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Idéias Fora do Lugar
O Brasil importou vários conceitos políticos da Europa ainda durante o período
colonial e há mesmo um mito da inferioridade social do brasileiro diante de
outros povos. O positivismo que nos impulsionou, veio da Europa, o socialismo,
que ainda resiste em alguns corações e mentes, idem. As idéias de neoliberalismo
e globalização – assumindo ou não estes nomes – vêm dos EUA. Aqui estas idéias
importadas são colocadas de maneira, digamos, bem brasileira...
Há uma onda privatizante mas, como
estamos no Brasil, o governo empresta os recursos necessários a que as empresas
estrangeiras comprem nossas estatais, sem necessariamente terem de quitar a
dívida. Ficam só com os lucros mesmo. O prejuízo é, como sempre, pago pelos que
moram no andar de baixo: quando o corsário francês Duguay Troyan invadiu a
capital da colônia e exigiu alguns milhares de libras esterlinas para deixar o
Rio de Janeiro, as autoridades locais imediatamente lhe deram o dinheiro. “Os
negros pagam”, diziam. Hoje é a classe trabalhadora, tal como os negros,
explorada e desarticulada que é obrigada a pagar num sistema muito mais
sofisticado que a escravidão pura e simples, que os tempos são outros.
Durante o período colonial ocorreu
um levante cujo principal motivo foi a cobrança extorsiva do “quinto”. 20% de
todo o ouro das Minas Gerais e de toda a produção brasileira deveriam ser
enviadas aos cofres portugueses. Aquele levante foi contido devido à traição de
alguns de seus participantes e seus principais divulgadores foram execrados em
vida e são exaltados após a morte, como sempre ocorre com os contestadores
radicais: levam uma vida dificílima e usualmente morrem à míngua ou esquecidos.
Depois de morto e bem morto o contestador revolucionário, erguem-se estátuas em
sua homenagem, rebatizam-se ruas, praças e viadutos... Criam-se até mesmo
feriados nacionais em honra dos esquartejados, humilhados e ofendidos em vida...
Caminhando pelas ruas de qualquer
cidade brasileira, estátuas de criminosos ornamentam nossas praças sofrendo como
única e justa recompensa a homenagem dos pombos; nomes de facínoras batizam
nossas ruas, praças e avenidas.
No Brasil contemporâneo, não temos mais de pagar
“os quintos dos infernos” aos portugueses. Mas o Leão (nome carinhosamente dado
à Receita Federal brasileira) consome cerca de 40% de toda a produção nacional.
Pagamos, no Brasil governado pelo Partido (dito) dos Trabalhadores dois
quintos dos infernos, impostos suecos e temos serviços públicos ao nível de
Bangladesh. Alguém cunhou até uma expressão para traduzir esta situação.
Durante a Ditadura Militar o termo
empregado era “Belíndia”, pois o Brasil tinha características de um país
europeu, de primeiro mundo, como a Bélgica, no eixo Rio – São Paulo e
características da pauperização e superpopulação indiana como no Nordeste...
Hoje o termo empregado para rememorar que pagamos mais juros que os suecos e
temos serviços públicos piores que os de Bangladesh é “Sugladesh”...
Nunca antes neste país os Bancos
lucraram tanto!
Segundo dados do insuspeito jornal governista “O Globo”, durante os quase 3 anos
de governo Lula as 10 maiores instituições bancárias do país lucraram mais de R$
24 bilhões. Em termos de comparação, durante a rapinagem e gatunagem de 8 anos
do governo FHC este valor ficou inferior a R$ 20 bilhões, sendo cerca de R$ 3
bilhões nos 4 primeiros anos do governo tucano mais R$ 17 milhões nos 4 anos do
segundo mandato. Uma montanha de dinheiro, convenhamos. Mas Lula já é mesmo
merecedor da estátua que Olavo Setúbal, um dos maiores beneficiários da política
rapinante de redistribuição de rendas dos mais pobres para os mais ricos
protagonizadas pelo governo Lula, prometeu instalar à porta da sede do Banco
Itaú.
Se isso é “governar para os
pobres”...
A casa caiu
Em começos de julho de 2005 as redes de televisão veicularam as imagens de um
alto funcionário dos Correios recebendo propina em nome de Roberto Jefferson,
ex-general da tropa-de-choque do Collor de Mello e agora aliado a quem Lula
asseverava ser capaz de lhe conceder um cheque em branco pelo tanto que nele
confiava.
Diga-se o que disser de Jefferson,
sempre foi coerente: transita bem nas dobras da informalidade política e
econômica e jamais esteve na oposição a governo algum, até porque assim sempre
conseguiu levar algum por fora.
