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História da Guerra de Canudos

 

A Guerra de Canudos durou um ano e mobilizou mais de 10 mil soldados vindos de 17 estados brasileiros, distribuidos em 4 expedições millitares. Estima-se que morreram mais de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da cidade.

Escapa, escapa soldado

Quem tiver perna que corra

Quem quizer ficar que fique

Quem quizer morrer que morra

Há de nascer duas vezes

Quem sair desta gangorra.

(João Melchiades Ferreira da Silva)

 

Novembro - 1896

Começa a guerra de Canudos. O pretexto para o seu início foi irrelevante. Antônio Conselheiro precisava de madeira para a Igreja Nova em construção e a encomendou em Juazeiro (BA). O pagamento foi antecipado, mas, no prazo estabelecido, a madeira não foi entregue. Espalhou-se o boato de que a cidade seria invadida pelos conselheiristas. O juiz local, Arlindo Leone, tinha antigas divergências com Conselheiro e resolveu estimular o pânico na cidade. Grande parte dos moradores resolveu atravessar o Rio São Francisco, refugiando-se em Petrolina (PE). Criado o clima propício, o juiz solicitou tropas policiais e foi atendido pelo Governador Luís Viana.

 

06 de Novembro - 1896

Parte de Salvador (BA), pela Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco com destino a Juazeiro, a 1a Expedição Militar contra Canudos. Era composta de 113 soldados do 9º Batalhão de Infantaria, três oficiais, um médico e dois guias (Pedro Francisco de Morais e seu filho, João Batista de Morais), comandados pelo Tenente Pires Ferreira. Levava 400 cartuchos para cada praça. Ao chegar no dia seguinte a Juazeiro, a expedição encontrou uma cidade apavorada, mas os conselheiristas estavam bem longe e não planejavam nenhum ataque. Então, o juiz e o tenente decidem ir em direção a Canudos.

No dia 19, a tropa chega a Uauá (BA). O historiador Manoel Neto afirma: "Até alcançar Uauá a trôpega tropa marchou penosos 150 quilômetros. Passaram pela Lagoa do Boi, Caraibinhas, Mari, Mucambo, Rancharia, o Tenente Pires Ferreira e seus enfermiços e diarréicos subordinados. Enfrentando dificuldades no comando, porquanto estremecido com o Alferes Coelho e o próprio dr. Antonino, o chefe da expedição cometia outros erros perigosos: exauria a tropa numa marcha não planejada e em terreno sobejamente conhecido pelo inimigo, isolava-se de apoio estratégico valioso, encaminhava-se para combater um contendor desconhecido, obscuro. Tinhosos, como depois se comprovou, os combatentes de Bello Monte espreitavam..." (Neto, Manoel. De Juazeiro a Ladeira da Barra: A Inusitada Trajetoria da Expedição Pires Ferreira in Revista Canudos v.1, n.1 1997 UNEB – CEEC )

21 de Novembro - 1896

No amanhecer deste dia a Expedição encontrava-se ainda em Uauá (BA), quando chegam centenas de conselheiristas entoando cânticos, tendo a frente a bandeira do Divino e uma grande cruz de madeira.

 

"Não pareciam guerreiros

Simbolos da paz portavam,

A bandeira do Divino

E ao som de Kyries marchavam,

Levando uma grande cruz,

De longe se anunciavam."

(Zé Guilherme)

