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O Parque Estadual de Canudos
Edivaldo Boaventura
Prefácio
Oleone Coelho Fontes
Uma guerra que aconteceu num fim de mundo baiano
insiste em não terminar jamais. Tem tudo para durar mais que a famigerada
Guerra dos 100 Anos, ocorrida em priscas eras em solo europeu. Quem sabe, até
entre para o livro dos récordes. Ao menos em corações e mentes de escritores,
poetas, ficcionistas, humanistas, historiadores e curiosos a Guerra Santa do
Conselheiro tem sobrevivido e rendido tanto quanto pitadas de fermento em bolo
de milho. Ainda bem que assim tem sido. E que fato histórico tão extraordinário,
pelo que houve de sanguinário e desumano, sirva de exemplo para que genocídio
de tal monta não venha mais se repetir entre nós.
Quando
se pensa que nada há mais para se dizer, lá vem a professora Lizir Arcanjo com
"Humor e Sátira na Guerra de
Canudos". Quando se imagina que o assunto está esgotado, eis que surge
um fantasista nascido em Canudos, Eldon Canário, com "Os Mal-Aventurados do Belo Monte", obra de mestre
estilista criativo. Daqui a dias o irrequieto padre Enoque Oliveira vai
acrescentar à extensa bibliografia mais documentação sobre a tragédia nos
sertões da Bahia. Em seguida será a vez da historiadora Consuelo Novais
Sampaio, que para tal bisbilhota um e outro estudioso, uma e outra instituição.
Renato Ferraz corre Ceca e Meca falando de Antônio Conselheiro, jagunço,
chefes militares e promete esconder-se durante dois anos na Alemanha a fim de
levar a cabo transformar fichas e apontamentos em obra sobre Canudos. Eduardo
Hoonaert acaba de lançar, durante o seminário "Canudos,
a Constituição e a Defesa de um Lugar Sagrado", o livro "O
Anjos de Canudos". Anuncia-se a reedição de "O
Rei dos Jagunços", de Manoel Benício, livro de 1899, pela Fundação
Assis Chateaubriand, assim como já pode ser encontrado "Uma Viagem a Canudos", de Alvin Martins Horcades,
igualmente de 1899.
Pensam
que a coisa acaba aí? Nada. O professor Raimundo Gama, de Feira de Santana, com
paciência de copista beneditino, há décadas reúne recortes de jornais que
trazem notícias sobre o fenômeno. Tais recortes serão livro em breve. O astrônomo
amador Wilton de Carvalho, que tem furor por meteoritos, vivencia processo de
pesquisa (itinerante e em laboratório), para nos entregar biografia do major
Febrônio de Brito, que chefiou a segunda expedição militar contra Canudos. E
agora me permitam um comercial. Incorrigível canudófilo, tive publicado, há
pouco, pela BDA, "Guerra de Canudos
em Quatro Atos". Tenho programada uma obra de ficção, só Deus sabe
para quando, que já recebeu título: "A Quinta Expedição". Sei de um padre alemão, Pedro
Metler, que na capital da cachaça, Januária, nas Minas, prepara tese de
doutoramento sobre Canudos.
Isso
é do que temos conhecimento. Há, porém, muito mais, conforme assegura o canudômano
mestre José Calasans. Canudos é temática infindável e em expansão. Pela
universalidade. Pela milenaridade. Pelo que esconde em seus esconsos de enigmático
e singular. Quanto mais descobrimos, tanto mais a questão se desdobra.
Agora
é a vez e hora do professor Edivaldo Boaventura, com "O Parque Estadual de Canudos". O Parque foi criado por
ele quanto este inesgotável obreiro da palavra era Secretário de Educação e
Cultura e governava a Bahia João Durval Carneiro, em 1986. A criação de tal sítio
histórico, militar, arqueológico, ecológico, fazia parte integrante de ambição
do mestre universitário, hoje também diretor do jornal "A
Tarde", de valorizar lugares historicamente importantes no território
baiano.
Quando se rememora genocídio
praticado contra a comunidade inaugurada pelo Peregrino de Quixeramobim, eis que
Edivaldo Boaventura reúne papéis de sua caderneta de campo, fotos, reminiscências
e emoções e tudo transforma em publicação que, sem dúvida, será
inestimavelmente valiosa para conhecimento um pouco mais da amplitude que teve
fenômeno que se desenrolou nos sertões baianos, tragédia que continua
ensanguentando corações que sobre ela se debruçam.
No
Parque, sítio num vasto anfiteatro, está sepultado, à espera dos arqueólogos,
material em abundância para contar mais das diligências que ali chegaram com
suas máquinas de matar e destruir. O observador poderá conhecer o Vale da
Morte (onde militares sepultavam seus mortos), o Vale da Degola (onde chefes
expedicionários mandavam cortar pescoços de jagunços), e o Alto do Maio (ou
do Maia, ou do Mário), onde morreu o coronel Antônio Moreira César
(1850-1897), comandante da terceira expedição.
Enfim, a obra de Edivaldo
Boaventura vem oferecer ao pesquisador mais elementos para sua cogitações, do
mesmo modo que o Parque oferece mais conforto e diretriz para a observação
local. Em particular para a reflexão.
Agosto/1997
Apresentação

João de Régis no cemitério da
segunda Canudos (Foto de Antenor Júnior)
Belo
Monte, arraial da Fazenda da Fazenda Canudos instalado às margens do rio Vaza
Barris num inóspito pedaço do sertão da Bahia, caatinga da gema, "fim do
mundo", como insinuou o peruano Mário Vargas Llosa. Tinha tudo para ser
mais uma página esquecida da história do Brasil. Passaram-se quase 50 anos de
silêncio, mesmo depois de "Os Sertões".
Até que chegou Odorico Tavares e escreveu "Canudos,
50 anos depois". E, enfim, os "jagunços" começaram a ser
gente.
Dizem
que o resgate histórico de Canudos, na vastidão da sua dimensão trágica e
sociológica exigirá, no mínimo mais 50 anos de pesquisa. Tem a ver. É a
corrida "atrás do prejuízo". Afinal, a guerra que dizimou mais de 20
mil pessoas hoje seduz uma legião de acadêmicos e leigos, já produziu mais de
oito mil títulos entre artigos, reportagens, livros, obras de arte, filmes e
mostras fotográficas. Mas dela ainda há muito para se saber.
A
morte de Pajeú, só para citar um exemplo, tem seis versões diferentes. E o
velho mestre José Calasans, a quem mais a história fica devendo por tudo que já
se fez com o propósito de repor as coisas nos seus devidos lugares, lamenta até
hoje ter perdido a oportunidade de ter sido um entrevistador mais acurado, para
aprofundar com os sobreviventes da guerra, mesmo meio século depois, como era a
vida no Belo Monte antes da guerra, a parte que menos se sabe.
O sino da Igreja que Antônio
Conselheiro construiu está no Museu Nacional do Rio de Janeiro. A chave, no
Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A cruz, sob a guarda do Memorial
Popular de Canudos. A espada de Moreira César na mão de uma pessoa em Feira de
Santana. As balas, espalhadas nas mãos dos moradores do lugar. Trabucos e
espadas no Museu Manuel Travessa. A "matadeira" na praça de Monte
Santo. O palco da guerra, o lugar em que ficava Belo Monte, sob as águas do açude
de Cocorobó.
Que
se gaste os próximos 50 anos na busca do resgate. Chegará um dia em que alguém
vai dar um jeito de isolar Belo Monte de Cocorobó para permitir que os arqueólogos
escarafunchem o chão que foi o núcleo da tragédia. É só o que está
faltando. Não se diz que o açude foi construído com o propósito deliberado
de sepultar a história - embora o fato seja muito questionado - mas sepultou
boa parte.
O
resgate de Canudos virou ponto de honra para a legião de estudiosos da questão
e, mesmo 100 anos depois, ou quase isso, as vozes oficiais começaram a
desabrochar nesse tom. O ministro da Cultura, Francisco Weffort, já admite se
discutir uma revisão histórica de Canudos. A Secretaria de Cultura da Bahia
planeja desenvolver o turismo na área. É aí que a iniciativa do professor
Edivaldo Boaventura, ao criar o Parque Estadual de Canudos (PEC), quando era
Secretário da Educação da Bahia, através do Decreto 33.333, de 30 de junho
de 86, emerge como uma contribuição significa.
Além
da preservação dos principais cenários da guerra, locais em que foram
travados os mais encarniçados combates, a intenção é preservar o meio
ambiente tal e qual ele era 100 anos atrás. É possível e necessário. Possível
porque os esforços do Centro de Estudos Euclides da Cunha (CEEC), o apêndice
da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que administra os investimentos da
Secretaria do Planejamento no PEC têm uma preocupação nuclear neste sentido,
envolvendo também a população inativa. É uma questão de querer e se quer.
Necessário porque o asfalto está chegando a Canudos e a caatinga, o solo
pedregoso, a aridez do clima, um sistema ecossistema que por si já fragiliza a
sobrevivência da fauna, precisa ser mantido como sempre foi, até pela
elementar razão de quem pretende entender Canudos não pode desprezar um
detalhe que teve a maior importância no desenrolar dos acontecimentos militares
e sociais, o cenário, a paisagem.
Há
quem diga que Conselheiro, já sofrendo perseguições oficiais, escolheu Belo
Monte para se instalar em 1893 justamente porque o lugar é inóspito. Talvez
tenha sido. Quem vê o Parque Estadual de Canudos de perto e sabe que ali houve
uma guerra, entende melhor a situação. E fica pasmado ao pensar que algum dia
espalharam pelo Brasil que uma multidão de excluídos encastelada naquele fim
de mundo seria capaz de derrubar a República para reinstalar o Império.
Só
quem não conhecia Canudos, e sequer o Exército da época, que foi lá
combater, imaginava como era de fato o ambiente, poderia acreditar numa coisa
dessas. É justamente nesse aspecto que está o legado maior de Canudos.
Introdução

Açude
de Cocorobó (Foto de Agnaldo Novais)
Sob
a inspiração do poeta maior, Castro Alves, a Bahia criou o seu primeiro parque
estadual em Cabaceiras do Paraguaçu. Em 1986, foi a vez da declaração do sítio
de Canudos, recriado em parque. Além da importância ecológica, há de se
reconhecer o interesse pedagógico, na educação ambiental. Da competência
estadual é o sítio histórico onde nasceu Cecéu.
