosto, cavando-o; ajeita-lhe
melhor a cabeça; arqueia-lhe os braços; repuxa e reifica-lhe as vestes...
Nôvo
recuo, compassado, lento, remirando-o, para apanhar de um lance, numa vista de
conjunto, a impressão exata, a s;intese de tôdas aquelas linhas; e renovar a
faina com uma pertinácia e uma tortura de artista incontentável. Novos
retoques, mais delicados, mais cuidadosos, mais sérios: um tenuíssimo esbatido
de sombra, um traço quase imperceptível na bôca refegada, uma torção
insignificante no pescoço engravatado de trapos...
E
o monstro, lento e lento, num transfigurar-se insensível, vai-se tornando em
homem. Pelo menos a ilusão é empolgante...
Repentinamente
o bronco estatuário tem um gesto mais comovedor do que o parla!
ansiosíssimo, de Miguel-Ângelo: arranca o seu próprio sombreiro; atira-o à
cabeça do Judas; e os filhinhos todos recuam, num grito, vendo retratar-se na
figura desengonçada e sinistra o vulto do seu próprio pai.
É
um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga-se de
si mesmo: pune-se, afinal, da ambiçào maldita que o levou àquela terra; e
desafronta-se da fraqueza moral que lhe parte os ímpetos da rebeldia
recalcando-o cada vez mais ao plano inferior da vida decaída onde a credulidade
infantil o jungiu, escravo, à gleba empantanada dos traficantes, que o
iludiram.
Isto,
porém, não lhe satisfaz. A imagem material da sua desdita não deve permanecer
inútil num exíguo terreiro de barraca, afogada na espessura impenetrável, que
furta o quadro de suas mágoas, perpètuamente anônimas, aos próprios olhos de
Deus. O rio que lhe passa à porta é uma estrada para tôda a Terra. Que a Terra
tôda contemple o seu infortúnio, o seu exaspêro cruciante, a sua desvalia, o
seu aniquilamento iníquo, exteriorizados, golpeantemente, e propalados por um
estranho e mudo pregoeiro...
Embaixo,
adrede construída desde a véspera, vê-se uma jangada de quatro paus boiantes, rijamente
travejados. Aguarda o viajante macabro. Condu-lo, prestes, para lá,
arrastando-o em descida, pelo viés dos barrancos avergoados de enxurros.
A
breve trecho a figura demoníaca apruma-se, especada, à pôpa da embarcaçào
ligeira.
Faz-lhe
os últimos reparos: arranja-lhe ainda uma vez as vestes; arruma-lhe às costas
um saco cheio de ciscalho e pedras; mete-lhe à cintura alguma inútil pistola
enferrujada, sem fechos, ou um caxerenguengue gasto; e fazendo-lhe curiosas
recomendaçòes, ou dando-lhe os mais singulares conselhos, impele, ao cabo, a
jangada fantástica para o fio da corrente.
* * *
E
Judas feito Ahsverus vai avançando vagarosamente para o meio do rio. Então os
vizinhos mais próximos, que se adensam, curiosos, no alto das barrancas,
intervêem ruidosamente, saudando com repetidas descargas de rifles aquêle
botafora. As balas chofram a superfície líqüida, erriçando-a; cravam-se na
embarcação, lascando-a; atingem o tripulante espantoso; trespassam-no. Êle
vacila um momento no seu pedestal flutuante, fustigado a tiros, indeciso, como
a esmar um rumo, durante alguns minutos, até se reaviar no sentido geral da
correnteza. E a figura desgraciosa, trágica, arrepiadoramente burlesca, com os
seus gestos desmanchados, de demônio e truão, desafiando maldições e risadas,
lá se vai na lúgubre viagem sem destino e sem fim, a descer, a descer sempre,
desequilibradamente, aos rodopios, tonteando em tôdas as voltas, à mercê das
correntezas, "de bubuia" sôbre as grandes águas.
Não
pára mais. À medida que avança, o espantalho errante vai espalhando em roda a
desolação e o terror: as aves, retransidas de mêdo, acolhem-se, mudas, ao
recesso das frondes; os pesados anfíbios mergulham, cautos, nas profunduras,
espavoridos por aquela sombra que ao cair das tardes e ao subir das manhãs se
desata estirando-se, lutuosamente, pela superfície do rio; os homens correm às
armas e numa fúria recortada de espantos, fazendo o "pelo sinal" e
aperrando os gatilhos, alvejam-no desapiedadamente.
Não
defronta a mais pobre barraca sem receber uma descarga rolante e um
apedrejamento.
As
balas esfuziam-lhe em tôrno; varam-no; as águas, zimbradas pelas pedras,
encrespam-se em círculos ondeantes; a jangada balança; e, acompanhando-lhe os
movimentos, agitam-se-lhe os braços e êle parece agradecer em canhestras
mesuras as manifestações rancorosas em que tempesteiam tiros, e gritos,
sarcasmos pungentes e esconjuros e sobretudo maldições que revivem, na palavra
descansada dos matutos, êste eco de um anátema vibrando há vinte séculos:
-
Caminha, desgraçado!
Caminha.
Não pára. Afasta-se no volver das águas. Livra-se dos perseguidores. Desliza,
em silêncio, por um estirão retilíneo e longo; contorneia a arqueadura
suavíssima de uma praia deserta. De súbito, no vencer uma volta, outra
habitação: mulheres e crianças, que êle surpreende à beira do rio, a subirem,
desabaladamente, pela barranca acima, desandando em prantos e clamores. E logo
depois, do alto, o espingardeamento, as pedradas, os convícios, os remoques.
Dois
ou três minutos de alaridos e tumulto, até que o judeu errante se forre ao
alcance máximo da trajetória dos rifles, descendo...
E
vai descendo, descendo... Por fim não segue mais isolado. Aliam-se-lhe na
estrada dolorosa outros sócios de infortúnio; outros aleijões apavorantes sôbre
as mesmas jangadas diminuta entregues ao acaso das correntes, surgindo de todos
os lados, vários no aspecto e nos gestos: ora muito rijos, amarrados aos postes
que os sustentam; ora em desengonços, desequilibrando-se aos menores balanços,
atrapalhadamente, como ébrios; ou fatídicos, braços alçados, ameaçadores,
amaldiçoando; outros humílimos, acurvados num acabrunhamento profundo; e por
vêzes, mais deploráveis, os que se divisam à ponta de uma corda amarrada no
extremo do mastro esguio e recurvo, a balouçarem, enforcados...
Passam
todos aos pares, ou em filas, descendo, descendo vagarosamente...
Às
vêzes o rio alarga-se num imenso círculo; remansa-se; a sua corrente torce-se e
vai em giros muito lentos perlongando as margens, traçando a espiral amplíssima
de um redemoinho imperceptível e traiçoeiro. Os fantasmas vagabundos penetram
nestes amplos recintos de águas mortas, rebalsadas; e estacam por momentos.
Ajuntam-se. Rodeiam-se em lentas e silenciosas revistas. Misturam-se. Cruzam
então pela primera vez os olhares imóveis e falsos de seus olhos fingidos; e
baralham-se-lhes numa agitação revôlta os gestos paralisados e as estaturas
rígidas. Há a ilusão de um estupendo tumulto sem ruídos e de um estranho
conciliábulo, agitadíssimo, travando-se em segredos, num abafamento de vozes
inaudíveis.
