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Furdunço
Propaganda subliminar
Quem não é de circo não entende nada do noticiário televisivo. Duas das maiores emissoras do país, ambas pleiteando quantias enormes junto ao BNDES para pagar suas contas, dedicaram boa parte de sua reportagem à questão do desemprego no Brasil criando mais confusão do que propriamente informando. A Rede Globo de Televisão, por exemplo, começou a semana com um programa especial no domingo passado “anunciando” uma enormidade de vagas para trabalho com turismo no Rio de Janeiro em meio a notícias de tiroteios entre traficantes e polícia nas favelas do Vidigal e da Rocinha (bem na Zona Sul, bairros nobres, do Rio de Janeiro). Abriu a semana com três séries de programas sobre a questão do emprego, nos jornais da rede ao meio-dia, às 8h da noite e à meia-noite, deixando a alguns a impressão de que “estava prestando um relevante serviço público”, à maioria a impressão de que “há milhares de vagas para empregos no Brasil, a culpa pelo desemprego é do próprio desempregado que, ou não soube se qualificar apropriadamente ou não soube procurar direito” e ao espírito crítico a nítida impressão de que estamos vendo uma propaganda maciça nos horários de notícia e de consolidada credibilidade diante da opinião pública. A TV Bandeirantes, após uma ligeira maquiagem, seguiu pelo mesmo caminho entre chamadas para o concurso de Miss Brasil, que pouquíssima gente ainda acompanha e menos ainda acredita. Mesmo pecado original: claríssima propaganda governamental!
Somando dois mais dois...
O governo federal passa por um momento de gravíssimas crises, em múltiplos planos. O mais gritante deles é o desemprego, o subemprego e os baixos salários, que chegam a seus índices mais tenebrosos da história republicana e a que todos os brasileiros nos vemos submetidos. Foi divulgado ainda que o governo federal disporia de elevadíssimas quantias para propaganda e, após algumas propagandas malsucedidas (usando o mote vazio “o trabalho sério começa a dar resultado” – um governo que precisa gastar milhões para mostrar que “é sério” carece de seriedade...) tudo indica que agora apelam para a propaganda subliminar disfarçada de “notícias” a fim de combater não o desemprego, a fome, a miséria ou o desespero, mas os baixos índices de aprovação governamental. Há várias formas de se divulgar as coisas. Anunciam-se vagas para postos muitas vezes modestos de Gari ou comerciário e as filas multiplicam-se em quantidades assombrosas de pessoas desesperadas e desempregadas e isto recebe menos de 10 segundos de informação noticiosa. Um cidadão capixaba, desempregado fica três dias acampado às portas do Planalto tentando uma audiência com o presidente que chegou a dizer à sua segurança que sempre abraçaria as pessoas nas ruas, desesperado, o sujeito pega um litro de álcool e tenta auto-imolar-se retratando bem a situação de uma parcela considerável da população; cobertura televisiva: 5 segundos, sem imagens. Abre-se uma vaga (aliás já preenchida) no turismo do Rio de Janeiro e o resultado são cerca de 20 longos e repisados minutos de “reportagem”, com várias chamadas em meio à programação normal.
Subestimando a opinião pública
Lula e sua equipe não constituem a primeira tentativa de manipular a opinião pública, subestimando a capacidade cognitiva de nossos compatriotas. A ditadura militar censurava, maquiava índices e buscava (por vezes não sem sucesso!) de todos os meios galvanizar a opinião pública a seu favor. Também Collor de Mello, no auge da crise de seu governo, tentava justificar excessos de recursos malversados com as mais enlouquecidas alegações (como um empréstimo pessoal em ouro do Uruguai, lembra-se?). Ainda assim demorou muito para que a TV Globo, sempre áulica, o abandonasse. Com tristeza vemos o filme ruim voltar péssimo e agravado ao cartaz. Resta saber se os cidadãos brasileiros conseguem efetivamente ver uma vida desgraçada no cotidiano (mendicância, prostituição, assaltos, tráfico de drogas, suicídios, saques, vandalismos e violências diversas) e ainda assim acreditam mais no que vêem na propaganda televisiva do que percebem em seus próprios bolsos ou no comportamento de seus semelhantes. Em outras palavras, resta ver se as pessoas ainda conseguem perceber a distância entre a realidade e a propaganda ou se o governo Lula tem razão e o povo brasileiro está imbecilizado de fato.