Vinham como quem vinha para reza, ou para a guerra. Foram recebidos a bala pelos sentinelas semi-adormecidos e surpresos. Era a guerra. Manoel Neto assim descreve: "Estabelecia-se, sangrento, o 1º fogo previsto pelo Conselheiro, e a pacata Uauá transformava-se em violento território de combate. O próprio Tenente Pires Ferreira descreve o ataque destacando a "incrível ferocidade" dos assaltantes e a forma pouco convencional como organizavam suas manobras, isto é, usando apitos. A celeridade e a rapidez com que a luta se deu propiciou vantagem inicial aos conselheiristas. Adentraram ao arraial onde ocuparam algumas casas. A lógica, entretanto, prevaleceu. Armados e municiados com equipamentos mais modernos e letais, os soldados do 9º Batalhão de Infantaria impuseram pesadas baixas as forças belomontenses. A crueza do combate foi inegável, sendo que o uso de armas como "facões de folha-larga, chuços de vaqueiro, ferrões ou guiadas de três metros de comprimentos, foices, varapaus e forquilhas, sob o comando de Quinquim Coiam" utilizados em lutas de corpo a corpo produziam cenas dantescas. Foram entre 4 e 5 horas de pânico, sangue, horror e gestos de bravura e pânico. Contabilizadas as baixas de ambas facções, os números determinava a vitória militar das tropas governamentais. No relatório oficial, Pires Ferreira informa que pereceram na batalha, dentre as hostes conselheiristas "cento e cinqüenta, fora os feridos". (Neto, Manoel. idem )

Passadas várias horas de combate, os canudenses, comandados por João Abade, resolveram se retirar, deixando para trás um quadro desolador.

Apesar da aparente vitória, a expedição estava derrotada, pois não tinha mais forças nem coragem para atacar Canudos. Naquela mesma tarde, saqueou e incendiou Uauá e retornou para Juazeiro, com o saldo de 10 mortos (um oficial, sete soldados e os dois guias) e 17 feridos.

"Em Juazeiro ao chegarem

Houve grande confusão

O medo cresceu na mente

De toda a população

O êxodo reatado

Aumentou em proporção"

(Zé Guilherme)

 

Pedrão, que durante o combate estava em outra missão ao chegar em Canudos e saber que seus companheiros mortos estavam insepultos, criticou João Abade e autorizado por Conselheiro, voltou a Uauá e enterrou 74 corpos.

Em Canudos, correu o boato de que os soldados tinham sido avisados por Antônio da Mota, negociante, compadre e amigo de Conselheiro. Mas estes créditos de nada lhe valeram, pois foi morto junto com todos os homens adustos da sua família numa chacina brutal e desumana.

A derrota surpreendeu o governo e repercutiu negativamente na opinião púbica, mas no sertão aumentou ainda mais o prestígio de Antônio Conselheiro e cresceu muito a quantidade de pessoas que iam para Canudos.

 

29 de Dezembro - 1896

Reúne-se em Monte Santo (BA) o efetivo da II Expedição Militar contra Canudos, composta de forças federais e da polícia militar baiana, sob o comando do Major Febrônio de Brito. Depois de inúmeros contratempos provocados por divergências entre o Governador Luís Viana e o Comandante do 3° DM, General Solon Ribeiro, que é afastado do posto por ordem do governo federal, a Expedição finalmente estava pronta para a investida. Muito mais poderosa que a anterior, era composta de 609 soldados do 9º BI (Salvador), 33º BI (Alagoas) e do 26º BI (Sergipe), 10 oficiais, 1 médico, 1 farmacêutico, 1 enfermeiro, 2 canhões Krupp e 3 metralhadoras Nordefelt. Um clima de euforia e festa patrocinado pelas autoridades locais contagia toda a tropa e a confiança numa rápida e esmagadora vitória era tanta, que resolveram deixar na cidade 2/3 da munição, por considerá-la desnecessária.

 

12 de Janeiro - 1897

Neste dia, em que parte de Monte Santo em direção a Canudos a Expediçao Febrônio de Brito, Antônio Conselheiro conclui em Bello Monte suas prédicas em um volumoso livro intitulado Tempestades que se Levantam no Coração de Maria por Ocasião do Mistério da Anunciação, obra manuscrita que contém pensamentos e discursos sobre religião, monarquia, república e escravidão. Auxiliava-o escrevendo, Leão de Natuba, uma espécie de secretário que também tinha boa caligrafia. Este livro ficou inédito durante 77 anos e teve sua publicação organizada por Ataliba Nogueira (Nogueira, Ataliba. Antônio Conselheiro e Canudos. Revisão Histórica. São Paulo, Editora Nacional, 1974).

