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O Parque Estadual de Canudos

Edivaldo Boaventura

O Parque Estadual de Canudos

Prefácio

Oleone Coelho Fontes

    Uma guerra que aconteceu num fim de mundo baiano insiste em não terminar jamais. Tem tudo para durar mais que a famigerada Guerra dos 100 Anos, ocorrida em priscas eras em solo europeu. Quem sabe, até entre para o livro dos récordes. Ao menos em corações e mentes de escritores, poetas, ficcionistas, humanistas, historiadores e curiosos a Guerra Santa do Conselheiro tem sobrevivido e rendido tanto quanto pitadas de fermento em bolo de milho. Ainda bem que assim tem sido. E que fato histórico tão extraordinário, pelo que houve de sanguinário e desumano, sirva de exemplo para que genocídio de tal monta não venha mais se repetir entre nós.

Quando se pensa que nada há mais para se dizer, lá vem a professora Lizir Arcanjo com "Humor e Sátira na Guerra de Canudos". Quando se imagina que o assunto está esgotado, eis que surge um fantasista nascido em Canudos, Eldon Canário, com "Os Mal-Aventurados do Belo Monte", obra de mestre estilista criativo. Daqui a dias o irrequieto padre Enoque Oliveira vai acrescentar à extensa bibliografia mais documentação sobre a tragédia nos sertões da Bahia. Em seguida será a vez da historiadora Consuelo Novais Sampaio, que para tal bisbilhota um e outro estudioso, uma e outra instituição. Renato Ferraz corre Ceca e Meca falando de Antônio Conselheiro, jagunço, chefes militares e promete esconder-se durante dois anos na Alemanha a fim de levar a cabo transformar fichas e apontamentos em obra sobre Canudos. Eduardo Hoonaert acaba de lançar, durante o seminário "Canudos, a Constituição e a Defesa de um Lugar Sagrado", o livro "O Anjos de Canudos". Anuncia-se a reedição de "O Rei dos Jagunços", de Manoel Benício, livro de 1899, pela Fundação Assis Chateaubriand, assim como já pode ser encontrado "Uma Viagem a Canudos", de Alvin Martins Horcades, igualmente de 1899.

Pensam que a coisa acaba aí? Nada. O professor Raimundo Gama, de Feira de Santana, com paciência de copista beneditino, há décadas reúne recortes de jornais que trazem notícias sobre o fenômeno. Tais recortes serão livro em breve. O astrônomo amador Wilton de Carvalho, que tem furor por meteoritos, vivencia processo de pesquisa (itinerante e em laboratório), para nos entregar biografia do major Febrônio de Brito, que chefiou a segunda expedição militar contra Canudos. E agora me permitam um comercial. Incorrigível canudófilo, tive publicado, há pouco, pela BDA, "Guerra de Canudos em Quatro Atos". Tenho programada uma obra de ficção, só Deus sabe para quando, que já recebeu título: "A Quinta Expedição". Sei de um padre alemão, Pedro Metler, que na capital da cachaça, Januária, nas Minas, prepara tese de doutoramento sobre Canudos.

Isso é do que temos conhecimento. Há, porém, muito mais, conforme assegura o canudômano mestre José Calasans. Canudos é temática infindável e em expansão. Pela universalidade. Pela milenaridade. Pelo que esconde em seus esconsos de enigmático e singular. Quanto mais descobrimos, tanto mais a questão se desdobra.

Agora é a vez e hora do professor Edivaldo Boaventura, com "O Parque Estadual de Canudos". O Parque foi criado por ele quanto este inesgotável obreiro da palavra era Secretário de Educação e Cultura e governava a Bahia João Durval Carneiro, em 1986. A criação de tal sítio histórico, militar, arqueológico, ecológico, fazia parte integrante de ambição do mestre universitário, hoje também diretor do jornal "A Tarde", de valorizar lugares historicamente importantes no território baiano.

Quando se rememora genocídio praticado contra a comunidade inaugurada pelo Peregrino de Quixeramobim, eis que Edivaldo Boaventura reúne papéis de sua caderneta de campo, fotos, reminiscências e emoções e tudo transforma em publicação que, sem dúvida, será inestimavelmente valiosa para conhecimento um pouco mais da amplitude que teve fenômeno que se desenrolou nos sertões baianos, tragédia que continua ensanguentando corações que sobre ela se debruçam.

No Parque, sítio num vasto anfiteatro, está sepultado, à espera dos arqueólogos, material em abundância para contar mais das diligências que ali chegaram com suas máquinas de matar e destruir. O observador poderá conhecer o Vale da Morte (onde militares sepultavam seus mortos), o Vale da Degola (onde chefes expedicionários mandavam cortar pescoços de jagunços), e o Alto do Maio (ou do Maia, ou do Mário), onde morreu o coronel Antônio Moreira César (1850-1897), comandante da terceira expedição.

Enfim, a obra de Edivaldo Boaventura vem oferecer ao pesquisador mais elementos para sua cogitações, do mesmo modo que o Parque oferece mais conforto e diretriz para a observação local. Em particular para a reflexão.

Agosto/1997

 

Apresentação

João de Régis no cemitério da segunda Canudos. (Antenor Júnior)

João de Régis no cemitério da segunda Canudos (Foto de Antenor Júnior)  

Belo Monte, arraial da Fazenda da Fazenda Canudos instalado às margens do rio Vaza Barris num inóspito pedaço do sertão da Bahia, caatinga da gema, "fim do mundo", como insinuou o peruano Mário Vargas Llosa. Tinha tudo para ser mais uma página esquecida da história do Brasil. Passaram-se quase 50 anos de silêncio, mesmo depois de "Os Sertões". Até que chegou Odorico Tavares e escreveu "Canudos, 50 anos depois". E, enfim, os "jagunços" começaram a ser gente.

Dizem que o resgate histórico de Canudos, na vastidão da sua dimensão trágica e sociológica exigirá, no mínimo mais 50 anos de pesquisa. Tem a ver. É a corrida "atrás do prejuízo". Afinal, a guerra que dizimou mais de 20 mil pessoas hoje seduz uma legião de acadêmicos e leigos, já produziu mais de oito mil títulos entre artigos, reportagens, livros, obras de arte, filmes e mostras fotográficas. Mas dela ainda há muito para se saber.

A morte de Pajeú, só para citar um exemplo, tem seis versões diferentes. E o velho mestre José Calasans, a quem mais a história fica devendo por tudo que já se fez com o propósito de repor as coisas nos seus devidos lugares, lamenta até hoje ter perdido a oportunidade de ter sido um entrevistador mais acurado, para aprofundar com os sobreviventes da guerra, mesmo meio século depois, como era a vida no Belo Monte antes da guerra, a parte que menos se sabe.

O sino da Igreja que Antônio Conselheiro construiu está no Museu Nacional do Rio de Janeiro. A chave, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A cruz, sob a guarda do Memorial Popular de Canudos. A espada de Moreira César na mão de uma pessoa em Feira de Santana. As balas, espalhadas nas mãos dos moradores do lugar. Trabucos e espadas no Museu Manuel Travessa. A "matadeira" na praça de Monte Santo. O palco da guerra, o lugar em que ficava Belo Monte, sob as águas do açude de Cocorobó.

Que se gaste os próximos 50 anos na busca do resgate. Chegará um dia em que alguém vai dar um jeito de isolar Belo Monte de Cocorobó para permitir que os arqueólogos escarafunchem o chão que foi o núcleo da tragédia. É só o que está faltando. Não se diz que o açude foi construído com o propósito deliberado de sepultar a história - embora o fato seja muito questionado - mas sepultou boa parte.

O resgate de Canudos virou ponto de honra para a legião de estudiosos da questão e, mesmo 100 anos depois, ou quase isso, as vozes oficiais começaram a desabrochar nesse tom. O ministro da Cultura, Francisco Weffort, já admite se discutir uma revisão histórica de Canudos. A Secretaria de Cultura da Bahia planeja desenvolver o turismo na área. É aí que a iniciativa do professor Edivaldo Boaventura, ao criar o Parque Estadual de Canudos (PEC), quando era Secretário da Educação da Bahia, através do Decreto 33.333, de 30 de junho de 86, emerge como uma contribuição significa.

Além da preservação dos principais cenários da guerra, locais em que foram travados os mais encarniçados combates, a intenção é preservar o meio ambiente tal e qual ele era 100 anos atrás. É possível e necessário. Possível porque os esforços do Centro de Estudos Euclides da Cunha (CEEC), o apêndice da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que administra os investimentos da Secretaria do Planejamento no PEC têm uma preocupação nuclear neste sentido, envolvendo também a população inativa. É uma questão de querer e se quer. Necessário porque o asfalto está chegando a Canudos e a caatinga, o solo pedregoso, a aridez do clima, um sistema ecossistema que por si já fragiliza a sobrevivência da fauna, precisa ser mantido como sempre foi, até pela elementar razão de quem pretende entender Canudos não pode desprezar um detalhe que teve a maior importância no desenrolar dos acontecimentos militares e sociais, o cenário, a paisagem.

Há quem diga que Conselheiro, já sofrendo perseguições oficiais, escolheu Belo Monte para se instalar em 1893 justamente porque o lugar é inóspito. Talvez tenha sido. Quem vê o Parque Estadual de Canudos de perto e sabe que ali houve uma guerra, entende melhor a situação. E fica pasmado ao pensar que algum dia espalharam pelo Brasil que uma multidão de excluídos encastelada naquele fim de mundo seria capaz de derrubar a República para reinstalar o Império.

Só quem não conhecia Canudos, e sequer o Exército da época, que foi lá combater, imaginava como era de fato o ambiente, poderia acreditar numa coisa dessas. É justamente nesse aspecto que está o legado maior de Canudos.

 

Introdução

Açude de Cocorobó. (Agnaldo Novais)

Açude de Cocorobó (Foto de Agnaldo Novais)

Sob a inspiração do poeta maior, Castro Alves, a Bahia criou o seu primeiro parque estadual em Cabaceiras do Paraguaçu. Em 1986, foi a vez da declaração do sítio de Canudos, recriado em parque. Além da importância ecológica, há de se reconhecer o interesse pedagógico, na educação ambiental. Da competência estadual é o sítio histórico onde nasceu Cecéu.

