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Razão, Religião e Propaganda
O que é Razão?
O mais interessante é o quanto isso me lembra os momentos em que, no Parlamento e na Área Econômica dos últimos desgovernos brasileiros (de 1964 até 2011) remunerava-se regiamente economistas dispostos a questionar “o que são juros reais”, com vistas, obviamente a aumentá-los bestialmente a ponto de vivermos hoje no país com as taxas de juros mais altas do Planeta Terra. Quando me posiciono a favor da Razão ou como “racionalista” sempre ouço o riso de muitos e a pergunta implicante de quem não quer seguir este tipo de linha de encaminhamento (racional) do pensamento, em geral religiosos das mais diversas fezes existentes ou seguidor de teorias econômicas irracionais em grau superlativo. Em condições ideais – mais ou menos como a que existia na Educação Brasileira entre as décadas de 30 e 60 do século passado – a compreensão do que seja Razão era quase imediata. Hoje, com o setor educacional estatal sucateado (professores com salários miseráveis, salas com mais de 90 alunos por professor, numa estrutura burocrática imbecil e paquidérmica, torna-se necessário explicar o que seja Razão. Houve mesmo um debate ali pela década de 80 do século passado e, pelo menos na UFF, na PUC e no IUPERJ a “Razão do Capital’ falou mais alto que a “Razão Humanista” e os poucos que ainda falam em termos sérios sobre o assunto são pouco conhecidos e seus depoimentos, livros e artigos pouco lidos: José Saramago, Eduardo Galeano, Noam Chomsky, Ignácio Ramonet e gente desse quilate, sem espaço na mídia internacional. Sendo necessária a explicação, portanto, tento aqui dentro de minhas modestas limitações e vou aprimorando à medida que meu conhecimento do Universo (ou Multiversos, como já anunciam os maiores astrônomos do mundo) for se ampliando. Racional é tudo aquilo que traz felicidade ao ser humano; do bem-estar físico ao mental, possibilitando atualizar ao máximo suas potencialidades. Irracional é tudo o que traga infelicidade e limite o bem-estar físico e mental do ser humano, limitando mais ainda a realização plena das suas potencialidades.
Por que a raiva de quem sabe? Isso não é ruim para todo o mundo? Não seria melhor saber do que desconhecer? Já ouviu o ditado? “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe!” Custaram-me poucos anos de vida para perceber que essa “raiva de quem sabe” é visceral, profunda, real, dolorosa e cruel. Cada descoberta nova que fazia nas Ciências Sociais, em busca de saber, era acompanhada de uma saraivada de ataques irracionais – cheguei a ouvir de professores renomados, por repetidas vezes ao defender algumas teses humanistas que não vêm ao caso no momento, a expressão “LIMITE-SE”, V. Sa. tem de se LIMITAR a...” enfim, ao nível de compreensão a que o professor havia chegado. Quando, por um motivo desses que ainda não sou capaz de explicar com clareza – precisamos do distanciamento saudável do tempo para falarmos com clareza sobre uma experiência traumatizante que tivemos – resolvi aceitar um convite para ingressar na Maçonaria, me entusiasmei, comecei a estudar livros clássicos sobre o tema e entrar em contato com pesquisadores escoceses e franceses descobrindo coisas extraordinárias, contudo inadmissíveis por aqui em terra brasilis. Numa Loja Maçônica, como é de amplo conhecimento geral, há certa ritualística, o uso da palavra segue uma determinada seqüência, dizem-se algumas palavras incomuns no cotidiano e cuja origem a maioria esmagadora dos maçons desconhece – e, infelizmente, de novo, “têm raiva de quem sabe”. Uma raiva daquelas capazes de nos causar problemas de ordem prática no mundo real. Comecei a aprender e, não sei muito bem como, suportei a pressão contra a busca do conhecimento até chegar ao grau 4, quando me decidi por “adormecer”. Em minha opinião – ao contrário da maioria – “segredo maçônico” diz respeito às origens dos rituais, palavras, gestuais e congêneres, não diz respeito a malfeitorias que eventualmente um dos maçons faça no mundo real. Pensava sozinho que o importante era conhecer as raízes da Ordem – até por curiosidade histórica e científica – não os festejos posteriores aos rituais ou os segredos de alcova ou negociatas deste ou daquele cidadão. Sentindo-me um soldado marchando sozinho na direção certa e sem conseguir conquistar um único aliado para ideais mais nobres decidi-me por “adormecer”. A polêmica sobre a necessidade de acreditar numa espécie de deus antropomórfico pessoal versus a tradição francesa que requer meramente a admissão da existência de um princípio inicial, que pode mesmo ser o Big Bang, como atualmente tendo a ver dadas as provas apresentadas pelos astrônomos foi a gota d’água que usei para me afastar honrosamente. Voltaire (nome pelo qual o filósofo e traficante de escravos Jean-Marie Arouette ficou conhecido) dizia “não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las”. Não podemos