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Errico Malatesta nasceu em 14 de dezembro de 1853 na pequena cidade de
Santa Maria de Capua Vetere, na província de Caserta. Seu pai, “um homem de
idéias liberais”, segundo Luigi Fabbri, era um rico proprietário de terras.
Aos 14 anos de idade, Malatesta inicia sua atividade política ao
protestar contra uma injustiça local, através de carta que envia ao rei
Vittorio Emmanuele II, considerada por Fabbri como “insolente e ameaçadora”.
As autoridades levaram a sério e ordenaram sua prisão, em 25 de março de
1868. Seu pai conseguiu libertá-lo recorrendo a amigos. Dois anos mais tarde
(1870), segundo angiolini, ele foi novamente preso em Nápoles, por liderar uma
manifestação e “suspenso” por um ano da Universidade de Nápoles, onde
estudava medicina.
No ano de 1871, Errico adere à Internacional, por influência de Fanelli
e Palladino. Ingressa na seção napolitana da Associação Internacional dos
Trabalhadores, onde inicia uma nova fase de atividades. Anos mais tarde
descreveria a vida de um militante naqueles dias de “entusiasmo”, quando os
internacionalistas estavam “sempre dispostos a qualquer sacrifício pela causa
e estavam animados pelas mais arrebatadas esperanças”.
“Todos entregavam para a propaganda tudo o que podiam, e também o que
não podiam, pois quando o dinheiro escasseava, vendiam tranqüilamente os
objetos de suas casas, aceitando com resignação as censuras das respectivas
famílias. Pela propaganda esquecíamos o trabalho e os estudos! Enfim, a Revolução
estava a ponto de eclodir a qualquer momento, e teria arrumado tudo. Alguns
acabavam com freqüência na cadeia, todavia, saíam dali com mais energias do
que antes: as perseguições não tinham outro efeito senão consolidar nosso
entusiasmo. É verdade que as perseguições daquele momento eram fracas
comparadas com as que viriam mais tarde. Naquela época, o regime saído de uma
série de revoluções: e as autoridades, rígidas desde o início com os
trabalhadores, em particular no campo, mostravam certo respeito pela liberdade
na luta política, uma espécie de indisposição parecida com a dos governantes
austríacos e a dos Bourbons, que, todavia, se desfez tão rápido quanto se
consolidou o regime, e a luta pela independência nacional foi relegada a um
segundo plano”.
Nessa época, Malatesta se dedica de corpo e alma à Federação
Italiana, e colabora com Carlo Cafiero em L’Ordine e La Campana
de Nápoles, tendo abandonado seu curso de medicina.
Em 1872, por ocasião do Congresso de Saint-Imier, conhece Bakunin e
participa dos trabalhos da Aliança. Ouçamos a comovente descrição do
primeiro encontro de Malatesta com Bakunin, feita pelo primeiro, em 1926, aos 73
anos de idade:
“... e assim fui para a Suíça com Cafiero. Encontrava-me enfermo,
cuspia sangue e tinha em mente a idéia de que estava tuberculoso...
Enquanto atravessava à noite o Gotardo (naquela época ainda não havia
o túnel, sendo necessário atravessar a montanha coberta de neve em diligência)
resfriei-me e cheguei à casa de Zurique, onde vivia Bakunin, tiritando de
febre.
“Depois das primeiras saudações, Bakunin me preparou uma cama e me
convidou – ou melhor, me forçou – a deitar-me, cobriu-me com todos os
cobertores que pôde encontrar e insistiu para que eu descansasse e dormisse.
Tudo isso com um cuidado e uma ternura maternal que me chegaram diretos ao coração.
“Quando me encontrava envolto nos cobertores e todos pensavam que eu
dormia, ouvi Bakunin dizer coisas admiráveis sobre mim e comentava
melancolicamente: “É uma pena que tenha ficado tão enfermo, em breve o
perderemos; não lhe restam sequer seis meses!”
Entre as influências que determinaram o desenvolvimento de Malatesta, a
de Bakunin foi a mais importante. Errico se refere a ele como: “O grande
revolucionário, aquele a quem todos nós vemos como nosso pai espiritual”.
Sua maior qualidade era a capacidade de “comunicar fé, desejo de ação e
sacrifício a todos aqueles que tinham a oportunidade de encontrá-lo. Costumava
dizer que era preciso ter o diabo no corpo,
e sem dúvida o tinha em seu corpo e sua mente”.
Em 1873, Malatesta passa sem motivo seis meses na prisão em Trani, e
atrai a simpatia do diretor pelo interesse de suas discussões.
No ano seguinte eclodem os movimentos insurrecionais preparados por
Bakunin e Cafiero. A polícia, advertida, faz fracassar esses movimentos.
Malatesta se encontra em Pouilles, foge numa carroça de feno, mas é
reconhecido, preso e novamente encarcerado na prisão de Trani. No processo, em
1875, a propaganda pela Internacional não cessa e ele é absolvido. Junta-se
então a Bakunin e Cafiero na Suíça. Nesse mesmo ano, 1875, apesar dos
conselhos de Bakunin, parte para a Hungria a fim de participar da insurreição
de Herzegovina contra os turcos. É preso e entregue à polícia italiana.
Em 1877, Malatesta e Cafiero preparam o movimento “o bando de
Benevento”. Angariam dinheiro, encontram-se com Kropotkin, sem resultado.
Finalmente Cafiero vendo o que lhe restava de bens. Esse movimento tinha um
valor de exemplo. O revolucionário russo, Sergei Stepniak, dele participou.
Apesar da ação da polícia, Cafiero, Stepniak e Malatesta, assim como uns
trinta internacionalistas, armados, bandeira vermelha à frente, tomaram a vida
de Lentino. Foram distribuídas armas à população, os documentos oficiais
queimados. Em seguida, foram a Gallo. Em todos os lugares faziam discursos, a
população escutava, mas não participava. O exército interveio, a situação
era desesperadora, Malatesta e Cafiero, ainda que sabendo como fugir
permaneceram in loco e foram presos. A aventura durou doze dias, um
policial foi morto, um outro foi ferido.
No processo, todos declararam ter disparado contra os policiais, mas o júri
os absolveu.
Malatesta volta a Nápoles em 1878 e é constantemente vigiado pela polícia.
Gasta sua herança em propaganda. Parte por um tempo para o Egito. Lá, o cônsul
italiano o expulsa para Beirute, o de Beirute o envia para Esmirna. A bordo de
um navio francês, torna-se amigo do capitão, que o conserva no navio até a Itália.
Em Livorno, a polícia quer prendê-lo, mas o capitão se recusa a entregá-lo.
Finalmente, Malatesta desce para Marselha e, dali, vai para Genebra onde ajuda
Kropotkin a publicar Le Revolté. Expulso, dirige-se à Romênia, em
seguida, à França (1879). De novo expulso, vai para a Bélgica, depois para
Londres. Fixa-se, enfim, em Londres, onde trabalha como vendedor de sorvetes e
de bombons antes de abrir uma nova oficina mecânica.
Empreende várias viagens clandestinas à França, Bélgica, Espanha, Itália.
Incógnito na Itália polemiza com Merlino em L’Agitazione, em conseqüência
da passagem deste ao parlamentarismo. Graças a isso Merlino não é seguido por
quase nenhum anarquista italiano. Malatesta ataca os individualistas e os
marxistas, o esponteneísmo de Kropotkin, insiste “sobre a necessidade de
organizar o anarquismo em partido e propaga, pela primeira vez na Itália, o método
sindical e a ação direta operária”. O jornal era apreciado mesmo por seus
adversários. Preso de novo por agitações sociais é enviado para a prisão da
ilha de Nistica, depois para a de Lampedusa. Foge com dois camaradas em 1899,
alcança Malta, Londres, em seguida Paterson nos Estados Unidos. Lá, dá
continuidade à publicação do jornal La Questione Sociale. Profere
conferências, redige Il nostro programma, vai a Cuba e retorna a Londres
(1900). Retoma sua oficina mecânica (e de eletricidade) no bairro de
Islingston. Publica vários jornais: L’Internazionale, Lo Schiopero
Generale, etc. Participa do Congresso Internacional de Amsterdã, em 1907,
onde se opõe a Monatte sobre a questão sindicalista.
Em 1913, vai à Itália, encontra-se com Mussolini, diretor do jornal Avanti
(jornal operário mais importante). Acalma as querelas pessoais entre os
anarquistas, entra em contato com as outras organizações revolucionárias, faz
conferências, encoraja os sindicalistas (1914).
Em Ancona, durante as manifestações antimilitaristas das quais
participava Malatesta, a polícia dispara, o povo se apodera da cidade. Os
sindicatos decretam a greve geral. É a “semana vermelha”. Porém, o exército
intervém. Mussolini apóia o movimento em palavra, mas nada faz. Malatesta foge
não sem declarar: “Continuaremos a preparar a revolução libertadora que
deverá assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar”.
Volta uma vez mais para Londres onde critica, entre outros, Kropotkin,
por ter se manifestado a favor da guerra. Em 1919, regressa uma vez mais à Itália,
onde é recebido em Gênova por uma multidão. Inicia uma série de conferências
sobre a necessidade da revolução. O jornal tradicional italiano Corriere de
la Sera, a 20 de janeiro de 1920, retrata-o como se segue: O anarquista
Malatesta é hoje uma das maiores personagens da vida italiana. As multidões
das cidades correm a seu encontro, e só não lhe entregam as chaves das portas,
como era o costume outrora, unicamente porque não há mais chaves nas portas.
