A Legião dos Excluídos
Uma onda de
quebradeiras gerais perpassou a França recentemente, com automóveis incendiados
e rebeliões ciclotímicas aparentemente inexplicáveis.
Há um traço
comum inquietante entre toda aquela gente excluída da cidadania, e não só na
França. Dia 30 passado, no Rio de Janeiro, alguns ensandecidos incendiaram um
ônibus cheio de passageiros. Como na França, não foi ato terrorista, fruto de
mentes maquiavélicas reivindicando o que quer que fosse de mais relevante em
termos de causa política, religiosa ou ideológica.
O número
crescente de pessoas excluídas da noção e da prática da cidadania, reduzidas
literalmente à barbárie, é a principal motivação destas demonstrações de
insanidade.
Seu voto não
importa um quiabo no processo político eleitoral – muitos deles sequer dispõem
de título de eleitor! – que isso sempre é decidido “no andar de cima”,
desempregados e desesperados não têm a menor perspectiva existencial que lhes
traga lenitivo ou esperança, seu mundo desaba melancolicamente e só encontram
uma forma de deixar marcada a sua presença: destruindo. Destruindo transportes
coletivos, pixando muros, roubando, seqüestrando e matando. Na França, em Nações
Africanas, no Brasil...
Não há
justificativa para este tipo de procedimento, tento apenas compreender esta
sandice. O Estado é o maior culpado por este tipo de problema, o avanço da
criminalidade e da destrutividade aparentemente gratuita: não há escolas
públicas de qualidade, não há atendimento médico satisfatório, não há sequer
condições apropriadas de moradia – só no Rio de Janeiro há hoje mais de 500
favelas, mas a prioridade do governo, logo após o envio de uma montanha de
dinheiro arrancado dos impostos dos cidadãos para a ciranda financeira é enviar
tropas de ocupação a um país soberano (Haiti) que está passando pelo mesmo tipo
de problema que vemos nos subúrbios de nossas grandes cidades.
Imbecilidade
(ou não?) dos de cima, sofrimento dos de baixo. Gente que não participa de
maneira alguma deste fenômeno maldito chamado de “globalização”. Se a
globalização estadunidense é uma desgraça para os que a sofrem, é diabolicamente
pior para os que nela não conseguem sequer se inserir...
De uma
perspectiva histórica, vejo os Judeus de Massada buscando em vão resistir à
globalização romana e o Império Romano levou ainda 300 anos para ser reduzido a
cinzas; vejo os comunistas, ciganos e judeus da Europa lutando para resistir à
globalização nazista – esta com sucesso menos demorado mas não menos sofrido – e
fico pensando... Quantos séculos ainda teremos de suportar a globalização
estadunidense e todo o seu cortejo de hecatombes? Será que a Legião de excluídos
da atual globalização estará na linha de frente de sua derrocada?
Os dois Brasis
Durante a
Ditadura Militar, se não me engano foi Henrique Simonsen quem falou, vivíamos
“dois Brasis”, um com características similares às da Bélgica, no eixo
centro-sul do país e outro com característica similares às da Índia, entre o
Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Daí se cunhou a expressão “Belíndia”. Mais
recentemente, pagando impostos maiores que os Suecos e obtendo em troca serviços
públicos inferiores aos de Bangladesh cunhamos a expressão “Sugladesh”.
Agora a coisa
mudou. Temos um Brasil real, no qual as pessoas vivem, trabalham ou procuram
emprego, pedem esmolas ou agridem-se umas às outras em roubos e seqüestros,
desesperam-se em filas descomunais em busca de emprego ou atendimento médico,
vêem seus rendimentos cada vez mais minguados e os preços cada vez mais elevados
(em níveis menos agressivos do que no tempo de alta inflação, concedo, mas os
preços estão subindo, inclusive de serviços públicos e frequentemente em
patamares “acima da inflação”), um Brasil, em síntese, em que a transferência de
renda dos mais pobres para os mais ricos atinge níveis paroxísticos e as
instituições bancárias e de jogatina conquistam lucros recordes, ampliando ainda
a exclusão social e consequentemente os níveis de violência.
