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O gás da Bolívia e a fome do Garotinho

 

O gás boliviano é dos bolivianos

 

            A grande diferença entre Evo Morales e Lula da Silva, que mais salta aos olhos, é que o presidente boliviano aparece subitamente no cenário político, promete reiteradas vezes nacionalizar as reservas naturais (gás incluso, ou principalmente) de seu país e cumpre a promessa. Lula da Silva passou mais de 20 anos prometendo governar para os desvalidos, acabar com a farra do Capital Especulativo e realizar uma Reforma Agrária digna deste nome – entre outros princípios – mas, no ano 2002 optou por modificar levemente seu discurso numa “Carta aos Brasileiros” informando que havia modificado sua opinião. Internamente ao PT e simpatizantes de esquerda fazia passar a imagem de ser um discurso necessário para ser eleito e a mensagem subliminar: “mas quando eu chegar lá, vocês verão que não é bem assim...” Mentiu ao seu eleitorado, ao contrário do colega boliviano, que cumpre o prometido – e está certíssimo ao fazê-lo, por sinal.

            Recebendo a notícia e quase uma semana depois de tropas do Exército Boliviano ocuparem as instalações da Petrobrás no país, Lula diz que não sabe de nenhuma crise. Qual o espanto? Ele nunca soube de nada mesmo...

            Amenizando o discurso o Embaixador da Bolívia no Brasil esclarece que o fato – a ocupação militar e expropriação de bens brasileiros no país – deveu-se mais à necessidade de conseguir mais justiça no preço do gás – entenda-se “aumento” – do que propriamente qualquer vontade de deixar de cumprir contratos. Mente às autoridades brasileiras de Lula que, contudo, afetam acreditar.

            A Lula e sua trupe pode parecer difícil compreender, mas ainda há quem se eleja com um discurso para a massa e outro para o empresariado optando, quando eleito, em cumprir suas promessas às massas empobrecidas e não com o empresariado. Aí está a grande diferença.

            Não creio em desabastecimento, menos ainda em aumento no preço do gás antes das eleições presidenciais de outubro próximo. Claro que este gesto do líder indígena boliviano (lembrando sempre que Lula botou um cocar de índio na cabeça...) provocará o aumento no preço que a estatal brasileira paga pelo gás importado. Naturalmente, também, há alternativas para o Brasil em muitíssimos aspectos quanto a reservas e alternativas de energia.

            A julgar pela maneira excêntrica como Lula encaminha seus interesses privados como se fosse o interesse público de um país que só começa a existir quando ele assume a presidência, de onde Lula retirará os recursos necessários a pagar o preço maior do gás boliviano?

            Do superávit primário – o grosso das reservas financeiras brasileiras, guardadas por Lula como garantia de que o Capital Especulativo seguirá tendo os maiores lucros do planeta terra em detrimento do crescimento brasileiro – é que não será. Tampouco o retirará da propaganda – maciça e massacrante, necessária à sua reeleição. Suas escolhas ficam limitadas. O preço do gás para o consumidor não pode subir, os lucros do Capital Especulativo não podem diminuir e a propaganda a favor de seu desgoverno deve gastar cada vez mais. Restará retirar os recursos, mais uma vez, da saúde, da educação, da infra-estrutura, dos salários dos aposentados e pensionistas (que têm menor poder de pressão por estarem no que eles chamam de “inatividade”) ou mesmo no valor do Bolsa Esmola, que pobre se contenta com qualquer coisa. O povo queria emprego e trabalho honrado. Contentou-se com uma esmola miserável e provavelmente se contente com um pouco menos sem que Lula tenha o seu índice de aceitação junto ao Lumpemproletariado minimamente abalado.

            Lula havia prometido dignidade ao povo e maior lucratividade ao Capital – a uma das partes estava mentindo e só depois de eleito vimos para qual... Evo Morales prometia dignidade a seu povo e manter o lucro das empresas estrangeiras em seu país. A um dos dois grupos estava mentindo – a escolha dele foi bem diferente da de “nosso guia”...

 

Greve de Fome

 

            Não tenho pelo protestante Anthony Garotinho qualquer apreço pessoal ou afinidade política. Mas me reservo o direito de respeitar a dignidade humana de alguém – com ou sem cobertura da imprensa e holofotes – está disposto a morrer em nome daquilo em que acredita.

            O sobrecenho carregado de sua esposa e a genuína preocupação de seus familiares demonstram claramente que ele não está blefando.

            Há algum tempo Lula busca, de todas as formas, destruir a carreira política do casal “Garotinho”. Já avençou uma intervenção militar federal no Rio de Janeiro para combater a violência – muito antes de roubarem armas de um quartel do Exército e os generais, após muito procurar, apresentarem umas peças de sucata à imprensa dizendo “missão cumprida”. Sei. À época, a quem se recorda, também fiquei do lado do Garotinho. A violência no Rio de Janeiro não está maior do que em outras capitais do país, embora encontre sempre maior repercussão na imprensa, majoritariamente sediada lá – há violência no campo e em praticamente todas as grandes cidades, pois que o distanciamento, o fosso entre os mais pobres e os mais ricos se abriu monstruosamente no desgoverno Lula. Já parei de prestar atenção nas estatísticas, “nos números” que este governo apresenta faz tempo. Não são críveis. Contradizem a realidade cotidiana. Naturalmente, quem se informa pela televisão e rádios de pilha – a maioria – acredita mais naquilo que lhes diz a propaganda do que nos seus olhos ou seus bolsos. Isso é antigo no Brasil.

            Ao tempo, Garotinho acumulava os cargos de “Primeiro Damo” e de Secretário de Segurança do Estado respondeu ao governo federal da maneira mais correta e lúcida possível. Não queria intervenção federal no Estado, mas se o governo desejasse colaborar com o envio de tropas ele aceitaria tantos pára-quedistas para isso, tantos fuzileiros para aquilo... A repercussão todos se recordam, foi a pior possível, mas o resultado foi conquistado: não houve intervenção federal no Rio de Janeiro e ponto final.

            E essa agora?

            Vou aguardar mais uma ou duas semanas para emitir uma opinião mais sólida. Mas me recuso terminantemente a ingressar na onda de ridicularização do cara em que todo o mundo entrou. A maioria pediu que soltassem Barrabás, a maioria delirou com Hitler e Mussolini, a maioria elegeu Collor de Mello, a maioria está rindo do Garotinho em sua Greve de Fome. Desconfio da maioria e me reservo o direito de aguardar mais um pouco. Não creio que ele esteja brincando, menos ainda que se deva ridicularizar alguém disposto a jogar a própria vida em algo que acredita certo e justo.

 

            Lázaro Curvêlo Chaves – 05/05/2006

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