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Euclides
da Cunha e os Excluídos Lázaro
Curvêlo Chaves “A
ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega!” Albert
Einstein “O
importante não é o que um homem diz de sua fé, mas o que essa fé faz esse
homem realizar” Roger Garaudy “Uma
teoria só se concretiza num povo na medida em que é a concretização de suas
necessidades” Karl Marx
Introdução
Logo ao término da Guerra de Canudos, em 1898, Euclides da Cunha
mudou-se, com a família, para São José do Rio Pardo e foi na cidade, enquanto
supervisionava os trabalhos de reconstrução de uma Ponte Metálica, importante
escoadouro do café, principal riqueza da república recém-nascida, que pode
dispor do sossego necessário à atividade de abstração intelectual suficiente
para sistematizar suas anotações de campanha no que mais tarde foi saudado
pela crítica de seu tempo, que perdura, como a “Bíblia da Nacionalidade”
sua Obra máxima “Os Sertões”. Na cidade morou de 1898 a 1901, fez muitos
amigos, um de seus filhos, Manuel Afonso, nela nasceu e ficou difundindo no meio
euclidiano (de todos os que cultuam a vida, a obra e o legado de Euclides da
Cunha) o conhecimento de que, longe de sua Cantagalo natal, em São José do Rio
Pardo Euclides viu nascer três de suas principais criações: o livro “Os
Sertões”, a Ponte Metálica mais que centenária (foi inaugurada em 1901) e
seu filho, Manuel Afonso. Natural que a cidade o veja como um herói. Para simplificação de raciocínio, e guardadas as devidas proporções, seu trágico assassinato dia 15 de novembro de 1909 foi equivalente – mutatis mutandis – ao falecimento trágico de Ayrton Senna. Uma comoção nacional e uma comoção municipal dando origem há 92 anos ininterruptos à Semana Euclidiana, o mais importante evento cívico cultural, sem solução de continuidade, do calendário cultural brasileiro.
O dom da Graça
A dimensão profética é uma dimensão básica da constituição humana.
A filosofia hindu, por exemplo, informa que “sempre que a justiça fraqueja na
Terra, Deus encarna no mundo”. No Alcorão está escrito que “Deus sempre
envia profetas que falem em linguagem compreensível ao povo”.
Os
sociólogos definem “cientificamente” a espera messiânica como a ânsia
pela vinda de um enviado divino que, dotado de poderes extraordinários,
restaurará a ordem entre aqueles que nele crêem.
Weber
toma de empréstimo à teologia cristã a expressão “carisma”, literalmente
“dom da graça” e informa que os líderes carismáticos são aqueles que
conseguem, por demonstrar qualidades sobre-humanas (exagerada capacidade bélica,
de liderança, oratória ou outra qualidade superior ao comum dos mortais),
conglomerar em torno de si grupos significativos de pessoas que passam a nele
crer e, dentro do grupo, a palavra do líder carismático transforma-se na mais
plena expressão da verdade (magister dixit, como no medioevo...)
Entre
os milhares de líderes carismáticos que conhecemos ou de que ouvimos falar
podemos citar, a título de mero exemplo e guardadas as suas devidas proporções
de espaço, tempo, missão e propósitos os Profetas Bíblicos, Maomé, Lênin,
Mahatma Gandhi, Hitler, Stálin, Mussolini, Luís Carlos Prestes, Antônio
Conselheiro, Getúlio Vargas, Fidel Castro, Muammar Khadafi, Saddam Hussein e
por aí vai. Enfatizo não estar fazendo aqui qualquer colocação de cunho ético
ou valorativo. Trata-se da mera constatação do fato de aquelas pessoas
supracitadas serem líderes carismáticos que, durante um bom tempo, conseguiram
conglomerar um significativo número de adeptos e fiéis às suas prédicas (não
está aqui em questão, passe a redundância, se foram líderes de seus povos
para o bem ou para o mal seja qual for a acepção que se queira dar a estes
termos). Para o que estamos aqui observando, a palavra messiânico como definida
acima também se aplica.