Angu de caroço com furdunço dentro
Em depoimento à CPI da ALERJ vimos pela TV o sr. Waldomiro Diniz às lágrimas, emocionado, afirmar que estava sendo chantageado e mostrar uma série de documentos nos quais dizia haver pedido a uma série de órgãos governamentais providências e investigação. Mentiu mais uma vez. Embora tenha encaminhado ofícios aos órgãos que citou, o teor era bem outro... Afirmou que efetivamente repassou dinheiro (conseguido sabe-se lá como) para campanhas petistas e aumentou a quantidade de dúvidas que, devido à greve na Polícia Federal, somente poderão ser apuradas através de uma CPI no Congresso Nacional, particularmente por ser assunto essencialmente político mesmo! De São Caetano chegam notícias também alarmantes: a família do prefeito assassinado, à ocasião líder da campanha presidencial petista, Celso Daniel encontrou uma série de evidências e contradições que deseja ver esclarecidas, num primeiro momento envolvendo pelo menos um deputado e um vereador petistas além do então assessor, hoje preso, Sérgio “Sombra”. Continuo pensando, após a morte súbita e trágica de uma série de pessoas de uma forma ou de outra ligadas àquele episódio, que seja o caso de uma CPI também. Trata-se de uma situação confusa que somente uma investigação detalhada e independente do Congresso Nacional, neste momento gravíssimo da vida nacional, poderia dar conta de todos os desdobramentos.
O perigo das “liberações de verba”
O Rio de Janeiro, como o resto desta combalida Nação, passa por uma crise de autoridade sem precedentes. A polícia do Estado faz o possível para conter o crime, quadrilhas se digladiam numa guerra pelo controle do tráfico e o governo anuncia “mais liberações de verbas” e, se necessário, o envio de tropas das Forças Armadas para colocar ordem na situação. O episódio – ridículo – do envio ou não de Forças Armadas foi trabalhado magistralmente pelo secretário Anthony Garotinho que, com aquela atitude corajosa quase desfez a má impressão deixada pela apresentação precipitada de um suspeito como sendo a definitiva solução do “Caso Staheli”. Já a “liberação de verbas” é mais complicada. Se não se efetiva na prática – como parece ser o caso – ficam as autoridades citadas com o ônus de provar que, de fato, não houve “liberação” alguma. De fato, diante dos mais escabrosos problemas a presidência da república tem se pautado por anunciar “liberações de recursos” de porte monumental. Enchente no Nordeste? Anuncia-se liberação de verbas. Ciclone no Sul? Liberação de Verbas. Problema de Segurança no Rio de Janeiro? Liberação de Verbas! O anúncio retumba e ribomba em toda a mídia. Quando os nordestinos se queixam de que o dinheiro não chegou, o mesmo fazendo os gaúchos e catarinenses, quase ninguém se dá conta – a divulgação é precária. Como explicar tanta e tão generosa “liberação de recursos” diante de uma polícia mal equipada, mal remunerada e em número abaixo do desejável? De fato a “liberação” é só peça de propaganda mesmo (mais uma!) e os recursos não chegam. É ver como será solucionada esta situação...
Polícia Federal em greve
Dentro de um quadro, entre outras coisas, de denúncias políticas e violência urbana exacerbada o governo tem ainda de tourear a polícia federal em greve e militares fazendo o possível para pressionar (impedidos constitucionalmente de fazer greves buscam formas alternativas: familiares, visitas a parlamentares, etc.) por melhores salários. O mais grave realmente é o caso da polícia federal. Não querem favores ou meramente reajuste salarial, querem “o cumprimento de uma lei”. Complicado, não? Dentro do preceito da equiparação entre funções e salários, os policiais mais antigos (que estão em greve) querem receber o mesmo que os mais novos e melhor remunerados. O governo fica acenando com “tantos porcento”, ameaçando cortar o ponto e os grevistas insistem – com o respaldo do Judiciário, que considerou a greve Legal! – “queremos que o governo cumpra a lei!”. O papel da polícia é principalmente o de assegurar o cumprimento da lei em todos os planos. O que fazer quando a autoridade máxima dentro da hierarquia policial descumpre a lei? Esta a gravidade da greve da polícia federal.