Foi com imenso prazer que voltei a me ocupar dessa obra, realizada quando ocupei a Secretaria de Educação e Cultura da Bahia, pela primeira vez. Valiosa sugestão do grande Pedro Calmon, que o governador Luiz Viana Filho acolheu e decidiu concretizar ainda no seu governo. Na minha hegeliana volta, o Parque Histórico Castro Alves foi reformado, ajardinado e ampliado com a edificação de escola fundamental completa, casa do administrador, Auditório Pedro Calmon e outras benfeitorias. Quando se realizou a XVI Romaria Cívica Religiosa ao Parque, presidida por Jorge Calmon, em 14 de março de 1987, comemorativa dos 140 anos de nascimento do poeta, era bem diferente daquele que encontrei em 1983.

Deus louvado me permitiu e, enquanto reformava o Parque de Cabaceiras, fui me municiando para criar o de Canudos, à base dos elementos que Renato Ferraz e o pessoal da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) iam reunindo. Em 1986, o governador João Durval Carneiro decretou a sua criação, integrando importantes áreas de terras onde se deu a guerra fratricida. Primeiramente, o governo fez a reserva de terras devolutas pelo Decreto nº 33.193, de 27 de maio de 1986, e depois pelo Decreto nº 33.333, de 30 de junho, instituiu o Parque Estadual de Canudos, autorizando a Secretaria de Educação e Cultura, por intermédio da Universidade do Estado da Bahia, a adotar as providências necessárias à sua construção.

Outros foram os procedimentos com referência à Chapada Diamantina. Antes mesmo de assumir a Secretaria, tomei conhecimento do trabalho de Roy Funch, "Chapada Diamantina: uma Reserva Natural", do seu idealismo para que se reservasse um segmento da Chapada. Não somente o apoiei, como também dirigi-me, como secretário do Estado, às autoridades federais competentes. Assim, foi importante para a Bahia o decreto do presidente da República, de 17 de setembro de 1985, que criou o Parque da Chapada Diamantina. Tanto em Canudos como na Chapada Diamantina, foi decisiva a colaboração do secretário da Agricultura Fernando Cincurá de Andrade.

A Bahia conta, com o Parque Nacional de Monte Pascoal, da Chapada Diamantina e marinho de Abrolhos, que é o primeiro Parque Nacional Marinho do Brasil, criado em 1983. Abrolhos é objeto do trabalho de Carlos Secchin e Zenilda Margarida Leão - "Abrolhos, Parque Nacional Marinho". Os três parques nacionais e a reserva biológica da Una, que protege o mico-leão-de-cara-dourada, estão sob a jurisdição do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

 

A definição de Parque

A tendência espacial dos parques deve ter a devida continuidade, também na Bahia, que na multiplicidade de suas regiões e de suas culturas, além de um constante convite à criação de museus, detém um vocacionado espaço a ser preservado em parques, como a lagoa e dunas de Abaeté, as escarpas de Porto Seguro, o sítio do Descobrimento e o próprio Recôncavo.

Sem esquecer as praias e as dunas andantes de Mangue Seco, as inúmeras grutas, as elevações solitárias, como a de Bom Jesus da Lapa, a natureza luxuriante de Morro do Chapéu e as bordas, alvas e lunares, do sagrado Paraguaçu, a criação de parques tem como objetivos, tal como se estabelecem para o Parque Estadual de Campos do Jordão:

"Os objetivos fundamentais de um parque são proteger e preservar unidades dos sistemas complexos de valores naturais ou culturais, proteger recursos genéticos, oferecer recreação pública e servir para atividades de investigação científica e de educação ambiental."

A experiência internacional demonstra que a conservação da natureza efetiva-se com parques, a exemplo de Yellowstone; de igual modo, as áreas de interesse histórico-militar são preservadas como o estatuto público de proteção física, cultural e ambiental.

 

Cenários Históricos de Campos de Batalha

Quando da comemoração dos vinte anos do término da guerra, visitei, em 1965, a praia do desembarque, na Normandia, França. Percorri a costa dividida em cinco partes pela operação Overlod: Utah e Omaha Beaches, destinadas ao Primeiro Exército Americano; Gold Beach, prevista para a 50ª Divisão de Infantaria Britânica; e Juno e Sword Beaches, cometidas, respectivamente, à Terceira Divisão da Infantaria Canadense e à Terceira Divisão de Infantaria Britânica.

A cavalaria de praia, as cruzes brancas do cemitério militar contrastavam com o verde suave do gramado. Mais para trás, na parte mais elevada, restavam alguns bunkers, construídos pelos alemães para o inexpugnável muro do Atlântico. A brisa do verão trazia as lembranças bélicas daquele teatro de operações e recordava as chegadas sucessivas das tropas aliadas que atravessaram o canal da Mancha para libertar a França, a Europa, o Mundo beligerante da Guerra Plurinacional de 1939 a 1945. Detive-me, então, em Arromanches. Olhando para o mar, pude observar o esforço gigantesco para a construção da enseada artificial pelos ingleses. Enseada e porto que possibilitaram o abastecimento de suprimentos e munições. Em Arromanches, ainda, bem à borda da praia histórica, um pequeno museu militar reproduzia, didaticamente, o desembarque do dia "D", 6 de junho de 1944. A saga do desembarque estava bem representada. Certamente, fora um dos mais longos dias da história.

Para assinala aquele momento de profunda emoção, adquiri o livro de Cornelius Ryan, "Le jour plus long" (1960) que Darryl Zanuck transportou para o cinema. A obra é epigrafada com a sentença profética do Marechal Rommel ao seu ajudante de campo: "Creia-me Lang, as primeiras vinte e quatro horas da invasão serão decisivas... A sorte da Alemanha depende delas... Para Aliados, como para nós, será um longo dia."

Como em Arromanches, Waterloo, na parte central da Bélgica, bem perto de Bruxelas, é outro campo de batalha preservado que concretiza a última ação dos exércitos napoleônicos. Em Waterloo, diferentemente de Arromanches, todas as partes beligerantes estão presentes em bronze e mármore. O monumento ao soldado francês ressalta-lhe o heroísmo naquele 18 de junho de 1815, para mim, marco decisivo da hegemonia anglo-saxônica sobre a latina. Trafalgar e Waterloo fixaram o domínio britânico nos mares e no comércio.

Com a recordação também do parque nacional militar de Gettysburg, na Pennsylvânia, aproximo-me mais ainda de Canudos e do seu decretado parque. Recolhi uma extraordinária lição de histórica civil e militar em Gettysburg pelo conhecimento das manobras que decidiram a Guerra Civil americana. A bem da verdade, recebi dupla lição de história, como de política, pelo Gettysburg Adress, de Abraham Lincoln, lá pronunciado. Gettysburg me tocou mais de perto por ter culminado uma guerra, como a de Canudos, fratricida.

Juntam-se, também aqui, aos objetivos de preservação ecológica, os cenários histórico de campo de batalha, que é como antevejo o Parque de Canudos. Criado para preservar o sítio bélico e fixar um dos acontecimentos mais significativos da História do Brasil. De fato, Canudos mexe com os sentimentos religiosos, pelo messianismo do Conselheiro. Canudos interessa às Forças Armadas, especialmente ao Exército e às polícias militares. Canudos exemplifica o intrincado relacionamento entre forças políticas estaduais e federais. Canudos encontra-se no eixo das encruzilhadas das nossas questões regionais e nacionais. Canudos está no coração seco e sertanejo do Nordeste.

Nessa problemática, o aspecto acadêmico deve ser logo suscitado. Canudos converteu-se em núcleo central de pesquisa universitária. E mais. Ao lado da investigação histórica, portanto, cultural, há outras indagações ditadas pela natureza. Variáveis culturais e ecológicas militam a favor do Parque de Canudos. O caminho a seguir, nesta exposição, é o da trajetória da sua criação com vistas à definição dos seus objetivos como unidade de conservação.

 

1. PARQUES NACIONAIS E RESERVAS ECOLÓGICAS

1.1 Introdução

Em resposta à questão "O que é um Parque Nacional?", Roy Funch (1982) explanou em Simpósio sobre a Preservação do Patrimônio Natural da Chapada Diamantina:

"Um Parque Nacional é uma área relativamente grande de território nacional escolhida por alto valor paisagístico e por sua abundante riqueza de animais e plantas silvestres.

Nesta área, todos os animais, plantas e recursos hídricos e minerais são completamente protegidos pelo Governo Federal. Não é permitido caçar, coletar plantas, provocar incêndios ou depredar os recursos naturais dentro dos limites do Parque.

Porém, um Parque Nacional não é simplesmente uma área demarcada. Claro que um Parque Nacional é sempre em primeiro, uma área onde a natureza manda, domina, e fica protegida da exploração predatória. Mas, é também um espaço onde o público é sempre bem vindo para visitar e curtir.

Normalmente os Parques Nacionais têm áreas de proteção integral, são área de ecologia frágil, ou em recuperação, ou áreas com animais raros cuja reprodução pode ser prejudicada pela presença do homem. Nessas áreas, a visitação é proibida mas em geral nos Parques são permitidos passeios, acompanhamentos e todo tipo de turismo. Um Parque é para o povo visitar, uma espécie de museu ao vivo."

 

Como justificativa para a criação de um Parque Nacional, acrescenta Funch (1982):

"É importante lembrar que, embora o Brasil seja um país muito grade (5º no mundo em área territorial), está em fase de desenvolvimento econômico e industrial. Nessa marcha de progresso técnico, torna-se importante preservar uma parte da outrora abundante riqueza natural. São reservatórios naturais de recursos genéticos únicos de plantas e animais. Com os grandes avanços nas ciências da engenharia genética da utilização de recursos naturais renováveis, um grande país tropical como o Brasil tem uma enorme vantagem sobre os países de clima temperado, devido a deslumbrante quantidade de plantas e animais silvestres encontrados no nosso clima. Mas esses recursos potenciais têm que ser preservados agora, pois este patrimônio genético único, uma vez perseguido até a extinção, perde-se para sempre. A humanidade deve agir agora, para tirar áreas naturais do ciclo da crescente exploração, para que não percam recursos insubstituíveis, um patrimônio que nossos filhos e netos desfrutarão, e irão nos agradecer por ter preservado."

 

Explicitam-se no pronunciamento desse autor os conteúdos dos objetivos e finalidades que justificam a criação e o manejo de parques, conforme se reitera.