Foi
com imenso prazer que voltei a me ocupar dessa obra, realizada quando ocupei a
Secretaria de Educação e Cultura da Bahia, pela primeira vez. Valiosa sugestão
do grande Pedro Calmon, que o governador Luiz Viana Filho acolheu e decidiu
concretizar ainda no seu governo. Na minha hegeliana volta, o Parque Histórico
Castro Alves foi reformado, ajardinado e ampliado com a edificação de escola
fundamental completa, casa do administrador, Auditório Pedro Calmon e outras
benfeitorias. Quando se realizou a XVI Romaria Cívica Religiosa ao Parque,
presidida por Jorge Calmon, em 14 de março de 1987, comemorativa dos 140 anos
de nascimento do poeta, era bem diferente daquele que encontrei em 1983.
Deus
louvado me permitiu e, enquanto reformava o Parque de Cabaceiras, fui me
municiando para criar o de Canudos, à base dos elementos que Renato Ferraz e o
pessoal da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) iam reunindo. Em 1986, o
governador João Durval Carneiro decretou a sua criação, integrando
importantes áreas de terras onde se deu a guerra fratricida. Primeiramente, o
governo fez a reserva de terras devolutas pelo Decreto nº 33.193, de 27 de maio
de 1986, e depois pelo Decreto nº 33.333, de 30 de junho, instituiu o Parque
Estadual de Canudos, autorizando a Secretaria de Educação e Cultura, por
intermédio da Universidade do Estado da Bahia, a adotar as providências necessárias
à sua construção.
Outros
foram os procedimentos com referência à Chapada Diamantina. Antes mesmo de
assumir a Secretaria, tomei conhecimento do trabalho de Roy Funch, "Chapada
Diamantina: uma Reserva Natural", do seu idealismo para que se
reservasse um segmento da Chapada. Não somente o apoiei, como também
dirigi-me, como secretário do Estado, às autoridades federais competentes.
Assim, foi importante para a Bahia o decreto do presidente da República, de 17
de setembro de 1985, que criou o Parque da Chapada Diamantina. Tanto em Canudos
como na Chapada Diamantina, foi decisiva a colaboração do secretário da
Agricultura Fernando Cincurá de Andrade.
A
Bahia conta, com o Parque Nacional de Monte Pascoal, da Chapada Diamantina e
marinho de Abrolhos, que é o primeiro Parque Nacional Marinho do Brasil, criado
em 1983. Abrolhos é objeto do trabalho de Carlos Secchin e Zenilda Margarida Leão
- "Abrolhos, Parque Nacional
Marinho". Os três parques nacionais e a reserva biológica da Una, que
protege o mico-leão-de-cara-dourada, estão sob a jurisdição do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).
A definição de Parque
A
tendência espacial dos parques deve ter a devida continuidade, também na
Bahia, que na multiplicidade de suas regiões e de suas culturas, além de um
constante convite à criação de museus, detém um vocacionado espaço a ser
preservado em parques, como a lagoa e dunas de Abaeté, as escarpas de Porto
Seguro, o sítio do Descobrimento e o próprio Recôncavo.
Sem esquecer as praias e as dunas
andantes de Mangue Seco, as inúmeras grutas, as elevações solitárias, como a
de Bom Jesus da Lapa, a natureza luxuriante de Morro do Chapéu e as bordas,
alvas e lunares, do sagrado Paraguaçu, a criação de parques tem como
objetivos, tal como se estabelecem para o Parque Estadual de Campos do Jordão:
"Os objetivos fundamentais de um parque são proteger e preservar
unidades dos sistemas complexos de valores naturais ou culturais, proteger
recursos genéticos, oferecer recreação pública e servir para atividades de
investigação científica e de educação ambiental."
A
experiência internacional demonstra que a conservação da natureza efetiva-se
com parques, a exemplo de Yellowstone; de igual modo, as áreas de interesse
histórico-militar são preservadas como o estatuto público de proteção física,
cultural e ambiental.
Cenários Históricos de Campos de Batalha
Quando
da comemoração dos vinte anos do término da guerra, visitei, em 1965, a praia
do desembarque, na Normandia, França. Percorri a costa dividida em cinco partes
pela operação Overlod: Utah e Omaha Beaches, destinadas ao Primeiro Exército
Americano; Gold Beach, prevista para a 50ª Divisão de Infantaria Britânica; e
Juno e Sword Beaches, cometidas, respectivamente, à Terceira Divisão da
Infantaria Canadense e à Terceira Divisão de Infantaria Britânica.
A
cavalaria de praia, as cruzes brancas do cemitério militar contrastavam com o
verde suave do gramado. Mais para trás, na parte mais elevada, restavam alguns bunkers,
construídos pelos alemães para o inexpugnável muro do Atlântico. A brisa do
verão trazia as lembranças bélicas daquele teatro de operações e recordava
as chegadas sucessivas das tropas aliadas que atravessaram o canal da Mancha
para libertar a França, a Europa, o Mundo beligerante da Guerra Plurinacional
de 1939 a 1945. Detive-me, então, em Arromanches. Olhando para o mar, pude
observar o esforço gigantesco para a construção da enseada artificial pelos
ingleses. Enseada e porto que possibilitaram o abastecimento de suprimentos e
munições. Em Arromanches, ainda, bem à borda da praia histórica, um pequeno
museu militar reproduzia, didaticamente, o desembarque do dia "D", 6
de junho de 1944. A saga do desembarque estava bem representada. Certamente,
fora um dos mais longos dias da história.
Para
assinala aquele momento de profunda emoção, adquiri o livro de Cornelius Ryan,
"Le jour plus long" (1960)
que Darryl Zanuck transportou para o cinema. A obra é epigrafada com a sentença
profética do Marechal Rommel ao seu ajudante de campo: "Creia-me Lang, as
primeiras vinte e quatro horas da invasão serão decisivas... A sorte da
Alemanha depende delas... Para Aliados, como para nós, será um longo
dia."
Como
em Arromanches, Waterloo, na parte central da Bélgica, bem perto de Bruxelas,
é outro campo de batalha preservado que concretiza a última ação dos exércitos
napoleônicos. Em Waterloo, diferentemente de Arromanches, todas as partes
beligerantes estão presentes em bronze e mármore. O monumento ao soldado francês
ressalta-lhe o heroísmo naquele 18 de junho de 1815, para mim, marco decisivo
da hegemonia anglo-saxônica sobre a latina. Trafalgar e Waterloo fixaram o domínio
britânico nos mares e no comércio.
Com
a recordação também do parque nacional militar de Gettysburg, na Pennsylvânia,
aproximo-me mais ainda de Canudos e do seu decretado parque. Recolhi uma
extraordinária lição de histórica civil e militar em Gettysburg pelo
conhecimento das manobras que decidiram a Guerra Civil americana. A bem da
verdade, recebi dupla lição de história, como de política, pelo Gettysburg
Adress, de Abraham Lincoln, lá pronunciado. Gettysburg me tocou mais de
perto por ter culminado uma guerra, como a de Canudos, fratricida.
Juntam-se,
também aqui, aos objetivos de preservação ecológica, os cenários histórico
de campo de batalha, que é como antevejo o Parque de Canudos. Criado para
preservar o sítio bélico e fixar um dos acontecimentos mais significativos da
História do Brasil. De fato, Canudos mexe com os sentimentos religiosos, pelo
messianismo do Conselheiro. Canudos interessa às Forças Armadas, especialmente
ao Exército e às polícias militares. Canudos exemplifica o intrincado
relacionamento entre forças políticas estaduais e federais. Canudos
encontra-se no eixo das encruzilhadas das nossas questões regionais e
nacionais. Canudos está no coração seco e sertanejo do Nordeste.
Nessa
problemática, o aspecto acadêmico deve ser logo suscitado. Canudos
converteu-se em núcleo central de pesquisa universitária. E mais. Ao lado da
investigação histórica, portanto, cultural, há outras indagações ditadas
pela natureza. Variáveis culturais e ecológicas militam a favor do Parque de
Canudos. O caminho a seguir, nesta exposição, é o da trajetória da sua criação
com vistas à definição dos seus objetivos como unidade de conservação.
1. PARQUES NACIONAIS E RESERVAS ECOLÓGICAS
1.1 Introdução
Em
resposta à questão "O que é um
Parque Nacional?", Roy Funch (1982) explanou em Simpósio sobre a
Preservação do Patrimônio Natural da Chapada Diamantina:
"Um Parque Nacional é uma área relativamente grande de território
nacional escolhida por alto valor paisagístico e por sua abundante riqueza de
animais e plantas silvestres.
Nesta área, todos os animais, plantas e recursos hídricos e minerais são
completamente protegidos pelo Governo Federal. Não é permitido caçar, coletar
plantas, provocar incêndios ou depredar os recursos naturais dentro dos limites
do Parque.
Porém, um Parque Nacional não é simplesmente uma área demarcada.
Claro que um Parque Nacional é sempre em primeiro, uma área onde a natureza
manda, domina, e fica protegida da exploração predatória. Mas, é também um
espaço onde o público é sempre bem vindo para visitar e curtir.
Normalmente os Parques
Nacionais têm áreas de proteção integral, são área de ecologia frágil, ou
em recuperação, ou áreas com animais raros cuja reprodução pode ser
prejudicada pela presença do homem. Nessas áreas, a visitação é proibida
mas em geral nos Parques são permitidos passeios, acompanhamentos e todo tipo
de turismo. Um Parque é para o povo visitar, uma espécie de museu ao
vivo."
Como
justificativa para a criação de um Parque Nacional, acrescenta Funch (1982):
"É importante lembrar que, embora o Brasil seja um país muito
grade (5º no mundo em área territorial), está em fase de desenvolvimento econômico
e industrial. Nessa marcha de progresso técnico, torna-se importante preservar
uma parte da outrora abundante riqueza natural. São reservatórios naturais de
recursos genéticos únicos de plantas e animais. Com os grandes avanços nas ciências
da engenharia genética da utilização de recursos naturais renováveis, um
grande país tropical como o Brasil tem uma enorme vantagem sobre os países de
clima temperado, devido a deslumbrante quantidade de plantas e animais
silvestres encontrados no nosso clima. Mas esses recursos potenciais têm que
ser preservados agora, pois este patrimônio genético único, uma vez
perseguido até a extinção, perde-se para sempre. A humanidade deve agir
agora, para tirar áreas naturais do ciclo da crescente exploração, para que não
percam recursos insubstituíveis, um patrimônio que nossos filhos e netos
desfrutarão, e irão nos agradecer por ter preservado."
Explicitam-se
no pronunciamento desse autor os conteúdos dos objetivos e finalidades que
justificam a criação e o manejo de parques, conforme se reitera.