 

18 de Janeiro - 1897

Logo cedo, a Expedição Febrônio de Brito atravessava a Serra do Cambaio quando foi surpreendida por forte emboscada. Houve um grande corre-corre em meio à fuzilaria. O pleno conhecimento do terreno proporcionava aos sertanejos, uma melhor posição de tiro, causando muitas baixas entre os soldados. A luta durou mais de 5 horas, quando finalmente a força militar prevaleceu e avançou, deixando muitas perdas entre os conselheiristas. Ao fim da tarde, a expedição acampou à beira da Lagoa do Cipó. Na manhã seguinte houve um novo ataque, desta vez mais compacto e direto. Sem o abrigo das serras e rochedos, conselheiristas e militares muitas vezes lutavam corpo-a-corpo, no terrível confronto dos punhais.

No final do combate, inúmeros corpos restavam estendidos no chão, a maioria de conselheiristas.

A lagoa tinha mudado de cor e de nome, desde então passou a se chamar Lagoa do Sangue.

A expedição não teve mais condições de prosseguir no seu objetivo que era atacar Canudos. Estava arrasada e foi obrigada a um recuo lento e penoso, trazendo consigo um saldo de 10 soldados mortos e 70 feridos. Na volta, os soldados, maltrapilhos, com fome e arrastando consigo os feridos e os canhões, percorreram parte do caminho fustigados pelas emboscadas ardilosas organizadas por Pajeú.

31 de Janeiro - 1897

Machado de Assis, que tinha uma coluna no jornal Gazeta de Notícias, neste dia escreve: "Protesto contra a perseguição que se esta fazendo a Antônio Conselheiro". Era uma das poucas vozes contrárias à opinião pública brasileira que exigia novas medidas repressivas contra Canudos após a derrota de duas expedições militares.

 

07 de Fevereiro - 1897

Parte de Salvador com destino a Queimadas, a III Expedição Militar contra Canudos, a mais famosa de todas. Depois de dois grandes fracassos militares das expedições anteriores, ela tinha a responsabilidade de "lavar a honra" do Exército, seguindo equipada com seis canhões Krupp e mais de 1.300 soldados conduzindo 15 milhões de cartuchos. No comando estava o temível Cel. Moreira César, apelidado de "corta-cabeças" devido a sua atuação na repressão ao movimento federalista no sul do país (1893-95). Era grande a confiança na vitória e logo ao chegar em Queimadas, o Cel. Moreira César telegrafou ao Gov. Luís Viana dizendo: "só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere". Dias depois em nova mensagem reafirmava: "só receio a fuga dos fanáticos". Nada atemorizava Moreira César, nem mesmo os 2 ataques de epilepsia que sofreu logo nos primeiros dias no Sertão.

De Queimadas segue para Monte Santo e em 22 de fevereiro, parte para Canudos. Ao passar pelo Cumbe (atual Euclides da Cunha) manda prender e humilhar o Padre Vicente Sabino por este manter relações amistosas com Conselheiro.

 

03 de março - 1897

A III Expedição Militar avista Canudos. O Cel. Moreira César euforicamente grita para os seus homens: "Vamos tomar Canudos sem disparar mais um tiro ... à baioneta". Ao contrário do anunciado, o ataque começa com a artilharia entrando em cena, num fogo cerrado de canhões, seguida de forte investida dos soldados que conseguem ocupar algumas áreas periféricas do Arraial. A reação veio como uma tempestade de tiros partindo dos defensores alojados em casas, becos e nas torres das igrejas. A cavalaria entrou em cena, mas no terreno acidentado, foi ineficaz e tornou-se alvo fácil. Com o passar das horas, mesmo com o apoio da cavalaria, o entusiasmo inicial das tropas arrefece e o confronto se reverte francamente favorável aos conselheiristas. No final da tarde, as baixas militares eram grandes e o inesperado acontece: o Cel. Moreira César é atingido por dois tiros e fica fora de combate. Não havia mais chances para a força expedicionária. Às 19h é anunciado o toque de retirada.