 

1.2 Definição de Objetivos

Os objetivos fundamentais previstos no regulamento geral de manejo de parques são: proteger e preservar unidades importantes ou sistemas completos de valores naturais ou culturais; proteger recursos genéticos; desenvolver a educação pública; fornecer oportunidades para a recreação; propiciar atividades de investigação e outras afins de índole científica e, acrescento, desenvolver o espírito cívico e educativo. Ressaltem-se, entre outras, as atividades de investigação científica e educação ambiental, esta voltada para o reconhecimento e a classificação de valores, atitudes e conceitos concernentes aos relacionamentos do homem com o seu meio ambiente cultural e biológico, conforme a compreensão de Carter V. Good (1973, 214).

Como reconheceram Maria Tereza Jorge Pádua e Adelmar F. Coimbra Filho (1979), são poucas as categorias de manejo de unidades de conservação: parques nacionais e reservas biológicas. Há necessidade de novos tipos com outros objetivos além destes dois. Os autores de "Os Parques Nacionais do Brasil" sugerem: monumentos nacionais, santuários de vida silvestre, rodovias-parques, rios cênicos e reservas de fauna.

A diversidade dos parques é bem mais numerosa, devendo incluir especificamente quanto ao segmento militar, parques militares, parques-campos de batalha ou campos e sítios de batalha. A classificação ficará mais rica pela inclusão de sítios históricos, parques históricos, como o Parque Histórico Castro Alves, no vale do Paraguaçu; o de Osório, no Rio Grande do Sul; o de Guararapes, no Recife, e o parque na serra de Barriga, em Alagoas; e também memoriais, parques-memoriais, áreas de recreação, margens de lagos e de rios, praias, estradas, caminhos cênicos, rios nacionais, reservas científicas, caminhos fluviais e outros, conforme a enumeração da "New Columbia Enciclopedia" (1975, 1886-1894).

Pádua e Coimbra Filho observaram que parques e reservas plotadas concentravam-se na região sudeste do País. Enquanto o Estado do Rio de Janeiro possuía quatro parques nacionais - Tijuca, Itatiaia, Serra dos Órgãos e Bocaina - o Estado do Amazonas, o mais extenso do País, detinha apenas o Parque Nacional do Pico da Neblina. Na relação apresentada, a preservação visava apenas recursos naturais, como flora, fauna e paisagem. Não encontrei menção à proteção de caráter histórico-cultural na enumeração dos parques nacionais. Há carência de informações sistemáticas sobre o número e tipo de parques históricos e de categorias culturais.

Informações mais recentes aumentaram bastante o número de parques e diversificaram um pouco mais as unidades de conservação. O país possuía, em 1992, 34 parques nacionais, 38 florestas nacionais, 15 áreas de proteção ambiental e quatro reservas extrativas, além de seis reservas ecológicas que somam cerca de 38 milhões de hectares ("A Tarde", 17 de maio de 1992). E Álvaro de Oliveira d'Antona (1994), em viagem filosófica pelos brasis afora, informa, comunica, descreve e vivencia dezenove parques nacionais não incluindo os do Pantanal e da Amazônia.

Tudo leva a crer que a criação de parques começou pelos naturais, "para benefício e gozo do povo", partindo, a posteriori, para as áreas de interesse histórico e cultural. O primeiro a ser construído em grandes dimensões foi o Parque Nacional de Yellowstone, Estado de Wyoming, nos Estado Unidos da América, que mede 8.873km2, atingindo, em 1872, terras de Montana e Idaho. Enquanto isso, o primeiro parque nacional criado no Brasil foi o de Itatiaia, em 1937, com 12.000 ha. Até  1994, existiam em nosso país, sem incluir os parques de Tapajós, Pico da Neblina, na região amazônica, trinta e quatro parques nacionais. D'Antona (1994,5) usa como definição de parques nacionais:

"São áreas delimitadas com a finalidade de preservar os atributos excepcionais da natureza, conciliando a proteção integral da flora e fauna e das belezas naturais, com a utilização para fins educacionais, recreativos ou científicos, sendo nelas proibida qualquer forma de exploração de recursos naturais."

A conservação da natureza se fará com parque. Essa é a experiência internacional, como Yellowstone e o Great Basin, um parque diferente (Diálogo: 1989). Acredito ser a preservação uma função tanto dos organismos encarregados da educação, cultura, turismo, agricultura, planejamento como da comunidade.

Na evolução da criação dos parques naturais, a experiência norte-americana de proteção a sítios especiais data de fins do século passado. À lei sobre antigüidades, assinada em 1906, juntaram-se outros atos do Congresso americano, permitindo a formação de um sistema nacional de parques que hoje abrange mais de trezentas áreas de interesse paisagístico, histórico, recreativo e cultural.

A classificação dos parques nacionais nos Estados Unidos da América do Norte registrada na "New Columbia Enciclopédia" (1975, 1885-94) foi acrescida, ainda, de parques e reservas científicas e do parque da capital nacional do país, onde está edificada a Casa Branca. Registro especial merece o Roosevelt-Campobello, por se tratar do primeiro parque internacional. Localizado na Ilha de Campobello, onde se ergue a casa de verão de Franklin Delano Roosevelt, administrado conjuntamente pelos governos norte-americano e canadense.

 

1.3 Viajando pelos Parques Nacionais

Do norte, da ilha de Marajó, ao sul, a cidade do Chuí, D'Antona (1994) descreveu os nossos desolados e persistentes parques, pertencentes ao IBAMA, em diferentes lugares e em situações as mais diversas.

Ressalta-se a contribuição do relato que acrescente um bloco de informações e de conclusões sobre os parques. A ausência de bibliografia é enriquecida vivamente com informes colhidos pelo próprio viajante. Quem quiser conhecer os nossos parques nacionais dispõe de um roteiro, guia e manual informativo não só sobre os parques, mas também acerca das condições de acesso, hospedagens e instalações. Além da leitura agradável, o livro é de suma utilidade como referencial.

O roteiro foi cumprido de 5 de abril a 10 de novembro de 1993. Foram visitados dezenove parques nacionais em um total de 24.650 quilômetros. Iniciou pelos parques nacionais (PARNA), Minas Gerais: Serra da Canastra, onde nasce o rio São Francisco, seguido do parque da Serra do Cipó, não muito longe de Belo Horizonte, e o do Caparaó com o Pico da Bandeira, o ex-ponto mais elevado do Brasil. De Minas penetra nos parques nacionais da Bahia: marinho de Abrolhos e Monte Pascoal, na costa sul, e o da Chapada Diamantina, no centro da Bahia, com todas as suas bromélias e orquídeas. Chega ao Parque de Fernando Noronha, com o mar de dentro e mar de fora, que abriga os projetos Golfinho, Acqua-Life, Ecologia. Passa ao Ceará com o Parque de Ubajara e entra pelas Sete Cidades, no Piauí, para alcançar os Lençóis Maranhenses. Adverte: "Lençóis é um deserto tipicamente brasileiro: um deserto molhado, litorâneo, repleto de dunas e lagoas" (p. 200). Região importante na caminhada da modernidade do autor-economista para a atualidade do antropólogo. Acrescenta-se que o método da observação vivendo situações e assumindo posições já eram bem de um etnólogo.

Já no norte excluiu os parques da Amazônia e marchou para os parques do Brasil Central: Araguaia, Chapada dos Veadeiros com os seus lampejos extraterrestres, Brasília, desconhecido e dentro da capital federal, Emas e Chapada dos Guimarães, este no Mato Grosso.

Na última etapa, ocupou-se dos parques do Sudeste e Sul, como Serra da Bocaina, entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo; Itatiaia, o mais antigo, declarado em 1937; São Joaquim, em Santa Catarina; Aparados da Serra e Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul.

Uma viagem realmente filosófica, como a realizada por Alexandre Rodrigues Ferreira, instrutiva e construtiva pelo que conseguiu reproduzir, documentar e escrever. É certamente a fonte de informações mais abundantes sobre os nossos parques nacionais. É preciso, sob a inspiração do livro de d'Antona, conhecer e documentar as reservas ecológicas, os parques estaduais, a exemplo do de Castro Alves e Canudos, e municipais, como o da Matinha, em Itapetinga, todos na Bahia.  

Serra do Angico (Canudos-BA). (Antenor Júnior)

Serra do Angico (Canudos-BA) -  (Foto de Antenor Júnior)

 

2 O PARQUE DE CANUDOS

2.1 Introdução

A criação do Parque Estadual de Canudos integra-se no longo processo de absorção da Guerra de Canudos pela sociedade brasileira. Inúmeros foram os antecedentes e expedientes. Amplia-se a importância de Canudos. Era preciso começar a preservação do sítio bélico.

Já na época em que edifiquei o Parque Histórico Castro Alves, em 1971, bem assim, quando defendi junto às autoridades federais a delimitação do Parque da Chapada Diamantina, que tinha em mente preservar os campos das lutas de Antônio Conselheiro, na região de semi-árido baiano (Boaventura, 1986).

Considere-se, em primeiríssimo lugar, a copiosa literatura, liderada e iluminada pela obra do genial Euclides da Cunha. Muito a propósito, Oswaldo Galloti ponderou que o segredo de Euclides consistiu em buscar a síntese entre a linguagem científica e a linguagem literária. Outro aspecto que este euclidianista sublinhou foi a baianidade de Euclides. Filho de pai baiano, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, do tronco dos Pimenta da Cunha, escreveu com calor e entusiasmo, dando expressão maior à guerra. No relacionamento autor e obra, existe o fato da campanha, com todas as suas adversidades e expedições, mas há a versão do escritor, com seu portentoso estilo. E é o estilo que pinta o que fica. A grande força da expressão grandiloqüente de Euclides imortalizou a saga de Canudos. Tomo em consideração Canudos, o fenômeno, e Euclides, a expressão, e coloco a seguinte pergunta: e se não fosse Euclides da Cunha, o que teria sido de Canudos?

Além de "Os Sertões", que se encontra no começo de tudo que diz respeito a Canudos, leve-se em consideração o abandono e a depredação das áreas contíguas à represa do Cocorobó, que sepultou a vila messiânica. Fora da área reservada por decreto estadual, há lugares altamente significativos, que integram o patrimônio cultural de Canudos. A sepultura do heróico coronel Tamarindo encontra-se, por exemplo, na serra do Angico. Objetos de dimensões e valor histórico estão dispersos. É o caso do canhão Withworth 32, mais conhecido como a matadeira, do cruzeiro da submersa vila de Canudos e da escultura Antônio Conselheiro, de Mário Cravo Júnior.