Inicia, então, negociações com os socialistas para fazer a revolução.
A polícia tenta provocar desordens e assassina-lo. Apesar dos obstáculos
legais, Umanità Nova, jornal de Malatesta, tem uma tiragem inicial de
50.000 exemplares. Impulsiona a União Sindicalista Italiana (U.S.I.) de influência
anarquista.
Em 1920, em Ancona, eclode uma insurreição e as fábricas são
ocupadas. Mas, o movimento é traído pela atitude dos social-democratas da
C.G.T. que devolvem as fábricas.
Após um encontro anarquista na cidade de Bolonha, em que Malatesta toma
a palavra, eclodem incidentes, há vítimas e feridos do lado dos operários e
da polícia. Malatesta e equipe do Umanità Nova são presos. Os
protestos se multiplicam, ocorrem atentados fascistas.
O fascismo, financiado pela burguesia, ajudado pelo governo, avança. Em
contrapartida, Malatesta favorece a formação dos grupos armados.
Em julho de 1922, a greve geral é proclamada pela Aliança do Trabalho
(união de diversos sindicatos sobre o impulso de Malatesta), mas o fascismo a
dizima pela força. Em seguida, em outubro, acontece a “marcha sobre Roma”,
e a sobre a praça Cavour os fascistas queimam um retrato de Malatesta. Umanitá
Nova é proibido. Malatesta, aos sessenta e nove anos, retoma sua profissão
de eletricista. A polícia o vigia em todos os seus movimentos.
Em 1924, surge Pensiero e Volontà. O fascismo, em seu começo,
permite a liberdade de imprensa, mas a censura se faz cada vez mais severa até
a proibição da revista em 1926. A oficina de malatesta é destruída pelos
fascistas. É obrigado a sobreviver da ajuda dos camaradas, assim como sua
companheira, Elena Mulli e a filha desta última, Gemma.
Sua saúde se debilita. Ele consegue enviar artigos para Le Réveil
de Genebra e L’Adunata Del Refratari de Nova Iorque. Os ataques brônquio-pulmonares
se sucedem. Malatesta morre em 22 de julho de 1932.
Apud. Vernon Richards –
Malatesta, Vida e Idéias e
Artigos Políticos.
ESCRITOS REVOLUCIONÁRIOS
PROGRAMA ANARQUISTA
1903
O texto que segue foi publicado em 1903, sob o título Nosso
Programa, por um grupo italiano dos Estados Unidos. Em 1920, ele foi
inteiramente aceito pelo congresso da Unione Anarchica Italiana de 1 a 4 de
julho. O primeiro parágrafo não aparece em 1920 e os subtítulos são, ao
contrário, dessa época.
Nada temos a dizer de novo. A propaganda não é, e não pode ser, senão
a repetição contínua, incansável, dos princípios que devem nos servir de
guia na conduta que devemos seguir nas diferentes circunstâncias da vida.
Repetiremos, portanto, com termos mais ou menos diferentes, mas no fundo
constantes, nosso velho programa socialista-anarquista-revolucionário.
O programa da União Anarquista Italiana é o programa
anarquista-comunista revolucionário. Há meio século ele foi proposto na Itália,
no seio da Internacional, sob o nome de programa socialista. Mais tarde, tomou o
nome de socialista-anarquista, como reação contra a degenerescência, autoritária
e parlamentar, crescente do movimento socialista. Em seguida, finalmente,
denominaram-no anarquista.
-
O
que queremos
Acreditamos que a maioria dos males que afligem os
homens decorre da má organização social; e que os homens, por sua vontade e
seu saber, podem fazê-los desaparecer.
A sociedade atual é o resultado das lutas
seculares que os homens empreenderam entre si. Desconheceram as vantagens que
podiam resultar para todos da cooperação e da solidariedade. Viram em cada um
de seus semelhantes (exceto, no máximo, os membros de sua família) um
concorrente e um inimigo. E procuraram açambarcar, cada um por si, a maior
quantidade de prazeres possível, sem se preocuparem com os interesses alheios.
Nesta luta, é óbvio, os mais
fortes e os mais afortunados deviam vencer, e, de diferentes maneiras, explorar
e oprimir os vencidos.
Enquanto o homem não foi capaz
de produzir mais do que o estritamente necessário para sua sobrevivência, os
vencedores só podiam afugentar e massacrar os vencidos, e se apoderar dos
alimentos colhidos.
Em seguida – quando, com a
descoberta da pecuária e da agricultura, o homem soube produzir mais do que
precisava para viver – os vencedores acharam mais cômodo reduzir os vencidos
à servidão e fazê-los trabalhar para eles.
Mais tarde, os vencedores
acharam mais vantajoso, mais eficaz e mais seguro explorar o trabalho alheio por
outro sistema: conservar para si a propriedade exclusiva da terra e de todos os
instrumentos de trabalho, e conceder uma liberdade aparente aos deserdados.
Estes, não tendo os meios para viver, eram obrigados a recorrer aos proprietários
e a trabalhar para eles, sob as condições que eles lhes fixavam.
Deste modo, pouco a pouco, através
de uma rede complicada de lutas de todos os tipos, invasões, guerras, rebeliões,
repressões, concessões feitas e retomadas, associação dos vencidos, unidos
para se defenderem, e dos vencedores, para atacarem, chegou-se ao estado atual
da sociedade, em que alguns homens detêm hereditariamente a terra e todas as
riquezas sociais, enquanto a grande massa, privada de tudo, é frustrada e
oprimida por um punhado de proprietários.
Disto depende o estado de miséria
em que se encontram geralmente os trabalhadores, e todos os males decorrentes:
ignorância, crime, prostituição, definhamento físico, abjeção moral, morte
prematura. Daí a constituição de uma classe especial (o governo) que, provida
dos meios materiais de repressão, tem por missão legalizar e defender os
proprietários contra as reivindicações do proletariado. Ele se serve, em
seguida, da força que possui para arrogar-se privilégios e submeter, se ela
pode fazê-lo, à sua própria supremacia, a classe dos proprietários. Disso
decorre a formação de outra classe especial (o clero), que por uma série de fábulas
relativas à vontade de Deus, à vida futura, etc, procura conduzir os oprimidos
a suportarem docilmente o opressor, o governo, os interesses dos proprietários
e os seus próprios. Daí decorre a formação de uma ciência oficial que é,
em tudo o que pode servir os interesses dos dominadores, a negação da
verdadeira ciência. Daí o espírito patriótico, os ódios raciais, as guerras
e as pazes armadas, mais desastrosas do que as próprias guerras. O amor
transformado em negócio ignóbil. O ódio mais ou menos latente, a rivalidade,
a desconfiança, a incerteza e o medo entre os seres humanos.
Queremos mudar radicalmente tal
estado de coisas. E visto que todos estes males derivam da busca do bem-estar
perseguido por cada um por si e contra todos, queremos dar-lhe uma solução,
substituindo o ódio pelo amor, a concorrência pela solidariedade, a busca
exclusiva do bem-estar pela cooperação, a opressão pela liberdade, a mentira
religiosa e pseudocientífica pela verdade.
Em conseqüência:
1)
Abolição da propriedade privada da terra, das matérias-primas e
dos instrumentos de trabalho – para que ninguém disponha de meio de viver
pela exploração do trabalho alheio –, e que todos, assegurados dos meios de
produzir e de viver, sejam de fato independentes e possam associar-se
livremente, uns aos outros, no interesse comum e conforme as simpatias pessoais.
2)
Abolição do governo e de todo poder que faça a lei para impô-la
aos outros: portanto, abolição das monarquias, repúblicas, parlamentos, exércitos,
polícias, magistraturas e toda instituição que possua meios coercitivos.
3)
Organização da vida social por meio das associações livres e
das federações de produtores e consumidores, criadas e modificadas segundo a
vontade dos membros, guiadas pela ciência e pela experiência, liberta de toda
obrigação que não derive das necessidades naturais, às quais todos se
submetem de bom grado quando reconhecem seu caráter inelutável.
4)
Garantia dos meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar às
crianças e a todos aqueles que são incapazes de prover sua existência.
5)
Guerra às religiões e todas as mentiras, mesmo que elas se
ocultem, sob o manto da ciência. Instrução científica para todos, até os
graus mais elevados.
6)
Guerra ao patriotismo. Abolição das fronteiras, fraternidade
entre todos os povos.
7)
Reconstrução da família, de tal forma que ela resulte da prática
do amor, liberto de todo laço legal, de toda opressão econômica ou física,
de todo preconceito religioso.
Tal é o nosso ideal.
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Vias
e meios
Até
agora expusemos qual é o objetivo que queremos atingir, o ideal pelo qual
lutamos.
Mas não
basta desejar uma coisa: se se quer obtê-la, é preciso, sem dúvida, empregar
os meios adaptativos à sua realização. E esses meios não são arbitrários:
derivam necessariamente dos fins a que nos propomos e das circunstâncias nas
quais lutamos. Enganando-nos na escolha dos meios, não alcançamos o objetivo
contemplado, mas, ao contrário, afastamo-nos dele rumo a realidades freqüentes
opostas, e que são a conseqüência natural e necessária aos métodos que
empregamos. Quem se opõe a caminho e se engana de estrada, não vai aonde quer,
mas aonde o conduz o caminho tomado.