Depois,
a pouco e pouco, debandam. Afastam-se; dispersam-se. E acompanhando a
correnteza, que se retifica na última espira dos remansos - lá se vão, em
filas, um a um, vagarosamente, processionalmente, rio abaixo, descendo...
"Brasileiros"
O
Peru tem duas histórias fundamentalmente distintas. Uma, a do comum dos livros,
teatral e ruidosa, reduz-se ao romance rocambolesco dos marechais instantâneos
dos pronunciamentos. A outra é obscura e fecunda. Desdobra-se no deserto. É
mais comovente; é mais grave; é mais ampla. Prolonga, noutros cenários, as
tradições gloriosas das lutas da Independência; e veio até aos nossos dias tão
impartível e sem hiatos, apesar de seus aspectos variáveis, que pode
acapitular-se sob o título único, geralmente adotado pelos melhores publicistas
daquela República: El Problema del oriente.
A
designação é perfeita. Trata-se de assunto rigorosamente positivo a resolver.
Ao
peruano não lho impuseram maciços argumentos de sociólogos ou a intuição feliz
de um estadista, senão o próprio empuxo material do meio. Constrangida numa
fita de terrenos adustos entre as cordilheiras e o mar, onde acampara durante
três séculos iludida pelo fausto dos conquistadores e dos vice-reis, a
nacionalidade, maior herdeira das virtudes e dos vícios por igual notáveis da
Espanha cavalheiresca e decaída do século XVII, compreendeu afinal, pelo
simples instinto da defesa, a necessidade imperiosa de abandonar a clausura
isolante que a seqüestrava de todo o resto da Terra.
E
começou a transmontar os Andes...
Fôra
longo recontar a sua hégira para o levante, nas investidas sucessivas por cinco
penosíssimas estradas desesperadoramente retorcidas no boleado das serras,
empinando-se em ladeiras altas de milhares de metros, e unindo os portos do
litoral entre Mollendo e Paita às paragens apetecidas da montaña na
extrema orla amazônica expandida do pongo de Manseriche às urmanas acachoantes
do Urubamba.
Baste-nos
notar que depois de transposta a última cordilheira do Oriente e atingida a
bacia do Ucaiáli, pôs-se de manifesto aos seus mais incuriosos pioneiros, a par
da exuberância do vale maravilhoso capaz de regenerar-lhes a nacionalidade
exausta, uma anomalia física oriunda dos relevos orográficos ali predominantes:
a melhor porção do país entre os que mais se afiguram ribeirinhos do Pacífico,
tem como único e verdadeiro mar, capaz de consorciá-la pelo intercâmbio
comercial à civilização longínque, o Atlântico, que se lhe prende graças aos
três longos sulcos desimpedidos do Purus, do Juruá e do Ucaiáli.
Nenhum
milagre de engenharia lhos substituirá com vantagem. A linha férrea de Oroya e
as que se lhe emparelham nas ousadias do traçado - tornejando escarpas a pique,
enfiando em túneis afogados nas nuvens, e correndo em viadutos alcandorados nos
abismos - não criarão sistemas de comunicações mais práticas e seguras.
As
suas condições técnicas excepcionais, industrialmente desastrosas, tornam-nas
para sempre impropriadas a transportarem, sem fretes excessivos, os produtos do
Oriente, ainda quando a abertura do Canal de Panamá dispense, mais tarde, a
longa travessia contorneante do Cabo Horn.
Assim,
a saída para o Atlântico, pelo Amazonas e seus tributários de sudoeste, se
tornou a primeira solução claríssima do problema. E nas paragens novas,
erigidas administrativamente no atual Departamento de Loreto, começou para logo
um intensivo trabalho de domínio, que persiste, crescente, em nossos dias.
Abriram-se
caminhos demandando a opulenta zona fluvial; planearam-se, a despeito de
sucessivos malogros, colônias militares e agrícolas, reatou-se, na
revivescência das missões apostólicas, a tradição admirável dos jesuítas de
Maynas; engenhou-se uma vasta regulamentação de terras; construiu-se o pôrto de
Iquitos, e, para aviventar-se o povoamento, aboliram-se todos os impostos,
agindo o homem aforradamente na terra feracíssima. Ao mesmo tempo as expedições
geográficas, iniciadas em 1834 por P. Beltran e W. Smith, em que tanto se
ilustraram depois F. de Castelnau, Faustino Maldonado, A. Raimondi, John Tucker
e hoje G. Stiglich, rumaram a todos os quadrantes, ininterruptas e pertinazes,
na tarefa complexa que era uma espécie de levantamento expedito de uma nova
pátria.
Aos
caudilhos irrequietos contrapuseram-se os exploradores tranqüilos. No litoral
revôlto pelas sedições e guerrilhas sistematizava-se a incapacidade crônica dos
governos revolucionários, e, derrancados os melhores estímulos da recente
campanha pela liberdade, os bravos salteadores do poder desmandavam-se num
militarismo pernicioso que ali, como em tôda parte, era a fraqueza irritável da
nação enfêrma. Nos desertos floridos da montaña ao arrepio ou à feição
dos rios ignorados, remoinhando nos giros estonteantes das muyunas,
canoas despedidas, de frecha, nas correntadas céleres dos pongos, ou
embatendo nas travancas abruptas das cachoeiras - os geógrafos, os prefeitos e
os missionários demarcavam novos cenários à pátria regenerada e, apurando em
tirocínio de perigos os mais nobres atributos da sua raça, reconstruíram o
caráter nacional que se abatera, e davam àqueles rumos, secamente definidos por
traçados geométricos, um prolongamento inesperado na História.
Porque
o problema do Oriente, afinal, incluía nas suas numerosas incógnitas os
destinos do Peru inteiro.
Reconheciam-nos
os próprios caudilhos esmaniados. Não raro no estavanado e vacilante de seus
atos, entre dois fuzilamentos ou entre dois combates, acertavam de considerar
por momentos as paragens insistentemente aneladas, e muito dêles, de golpe,
transfiguravam-se patenteando lúcidos descortinos de estadistas.
A
êste propósito poderiam citar-se numerosos casos delatadores da política
bifronte, do mesmo passo reconstituinte e demolidora, que com o rigorismo de um
decalque retrata na ordem moral do Peru o contraste físico entre o Ocidente
obscurecido, onde as energias se quebrantam malignadas pela história emocional
epidêmica dos pronunciamentos - e o Levante resplandecente, onde alvorecem as
esperanças renascidas.
* * *
Aponte-se
um exemplo.
Em
1841 a República estava a pique das maiores catástrofes. Imperava D. Agustín
Gamarra. Aquêle zambo cesareano refletia nos atos tumultuários os
desequilíbrios de seu temperamento instável, de mestiço, ferrotoado dos temores
e das impaciências de um prestígio improvisado, à ventura, nos sobressaltos das
guerrilhas.