Além de livros, terras e materiais de guerra, farta e não explorada documentação guardam os arquivos militares da Bahia, Rio de Janeiro, Pará, São Paulo e Amazonas, especialmente das polícias militares que tomaram parte nos combates. Tudo isso levei em conta para o projeto do parque, que alcança aspectos outros - arqueológicos, ecológicos e agronômicos - como unidade de conservação.

  Ruínas da igreja da segunda Canudos que ressurgiram com a seca em 1996. (Antenor Júnior)

Ruínas da igreja da segunda Canudos que ressurgiram com a seca em 1996 (Foto de Antenor Júnior)

2.2 Criação e Reserva de Terras para Implantação do Parque

Uma das medidas necessárias para a implantação do parque foi a declaração de reserva das terras devolutas. Para tanto, o Instituto de Terras da Bahia (Interba) procedeu aos levantamentos viabilizadores das glebas, pertencentes ao próprio Estado. Assim, pelo Decreto nº 33.193, de 27 de maio de 1986: "Fica declarada reservada (...) a área de terras devolutas medindo, aproximadamente, 1.321 (um mil, trezentos e vinte e um) hectares, situada no município de Canudos, neste Estado, e descrita no memorial".

Já pelo Decreto 33.333, de 30 de junho de 1986, efetiva-se o projeto sobre Canudos, com a emenda: "Cria o Parque Estadual de Canudos, no município de Canudos - Estado da Bahia e dá outras providências".

A finalidade da reserva é para a implantação do parque histórico e arqueológico, promoção de pesquisas e estudos de tal natureza, em favor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Posteriormente, o Decreto nº 2.650, de 8 de agosto de 1986, dispõe também sobre a mesma matéria.

Em 1986, quando da criação do Parque, publique dois artigos - "O Projeto Canudos" e "Educação em Canudos", transcritos a seguir.

  Pedro Santos em uma trincheira da Guerra de Canudos. (Antônio Olavo)

Pedro Santos em uma trincheira da Guerra de Canudos (Foto de Antônio Olavo)

2.3 O Projeto Canudos

(Edivaldo Boaventura, "A Tarde", 11 de setembro de 1986)

"Dia a dia avulta a importância histórica da Guerra de Canudos, o que nos levou a dar atenção especial ao seu sítio histórico. Já na época em que criamos o Parque Histórico Castro Alves, em 1971, e depois quando o reformamos, bem assim, quando influímos junto às autoridades federais para a delimitação do Parque da Chapada Diamantina, segundo o projeto Roy Funch, tínhamos em mente o Parque de Canudos.

Renato Ferraz, que tanto colaborou na organização do primeiro parque, em 1970 e 1971, trouxe-nos uma sugestão concreta para a criação do Parque de Canudos, em começos de 1985. Considerava o estudioso, em primeiro lugar, a copiosa bibliografia sobre a Guerra de Canudos, liderada pela obra genial de Euclides da Cunha, "Os Sertões"; em segundo, o abandono e a depredação das áreas contíguas ao Açude Cocorobó, bem assim o saque de restos materiais da guerra, como documentos e outros; em terceiro, alguns objetos de dimensões monumentais como o famoso canhão Withworth 32, conhecido como matadeira, o Cruzeiro da antiga Vila de Canudos e a escultura de Mário Cravo "Antônio Conselheiro"; em quarto, a instalação do Memorial de Canudos, no município de Euclides da Cunha; em quinto, a existência de farta documentação na Bahia e fora dela, como na Biblioteca do Exército e na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro; também o Grêmio Euclides da Cunha, em São Paulo e, finalmente, a colaboração de especialistas como o professor José Calasans Brandão da Silva, o diretor do Instituto de Patrimônio Cultural e Artístico da Bahia (IPAC) e os dirigentes militares da região. Todas essas ponderações conduziram ao Projeto Canudos.

Desde a sua formulação, vinculamos o Projeto à Universidade do Estado da Bahia (Uneb), sobretudo agora que foi autorizada pelo governo federal. A Uneb é expressiva presença na região, especialmente em juazeiro, onde conta com duas unidades universitárias, assim como em Paulo Afonso, onde um núcleo inicial se resolveu em Centro de Educação Superior. Também está presente em Euclides da Cunha, contando, desde o início, com a colaboração do prefeito Renato Campos, incentivador do Memorial de Canudos. A presença da Uneb ainda se faz sentir em Ribeira do Pombal, sede de vários organismos estaduais, como a Superintendência Regional de Educação e Cultura, SUREC, não se omitindo, evidentemente, Alagoinhas, onde funciona mais do que uma Faculdade de Formação de Professores já há bastante tempo, e um Campus da Uneb que está sendo planejado. Nada mais legítimo, pois, que o Projeto do Parque de Canudos se vinculasse à Uneb que, para tanto, conta com o Centro de Estudos Euclides da Cunha, o CEEC.

Ainda em 1985, a UNEB começou a elaboração do projeto para a criação do parque arqueológico, histórico e natural no local exato onde ocorreu o último confronto entre forças do Exército e Policiais Militares de diversos estados da federação e partidários de Antônio Conselheiro.

Trata-se de uma área de 1.321 hectares, situada no recém criado município de Canudos, confrontando-se ao norte com os terrenos da Universidade Federal da Bahia-Centro de Pesquisas e Tratamento de Água; ao sul, com o riacho das Umburanas; ao leste, com a estrada Bendegó-Canudos; e ao oeste, com o açude de Cocorobó. É o local preciso onde relevantes eventos da história brasileira aconteceram e encontrava repleto de evidências arqueológicas, que a Uneb, como organismo de conscientização cultural da área, está resgatando e conservando para a preservação da memória histórica nacional.

Com base nos dados levantados pelos técnicos da Uneb, tendo à frente seu reitor, professor José Edelzuito Soares, e o assessor Renato Ferraz, o governador João Durval Carneiro, por sugestão nossa, encaminhou a Exposição de Motivos ao secretário da Agricultura Dr. Fernando Cincurá de Andrade, para que o Interba, Instituto de Terras da Bahia, procedesse aos estudos viabilizadores para a declaração de reserva da área de terras acima referida, conforme a legislação estadual, considerando que as terras pertencem ao próprio estado da Bahia, conforme a Lei nº 3.038/1972.

A colaboração da Secretaria da Agricultura não se fez tardar. E o Decreto nº 33.193, de 27 de maio de 1986 declarou: "reservada a área de terras devolutas que indica, para fins de implantação de Parque Histórico e Arqueológico" (Diário Oficial de 28 de maio de 1986) em favor da Universidade do Estado da Bahia - Uneb, observando-se os limites definidos no memorial descritivo no anexo desse Decreto. O mesmo Decreto determina que o Interba e a Procuradoria Geral do Estado deverão se articular para a execução das providências. Em tempo, o Decreto foi republicado em 26 e 29 de junho de 1986, fazendo menção expressa ao Parque de Canudos.

Concluiu-se, deste modo, a primeira etapa das ações, que visava assegurar a posse do sítio histórico para a implantação do Parque Histórico e Arqueológico e para a promoção de pesquisas e estudos relacionados. Logo após, em 1º de julho deste ano, seria criado o Parque Estadual de Canudos por decreto do governo João Durval Carneiro.

 

2.4 Educação em Canudos

(Edivaldo Boaventura, "A Tarde", 25 de setembro de 1986)  

Canudos-BA (Antônio Olavo)

Canudos-BA (Foto de Antônio Olavo)

A criação do Parque de Canudos pelo decreto nº 33.333, de 30 de junho deste ano, publicado no Diário Oficial de 1º de julho, coincide com a implantação da administração do recém-criado município de Canudos, tendo à frente o prefeito Manoel Adriano Filho.

O projeto do Parque, a cargo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) conta com o apoio da comunidade local, que participa da sua implantação. Deste modo, a administração estadual, de um lado, e a administração local, do outro, estão trabalhando com o mesmo objetivo e a Secretaria de Educação tem apoiado o município para que desenvolva plenamente a educação. Uma das funções do Parque será a educativa. Além das escolas que estão sendo construídas na sede do município é preciso que se instale uma no Parque, assegurando condições permanentes de funcionamento ao Projeto. Como todo município novo, Canudos precisa de uma atenção especial por parte do Estado, o que já vem ocorrendo, através de convênio que permite dotá-lo de escolas, devendo o prefeito Manoel Adriano Filho construir em 86/87 pelo menos doze salas de aula. Da mesma forma está edificado o Órgão Municipal de Educação (OME) pelo Edurural e Canudos terá a sua Secretaria Municipal de Educação antes do prédio da Prefeitura. O trabalho do município, no setor de educação, vem sendo liderado pela professora Ana Maria Ferreira, licenciada em educação física e assistência social. O Departamento de Educação Continuada da Secretaria Estadual começará dentro em pouco a implantação do Núcleo de Educação de Adultos (NEA) e o programa LOGOS será iniciado para atender as sessenta professoras leigas da área rural de Canudos. Tudo isso em perfeito entrosamento com as autoridades encarregadas do Projeto do Parque.

A recente visita de inspeção que já fizemos quando do encerramento da Ação Comunitária e da Ação Documento, juntamente com outras secretarias e com a significativa participação da VI Região Militar, serviu para examinar a situação educacional de perto e planejarmos as próximas etapas. Para Renato Ferraz, coordenador do Projeto Canudos, a população escolarizável justifica uma escola nas proximidades do Parque. Para efetivá-la, convênio já foi assinado na prefeitura com a Secretaria de Educação, no dia 19 deste. A escola será a primeira construção no Parque, assim como a atividade educacional deverá ser a primeira de caráter permanente instalada e a funcionar no início de 1987. Enquanto na esfera local se desenvolvem os projetos de apoio à população, na Uneb, particularmente no Centro de Estudos Euclides da Cunha (CEEC), a professora Iara Ataíde encaminha as pesquisas e projetos em três linhas. Primeiramente, trata de reunir a documentação escrita, oral e audiovisual de Canudos, para resgate de memória histórica. Em segundo lugar, elabora projetos sócio-econômicos com aplicação e a participação da comunidade. Estudos estão sendo planejados para solos, caprinocultura, botânica, fauna e flora, com vistas à preservação de espécies em extinção. Em terceiro e último lugar, trabalhos estão sendo realizados para salvaguarda dos sítios históricos, dedicando-se especial atenção ao turismo cultural planejado, com o auxílio de arqueólogos, como o professor Paulo Zanettini, e antropólogos físicos, como Heloísa Kuser, que já trabalha na área, e João César Cabral. No Campus de Narandiba, a Uneb treina uma equipe de estagiários. Dessa forma, os estudos preliminares vão em três sentidos: documentação, economia e história.

