Instituto de Pesquisas Sociais Euclides da Cunha
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BREVE RELATO HISTÓRICO SOBRE A GUERRA DE CANUDOS * Antônio Vicente Mendes Maciel, natural do Ceará, surgiu no interior dos Estados
da Bahia e de Sergipe em 1874, permanecendo ali durante quase um quarto de século.
Construiu e reformou capelas e igrejas, levantou muros em cemitérios, abriu pequenos
tanques de água, ofereceu conselhos aos camponeses. Por esta razão o apelidaram Antônio
Conselheiro. Sua voz era suave ao conversar com seus seguidores, que somavam milhares,
porém se tornava forte e agressiva ao pregar sobre determinados temas tais como: a
República, o casamento civil, a separação da Igreja do Estado, os maçons, os
protestantes, os abomináveis republicanos, etc. Seu pai, Vicente Mendes Maciel,
sonhava convertê-lo em sacerdote católico e tanto o obrigou a aprender a ler, escrever e
contar, além de tomar aulas de latim e francês. Apesar de não haver realizado o sonho
de seu pai, Antônio Conselheiro desempenhou diversas atividades: professor primário, rábula, vendedor ambulante e
vaqueiro. Sempre andarilho, abandonou sua terra natal em 1873, em direção ao sul
atravessando os estados do Ceará, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, chegando à Bahia em
1874. Trajava uma batina azul, barba e cabelo crescidos, chapéu de largas abas e um
grande cajado na mão. Um misterioso
caminhante, cujos conselhos atraiam e seduziam o povo. Em pouco tempo tinha seu próprio
séquito. Os seguidores não duvidavam de sua
santidade e muitos criam que era o próprio Cristo reencarnado. Parece que não aceitava
tamanha consagração. Deus é outra pessoa, dizia. Se declarava um pecador
que devia purgar seus pecados e chamava a
todos de irmãos. Em seus sermões imitava aos padres, persignando-se e
citando frases em latim. O povo o escutava reverente e fascinado. Em 1895, ao passar pela
Vila de Bom Conselho, marcou a importância de sua figura, ao vestir sotaina branca e
arrodear-se de doze apóstolos, adotando uma postura de confraria religiosa. Caminhou muito tempo em sua missão
de pregador, a pé ou a cavalo, às vezes em lombo de mula, detendo-se de espaço em
espaço para levantar algum templo nas vilas e povoados da região semi-árida do Estado
da Bahia. Em 1893, finalmente, estabeleceu-se
em Canudos, pequeno arraial banhado pelo rio Vasa-Barris, local que passou a chamar Bello
Monte. Em pouco tempo, o pequeno povoado se converteu na localidade mais densamente
povoada da Bahia, depois de Salvador, sua capital. Aproximadamente vinte e cinco mil
habitantes foi o cálculo feito após a guerra fratricida. Em seu incessante peregrinar, o
Santo Conselheiro conquistou fervorosos adeptos e
implacáveis inimigos. A seu lado permaneciam brancos,
negros, índios, gente de recursos, escravos há pouco libertados e camponeses sem terra.
Os proprietários rurais, prejudicados pelo êxodo em massa da mão-de-obra que deixava
despovoadas as fazendas, exigiam que o
Governo tomasse medidas enérgicas contra Antônio Conselheiro, no que eram secundados
pelos membros do alto clero que viam seus fiéis desertarem das igrejas em busca do novo Messias Nordestino. Os jornais de Salvador
freqüentemente estavam a assinalar os perigos de Bello Monte, caracterizando-o como um
provável foco de subversão da ordem
estabelecida. Pelos fins de outubro de 1896, chegaram aos ouvidos do Governador da Bahia
rumores aterradores de que os conselheiristas estariam preparando uma invasão da cidade
de Juazeiro. Era o que o Governo necessitava para justificar o envio de tropas federais que se constituíram na primeira expedição
contra Canudos. Derrotados, tiveram que retroceder. Seguiram-na duas outras expedições.
Todas retornaram com pesadas baixas e sem haver alcançado seu objetivo, ou seja, a
destruição da cidadela camponesa, valente e até esse momento inexpugnável. A quarta
expedição, formada por um verdadeiro exército, comandada por três generais e contando
com a presença do próprio Ministro da Guerra, depois de enfrentar grandes dificuldades
iniciais, logrou acabar com o reduto conselheirista ao cabo de quase quatro meses de luta
desalmada. O vencedor, sem grandeza nem
generosidade, assassinou barbaramente os vencidos, degolando crianças, mulheres e
anciãos. Poucos escaparam do massacre. Canudos entrou para a História como uma página de inconcebível violência por parte
dos vencedores e como o maior fratricídio da vida brasileira. Uma página negra. A tragédia de Canudos merece ser
recordada como uma advertência que tem como objetivo, entre outros aspectos, a defesa dos
direitos humanos. Inspirado neste tema, o artista plástico T.
Gaudenzi elaborou o seu Projeto Canudos, um total de, aproximadamente, 400
obras, 100% das quais compõem a exposição Canudos Rediviva. Neste trabalho,
a pugna de 97 é apresentada em série por este pintor vigoroso; nos quadros, como no
livro imortal de Euclydes da Cunha, deparamos a Terra, o Homem, a Luta. Gaudenzi, que
estudou o assunto sedutor, dá-nos uma visão magnífica
do histórico acontecimento. A guerra agreste, o homem destemido e a luta épica mereciam um grande pintor. E tiveram.
José Calasans * Resumo e adaptação de Renato Ferraz (curador da
exposição Canudos Rediviva), utilizando textos do Prof. José Calasans, publicados no
livro Memorial de Canudos e no catálogo da exposição Canudos
Rediviva, deTrípoli Gaudenzi. Dentre os cem trabalhos que integram a mostra, apresentamos aqui apenas dois:
Delenda Canudos!
(óleo s/tela s/eucatex - 57,0 x 80,0 cm). A ordem do Governo da República era de destruir Canudos a qualquer preço. A experiência de Canudos não deveria servir de exemplo para outros focos de sedição no país. A ordem foi rigorosamente cumprida, ao fim da 4ª expedição.
Os Últimos Defensores de Canudos (óleo s/tela
s/eucatex - 100,0 x 80,0 cm). Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnada palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia cinco, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores; eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam, raivosamente, cinco mil soldados! Euclydes da Cunha ( Os Sertões).
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