O
seu govêrno - govêrno de quem inaugurou no Peru o regime das deposições apeando
o virtuodo La Mar - foi naturalmente agitadíssimo. O restaurador impôsto pelas
armas dos chilenos, de Bulnes, sôbre os destroços da efêmera confederação
perúvio-boliviana, assediado pelas ambições contrariadas, pelas exigências dos
condutícios incontentáveis e pelas ameaças dos conspiradores recidivos,
tonteava na vertigem daquela eminência, onde chegara desprendendo-se da
parceria dos cholos e pisoando todos os melindres aristocráticos da
terra que sôbre tôdas herdara a sobranceria tradicional da Espanha. Nas
conjunturas prementes dependeu-lhe, por vêzes, a fortuna, até do gesto de uma
mulher - a sua própria espôsa, amazona gentilmente heróica, que não raro
travando de uma espada e precipitando-se, à espora feita, a cavalo, pelo campo
das manobras ou no mais aceso dos combates, ia eletrizar com a presença
encantadora os coronéis embevecidos e os regimentos vacilantes...
Assim
não se poderiam exigir à vida em tanta maneira perturbada e romântica, daquele
presidente, ponderosas medidas administrativas. Acompanhamo-la apenas com o
interêsse artístico de quem segue a urdidura de imaginosa novela sulcada de
episódios alarmantes, ou dramáticos, até desfechar no sacrifício, inútil e
glorioso, do protagonista, sucumbindo sob uma carga furiosa dos lanceiros
bolivianos nas esplanadas de Viacho...
Mas
no volver de uma das páginas salteia-nos esta surprêsa:
"El
ciudadano Agustín Gamarra - Gran mariscal restaurador del Perú, benemérito a la
patria in grado heroico y eminente, etc.
"Considerando
que para promover la navigación por vapor en el rio de Amazonas y sus
confluentes és necesario proporcionar facilidades y ventagens que indemnicen a
los empresarios...
"Decreta:
1º Se concebe al ciudadano brasileiro D. Antonio Marcelino Pereira
Ribeiro el privilegio exclusivo de navegar por buques de vapor en el rio
Amazonas, en la parte que corresponde al Perú e todos sus afluentes.
"...
3º Los buques de vapor levarón el pabellón brasileiro...
"Dada
en la casa de Gobierno de Lima a 6 de Julio de 1841."
Êste
decreto, extratado nos trechos principais, inculca ao mesmo tempo o caudilho, no
recacho presuntuoso que lhe emprestam aquêles adjetivos e substantivos
constrangidos a escoltarem-lhe o nome, e o governante, que primeiro traçou aos
seus patrícios a marcha regeneradora para o Oriente. Mas não o reproduzimos
apenas para realce dos aspectos contrariantes da História Peruana; senão também
para destacar aquela figura de brasileiro, que seria inexpressiva se não
constituísse o primeiro têrmo de uma série de compatriotas obscuros, erradios
dos nossos fastos e elegendo-se por atos memoráveis entre os melhores
servidores da nação vizinha.
De
fato, à medida que se rastreia a marcha peruana para o levante, exposta em
todos os seuspormenores, miudeada em regulamentos, em decretos, em circulares e
em ofícios - porque é a suprema preocupação política, militar e administrativa
do Peru - observa-se nas referências obrigatórias e incisivas ao elemento
brasileiro, o intercurso de uma outra avançada obscura, mas vigorosa, e
contrapondo-se-lhe numa expansão tão enérgica, para o ocidente, que com os seus
efeitos a despontarem de longe em longe, precisamente nos períodos mais
decisivos da primeira, se restauraria todo um capítulo da nossa História, que
se perdeu ou se fracionou despercebido à visão embotada dos cronistas, para
ressurgir agora, esparso em fragmentos surpreendentes, nas entrelinhas da
História de outro povo.
É
o que demonstram outros casos, entre nós inéditos. Apontemo-los de relance.
* * *
No
período abrangido pelos governos do austero Marechal Castilla, as explorações prosseguiram.
Castelnau desceu das cabeceiras do Urubamba às ribas do Amazonas; Maldonado
imortalizou-se descobrindo, numa excursão temerária, a nova estrada para o
Atlântico ajustada ao sulco desmedido do Madre de Diós; e Raimondi desvendou os
tesouros da mesopotâmia de 16.000 léguas quadradas de terras exuberantes,
interferidas pelos cursos do Huallaga e do Ucaiáli. Por fim Montferrir
calculou, rigorosamente, as riquezas da Canaã vastíssima: 50.000.000 de
hectares, valendo o mínimo de meio bilhão de pesos.
A
aritmética tornava-se quase lírica nesta dilatação de números maravilhosos.
As
medidas governamentais do grande Marechal tiveram para logo o alento dos mais
enérgicos estímulos patrióticos, a par do anseio de fortuna dos mais
desassombrados aventureiros.
Os
peruanos, iludidos durante largo tempo no litoral estéril, viam pela primeira
vez o nôvo mundo. E a conquista da terra, numa de suas fases mais agudas,
desenrolou-se em tôda a plenitude.
Então,
contravindo a tantas esperanças sob o amparo das mais lúcidas resoluções
governativas - leis, regulamentos e decretos enfeixando-se num volumoso
compêndio de administração fecunda e militante - principiou uma fase
desalentadora de brilhantes tentativas abortícias.
As
colônias planeadas, e para logo erigidas, espelhavam por algum tempo naqueles
rincões solitários a fantasmagoria de um progresso artificial; e extinguiam-se
prestes. Já em 1854 o governador de Loreto, pueblo obscuro cujo nome
irradia hoje abrangendo aquêles lugares, ao informar do estado de duas
colonizações sucessivas que ali se estabeleceram, centralizadas em
Caballo-Cocha, próximas à fronteira do Brasil, indicava-as completamente
extintas. E idênticos malogros generalizavam-se por tôda a banda.
Eram
naturais. As vagas humanas nas paragens virgens não se aquietam de súbito.
Carateriza-as nos primeiros estádios a instabilidade inevitável imposta pela
própria força viva adquirida no movimento da maarcha. Precedendo ao equilíbrio
das culturas, surge a pesquisa dos frutos ou das riquezas imediatas, como a
permitir aos recém-vindos, na vida errante das colheitas, dos garimpos, dos
pastoreios ou das caçadas, um reconhecimento imprescindível do seu nôvo
habitat, antes da escolha de uma situação de descanso.
É
a eterna função social do nomadismo, que mesmo no Peru já se manifestara na
azáfama devastadora dos cascarileros, desvendando as paragens ignotas
que vão dos cerros de Carabaya às vertentes mais aastadas do Beni.
Êste
incentivo, porém, ali, estava extinto.
Por
aquêle tempo, uma tenaz explorador, Marckam, comissionado pelo govêrno inglês,
andava nas regiões da quina calisaya; e conseguira transplantar tão
prontamente para as Índias aquêle elemento da fortuna peruana que, já em 1862,
mais de quatro milhões de árvores, em Darjeeling, com a produção extraordinária
de 370 toneladas de quinino, iniciavam uma concorrência triunfante no primeiro
assalto. Dêste modo, as paragens tão ansiosamente apetecidas mostravam-se, ante
os novos povoadores, desnudas dêsses recursos que em tôda a parte se figuram adrede
predispostos a que não se desenfluam as esperanças sempre exageradas dos que
emigram.