O próximo seminário sobre o Parque de Canudos a ser realizado, parte em Salvador, e parte em Canudos, espera contar com a participação de outros organismos estaduais, notadamente a Secretaria de Agricultura e o Interba, Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social, Secretaria da Indústria, Comércio e Turismo e a Emtur. Além das repartições federais que já tradicionalmente trabalham na área, como o DNOCS e a Universidade Federal da Bahia, também a SUDENE deverá ser convidada.

A administração municipal de Manoel Adriano Filho, em Canudos, e a administração estadual em Salvador, liderada pela Uneb, se movimentam no mesmo sentido para instalar em pleno Nordeste da Bahia um Parque ecológico histórico e cultural sob a inspiração de Euclides da Cunha.

Digna de menção é a coincidência de publicação recente de novos livros sobre Canudos/Euclides da Cunha. Além dos estudos do mestre José Calasans Brandão da Silva, de Umberto Peregrino, de José Aras e de muitos outros, como a clássica obra de Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares, "A Guerra de Canudos", a Editora Brasiliense publicou a edição crítica de "Os Sertões", por Walnice Nogueira Galvão, em fins de 1985, e a Fundação Casa de Rui Barbosa, como o apoio do grupo Monteiro Aranha S.A., editou "Canudos, Subsídios para sua Reavaliação Histórica", em 1986. Pode-se prever, pela documentação recolhida pela Uneb, que é bem provável que novos estudos com novas descobertas sairão das informações coletadas.

 

2.5 A Criação do Parque de Canudos na Imprensa

2.5.1 Parque de Canudos terá Distrito Ecoturístico

(Correio da Bahia, 19 de setembro de 1986)

Com a recente criação do Parque Estadual de Canudos, o superintendente da Emtur (Empreendimentos Turísticos da Bahia), subsidiária da Bahiatursa, José Albuquerque, acredita que poderá concretizar-se um antigo projeto elaborado pelos técnicos da empresa: o da implantação do Distrito Ecoturístico-Cultural de Canudos.

"Desde alguns anos atrás", lembra José Albuquerque, "pretendemos explorar o potencial turístico do sertão de Canudos, mas a falta de infra-estrutura mínima na região e as dificuldades de acesso vinham-nos impedindo de realizar a nossa proposta". De fato, a região tem tudo para absorver um fluxo turístico expressivo: além de palco de acontecimentos históricos de expressão nacional tem características peculiares na sua ecologia, formação geológica, artesanato, culinária e calendário de festas.

A vegetação de caatinga - como o cajueiro anão, alecrim-do-tabuleiro, canudo de pito, juazeiro, xique-xique, entre outros -, as formações rochosas, os animais como as emas e os passarinhos de várias espécies que ainda podem ser vistos em estado selvagem constituem-se em atrações potenciais. O artesanato mais significativo, pela pureza de suas características, é a cerâmica, cuja confecção dispensa o uso do torno manual, conservando os padrões ancestrais. Na culinária típica destaca-se o bode assado, o doce de umbu e a rapadura. No calendário de festas os eventos maiores são os de São João e São Pedro.  

Um Conselheirista. Fotografia de Flávio de Barros, 1897

Um Conselheirista. Fotografia de Flávio de Barros, 1897

    De acordo com a proposta dos técnicos da Emtur, o Distrito Ecoturístico Cultural teria três equipamentos básicos: a reconstituição do Arraial de Canudos, a instalação de uma reserva ecológica e o aproveitamento turístico do açude de Cocorobó. A implantação de um mini-arraial de Canudos serviria como cenário para apresentação teatral sobre a campanha de Canudos e outros eventos culturais, históricos, musicais e folclóricos da região - externamente seria o mais possível parecido ao aspecto do antigo arraial - e, concomitantemente, como infra-estrutura receptiva, sendo internamente meio de hospedagem, de alimentação e atendimento turístico.

A implantação da reserva ecológica possibilitaria a preservação das ricas fauna e flora da região e complementaria a ambiência natural em torno do Arraial de Canudos, dando maior autenticidade ao local. Com 24 quilômetros de comprimento, o Açude de Cocorobó presta-se a prática de esportes náuticos e pesca e o seu aproveitamento turístico possibilitaria a utilização não só pelos visitantes mas também pela própria população hoje sem muito lazer.

O primeiro passo para a implantação do Distrito já foi dado: a Emtur assinou recentemente três convênios com a SUDENE para a implantação do Jardim Euclidiano em área anexa ao Hotel do Conselheiro (com espécies vegetais típicas da região Nordeste da Bahia) elaboração do anteprojeto arquitetônico de reconstituição do arraial e consultoria do historiador José Calasans que repassará aos técnicos da Emtur informações sobre a vida em Canudos. "Os equipamentos turísticos chegaram a Canudos junto com outras medidas do Governo do Estado", acrescenta José Albuquerque.

Se, no entanto, somente a partir de agora a Emtur poderá iniciar o projeto em Canudos, já há algum tempo vem dotando a região Nordeste da Bahia - na qual Canudos está inserida - de vários e importantes equipamentos turísticos. Entre eles, instalação do Museu do Sertão, em Monte Santo, dotado de acervo fotográfico da guerra e 400 peças de ex-votos; a reabertura do Grande Hotel de Cipó, inteiramente restaurado com os investimentos do Governo do Estado e EMBRATUR, é a restauração dos balneários termais de Itapicuru e Jorrinho, com participação da Seplantec, Interurb e prefeituras.

A região ganhou também camping com piscina, parque infantil e área gramada, instalado no balneário termal de Jorro; o Hotel do Conselheiro, em Euclides da Cunha, com recursos do Estado e EMBRATUR, dotado de 19 apartamentos e de suítes e que em breve terá o Núcleo de Memória Sertaneja, com documentos, fotos, publicações e depoimentos sobre a história de Canudos. Há ainda os hotéis municipais de Cícero Dantas (Serra do Boqueirão) e uauá (Vaza-Barris), construídos com recursos da Emtur, EMBRATUR e prefeituras.

  Antônio Conselheiro morto em foto de Flávio de Barros - 1897

Antônio Conselheiro morto em foto de Flávio de Barros - 1897

2.5.2 Pesquisadores Reconstituem as Táticas dos Jagunços

Regina Bortolo

(A Tarde, 26 de abril 1988)

Na tentativa de esclarecer imprecisões da História no que se refere à Guerra de Canudos, em 1986 foi elaborado o projeto Canudos. Alocado no Centro de Estudos Euclides da Cunha, órgão suplementar da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Para desenvolver os projetos de Geologia e Arqueologia e implantar o Parque Estadual de Canudos, criado na mesma época, foram contratados o geólogo Jorge Glauco Nascimento e o arqueólogo Paulo Zanettini, que tinham por objetivo realizar uma reconstituição bibliográfica, no Arquivo do Exército, na área das operações de guerrilha e, partindo de uma análise da bacia hidrográfica da região, juntamente com dados arqueológicos, o geólogo Jorge Glauco levantou as táticas de guerra empregadas pelas milícias de Antônio Conselheiro, chegando à concepção geo-estratégica jagunça.

Muito se tem escrito sobre as revoltas e rebeliões populares no Brasil, ao longo de sua evolução política. No entanto, a maioria dos estudos das últimas décadas não atentou para a realização de trabalhos que façam menção às táticas usadas pelos protagonistas desses movimentos. Os poucos que se preocuparam com o assunto fizeram-no de maneira vaga, podendo-se afirmar que alguns nem sequer conhecem área física sobre a qual escreveram. No caso de Canudos, a maior guerra de guerrilhas do Brasil, foram escritas e formuladas teorias, partindo da premissa da pregação de Antônio Conselheiro sobre o uso coletivo da terra. No entanto, fontes orais, descendentes de líderes da comunidade conselheirista, afirmam o contrário. Também, em Canudos, a História oficial passa a idéia de um jagunço fanatizado e ignorante, não tomando em consideração o saber da comunidade.

 

Geo-Estratétia da Guerra

O geólogo sentiu necessidade de abordar Canudos como um acontecimento de caráter regional, e não local como foi tratado taticamente pelas forças legais, que lá estiveram combatendo. Para ele, a análise através do conceito de bacia hidrográfica deve-se ao fato da água ser fundamental, devido as características climáticas para implantação de uma comunidade, ao mesmo tempo em que é vital para uma guerra. Canudos, no caso, ocupa posição dominante na bacia hidrográfica do Vaza-Barris, para obtenção de água e como entroncamento de vias de acesso.

"A visão de um conflito mais amplo é percebida por procedimentos táticos das forças legalistas, que passaram a estabelecer bases logísticas em diversos pontos da região", explicou Jorge Glauco. A manobra tática, levada a cabo pelo coronel Siqueira de Menezes e que culminou com o final da guerra, é exemplo disso, na opinião dele. "O coronel desceu o Alto da Favela - local do acampamento do Exército - e passou a ocupar posições de interesse geo-tático como as Fazendas Rancho do Vigário e Juá, ocorrendo a tomada da Serra do Cambaio no dia 28 de setembro, já próximo do final da guerra".

Pelo lado jagunço, de acordo com o estudo do técnico, foi observado aproveitamento tático perfeito do terreno, propício para a guerra de guerrilha. As milícias jagunças atacavam de surpresa, travando combates de encontro com a clara intenção de conduzir a tropa do Exército aos arredores e interior de Canudos. Em locais previamente escolhidos e preparados, os jagunços, liderados por João Abade, considerado o estrategista da Guerra de Canudos pelo lado jagunço, ardilosamente levavam as tropas do Exército para Canudos, quando estas acreditavam estarem ganhando posição no combate, acuando o inimigo. Na verdade, suas colunas estavam sendo gradativamente desmanteladas durante a condução das tropa do Alto da Favela.