José
Carlos Mariátegui, sociólogo peruano, informa em O Homem e o Mito que a revolução
científico-racionalista do ocidente deixou um grande vazio no homem, uma vez
que, tanto a razão quanto a ciência não podem constituir-se em mitos, não têm
o poder de mover as massas à ação. Na modernidade, pensadores como Joseph
Campbell, anseiam pelo surgimento de um mito novo, de uma nova religião mesmo
que, como todas as outras surgidas no mundo, possa dar conta dos aspectos mais
avançados de nosso tempo, sejam eles o ético, o jurídico, o científico... A
nova religião, da qual ouvimos notícias embrionárias aqui e ali, precisa ser,
como o foram todas as outras em seu tempo, de ponta em todos os aspectos do
conhecimento e da vivência humana, com particular ênfase à dimensão ética.
Quase
desnecessário enfatizar que uma liderança carismática surge nos momentos de
maior crise em uma dada comunidade.
Em
todos os tempos há pessoas que surgem com pregações diferentes ou inovadoras,
nem sempre encontrando eco às suas prédicas. Quando o que dizem e
principalmente o que fazem está em sintonia com a situação prática da vida
das pessoas, surge fulgurante o fenômeno do messianismo. Talvez estejamos
vivendo um tempo assim em escala global, quem poderá dizê-lo são os pósteros,
claro. Há os que surgem com pregações em nada ou quase nada sincronizadas com
a vida do povo. Estes, normalmente, são tidos e havidos como tresloucados, lunáticos,
coisas assim, não passando mesmo de alienados mentais.
Quando
em momentos de crise em qualquer comunidade humana, surgem estas tentativas
desesperadas de ver alguma ordem no caos que ameaça imperar ou já impera. No
Brasil, por exemplo, quando ainda o chamavam de Pindorama, os Tupinambás,
segundo nos relata Pierre Clastres em A Sociedade Contra o Estado, viviam uma
situação de superpopulação, carências materiais e crise de autoridade.
Muitos seguiam verdadeiros “messias” - na acepção antropológica do termo
- saindo do litoral em direção à Amazônia, onde haveria “uma terra sem
mal”. Vale ressaltar que os Tupinambás há muito deixaram de existir. Contra
eles os colonizadores, nossos ancestrais, praticaram o genocídio sem a menor
contemplação.
Segundo
Douglas Teixeira Monteiro em Um Confronto Entre Juazeiro, Canudos e o
Contestado, na segunda metade do século passado houve por um lado uma grave
crise no sertão nordestino e, por outro, um estímulo do Vaticano a um
revivescer da fé católica, com o apoio institucional da Igreja, mesmo, vários
leigos eram levados a aproximar-se mais da religião e, dentro dos rudimentos de
sua capacidade de compreensão, assim como daquela gente simples a quem se
dirigiam, a mensagem evangélica era retransmitida.
Neste
contexto surgem pregadores os mais diversos, dentre os quais Antônio Vicente
Mendes Maciel, o “Conselheiro”, “um gnóstico bronco”, “um heresiarca
do século II em plena idade moderna”, “um monstro”, segundo ajuíza
Euclides da Cunha em Os Sertões. Um homem do povo que, falando na língua do
povo, dizia o que o povo queria e precisava ouvir e fazia o possível para
suplantar o caos em seu tempo pelo menos até onde chegava sua esfera de influência.