É preciso dizer, portanto,
quais são os meios que, segundo nossa opinião, conduzem ao nosso ideal, e que
intencionamos empregar.
Nosso ideal não é daqueles
cuja plena realização depende do indivíduo considerado de modo isolado.
Trata-se de mudar o modo de viver em sociedade: estabelecer entre os homens relações
de amor e solidariedade, realizar a plenitude do desenvolvimento material, moral
e intelectual, não para o indivíduo isolado, não para os membros de certa
classe ou de certo partido, mas para todos os seres humanos. Esta transformação
não é medida que se possa impor pela força; deve surgir da consciência
esclarecida de cada um, para se manifestar, de fato, pelo livre consentimento de
todos.
Nossa primeira tarefa deve ser,
portanto, persuadir as pessoas.
É necessário atrair a atenção
dos homens para os males que sofrem, e para a possibilidade de destruí-los. É
preciso que suscitemos em cada um a simpatia pelos sofrimentos alheios, e o vivo
desejo pelo bem de todos.
A quem tem fome e frio,
mostraremos que seria possível e fácil assegurar a todos a satisfação das
necessidades materiais. A quem é oprimido e desprezado, diremos como se pode
viver de modo feliz em uma sociedade de livres e iguais. A quem é atormentado
pelo ódio e pelo rancor, indicaremos o caminho para encontrar o amor por seus
semelhantes, a paz e a alegria do coração.
E quando tivermos obtido êxito em disseminar na alma dos homens o
sentimento da revolta contra os males injustos e inevitáveis, dos quais se
sofre na sociedade atual, e em fazer compreender quais são suas causas e como
depende da vontade humana eliminá-las; quando tivermos inspirado o desejo vivo
e ardente de transformar a sociedade para o bem de todos, então os convictos,
por impulso próprio e pela persuasão daqueles que os precederam na convicção,
se unirão, desejarão e poderão por em prática o ideal comum.
Seria – já o dissemos –
absurdo e em contradição com nosso objetivo querer impor a liberdade, o amor
entre os homens, o desenvolvimento integral de todas as faculdades humanas pela
força. É preciso contar com a livre vontade dos outros, e a única coisa que
podemos fazer é provocar a formação e a manifestação desta vontade. Mas
seria da mesma forma absurdo e em contradição com nosso objetivo admitir que
aqueles que não pensam como nós impedem-nos de realizar nossa vontade, visto
que não os privamos do direito a uma liberdade igual à nossa.
Liberdade, portanto, para todos,
de propagar e experimentar suas próprias idéias, sem outros limites senão os
que resultam naturalmente da igual liberdade de todos.
Mas a isto se opõem, pela força
brutal, os beneficiários dos privilégios atuais, que dominam e regulam toda a
vida social presente.
Eles controlam todos os meios de
produção: suprimem, assim, não somente a possibilidade de aplicar novas
formas de vida social, o direito dos trabalhadores de viverem livremente de seu
trabalho, mas também o próprio direito à existência. Obrigam os não-proprietários
a se deixarem explorar e oprimir, se não quiserem morrer de fome.
Os privilegiados têm as polícias,
as magistraturas, os exércitos, criados de propósito para defendê-los, e para
perseguir, encarcerar, massacrar os oponentes.
Mesmo deixando de lado a experiência
histórica, que nos demonstra que nunca uma classe privilegiada despojou-se,
total ou parcialmente, de seus privilégios e que nunca um governo abandonou o
poder sem ser obrigado a fazê-lo pela força, os fatos contemporâneos bastam
para convencer quem quer que seja de que os governos e os burgueses procuram
usar a força material para sua defesa, não somente contra a expropriação
total, mas contra as mínimas reivindicações populares, e estão sempre
prontos a recorrer às perseguições mais atrozes, aos massacres mais
sangrentos.
Ao povo que quer se emancipar, só
resta uma saída: opor violência a violência.
Disso resulta que devemos
trabalhar para despertar nos oprimidos o vivo desejo de uma transformação
radical da sociedade, e persuadi-los de que, unindo-se possuem a força de
vencer. Devemos propagar nosso ideal e preparar as forças morais e materiais
necessárias para vencer as forças inimigas e organizar a nova sociedade.
Quando tivermos força suficiente, deveremos, aproveitando as circunstâncias
favoráveis que se produzirão, ou que nós mesmos provocaremos, fazer a revolução
social: derrubar pela força o governo, expropriar pela força os proprietários,
tornar comuns os meios de subsistência e de produção, e impedir que novos
governantes venham impor sua vontade e opor-se à reorganização social, feita
diretamente pelos interessados.
Tudo isso é, entretanto, menos
simples do que parece à primeira vista. Relacionamo-nos com os homens tais como
são na sociedade atual, em condições morais e materiais muito desfavoráveis;
e nos enganaríamos ao pensar que a propaganda é suficiente para elevá-los ao
nível de desenvolvimento intelectual e moral necessário à realização de
nosso ideal.
Entre o homem e a ambiência
social há uma ação recíproca. Os homens fazem a sociedade tal como é, e a
sociedade faz os homens tais como são, resultando disso um tipo de círculo
vicioso: para transformar a sociedade é preciso transformar os homens, e para
transformar os homens é preciso transformar a sociedade.
A miséria embrutece o homem e,
para destruir a miséria, é preciso que os homens possuam a consciência e a
vontade. A escravidão ensina os homens a serem servis, e para se libertar da
escravidão é preciso homens que aspirem à liberdade. A ignorância faz com
que os homens não conheçam as causas de seus males e não saibam remediar esta
situação; para destruir a ignorância, seria necessário que os homens
tivessem tempo e meios de se instruírem.
O governo habitua as pessoas a
sofrerem a lei e a crerem que ela é necessária à sociedade; para abolir o
governo é preciso que os homens estejam persuadidos da inutilidade e da
nocividade dele.
Como sair deste impasse?
Felizmente, a sociedade atual não
foi formada pela clara vontade de uma classe dominante que teria sabido reduzir
todos os dominados ao estado de instrumentos passivos, inconscientes de seus
interesses. A sociedade atual é a resultante de mil lutas intestinas, de mil
fatores naturais e humanos, agindo ao acaso, sem direção consciente; enfim, não
há nenhuma divisão clara, absoluta, entre indivíduos, nem entre classes.
As variedades das condições
materiais são infinitas; infinitos os graus de desenvolvimento moral e
intelectual. É até mesmo muito raro que a função de cada um na sociedade
corresponda às suas faculdades e às suas aspirações. Com freqüência,
homens caem em condições inferiores àquelas que eram as suas; outros, por
circunstâncias particularmente favoráveis, conseguem elevar-se acima do nível
em que nasceram. Uma parte considerável do proletariado já conseguiu sair do
estado de miséria absoluta, embrutecedora, a que nunca deveria ter sido
reduzido. Nenhum trabalhador, ou quase nenhum, encontra-se em estado de inconsciência
completa, de aquiescência total às condições criadas pelos patrões. E as próprias
instituições, que são produtos da história, contêm contradições orgânicas
que são como germes letais, cujo desenvolvimento traz a dissolução da
estrutura social e a necessidade de sua transformação.
Assim, a possibilidade de
progresso existe. Mas não a possibilidade de conduzir, somente pela propaganda,
todos os homens ao nível necessário para que possamos realizar a anarquia, sem
uma transformação gradual prévia do meio.
O progresso deve caminhar simultânea
e paralelamente entre os indivíduos e no meio social. Devemos aproveitar todos
os meios, todas as possibilidades, todas as ocasiões que o meio atual nos deixa
para agir sobre os homens e desenvolver sua consciência e suas aspirações.
Devemos utilizar todos os progressos realizados na consciência dos homens para
levá-los a reclamar e a impor as maiores transformações sociais hoje possíveis,
ou aquelas que melhor servirão para abrir caminho a progressos ulteriores.
Não devemos somente esperar
poder realizar a anarquia; e, enquanto esperamos, limitar-nos à propaganda pura
e simples. Se agirmos assim, teremos, em breve, esgotado nosso campo de ação.
Teremos convencido, sem dúvida, todos aqueles a que as circunstâncias do meio
atual tornam suscetíveis de compreender e aceitar nossas idéias, todavia,
nossa propaganda ulterior permaneceria estéril. E, mesmo que as transformações
do meio elevassem novas camadas populares à possibilidade de conceber novas idéias,
isto aconteceria sem nosso trabalho, e mesmo contra, em prejuízo, como conseqüência,
de nossas idéias.
Devemos fazer com que o povo, em
sua totalidade e em suas diferentes frações, exija, imponha e realize, ele próprio,
todas as melhorias, todas as liberdades que deseja, na medida em que concebe a
necessidade disso e que adquire a força para impô-las. Assim, propagando
sempre nosso programa integral e lutando de forma incessante por sua completa
realização, devemos incitar o povo a reivindicar e impor cada vez mais, até
que ele consiga a sua emancipação definitiva.