Viu na veiculação daquelas imagens
uma montagem para ejetar um aliado incômodo e se decidiu a por a cantar –
literal e metaforicamente. Chamou a Folha de S. Paulo e declarou que o PT pagava
propina a parlamentares venais que, em troca votavam contra suas consciências
(se é que as tinham) e contra o povo. Com isto detonou uma bomba que o Palácio
do Planalto havia preparado para explodir em seu colo. Velha raposa, foi
oferecendo pistas e informações gradualmente, falando em “mensalão” e explicando
que o governo do PT preferia pagar um exército mercenário a repartir parcelas do
poder em torno de um projeto político coerente.
Essa realmente foi demais! Além de
tudo errado que vinha fazendo antes, descumprindo toda a sua plataforma
eleitoral e renegando todo o seu passado de lutas, o governo do PT agora passava
a se inserir no contexto de toda a fisiologia e corrupção tradicional no que
existe de pior na política brasileira.
Vários ministros foram afastados –
menos o único que responde por crimes contra a ordem econômica e eleitoral, o
Ministro Presidente do Banco Central –, deputados federais renunciaram com
vistas a evitar a legislação que prevê aos cassados uma quarentena de 8 ou mais
anos sem direito a candidatar-se e outros respondem a processos no Conselho de
Ética da Câmara.
Para cúmulo de escárnio e ironia, um
áulico eternamente abraçado ao poder de turno como Roberto Jefferson é cassado
precisamente por falar a verdade... E o governo, que tudo fez para criar a CPI
do Mensalão e da Compra de Votos hoje faz tudo para detonar com ela – aliás, com
raro profissionalismo e competência. É a primeira CPI que está terminando mesmo
em pizza!
E Lula segue repetindo o mantra
malufioso: “não há provas...” E, com o apoio do lumpemproletariado, se encaminha
célere a mais 4 anos de corrupção, subornos, desgovernos, trombadas e bandidagem
da mais baixa categoria. Isso ou a volta dos tucanos. Pobre Brasil...
Já disse aqui nesse mesmo espaço que este é o governo que mais impostos extorque
do respeitável público desde o Visconde de Barbacena, mote principal da
Inconfidência Mineira. Era o “quinto” dos infernos: 20% de tudo o que era
produzido tinha de ir para a Coroa Portuguesa. No Brasil de Lula pagamos dois
quintos dos infernos, mais de 40% de tudo o que se produz ou faz no país vai
para o governo a título de impostos que se escoam em vão na engorda do capital
especulativo.
Vem aí a “super-receita” para
ampliar ainda mais a fúria arrecadatória do governo mais predador de nossa
história. Lula já entrou para a História como o traidor que mais fez pela
distribuição de rendas dos mais pobres para os mais ricos em toda a História de
nossa Nação.
Quosque tandem?
A corrupção é fruto do capitalismo
O capitalismo nasceu como um pequenino câncer em fins da Idade Média européia e
hoje contamina a humanidade inteira. É uma doença gravíssima da qual nossa
espécie precisa se libertar para sobreviver.
A voracidade pelo lucro faz com que
as coisas subam à cela e cavalguem a humanidade. É um vale tudo que deixa a vida
humana abaixo de todos os outros valores: agressões ao meio-ambiente provocando
alterações climáticas já não são mais novidade; a ocorrência de terremotos,
maremotos, furacões e ciclones – entre outros cataclismos naturais – pelo mundo
afora são uma reação da nossa Mãe Terra a tanta agressão, a tanta poluição a
rios, mares e ares; a tanto desmatamento e queimadas; à própria poluição das
relações entre os seres humanos.
Enquanto não nos libertarmos da
infecção capitalista ficaremos à mercê dos interesses econômicos – nome e
propósito do próprio regime – o ser humano, quando considerado, o é apenas em
função do tipo de serviço que pode prestar ao capital.
No Leste europeu, o que ficou
conhecido como “socialismo real” nada mais foi que um sistema híbrido de
capitalismo com planejamento econômico. Por ser um tantinho melhor ao ser humano
que o capitalismo ortodoxo foi por este massacrado através da corrida
armamentista e da corrupção interna, fruto da primeira contaminação.
Sem contraponto, vivemos hoje num
mundo unidimensional que lembra as trevas da Idade Média Européia: “Fora da
Igreja não há salvação nem perdão”, diziam então. “Fora do capitalismo não há
alternativa”, dizem os poderosos de hoje. Mero dogmatismo vazio, contra o qual
cabe a mais completa e total insurgência.
Temos de chegar a um tempo em que o
homem seja amigo do homem, não mais seu usu(r)ário!
De tudo uma certeza: daqui a alguns
séculos falará em capitalismo com o mesmo asco, a mesma ojeriza que hoje temos
ao falar sobre a escravidão humana.
Lázaro
Curvêlo Chaves – 17/11/2005
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