 

04 de Março - 1897

Durante a madrugada, morre o Cel. Moreira César e assume o comando o Cel. Tamarindo. Logo pela manhã bem cedo, a expedição inicia o caminho de volta. Tudo era como se fosse um pesadelo que ainda não havia terminado, pois Pajeú, um dos principais chefes guerrilheiros de Canudos, liderava seus companheiros em emboscadas que causavam pânico em toda a tropa, transformando a retirada numa debandada geral. O Cel. Tamarindo é atingido mortalmente e o Major Cunha Matos, que assumiu o comando, afirmou em seu relatório oficial: "logo notei certa cobardia por parte das praças em geral (...) a guarda avançada e outras muitas praças abandonavam seus postos, e corriam pela estrada fugindo". Era o trágico fim de uma expedição vingadora que teve um saldo de 116 mortos, inclusive 13 oficiais, e 120 feridos.

 

05 de Abril - 1897

É publicada a Ordem do Dia, criando a IV Expedição Militar contra Canudos. Após a surpreendente derrota da III Expedição, a opinião publica estava histérica e exigia medidas drásticas do governo para uma rápida solução do conflito. Organizou-se então, a maior de todas as expedições, formada por tropas de 17 Estados (BA-SE-PE-PB-AL-RN-PI-MA-PA-ES-MG-SP-RJ-RS-AM-CE-PR), equipadas com os mais modernos armamentos da época. O efetivo militar era composto de seis Brigadas, divididas em duas colunas que investiriam sobre Canudos por direções opostas, sendo o comandante central o General Artur Oscar.

A 1ª Coluna, sob o comando do Gal. Silva Barbosa sai de Queimadas e passa por Monte Santo, composta de 3.415 homens, 180 mulheres, 12 canhões Krupp e 1 canhão Withworth 32. Na retaguarda, protegendo 750 mil quilos de mantimentos e munições, seguia o 5° Corpo de Polícia da Bahia, destacamento formado por 388 jagunços contratados no interior do Estado. A 2ª Coluna sob o comando do Gal. Cláudio Savaget, parte de Sergipe em tropas isoladas, se agrupando em Jeremoabo (BA), de onde segue para Canudos, composta de 2.340 homens, 512 mulheres e 74 crianças, inclusive duas nascidas durante a marcha.

 

 

 

09 de Abril - 1897

Aporta em Salvador a 1ª Divisão Naval de apoio as operações militares de Canudos. Composta de 5 navios de guerra, os cruzadores 15 de Novembro, Trajano, Andrada, Timbira e Paraíba e o patacho Caravelas. Era a Marinha, também participando da guerra de Canudos.

 

28 de Junho - 1897

Depois de várias semanas de marcha, travando combates, a 2ª Coluna da IV Expedição encontra-se em posição privilegiada de ataque a Canudos, já tendo iniciado o bombardeio, quando o Gal. Cláudio Savaget recebe ordens do General Comandante Artur Oscar para socorrer a 1ª Coluna que estava em situação desesperadora, com munição esgotada e envolvida pelas emboscadas organizadas por Pajeú, que magistralmente liderava seus "guerreiros invisíveis" encurralando toda a Coluna no Alto da Favela. Savaget altera seus planos e imediatamente segue ao encontro da 1ª Coluna, salvando-a de uma derrota fragorosa.

 

29 de Junho - 1897

Explode o canhão Withworth, o célebre 32, trazido pela IV Expedição puxado por 13 juntas de bois e apelidado de "matadeira", devido ao imenso estrago que provocava no meio conselheirista. Este acidente provoca a morte de dois oficiais e o ferimento de quatro praças.

 

01 de Julho - 1897

Um grupo de 11 guerrilheiros conselheiristas, liderados por Joaquim Macambira Filho, investe contra a artilharia do Exército na tentativa frustrada de destruir os canhões que bombardeavam Canudos. Esses ataques, heróicos e suicidas, cada dia tornavam-se mais freqüentes.