1.2 Definição de Objetivos
Os
objetivos fundamentais previstos no regulamento geral de manejo de parques são:
proteger e preservar unidades importantes ou sistemas completos de valores
naturais ou culturais; proteger recursos genéticos; desenvolver a educação pública;
fornecer oportunidades para a recreação; propiciar atividades de investigação
e outras afins de índole científica e, acrescento, desenvolver o espírito cívico
e educativo. Ressaltem-se, entre outras, as atividades de investigação científica
e educação ambiental, esta voltada para o reconhecimento e a classificação
de valores, atitudes e conceitos concernentes aos relacionamentos do homem com o
seu meio ambiente cultural e biológico, conforme a compreensão de Carter V.
Good (1973, 214).
Como
reconheceram Maria Tereza Jorge Pádua e Adelmar F. Coimbra Filho (1979), são
poucas as categorias de manejo de unidades de conservação: parques nacionais e
reservas biológicas. Há necessidade de novos tipos com outros objetivos além
destes dois. Os autores de "Os
Parques Nacionais do Brasil" sugerem: monumentos nacionais, santuários
de vida silvestre, rodovias-parques, rios cênicos e reservas de fauna.
A
diversidade dos parques é bem mais numerosa, devendo incluir especificamente
quanto ao segmento militar, parques militares, parques-campos de batalha ou
campos e sítios de batalha. A classificação ficará mais rica pela inclusão
de sítios históricos, parques históricos, como o Parque Histórico Castro
Alves, no vale do Paraguaçu; o de Osório, no Rio Grande do Sul; o de
Guararapes, no Recife, e o parque na serra de Barriga, em Alagoas; e também
memoriais, parques-memoriais, áreas de recreação, margens de lagos e de rios,
praias, estradas, caminhos cênicos, rios nacionais, reservas científicas,
caminhos fluviais e outros, conforme a enumeração da "New
Columbia Enciclopedia" (1975, 1886-1894).
Pádua
e Coimbra Filho observaram que parques e reservas plotadas concentravam-se na
região sudeste do País. Enquanto o Estado do Rio de Janeiro possuía quatro
parques nacionais - Tijuca, Itatiaia, Serra dos Órgãos e Bocaina - o Estado do
Amazonas, o mais extenso do País, detinha apenas o Parque Nacional do Pico da
Neblina. Na relação apresentada, a preservação visava apenas recursos
naturais, como flora, fauna e paisagem. Não encontrei menção à proteção de
caráter histórico-cultural na enumeração dos parques nacionais. Há carência
de informações sistemáticas sobre o número e tipo de parques históricos e
de categorias culturais.
Informações
mais recentes aumentaram bastante o número de parques e diversificaram um pouco
mais as unidades de conservação. O país possuía, em 1992, 34 parques
nacionais, 38 florestas nacionais, 15 áreas de proteção ambiental e quatro
reservas extrativas, além de seis reservas ecológicas que somam cerca de 38
milhões de hectares ("A Tarde",
17 de maio de 1992). E Álvaro de Oliveira d'Antona (1994), em viagem filosófica
pelos brasis afora, informa, comunica, descreve e vivencia dezenove parques
nacionais não incluindo os do Pantanal e da Amazônia.
Tudo
leva a crer que a criação de parques começou pelos naturais, "para benefício
e gozo do povo", partindo, a
posteriori, para as áreas de interesse histórico e cultural. O primeiro a
ser construído em grandes dimensões foi o Parque Nacional de Yellowstone,
Estado de Wyoming, nos Estado Unidos da América, que mede 8.873km2, atingindo,
em 1872, terras de Montana e Idaho. Enquanto isso, o primeiro parque nacional
criado no Brasil foi o de Itatiaia, em 1937, com 12.000 ha. Até
1994, existiam em nosso país, sem incluir os parques de Tapajós, Pico
da Neblina, na região amazônica, trinta e quatro parques nacionais. D'Antona
(1994,5) usa como definição de parques nacionais:
"São áreas delimitadas com a finalidade de preservar os atributos
excepcionais da natureza, conciliando a proteção integral da flora e fauna e
das belezas naturais, com a utilização para fins educacionais, recreativos ou
científicos, sendo nelas proibida qualquer forma de exploração de recursos
naturais."
A
conservação da natureza se fará com parque. Essa é a experiência
internacional, como Yellowstone e o Great Basin, um parque diferente (Diálogo: 1989). Acredito ser a preservação uma função tanto dos
organismos encarregados da educação, cultura, turismo, agricultura,
planejamento como da comunidade.
Na
evolução da criação dos parques naturais, a experiência norte-americana de
proteção a sítios especiais data de fins do século passado. À lei sobre
antigüidades, assinada em 1906, juntaram-se outros atos do Congresso americano,
permitindo a formação de um sistema nacional de parques que hoje abrange mais
de trezentas áreas de interesse paisagístico, histórico, recreativo e
cultural.
A
classificação dos parques nacionais nos Estados Unidos da América do Norte
registrada na "New Columbia Enciclopédia"
(1975, 1885-94) foi acrescida, ainda, de parques e reservas científicas e
do parque da capital nacional do país, onde está edificada a Casa Branca.
Registro especial merece o Roosevelt-Campobello, por se tratar do primeiro
parque internacional. Localizado na Ilha de Campobello, onde se ergue a casa de
verão de Franklin Delano Roosevelt, administrado conjuntamente pelos governos
norte-americano e canadense.
1.3 Viajando pelos Parques Nacionais
Do
norte, da ilha de Marajó, ao sul, a cidade do Chuí, D'Antona (1994) descreveu
os nossos desolados e persistentes parques, pertencentes ao IBAMA, em diferentes
lugares e em situações as mais diversas.
Ressalta-se
a contribuição do relato que acrescente um bloco de informações e de conclusões
sobre os parques. A ausência de bibliografia é enriquecida vivamente com
informes colhidos pelo próprio viajante. Quem quiser conhecer os nossos parques
nacionais dispõe de um roteiro, guia e manual informativo não só sobre os
parques, mas também acerca das condições de acesso, hospedagens e instalações.
Além da leitura agradável, o livro é de suma utilidade como referencial.
O
roteiro foi cumprido de 5 de abril a 10 de novembro de 1993. Foram visitados
dezenove parques nacionais em um total de 24.650 quilômetros. Iniciou pelos
parques nacionais (PARNA), Minas Gerais: Serra da Canastra, onde nasce o rio São
Francisco, seguido do parque da Serra do Cipó, não muito longe de Belo
Horizonte, e o do Caparaó com o Pico da Bandeira, o ex-ponto mais elevado do
Brasil. De Minas penetra nos parques nacionais da Bahia: marinho de Abrolhos e
Monte Pascoal, na costa sul, e o da Chapada Diamantina, no centro da Bahia, com
todas as suas bromélias e orquídeas. Chega ao Parque de Fernando Noronha, com
o mar de dentro e mar de fora, que abriga os projetos Golfinho, Acqua-Life,
Ecologia. Passa ao Ceará com o Parque de Ubajara e entra pelas Sete Cidades, no
Piauí, para alcançar os Lençóis Maranhenses. Adverte: "Lençóis é um
deserto tipicamente brasileiro: um deserto molhado, litorâneo, repleto de dunas
e lagoas" (p. 200). Região importante na caminhada da modernidade do
autor-economista para a atualidade do antropólogo. Acrescenta-se que o método
da observação vivendo situações e assumindo posições já eram bem de um
etnólogo.
Já
no norte excluiu os parques da Amazônia e marchou para os parques do Brasil
Central: Araguaia, Chapada dos Veadeiros com os seus lampejos extraterrestres,
Brasília, desconhecido e dentro da capital federal, Emas e Chapada dos Guimarães,
este no Mato Grosso.
Na última etapa, ocupou-se dos
parques do Sudeste e Sul, como Serra da Bocaina, entre os Estados do Rio de
Janeiro e São Paulo; Itatiaia, o mais antigo, declarado em 1937; São Joaquim,
em Santa Catarina; Aparados da Serra e Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul.
Uma
viagem realmente filosófica, como a realizada por Alexandre Rodrigues Ferreira,
instrutiva e construtiva pelo que conseguiu reproduzir, documentar e escrever.
É certamente a fonte de informações mais abundantes sobre os nossos parques
nacionais. É preciso, sob a inspiração do livro de d'Antona, conhecer e
documentar as reservas ecológicas, os parques estaduais, a exemplo do de Castro
Alves e Canudos, e municipais, como o da Matinha, em Itapetinga, todos na Bahia.

Serra
do Angico (Canudos-BA) - (Foto de Antenor Júnior)
2 O PARQUE DE CANUDOS
2.1 Introdução
A
criação do Parque Estadual de Canudos integra-se no longo processo de absorção
da Guerra de Canudos pela sociedade brasileira. Inúmeros foram os antecedentes
e expedientes. Amplia-se a importância de Canudos. Era preciso começar a
preservação do sítio bélico.
Já
na época em que edifiquei o Parque Histórico Castro Alves, em 1971, bem assim,
quando defendi junto às autoridades federais a delimitação do Parque da
Chapada Diamantina, que tinha em mente preservar os campos das lutas de Antônio
Conselheiro, na região de semi-árido baiano (Boaventura, 1986).
Considere-se,
em primeiríssimo lugar, a copiosa literatura, liderada e iluminada pela obra do
genial Euclides da Cunha. Muito a propósito, Oswaldo Galloti ponderou que o
segredo de Euclides consistiu em buscar a síntese entre a linguagem científica
e a linguagem literária. Outro aspecto que este euclidianista sublinhou foi a
baianidade de Euclides. Filho de pai baiano, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha,
do tronco dos Pimenta da Cunha, escreveu com calor e entusiasmo, dando expressão
maior à guerra. No relacionamento autor e obra, existe o fato da campanha, com
todas as suas adversidades e expedições, mas há a versão do escritor, com
seu portentoso estilo. E é o estilo que pinta o que fica. A grande força da
expressão grandiloqüente de Euclides imortalizou a saga de Canudos. Tomo em
consideração Canudos, o fenômeno, e Euclides, a expressão, e coloco a
seguinte pergunta: e se não fosse Euclides da Cunha, o que teria sido de
Canudos?
Além
de "Os Sertões", que se encontra no começo de tudo que diz respeito
a Canudos, leve-se em consideração o abandono e a depredação das áreas contíguas
à represa do Cocorobó, que sepultou a vila messiânica. Fora da área
reservada por decreto estadual, há lugares altamente significativos, que
integram o patrimônio cultural de Canudos. A sepultura do heróico coronel
Tamarindo encontra-se, por exemplo, na serra do Angico. Objetos de dimensões e
valor histórico estão dispersos. É o caso do canhão Withworth 32, mais
conhecido como a matadeira, do
cruzeiro da submersa vila de Canudos e da escultura Antônio Conselheiro, de Mário
Cravo Júnior.