Não
lhes bastariam, certo, as bombonaças para os chapéus de palha oriundos da
indústria graciosa das mulheres do Moyobamba, ou os cascalhos auríferos das
vertentes do Pastaza guardadas pelos huambizas ferocíssimos.
Assim,
todos os atos, e magníficos decretos, e lúcidos regulamentos, e generosas
concessões de terras, do último govêrno de Castilla, desfechariam nos mais
lastimáveis insucessos se, precisamente na derradeira quadra da sua
presidência, e no mesmo ano (1862) em que a cultura indiana da quina arrebatava
daqueles desertos o seu maior atrativo _ um anônimo, um outro imortal humílimo
evadido da nossa História, não aparecesse, eclipsando de golpe os mais imponentes
lances administrativos e oferecendo aos peruanos o reagente enérgico que os
alentaria até aos nossos dias na rota da Amazônia.
Um
brasileiro descobriu o caucho; ou, pelo menos, instituiu ali a indústria
extrativa correspondente.
No
reconstruir êste trecho da nossa História, que versado mais tarde por um
historiador merecerá o título de "Expansão Brasileira na Amazônia",
não vamos desacompanhados.
Diz-nos
um narrador sincero:
"Antes
do ano de 1862, não tinha ainda sido explorada a incalculável riqueza da goma
elástica... Depois da entrada de alguns brasileiros para o território do
Departamento, principalmente do laborioso José Joaquim Ribeiro, começou êste
rico produto a figurar no catálogo dos que o Departamento exporta para o
Brasil. A primeira quantidade exportada foi de 2.088 quilogramas, produto dos
ensaios daquele brasileiro que muito teria contribuído para o desenvolvimento
dessa indústria, se ao iniciá-la não encontrasse contrariedades nascidas do
cupidismo de alguns agentes subalternos que contra êle exerceram todos os
ardis..."
Não
comentemos o desquerer das autoridades peruanas. Era antigo. Desde 1811 o
reportado D. Manoel Ijurra denunciava "los Brazileros más próximos al
Perú que tienen la bárbara costumbre de armar expediciones militares con objeto
de haccer correrías sobre los indios Maynas, atropelando muchas veces las
autoridades..."; ou apresentava-os como "absolutos
monopolizadores del comercio de importación o exportación." Cinco anos
depois, em ofício alarmante, o Subprefeito de Maynas solicitava providências
urgentíssimas "al intuito de que los Brazileros moradores de
Caballo-Cocha, salgan fuera de esta provincia, se buenamente no quieren, por la
fuerza"; e pintava-os laivando-os dos mais denegridos estigmas. Por
fim o Governador-Geral das Missões (1849) determinou se exigissem passaportes
de todos os brasileiros que lá entrassem, gaguejando num castelhano emperrado
esta razão curiosíssima: "que no se experimentaba provecho alguno en estos
negociantes del Brazil; ni menos hay bayonetas con que poder conterlos; hacen
lo que quieren metiendo-se por los rios, extraendo zarza, manteca, salado e
otras especies..."
Não
prossigamos.
Adivinha-se
nestas linhas, que poderiam ser prolongadas, a invasão formidável que se
alastrava avassaladora para o ocidente, desafiando os ódios do estrangeiro;
espraiando-se pelo vale do grande rio, por Loreto, Caballo-Cocha, Moremote,
Perenate, Iquitos, até Nauta, na embocadura do Ucaiáli; subindo pelo Ucaiáli em
fora até além do Pachitéa: deixando nos mais vários pontos, nos sítios
numerosos, nas trilhas coleantes do deserto, e até nos costumes ainda
persistentes, os traços indeléveis da passagem.
Se
a historiássemos contraporíanos às verrinas oficiais dos subprefeitos
apavorados, cujos dizeres se pejoravam à medida que progredia aquela surda
conquista do solo, os próprios conceitos de Antonio Raimondi. Mas aquêle belo
tipo de Joaquim Ribeiro, que em 1868 o maior naturalista peruano foi encontrar
nas margens do Itaia possuindo as melhores fazendas do Departamento, concretiza
uma réplica irrefragável. Não o pearam tão pequeninos empeços. Criada a
indústria extrativa, a exportação da borracha a partir de 1871 erigiu-se
preeminente entre as dos demais produtos de Loreto. E as turmas dos extratores,
sem nenhuns amparos oficiais, rompendo espontâneos de tôda a parte e
arremetentes com as mais desfreqüentadas espessuras, ultimaram em pocuo tempo a
emprêsa quase secular tantas vêzes cindida de reveses.
Desvendou-se
todo o Oriente.
Mas
há um reverso no quadro.
A
exploração do caucho como a praticam os peruanos, derribando as árvores, e
passando sempre à cata de novas "manchas" de castilloas ainda
nào conhecidas, em nomadismo profissional interminável, que os leva à prática
de todos os atentados nos recontros inevitáveis com os aborígenes - acarreta a
desorganização sistemática da sociedade. O caucheiro, eterno caçador de
territórios, não tem pega sôbre a terra. Nessa atividade primitiva
apuram-se-lhe, exclusivos, os atributos da astúcia, da agilidade e da fôrça.
Por fim, um bárbaro individualismo. Há uma involução lastimável no homem
perpètuamente arredio dos povoados, errante de rio em rio, de espessura em
espessura, sempre em busca de uma mata virgem onde se oculte ou se homizie como
um foragido da civilização.
A
sua passagem foi nefasta. Ao cabo de 30 anos de povoamento, as margens do
Ucaiáli, tão nobilitadas outrora pela abnegação dos missionários de Sarayaco,
patenteiam, hoje, nos seus vilarejos diminutos, uma decadência moral
indescritível.
O
Coronel Pedro Portillo, atual Prefeito de Loreto, que as visitou em 1899,
denunciou-a, indignado: Alli no hay leyes... El más fuerte que tiene más
rifles, es el dueño de la justicia". Verberou depois o tráfico
escandaloso de escravos. E, afinados pelo mesmo tom, um sem-número de outros
excursionistas, que fôra longo citar, delatam, em narativas expressivas, o
regime de tropelias que se normalizou naquelas terras - e se amplia seguindo os
rastros do homem que passa pelo deserto com o só efeito de barbarizar a própria
barbaria.
* * *
Ora,
na presciência dos inconvenientes desta exploração, que, entretanto, determinou
o pleno desdobramento de seu domínio no Oriente, o govêrno peruano nunca renunciou
ao seu primitivo propósito de uma colonização intensiva. E para ao mesmo tempo
garantir o tráfego do melhor caminho para o Amazonas, pelo Ucaiáli, que vai da
estação terminus de Oroya aos tributários principais do Pachitéa,
estabeleceu em 1857, à margem de um dêles, o Rio Pozuzo, a colônia alemã, que
sôbre tôdas lhe monopolizou os cuidados e uma solicitude nunca interrompida.