 

14 de Julho - 1897

Com uma salva de 21 tiros de artilharia, o comando da IV Expedição Militar comemora em pleno sertão nordestino, e em meio a um autêntico massacre contra os conselheiristas, o aniversário da Revolução Francesa: Igualdade, Liberdade e Fraternidade.

 

18 de Julho - 1897

Os militares promovem contra a resistência canudense o grande assalto de 18 de Julho. Todas as forças foram acionadas e 3.400 homens iniciam a ofensiva. Durante várias horas o combate foi sem tréguas e a muito custo os soldados conseguem transpor o rio e dominar um pequeno trecho de casas da periferia, porém, devido ao fogo cerrado, tornava-se impossível avançar mais. Ao final do dia, as perdas eram assustadoras e o Exército acusava 947 baixas e uma cruel constatação: o grande assalto fracassara.

 

23 de Julho - 1897

O General Artur Oscar, comandante em chefe da IV Expedição, faz um relato dramático da situação das forças militares e pede ao governo federal um reforço de 5.000 soldados. O desânimo predominava em toda a tropa e as baixas chegavam a casa de 2.000 homens. O transporte de víveres e de munição era muito perigoso, pois os conselheiristas promoviam emboscadas pelas estradas, dificultando assim o abastecimento e a comunicação da Expedição com a base das operações em Monte Santo (BA). Os oficiais que tinham participado da Guerra do Paraguai (1865 - 1870), afirmam: "jamais vimos combates como os de Canudos".

 

 

24 de Julho - 1897

O Governador Luís Viana declara ao jornalista Favila Nunes correspondente especial de guerra da Gazeta de Noticias (RJ): "Se for pegado Antônio Conselheiro, tudo estará terminado; se porém ele fugir, será preciso persegui-lo onde quer que esteja, para não formar mais grupos".

 

05 de Agosto - 1897

De Salvador (BA), partem para Canudos 24 estudantes de medicina com o objetivo de servir nos hospitais de sangue do Exército.

 

07 de Agosto - 1897

Euclides da Cunha desembarca do vapor Espirito Santo em Salvador (BA), como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo, periódico no qual já havia escrito dois artigos intitulados "A Nossa Vendéia", publicados em 14 de Março e 17 de Julho de 1897. Euclides demonstrava vivo interesse no tema, e nas semanas seguintes recolhe material de pesquisa e entrevista soldados feridos e prisioneiros conselheiristas recém chegados da zona de combate. No final do mês, vai para o palco da guerra, passando por Queimadas e Monte Santo, chegando em Canudos a 10 de setembro e ficando ate 3 de outubro, dois dias antes do final da guerra.

 

08 de Agosto - 1897

Parte de Monte Santo a famosa Brigada Girard. Formada originalmente por 1.090 homens, com 850 mil cartuchos Mauser, ao longo do caminho foi se reduzindo drasticamente, pois a proximidade do cenário da guerra provocava uma crescente onda de deserções de praças e pedidos de baixas de oficiais que envolveu até mesmo o seu comandante, o General Girard. A famosa e intrépida Brigada se apresenta dia 15 no Alto da Favela, com um Major comandando 800 homens amedrontados e o apelido nada lisonjeiro de "mimosa".

"Escapa, escapa, soldado

Quem quiser ficar que fique

Quem quiser morrer que morra

Ha de nascer duas vezes

Quem sair desta gangorra"

(João Melchiades, poeta paraibano, ex-soldado na guerra de Canudos,citado por

Paulo Monteiro Varjão, 96 anos, morador de Canudos).

 

30 de Agosto - 1897

Chega a Queimadas, o Marechal Carlos Machado Bittencourt, Ministro da Guerra. O governo estava alarmado com a possibilidade de mais uma fragorosa derrota, pois dia-a-dia a situação se agravava no acampamento. No plano militar, não havia novas conquistas e a sobrevivência tornava-se insuportável. Um oficial escreveu em seu diário: "a fome tortura, o calor queima, a sede abrasa, a poeira sufoca e os olhos esbugalhados fitam o vácuo".