Além
de livros, terras e materiais de guerra, farta e não explorada documentação
guardam os arquivos militares da Bahia, Rio de Janeiro, Pará, São Paulo e
Amazonas, especialmente das polícias militares que tomaram parte nos combates.
Tudo isso levei em conta para o projeto do parque, que alcança aspectos outros
- arqueológicos, ecológicos e agronômicos - como unidade de conservação.
Ruínas
da igreja da segunda Canudos que ressurgiram com a seca em 1996 (Foto de Antenor
Júnior)
2.2 Criação e Reserva de Terras para Implantação do Parque
Uma
das medidas necessárias para a implantação do parque foi a declaração de
reserva das terras devolutas. Para tanto, o Instituto de Terras da Bahia
(Interba) procedeu aos levantamentos viabilizadores das glebas, pertencentes ao
próprio Estado. Assim, pelo Decreto nº 33.193, de 27 de maio de 1986:
"Fica declarada reservada (...) a área de terras devolutas medindo,
aproximadamente, 1.321 (um mil, trezentos e vinte e um) hectares, situada no
município de Canudos, neste Estado, e descrita no memorial".
Já
pelo Decreto 33.333, de 30 de junho de 1986, efetiva-se o projeto sobre Canudos,
com a emenda: "Cria o Parque Estadual de Canudos, no município de Canudos
- Estado da Bahia e dá outras providências".
A
finalidade da reserva é para a implantação do parque histórico e arqueológico,
promoção de pesquisas e estudos de tal natureza, em favor da Universidade do
Estado da Bahia (Uneb). Posteriormente, o Decreto nº 2.650, de 8 de agosto de
1986, dispõe também sobre a mesma matéria.
Em
1986, quando da criação do Parque, publique dois artigos - "O Projeto
Canudos" e "Educação em Canudos", transcritos a seguir.
Pedro
Santos em uma trincheira da Guerra de Canudos (Foto de Antônio Olavo)
2.3 O Projeto Canudos
(Edivaldo Boaventura, "A
Tarde", 11 de setembro de 1986)
"Dia a dia avulta a importância
histórica da Guerra de Canudos, o que nos levou a dar atenção especial ao seu
sítio histórico. Já na época em que criamos o Parque Histórico Castro
Alves, em 1971, e depois quando o reformamos, bem assim, quando influímos junto
às autoridades federais para a delimitação do Parque da Chapada Diamantina,
segundo o projeto Roy Funch, tínhamos em mente o Parque de Canudos.
Renato
Ferraz, que tanto colaborou na organização do primeiro parque, em 1970 e 1971,
trouxe-nos uma sugestão concreta para a criação do Parque de Canudos, em começos
de 1985. Considerava o estudioso, em primeiro lugar, a copiosa bibliografia
sobre a Guerra de Canudos, liderada pela obra genial de Euclides da Cunha,
"Os Sertões"; em segundo, o abandono e a depredação das áreas contíguas
ao Açude Cocorobó, bem assim o saque de restos materiais da guerra, como
documentos e outros; em terceiro, alguns objetos de dimensões monumentais como
o famoso canhão Withworth 32, conhecido como matadeira,
o Cruzeiro da antiga Vila de Canudos e a escultura de Mário Cravo "Antônio
Conselheiro"; em quarto, a instalação do Memorial de Canudos, no município
de Euclides da Cunha; em quinto, a existência de farta documentação na Bahia
e fora dela, como na Biblioteca do Exército e na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de
Janeiro; também o Grêmio Euclides da Cunha, em São Paulo e, finalmente, a
colaboração de especialistas como o professor José Calasans Brandão da
Silva, o diretor do Instituto de Patrimônio Cultural e Artístico da Bahia (IPAC)
e os dirigentes militares da região. Todas essas ponderações conduziram ao
Projeto Canudos.
Desde
a sua formulação, vinculamos o Projeto à Universidade do Estado da Bahia (Uneb),
sobretudo agora que foi autorizada pelo governo federal. A Uneb é expressiva
presença na região, especialmente em juazeiro, onde conta com duas unidades
universitárias, assim como em Paulo Afonso, onde um núcleo inicial se resolveu
em Centro de Educação Superior. Também está presente em Euclides da Cunha,
contando, desde o início, com a colaboração do prefeito Renato Campos,
incentivador do Memorial de Canudos. A presença da Uneb ainda se faz sentir em
Ribeira do Pombal, sede de vários organismos estaduais, como a Superintendência
Regional de Educação e Cultura, SUREC, não se omitindo, evidentemente,
Alagoinhas, onde funciona mais do que uma Faculdade de Formação de Professores
já há bastante tempo, e um Campus da Uneb que está sendo planejado. Nada mais
legítimo, pois, que o Projeto do Parque de Canudos se vinculasse à Uneb que,
para tanto, conta com o Centro de Estudos Euclides da Cunha, o CEEC.
Ainda
em 1985, a UNEB começou a elaboração do projeto para a criação do parque
arqueológico, histórico e natural no local exato onde ocorreu o último
confronto entre forças do Exército e Policiais Militares de diversos estados
da federação e partidários de Antônio Conselheiro.
Trata-se
de uma área de 1.321 hectares, situada no recém criado município de Canudos,
confrontando-se ao norte com os terrenos da Universidade Federal da Bahia-Centro
de Pesquisas e Tratamento de Água; ao sul, com o riacho das Umburanas; ao
leste, com a estrada Bendegó-Canudos; e ao oeste, com o açude de Cocorobó. É
o local preciso onde relevantes eventos da história brasileira aconteceram e
encontrava repleto de evidências arqueológicas, que a Uneb, como organismo de
conscientização cultural da área, está resgatando e conservando para a
preservação da memória histórica nacional.
Com
base nos dados levantados pelos técnicos da Uneb, tendo à frente seu reitor,
professor José Edelzuito Soares, e o assessor Renato Ferraz, o governador João
Durval Carneiro, por sugestão nossa, encaminhou a Exposição de Motivos ao
secretário da Agricultura Dr. Fernando Cincurá de Andrade, para que o Interba,
Instituto de Terras da Bahia, procedesse aos estudos viabilizadores para a
declaração de reserva da área de terras acima referida, conforme a legislação
estadual, considerando que as terras pertencem ao próprio estado da Bahia,
conforme a Lei nº 3.038/1972.
A
colaboração da Secretaria da Agricultura não se fez tardar. E o Decreto nº
33.193, de 27 de maio de 1986 declarou: "reservada a área de terras
devolutas que indica, para fins de implantação de Parque Histórico e Arqueológico"
(Diário Oficial de 28 de maio de 1986) em favor da Universidade do Estado da
Bahia - Uneb, observando-se os limites definidos no memorial descritivo no anexo
desse Decreto. O mesmo Decreto determina que o Interba e a Procuradoria Geral do
Estado deverão se articular para a execução das providências. Em tempo, o
Decreto foi republicado em 26 e 29 de junho de 1986, fazendo menção expressa
ao Parque de Canudos.
Concluiu-se,
deste modo, a primeira etapa das ações, que visava assegurar a posse do sítio
histórico para a implantação do Parque Histórico e Arqueológico e para a
promoção de pesquisas e estudos relacionados. Logo após, em 1º de julho
deste ano, seria criado o Parque Estadual de Canudos por decreto do governo João
Durval Carneiro.
2.4 Educação em Canudos
(Edivaldo Boaventura, "A
Tarde", 25 de setembro de 1986)

Canudos-BA
(Foto de Antônio Olavo)
A
criação do Parque de Canudos pelo decreto nº 33.333, de 30 de junho deste
ano, publicado no Diário Oficial de 1º de julho, coincide com a implantação
da administração do recém-criado município de Canudos, tendo à frente o
prefeito Manoel Adriano Filho.
O
projeto do Parque, a cargo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) conta com o
apoio da comunidade local, que participa da sua implantação. Deste modo, a
administração estadual, de um lado, e a administração local, do outro, estão
trabalhando com o mesmo objetivo e a Secretaria de Educação tem apoiado o
município para que desenvolva plenamente a educação. Uma das funções do
Parque será a educativa. Além das escolas que estão sendo construídas na
sede do município é preciso que se instale uma no Parque, assegurando condições
permanentes de funcionamento ao Projeto. Como todo município novo, Canudos
precisa de uma atenção especial por parte do Estado, o que já vem ocorrendo,
através de convênio que permite dotá-lo de escolas, devendo o prefeito Manoel
Adriano Filho construir em 86/87 pelo menos doze salas de aula. Da mesma forma
está edificado o Órgão Municipal de Educação (OME) pelo Edurural e Canudos
terá a sua Secretaria Municipal de Educação antes do prédio da Prefeitura. O
trabalho do município, no setor de educação, vem sendo liderado pela
professora Ana Maria Ferreira, licenciada em educação física e assistência
social. O Departamento de Educação Continuada da Secretaria Estadual começará
dentro em pouco a implantação do Núcleo de Educação de Adultos (NEA) e o
programa LOGOS será iniciado para atender as sessenta professoras leigas da área
rural de Canudos. Tudo isso em perfeito entrosamento com as autoridades
encarregadas do Projeto do Parque.
A
recente visita de inspeção que já fizemos quando do encerramento da Ação
Comunitária e da Ação Documento, juntamente com outras secretarias e com a
significativa participação da VI Região Militar, serviu para examinar a situação
educacional de perto e planejarmos as próximas etapas. Para Renato Ferraz,
coordenador do Projeto Canudos, a população escolarizável justifica uma
escola nas proximidades do Parque. Para efetivá-la, convênio já foi assinado
na prefeitura com a Secretaria de Educação, no dia 19 deste. A escola será a
primeira construção no Parque, assim como a atividade educacional deverá ser
a primeira de caráter permanente instalada e a funcionar no início de 1987.
Enquanto na esfera local se desenvolvem os projetos de apoio à população, na
Uneb, particularmente no Centro de Estudos Euclides da Cunha (CEEC), a
professora Iara Ataíde encaminha as pesquisas e projetos em três linhas.
Primeiramente, trata de reunir a documentação escrita, oral e audiovisual de
Canudos, para resgate de memória histórica. Em segundo lugar, elabora projetos
sócio-econômicos com aplicação e a participação da comunidade. Estudos estão
sendo planejados para solos, caprinocultura, botânica, fauna e flora, com
vistas à preservação de espécies em extinção. Em terceiro e último lugar,
trabalhos estão sendo realizados para salvaguarda dos sítios históricos,
dedicando-se especial atenção ao turismo cultural planejado, com o auxílio de
arqueólogos, como o professor Paulo Zanettini, e antropólogos físicos, como
Heloísa Kuser, que já trabalha na área, e João César Cabral. No Campus de
Narandiba, a Uneb treina uma equipe de estagiários. Dessa forma, os estudos
preliminares vão em três sentidos: documentação, economia e história.