saber até que ponto esse discurso tinha eco na sua vida cotidiana, mas o princípio parece sólido e bom. Nós, humanos, devemos e temos o direito de pesquisar o que quer que desejemos e apresentar os resultados de nossas pesquisas da melhor maneira que pudermos, eventualmente persuadindo algumas pessoas que tendam a concordar conosco e aprofundar ou dar prosseguimento a nossos trabalhos quando chegarmos ao fim de nossa existência. Já que digredi um pouco para o Iluminismo, tomemos Diderot: “O que é primário, a Matéria ou a Idéia?” – Você teve de nascer, se alimentar como se alimentou ao longo de toda a vida, aprender e ter as convivências que teve para chegar a ter as idéias que tem hoje estas, seguramente, desaparecerão quando o “hardware” que lhes dá suporte – o Cérebro – parar de funcionar. Irracional é acreditar em “idéias” passeando por aí – por vezes até “passando de um corpo para o outro”, sem o suporte material necessário ao surgimento da própria idéia. Daí a Bertrand Russel, Charles Darwin e Richard Dawkins é um passo. Ou “salto qualitativo”, de acordo com seu horizonte epistêmico e escolha de palavras.
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Conquistas religiosas da humanidade Segundo o Nobel em Física Steven Weinberg, “Good people will do good things, and bad people will do bad things. But for good people to do bad things -- that takes religion." (Pessoas boas sempre realizarão coisas boas e pessoas más perpetrarão maus atos. Mas para que uma pessoa boa faça coisas más – é necessária a religião”). Apesar de condenar Galileu por constatar cientificamente que a terra é redonda e gira em seu próprio eixo, Copérnico por colocar o Sol, não a Terra, no centro do Sistema Solar, incinerar vivo com a língua trespassada por uma adaga a Giordano Bruno por defender que “o Universo é tão vasto quanto a Bondade de Deus” a Igreja Católica hoje tem de conviver com o fato de que o nosso é o terceiro planeta num sistema com 8 (Plutão, como Ceres, o maior dos asteróides, foi demovido de “Planeta” para “proto-planeta”), que a nossa Galáxia tem bilhões de estrelas, a maioria delas maior que o nosso Sol e seguramente com um cortejo de planetas a circular umas tantas e mesmo que a Via Láctea é apenas mais uma das bilhões de Galáxias – muitas delas imensamente maiores que a Via Láctea – no Universo conhecido cujo fim não se vislumbra mas cujos ecos de uma grande explosão inicial ainda se fazem ouvir – explosão que provavelmente não haja sido única e que haja uma quantidade incalculável de outros “universos” possíveis, etc. Hoje, clérigos cristãos, judeus e muçulmanos condenam a pesquisa com células-tronco. Mas quem chamou gente religiosa a debater temática de pesquisa médica avançada? Já vimos os problemas que eles nos deram quando se fazia pesquisas em operações cardíacas (no coração, “sede da alma”, não se deve mexer, segundo os sempre retrógrados clérigos e seus inflamados seguidores)! Sam Harris em “Carta a Uma Nação Cristã” aponta o monumental irracionalismo de condenar potencialmente uma quantidade vastíssima de paraplégicos e portadores de outras doenças potencialmente curáveis, uma vez que as células-tronco são capazes de reproduzir qualquer parte do corpo humano com base no fundamento de que a alma (de novo!) entra no corpo no momento da concepção e um blastocisto é mais importante que um ser humano adulto, vivo porém doente de um mal potencialmente curável com o uso apropriado das células-tronco. Blastocisto é um grupo pequenino de células que seriam retiradas 3 dias após a fecundação para o desenvolvimento em laboratório em busca da cura para males que ainda afligem a humanidade. Cerca de 50% dos blastocistos são expelidos pelo corpo feminino sem que a mulher sequer o perceba, aliás. Sam Harris diz, meio a sério, meio que de brincadeira que, para quem acredita em um deus antropomórfico e pessoal, e que ele toma todas as providências para a vida de cada um dos 6 milhões de habitantes do terceiro planeta do sistema solar (de terremotos, furacões e maremotos, passando por guerras e chegando até aos abortos) ele é o maior aborcionista do universo com uma taxa dessas! E olha que, para reforçar o argumento de Weinberg nem precisei citar as Cruzadas, a Santa Inquisição, a condenação do uso de camisinha na África infestada por AIDS, muçulmanos que se explodem levando com ele “infiéis” que lhes serão escravos pela eternidade e, se fizer isso num gesto de elevado heroísmo será premiado com 72 virgens no paraíso masculino imaginado pelo Islã, ou judeus que massacram Palestinos no cotidiano em nome de uns textos escritos ao final do Neolítico, na Era do Bronze, por um grupo de pessoas que não tinha meios de conhecer mais do que aquela pequenina região do Crescente Fértil. Certa feita ouvi uma observação curiosa – e isso numa igreja protestante – será que na Arca de Noé tinha mico-leão-dourado, canguru, urso polar, pingüim... Razão é Fé são 100% inconciliáveis.