O Marechal Bittencourt trouxe consigo um reforço de 3.000 soldados, estabelecendo seu Q.G. em Monte Santo e efetivamente toma providencias enérgicas, conseguindo regularizar o abastecimento das tropas em combate.

 

05 de Setembro - 1897

Atingido durante um tiroteio, morre em Canudos, Norberto das Baixas, antigo dono de fazenda em Bom Conselho (atual Cícero Dantas - BA) que foi morar em Bello Monte, transformando-se numa das mais respeitadas lideranças conselheiristas.

 

06 de Setembro - 1897

As torres da Igreja Nova, importantes pontos de defesa da resistência canudense, são derrubadas pela artilharia do Exército. Junto com a torre, veio abaixo o sino e Timotinho, que mesmo durante o conturbado período de guerra, todos os dias, as 6h da tarde, subia à torre da Igreja e tocava a hora da ave-maria. Em um cenário desolado, era um belo e grandioso espetáculo, que ressoava em toda a redondeza.

 

07 de Setembro - 1897

Vencendo uma forte resistência dos conselheiristas, o Exército ocupa a Fazenda Velha, tido como o melhor ponto estratégico para o bombardeio a Canudos.

 

09 de Setembro - 1897

No acampamento militar, as condições de higiene e saúde são péssimas. Escreve Fávila Nunes, correspondente de A Gazeta de Noticias (RJ): "A varíola aqui esta grassando de modo assustador. Temos já cinco hospitais de isolamento, repleto de variolosos. Só ontem deram-se 24 casos novos".

 

22 de Setembro - 1897

Morre Antônio Conselheiro. Para uns, a causa foi um ferimento provocado por estilhaços de uma granada; para outros, foi "caminheira" (disenteria), e ainda há os que acreditam que ele não morreu em Canudos. Estas são as últimas palavras escritas por Antônio Conselheiro em Bello Monte:

"E chegado o momento para me despedir de vos; que pena, que sentimento tão vivo ocasiona esta despedida em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso e caridoso com que me tendes tratado, penhorando-me assim bastantemente. São estes os testemunhos que me fazem compreender quanto domina em vossos corações tão belo sentimento! Adeus povo, adeus aves, adeus arvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança deste peregrino". (Nogueira, 1974:181)

 

23 de Setembro - 1897

A estrada de Várzea da Ema, último canal de reabastecimento e contato externo de Canudos é tomada pelo Exército. Finalmente, o cerco das forças militares estava completo. A partir de agora ninguém mais poderia sair ou entrar no Arraial.

 

01 de Outubro - 1897

A guerra de Canudos já durava quase um ano. Oito dos principais jornais do pais enviaram correspondentes ao palco da luta e as notícias não conseguiam explicar tanta dificuldade e demora de um Exército bem equipado em destruir um reduto sertanejo. As perdas militares eram extraordinárias e a impaciência e o cansaço tomava conta de todos. Os Generais Artur Oscar, Silva Barbosa e Carlos Eugênio, decidem não esperar mais, e mobilizam 5.871 homens num choque a toda carga sobre o núcleo central de casas, o último reduto da resistência canudense. Revelando mais uma surpreendente tática de guerrilha, os conselheiristas utilizam fossas subterrâneas que interligam as casas, permitindo ampla mobilidade de ação e com isso provocando muitas baixas na tropa.

Depois de várias horas de fogo cerrado, os soldados conquistam os escombros da Igreja Nova, a mais importante trincheira de defesa do Arraial. Este feito foi comemorado de forma entusiasmada, com o hasteamento da bandeira e execução do hino nacional. Mas, inesperadamente uma tempestade de balas desce sobre a praça. Vinham das ruínas, da fumaça, de tudo o que já fora destruído. Era como se viesse do nada, mas vinham, e causavam muitos estragos. Em resposta, o Exército lança 90 bombas de dinamite e muitas latas de querosene. Depois de três meses de intenso bombardeio, agora o fogo tomava conta do Arraial.