Realmente,
a situação era admirável. À média distância de Iquitos, próxima aos afluentes
navegáveis do Ucaiáli e num solo exuberante, o núcleo estabelecido era, militar
e administrativamente, o mais firme ponto estratégico daquele combate com o
deserto, justificando-se os esforços e extraordinárias despesas que se fizeram
para um rápido desenvolvimento, que as melhores condições naturais favoreciam.
Mas
não lhe vingou o plano. A exemplo do que acontecera em Loreto, os novos
povoadores, embora mais persistentes, anulavam-se, estéreis. A colônia
paralisara-se, tolhiça, entre os esplendores da floresta. Reduziu-se a culturas
rudimentares que mal lhe satisfaziam o consumo. E o progresso demográfico,
quase insensível, retratava-se numa prole linfática, em que o rijo arcabouço
prussiano se engelhava na envergadura esmirrada do quíchua. Ao visitá-la, em
1870, o Prefeito de Huanuco, Coronel Vizcarra, quedou atônito e comovido: os
colonos apresentaram-se-lhe andrajosos e famintos, pedindo-lhe pão e vestes
para velarem a nudez. O romântico D. Manoel Pinzás, que descreveu a viagem,
pinta-nos em longos períodos soluçantes os lances daquele cuadro
desgarrador!, suspendendo-o em dois rijos pontos de admiração.
Viu-o
ainda, passado um lustro, com as mesmas côres sombrias, o Dr. Santiago Tavara,
ao descrever a primeira viagem do Almirante Tucker.
Por
fim, transcorridos trinta anos, o Coronel P. Portillo na sua rota do Ucaiáli
teve notícias certas do núcleo povoador: era uma Tebaida aterradora. Lá dentro
os primitivos colonos e os seus rebentos degenerados agitavam-se vítimas de um
fanatismo irremediável, na mandria dolorosa das penitências, a rezarem, a
desfiarem rosários e a entoarem umas ladainhas intermináveis numa concorrência
escandalosa com os guaribas da floresta.
Ora,
o excursionista, que é hoje um dos mais lúcidos políticos peruanos, para
agravar-lse-lhe o desapontamento ante êste malôgro completo da colônia
predileta da sua terra, tivera dias antes, ao passar em Puerto Victoria, na
confluência do Pichis e do Palcazu, formadores do Pachitéa, um espetáculo
completamente diverso. De fato, Puerto Victoria surgira e desenvolvera-se, tornando-se
a estância mais animada e opulenta daquela redondeza, sem que o govêrno peruano
soubesse ao menos do seu aparecimento.
Jamais
cogitara em povoar aquêle trecho.
A
paragem era malsinada. Rodeavam-na os mais bravios entre os selvagens
sul-americanos: os campas do Pajonal, ao sul, e ao norte os caxibos
indomáveis, que em 1866 haviam trucidado em Chonta-Isla, que lhe demora a
jusante, os oficiais de marinha Tavara e West. O Prefeito Benito Arana, que ali
andara naquele mesmo ano, fôra, em som de guerra, com dois vapôres e uma lancha
artilhada, em revide àquela afronta sanguinolenta. Saltou em terra; meteu-se
pela mata; travou pequeninos recontros em formidáveis tiroteios; volveu num
triunfo singularíssimo, encalçado de perto pelos selvagens, que o frechavam;
embarcou no tumulto da sua gente vitoriosa, e fugindo; canhoneou furiosamente
as barrancas; volveu, precípite, águas abaixo, deixando na Playa del Castigo
um traço romanesco da sua emprêsa tormentosa...
E
durante três decênios a região sinistra permaneceu no isolamento que lhe
criavam as gente apavoradas...
Até
que, provindos do ocidente e vencendo à voga arrancada, nas ubás esguias, as
correntezas fortes do Pachitéa, atravessaram-na de extremo a extremo e foram
abordar na confluência do Pichis alguns aventureiros destemerosos.
Eram
uns caboclos entroncados, de tez morena e baça, e musculatura sêca e poderosa.
Não eram caucheiros. A palavra remorada não lhes vibrava na fanfarrice ruidosa.
Ao invés de um tambo, improvisaram um tejupar mal arranjado. Não se armaram do cuchillo,
misto de punhal e de navalha. Pendiam-lhes à cintura as facas de arrasto,
longas como as espadas.
Aperceberam-se
sem ruídos para a emprêsa e penetraram, vagarosamente, na floresta...
Não
se conhecem as peripécias da entrada temerária, que foram sem dúvida
excepcionalmente dramáticas. Os caxibos têm no próprio nome a legenda da sua
ferocidade. Caxi, morcego; bo, semelhante. Figuradamente:
sugadores de sangue. Ainda nos seus raros momentos de jovialidade aquêles
bárbaros assustam, quando o riso lhes descobre os dentes retintos do sumo negro
da palmeira chonta; ou estiram-se de bruços, acaroados com o chão, as bôcas
junto à terra, ululando longamente as notas demoradas de uma melopéia selvagem.
Atravessaram,
indenes na bruteza, trezentos anos de catequese; e são ainda a tribo mais
bravia do vale do Ucaiáli.
Mas
ao que se figura não pulsearam com vantagem o vigor nos novos pioneiros.
É
que o bárbaro sanguinário tinha pela frente, enterreirando-o, um adversário
mais temeroso, o jagunço.
Os
recém-vindos eram brasileiros do Norte; e o seu patrão, Pedro C. de Oliveira,
mais um modêlo de lidador obscuro aparecendo em lances de fecundas iniciativas
entre os acontecimentos de uma história estranha. Para aquilatar-se-lhe a
valia, observemos de relance que em janeiro de 1900 foi nomeado, apesar da sua
nacionalidade, governador de tôda a zona que o seu barracão centralizava.
O
Coronel Portillo, que ali deparou agasalho sincero sem o pregão de rasgados
oferecimentos, tão característico da nossa gens obscura, trai em todos
os conceitos que emitiu no seu relatório - desde o primeiro dia até
desperdir-se da "muy estimable familia del señor Olivera", o
encanto que lhe causou a estância animadíssima no centro de suas culturas
fartas, e inteligentemente locada com as numerosas vivendas circulantes no alto
da barranca, a prumo sôbre a margem esquerda do rio, que se alcançava subindo
uma longa escadaria resistente e tôsca. Cativaram-no, sobretudo, os valentes
tranqüilos que se lhe mostraram modestíssimos em pleno triunfo sôbre a barbaria
e a terra. Por fim, à sua visão esclarecida não escapou que aquêle forasteiro,
sem um decreto e sem uma subvenção, resolvera o problema colimado pelo govêrno
de seu país, fundando no lugar mais conveniente a estação garantidora da
"via central" demandando a Amazônia. Disse-o nuamente: Pôrto Vitória
era o lugar mais apropriado para a guarnição militar e alfândega que
protegessem a importação e exportação da colônia de Chanchamayo, norte de
Pajonal, Tarma e montañas do Palcazu, Matro e Pozuzo.
Concluiu:
"La casa de Olivera debe ser tomada por el Supremo Gobierno como la más
aparente para las oficinas de la capitania, aduana e comandancia militar."