A concepção estratégica jagunça consistia em deixar o Exército preso ao terreno, cercado pela barreira ecológica do Raso da Catarina, local desconhecido, seco e com poucas condições para sobrevivência. A única via de acesso utilizada pela tropa do Exército, que era o Riacho Umburanas, foi bloqueado pelos jagunços na altura da Fazenda Rancho do Vigário e Serra do Angico, dessa forma, o cerco fechava-se em Canudos ao mesmo tempo em que atraía os esforços das tropas legais para lá.

 

Guerra Psicológica

Conforme o estudo de Glauco, os procedimentos táticos dos jagunços tinham a clara intenção de quebrar a cadeia de comando com o uso de tiros, dirigidos preferencialmente a oficiais, um alvo fácil devido aos galões dourados de seu fardamento e ao costume da época em que o comandante da tropa colocava-se sempre à frente para dar exemplo de brio e coragem, facilitando assim a caçada empreendida aos oficiais. O moral da tropa do Exército também era constante e profundamente abalado, porque o jagunço era um inimigo invisível, que se camuflava na paisagem e, algumas vezes, deixava cadáveres de oficiais e soldados à mostra ao longo das vias de acesso à cidade.

Para ele, a idéia de um grupo de fanáticos e ignorantes não é adequada à Guerra de Canudos. "Os combates não foram travados aleatoriamente. Canudos foi uma comunidade organizada, que se preparou para a guerra com saber próprio, advindo das necessidades, experiências e injunções históricas, que conformaram e moldam a cultura sertaneja ao longo do tempo", justifica. "Não se pode esquecer que o desbravador seiscentista, forçado a se interiorizar devido à expansão da lavoura açucareira, que empurrou os currais para o Oeste, subindo o Rio São Francisco, foi combatido por táticas guerrilheiras, utilizadas pelos indígenas e assimilou traços da cultura indígena. As atividades indígenas estão relacionadas com as dos caçadores coletores nômades, herança percebida pelos inúmeros vestígios arqueológicos em pedra lascada, encontrados espalhados por toda a região", afirma Glauco.

Ainda conforme Glauco, devido às peculiaridades da sua atividade econômica o sertanejo era senhor de si, não acostumado com a presença do patrão, que ficava no litoral e pouco parecia. Desta maneira, o tipo humano do sertanejo tem afinidade com o homem do ciclo do gado, trazendo em si os processos e práticas de violência dos desbravadores dos séculos XVI e XVII.

 

Áreas de Conflito

A região de Canudos, uma das áreas mais quentes do globo, inserida no domínio morfoclimático das caatingas brasileiras, escolhida por Antônio Conselheiro, obedeceu também a critérios táticos. Segundo constatação do geólogo, a maior parte da rede de drenagem do curso superior da bacia hidrográfica do Vaza-Barris converge para Canudos, facilitando a obtenção de água através de represamento nas cacimbas e poços de rochas impermeáveis existentes. O local para onde os jagunços conduziram as tropas legais, lado esquerdo do Rio Umburanas, é o que menos possuía aguadas. Em contrapartida, a região, conhecida como Lagoa de Sangue, área de dominação jagunça, é a que mais aguada possuía. Isso também foi constatado, na época, pelo coronel Siqueira de Menezes, chefe da Comissão de Engenheiros Militares do Exército que operava na área.

A seu favor os jagunços tinham um conjunto de serras: Canabrava, Poço de Cima, Cocorobó, Vermelha, Vigário, Angico e outras, com nítido controle estrutural, funcionando como muralhas naturais, uma vez que as vias de acesso disponíveis passavam por canyons, facilitando a manutenção das posições e controle das vias. Esse conjunto de serras teve seu valor estratégico percebido por Euclides da Cunha, em sua obra sem, no entanto, ter seu entendimento tático devidamente esclarecido. De acordo com o estudo geológico, no interior dessa muralha protetora, é observado um relevo escalonado em pequenas distâncias horizontais, configurando-se como linhas de trincheiras naturais, permitindo às milícias jagunças recuarem para um andar superior e constituir nova linha de tiro a cada ataque das forças legalistas.

O sistema climático, com fortíssima entrada de energia solar e chuvas escassas e irregulares, associado aos extensos areais e a vegetação que cobre a região, dificultava a marcha das tropas legais, levando os soldado à exaustão, e, seus uniformes inadequados, a frangalhos. Euclides da Cunha percebeu a importância da vegetação da trama, quando a descreveu como aliada incorruptível do sertanejo. Seus trançados impenetráveis, abrindo-lhe em trilhas multivias, são familiares ao jagunço que cresceu na região. Glauco constatou que a vegetação funcionou como cobertura e abrigo aos jagunços, pois, além de camuflá-los, sua trama desviava a trajetória das balas inimigas, que vinham do leito do rio ou do alto sem vegetação.

 

Cerco às tropas

De acordo com análise feitas nos roteiros seguidos pelas Terceira e Quarta expedições do Exército (Primeira Coluna), durante o ano de 1897, em Canudos, foi verificado pelo geólogo que elas seguiram o mesmo caminho a partir da Serra do Caxamangó. Isso deve-se, na sua opinião, à superioridade da tática jagunça de conduzir e concentrar tropas em local previamente escolhido. A Segunda Coluna da quarta expedição, que pretendia consolidar um envolvimento tático em Canudos, teve seu percurso desviado nas proximidades da cidade devido ao ardil jagunço, que a forçou ir em socorro da Primeira Coluna que estava sendo massacrada no Alto da Favela, local determinado para concentração das tropas, conforme a tática dos jagunços.

Conforme a ordem do dia 884, de agosto de 1897, redigida pelo general Savaget, isso foi comprovado quando descreve que, apesar de estar em ótima posição, após combater, em Cocorobó, um dos combates mais sangrentos da guerra, faz uma marcha de flanco sob a posição inimiga e encontra-se com a Primeira Coluna. Durante esse percurso a Segunda Coluna sofreu ataque ao seu comboio de munição e comida, tornando-se evidente que os jagunços queriam deixá-los sem comida e munição para combater. Procedimento semelhante foi utilizado com a Primeira Coluna, que, após estar entrincheirada e cercada no Alto da Favela teve seu comboio de munição e comida atacado 12 quilômetros antes, no Rancho do Vigário.

Nos ataques aos comboios, os jagunços dirigiam o fogo aos animais de carga, dificultando assim o transporte de alimentos e munição, sendo constatado, através de documentos, que, realmente, o que lhes interessava era a munição, uma vez que a comida era abandonada. Consolidou-se assim o bloqueio da via de acesso disponível ao Exército, finalizando o cerco preparado pelos jagunços. A subsistência da comunidade de Canudos era garantida através da Serra do Cambaio, que permitia comunicação com a bacia hidrográfica do Rio São Francisco e as cidade próximas. Para se ter idéia da importância dessa posição, ela caiu somente na última semana da guerra.

A análise, baseada em documentos, permitiu ao geólogo questionar o número real de membros da comunidade conselheirista, pois o Exército estimou o efetivo inimigo em 25 mil pessoas, baseado no número de casas; mas documentos, como o do coronel Carlos Silva Teles, comandante da 4ª Brigada, estimam o efetivo jagunço em 600 combatentes. Supõe-se que as casas, na verdade, funcionavam como casamata e não como moradia, devido ao grande número de túneis de ligação entre elas. As partes de combates do final da guerra são unânimes em relatar a perfeita distribuição das cercas, trincheiras, valas e labirintos no interior da cidade.

De acordo com as concepções estratégicas de guerrilha existentes hoje, Canudos contraria apenas um princípio básico: seus protagonistas optaram por uma base fixa e não móvel, explica o geólogo. O Exército, por sua vez, quando analisou a situação, errou quanto à abrangência da missa, não tomou em consideração o valor do terreno, do inimigo e avaliou mal os meios disponíveis para cumprir sua missão. O apoio da população aos jagunços foi importante na medida em que formavam uma rede de informação, que fornecia dados precisos quanto ao efetivo inimigo e sua disposição no terreno, sabiamente usado por eles.

 

Condição atual

"A condição social vivida pela comunidade de Canudos, hoje, pode ser comparada aos tempos de Antônio Conselheiro", diz o geólogo. "A economia concentra-se em parte na produção de sementes para a multinacional Agroceres. A plantação de alimentos é direcionada exclusivamente para a produção dessas sementes num processo absurdo, que somente utiliza a semente, deixando as polpas apodrecendo ao sol". O açude de Cocorobó, segundo ele, que hoje sepulta sob sua água o Arraial do Belo Monte, antiga Canudos, foi construído e é mantido por um órgão federal, mas existe na prática para benefício da Agroceres. A população vive em péssimas condições de vida, e outra atividade econômica de que dispõem é a criação extensiva dos rebanhos de caprinos e bovinos, mas, vem sendo a cada dia mais prejudicada pelas cercas dos grileiros que além de se apropriarem da terra, deixam as aguadas inacessíveis aos animais.

O estudo em documentos recentes indicou ao técnico que inúmeras operações que o Exército realizou no local revelaram a inoperância das suas viaturas - elas apresentaram problemas de carburação. A água fervia em seus reservatórios impróprios e foi somente no ano passado, com a criação do Batalhão de Caatinga, com homens treinados para combater sob essas condições, que o Exército equipou-se melhor. O próximo passo do estudo, desenvolvido por Jorge Glauco seria a elaboração da concepção geopolítica na época da Guerra de Canudos, inclusive a participação da Igreja. As desavenças políticas na região são antigas e merecem estudo detalhado. Datam de 1895, quando o Barão de Jeremoabo, gonçalvista, criou uma duplicidade do Poder Legislativo com os vianistas. O trabalho está paralisado porque faltam recursos para sua continuidade. Em março último, foi apresentado, no Rio de Janeiro, para historiadores do Exército e membros da Fundação Casa Rui Barbosa, que se dedicam ao estudo de Canudos. A repercussão foi boa, recebendo elogios pelo caráter inusitado e qualidade da pesquisa.

 

2.5.3 Uma Visão Geopolítica da Guerra de Canudos

Ângela Peroba

(A Tarde, 28 de julho de 1988)

Depois de reconstituir o cotidiano da Guerra de Canudos, conseguindo um resultado da concepção geo-estratégica da maior guerra de guerrilhas do Brasil, o geólogo Jorge Glauco Nascimento está em vias de partir para uma investigação não menos inusitada: a concepção geopolítica da guerra. Embora ainda somente "armado" de hipóteses com base na reflexão e observação, Glauco usufrui das informações que tem, dando conta de n forma de manipulação política da época, envolvendo inclusive a Igreja.