 

02 de Outubro - 1897

Em meio a guerra, surge por entre as ruínas um homem com uma bandeira branca. Era Antônio Beatinho, que queria falar com o general comandante e disse que lá dentro ninguém agüentava mais, a fome e a sede estavam acabando com todos. Pede pra que pudessem sair em paz. Artur Oscar lhe disse que voltasse lá e trouxesse os homens para se entregarem que ele lhes garantia a vida. Beatinho volta ao Arraial e pouco depois reaparece com um grupo de 300 pessoas: eram mulheres, crianças, e inválidos de guerra, maltrapilhos e doentes. Afirma que todos os homens restantes haviam rechaçado sua proposta de rendição e iriam lutar ate o fim.

03 de Outubro - 1897

Antônio Beatinho é degolado junto com seus companheiros que se entregaram confiando na palavra do General Artur Oscar em lhes garantir a vida. A degola dos prisioneiros era a consumação final do massacre. Mas esta prática não era nova na campanha. Desde Agosto que os jornalistas relatavam casos praticados de forma discreta na calada da noite. Agora, nos últimos dias da guerra, a "gravata vermelha" como também era chamada a degola, foi larga e amplamente utilizada sem cerimônias, em plena luz do dia.

O acadêmico de medicina Alvim Horcades escreveu: "eu vi e assisti a sacrificar-se todos aqueles miseráveis (...) e com sinceridade o digo: em Canudos foram degolados quase todos os prisioneiros (...) levar-se homens de braços atados para trás como criminosos de lesa-majestade, indefesos e perto mesmo de seus companheiros, para maior escárnio, levantar-se pelo nariz a cabeça, como se fora o de uma ave, e cortar com o assassino ferro o pescoço, deixando a cabeça cair sobre o solo - é o cumulo do banditismo praticado a sangue-frio (...) Assassinar-se uma mulher pelo simples fato de ser o seu companheiro conivente com o que se dava - é o auge da miséria! Arrancar-se a vida a uma criancinha (...) é o maior dos barbarismos e dos crimes que o homem pode praticar". (Horcades, 1899.)

 

05 de Outubro - 1897

Termina a resistência sertaneja, Canudos estava destruída. Num cenário de fim de mundo, por entre becos e ruelas, uma legião de corpos carbonizados se misturam com as ruínas e as cinzas das 5.200 casas. A elite política, acadêmica e militar do pais estava em êxtase. Os deputados federais da Bahia congratulam-se com o governo pela "completa destruição de Canudos, baluarte de bandidos e fanáticos" e o próprio Presidente da República, Prudente de Moraes, declara: "em Canudos não ficará pedra sobre pedra". Enfim os generais cumpriram o prometido, pois queriam que ali se plantasse a solidão e a morte.

Estima-se que mais de 25 mil conselheiristas morreram no conflito que mobilizou um contigente superior a 12 mil soldados do Exército (mais da metade de todo o efetivo nacional), na maior guerra de guerrilhas que o Brasil já viveu.

Numa preciosidade do pensamento dominante, O Barão de Studart escreve: "Para esse fim houve recurso aos meio mais desumanos, que não convêm registrar a bem dos nossos foros de nação civilizada e cristã".

 

06 de Outubro - 1897

O General Comandante Artur Oscar publica a Ordem do Dia nº 145:

"Viva a Republica dos Estados Unidos do Brasil! Está terminada a Campanha de Canudos. Desde ontem que os batalhões das forças expedicionárias passeiam suas bandeiras sobre as ruínas da cidadela, com a consciência de bem haverem cumprido o seu dever!".

O corpo de Antônio Conselheiro é localizado no santuário da Igreja Nova.