Foi aceito o alvitre. Um
decreto do Presidente Pierola ordenou a demarcação de Puerto Victoria para
estabelecer-se comisaría destinada a proteger os colonizadores daquelas
terras; e num grande ciúme da situação vantajosa adquirida revelou o intento de
uma posse exclusiva "no consentiendo, alli, en el radio de un
quilómetro, poblador alguno".
O
Peru conseguira realmente uma estação fluvial admirável. E os brasileiros
retiraram-se.
Passaram
cinco anos.
Em
1905 um touriste parisiense, J. Delebecque, desceu o Pachitéa, em viagem
para o Amazonas, e não notaria a estância outrora florescente se não o
acompanhassem alguns índios mansos conhecedores dos lugares.
No
alto da barranca, que os enxurros solapavam, viam-se apenas alguns tetos
abatidos e restos de culturas afogadas num carrascal bravio.
O
pôrto era uma ruína.
O
viajante ali permaneceu por algumas horas a fim de secar as suas roupas
encharcadas ao calor de uma fogueira feita com as portas desquiciadas e
ombreiras vacilantes das vivendas, consoante praticam todos os que por ali
passam na travessia de Iquitos; e considerou, melancòlicamente, que daquele
jeito Puerto Victoria seria em breve apenas uma recordação.
Depois
abalou rio abaixo, a tôda a voga, fugindo da paragem que se ermana no mais
completo abandono...
Transacreana
A
carta da Amazônia, no trato que demora ao ocidente do Madeira, é o diagrama de
seu povoamento inicial. A história da paragem nova, antes de escrever-se,
desenha-se. Não se lê, vê-se. Resume-se nos longos e torturosos riscos do
Purus, do Juruá e do Javari.
São
linhas naturais de comunicação a que nenhumas se emparelham no favorecer um
dilatado domínio. Geomètricamente, os seus talvegues, rumados no sentido geral
de SO para NE, num quase paralelismo, oblíquos aos meridianos, facultam
avançamentos simultâneos em latitude e em longitude; sob o aspecto físico, à
parte os entraves artificiais oriundos do abandono em que jazem, estiram-se de
todo desimpedidos. Travam-se-lhes os mais privilegiados requisitos. Na grande
maioria dos rios amazônicos, e sobretudo no Vale do Ucaiáli, os empeços naturais
acumulam-se ao ponto de originarem estranhos têrmos geográficos. Nêles não há
citar-se um só. Nem pongos vertiginosos, nem despenhadas urmanas, nem muiúnas
remoinhantes ou vueltas del diablo desesperadores...
Daí
esta expressiva conseqüência histórica: enquanto no Tocantins, no Tapajós, no
Madeira e no Rio Negro, o povoamento, iniciado desde os tempos coloniais, se
entorpeceu ou retrogradou, retratando-se na ruinaria dos vilarejos a caírem com
as barrancas solapadas, ali, ajustando-se-lhes às margens, progrediu tão de
improviso que determinou, em menos de cinqüenta anos, uma dilatação de
fronteiras.
Era
inevitável. O forasteiro, ao penetrar o Purus ou o Juruá, não carecia de
excepcionais recursos à emprêsa. Uma canoa maneira e um varejão, ou um remo,
aparelhavam-no às mais espantosas viagens. O rio carregava-o; guiava-o;
alimentando-o; protegendo-o. Restava-lhe o só esfôrço de colhêr à ourela das
matas marginais as especiarias valiosas; atestar com elas os seus barcos
primitivos e volver águas abaixo - dormindo em cima da fortuna adquirida sem
trabalho. A terra farta, mercê duma armazenagem milenária de riquezas, excluía
a cultura. Abria-se-lhe em avenidas fluviais maravilhosas. Impôs-lhe a tarefa
exclusiva das colheitas. Por fim tornou-lhe lógico o nomadismo.
O
nome de "montaria", da sua ubá aligeirada, é extremamente expressivo.
Ela o ajustou àquelas solidões de nível, como o cavalo adaptou o tártaro às
estepes. Esta diferença apenas: ao passo que o calmuco tem nos infinitos pontos
do horizonte infinitos rumos atraindo-o ao nomadismo irradiante à roda da sua
iurta, que ao mudar-se se afigura imóvel no círculo indefinido das planuras - o
jacumaúba amazonense, subordinado a roteiros lineares, adscrito a direções
imutáveis, ficou largo tempo constrangido entre as barrancas dos rios. Mal
poderia libertar-se em desvios de poucas léguas pelos sulcos laterais dos
tributários. Ao invés do que se acredita, aquelas rêdes hidrográficas,
entretecidas de malhas tão contínuas, não misturam as águas das caudais
diversas em largas anastomoses, insinuando-se pelas imperceptíveis linhas de
vertentes abatidas nas planícies encharcadas. O paranamirim volve sempre ao
leito principal de onde se esgalhou; e o igarapé acaba no lago que êle
alimentou nas cheias para que o alimente nas vazantes, correndo em sentidos
opostos consoante as estações; ou extingue-se, ampliando-se nos plainos
empantanados escondidos pela flórula anfíbia dos igapós inextricáveis de
lianas. Entre um curso d’água e outro, a faixa da floresta substitui a montanha
que não existe. É um isolador. Separa. E subdividiu, de fato, em longos
caminhos isolados, as massas povoadoras que demandavam aquela zona.
Viu-se
então, de par com primitivas condições tão favoráveis, êste reverso: o homem,
em vez de senhorear a terra, escravizava-se ao rio. O povoamento não se
expandia: estirava-se. Progredia em longas filas, ou volvia sôbre si mesmo sem
deixar os sulcos em que se encaixa - tendendo a imobilizar-se na aparência de
um progresso ilusório, de recuos e avançadas, do aventureiro que parte, penetra
fundo a terra, explora-a e volta pelas mesmas trilhas - ou renova,
monòtonamente, os mesmos itinerários da sua inambulação invariável. Ao cabo, a
breve, mas agitadíssima história das paragens novas, à parte ligeiras
variantes, ia imprimindo-se tôda, secamente, naquelas extensas linhas desatadas
para SO: três ou quatro riscos, três ou quatro desenhos de rios, coleando,
indefinidos, num deserto...
* * *
Ora,
êste aspecto social desalentador, criado sobretudo pelas condições em comêço
tão favoráveis, dos rios, corrige-se pela ligação transversa de seus grandes
vales.
A
idéia não é original, nem nova. Há muito tempo, com intuição admirável, os
rudes povoadores daqueles longínquos recantos realizaram-na com a abertura dos
primeiros varadouros.
O
varadouro - legado da atividade heróica dos paulistas compartido hoje pelo
amazonense, pelo boliviano e pelo peruano - é a vereda atalhadora que vai por
terra de uma vertente fluvial a outra.
A
princípio tortuoso e breve, apagando-se no afogado da espessura, êle reflete a
própria marcha indecisa da sociedade nascente e titubeante, que abandonou o
regaço dos rios para caminhar por si. E foi crescendo com ela. Hoje nas suas
trilhas estreitíssimas, de um metro de largura, tiradas a facão, estirando-se
por tôda a parte, entretecendo-se em voltas inumeráveis, ou encruzilhadas, e
ligando os afluentes esgalhados de tôdas as cabeceiras, do Acre para o Purus,
dêste para o Juruá e daí para o Ucaiáli, vai traçando-se a história
contemporânea do nôvo território, de um modo de todo contraposto à primitiva
submissão ao fatalismo imponente das grandes linhas naturais de comunicação.