Conglomerando
milhares de adeptos ao seu redor, tentando construir um projeto civilizatório
diferente, atraiu a si a fúria, em primeiro lugar dos “coronéis” das
redondezas privados da mão-de-obra barata que, evidentemente, preferia ir para
o Belo Monte com toda a beleza poética e profética que a circundava a
trabalhar em condições muito pouco satisfatórias. Isso, claro, quando havia
serviço no sertão... Por outro lado, bastante ligado às tradições católicas,
Antônio Vicente Mendes Maciel protesta e luta contra a república - não que
tivesse qualquer contato ou vínculo com os Orleans e Bragança, sua pregação
era sebastianista! Com efeito, o orgulhoso positivismo republicano tirou da
Igreja uma série de prerrogativas, por exemplo com a criação do casamento
civil e a laicização dos cemitérios... Lutando com dificuldade - e
conseguindo - melhorias existenciais para sua gente, Antônio Conselheiro acaba
por atrair a repressão brutal de uma república incipiente, acaba por atrair a
ira fanática daqueles que o julgavam (ou assim faziam crer através de maciça
propaganda) “um monarquista disposto a lutar pela restauração do império de
Pedro II” quando na verdade, o que ele queria mesmo era ver o império da
“lei de Deus”, contra a “lei do Cão” da república velha.
No
Brasil inúmeros foram os casos de tentativas de implantação de um projeto
civilizatório diferente, todos implacavelmente massacrados pela sociedade
afluente: Palmares, Colônia Cecília, a República Comunista Cristã dos
Guaranis, Canudos, o Contestado... Somente os episódios que tiveram evento em
Canudos contaram com a cobertura de alguém do porte genial de Euclides da
Cunha, deixando-nos o legado de ter mais amor, compreensão e tolerância para
com o diferente, enfim. Cada comunidade humana tem um pouco de diferente, de
crenças e convicções aí meio esquisitonas mas todos somos irmãos afinal;
como galhos da mesma árvore ou ondas de um mesmo oceano... Presença de Euclides
O
sucesso da Aldeia Sagrada de Belo Monte, como era chamada pelos habitantes
locais, sua recusa em pagar impostos à república que nada lhes oferecia exceto
repressão e o fato de a mão-de-obra barata que os encarregados das fazendas
locais, por ordem dos “Coronéis” acabaram por conduzir a uma guerra covarde
tendo (como todas as guerras, de Canudos a Bagdá) um motivo de improvável a
irreal. Em Canudos foi um pedido de madeira para a construção de uma Igreja na
Aldeia Sagrada. Madeira comprada e paga na vizinha cidade de Juazeiro da Bahia,
recebe o Conselheiro que os proprietários da empresa (talvez por pressão dos
“coronéis”, talvez por descaso mesmo, jamais se saberá) não dispunham de
gente suficiente para levar o material até Belo Monte. A isto o Conselheiro
teve uma sugestão muito simples e enviou a mensagem: “gente aqui tem de
sobra! Deixe que vamos busca-la!”. Dolosa ou culposamente o Juiz da Comarca de
Juazeiro compreendeu a mensagem como uma “invasão de jagunços à pacata
cidade” e convocou a Polícia Militar que foi, armada, ao encontro dos
canudenses. Melhores conhecedores do terreno e motivados por uma fé inabalável,
derrotaram os policiais e apoderaram-se do armamento voltando, ainda surpresos,
para Belo Monte. Neste momento, por pressão das autoridades, o Exército
Brasileiro foi convocado a dar combate àqueles “bárbaros”. No
final do século XIX a questão “civilização versus barbárie” se colocava
como a ordem do dia. Assim, em nome da civilização cristã ocidental, a Europa