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A
luta econômica
A opressão que hoje pesa de uma forma mais direta
sobre os trabalhadores, e que é a causa principal de todas as sujeições
morais e materiais que eles sofrem, é a opressão econômica, quer dizer, a
exploração que os patrões e os comerciantes exercem sobre o trabalho, graças
ao açambarcamento de todos os grandes meios de produção e de troca.
Para suprimir radicalmente e sem
retorno possível esta exploração, é preciso que o povo, em seu conjunto,
esteja convencido de que possui o uso dos meios de produção, e de que aplica
este direito primordial explorando aqueles que monopolizam o solo e a riqueza
social, para colocá-los à disposição de todos.
Todavia, é possível passar
direto, sem graus intermediários, do inferno onde vive hoje o proletariado, ao
paraíso da propriedade comum? A prova de que o povo ainda não é capaz, é que
ele não o faz. O que fazer para chegar à expropriação?
Nosso objetivo é preparar o
povo, moral e materialmente, para esta expropriação necessária; é tentar
renovar a tentativa, tantas vezes quantas a agitação revolucionária nos der a
ocasião para fazê-lo, até o triunfo definitivo. Mas de que maneira podemos
preparar o povo? De que maneira podemos realizar as condições que tornarão
possível, não somente o fato material da expropriação, mas a utilização,
em vantagem de todos, da riqueza comum?
Nós dissemos mais acima que a
propaganda, oral ou escrita, sozinha, é impotente para conquistar para as
nossas idéias toda a grande massa popular. É preciso uma educação prática,
que seja alternadamente causa e resultado da transformação gradual do meio.
Deve-se desenvolver pouco a pouco nos trabalhadores o senso da rebelião contra
as sujeições e os sofrimentos inúteis dos quais são vítimas, e o desejo de
melhorar suas condições. Unidos e solidários, lutarão para obter o que
desejam.
E nós, como anarquistas e como
trabalhadores, devemos incitá-los e encorajá-los à luta, e lutar com eles.
Mas estas melhorias são possíveis
em regime capitalista? Elas são úteis do ponto de vista da futura emancipação
integral pela revolução?
Quaisquer que sejam os
resultados práticos da luta pelas melhorias imediatas, sua principal utilidade
reside na própria luta. É por ela que os trabalhadores aprendem a defender
seus interesses de classe, compreendem que os patrões e os governantes têm
interesses opostos aos seus, e que não podem melhorar suas condições, e ainda
menos se emancipar, senão unindo-se entre si e tornando-se mais fortes do que
os patrões. Se conseguirem obter o que desejam, viverão melhor. Ganharão
mais, trabalharão menos, terão mais tempo e força para refletir sobre as
coisas que os interessam; e eles sentirão de repente desejos e necessidades
maiores. Se não obtiverem êxito, serão levados a estudar as causas de seu
fracasso e a reconhecer a necessidade de uma união maior, de maior energia; e
compreenderão, enfim, que para vencer, segura e definitivamente, é preciso
destruir o capitalismo. A causa da revolução, a causa da elevação moral dos
trabalhadores e de sua emancipação só pode ganhar, visto que os operários
unem-se e lutam por seus interesses.
Todavia, uma vez mais, é possível
que os trabalhadores consigam, no estado atual em que as coisas se encontram,
melhorar de fato suas condições? Isto depende do concurso de uma infinidade de
circunstâncias. Apesar do que dizem alguns, não existe nenhuma lei natural
(lei dos salários) que determine a parte que vai para o trabalhador sobre o
produto de seu trabalho. Ou, se se quiser formular uma lei, ela não poderia ser
senão a seguinte: o salário não pode descer normalmente abaixo do que
é necessário à conservação da vida, e não pode normalmente se
elevar a ponto de não dar mais nenhum lucro ao patrão. É óbvio que, no
primeiro caso, os operários morreriam, e, assim, não receberiam mais salário;
no segundo caso, os patrões deixariam de fazer trabalhar e, em conseqüência,
não pagariam mais nada. Mas entre estes dois extremos impossíveis, há uma
infinidade de graus, que vão das condições quase animais de muitos
trabalhadores agrícolas, até aquelas quase decentes dos operários, em boas
profissões, nas grandes cidades.
O salário, a duração da
jornada de trabalho e todas as outras condições de trabalho são o resultado
das lutas entre patrões e operários. Os primeiros procuram pagar aos
trabalhadores o mínimo possível e fazê-los trabalhar até o esgotamento
completo; os outros se esforçam – ou deveriam se esforçar – em trabalhar o
mínimo e ganhar o máximo possível. Onde os trabalhadores se contentam com
qualquer coisa e, mesmo descontentes, não sabem opor resistência válida aos
patrões, são em pouco tempo reduzidos à condição de vida quase animal. Ao
contrário, onde eles têm uma elevada idéia do que deveriam ser as condições
de existência dos seres humanos; onde sabem se unir e, pela recusa ao trabalho
e pela ameaça latente ou explícita da revolta, impor que os patrões os
respeitem, eles são tratados de maneira relativamente suportável. Assim,
pode-se dizer que, em certa medida, o salário é o que o operário exige, não
enquanto indivíduo, mas enquanto classe.
Lutando, portanto, resistindo
aos patrões, os assalariados podem opor-se, até certo ponto, à agravação de
sua situação, e, até mesmo, obter melhorias reais. A história do movimento
operário já demonstrou esta verdade.
Não se deve, entretanto,
exagerar o alcance destas lutas entre explorados e exploradores no terreno
exclusivamente econômico. As classes dirigentes podem ceder, e cedem amiúde,
às exigências operárias expressadas com energia, enquanto não são muito
grandes. Contudo, quando os assalariados começam – e é urgente que eles o façam
– a reivindicar aumentos tais que absorveriam todo o lucro patronal e
constituiriam, assim, uma expropriação indireta, é certo que os patrões
apelariam ao governo e procurariam reconduzir os operários, pela violência, às
condições de todos os escravos assalariados.
E antes, bem antes que os operários
possam reivindicar receber em compensação ao seu trabalho o equivalente a tudo
que produziram, a luta econômica se torna impotente para assegurar destino
melhor.
Os operários produzem tudo, e
sem seu trabalho não se pode viver. Parece, portanto, que recusando trabalhar,
os trabalhadores poderiam impor todas as suas vontades. Mas a união de todos os
trabalhadores, mesmo de uma única profissão, em um único país, e
dificilmente realizável: à união dos operários se opõe a união dos patrões.
Os primeiros vivem com o mínimo para sobreviver no dia a dia e, se fazem greve,
falta-lhes o pão logo a seguir. Os outros dispõem, por meio do dinheiro, de
tudo o que foi produzido; podem esperar que a fome reduza os assalariados à sua
mercê. A invenção ou a introdução de novas máquinas torna inútil o
trabalho de grande número de trabalhadores, aumentando o exército de
desempregados, que a fome obriga a se venderem a qualquer preço. A imigração
traz, de repente, nos países onde as condições são mais favoráveis, multidões
de trabalhadores famintos que, bem ou mal, dão ao patronato o meio de reduzir
os salários. E todos estes fatos, resultando necessariamente do sistema
capitalista, conseguem contrabalançar o progresso que eles detêm e destroem.
Desta forma, resta sempre este fato primordial segundo o qual a produção no
sistema capitalista está organizada por cada empregador para seu proveito
pessoal, não para satisfazer as necessidades dos trabalhadores.
A desordem, o desperdício das
forças humanas, a penúria organizada, os trabalhos nocivos e insalubres, o
desemprego, o abandono das terras, a subutilização das máquinas etc, são
tantos males que não se podem evitar senão retirando dos capitalistas os meios
de produção, e, por via de conseqüência, a direção da produção.
Os operários que se esforçam
em se emancipar, ou aqueles que de fato procuram melhorar suas condições,
devem rapidamente se defender do governo, atacá-lo, pois ele legitima e
sustenta, pela força brutal, o direito de propriedade, ele é obstáculo ao
progresso, obstáculo que deve ser destruído se não se quiser permanecer
indefinidamente nas atuais condições, ou em outras ainda piores.
Da luta econômica deve-se
passar para a luta política, quer dizer, contra o governo. Ao invés de opor
aos milhões dos capitalistas os poucos centavos reunidos penosamente pelos operários,
é preciso opor aos fuzis e aos canhões que defendem a propriedade os melhores
meios que o povo encontrar para vencer pela força.
-
A
luta política
Por luta política entendemos a
luta contra o governo. O governo é o conjunto dos indivíduos que detêm
o poder de fazer a lei e de impô-la aos governados, isto é, ao público.
O governo é a conseqüência do
espírito de dominação e de violência que homens impuseram a outros homens,
e, ao mesmo tempo, é a criatura e o criador dos privilégios, e também seu
defensor natural.
É falso dizer que o governo
desempenha hoje o papel de protetor do capitalismo, e que este último tendo
sido abolido, ele se tornaria o representante dos interesses de todos. Antes de
mais nada, o capitalismo não será destruído enquanto os trabalhadores, tendo
se livrado do governo, não tiverem se apoderado de toda a riqueza social e
organizado, eles próprios, a produção e o consumo, no interesse de todos, sem
esperar que a iniciativa venha do governo, que, de resto, é incapaz de fazê-lo.