Nos
seus torcicolos, impostos pelas linhas mais altas das pequenas vertentes
deprimidas, sente-se um estranho movimento irrequieto, de revolta.
Trilhando-os, o homem é, de fato, um insubmisso. Insurge-se contra a natureza
carinhosa e traiçoeira, que o enriquecia e matava. Repele-lhe tanto os amparos
antigos que realiza na maior das mesopotâmias a anomalia de navegar em sêco; ou
esta transfiguração: carrega de um rio para o outro o barco que o carregava
outrora. Por fim, numa afirmativa crescente da vontade, vai estirando de rio em
rio, retramada com os infinitos fios dos igarapés, a rêde aprisionadora, de
malhas cada vez menores e mais numerosas, que lhe entregará em breve a terra
dominada.
E
do Acre para o Iaco, para o Tauamano e para o Orton: do Purus para o Madre de
Diós, para o Ucaiáli, para o Javari, trilhando aforradamente o território em
todos os quadrantes, os acreanos, despeados do antigo traço de união do
Amazonas longínquo, que os submetia, dispersos, ao litoral afastado, vão em
cada uma daquelas veredas atrevidas, firmando um símbolo tangível de
independência e de posse.
Tomemos
um exemplo de testemunho estrangeiro.
Em
1904 o oficial da marinha peruana, Germano Stiglich, encontrou no Javari vários
brasileiros, que o surpreenderam com a simples narrativa de uma travessia
costumeira, ante a qual se apequenavam as suas mais estiradas rotas de
explorador notável. Registrou-a em um de seus relatórios: os sertanistas entram
pelo Javar, subindo o Itacoaí até às cabeceiras; varam dali, por terra a
buscarem as vertentes do Ipixuna: alcançam-nas; transmontam-nas; descem o
pequeno tributário; chegam ao Juruá; navegam até S. Felipe, onde infletem,
penetrando o Tarauacá, o Envira e o Jurupari até onde subam as suas canoas
ligeiras; deixam-nas; rompem outra vez por terra a encontrarem o Purus nas
cercanias de Sobral; descem, embarcados, 760 km do grande rio até a foz do
Ituxi; e enveredando por êste último, vão, depois de uma outra varação por
terra, atingir o Abunã, que baixam, abordando, afinal à margem esquerda do
Madeira.
A
derrota, com a percentagem de 20% sôbre as retas da desmedida linha quebrada
que a define, avalia-se em 3.000 km, ou o dôbro da estrada tradicional, dos
bandeirantes, entre S. Paulo e Cuiabá. Os obscuros pioneiros prolongam a êstes
dias a tradição heróica das entradas, que constituem o único aspecto original
da nossa História.
Aquêle
roteiro, entretanto, alonga-se contorcendo-se em voltas sobremaneira extensas.
Abreviemo-lo, baseando-nos em alguns dados seguros.
Partindo
de Remate dos Males, no Javari, nas cercanias de Tabatinga, o viajante, em
qualquer estação, pode sulcar num dia o Itacoaí até a confluência do Ituí,
percorrendo 140 km itinerários. Prossegue por terra em terreno firme, no rumo
de SE pelo extenso varadouro de 190 km que corta as cabeceiras do Jutaí e
termina em S. Felipe, à margem do Juruá, empregando apenas cinco dias de
marcha. Sobe o Tarauacá, embarcado, até a foz do Envira; e desta à do Jurupari,
prosseguindo a buscar as suas mais altas vertentes, num percurso máximo de 350
km que vencerá em pouco mais de uma semana. Rompe o breve varadouro que o leva
ao Furo do Juruá, e atinge, descendo-o, ao fim de dois dias, de lancha,
realizados os ligeiros reparos de que carece o rio. A sede da Prefeitura do
Alto-Purus, distante 24 km, alcança-se em duas horas de navegação; e dali, pelo
varadouro do Oriente, longo de 25 léguas percorrido normalmente em cinco dias,
chega-se ao seringal Bajé, à margem esquerda do Acre. Transpondo êste rio e
seguindo para leste a cortar os derradeiros tributários do Iquiri e os campos
do Gavião, o caminhante vai ao Abunã, a jusante da embocadura do Tipamanu, e
daí ao Beni, na confluência do Madeira, percorrendo cêrca de 300 km em oito
dias, por terra.
Dêste
modo, em pouco mais de um mês de travessia, vencendo-se 907 km por águas e 660
por terra, pode-se vir de Tabatinga a Vila Bela, diagonalmente, de um a outro
extremo da Amazônia, naquele itinerário de 250 léguas.
A
êstes números falta, sem dúvida, o rigorismo das quilometragens regulares; mas
não variam talvez de um décimo sôbre a realidade, à parte os dados demasiado
falíveis relativos à navegação do Tarauacá e ao rumo por terra do Jurupari ao
Purus.
Excluamo-los
nesta variante: partindo do mesmo ponto à margem do Javari e sulcando o Itacoaí
até aos seus derradeiros formadores, o viajante encontra o antigo varadouro do
Ipixuna que o conduz ao Juruá e a Cruzeiro do Sul, capital do Departamento, em
percurso pouco maior do que o anterior por S. Felipe.
Ora,
de Cruzeiro do Sul às sedes dos departamentos do Purus e do Acre podem
remover-se todos os inconvenientes daquela navegação precária, sujeita a
fatigante roteiro.
De
fato, o extenso segmento retilíneo, de 605 km, da linha Cunha Gomes, é a
própria linha de ensaio de um varadouro notável ligando as três sedes
administrativas. Dando-se-lhe o desenvolvimento exagerado de 20% sôbre a
distância, terá a extensão de 726 km; ou sejam, exatamente, 110 léguas, que
podem ser transpostas em grande parte, a cavalo, em menos de doze dias.
Observe-se,
de passagem, que êste projeto não se delineia nos riscos arbitrários a que se
avezam os exploradores de mapas, ou consoante "o conhecido processo do
Tzar Nicolau I, riscando com a unha do polegar o traçado da estrada de
Petersburgo a Moscou".
Esteia-se
em reconhecimentos, certo despidos de azimutes, ou cotas esclarecedoras de
aneróides, mas práticos e concludentes. O primeiro trecho, normal ao vale do
Taruacá, planeado pelo General Taumaturgo de Azevedo, já se acha em grande
parte aberto por um seringueiro de Cocamera - e estende-se em terrenos tão
afeiçoados à marcha que, depois de concluído o caminho, "ir-se-á do Juruá
ao Tarauacá, a cavalo, em quatro dias" conforme afirma o ex-Prefeito em
seu penúltimo relatório; ao passo que atualmente, para efetuar-se a mesma
viagem, "em vapor, que faça poucas escalas e dobre a foz do Tarauacá,
consomem-se 15 dias, no mínimo".
O
segmento intermediário, de Barcelona ou Nôvo Destino à confluência do Caeté, no
Iaco, por sua vez estudado pela Prefeitura do Alto-Purus, é de execução
facílima, todo desatado sôbre breve altiplano livre das inundações. E o último,
do Iaco ao Acre, tem há muito tempo um tráfego permanente.