O
próximo seminário sobre o Parque de Canudos a ser realizado, parte em
Salvador, e parte em Canudos, espera contar com a participação de outros
organismos estaduais, notadamente a Secretaria de Agricultura e o Interba,
Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social, Secretaria da Indústria, Comércio e
Turismo e a Emtur. Além das repartições federais que já tradicionalmente
trabalham na área, como o DNOCS e a Universidade Federal da Bahia, também a
SUDENE deverá ser convidada.
A
administração municipal de Manoel Adriano Filho, em Canudos, e a administração
estadual em Salvador, liderada pela Uneb, se movimentam no mesmo sentido para
instalar em pleno Nordeste da Bahia um Parque ecológico histórico e cultural
sob a inspiração de Euclides da Cunha.
Digna de menção é a coincidência
de publicação recente de novos livros sobre Canudos/Euclides da Cunha. Além
dos estudos do mestre José Calasans Brandão da Silva, de Umberto Peregrino, de
José Aras e de muitos outros, como a clássica obra de Henrique Duque-Estrada
de Macedo Soares, "A Guerra de
Canudos", a Editora Brasiliense publicou a edição crítica de "Os
Sertões", por Walnice
Nogueira Galvão, em fins de 1985, e a Fundação Casa de Rui Barbosa, como o
apoio do grupo Monteiro Aranha S.A., editou "Canudos,
Subsídios para sua Reavaliação Histórica", em 1986. Pode-se prever,
pela documentação recolhida pela Uneb, que é bem provável que novos estudos
com novas descobertas sairão das informações coletadas.
2.5 A Criação do Parque de Canudos na Imprensa
2.5.1 Parque de Canudos terá
Distrito Ecoturístico
(Correio da Bahia, 19 de setembro
de 1986)
Com
a recente criação do Parque Estadual de Canudos, o superintendente da Emtur
(Empreendimentos Turísticos da Bahia), subsidiária da Bahiatursa, José
Albuquerque, acredita que poderá concretizar-se um antigo projeto elaborado
pelos técnicos da empresa: o da implantação do Distrito Ecoturístico-Cultural
de Canudos.
"Desde
alguns anos atrás", lembra José Albuquerque, "pretendemos explorar o
potencial turístico do sertão de Canudos, mas a falta de infra-estrutura mínima
na região e as dificuldades de acesso vinham-nos impedindo de realizar a nossa
proposta". De fato, a região tem tudo para absorver um fluxo turístico
expressivo: além de palco de acontecimentos históricos de expressão nacional
tem características peculiares na sua ecologia, formação geológica,
artesanato, culinária e calendário de festas.
A
vegetação de caatinga - como o cajueiro anão, alecrim-do-tabuleiro, canudo de
pito, juazeiro, xique-xique, entre outros -, as formações rochosas, os animais
como as emas e os passarinhos de várias espécies que ainda podem ser vistos em
estado selvagem constituem-se em atrações potenciais. O artesanato mais
significativo, pela pureza de suas características, é a cerâmica, cuja confecção
dispensa o uso do torno manual, conservando os padrões ancestrais. Na culinária
típica destaca-se o bode assado, o doce de umbu e a rapadura. No calendário de
festas os eventos maiores são os de São João e São Pedro.

Um
Conselheirista. Fotografia de Flávio de Barros, 1897
De acordo com a proposta dos técnicos
da Emtur, o Distrito Ecoturístico Cultural teria três equipamentos básicos: a
reconstituição do Arraial de Canudos, a instalação de uma reserva ecológica
e o aproveitamento turístico do açude de Cocorobó. A implantação de um
mini-arraial de Canudos serviria como cenário para apresentação teatral sobre
a campanha de Canudos e outros eventos culturais, históricos, musicais e folclóricos
da região - externamente seria o mais possível parecido ao aspecto do antigo
arraial - e, concomitantemente, como infra-estrutura receptiva, sendo
internamente meio de hospedagem, de alimentação e atendimento turístico.
A
implantação da reserva ecológica possibilitaria a preservação das ricas
fauna e flora da região e complementaria a ambiência natural em torno do
Arraial de Canudos, dando maior autenticidade ao local. Com 24 quilômetros de
comprimento, o Açude de Cocorobó presta-se a prática de esportes náuticos e
pesca e o seu aproveitamento turístico possibilitaria a utilização não só
pelos visitantes mas também pela própria população hoje sem muito lazer.
O
primeiro passo para a implantação do Distrito já foi dado: a Emtur assinou
recentemente três convênios com a SUDENE para a implantação do Jardim
Euclidiano em área anexa ao Hotel do Conselheiro (com espécies vegetais típicas
da região Nordeste da Bahia) elaboração do anteprojeto arquitetônico de
reconstituição do arraial e consultoria do historiador José Calasans que
repassará aos técnicos da Emtur informações sobre a vida em Canudos.
"Os equipamentos turísticos chegaram a Canudos junto com outras medidas do
Governo do Estado", acrescenta José Albuquerque.
Se,
no entanto, somente a partir de agora a Emtur poderá iniciar o projeto em
Canudos, já há algum tempo vem dotando a região Nordeste da Bahia - na qual
Canudos está inserida - de vários e importantes equipamentos turísticos.
Entre eles, instalação do Museu do Sertão, em Monte Santo, dotado de acervo
fotográfico da guerra e 400 peças de ex-votos; a reabertura do Grande Hotel de
Cipó, inteiramente restaurado com os investimentos do Governo do Estado e
EMBRATUR, é a restauração dos balneários termais de Itapicuru e Jorrinho,
com participação da Seplantec, Interurb e prefeituras.
A
região ganhou também camping com piscina, parque infantil e área gramada,
instalado no balneário termal de Jorro; o Hotel do Conselheiro, em Euclides da
Cunha, com recursos do Estado e EMBRATUR, dotado de 19 apartamentos e de suítes
e que em breve terá o Núcleo de Memória Sertaneja, com documentos, fotos,
publicações e depoimentos sobre a história de Canudos. Há ainda os hotéis
municipais de Cícero Dantas (Serra do Boqueirão) e uauá (Vaza-Barris),
construídos com recursos da Emtur, EMBRATUR e prefeituras.
Antônio Conselheiro morto em foto de Flávio de Barros - 1897
2.5.2 Pesquisadores Reconstituem as
Táticas dos Jagunços
Regina Bortolo
(A Tarde, 26 de abril 1988)
Na
tentativa de esclarecer imprecisões da História no que se refere à Guerra de
Canudos, em 1986 foi elaborado o projeto Canudos. Alocado no Centro de Estudos
Euclides da Cunha, órgão suplementar da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
Para desenvolver os projetos de Geologia e Arqueologia e implantar o Parque
Estadual de Canudos, criado na mesma época, foram contratados o geólogo Jorge
Glauco Nascimento e o arqueólogo Paulo Zanettini, que tinham por objetivo
realizar uma reconstituição bibliográfica, no Arquivo do Exército, na área
das operações de guerrilha e, partindo de uma análise da bacia hidrográfica
da região, juntamente com dados arqueológicos, o geólogo Jorge Glauco
levantou as táticas de guerra empregadas pelas milícias de Antônio
Conselheiro, chegando à concepção geo-estratégica jagunça.
Muito
se tem escrito sobre as revoltas e rebeliões populares no Brasil, ao longo de
sua evolução política. No entanto, a maioria dos estudos das últimas décadas
não atentou para a realização de trabalhos que façam menção às táticas
usadas pelos protagonistas desses movimentos. Os poucos que se preocuparam com o
assunto fizeram-no de maneira vaga, podendo-se afirmar que alguns nem sequer
conhecem área física sobre a qual escreveram. No caso de Canudos, a maior
guerra de guerrilhas do Brasil, foram escritas e formuladas teorias, partindo da
premissa da pregação de Antônio Conselheiro sobre o uso coletivo da terra. No
entanto, fontes orais, descendentes de líderes da comunidade conselheirista,
afirmam o contrário. Também, em Canudos, a História oficial passa a idéia de
um jagunço fanatizado e ignorante, não tomando em consideração o saber da
comunidade.
Geo-Estratétia da Guerra
O
geólogo sentiu necessidade de abordar Canudos como um acontecimento de caráter
regional, e não local como foi tratado taticamente pelas forças legais, que lá
estiveram combatendo. Para ele, a análise através do conceito de bacia hidrográfica
deve-se ao fato da água ser fundamental, devido as características climáticas
para implantação de uma comunidade, ao mesmo tempo em que é vital para uma
guerra. Canudos, no caso, ocupa posição dominante na bacia hidrográfica do
Vaza-Barris, para obtenção de água e como entroncamento de vias de acesso.
"A
visão de um conflito mais amplo é percebida por procedimentos táticos das forças
legalistas, que passaram a estabelecer bases logísticas em diversos pontos da
região", explicou Jorge Glauco. A manobra tática, levada a cabo pelo
coronel Siqueira de Menezes e que culminou com o final da guerra, é exemplo
disso, na opinião dele. "O coronel desceu o Alto da Favela - local do
acampamento do Exército - e passou a ocupar posições de interesse geo-tático
como as Fazendas Rancho do Vigário e Juá, ocorrendo a tomada da Serra do
Cambaio no dia 28 de setembro, já próximo do final da guerra".
Pelo
lado jagunço, de acordo com o estudo do técnico, foi observado aproveitamento
tático perfeito do terreno, propício para a guerra de guerrilha. As milícias
jagunças atacavam de surpresa, travando combates de encontro com a clara intenção
de conduzir a tropa do Exército aos arredores e interior de Canudos. Em locais
previamente escolhidos e preparados, os jagunços, liderados por João Abade,
considerado o estrategista da Guerra de Canudos pelo lado jagunço,
ardilosamente levavam as tropas do Exército para Canudos, quando estas
acreditavam estarem ganhando posição no combate, acuando o inimigo. Na
verdade, suas colunas estavam sendo gradativamente desmanteladas durante a condução
das tropa do Alto da Favela.
A
concepção estratégica jagunça consistia em deixar o Exército preso ao
terreno, cercado pela barreira ecológica do Raso da Catarina, local
desconhecido, seco e com poucas condições para sobrevivência. A única via de
acesso utilizada pela tropa do Exército, que era o Riacho Umburanas, foi
bloqueado pelos jagunços na altura da Fazenda Rancho do Vigário e Serra do
Angico, dessa forma, o cerco fechava-se em Canudos ao mesmo tempo em que atraía
os esforços das tropas legais para lá.