Mas há também
um Brasil virtual, divulgado pelo outrora insuspeito IBGE – Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística – que fala de um país em que a miséria diminuiu, o
nível de empregos aumentou, há uma mais justa distribuição de rendas e as
distâncias entre os mais ricos e os mais pobres diminuíram.
Calma lá! Isso
é fazer pouco caso da inteligência das pessoas!
Durante 25 anos
(1964 – 1989) suportamos a Ditadura Militar. A seguir veio Collor de Mello e
ninguém imaginava que pudesse piorar. Itamar Franco nomeou o sociólogo FHC como
Ministro da Fazenda e este implantou por aqui o plano elaborado pelo chamado
“Consenso de Washington” – a que Noam Chomsky prefere chamar de “Consenso sem
consentimento de ninguém” – a imposição de uma moeda paritária ao dólar
estadunidense, a política de manutenção de superávits primários elevados,
privatizações selvagens e o regime de “metas de inflação” – até o nome é infeliz
e denuncia quem verdadeiramente lucra com a inflação ao contrário do que informa
a propaganda hipnótica. Depois de suportar 8 anos de agonia tucano-pefelista o
povo brasileiro votou numa alternativa em que via a mudança: Lula da Silva.
Este chega ao poder, mas ao invés de mudar o Brasil, muda de
lado! Dá prosseguimento ainda mais cruel e agudo aos ditames do “Consenso de
Washington” com o agravante de transformar as relações entre os três poderes em
uma confusão sem par. Diante da hegemonia total e absoluta do Poder Executivo,
descaracterizou-se a República! Mas não ficaram por aí, criaram expressões novas
para práticas antigas: suborno a parlamentares transformou-se em “verba não
contabilizada”. Escancararam tanto a porta da esbórnia que transformaram em
praxe remunerar parlamentares para votar não de acordo com suas consciências ou
de acordo com o desejo de seus eleitores, mas de acordo com o tamanho da propina
que recebiam – se o nome é “Mensalão”, pouco importa: está provado que houve
repasse de recursos a parlamentares venais em momentos de votações cruciais ao
governo.
Logo o PT, ex-paladino da ética na política, além de praticar
uma política econômica recessiva e restritiva em grau superlativo, gasta “o que
sobra” de maneira assaz discutível: Aerolula, subornos e propinas... Só depois
disso é que se pensa no que fazer com os recursos eventualmente remanescentes
para governar o Brasil. O mais incrível é que têm restado recursos, mesmo depois
de tanta loucura neste encaminhamento econômico fratricida, mas a incompetência
do governo neoliberal, ultradireitista de Lula da Silva é tanta que os
Ministérios devolvem dinheiro à Fazenda ao final de cada ano – aumentando ainda
mais o superávit primário, obrigando o Banco Central a manter elevadas taxas de
juros para conservar o governo cativo do mercado por uma espécie muito
sofisticada de “escravidão por dívida”.
Agora é a contagem regressiva para o final do primeiro
mandato do governo mais corrupto da história do Brasil. Mas a estratégia de
Marketing deles tem chances de sucesso, para nossa infelicidade, por dois
motivos principais:
1) A única alternativa a
este governo que se apresenta hoje com alguma chance de vitória pela via
eleitoral clássica é tão corrupta e inepta quanto esta que aí está. Passaram 8
anos dando provas cabais disso.
2) O individualismo
fóbico e a falta de instrução formal a que o Brasileiro acabou reduzido nestes
tempos sombrios faz com que a maior parte das pessoas tenda a ver mais realidade
nos números apresentados pelas estatísticas e pela mídia do que naquilo que vêem
em suas próprias casas, em sua próprias famílias ou vizinhança – “deve ser só
comigo”, pensa cada um, “afinal, eu vi na TV que as coisas estão melhorando...”
Choro pelo meu
país e não adormeço um dia sequer sem pedir ao Deus de Meu Coração que apresente
um caminho que nos liberte de tanta exploração e maldade.
Lázaro Curvelo Chaves –
01/12/2005
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