"Aos seis dias do mês de outubro de 1897, os abaixo assinados examinaram, por ordem superior, os escombros da casa denominada Santuário, residência de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, onde se presumia existirem seus despojos mortais, dando como resultado o exame, que se limitou à situação e hábito externo, o seguinte: Na encosta da parede interna, numa das três seções em que se divide a referida parede, encontrou-se uma sepultura guardando um cadáver com os seguintes caracteres: braços cruzados no peito, deitado sobre uma esteira de carnaúba e envôlto num lençol branco. Vestia longa túnica de pano azul costurado na fímbria; a cintura abotoada daí até a gola, tendo por baixo dessa túnica uma camisa e ceroula de algodão nacional. Calçava alpercatas de sola. O cadáver media um metro e sessenta de comprido, era de côr morena e idade presumível de sessenta ou cinquenta e cinco anos. Estava em comêço de putrefação e apresentava cabelos negrosd, longos e bastos, fronte estreita, rosto largo e magro de maçãs salientes, guarnecido de barbas longas, nariz destruído na porção musculosa, a maxila inferior, como a superior, desprovida de dentes; mãos descarnadas e pés pequenos. Concluído o exame, que não pôde ser levado adiante por deficiêcnai de meios, reconhecemos pelos sinais descritos e pelo testemunho de muitos prisioneiros e várias pessoas presentes, entre as quais o membro presente da comissão acadêmica, João Pondé, ser o corpo de Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido por Antônio Conselheiro, que aí residia como chefe de um núcleo de fanáticos e aventureiros da povoação de Canudos; no sertõa da Bahia." Dr. José Curió (Major-Médico), Dr. Mourão, Dr. Gouveira Freire (Capitães-Médicos), Dr. Jacob Gayoso (Tenente-Médico), João Ponde' (6° Anista de Medicina) (Apud Gustavo Barroso, O Cruzeiro, 28.04.1956).

Depois de exumado, o corpo de

Antônio Conselheiro foi fotografado por Flávio de Barros, fotógrafo baiano que acompanhou a IV Expedição, e sua cabeça foi cortada e levada para Salvador (BA) para exame do Dr. Nina Rodrigues.

 

 

 

03 de Novembro - 1897

É lançado em Salvador um manifesto de 41 estudantes baianos protestando contra o "cruel massacre ... exercido sobre prisioneiros indefesos e manietados em Canudos e até em Queimadas". Pouco depois, também Rui Barbosa declara um elogio aos estudantes que " protestam contra a vitória que degola os vencidos".

 

05 de Novembro - 1897

É assassinado no Rio de Janeiro (RJ), o Marechal Carlos Machado Bittencourt, Ministro da Guerra, que em setembro se deslocara para o sertão baiano, assumindo pessoalmente o comando das operações militares da Guerra. O atentado, que era destinado ao Presidente da República, Prudente de Moraes, ocorreu no momento em que a cidade em festa recebia os primeiros soldados combatentes de Canudos.

 

02 de Dezembro - 1902

É lançado no Rio de Janeiro o livro "Os Sertões", um clássico sobre a epopéia de Canudos, escrito por Euclides da Cunha, que em 1897 havia sido contratado pelo jornal O Estado de São Paulo para in loco produzir uma série de artigos sobre a guerra de Canudos e "além disso, tomara notas e fará estudos para escrever um trabalho de fôlego sobre Canudos e Antônio Conselheiro. Este trabalho será por nos publicado", conforme rezava o contrato entre ele e o "Estado". Alguns anos depois, pela Editora Laemmert, o livro foi lançado no mercado editorial brasileiro, transformando-se numa das principais obras da literatura mundial, já tendo sido traduzido para mais de 10 idiomas, com um número superior a 50 edições brasileiras e sendo objeto de mais de 10 mil trabalhos escritos.

 

03 de Março - 1905

Um incêndio na antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, em Salvador (BA), destrói a cabeça de Antônio Conselheiro que se encontrava em exposição pública desde o final da guerra de Canudos, em outubro de 1897.

 

12 de Março - 1969

Inicio da chuva que em poucos dias transbordou o Rio Vaza-Barris e encheu o Açude de Cocorobó, cobrindo a velha Canudos.

Euclides da Cunha: Esboço Biográfico ROBERTO VENTURA

Os Sertões: Campanha de Canudo - -  EUCLIDES DA CUNHA

  

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