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Carlos Zacarias*, de
Salvador (BA)
No início dos
anos 1920, o espectro da Revolução Russa de 1917 exalava os odores dos
novos tempos que começavam a se construir num distante e atrasado país
entre a Europa e a Ásia. Nunca, em nenhum momento da história, a
humanidade tinha presenciado feito tão extraordinário e espetacular,
quando milhares de pessoas, cansadas do cotidiano massacre intensificado
pela Grande Guerra (1914-1918), saíram às ruas e disseram que as coisas
não podiam continuar como até então, e quando os de baixo disseram que
não queriam, os de cima perceberam que não podiam continuar dominando.
Liderada pelos bolcheviques, aquela massa humana promoveu a primeira
grande revolução operária e socialista da história. Pela primeira vez,
as massas exploradas triunfaram.
A importância da Revolução Russa de 1917, especialmente
da Revolução de Outubro, pode ser identificada não apenas pelo conteúdo
das transformações realizadas na Rússia semifeudal, mas principalmente
pela inspiração que elevou a classe trabalhadora ao protagonismo das
lutas políticas em diversos países. Ao varrer do mapa o czarismo e junto
com ele a burguesia inepta, a Revolução de Outubro abrigou em seu
interior profundos significados que inspiraram as organizações operárias
que atuaram na vaga revolucionária aberta naqueles anos. Em que pese as
condições objetivas favoráveis e a esperança das principais lideranças
revolucionárias na vitória da revolução mundial, esta não vingou.
Contribuíram para o fato, a articulação das forças da contra-revolução,
que marchavam ao lado da revolução, e a traição da social-democracia,
especialmente na Alemanha, onde compunha o governo burguês e tinha
ajudado a liquidar as principais lideranças revolucionárias abrigadas na
Liga Espartaquista, como Rosa Luxemburgo e Karl Liebcknecht. Com efeito,
Lenin e Trotsky, os mais importantes líderes bolcheviques (agora
chamados de comunistas), reunidos no III Congresso da Internacional
Comunista, em 1921, avaliaram os aspectos parciais da derrota e
exortaram os Partidos Comunistas que se haviam criado em diversos
países, influenciados pelo sucesso da experiência soviética, a formarem
a Frente Única Proletária para “avançar na direção das grandes lutas se
armando para os novos combates”. A consigna definitiva daquele
importante congresso foi “às massas”.
Os ventos da Revolução chegam ao Brasil
No Brasil do primeiro quartel do século XX, a
influência da Revolução Russa não tardaria a chegar, pois o país
vivenciava um substancial incremento industrial provocado, sobretudo,
pela onda de expansão capitalista dos fins do século XIX e pela
necessidade de se substituir importações em virtude da inversão dos
fluxos de mercadorias. Assistiu-se nesse período a um vigoroso aumento
da produção industrial que trouxe consigo o crescimento da massa de
trabalhadores urbanos. Mas o desenvolvimento industrial não produziu a
distribuição da riqueza nem melhorias na vida do proletariado industrial
formado por migrantes que partiam do campo para as cidades. Pelo
contrário, as condições de existência nos centros urbanos eram
extremamente degradadas para a classe operária, com os trabalhadores
cumprindo uma carga horária excessiva, em indústrias insalubres e
doentias. Tal situação não poderia provocar outra coisa senão a
organização de sindicatos e associações e a realização de inúmeras
greves pelo país.
Foi entre 1917 e 1919 que as autoridades
oligárquicas brasileiras assistiram ao auge das lutas e da vaga grevista
após a entrada em cena da classe trabalhadora assalariada, composta de
imigrantes europeus e uma imensa maioria de brasileiros negro-mestiços.
Mas foi no simbólico ano de 1917 que a vaga grevista atingiu o seu ponto
máximo. Dentre as principais reivindicações dos operários brasileiros
naqueles anos, constavam a redução da jornada de trabalho, melhores
condições de vida, aumento de salários, fim do trabalho infantil e
equiparação dos salários de homens e mulheres, entre outras específicas.
É fundado o Partido Comunista do Brasil
É verdade que as greves que tiveram lugar no
Brasil entre 1917-19 inauguraram uma nova era do trabalho no Brasil. É
também importante salientar que muitas das reivindicações foram
conquistadas contra todas as dificuldades e resistências dos patrões e a
classe operária brasileira pôde consolidar suas lideranças nascidas das
correntes do chamado “sindicalismo revolucionário” (“anarco-sindicalismo”)
ou reformista (“amarelo”). Apesar disso, o movimento operário brasileiro
ainda não tinha forjado seus partidos de alcance nacional, sendo quase
todos eles organizações locais e de vida efêmera, e muito em função
dessa fragilidade organizativa, os trabalhadores não conseguiram
produzir conquistas duradouras. Foi somente em 1922, sob a influência da
Revolução Russa e do surgimento da Internacional Comunista, em 1919, que
uma parcela bastante minoritária do movimento operário brasileiro se
dedicou à construção de um partido político sólido, nacional e
centralizado. Em março de 1922, nas cidades de Niterói e do Rio de
Janeiro e, quando se reuniram nove delegados, representando 73
integrantes espalhados pelo Brasil, foi fundado o Partido Comunista do
Brasil (PCB). Muito embora esta não fosse a primeira tentativa da classe
operária de criar um Partido Comunista, era a primeira vez que a
experiência se apresentava como uma grande articulação nacional e com
alguma clareza ideológica.
Enfim, a classe operária brasileira forjava um
partido leninista, organização muito superior às experiências sindicais
e anarquistas anteriores. Mas os descaminhos e a burocratização do
movimento comunista internacional produziram também a degeneração do
PCB, que levou a inúmeras baixas, tendo a primeira delas ocorrido em
1928. Assim, quando o alfaiate Joaquim Barbosa, fundador do Partido,
saiu do PCB e levou consigo 40 sindicalistas, os movimentos operário e
socialista brasileiros conheceram a sua primeira grande cisão, também
diferente das cisões anteriores pelo conteúdo de crítica à degeneração e
aos desvios do stalinismo. É verdade que outras tantas cisões ocorreriam
no PCB nos anos seguintes, entretanto, essa dissidência tem uma
característica específica, pois esteve relacionada também ao aspecto
geral da luta internacional que Trotsky travava contra a burocratização
do Partido Comunista da URSS. Seria este grupo dissidente que em inícios
dos anos 30 viria a formar a Liga Comunista Internacionalista, a
primeira organização trotskista brasileira. Daquele momento em diante, o
movimento comunista internacional seguiria duas trajetórias distintas,
entre a teoria stalinista do “socialismo num só país” e a defesa de
Trotsky do internacionalismo proletário e da Revolução Permanente. Mas
esse percurso já é uma outra história.
*Professor de História do Brasil na UNEB e doutorando em História do
Norte e Nordeste do Brasil na UFPE.
Reproduzido, com
autorização, da página do jornal
Opinião
Socialista

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