E tome propaganda! Desde 1989 Wall Street decidiu tomar as rédeas do poder político nos EUA através do ator Ronald Reagan – que lia e interpretava bem os textos a ele passados pelos verdadeiros autores, representantes políticos da rapina da Bolsa de Valores na Casa Branca. Dali para cá tornou-se possível ao estadunidense médio hipotecar a própria casa em até 3 ou 4 bancos – e, invariavelmente perdê-la. Nos EUA – não estou seguro se no Brasil também, esse tipo de dado não está ao alcance do público – é possível fazer seguro contra incêndio ou roubo da casa de um empregado ou mesmo o banco fazer seguro de vida de um cliente, tornando relativamente comuns os casos em que uma pessoa vale mais para o banco morto do que vivo. Lembrando sempre que há um motivo racional para eu não ter o direito de fazer o seguro contra incêndio da sua casa: se alguém botar fogo nela, quem fica com o dinheiro sou eu! Hmmm.... Ali começou a “desregulamentação”, a onda monstruosa de privatizações que ocorreram pelo mundo afora, Wall Street despejou dinheiro nas Universidades Particulares, particularmente nas áreas de Ciências Humanas, tornando o pensamento, como pontua claramente Noam Chomsky, “único”. Uma tendência já prevista por Herbert Marcuse em “Ideologia da Sociedade Industrial”, a idéia do Homem Unidimensional. Se o jovem não concorda que o melhor encaminhamento da economia é este que faz proliferar a quantidade de “Eike Batistas” nas colônias com economia mais concentrada do mundo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u711962.shtml ), o jovem “não passa de ano”, não encontra orientador para suas teses, fica parecendo que o estudante é “burro”. Vi isso acontecer perto de mim ao tempo em que ministrava aulas de Pós-Graduação em Tecnologia Educacional na UNIFRAN... E me lembrei da famosa “Pedagogia de Urubus” de Rubem Alves. “Por vezes, a recusa em aprender é a melhor demonstração de uma inteligência arguta” – o famoso Educador conta que os Urubus resolveram ensinar numa escola de canários. Os burros dos canários não conseguiram aprender que o seu silvo era feio e bonito era o som gutural dos urubus, que a cor amarela era horrenda em comparação com o negro brilhante das penas de seus professores, etc... Hoje vivemos num país com escolas estaduais em estado de calamidade pública (baixos salários reduzindo inclusive o nível intelectual dos professores que se prestam a receber tão pouco; alunos orientados em seus primeiros anos por creches absolutamente inadequadas e que chegam ao sistema educacional precisando não somente aprender a matéria que o professor deveria ensinar, mas o que em meu tempo se chamava “modos civilizados”) particularmente por causa da ideologia privatista – ainda há algumas escolas razoáveis no meio privado, mas há um motivo pelo qual todas as correntes políticas em todos os tempos defendem coisas como Saúde e Educação exclusivamente, senão principalmente, DEVER DO ESTADO: escola com fins lucrativos tendem a cortar gastos com professores, instalações, pessoal de apoio e coisas assim a fim de maximizar os lucros. O mesmo vai para a saúde. Dia desses um médico do INAMPS me mostrou o contra-cheque. R$ 1,25 (Um real e vinte e cinco centavos) por consulta! Nos postos de saúde as enfermeiras têm de enfrentar uma situação de falta de higiene perigosíssima: usualmente há água corrente, mas faltam toalhas de papel, falta sabonete, falta álcool gel e os pacientes esperam amontoados em locais onde seus vírus e bactérias podem interagir livremente, sem intervenção estatal ou humana... Há opção? Planos de Saúde que sempre são “majorados acima da inflação”. Aliás, o que tem de treco que aumenta “mais do