Se a exploração capitalista
fosse destruída, e o princípio governamental conservado, então, o governo,
distribuindo todos os tipos de privilégios, não deixaria de restabelecer um
novo capitalismo. Não podendo contentar todo mundo, o governo necessitaria de
uma classe economicamente poderosa para sustentá-lo, em troca da produção
legal e material que ela receberia dele.
Não se pode, portanto, abolir
os privilégios e estabelecer de modo definitivo a liberdade e a igualdade
social sem por fim ao Governo, não a este ou àquele governo, mas à própria
instituição governamental.
Nisso, assim como em tudo o que
concerne ao interesse geral, e mais ainda este último, é preciso o
consentimento de todos. Eis porque devemos nos esforçar em persuadir as pessoas
de que o governo é inútil e nocivo, e de que se vive melhor sem ele. Mas, como
já o dissemos, a propaganda sozinha é impotente para alcançar tudo isso; e se
nos contentássemos em pregar contra o governo, esperando, de braços cruzados,
o dia em que as pessoas estariam convencidas da possibilidade e da utilidade de
abolir por completo toda espécie de governo, este dia nunca chegaria.
Denunciando sempre esta espécie
de governo, exigindo sempre a liberdade integral, devemos favorecer todo combate
por liberdades parciais, convictos de que é pela luta que se aprende a lutar.
Começando a provar a liberdade, acaba-se por desejá-la inteiramente. Devemos
sempre estar com o povo; e quando não conseguirmos fazer com que queira muito,
devemos fazer com que, pelo menos, ele comece a exigir alguma coisa. E devemos
nos esforçar a que aprenda a obter por si mesmo o que quer – pouco ou muito
–, e a odiar e a desprezar quem quer que vá ou queira fazer parte do governo.
Visto que o governo detém,
hoje, o poder de regular, por leis, a vida social, ampliar ou restringir a
liberdade dos cidadãos, e visto que ainda não podemos arrancar-lhe esse poder,
devemos procurar enfraquecê-lo e obrigá-lo a fazer uso dele o menos
perigosamente possível. Mas, esta ação, devemos fazê-la sempre de fora e
contra o governo, pela agitação na rua, ameaçando tomar pela força o que se
exige. Jamais deveremos aceitar uma função legislativa, seja ela nacional ou
local, pois, assim agindo, diminuiríamos a eficácia de nossa ação e trairíamos
o futuro de nossa causa.
A luta contra o governo
consiste, em última análise, em luta física e material.
O governo faz a lei. Deve,
portanto, dispor de força material (exército e polícia) para impor a lei. De
outra forma, obedeceria quem quisesse, e não existiria mais lei, mas uma
simples proposição, que qualquer um seria livre para aceitar ou recusar. Os
governos possuem esta força e servem-se dela para reforçar sua dominação, no
interesse das classes privilegiadas, oprimindo e explorando os trabalhadores.
O único limite à opressão
governamental é a força que o povo se mostra capaz de lhe opor. Pode haver
conflito, aberto ou latente, mas sempre há conflito. Isso se dá porque o
governo não para diante do descontentamento e da resistência populares senão
quando sente o perigo de uma insurreição.
Quando o povo se submete
docilmente à lei, ou o protesto permanece fraco e platônico, o governo se
acomoda, sem se preocupar com as necessidades do povo. Quando o protesto é
vivo, insiste e ameaça, o governo, segundo seu humor, cede ou reprime. Mas é
preciso sempre chegar à insurreição, porque, se o governo não cede, o povo
acaba por se rebelar; e, se ele cede, o povo adquire confiança em si mesmo e
exige cada vez mais, até que a incompatibilidade entre a liberdade e a
autoridade seja evidente e desencadeie o conflito.
É, portanto, necessário
preparara-se moral e materialmente para que, quando a luta violenta eclodir, a
vitória fique com o povo.
A insurreição vitoriosa é o
fato mais eficaz para a emancipação popular, porque o povo, depois de ter
destruído o jugo, torna-se livre para se entregar às instituições que ele crê
(sempre retardatária) e o nível de civismo que a massa da população alcançou,
pode ser superada com um salto. A insurreição determina a revolução, isto é,
a atividade rápida das forças latentes acumuladas durante a evolução
precedente.
Tudo depende do que o povo é
capaz de querer.
Nas insurreições passadas, o
povo, inconsciente das verdadeiras causas de seus males, sempre quis bem pouco,
e conseguiu bem pouco.
O que desejará nas próximas
insurreições?
Isso depende em grande parte do
valor de nossa propaganda e da energia que formos capazes de mostrar.
Devemos incitar o povo a
expropriar os proprietários e a tornar comuns seus bens, organizar, ele próprio,
a vida social, por associações livremente constituídas, sem esperar ordens de
ninguém, recusar nomear ou reconhecer qualquer governo e qualquer corpo
constituído (Assembléia, Ditadura, etc) que se atribuíssem, mesmo a título
provisório, o direito de fazer a lei e impor aos outros sua vontade, pela força.
Se a massa popular não responde
ao nosso apelo, deveremos, em nome do direito que temos de ser livres, mesmo se
os outros desejarem permanecer escravos, para dar o exemplo, aplicar o máximo
possível nossas idéias: não reconhecer o novo governo, manter viva a resistência,
fazer com que as comunas, onde nossas idéias são recebidas com simpatia,
rejeitem toda ingerência governamental e continuem a viver de seu modo.
Deveremos, sobretudo, nos
opormos por todos os meios à reconstituição da polícia e do exército, e
aproveitar toda ocasião propícia para incitar os trabalhadores a utilizar a
falta de forças repressivas para impor o máximo de reivindicações.
Qualquer que seja o resultado da
luta, é preciso continuar a combater, sem trégua, os proprietários, os
governantes, tendo sempre em vista a completa emancipação econômica e moral
de toda a humanidade.
5. Conclusão
Desejamos, portanto, abolir de forma radical a dominação e a exploração
do homem pelo homem. Queremos que os homens, unidos fraternalmente por uma
solidariedade consciente, cooperem de modo voluntário com o bem-estar de todos.
Queremos que a sociedade seja constituída com o objetivo de fornecer a todos os
meios de alcançar igual bem-estar possível, o maior desenvolvimento possível,
moral e material. Desejamos para todos pão, liberdade, amor e saber.
Para isso, estimamos necessário que os meios de produção estejam à
disposição de todos e que nenhum homem, ou grupo de homens, possa obrigar
outros a obedecerem à sua vontade, nem exercer sua influência de outra forma
senão pela argumentação e pelo exemplo.
Em conseqüência: expropriação dos detentores do solo e do capital em
proveito de todos e abolição do governo.
Enquanto se espera: propaganda do ideal: organização das forças
populares; combate contínuo, pacífico ou violento, segundo as circunstâncias,
contra o governo e contra os proprietários, para conquistar o máximo possível
de liberdade e de bem-estar para todos.
UM POUCO DE TEORIA
1892
Sopra um vento de revolta em todos os lugares. A revolta é aqui a
expressão de uma idéia, lá o resultado de uma necessidade; com mais freqüência
ela é a conseqüência de uma mistura de necessidades e de idéias que se
engendram e se reforçam umas às outras. Ela se desencadeia contra a causa dos
males ou a ataca de modo indireto, ela é consciente e instintiva, humana ou
brutal, generosa ou muito egoísta, mas de qualquer modo, é a cada dia maior e
se amplia incessantemente.
É a marcha da história. É, portanto, inútil perder tempo a lamentar
quanto aos caminhos que ela escolheu, pois estes são traçados por toda a evolução
anterior.
Mas a história é feita pelos homens. Tendo em vista que não queremos
permanecer simples espectadores indiferentes à tragédia histórica, que
queremos participar com todas as nossas forças das escolhas dos eventos que nos
parecem mais favoráveis à nossa causa, é-nos preciso um critério que sirva
de guia na apreciação dos fatos que se desenrolam, sobretudo para poder
escolher o posto que devemos ocupar na batalha.
O fim justifica os meios. Denegriu-se muito esta máxima: ela é,
entretanto, uma regra universal de conduta. Seria melhor dizer: todo fim requer
seus meios, visto que a moral deve ser buscada no objetivo, os meios são
fatais.
Uma vez determinado o objetivo que se quer atingir, voluntária ou
necessariamente, o grande problema da vida consiste em encontrar o meio que,
segundo as circunstâncias, conduzirá de forma mais segura e econômica ao
objetivo fixado. O modo como se resolve o problema – desde que isso dependa da
vontade humana – determina que um homem ou um partido atinja ou não seu
objetivo, sirva sua causa ou, sem querer, a do inimigo. Encontrar o bom meio,
tal é o segredo dos grandes homens e dos grandes partidos que deixaram marcas
na história.
O objetivo dos jesuítas é, para os místicos, a glória de Deus, para
os outros a glória da Companhia. Eles se esforçam, portanto, em embrutecer as
massas, aterrorizá-las e subjugá-las.
O objetivo dos jacobinos e de todos os partidos autoritários – que
pensam estar de posse da verdade absoluta – é impor suas idéias à massa dos
profanos. Eles devem, portanto, se esforçar para tomar o poder, dominar as
massas e coagir a humanidade a sofrer as torturas de suas concepções.
Quanto a nós, o problema é diferente: nosso objetivo sendo muito
distinto, nossos meios devem sê-lo da mesma forma.