Implantada em 1893, "Canudos era uma pequena comunidade já formada e não uma fazenda abandonada", cujo proprietário das terras era o Barão de Jeremoabo. Deputado gonçalvista (um dos representantes da oligarquia da época), o Barão fazia oposição ao governador da Bahia, Luiz Viana, fato que certamente não pode passar em brancas nuvens no contexto da localidade onde a guerra foi deflagrada. O segundo dado muito importante diz respeito às várias cartas datadas de 1895, enviadas por Antônio Conselheiro ao Barão de Jeremoabo, pedindo-lhe doações de terra, sinal de uma relação amistosa. Para associar mais uma informação às suas reflexões acerca do contexto geopolítico daquele período histórico, Glauco citou mais um fato relevante, a duplicidade do Poder Legislativo com os vianistas criada pelo Barão, dando-se um paralelismo de governo.

 

Manipulação

Através de uma investigação séria, tal como procedeu na pesquisa em torno da análise geo-estratégica jagunça, o geólogo pretende chegar à confirmação da hipótese de que havia "fortes doses de manipulação política durante a implantação da comunidade de Canudos, assim como durante a guerra". A priori, as reflexões de Glauco apontam para as possíveis estratégias do Barão de Jeremoabo, cujo centro de interesse seria desestabilizar o governo Luiz Viana. Convicto de que a neutralidade é conversa para boi dormir, o geólogo não pode crer na passividade do barão, como dono das terras, frente à conquista das mesmas por Antônio Conselheiro, que àquela altura de 95 já cavava trincheiras. Mais uma vez Glauco ressalta a correspondência mantida entre Conselheiro e o Barão, um evidente indício de entendimento entre ambos.

Com respaldo em documentos do Exército, Glauco analisa, dentro daquele contexto de manipulação, o papel de parte do clero, que de hegemônico só possuía mesmo a aparência. O geólogo transmite a atuação de um tal padre conhecido como Martinez, o qual era dono de uma fábrica de pólvora, localizada na Missão do Sabre, em Juazeiro. De acordo com as informações de Glauco, do depósito da fábrica, situado em Vila Nova (Bonfim), o padre fornecia armas e guarnições, valendo como curiosidade citar que o barril custava 35 mil réis. Ano se pode também esquecer que esse "jogo bélico" entre clero e guerrilheiro interrompeu-se apenas na 3ª Expedição de Exército, não contendo qualquer dado sobre o início da negociação.

Imprecisões, deturpações e equívocos decorrentes de uma "leitura" tendenciosa da Guerra de Canudos não faltaram para contar história, de acordo com as investigações de Glauco. Restringindo-se nesse momento a uma "peneirada" para se chegar à realidade sócio-política daquela época, o geólogo desmistifica qualquer idéia de que havia uma sociedade igualitária em Canudos. A questão levantada pelo estudioso é pertinente: "Que sociedade igualitária é essa que apresentava casas com telhas e outras tantas sem telhas, encontrando-se também até restos de louças inglesa nas habitações não cobertas pelas águas? O que se sabe mesmo é que existia um contigente faminto, uma comunidade que fatalmente apelaria para a guerra".

 

Líder carismático

Quanto à controvertida figura de Antônio Conselheiro, Glauco não faz parte do time que o vê como um louco, um fanático religioso. Na opinião do geólogo, "Conselheiro era um líder carismático, que possuía um potencial grande de liderança e soube fazer uso da tendência mística do povo sertanejo. Conselheiro não se diferenciava muito desses religiosos que hoje em dia saem pregando pelas ruas... apenas ele soube chegar às ambições pessoais dele, alimentando a parte mística do povo. Conselheiro era tão louco como esses religiosos de hoje. A diferença é que pregava um ortodoxo evangelho de autoflagelação, a Missão Abreviada". A visão de Glauco é de que Conselheiro foi bastante manipulado pelo Barão de Jeremoabo e pelos políticos da época, em rol dos interesses da oligarquia, mas até um certo limite. "Certamente o Barão de Jeremoabo não esperava que as coisas tomassem esse rumo, chegassem ao ponto de radicalização que descontrolasse tudo. Mas não podemos esquecer o charme do poder que seduziu o Messias em busca da Terra Prometida".

Outro aspecto bastante interessante diz respeito a uma esperta observação de Glauco com relação à manipulação sofrida por Conselheiro. "Não sei quantas manipulações aconteceram no sertão baiano e em outras localidades do País, mas que tomaram rumos diferentes. Existem na verdade dois caminhos quando se chego a certo ponto. Ou se conchava ou se vai à guerra". Uma ilustração imediata foi a figura de padre Cícero, que permite um permite paralelismo com Antônio Conselheiro, com a diferença que o primeiro se coligou com a oligarquia e não partiu para a guerra. "O caso é tão similar que até mesmo um dos membros de Conselheiro, Honório Nova, serviu assim com um assessor do padre Cícero. Não bastasse esse fato de importância singular, Glauco recorda as similaridades entre a localidade (sertão), as condicionantes sociais, as forças políticas (grandes latifundiários) e o tipo humano. Não é preciso dizer que os "assessores" enviados ao padre Cícero objetivavam cavar as trincheiras. Mas o conchavo substituiu a rebelião", reflete Glauco.

 

Mudanças

Decorridos 91 anos da Guerra de Canudos, tempo suficiente para o devido distanciamento propício a uma análise crítica construtiva, Glauco, que investiu dois anos de pesquisa ao lado dos arqueólogos Paulo Zanettini e outros auxiliares, expõe o seu pensamento sobre a mensagem que a guerra deixou ao povo brasileiro. "A primeira coisa que se pode aprender é que essa história que o povo do Brasil é pacífico e que as transformações políticas da Monarquia para a República se deram de modo ordeiro, não são bem assim como se conta hoje, através da História do Brasil. É importante não se subestimar os saberes próprios de cada povo, advindos das relações que ele tem com o meio em que vive, com a natureza. O povo não é boçal, não é ignorante como se costuma pensar. É preciso se pensar que o povo é manipulado até um certo limite, mas chega uma hora em que ele vai responder às conturbações políticas de uma dada época. Chega uma hora que não se controla mais".

O interesse do geólogo mineiro (com sotaque de andarilho) pelo tema Canudos despontou com um convite ao arqueólogo paulista Paulo Zanettini, em 86, quando então foi elaborado o Projeto Canudos, através do Centro de Estudos Euclides da Cunha, órgão vinculado à Uneb.

Como um aficcionado pelo estudo geoestratégico da história das guerras, Glauco não titubeou em aceitar a empreitada, compartilhando com o objetivo de reconstruir o cotidiano da Guerra de Canudos. Através de um minucioso mapeamento arqueológico-geológico de toda a região de Canudos, o geólogo fez um levantamento desse dia a dia do jagunço, sinalizando no mapa as várias espécies de vestígios encontrados. Valeu de tudo: louças, vidros de medicamentos, pente de bala, cápsulas de balas, restos de cantis, fundo de cantil transformado em ralador para ajudar no rango, para não falar nos ossos de gente, identificados pelo geólogo como "sítios funerários".

 

"Os Sertões"

    A importância da obra "Os Sertões", de Euclides da Cunha, não foi de modo algum esquecida pelo estudioso de Canudos. Muito pelo contrário, embora Glauco não compartilhe com o grupo dos que exaltam Euclides da Cunha como um mito. O senso crítico do geólogo está aceso: "Trata-se de um relato de guerra, mas, com uma preocupação clara em escrever um romance. É uma obra literária fantástica, com dados importantes do cotidiano da guerra, mas deturpados pela visão dominante. Como tantos outros livros, "Os Sertões" não considera a argúcia do jagunço, subestima um saber próprio de um povo". Certamente foi por esse rumo que seguiu a pesquisa incrementada pelo geólogo e toda uma equipe composta por um arqueólogo, um antropólogo físico e mais dois topógrafos. Ao que tudo indica, as táticas usadas pela equipe deram certo. Afinal, não se faz uma guerra sem saber onde se está pisando. Os interessados em conhecer essa leitura de Canudos pela ótica jagunça, com direito a visualizar o detalhado mapa traçado pelo geólogo (a concepção geo-estratégica da guerra) terão de esperar um pouco mais. Deve estar a caminho o Atlas Geo-Estratégico, com mapa explicativo e fotos ilustrativas. Uma provocação para a imaginação criativa do leito que não se satisfaz com a História oficial.

 

2.5.4 Pesquisadores Reconstituem a História de Canudos

(Jornal do Brasil - 8 de dezembro de 1988)

Pesquisadores do Centro de Estudos Euclides da Cunha, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) estão tentando reconstituir a história da Guerra de Canudos, travada no final do século passado no interior da Bahia, tendo de um lado os jagunços do beato Antônio Conselheiro e do outro, tropas do Exército. Em seu trabalho, os pesquisadores estão recorrendo à pesquisa de campo, aos registros orais e a documentos guardados no Brasil e no exterior, que estão sendo cadastrados e microfilmados.

O estudo dos documentos e a coleta dos registros orais estão indo bem e devem progredir mais no próximo ano. A pesquisa de campo, no entanto, está praticamente parada e pode não ter condições de continuar, por escassez de verbas. Animados com a primeira parte do levantamento de campo, quando foram encontrados inúmeros vestígios da guerra, como esqueletos de jagunços e soldados, fragmentos de armas e projéteis, restos de roupas e pedaços de vidro, louça e cerâmica, os pesquisadores estavam se preparando para entrar na segunda etapa, mais dispendiosa, quando se defrontaram com a falta de recursos. Agora, procuram-se alternativas para prosseguir o trabalho.

 

Verba Irrisória

Este ano, o CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica) destinou uma verba de Cz$ 500 mil, considerada tão irrisória que foi devolvida, junto com uma exposição de motivos em que se alegava que seriam necessários Cz$ 5 milhões, em março.

"A primeira fase foi superficial e a verba deu. Mas agora, exatamente quando as despesas vão aumentar, pois precisamos de pessoas altamente especializadas e um maior número de equipamentos sofisticados, não podemos continuar o trabalho com a verba que o CNPq nos destinou", diz a professora Iara Dulce Bandeira de Ataíde, coordenadora do Centro de Estudos Euclides da Cunha.