Guerra Psicológica
Conforme
o estudo de Glauco, os procedimentos táticos dos jagunços tinham a clara intenção
de quebrar a cadeia de comando com o uso de tiros, dirigidos preferencialmente a
oficiais, um alvo fácil devido aos galões dourados de seu fardamento e ao
costume da época em que o comandante da tropa colocava-se sempre à frente para
dar exemplo de brio e coragem, facilitando assim a caçada empreendida aos
oficiais. O moral da tropa do Exército também era constante e profundamente
abalado, porque o jagunço era um inimigo invisível, que se camuflava na
paisagem e, algumas vezes, deixava cadáveres de oficiais e soldados à mostra
ao longo das vias de acesso à cidade.
Para
ele, a idéia de um grupo de fanáticos e ignorantes não é adequada à Guerra
de Canudos. "Os combates não foram travados aleatoriamente. Canudos foi
uma comunidade organizada, que se preparou para a guerra com saber próprio,
advindo das necessidades, experiências e injunções históricas, que
conformaram e moldam a cultura sertaneja ao longo do tempo", justifica.
"Não se pode esquecer que o desbravador seiscentista, forçado a se
interiorizar devido à expansão da lavoura açucareira, que empurrou os currais
para o Oeste, subindo o Rio São Francisco, foi combatido por táticas
guerrilheiras, utilizadas pelos indígenas e assimilou traços da cultura indígena.
As atividades indígenas estão relacionadas com as dos caçadores coletores nômades,
herança percebida pelos inúmeros vestígios arqueológicos em pedra lascada,
encontrados espalhados por toda a região", afirma Glauco.
Ainda
conforme Glauco, devido às peculiaridades da sua atividade econômica o
sertanejo era senhor de si, não acostumado com a presença do patrão, que
ficava no litoral e pouco parecia. Desta maneira, o tipo humano do sertanejo tem
afinidade com o homem do ciclo do gado, trazendo em si os processos e práticas
de violência dos desbravadores dos séculos XVI e XVII.
Áreas de Conflito
A
região de Canudos, uma das áreas mais quentes do globo, inserida no domínio
morfoclimático das caatingas brasileiras, escolhida por Antônio Conselheiro,
obedeceu também a critérios táticos. Segundo constatação do geólogo, a
maior parte da rede de drenagem do curso superior da bacia hidrográfica do
Vaza-Barris converge para Canudos, facilitando a obtenção de água através de
represamento nas cacimbas e poços de rochas impermeáveis existentes. O local
para onde os jagunços conduziram as tropas legais, lado esquerdo do Rio
Umburanas, é o que menos possuía aguadas. Em contrapartida, a região,
conhecida como Lagoa de Sangue, área de dominação jagunça, é a que mais
aguada possuía. Isso também foi constatado, na época, pelo coronel Siqueira
de Menezes, chefe da Comissão de Engenheiros Militares do Exército que operava
na área.
A
seu favor os jagunços tinham um conjunto de serras: Canabrava, Poço de Cima,
Cocorobó, Vermelha, Vigário, Angico e outras, com nítido controle estrutural,
funcionando como muralhas naturais, uma vez que as vias de acesso disponíveis
passavam por canyons, facilitando a manutenção das posições e controle das
vias. Esse conjunto de serras teve seu valor estratégico percebido por Euclides
da Cunha, em sua obra sem, no entanto, ter seu entendimento tático devidamente
esclarecido. De acordo com o estudo geológico, no interior dessa muralha
protetora, é observado um relevo escalonado em pequenas distâncias
horizontais, configurando-se como linhas de trincheiras naturais, permitindo às
milícias jagunças recuarem para um andar superior e constituir nova linha de
tiro a cada ataque das forças legalistas.
O
sistema climático, com fortíssima entrada de energia solar e chuvas escassas e
irregulares, associado aos extensos areais e a vegetação que cobre a região,
dificultava a marcha das tropas legais, levando os soldado à exaustão, e, seus
uniformes inadequados, a frangalhos. Euclides da Cunha percebeu a importância
da vegetação da trama, quando a descreveu como aliada incorruptível do
sertanejo. Seus trançados impenetráveis, abrindo-lhe em trilhas multivias, são
familiares ao jagunço que cresceu na região. Glauco constatou que a vegetação
funcionou como cobertura e abrigo aos jagunços, pois, além de camuflá-los,
sua trama desviava a trajetória das balas inimigas, que vinham do leito do rio
ou do alto sem vegetação.
Cerco às tropas
De
acordo com análise feitas nos roteiros seguidos pelas Terceira e Quarta expedições
do Exército (Primeira Coluna), durante o ano de 1897, em Canudos, foi
verificado pelo geólogo que elas seguiram o mesmo caminho a partir da Serra do
Caxamangó. Isso deve-se, na sua opinião, à superioridade da tática jagunça
de conduzir e concentrar tropas em local previamente escolhido. A Segunda Coluna
da quarta expedição, que pretendia consolidar um envolvimento tático em
Canudos, teve seu percurso desviado nas proximidades da cidade devido ao ardil
jagunço, que a forçou ir em socorro da Primeira Coluna que estava sendo
massacrada no Alto da Favela, local determinado para concentração das tropas,
conforme a tática dos jagunços.
Conforme
a ordem do dia 884, de agosto de 1897, redigida pelo general Savaget, isso foi
comprovado quando descreve que, apesar de estar em ótima posição, após
combater, em Cocorobó, um dos combates mais sangrentos da guerra, faz uma
marcha de flanco sob a posição inimiga e encontra-se com a Primeira Coluna.
Durante esse percurso a Segunda Coluna sofreu ataque ao seu comboio de munição
e comida, tornando-se evidente que os jagunços queriam deixá-los sem comida e
munição para combater. Procedimento semelhante foi utilizado com a Primeira
Coluna, que, após estar entrincheirada e cercada no Alto da Favela teve seu
comboio de munição e comida atacado 12 quilômetros antes, no Rancho do Vigário.
Nos
ataques aos comboios, os jagunços dirigiam o fogo aos animais de carga,
dificultando assim o transporte de alimentos e munição, sendo constatado,
através de documentos, que, realmente, o que lhes interessava era a munição,
uma vez que a comida era abandonada. Consolidou-se assim o bloqueio da via de
acesso disponível ao Exército, finalizando o cerco preparado pelos jagunços.
A subsistência da comunidade de Canudos era garantida através da Serra do
Cambaio, que permitia comunicação com a bacia hidrográfica do Rio São
Francisco e as cidade próximas. Para se ter idéia da importância dessa posição,
ela caiu somente na última semana da guerra.
A
análise, baseada em documentos, permitiu ao geólogo questionar o número real
de membros da comunidade conselheirista, pois o Exército estimou o efetivo
inimigo em 25 mil pessoas, baseado no número de casas; mas documentos, como o
do coronel Carlos Silva Teles, comandante da 4ª Brigada, estimam o efetivo
jagunço em 600 combatentes. Supõe-se que as casas, na verdade, funcionavam
como casamata e não como moradia, devido ao grande número de túneis de ligação
entre elas. As partes de combates do final da guerra são unânimes em relatar a
perfeita distribuição das cercas, trincheiras, valas e labirintos no interior
da cidade.
De
acordo com as concepções estratégicas de guerrilha existentes hoje, Canudos
contraria apenas um princípio básico: seus protagonistas optaram por uma base
fixa e não móvel, explica o geólogo. O Exército, por sua vez, quando
analisou a situação, errou quanto à abrangência da missa, não tomou em
consideração o valor do terreno, do inimigo e avaliou mal os meios disponíveis
para cumprir sua missão. O apoio da população aos jagunços foi importante na
medida em que formavam uma rede de informação, que fornecia dados precisos
quanto ao efetivo inimigo e sua disposição no terreno, sabiamente usado por
eles.
Condição atual
"A
condição social vivida pela comunidade de Canudos, hoje, pode ser comparada
aos tempos de Antônio Conselheiro", diz o geólogo. "A economia
concentra-se em parte na produção de sementes para a multinacional Agroceres.
A plantação de alimentos é direcionada exclusivamente para a produção
dessas sementes num processo absurdo, que somente utiliza a semente, deixando as
polpas apodrecendo ao sol". O açude de Cocorobó, segundo ele, que hoje
sepulta sob sua água o Arraial do Belo Monte, antiga Canudos, foi construído e
é mantido por um órgão federal, mas existe na prática para benefício da
Agroceres. A população vive em péssimas condições de vida, e outra
atividade econômica de que dispõem é a criação extensiva dos rebanhos de
caprinos e bovinos, mas, vem sendo a cada dia mais prejudicada pelas cercas dos
grileiros que além de se apropriarem da terra, deixam as aguadas inacessíveis
aos animais.
O
estudo em documentos recentes indicou ao técnico que inúmeras operações que
o Exército realizou no local revelaram a inoperância das suas viaturas - elas
apresentaram problemas de carburação. A água fervia em seus reservatórios
impróprios e foi somente no ano passado, com a criação do Batalhão de
Caatinga, com homens treinados para combater sob essas condições, que o Exército
equipou-se melhor. O próximo passo do estudo, desenvolvido por Jorge Glauco
seria a elaboração da concepção geopolítica na época da Guerra de Canudos,
inclusive a participação da Igreja. As desavenças políticas na região são
antigas e merecem estudo detalhado. Datam de 1895, quando o Barão de Jeremoabo,
gonçalvista, criou uma duplicidade do Poder Legislativo com os vianistas. O
trabalho está paralisado porque faltam recursos para sua continuidade. Em março
último, foi apresentado, no Rio de Janeiro, para historiadores do Exército e
membros da Fundação Casa Rui Barbosa, que se dedicam ao estudo de Canudos. A
repercussão foi boa, recebendo elogios pelo caráter inusitado e qualidade da
pesquisa.
2.5.3 Uma Visão Geopolítica da
Guerra de Canudos
Ângela Peroba
(A Tarde, 28 de julho de 1988)
Depois
de reconstituir o cotidiano da Guerra de Canudos, conseguindo um resultado da
concepção geo-estratégica da maior guerra de guerrilhas do Brasil, o geólogo
Jorge Glauco Nascimento está em vias de partir para uma investigação não
menos inusitada: a concepção geopolítica da guerra. Embora ainda somente
"armado" de hipóteses com base na reflexão e observação, Glauco
usufrui das informações que tem, dando conta de n forma de manipulação política da época, envolvendo inclusive a
Igreja.