Nós não lutamos para tomar o lugar dos exploradores, tampouco para o
triunfo de uma abstração vazia. Nada temos de comum com o patriota italiano
que dizia: “Que importa que todos os italianos morram de fome se a Itália se
torna grande e gloriosa!”; tampouco com o camarada que reconhecia ser-lhe
indiferente que se massacrassem três quartos da humanidade, desde que a
humanidade fosse livre e feliz.
Nós desejamos a liberdade e o bem-estar de todos os homens, de todos os
homens sem exceção. Queremos que cada ser humano possa se desenvolver e viver
do modo mais feliz possível. E acreditamos que esta liberdade e este bem-estar
não poderão ser dados nem por um homem, nem por um partido, mas todos deverão
descobrir neles mesmos suas condições, e conquistá-las. Consideramos que
somente a mais completa aplicação do princípio da solidariedade pode destruir
a luta, a opressão e a exploração, e a solidariedade só pode nascer do livre
acordo, da harmonização espontânea e desejada dos interessados.
Segundo nosso ponto de vista, tudo o que tende a destruir a opressão
econômica e política, tudo o que serve para elevar o nível moral e
intelectual dos homens, para lhes dar consciência de seus direitos e de suas
forças, e para persuadi-los a fazer uso deles, tudo o que provoca o ódio
contra o opressor e suscita o amor entre os homens, aproxima-nos de nosso
objetivo e é, portanto, um bem, sujeito a um cálculo quantitativo a fim de
obter, com uma dada força, o máximo de efeito positivo. Ao contrário, o mal
consiste no que está em contradição com nosso objetivo, tudo o que tende a
conservar o Estado atual, tudo o que tende a sacrificar, contra a sua vontade,
um homem ao triunfo de um princípio.
Nós queremos o triunfo da liberdade e do amor.
Devemos, todavia, renunciar ao emprego de meios violentos? De forma
alguma! Nossos meios são aqueles que as circunstâncias nos permitem e nos impõem.
Evidentemente, não queremos tocar sequer num fio de cabelo de alguém,
enxugando as lágrimas de todos, sem fazer verter nenhuma. Mas é necessário
combater no mundo tal como ele é, sob pena de permanecermos sonhadores estéreis.
Virá o dia, estamos intimamente persuadidos, em que será possível
fazer o bem aos homens sem fazer o mal, nem a si mesmo, nem ao próximo; mas
hoje é impossível. Mesmo o mais puro e o mais dócil dos mártires, aquele que
se deixaria levar ao cadafalso pelo triunfo do bem, sem resistir, abençoando
seus perseguidores como o Cristo da lenda, mesmo ele faria mal. Além do mal que
ele faria a si mesmo, mas é assim, faria verter lágrimas amargas a todos
aqueles que o amassem.
Trata-se, portanto, sempre, em cada ato, de escolher o menor mal, tentar
fazer o mínimo de mal pela maior quantidade de bem possível.
A humanidade arrasta-se penosamente sob o peso da opressão política e
econômica; ela é embrutecida, degenerada e morta (nem sempre de forma lenta)
pela miséria, pela escravidão, pela ignorância e seus efeitos. Esta situação
é mantida por poderosas organizações militares e policiais, que respondem
pela prisão, pelo cadafalso e pelo massacre a toda tentativa de mudança. Não
há meios pacíficos, legais, para sair desta situação. É natural, porque a
lei é feita pelos privilegiados para defender expressamente seus privilégios.
Contra a força física que barra o caminho, não há outra saída para vencer
senão a força física, a revolução violenta.
Sem nenhuma dúvida, a revolução produzirá numerosas infelicidades,
muitos sofrimentos; mas, mesmo que ela produzisse cem vezes mais, seria uma bênção
em relação a todas as dores hoje engendradas pela má formação da sociedade.
Sabe-se que numa única batalha morrem mais pessoas do que na mais
sangrenta das revoluções; que milhões de crianças morrem anualmente muito
cedo, por falta de cuidados; que milhões de proletários morrem a cada ano,
prematuramente, em conseqüência da miséria. Conhece-se a vida raquítica, sem
alegrias e sem esperanças que leva a maioria dos homens. Mesmo os mais ricos e
os mais poderosos são menos felizes do que poderiam ser numa sociedade igualitária.
Este estado de coisas perdura desde tempos imemoriais. Isto duraria, portanto,
sem a revolução que combate resolutamente os males em suas raízes e pode
colocar de uma vez por todas a humanidade no caminho de seu bem-estar.
Boas-vindas, portanto, à revolução: cada dia de atraso inflige à
humanidade mais uma enorme massa de sofrimentos. Esforcemo-nos e trabalhemos
para que ela chegue rapidamente e consiga acabar para sempre com todas as opressões
e explorações.
É por amor aos homens que somos revolucionários: não é nossa culpa se
a história nos obriga a esta dolorosa necessidade.
Portanto, para nós anarquistas, ou pelo menos (visto que as palavras são,
em definitivo, convencionais) entre os anarquistas que pensam como nós, todo
ato de propaganda ou de realização, pelo discurso ou pelos fatos, individual
ou coletivo, é bom se lhe assegura o apoio consciente das massas e lhe dá caráter
de libertação universal; sem estes aspectos poderia ocorrer uma revolução,
mas não a que desejamos. É principalmente no fato revolucionário que é
preciso utilizar os meios econômicos, pois o gasto se dá em vidas humanas.
Conhecemos bem as condições materiais e morais dolorosas em que se
encontra o proletariado para nos explicarmos os atos de ódio, de vingança, e
até mesmo de ferocidade, que poderão ocorrer. Compreendemos que haverá
oprimidos que – tendo sido sempre tratados pelos burgueses com a mais ignóbil
dureza e tendo sempre visto que tudo é permitido para o mais forte – dirão
um dia depois de se terem tornado os mais fortes: “Ajamos também como
burgueses”. Compreendemos que isso possa ocorrer, na febre da batalha, em
naturezas generosas, mas necessitadas de preparação moral – muito difícil
de adquirir nos dias de hoje – que podem perder de vista o objetivo a ser
alcançado, tomem a violência como um fim em si e se deixem levar por atos
selvagens.
Uma coisa é compreender, outra coisa perdoar certos fatos, reivindicá-los,
ser solidário com eles. Não podemos aceitar, encorajar e imitar tais atos.
Devemos ser resolutos e enérgicos, mas devemos igualmente nos esforçar em
nunca ultrapassar os limites necessários. Devemos fazer como o cirurgião que
corta o que é preciso, evitando sofrimentos inúteis. Numa palavra, devemos ser
inspirados e guiados pelo sentimento de amor pelos homens, todos os homens.
Parece-nos que este sentimento de amor é o fundo moral, a alma do nosso
programa. Somente concebendo a revolução como a maior alegria humana, como
libertação e fraternização dos homens – qualquer que haja sido a classe ou
o partido aos quais eles pertencem – que nosso ideal poderá se realizar.
A rebelião brutal certamente aparecerá e poderá servir, também, para
dar o grande empurrão, o último empurrão que deverá derrubar o sistema
atual; mas se ela não encontra o contrapeso dos revolucionários que agem por
um ideal, tal revolução devorará a si mesma.
O ódio não produz o amor, e com o ódio não se renova o mundo. A
revolução pelo ódio seria um fracasso completo ou então engendraria uma nova
opressão, que poderia se chamar até mesmo anarquista, assim como os homens de
Estado atuais se dizem liberais, mas nem por isso deixaria de ser uma opressão
e não deixaria de produzir os efeitos que toda a opressão causa.
O OBJETIVO DOS ANARQUISTAS
La
Questione Sociale,
1899
O que devemos fazer?
Tal é o problema que se nos apresenta, a nós e a todos aqueles que
querem realizar e defender suas idéias, a todo o momento em sua vida militante.
Queremos abolir a propriedade individual e a autoridade, isto é,
expropriar os proprietários da terra e do capital, derrubar o governo, e
colocar à disposição de todos a riqueza social, a fim de que todos possam
viver a seu modo, sem outros limites senão aqueles impostos pelas necessidades,
livre e voluntariamente reconhecidas e aceitas. Em resumo, realizar o programa
socialista-anarquista. E estamos convencidos (a experiência cotidiana nos
confirma) que se os proprietários e o governo dominam graças à força física,
devemos, necessariamente, para vencê-los, recorrer à força física, à revolução
violenta. Somos, portanto, inimigos de todas as classes privilegiadas e de
todos os governos, e adversários de todos aqueles que tendem, mesmo de boa fé,
a enfraquecer as energias revolucionárias do povo e a substituir um governo por
outro.
Mas o que devemos fazer para estar em condições de fazer nossa revolução,
a revolução contra todo privilégio e toda autoridade, e triunfar?
A melhor tática seria fazer, sempre e em todos os lugares, propaganda de
nossas idéias e desenvolver no proletariado, por todos os meios possíveis, o
espírito de associação e de resistência, e suscitar cada vez maiores
reivindicações; combater continuamente todos os partidos burgueses e todos os
partidos autoritários, permanecendo indiferentes a suas querelas; organizar-nos
com aqueles que estão convencidos ou se convencem de nossas idéias, adquirir
os meios materiais necessários ao combate e, quando formos uma força
suficiente para vencer, lançarmo-nos sós, por nossa conta, para efetuar por
completo nosso programa, mais exatamente, conquistar para cada um a liberdade
total de experimentar, praticar e modificar pouco a pouco o modo de vida social
que se acreditava ser o melhor.