Correios cumprem amplo espectro de atividades
Há algum tempo mandei um e-mail ao Ministério das Comunicações com cópia à auditoria dos Correios para que vejam o que pode ser feito diante das muitas atribuições – com o mesmo número de funcionários – que todas as agências de Correio do país hoje assumem. Com minhas felicitações pelo esforço hercúleo que os funcionários dos Correios exercem e é o principal responsável pela enorme credibilidade e confiabilidade da população naquele órgão, chamo a atenção das autoridades para o que você e eu vemos o tempo todo em nossa própria carne. Já houve um tempo em que as agências postais tinham como finalidade primordial o manuseio (recebimento, distribuição e entrega) de correspondência. Hoje os Correios trabalham com diversas formas de loterias, vendendo e trocando bilhetes, recebem o pagamento de contas e efetivam pagamentos a pessoas físicas, etc. Sim, antes que me esqueça, continuam distribuindo a correspondência, com a mesma responsabilidade e competência de sempre, embora o número de funcionários tenha se mantido e suas atribuições multiplicadas. O resultado disso tem sido filas enormes e paralisantes, vale repetir, em todas as agências postais do país. Entra-se com uma ou duas cartinhas na fila (ou mesmo para comprar selos e evitar filas no futuro) e fica-se de duas a quatro horas à espera. Depois de muita gente comprar ou trocar bilhetes de loterias diversas, pagarem ou receberem quantias diversas – é preciso ressaltar que, em lugares como São Paulo e Rio de Janeiro alguns escritórios empregam pessoas com deficiências físicas ou na Terceira Idade como “Office boys”, pois a eles é dado, com justa razão, atendimento preferencial em filas de bancos e agências postais – até que chega a nossa vez. Já faz aí umas quatro semanas e ainda não obtive resposta alguma. Daí perguntar a meus leitores – todos dois – estarei delirando?
O avanço da civilização
Como tirei a semana para ver o que a televisão fala sobre a realidade em que vivemos tive oportunidade ainda de examinar muitas propagandas. Poucas chamam tanto a atenção do Educador como aquela do TSE conclamando jovens com idade superior a 16 anos a participar do processo eleitoral também. Numa delas surge um rapazola fazendo um gesto estranho com as duas mãos e, com a língua para fora exibindo nela uma espécie de “botoque” – levemente diferente do tipo usado pelos Bororo, principalmente por ser de metal e não de madeira – manifesta sua expressão intelectual monossilabicamente: “ieah! Ieah!”. Entra uma senhora distinta com uma vassoura na mão e, acidentalmente, derruba uma guitarra displicentemente posicionada (quem é mesmo que faz faxina no quarto de um jovem ouvindo rock em som elevado?) e o jovem desvela uma urna eletrônica em que pressiona a tecla “corrige”. Começa tudo de novo até a língua de fora. Agora entra um outro jovem, igualmente trajado, que faz o mesmo gesto com as mãos, bota também a língua para fora e “se comunica” com o primeiro: “ieah! Ieah!” enquanto arrebenta aquela mesma guitara. Imediatamente o primeiro desvela novamente a urna e pressiona “confirma”... Ensinamento ou retrato, uma marca de cerveja – não me lembro qual, mas não é destas que estão disputando o Zeca Pagodinho, não! – utiliza o mesmo linguajar e, por ironia, coloca os jovens vestidos de homens e mulheres das cavernas. Enquanto alguns batem com pedaços de pedra lascada numa outra pedra até que se transforme em roda, toca um “rock” bem alto e todos bradam: “ugh! ugh! ugh!” Além da mensagem direta (“vote!”ou “consuma cerveja tal!”) o que mais estão estes educadores ensinando aos jovens nestas propagandas? Realmente eu não entendi. Estou ficando velho e ranzinza mesmo!
Farinha do Mesmo Saco
Infelizmente, dados os desdobramentos da política econômica nacional nos últimos anos, vemos Lula, FHC, Collor, PC Farias, Waldomiro Diniz, Sérgio “Sombra”, Sérgio “Robocop”, José Dirceu, Pedro Malan, Antônio Palocci, Aloísio Mercadante, Victor Meirelles, Armínio Fraga, etc. dentro do mesmo espectro ideológico e moral...
No tempo do Collor dizíamos: “se cobrir vira circo, se cercar vira cadeia”. E agora?
Lázaro Curvêlo Chaves - 17 de abril de 2004
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