Na primeira fase da pesquisa de campo, foram recolhidos os vestígios da Guerra de Canudos que estavam à flor da terra e demarcados os sítios mais importantes, como as valas comuns em que foram enterrados jagunços e soldados. A segunda fase implica escavações, precedidas de um minucioso trabalho de decapagem para retirada das camadas de terra e localização de trincheiras com grande com grande concentração de material.

Entre as peças encontradas, a que mais chamou a atenção foi um pedaço de lata, identificado como o fundo de um cantil, perfurado como um ralador. Os pesquisadores explicam que, para sobreviver nas condições adversas da caatinga, soldados ou jagunços teriam improvisado esse ralador, para fazer farinha das raízes do umbuzeiro, uma árvore típica do sertão. É conhecido o hábito de transformar em farinha as raízes dessa árvore, que produz o saboroso umbu. "Já foi feito um grande levantamento e agora, com as escavações, a proposta era reconstituir o palco da guerra, como ela se desenrolou logística e estrategicamente e também como estava organizado o próprio arraial de Canudos, antes da guerra", diz a professora Iara Ataíde. O local onde existiu o arraial está hoje sob as águas do açude de Cocorobó, construído pelo Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS), mas a professora ressalta que as pesquisas não estão impossibilitadas, porque os combates foram travados nas partes mais altas, que cercam o grande lago, de 200 milhões de metros cúbicos.

 

Arraial

A professora nem sonha em reconstituir o arraial, o que significaria a necessidade de muitos recursos para as pesquisas subaquáticas. No entanto, ela assegura que, a julgar pelas amostras colhidas na superfície da terra, seria possível fazer uma reconstituição perfeita da batalha final, no dia 5 de outubro de 1897, quando as tropas comandadas pelo general Artur Oscar dizimaram os jagunços de Antônio Conselheiro.

    Enquanto aguardam que o CNPq dê uma resposta ao pedido de verba, os pesquisadores do Centro de Estudos Euclides da Cunha fazem contatos com a Fundação Ford, que tomou conhecimento do projeto há sete meses e mostrou interesse em financiá-lo. Uma outra alternativa de financiamento é a Universidade de Miami, pois suas revistas já publicaram artigos sobre o assunto, assim como o jornal Miami Herald.

No local dos combates, foram recolhidos restos de cantis usados pelo Exército, botões de fardas de soldados e oficiais, pentes, cartuchos e balas, além de cacos de garrafas e fragmentos de peças de louça chinesa, francesa e inglesa. Dos jagunços, foram recolhidas amostras de cerâmica rústica, de barro cozido. Tudo isso está catalogado e identificado no Centro de Estudos Euclides da Cunha, aguardando o desenvolvimento do projeto de reconstituição da guerra.

Menos dispendiosa que a pesquisa de campo, a parte de cadastramento e microfilmagem dos documentos sobre a guerra mantidos no Brasil e no exterior está prosseguindo normalmente. A coleta de depoimentos de descendentes dos jagunços também continua e já foram ouvidas mais de 30 pessoas, que recontaram as histórias de combates que ouviram dos pais e de outros parentes. "É a história popular, sertaneja, contada pelos próprios sertanejos", comenta Iara Ataíde.

 

3 CANUDOS, UM PARQUE NO SEMI ÁRIDO

3.1 Introdução

Sob a inspiração histórico-militar, o Parque de Canudos deverá tomar uma dimensão ecológica, de acordo co  o seu projeto. Dessa forma, a Universidade do Estado da Bahia, pelo seu Centro de Estudos Euclides da Cunha, encaminhou as pesquisas sobre Canudos e seu parque em três direções: primeiramente, reunião da documentação escrita, oral e visual, para o resgate da memória histórica; em segundo lugar, elaboração de projetos sócio-econômicos com aplicação e participação da comunidade, para que o parque funcione como organismo vivo e atuante, em meio pobre, e em terceiro e último lugar, trabalhos foram realizados para a salvaguarda dos sítios históricos e arqueológicos, dedicando-se especial atenção ao turismo cultural e ecológico.  

Parque Estadual de Canudos. (Antenor Júnior)

Parque Estadual de Canudos (Foto de Antenor Júnior)

Além destas linhas de pesquisa, pude observar, na I Semana Cultural de Canudos, realizada em 1991, outras abordagens: conselheirista, euclidianista, histórico-militar e lampionóloga. Perfeitamente concertado com a tradição euclidianista, José Calasans Brandão da Silva (1986) é o pioneiro dos pesquisadores que centraram suas investigações na figura do Conselheiro. Calasans voltou os seus estudos para as fontes locais, entrevistando os últimos combatentes e visitando Canudos antes de ser inundada. A sua contribuição é considerável para a compreensão de Antônio Conselheiro, Canudos, Euclides da Cunha, enfim, tudo que diga respeito à civilização dos sertões.

Diferente da vertente de Calasans é a dos euclidianistas, principalmente do grupo de São José do Rio Pardo, em São Paulo. Representam este enfoque, dentre outros, Oswaldo Galotti e Adelino Brandão. Inclua-se também Umberto Peregrino.

Há um terceiro grupo que trabalha com Canudos do ponto de vista da história militar, a exemplo do saudoso José Augusto Vaz Sampaio Neto e do coronel Davis Ribeiro de Sena, dentre muitos outros.

Sem encarar Canudos de forma tão direta, mas, ocupando-se de um problema com nítidas características nordestinas, como o cangaço, são as investigações de Oleone Coelho Fontes, na Bahia, e Antônio Correia de Araújo, em São Paulo. Além dessas correntes, há outras, como os tradicionais estudos sobre o messianismo, de Maria Isaura Pereira de Queiroz. Registre-se a publicação da reportagem do jornalista Odorico Tavares, "Canudos, cinqüenta anos depois" (1993).

Como o interesse das pesquisas sobre Canudos tem crescido bastante, impulsionadas pela Universidade do Estado da Bahia, diretamente ou por intermédio do seu Centro de Estudos Euclides da Cunha, novas publicações têm saído com freqüência, destacando-se: "Centenário do Bello Monte", número especial da Revista da FAEEBA (1995) e o "Memorial de Canudos", de Trípoli F. B. Gaudenzi (1993).

Com a proximidade do centenário do término da guerra (1897-1997), novas atenções voltam-se para o local. Há todo um ciclo de comemorações nas semanas culturais programadas.

O parque está decretado, delimitado e visitado por muitos. A reserva legal de terras garante-lhe a existência. Falta-lhe plano de manejo, entretanto, é preciso acender os caminhos percorridos pelas expedições e pelos combatentes. De igual modo, deve-se assinalar os eventos com precisão e expressão. Há de um tudo para se fazer no parque, pois apenas o começou foi realizado. É preciso caracterizá-lo como parque que se assenta sobre um campo de batalha. Há que se marcar as passagens mais importantes e as manobras mais conhecidas.

Em Canudos, muitos lutaram e pereceram; Canudos é também cemitério militar. Por tudo isso, Canudos merece o nosso respeito maior. Há qualquer coisa de sagrado, talvez pelo muito sangue lá derramado. Canudos não pode ser um município como os outros. Marcas o distinguem dos demais. É bem diferente pela sua história.

Há uma lição de história religiosa, social, militar e política permanente a recolher. Há campo aberto para mais investigações, que deverão ir, se possível, além da epopéia magnífica e grandiloqüente de Euclides.

Por ser um parque situado no semi-árido, Canudos dá ensanchas para que se conserve a fauna e a flora. Será o encontro da história com a ecologia. Um parque de caráter ao mesmo tempo ecológico e cultural voltado para a conservação da natureza e da história (A Tarde - I Semana Cultural de Canudos, 1991).

A demarcação preservou o local onde ocorreram os últimos confrontos entre as forças regulares do Exército e os partidários do Conselheiro.

Os 1.321 hectares de terras reservadas limitam-se ao norte com terrenos da Universidade Federal da Bahia, Centro de Pesquisas e Tratamento de Água. Não havendo acidente geográfico demarcatório, tomou-se a rede elétrica como referência. Ao sul, a área ocupa a margem direita do riacho das Umburanas, logo depois do Alto da Favela. A margem leste do parque é a estrada Bendengó-Canudos, via que nasce em Feira de Santana, ultrapassa vários municípios e alcança as margens do rio São Francisco, em Barra do Tarrachil. Já para o oeste, a linha divisória é a represa do Cocorobó.

O parque ocupa local onde relevantes eventos da guerra tiveram lugar e se encontra repleto de evidências arqueológicas. Ingressando pelo riacho das Umburanas, seu ponto culminante é o Alto do Mário; por trás, localiza-se imensa vala comum onde foram enterrados muitos combatentes, provavelmente pela aproximação com o hospital. A faixa maior de argila permitiu que se cavasse a vala. Dada a depressão do terreno, chama-se, tragicamente, Vale da Morte.

O Alto do Mário dista do antigo arraial cerca de 1.200 metros. Há referências do assentamento dos canhões nessa elevação, o que permite estabelecer-se a distância com certa precisão. Entre o Alto do Mário e o Belo Monte havia os alicerces da fazenda velha. No Alto do Mário, faleceu o coronel Moreira César. Dando-se as costas para o cruzeiro tosco e solitário que encima o Alto do Mário, vê-se em frente a lâmina de água azul e serena que esconde a Canudos do Conselheiro.

Saindo-se em direção ao norte, alcança-se o Alto do Trabubu, local onde após o combate de Cocorobó, a coluna comandada pelo general Savaget, vinda de Aracaju, manteve o derradeiro combate com as forças de Antônio Conselheiro, antes de fazer o enlace com as tropas do general Arthur Oscar.

Encontram-se fora do parque as serras de Cocorobó, Angico e Cambaio. Esta última recorda os combates da Segunda Expedição comandada pelo major Febrônio de Brito, é onde se localiza a lagoa de Sangue, denominação tomada pela lagoa do Cipó, depois das baixas.

 

3.2 Função Educativa

Assim situado o parque, o seu projeto, a cargo da Universidade do Estado da Bahia, vem contando com o apoio da comunidade que participa da sua implantação. Tanto a administração municipal como a Universidade trabalham com o objetivo de realizar a sua construção. Uma das suas funções precípuas é a educativa. Além das escolas erguidas na sede, é preciso que se instale uma dentro do parque, assegurando-lhe condições efetivas de funcionamento e ocupação.

Como todo município novo, Canudos necessita de atenção especial por parte do Estado e da União. Convênio nesse sentido foi assinado com a Secre