Todavia, infelizmente, esta tática não pode ser aplicada de modo
rigoroso e é incapaz de alcançar seu objetivo. A propaganda possui uma eficácia
limitada, e em um setor absolutamente condicionado de forma moral e material
para aceitar e compreender certo tipo de idéias. As palavras e os escritos são
pouco poderosos enquanto uma transformação do meio não conduzir o povo à
possibilidade de apreciar estas novas idéias. A eficácia das organizações
operárias é igualmente limitada pelas mesmas razões que se opõem à extensão
indefinida de nossa propaganda, e não somente por causa da situação econômica
e moral que enfraquece ou neutraliza por completo os efeitos da tomada de consciência
de certos trabalhadores.
Uma organização vasta e forte, na propaganda e na luta, encontra mil
dificuldades: nós mesmos, a falta de meios, e principalmente a repressão
governamental. Mesmo supondo que seja possível chegar, pela propaganda e pela organização,
a fazer nossa revolução socialista-anarquista, há todos os dias situações
políticas onde devemos intervir sob pena de perder vantagens para nossa
propaganda e toda a influência sobre o povo, arriscar destruir o trabalho
realizado e tornar mais difícil o futuro.
O problema é, portanto, encontrar o meio de determinar, na medida do
possível, as mudanças de situação necessárias ao progresso de nossa
propaganda e aproveitarmos as rivalidades entre os diferentes partidos políticos,
cada vez que a oportunidade se apresentar, sem renunciar a nenhum postulado de
nosso programa, para facilitar e aproximar o triunfo.
Na Itália, por exemplo, a situação é tal que é impossível, a maior
ou menor prazo (1899), que haja uma insurreição contra a monarquia. É certo
que, por outro lado, o resultado disso não será o socialismo-anarquismo.
Devemos tomar parte da preparação e da realização desta insurreição?
Alguns camaradas pensam que não temos nenhum interesse em fazer parte de
movimento que não tocará na propriedade privada e só servirá para mudar de
governo, quer dizer, uma república, que não será menos burguesa que a
monarquia.
Deixemos, dizem eles, os burgueses e os aspirantes ao poder “furarem-se
mutuamente a pele” e continuemos nossa propaganda contra a propriedade e a
autoridade.
Entretanto, a conseqüência de nossa recusa seria, em primeiro lugar,
que, sem nós, a insurreição teria menos chances de triunfar. Assim, a
monarquia ganharia, o que no momento em que a luta pela vida torna-se feroz,
obstruiria o caminho à propaganda e a todo progresso. Além do mais, o caminho
à propaganda e a todo progresso. Além do mais, estando ausentes do movimento,
não teríamos nenhuma influência sobre os acontecimentos ulteriores, não
poderíamos aproveitar as oportunidades que sempre se apresentariam num período
de transição entre um regime e outro, cairíamos no descrédito como partido
de ação e não poderíamos, durante muitos anos, fazer algo de importante.
Não se trata de deixar os burgueses lutarem entre si, porque numa
insurreição a força é sempre dada pelo povo, e se não dividirmos com os
combatentes os perigos e os sucessos tentando transformar o movimento político
em revolução social, o povo servirá apenas de instrumento nas mãos
ambiciosas dos aspirantes do poder.
Em compensação participando da insurreição (que não somos
bastante fortes para nos lançarmos sozinhos) e agindo o máximo possível,
ganharemos a simpatia do povo insurreto e poderemos fazer avançar as coisas o máximo
possível.
Sabemos muito bem, e não cessamos de dizê-lo e de demonstrá-lo, que
república e monarquia são idênticas e que todos os governos têm tendência a
aumentar seu poder e a oprimir cada vez mais os governados. Mas também sabemos
que quanto mais fraco é um governo, mais forte é a resistência do povo,
maiores são a liberdade e a possibilidade de progresso. Contribuindo de modo
eficaz para a queda da monarquia, poderíamos nos opor com maior ou menor eficácia
à consolidação de uma república, poderíamos permanecer armados, recusar
obedecer ao governo, e tentar expropriações e organizações anarquistas da
sociedade. Poderíamos impedir que a revolução estancasse desde o início, e
que as energias do povo, despertadas pela insurreição, adormecessem novamente.
Tudo isso são coisas que não poderíamos fazer, por razões evidentes de
psicologia, para poderíamos fazer, por razões evidentes de psicologia, para
com o povo, intervindo depois da revolução e da vitória contra a monarquia,
sem a nossa participação.
Levados por esses motivos, outros camaradas gostariam que parássemos
provisoriamente a propaganda anarquista, para nos ocuparmos com o combate contra
a monarquia e, após o triunfo da insurreição, recomeçarmos nosso trabalho
específico de anarquistas. Eles não vêem que se nos confundíssemos com os
republicanos faríamos o trabalho da futura república, desorganizando nossos
grupos, semeando a confusão, sem poder impedir em seguida o reforço da república.
Entre estes dois erros, o caminho a seguir parece-nos o mais claro.
Devemos nos posicionar com os republicanos, os social-democratas e todo partido
antimonarquista para derrubar a monarquia. Mas devemos ser, enquanto
anarquistas, pela anarquia, sem romper nossas forças nem confundi-las com a dos
outros, sem fazer compromissos para além da cooperação na ação militar.
Somente assim, segundo nossa opinião, podemos obter, quando dos próximos
acontecimentos, todas as vantagens de uma aliança com os outros partidos
antimonarquistas, sem renunciarmos em nada ao nosso programa.
A ORGANIZAÇÃO DAS MASSAS OPERÁRIAS
CONTRA O GOVERNO E OS PATRÕES
Agitazione
d’Ancone, 1897.
Nós já o repetimos: sem organização, livre ou imposta, não pode
existir sociedade; sem organização consciente e desejada, não pode haver nem
liberdade, nem garantia de que os interesses daqueles que vivem em sociedade
sejam respeitados. E quem não se organiza, quem não procura a cooperação dos
outros e não oferece a sua, em condições de reciprocidade e de solidariedade,
põe-se necessariamente em estado de inferioridade e permanece uma engrenagem
inconsciente no mecanismo social que outros acionam a seu modo, e em sua
vantagem.
Os trabalhadores são explorados e oprimidos porque, estando
desorganizados em tudo que concerne à proteção de seus interesses, são
coagidos, pela fome ou pela violência brutal, a fazer o que os dominadores, em
proveito dos quais a sociedade atual está organizada, querem. Os trabalhadores
se oferecem, eles próprios (enquanto soldado e capital), à força que os
subjuga. Nunca poderão se emancipar enquanto não tiverem encontrado na união
a força moral, a força econômica e a força física que são necessárias
para abater a força organizada dos opressores.
Houve anarquistas, e ainda há, que, ainda que reconhecendo a necessidade
de organização na sociedade futura e a necessidade de se organizarem agora
para a propaganda e para a ação, são hostis a qualquer organização que não
tenha por objetivo direto a anarquia e não siga os métodos anarquistas. E
alguns se afastaram de todas as associações de resistência existentes,
consideraram quase uma defecção tentar organizar novas associações.
Para esses camaradas, todas as forças, organizadas em um objetivo que não
fosse radicalmente revolucionário, seriam, talvez, subtraídas à revolução.
Acreditamos, ao contrário, e a experiência já nos mostrou isso muito bem, que
seu método condenaria o movimento anarquista a uma perpétua esterilidade.
Para se fazer propaganda é preciso estar no meio das pessoas. É nas
associações operárias que o trabalhador encontra seus camaradas e, em princípio,
aqueles que estão mais dispostos a compreender e a aceitar nossas idéias. E
mesmo que se quisesse fazer intensa propaganda fora das associações, isto não
poderia ter efeito sensível sobre a massa operária. Excetuando um pequeno número
de indivíduos mais instruídos e capazes de reflexões abstratas e de
entusiasmos teóricos, o operário não pode chegar de uma só vez à anarquia.
Para se tornar anarquista de modo sério, e não somente de nome, é preciso que
comece a sentir a solidariedade que o une a seus camaradas, é preciso que
aprenda a cooperar com os outros na defesa dos interesses comuns e que, lutando
contra os patrões e capitalistas são parasitas inúteis e que os trabalhadores
poderiam assumir a administração social. Quando compreende isso, o trabalhador
é anarquista, mesmo que não carregue o nome.
Por outro lado, favorecer as organizações populares de todos os tipos
é a conseqüência lógica de nossas idéias fundamentais e, assim, deveria
fazer parte integrante de nosso programa.
Um partido autoritário, que visa controlar o povo para impor suas idéias,
tem interesse em que o povo permaneça massa amorfa, incapaz de agir por si
mesma e, conseqüentemente, sempre fácil de dominar. É lógico, portanto, que
só deseje um certo nível de organização, segundo a forma que ajude na tomada
do poder: organização eleitoral se espera atingir seu objetivo pela via legal;
organização militar se conta com a ação violenta.
Nós, anarquistas, não queremos emancipar
o povo, queremos que o povo se emancipe.