“civilizou” massacrando contingentes humanos gigantescos na África e na Ásia
no processo hoje conhecido como “neocolonialismo”. Era necessário escoar o
excedente da produção européia ampliando o mercado consumidor e conseguir mão-de-obra
barata, a Europa – Inglaterra à frente – foi a grande protagonista daquele
processo de massacre totalitário, de cima para baixo, aquela “globalização”
como chamaríamos hoje. Sim, o mundo já passou pela macedônica, pela
“globalização” romana, pela “globalização” ibérica, pela
“globalização” britânica e hoje passa pela “globalização”
estadunidense. Todas desumanas e fugazes. A
guerra de Canudos insere-se no contexto da “globalização” européia também
conhecida como “neocolonialismo”. Um Amigo enfatizou-me certa feita que, em
guerras e pescarias a primeira vítima é a verdade. Os jornais cariocas
estampavam manchetes tão sensacionalistas quanto inverídicas dando conta de
que os canudenses queriam a volta de D. Pedro e a restauração da monarquia
(eles não tinham o menor contato ou simpatia recíproca com os Orleans e Bragança
recentemete ejetados do poder! Ansiavam messianicamente pela volta de D. Sebastião,
morto pelos mouros em 1578 na Batalha de Alcácer Quibir!) até porque eram
anti-republicanos. E de fato o eram. De delírio em delírio chegou-se a falar
em canibalismo, bestialidade, incesto e insanidades tais que a Imprensa
Paulista, liderada por Júlio de Mesquita (o patriarca da Família “Estadão”)
decidiu-se a convidar seu brilhante colaborador Euclides da Cunha para, na condição
de Primeiro Correspondente de Guerra da História, informar o que cargas d’água
estava de fato acontecendo por lá. Fosse como fosse, a guerra já estava a seu
final quando a viagem de Euclides da Cunha a Canudos tornou-se viável. Ele
levou consigo todo o preconceito da época contra os canudenses encontrando lá
um quadro totalmente diferente do até então avençado; ao lermos a Obra máxima
de Euclides da Cunha, por sinal, verificamos que fica estarrecido com a barbárie
de que são capazes as tropas republicanas; não menos, aliás, que o fica com o
"fanatismo" dos conselheiristas... Em nome do progresso e da civilização
assassinaram-se mais de cinqüenta mil seres humanos, mocinhas foram tomadas
como escravas (em plena república!) como denunciou Júlio José Chiavenatto e
destruiu-se uma proposta civilizatória pacífica e ordeira que só desejava
viver independente da “república do cão” – uma breve reflexão acerca
dos horrores da guerra: conduzidos pelo Conselheiro os canudenses eram levados a
crer que se morressem a tiro das tropas republicanas iriam para o paraíso. Se,
por outro lado, fossem vitimados pela faca, iriam para o inferno. Uma das
predileções dos soldados disto sabedores era ordenar ao capturado que gritasse
um “viva a República”, que equivalia a condenação eterna – e receberiam
uma bala misericordiosa. Caso contrário, seriam mortos a faca... A Evolução intelectual e moral do ser humano
Há
pouco assistimos a ocupação do Iraque por tropas estadunidenses em desrespeito
a uma decisão do Conselho de Segurança da ONU – o que torna os EUA uma Nação
fora-da-lei – em nome da “globalização”, da defesa da “civilização”
contra a “barbárie” de um ditador sanguinário (guindado ao poder por
interesses estadunidenses, sempre é bom lembrar): Sadam Hussein. O principal
motivo dado ao mundo foi a existência de “armas de destruição em massa”.