que a inflação” nessepaíz nos faz pensar: como é que medem esse treco? Da mesma maneira que medem as taxas de desemprego, ou seja, expurgando quem recebe os R$ 22,00 de bolsa esmola, expurgando o número de demissões no período (ISSO É O MAIS GRAVE – por vezes se demite muito mais gente do que se contrata num determinado período mas, como os institutos de pesquisa são sempre, de alguma forma estatais – e estes é que deveria ser 100% livres de intervenção estatal! – retiram do cômputo o que realmente conta chegando a um país com desemprego perto de zero na propaganda quando na vida real todas as famílias têm vários membros desempregados e as filas, quando se anuncia uma vaga qualquer postulando um salário mínimo, rapidamente se formam e tomam quilômetros de extensão!) E o Plano de Saúde, em geral, na hora “H” não cobre precisamente o tipo de procedimento de você precisa! Cortaram para “majorar os lucros”. Há um motivo para a Saúde Pública ser tratada como dever do Estado, não pode ter “fins lucrativos” e tem de ter boa qualidade! Se a França, a Inglaterra, a Dinamarca, a Suécia, a Noruega e o Canadá – entre tantas Nações do Mundo – o conseguem, porque não o Brasil, que tem uma das maiores tarifas de impostos do mundo? Falar em propaganda que vai na direção contrária da vida real e na qual as pessoas tendem a acreditar mais que em suas próprias existências no cotidiano difícil fiquei impressionado quando, por acaso, ouvi um trecho de discurso da Dilma Roussef e ela prometia – fácil ver se um político brasileiro está mentindo: se sua boca está aberta e há som saindo, está mentindo – “ampliar o bolsa-esmola” a fim de que todos possam ter o seu carro para buscar o filho na escola, pagar a prestação do “minha casa minha vida”, manter a geladeira abastecida, etc. Ao pesquisar o valor real do bolsa-esmola mais espanto: R$ 22,00 mensais! Em que Universo se consegue conquistar tanto (casa própria, carro e geladeira abastecida) com tão pouco (R$ 22,00) e como é que as pessoas acreditam que esmola ajuda os miseráveis em alguma coisa? Com menos da metade do que o governo gasta mantendo os miseráveis em situação de dependência num país com voto obrigatório se poderia criar grandes obras públicas, gerar empregos de verdade e tirar os miseráveis dessa condição (Franklin Roosevelt fez isso nos EUA no início da década de 30, com enorme sucesso). Leia-se o que Oscar Wilde tem a dizer sobre a esmola em seu breve ensaio sobre as virtudes da Desobediência: http://www.culturabrasil.org/desobediencia.htm Dia 14 passado escrevi um texto – e este é a continuação, por assim dizer, em grande medida incentivado pela Flávia do Café Brasil, a quem agradeço o apoio – e concluo da mesma forma que concluo esse fechando o raciocínio entre Razão, Religião e Propaganda: “Na Alemanha a crítica religiosa está concluída e esta é a premissa de toda a crítica econômica”, inicia Karl Marx com estas palavras a sua “Crítica à Filosofia do Direito, de Hegel”. O paralelo ficou distante no tempo e no espaço, mas para pessoas capazes de acreditar que Jesus nasceu de uma virgem, andou pelas águas, ressuscitou dos mortos e voltará “a qualquer momento” como um Super-Herói para punir os maus com as chamas eternas do inferno e premiar os bons com uma eternidade de preces e contemplações (seja sincero, qual das opções parece mais penosa?). Quem acredita em sandices assim – e que se multiplicam pães e peixes com um gesto de mágica – seguramente encontrará facilidade em acreditar em toda a bobajada que a propaganda governamental enfia goela abaixo dos brasileiros.
Lázaro Curvêlo Chaves – 20 de março de 2011
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