Implantada
em 1893, "Canudos era uma pequena comunidade já formada e não uma fazenda
abandonada", cujo proprietário das terras era o Barão de Jeremoabo.
Deputado gonçalvista (um dos representantes da oligarquia da época), o Barão
fazia oposição ao governador da Bahia, Luiz Viana, fato que certamente não
pode passar em brancas nuvens no contexto da localidade onde a guerra foi
deflagrada. O segundo dado muito importante diz respeito às várias cartas
datadas de 1895, enviadas por Antônio Conselheiro ao Barão de Jeremoabo,
pedindo-lhe doações de terra, sinal de uma relação amistosa. Para associar
mais uma informação às suas reflexões acerca do contexto geopolítico
daquele período histórico, Glauco citou mais um fato relevante, a duplicidade
do Poder Legislativo com os vianistas criada pelo Barão, dando-se um
paralelismo de governo.
Manipulação
Através
de uma investigação séria, tal como procedeu na pesquisa em torno da análise
geo-estratégica jagunça, o geólogo pretende chegar à confirmação da hipótese
de que havia "fortes doses de manipulação política durante a implantação
da comunidade de Canudos, assim como durante a guerra". A priori, as reflexões
de Glauco apontam para as possíveis estratégias do Barão de Jeremoabo, cujo
centro de interesse seria desestabilizar o governo Luiz Viana. Convicto de que a
neutralidade é conversa para boi dormir, o geólogo não pode crer na
passividade do barão, como dono das terras, frente à conquista das mesmas por
Antônio Conselheiro, que àquela altura de 95 já cavava trincheiras. Mais uma
vez Glauco ressalta a correspondência mantida entre Conselheiro e o Barão, um
evidente indício de entendimento entre ambos.
Com
respaldo em documentos do Exército, Glauco analisa, dentro daquele contexto de
manipulação, o papel de parte do clero, que de hegemônico só possuía mesmo
a aparência. O geólogo transmite a atuação de um tal padre conhecido como
Martinez, o qual era dono de uma fábrica de pólvora, localizada na Missão do
Sabre, em Juazeiro. De acordo com as informações de Glauco, do depósito da fábrica,
situado em Vila Nova (Bonfim), o padre fornecia armas e guarnições, valendo
como curiosidade citar que o barril custava 35 mil réis. Ano se pode também
esquecer que esse "jogo bélico" entre clero e guerrilheiro
interrompeu-se apenas na 3ª Expedição de Exército, não contendo qualquer
dado sobre o início da negociação.
Imprecisões,
deturpações e equívocos decorrentes de uma "leitura" tendenciosa da
Guerra de Canudos não faltaram para contar história, de acordo com as
investigações de Glauco. Restringindo-se nesse momento a uma
"peneirada" para se chegar à realidade sócio-política daquela época,
o geólogo desmistifica qualquer idéia de que havia uma sociedade igualitária
em Canudos. A questão levantada pelo estudioso é pertinente: "Que
sociedade igualitária é essa que apresentava casas com telhas e outras tantas
sem telhas, encontrando-se também até restos de louças inglesa nas habitações
não cobertas pelas águas? O que se sabe mesmo é que existia um contigente
faminto, uma comunidade que fatalmente apelaria para a guerra".
Líder carismático
Quanto
à controvertida figura de Antônio Conselheiro, Glauco não faz parte do time
que o vê como um louco, um fanático religioso. Na opinião do geólogo,
"Conselheiro era um líder carismático, que possuía um potencial grande
de liderança e soube fazer uso da tendência mística do povo sertanejo.
Conselheiro não se diferenciava muito desses religiosos que hoje em dia saem
pregando pelas ruas... apenas ele soube chegar às ambições pessoais dele,
alimentando a parte mística do povo. Conselheiro era tão louco como esses
religiosos de hoje. A diferença é que pregava um ortodoxo evangelho de
autoflagelação, a Missão Abreviada". A visão de Glauco é de que
Conselheiro foi bastante manipulado pelo Barão de Jeremoabo e pelos políticos
da época, em rol dos interesses da oligarquia, mas até um certo limite.
"Certamente o Barão de Jeremoabo não esperava que as coisas tomassem esse
rumo, chegassem ao ponto de radicalização que descontrolasse tudo. Mas não
podemos esquecer o charme do poder que seduziu o Messias em busca da Terra
Prometida".
Outro
aspecto bastante interessante diz respeito a uma esperta observação de Glauco
com relação à manipulação sofrida por Conselheiro. "Não sei quantas
manipulações aconteceram no sertão baiano e em outras localidades do País,
mas que tomaram rumos diferentes. Existem na verdade dois caminhos quando se
chego a certo ponto. Ou se conchava ou se vai à guerra". Uma ilustração
imediata foi a figura de padre Cícero, que permite um permite paralelismo com
Antônio Conselheiro, com a diferença que o primeiro se coligou com a
oligarquia e não partiu para a guerra. "O caso é tão similar que até
mesmo um dos membros de Conselheiro, Honório Nova, serviu assim com um assessor
do padre Cícero. Não bastasse esse fato de importância singular, Glauco
recorda as similaridades entre a localidade (sertão), as condicionantes
sociais, as forças políticas (grandes latifundiários) e o tipo humano. Não
é preciso dizer que os "assessores" enviados ao padre Cícero
objetivavam cavar as trincheiras. Mas o conchavo substituiu a rebelião",
reflete Glauco.
Mudanças
Decorridos
91 anos da Guerra de Canudos, tempo suficiente para o devido distanciamento propício
a uma análise crítica construtiva, Glauco, que investiu dois anos de pesquisa
ao lado dos arqueólogos Paulo Zanettini e outros auxiliares, expõe o seu
pensamento sobre a mensagem que a guerra deixou ao povo brasileiro. "A
primeira coisa que se pode aprender é que essa história que o povo do Brasil
é pacífico e que as transformações políticas da Monarquia para a República
se deram de modo ordeiro, não são bem assim como se conta hoje, através da
História do Brasil. É importante não se subestimar os saberes próprios de
cada povo, advindos das relações que ele tem com o meio em que vive, com a
natureza. O povo não é boçal, não é ignorante como se costuma pensar. É
preciso se pensar que o povo é manipulado até um certo limite, mas chega uma
hora em que ele vai responder às conturbações políticas de uma dada época.
Chega uma hora que não se controla mais".
O
interesse do geólogo mineiro (com sotaque de andarilho) pelo tema Canudos
despontou com um convite ao arqueólogo paulista Paulo Zanettini, em 86, quando
então foi elaborado o Projeto Canudos, através do Centro de Estudos Euclides
da Cunha, órgão vinculado à Uneb.
Como
um aficcionado pelo estudo geoestratégico da história das guerras, Glauco não
titubeou em aceitar a empreitada, compartilhando com o objetivo de reconstruir o
cotidiano da Guerra de Canudos. Através de um minucioso mapeamento arqueológico-geológico
de toda a região de Canudos, o geólogo fez um levantamento desse dia a dia do
jagunço, sinalizando no mapa as várias espécies de vestígios encontrados.
Valeu de tudo: louças, vidros de medicamentos, pente de bala, cápsulas de
balas, restos de cantis, fundo de cantil transformado em ralador para ajudar no
rango, para não falar nos ossos de gente, identificados pelo geólogo como
"sítios funerários".
"Os Sertões"
A importância da obra "Os Sertões", de
Euclides da Cunha, não foi de modo algum esquecida pelo estudioso de Canudos.
Muito pelo contrário, embora Glauco não compartilhe com o grupo dos que
exaltam Euclides da Cunha como um mito. O senso crítico do geólogo está
aceso: "Trata-se de um relato de guerra, mas, com uma preocupação clara
em escrever um romance. É uma obra literária fantástica, com dados
importantes do cotidiano da guerra, mas deturpados pela visão dominante. Como
tantos outros livros, "Os Sertões" não considera a argúcia do jagunço,
subestima um saber próprio de um povo". Certamente foi por esse rumo que
seguiu a pesquisa incrementada pelo geólogo e toda uma equipe composta por um
arqueólogo, um antropólogo físico e mais dois topógrafos. Ao que tudo
indica, as táticas usadas pela equipe deram certo. Afinal, não se faz uma
guerra sem saber onde se está pisando. Os interessados em conhecer essa leitura
de Canudos pela ótica jagunça, com direito a visualizar o detalhado mapa traçado
pelo geólogo (a concepção geo-estratégica da guerra) terão de esperar um
pouco mais. Deve estar a caminho o Atlas Geo-Estratégico, com mapa explicativo
e fotos ilustrativas. Uma provocação para a imaginação criativa do leito que
não se satisfaz com a História oficial.
2.5.4 Pesquisadores Reconstituem a
História de Canudos
(Jornal do Brasil - 8 de dezembro
de 1988)
Pesquisadores
do Centro de Estudos Euclides da Cunha, da Universidade do Estado da Bahia
(Uneb) estão tentando reconstituir a história da Guerra de Canudos, travada no
final do século passado no interior da Bahia, tendo de um lado os jagunços do
beato Antônio Conselheiro e do outro, tropas do Exército. Em seu trabalho, os
pesquisadores estão recorrendo à pesquisa de campo, aos registros orais e a
documentos guardados no Brasil e no exterior, que estão sendo cadastrados e
microfilmados.
O
estudo dos documentos e a coleta dos registros orais estão indo bem e devem
progredir mais no próximo ano. A pesquisa de campo, no entanto, está
praticamente parada e pode não ter condições de continuar, por escassez de
verbas. Animados com a primeira parte do levantamento de campo, quando foram
encontrados inúmeros vestígios da guerra, como esqueletos de jagunços e
soldados, fragmentos de armas e projéteis, restos de roupas e pedaços de
vidro, louça e cerâmica, os pesquisadores estavam se preparando para entrar na
segunda etapa, mais dispendiosa, quando se defrontaram com a falta de recursos.
Agora, procuram-se alternativas para prosseguir o trabalho.
Verba Irrisória
Este
ano, o CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica) destinou
uma verba de Cz$ 500 mil, considerada tão irrisória que foi devolvida, junto
com uma exposição de motivos em que se alegava que seriam necessários Cz$ 5
milhões, em março.
"A
primeira fase foi superficial e a verba deu. Mas agora, exatamente quando as
despesas vão aumentar, pois precisamos de pessoas altamente especializadas e um
maior número de equipamentos sofisticados, não podemos continuar o trabalho
com a verba que o CNPq nos destinou", diz a professora Iara Dulce Bandeira
de Ataíde, coordenadora do Centro de Estudos Euclides da Cunha.