Curiosamente, os iraquianos, que em defesa de seu próprio estilo de vida, pela
“lógica” da guerra usaram todo o armamento possível, jamais fizeram uso
das tais “armas de destruição em massa”. Iraque de joelhos e Sadam Hussein
preso, não se encontra o menor vestígio das tais armas em todo o país. Pior
que isso, seguem a ocupação daquela Nação soberana, que deveria ser livre,
mesmo que já esteja comprovada a inexistência das tais “armas de destruição
em massa” e o ditador esteja preso sofrendo sabe-se lá que sorte de torturas
que, de vez em quando, denunciam-se torturas a iraquianos. Naturalmente, a
propaganda maciça pró-EUA, que nós pagamos, por sinal, enfatiza que alguns
“civis inocentes”, todos mercenários contratados a preço de ouro para
massacrar iraquianos são “seqüestrados” naquele país. A solução para
este tipo de problema parece tão simples... O que cargas d’água fazem lá os
invasores? Por que não voltam para a casa inteirinhos e preferem massacrar e
mutilar milhares de nativos pelo direito discutível de voltar para a casa em
pedacinhos dentro de caixões? Se a medicina avançasse com a velocidade da indústria
armamentista, não apenas teríamos a fome e a miséria erradicada do mundo como
teríamos ainda cura para todo o tipo de doença (AIDS, Câncer, etc.) e a
expectativa de vida do ser humano poderia girar em torno de 140 anos com
mortalidade infantil tendente a zero. Basta perceber que, com o valor de um único
tanque de guerra seria possível construir quase mil escolas de ensino
fundamental. De que o mundo precisa mais? Tanques, balas e canhões ou escolas e
hospitais? Euclides
da Cunha, numa de suas frases mais felizes informa das vantagens de se ter
levado a Canudos, ao invés de armamento e soldados, “o mestre-escola”. Esta
assertiva, é tão atual e tão antiga quanto a vontade de um povo dominar o
outro... Tomou notas, escreveu para o Estado de S. Paulo uma série de artigos quando ficou sabendo logo ao término da Guerra de Canudos, que uma ponte estratégica para o escoamento de café do sul de Minas e Nordeste de São Paulo para o mar, havia ruído sobre o rio Pardo; sendo encarregado das Obras Públicas do Estado, o ex-tenente Euclides da Cunha sente-se diretamente responsabilizado pelo ocorrido e se muda, com a família, para a pacata cidade de São José do Rio Pardo onde mora e faz amigos entre 1898 e 1901 – um de seus filhos, Manuel Afonso, é rio-pardense nato, inclusive. Nos intervalos de folga da (re) construção da Ponte Metálica sistematiza suas notas de campanha – cuja memória possivelmente estivesse bem nítida em sua mente – no que mais tarde vem a ser o consagrado “Os Sertões”. Muda-se de São José do Rio Pardo, passa por outras cidades, sempre nelas deixando novas obras ou restaurações e fixa-se no Rio de Janeiro onde, livro consagrado, é aclamado membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Sua morte fatídica a 15 de novembro de 1909 deixa a nação em geral e a cidade de São José do Rio Pardo em particular, compungida. Podemos fazer um paralelo com a morte de Ayrton Senna no sentido da comoção nacional causada. Tal motivo faz nascer, em São José do Rio Pardo, “por protesto e adoração” – protesto contra a morte infame e a impunidade do assassino (que, de resto, matou Euclides da Cunha em legítima defesa...) e adoração a sua obra – a Semana Euclidiana, já quase centenária. O
Brasil dos Excluídos
A
eleição de Luís Inácio Lula da Silva para a presidência da república do
Brasil suscita-nos uma série de reflexões. Trata-se, na acepção weberiana do
termo, de uma liderança de tipo “burocrático-formal” ou “legal”, pois
que legitimada pelo processo eleitoral e não conduzido a seu posto por um
movimento que desafie a legalidade (o que nos permitiria, tranqüilamente, dada
inclusive a popularidade de que gozou durante um curto período) tratá-lo como
um líder “carismático”.
Os
oprimidos, no Brasil, aprenderam muito e hoje ensinam algumas lições ao mundo.