Dêste
modo a grande estrada de 726 km, unindo os três departamentos, e capaz de
prolongar-se de um lado até ao Amazonas, pelo Javari, e de outro até ao
Madeira, pelo Abunã, está de todo reconhecida, e na maior parte trilhada.
A
intervenção urgentíssima do Govêrno Federal impõe-se como dever elementaríssimo
de aviventar e reunir tantos esforços parcelados.
Deve
consistir porém no estabelecimento de uma via férrea - a única estrada de ferro
urgente e indispensável no Território do Acre.
Atalhemos
uma objeção inicial.
A
fisiografia amazônica figura-se sempre obstáculo indispensável a tais emprêsas.
Mas os que a agitam, em argumentos que temos por escusado reproduzir, não
podem, certo, compreender as linhas férreas da Índia. De fato, no Industão
pròpriamente dito, o nivelamento superficial, o solo aluviano de areias e
argilas acumuladas em espessuras indefinidas, e as características climáticas,
patenteiam-se em condições idênticas. Ali, como na Amazônia, os rios
destacam-se pela grandeza, volumes excessivos nas cheias, amplitudes das
inundações, e volubilidade dos canais nos leitos divagantes. Os nulla
incontáveis, serpeantes por toda a banda, desenham-se na hidrografia caótica
dos igarapés; e o Purus, o Juruá, o Acre e seus tributários, não variam tanto
de curso e de regime quanto o Ganges e os rios de Punjab, cujas pontes foram o
maior problema que resolveu a engenharia inglêsa.
Na
Índia, como entre nós, não faltaram profissionais apavorados ante as
dificuldades naturais - esquecidos de que a engenharia existe precisamente para
vencê-las. Ao discutir-se o memorandum Kennedy, onde germinou a viação
indu, o Coronel Grant, do corpo de engenheiros de Bombaim, pilheriou
sisudamente, propondo com a maior seriedade que os trilhos se suspendessem em todo
o correr das linhas por meio de séries regulares de cadeias, em rijos postes
fronteantes, a oito pés acima do solo... E desafiou o humor magnífico de seus
fleugmáticos colegas. Os rígidos railroadmen replicaram-lhe tempos
depois, esmagadoramente, com a West Indian Peninsular, e nobilitaram
tôda a engenharia de estradas de ferro obedecendo a uma de suas fórmulas mais
civilizadoras, enunciada por Mac-George: "In every country it is
necessary that railway should be ladi out with references to the distribuition
of population and to the necessities of people, rather than to the mere
physical characteristics of its geography..."
Ora,
no caso atual, ainda êsses caracteres físicos e geográficos evidenciam-se
favoráveis.
A
estrada de Cruzeiro do Sul ao Acre não irá, como as do Sul do nosso país,
justapondo-se à diretriz dos grandes vales, porque tem um destino diverso.
Estas últimas, sobretudo em S. Paulo, são tipos clássicos de linhas de
penetração: levam o povoamento ao âmago da terra. Naquele recanto amazônico
esta função, como o vimos, é desempenhada pelos cursos d’água. À linha planeada
resta o destino de distribuir o povoamento, que já existe. É uma auxiliar dos
rios. Corta-lhes, por isto, transversa, os vales.
Daí
esta conseqüência inegável: adapta-se, naturalmente, mercê da própria direção,
às deprimidas áreas divisórias dos afluentes laterais, e, acompanhando-os,
forra-se em grande parte aos empecilhos daquela hidrografia embaralhada.
Por
outro lado, ao sul do paralelo de 8º persiste, certo, o facies
predominante da enorme várzea amazonense. Mas atenuado. A inconstância
tumultuária das águas não se retrata em curvas tão numerosas e volúveis. Os
terrenos, expandindo-se em ondulações ligeiras com a altitude média, absoluta,
de 200 metros, são, no geral, firmes e a cavaleiro das enchentes. Trilhamo-los
em vários pontos. Está-se, visívelmente, sôbre formações mais antigas,
definidas e estáveis, que as da imensa planura pós-quaternária onde ainda se
adivinham as derradeiras transformações geológicas do Amazonas, no conflito
inevitável entre os cursos d’água inconstantes e a várzea inconsistente.
Além
disto, os obstáculos naturais, reduzem-nos, ou amortecem-nos, os traçados que
se lhes afeiçoes. A via férrea em questão deve modelar-se pelas condições técnicas
menos dispendiosas a um primeiro estabelecimento - caracterizando-se,
sobretudo, por uma via singela, de bitola reduzida, de 0,76 m ou 0,91 m, ou no
máximo de 1,0 m entre trilhos, que lhe permita os maiores declives e as menores
curvas, dando-lhe plasticidade para volver-se em busca dos terrenos mais altos
e estáveis, que lhe alteiem o grado acima das zonas inundadas em traçados quase
à flor da terra. Deve nascer como nasceram as maiores estradas atuais: trilhos
de 18 quilos, no máximo, por metro corrente, capazes de locomotivas de escasso
pêso aderente de 15 a 20 toneladas; curvas que se arqueiem até aos raios de 50
metros; e declives que se aprumem até 5% submetidos a todos os movimentos do
solo.
Não
os tem muito melhores a Central Pacific, de Nevada, com a sua bitola
estreita, sem balastro, serpeando com a mesma levidade de trilhos em curvas de
90 metros, e tornejando pendores em rampas inclassificáveis. Ou o
Transiberiano, onde locomotivas de 30 toneladas, rebocando 1/6 de pêso aderente
sôbre trilhos de 19 quilos, andando com a velocidade de 20 km por hora, não
raro recuavam, desandando, constrangidas, se encontravam de frente,
repelindo-as, ponteiras, as ventanias ríspidas das estepes...
Sem
dúvida, de uma tal superestrutura, a que se liga o imperfeito do material
rodante, de tração ou transporte, resultará reduzidíssima capacidade de
tráfego. Mas a linha acreana, a exemplo da Union Pacific Railway, não
vai satisfazer um tráfego, que não existe, senão criar o que deve existir.
Como
as norte-americanas, construir-se-á aceleradamente, para reconstruir-se
vagarosamente.
É
um processo generalizado. Tôdas as grandes estradas, no evitarem os empeços que
se lhes antolham transpondo as depressões e iludindo os maiores cortes com os
mais primitivos recursos que lhes facultem um rápido estiramento dos trilhos,
erigem-se nos primeiros tempos como verdadeiros caminhos de guerra contra o
deserto, imperfeitos, selvagens. E como para justificar o asserto, o primeiro
engenheiro das suas obras rudimentares - que hoje se fazem como há dois mil
anos - de suas estacadas, de suas pontes e pontilhões de madeira mal lavradas,
superpostas em linhas sôbre os styli fixi dos tanchões roliços, é César.
Depois
evolvem; e crescem, aperfeiçoando os elementos da sua estrutura complexa, como
se fôssem enormes organismos vivos.
FIM
A Margem da História, de
Euclides da Cunha
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do
Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da
Universidade de São Paulo
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