Na
primeira fase da pesquisa de campo, foram recolhidos os vestígios da Guerra de
Canudos que estavam à flor da terra e demarcados os sítios mais importantes,
como as valas comuns em que foram enterrados jagunços e soldados. A segunda
fase implica escavações, precedidas de um minucioso trabalho de decapagem para
retirada das camadas de terra e localização de trincheiras com grande com
grande concentração de material.
Entre
as peças encontradas, a que mais chamou a atenção foi um pedaço de lata,
identificado como o fundo de um cantil, perfurado como um ralador. Os
pesquisadores explicam que, para sobreviver nas condições adversas da
caatinga, soldados ou jagunços teriam improvisado esse ralador, para fazer
farinha das raízes do umbuzeiro, uma árvore típica do sertão. É conhecido o
hábito de transformar em farinha as raízes dessa árvore, que produz o
saboroso umbu. "Já foi feito um grande levantamento e agora, com as escavações,
a proposta era reconstituir o palco da guerra, como ela se desenrolou logística
e estrategicamente e também como estava organizado o próprio arraial de
Canudos, antes da guerra", diz a professora Iara Ataíde. O local onde
existiu o arraial está hoje sob as águas do açude de Cocorobó, construído
pelo Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS), mas a professora
ressalta que as pesquisas não estão impossibilitadas, porque os combates foram
travados nas partes mais altas, que cercam o grande lago, de 200 milhões de
metros cúbicos.
Arraial
A
professora nem sonha em reconstituir o arraial, o que significaria a necessidade
de muitos recursos para as pesquisas subaquáticas. No entanto, ela assegura
que, a julgar pelas amostras colhidas na superfície da terra, seria possível
fazer uma reconstituição perfeita da batalha final, no dia 5 de outubro de
1897, quando as tropas comandadas pelo general Artur Oscar dizimaram os jagunços
de Antônio Conselheiro.
Enquanto aguardam que o CNPq dê
uma resposta ao pedido de verba, os pesquisadores do Centro de Estudos Euclides
da Cunha fazem contatos com a Fundação Ford, que tomou conhecimento do projeto
há sete meses e mostrou interesse em financiá-lo. Uma outra alternativa de
financiamento é a Universidade de Miami, pois suas revistas já publicaram
artigos sobre o assunto, assim como o jornal Miami Herald.
No
local dos combates, foram recolhidos restos de cantis usados pelo Exército, botões
de fardas de soldados e oficiais, pentes, cartuchos e balas, além de cacos de
garrafas e fragmentos de peças de louça chinesa, francesa e inglesa. Dos jagunços,
foram recolhidas amostras de cerâmica rústica, de barro cozido. Tudo isso está
catalogado e identificado no Centro de Estudos Euclides da Cunha, aguardando o
desenvolvimento do projeto de reconstituição da guerra.
Menos
dispendiosa que a pesquisa de campo, a parte de cadastramento e microfilmagem
dos documentos sobre a guerra mantidos no Brasil e no exterior está
prosseguindo normalmente. A coleta de depoimentos de descendentes dos jagunços
também continua e já foram ouvidas mais de 30 pessoas, que recontaram as histórias
de combates que ouviram dos pais e de outros parentes. "É a história
popular, sertaneja, contada pelos próprios sertanejos", comenta Iara Ataíde.
3 CANUDOS, UM PARQUE NO SEMI ÁRIDO
3.1 Introdução
Sob
a inspiração histórico-militar, o Parque de Canudos deverá tomar uma dimensão
ecológica, de acordo co o seu
projeto. Dessa forma, a Universidade do Estado da Bahia, pelo seu Centro de
Estudos Euclides da Cunha, encaminhou as pesquisas sobre Canudos e seu parque em
três direções: primeiramente, reunião da documentação escrita, oral e
visual, para o resgate da memória histórica; em segundo lugar, elaboração de
projetos sócio-econômicos com aplicação e participação da comunidade, para
que o parque funcione como organismo vivo e atuante, em meio pobre, e em
terceiro e último lugar, trabalhos foram realizados para a salvaguarda dos sítios
históricos e arqueológicos, dedicando-se especial atenção ao turismo
cultural e ecológico.

Parque
Estadual de Canudos (Foto de Antenor Júnior)
Além
destas linhas de pesquisa, pude observar, na I Semana Cultural de Canudos,
realizada em 1991, outras abordagens: conselheirista, euclidianista, histórico-militar
e lampionóloga. Perfeitamente concertado com a tradição euclidianista, José
Calasans Brandão da Silva (1986) é o pioneiro dos pesquisadores que centraram
suas investigações na figura do Conselheiro. Calasans voltou os seus estudos
para as fontes locais, entrevistando os últimos combatentes e visitando Canudos
antes de ser inundada. A sua contribuição é considerável para a compreensão
de Antônio Conselheiro, Canudos, Euclides da Cunha, enfim, tudo que diga
respeito à civilização dos sertões.
Diferente
da vertente de Calasans é a dos euclidianistas, principalmente do grupo de São
José do Rio Pardo, em São Paulo. Representam este enfoque, dentre outros,
Oswaldo Galotti e Adelino Brandão. Inclua-se também Umberto Peregrino.
Há
um terceiro grupo que trabalha com Canudos do ponto de vista da história
militar, a exemplo do saudoso José Augusto Vaz Sampaio Neto e do coronel Davis
Ribeiro de Sena, dentre muitos outros.
Sem encarar Canudos de forma tão
direta, mas, ocupando-se de um problema com nítidas características
nordestinas, como o cangaço, são as investigações de Oleone Coelho Fontes,
na Bahia, e Antônio Correia de Araújo, em São Paulo. Além dessas correntes,
há outras, como os tradicionais estudos sobre o messianismo, de Maria Isaura
Pereira de Queiroz. Registre-se a publicação da reportagem do jornalista
Odorico Tavares, "Canudos, cinqüenta
anos depois" (1993).
Como
o interesse das pesquisas sobre Canudos tem crescido bastante, impulsionadas
pela Universidade do Estado da Bahia, diretamente ou por intermédio do seu
Centro de Estudos Euclides da Cunha, novas publicações têm saído com freqüência,
destacando-se: "Centenário do Bello
Monte", número especial da Revista
da FAEEBA (1995) e o "Memorial de
Canudos", de Trípoli F. B. Gaudenzi (1993).
Com
a proximidade do centenário do término da guerra (1897-1997), novas atenções
voltam-se para o local. Há todo um ciclo de comemorações nas semanas
culturais programadas.
O
parque está decretado, delimitado e visitado por muitos. A reserva legal de
terras garante-lhe a existência. Falta-lhe plano de manejo, entretanto, é
preciso acender os caminhos percorridos pelas expedições e pelos combatentes.
De igual modo, deve-se assinalar os eventos com precisão e expressão. Há de
um tudo para se fazer no parque, pois apenas o começou foi realizado. É
preciso caracterizá-lo como parque que se assenta sobre um campo de batalha. Há
que se marcar as passagens mais importantes e as manobras mais conhecidas.
Em Canudos, muitos lutaram e
pereceram; Canudos é também cemitério militar. Por tudo isso, Canudos merece
o nosso respeito maior. Há qualquer coisa de sagrado, talvez pelo muito sangue
lá derramado. Canudos não pode ser um município como os outros. Marcas o
distinguem dos demais. É bem diferente pela sua história.
Há
uma lição de história religiosa, social, militar e política permanente a
recolher. Há campo aberto para mais investigações, que deverão ir, se possível,
além da epopéia magnífica e grandiloqüente de Euclides.
Por
ser um parque situado no semi-árido, Canudos dá ensanchas para que se conserve
a fauna e a flora. Será o encontro da história com a ecologia. Um parque de
caráter ao mesmo tempo ecológico e cultural voltado para a conservação da
natureza e da história (A Tarde - I
Semana Cultural de Canudos, 1991).
A
demarcação preservou o local onde ocorreram os últimos confrontos entre as
forças regulares do Exército e os partidários do Conselheiro.
Os
1.321 hectares de terras reservadas limitam-se ao norte com terrenos da
Universidade Federal da Bahia, Centro de Pesquisas e Tratamento de Água. Não
havendo acidente geográfico demarcatório, tomou-se a rede elétrica como referência.
Ao sul, a área ocupa a margem direita do riacho das Umburanas, logo depois do
Alto da Favela. A margem leste do parque é a estrada Bendengó-Canudos, via que
nasce em Feira de Santana, ultrapassa vários municípios e alcança as margens
do rio São Francisco, em Barra do Tarrachil. Já para o oeste, a linha divisória
é a represa do Cocorobó.
O
parque ocupa local onde relevantes eventos da guerra tiveram lugar e se encontra
repleto de evidências arqueológicas. Ingressando pelo riacho das Umburanas,
seu ponto culminante é o Alto do Mário; por trás, localiza-se imensa vala
comum onde foram enterrados muitos combatentes, provavelmente pela aproximação
com o hospital. A faixa maior de argila permitiu que se cavasse a vala. Dada a
depressão do terreno, chama-se, tragicamente, Vale da Morte.
O
Alto do Mário dista do antigo arraial cerca de 1.200 metros. Há referências
do assentamento dos canhões nessa elevação, o que permite estabelecer-se a
distância com certa precisão. Entre o Alto do Mário e o Belo Monte havia os
alicerces da fazenda velha. No Alto do Mário, faleceu o coronel Moreira César.
Dando-se as costas para o cruzeiro tosco e solitário que encima o Alto do Mário,
vê-se em frente a lâmina de água azul e serena que esconde a Canudos do
Conselheiro.
Saindo-se
em direção ao norte, alcança-se o Alto do Trabubu, local onde após o combate
de Cocorobó, a coluna comandada pelo general Savaget, vinda de Aracaju, manteve
o derradeiro combate com as forças de Antônio Conselheiro, antes de fazer o
enlace com as tropas do general Arthur Oscar.
Encontram-se
fora do parque as serras de Cocorobó, Angico e Cambaio. Esta última recorda os
combates da Segunda Expedição comandada pelo major Febrônio de Brito, é onde
se localiza a lagoa de Sangue, denominação tomada pela lagoa do Cipó, depois
das baixas.
3.2 Função Educativa
Assim
situado o parque, o seu projeto, a cargo da Universidade do Estado da Bahia, vem
contando com o apoio da comunidade que participa da sua implantação. Tanto a
administração municipal como a Universidade trabalham com o objetivo de
realizar a sua construção. Uma das suas funções precípuas é a educativa.
Além das escolas erguidas na sede, é preciso que se instale uma dentro do
parque, assegurando-lhe condições efetivas de funcionamento e ocupação.
Como
todo município novo, Canudos necessita de atenção especial por parte do
Estado e da União. Convênio nesse sentido foi assinado com a Secre |