Até o início do século XX ainda se pensava e praticava, à esquerda,
norteados pelo mote “a violência é a parteira da história”, a tomada
violenta do poder como única via possível de conduzir efetivamente os
oprimidos ao poder e que, assim, deixassem de o ser. Assim foi de fato na então
URSS e em Cuba. O início do século XXI faz-nos encontrar um mundo que guindou
perigosamente para a direita em praticamente todos os campos tornando impraticável
a violência como caminho conducente ao poder político. Em primeiro lugar pela
inquestionável superioridade de poder de fogo dos defensores da chamada
“ordem” tradicional, burguesa, capitalista. Em segundo lugar por questões
ligadas à valorização sem precedentes históricos à questão dos “direitos
humanos” no mundo. Em terceiro por outros fatores novos, portanto não
previstos nas obras tradicionais de norteamento à atuação da luta dos
oprimidos desta terra;
Fatores
novos, portanto não previstos nas obras tradicionais de norteamento à atuação
da luta dos oprimidos desta terra explicam-nos porque o século XXI faz-nos
encontrar um mundo politicamente à direita em praticamente todos os campos da
vida humana tornando impraticável a violência como caminho conducente ao poder
político: 1) A inquestionável
superioridade de poder de fogo dos defensores da chamada “ordem”
tradicional, burguesa, capitalista. 2) A questão, sem precedentes
históricos, da valorização dos “direitos humanos” no mundo. 3) Diversificação nos
interesses das classes trabalhadoras: Como bem o enfatiza Fidel Castro, não se
pode mais falar numa única “Classe Trabalhadora” ou num único partido que
represente os trabalhadores. Os interesses dos funcionários da elite operária
das Montadoras do ABCD paulista são completamente diferentes daqueles dos
cortadores de cana-de-açúcar do agreste pernambucano, por exemplo. 4) Criminosos comuns utilizando
linguajar revolucionário. As décadas de 60 e 70, particularmente na América
Latina, trouxeram regimes de exceção, as ditaduras militares que optaram por
conduzir prisioneiros políticos, comunistas, a cadeias onde jaziam criminosos
comuns, o que os politizou. Hoje, traficantes, ladrões e seqüestradores aqui
no Brasil como na Colômbia e em outros pontos da América, utilizam um
linguajar que, naquelas décadas, seria considerado muito similar ao discurso
marxista. A lógica aristotélica do capital trouxe-nos esta perversão, esta
perversidade: se o comunista é um criminoso comum os criminosos comuns serão
comunistas... Caso similar conduziu à ascenção do nazismo na Alemanha. Um
retrocesso à ditadura militar na América Latina seria difícil, quase inimaginável,
dada a valorização que se dá hoje aos direitos humanos. É fundamental
ressaltar, contudo, que a luta burguesa a favor dos direitos humanos
circunscreve-se a defender a não implantação ou proliferação da tortura ou
de tratamentos ou penas “cruéis, desumanos e degradantes”. Infelizmente,
ainda não se consideram ou se tratam como governos assassinos e desrespeitosos
para com os direitos humanos aqueles que condenam povos inteiros à morte ou a
uma vida miserável (freqüentemente mesmo conducente à criminalidade) pela
exploração cruel a que se vêem submetidos. O Lula faz de sua meta empírica,
existencial e epistemológica o fim da fome no Brasil, o que já chamou a atenção
da ONU e se ele, apesar de todos os percalços, demonstrar na prática que é
possível garantir a todos os brasileiros três refeições por dia, teremos um
ponto inegável de inflexão na história do mundo. Sempre lembrando, como Frei
Betto faz Lula repetir: “o povo tem fome de pão e de beleza...” A luta dos oprimidos acontece e, por vezes é vitoriosa, no mundo da política concreta, possível, mas começa bem antes, com um engajamento corajoso na direção da conquista da Utopia. Como os seguidores de Antônio Conselheiro fizeram as margens do rio Vaza-Barris se transformar em cuscuz e com que o próprio rio tivesse suas águas transformadas em leite (claro que há muito trabalho humano concreto nestes processos de transformação, mas o discurso metafórico segue imbatível!) a luta dos excluídos precisa ocorrer antes e acima de qualquer coisa no campo da Utopia, na busca da conquista do Utópico seguramente se construirá um mundo melhor. Indispensável em qualquer Biblioteca: Obra Completa de Euclides da Cunha - Afrânio Coutinho, org. Ajude a manter esta página ativa! - Clique aqui e veja como fazer Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
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