Nós não acreditamos no fato imposto, de cima, pela força; queremos que
o novo modo de vida social saia das entranhas do povo e corresponda ao grau de
desenvolvimento atingido pelos homens e possa progredir à medida que os homens
avançam. Desejamos, portanto, que todos os interesses e todas as opiniões
encontrem, em uma organização consciente, a possibilidade de se colocar em
evidência e influenciar a vida coletiva, na proporção de sua importância.
Nós assumimos como objetivo lutar contra a atual organização social e
destruir os obstáculos que se opõem à realização de uma nova sociedade,
onde a liberdade e o bem-estar estarão assegurados a todos. Para perseguir este
objetivo, unimo-nos em partido e procuramos nos tornar os mais numerosos e os
mais fortes possível. Mas os outros também estão organizados em partido.
Se os trabalhadores permanecessem isolados como tantas unidades
indiferentes umas das outras, ligadas a uma cadeia comum; se nós mesmos não
estivéssemos organizados com os trabalhadores enquanto trabalhadores, não
poderíamos apenas nos impor... E então não seria o triunfo da anarquia, mas o
nosso. E não poderíamos mais dizermo-nos anarquistas, seríamos simples
governantes, incapazes de fazer o bem, como todos os governantes.
Fala-se com freqüência de revolução e acredita-se por esta palavra
resolver todas as dificuldades. Mas o que deve ser, o que pode ser essa revolução
à qual aspiramos?
Abater os poderes constituídos e declarar extinto o direito de
propriedade é desejável: um partido pode fazê-lo além de suas forças, conte
com a simpatia das massas e com uma suficiente preparação da opinião pública.
Todavia, e depois? A via social não admite interrupções. Durante a
revolução ou a insurreição, como queiram, e imediatamente após, é preciso
comer, vestir, viajar, imprimir, tratar dos doentes etc, e estas coisas não se
fazem por si mesmas. Hoje o governo e os capitalistas as organizam para delas
tirar proveito; quando eles tiverem sido abatidos, será preciso que os próprios
operários o façam em proveito de todos, senão verão surgir, sob um nome ou
outro, novos governantes e novos capitalistas.
E como os operários poderiam prover as necessidades urgentes se eles não
estão agora habituados a se reunir e a discutir, juntos, os interesses comuns,
e ainda não estão prontos, de certo modo, a aceitar a herança da velha
sociedade?
Numa cidade onde os cerealistas e os donos de padarias tiverem perdido
seus direitos de propriedade e, por conseguinte, o interesse em abastecer o
mercado, será preciso, a partir do dia seguinte, encontrar nas padarias o pão
necessário à alimentação do público. Quem pensará nisso se os empregados
das padarias já não estiverem associados e prontos a trabalhar sem os patrões,
e se, esperando a revolução, eles não tiverem pensado de antemão em calcular
as necessidades da cidade e os meios de abastecê-la?
Todavia, nós não queremos dizer que para fazer a revolução seja
preciso esperar que todos os operários estejam organizados. Seria impossível,
tendo em vista as condições do proletariado, e felizmente não é necessário.
Mas é preciso que pelo menos haja núcleos em torno dos quais as massas possam
reagrupar-se rapidamente, tão logo elas sejam liberadas do peso que as oprime.
Se é utopia querer fazer a revolução somente quando estivermos todos prontos
e de acordo, é ainda mais utópico querer fazê-la sem nada e ninguém. É
preciso uma medida em tudo. Enquanto esperamos, trabalhemos para que as forças
conscientes e organizadas do proletariado cresçam tanto quanto seja possível.
O resto virá por si só.
OS ANARQUISTAS E O SENTIMENTO MORAL
Le Réveil, Genebra, 05/11/1904.
O número daqueles que se dizem anarquistas é tão grande, hoje, e sob o
nome de anarquia expõem-se doutrinas tão divergentes e contraditórias que
estaríamos errados em nos surpreendermos quando o público, de forma alguma
familiarizado com nossas idéias, não podendo distinguir de imediato as grandes
diferenças que se escondem sob a mesma palavra, permanece indiferente em relação
à nossa propaganda e também ressente uma certa desconfiança em relação a nós.
Não podemos, é óbvio, impedir os outros de se atribuírem o nome que
eles escolhem. Quanto a nós mesmos reiniciarmos à denominação de
anarquistas, isto de nada serviria, pois o público simplesmente acreditaria que
teríamos virado a casaca.
Tudo o que podemos e devemos fazer é distinguirmo-nos sem dubiedade
daqueles que têm uma concepção da anarquia diferente da nossa, e extraem
desta mesma concepção teórica conseqüências práticas absolutamente opostas
àquelas que extraímos. E a distinção deve resultar da exposição clara de
nossas idéias, e da repetição franca e incessante de nossa opinião sobre
todos os fatos que estão em contradição com nossas idéias e nossa moral, sem
considerações por uma pessoa ou por um partido qualquer. Esta pretensa
solidariedade de partido entre pessoas que não pertenciam ou não teriam podido
pertencer ao mesmo partido, foi sem dúvida uma das causas principais da confusão.
Ora, chegamos a tal ponto que muitos exaltam nos camaradas as mesmas ações
que censuram nos burgueses, e parece que seu único critério do bem ou do mal
consiste em saber se o autor de tal ou qual ato se diz ou não anarquista. Um
grande número de erros conduziu alguns a se contradizerem abertamente, na prática,
com os princípios que professam em teoria, e outros a suportar tais contradições;
assim também, um grande número de causas conduziram ao nosso meio, pessoas que
no fundo zombam do socialismo, da anarquia e de tudo o que ultrapassa os
interesses de suas pessoas.
Não posso empreender aqui uma análise metódica e completa de todos
estes erros, e também limitar-me-ei a tratar daqueles que mais me chocaram.
Falemos antes de mais nada da moral.
Não é raro encontrar anarquistas que negam
a moral. Inicialmente é um simples modo de falar, para estabelecer que do
ponto de vista teórico eles não admitem moral absoluta, eterna e imutável, e
que, na prática, revoltam-se contra a moral burguesa, que sanciona a exploração
das massas e golpeia todos os atos que lesam ou ameaçam os interesses dos
privilegiados. Em seguida, pouco a pouco, como acontece em muitos casos, tomam a
figura retórica como expressão exata da verdade. Esquecem que, na moral
habitual, ao lado das regras inculcadas pelos padres e pelos patrões para
assegurar mais substancial parte, sem as quais toda a coexistência social seria
impossível; – eles esquecem que se revoltar contra toda regra imposta pela
força não quer dizer em absoluto renunciar a toda reserva moral e a todo
sentimento de obrigação para com os outros; – esquecem que para combater de
modo racional certa moral, é preciso opor-lhe, em teoria e em prática, outra
moral superior: e acabam algumas vezes, seu temperamento e as circunstâncias
ajudando, por se tornarem imorais no
sentido absoluto da palavra, isto é, homens sem regra de conduta, sem critério
para guiar suas ações, que cedem passivamente ao impulso do momento. Hoje,
privam-se de pão para socorrer um camarada; amanhã, matarão um homem para ir
ao bordel!
A moral é a regra de conduta que cada homem considera como boa. Pode-se
achar má a moral dominante de tal época, de tal país ou de tal sociedade, e
achamos, com efeito, a moral burguesa mais do que má; mas não se poderia
conceber uma sociedade sem qualquer moral, nem homem consciente que não tenha
critério algum para julgar o que é bom e o que é mal, para si mesmo e para os
outros.
Quando combatemos a sociedade atual, opomos a moral burguesa
individualista, a moral da luta e da solidariedade, e procuramos estabelecer
instituições que correspondam à nossa concepção das relações entre os
homens. Se fosse de outra forma, por que não acharíamos correto que os
burgueses explorem o povo?
Outra afirmação nociva, sincera em alguns, mas que, para outros, é
apenas desculpa, é que o meio social atual não permite que se seja moral, e
que, conseqüentemente, é inútil tentar esforços destinados a permanecerem
sem sucesso; o melhor a fazer, é tirar das circunstâncias atuais o máximo
possível para si mesmo sem se preocupar com o próximo, exceto a mudar de vida
quando a organização social tiver também mudado. Certamente, todo anarquista,
todo socialista compreende as fatalidades econômicas que, hoje, obrigam o homem
a lutar contra o homem; e ele vê, como bom observador, a impotência da revolta
pessoal contra a força preponderante do meio social. Mas é igualmente verdade
que, sem a revolta do indivíduo, associando-se a outros indivíduos revoltados
para resistir ao meio e procurar transformá-lo, este meio nunca mudará.
Somos, todos sem exceção, obrigados a viver, mais ou menos, em contradição
com nossas idéias; mas somos socialistas e anarquistas precisamente na medida
em que sofremos esta contradição e que procuramos, tanto quanto possível,
torná-la menor. No dia em que nos adaptássemos ao meio, não mais teríamos,
é óbvio, vontade de transformá-lo, e nos tornaríamos simples burgueses;
burgueses sem dinheiro, talvez, mas não menos burgueses nos atos e nas intenções.
RUMO À ANARQUIA
1910
É muito freqüente acreditar que pelo fato de dizermo-nos revolucionários,
achamos que o advento da anarquia deva produzir-se de uma só vez, como conseqüência
imediata de uma insurreição, que abateria de forma violenta tudo o que existe
e o substituiria por instituições verdadeiramente novas. Para dizer a verdade,
não faltam camaradas que assim concebem a revolução.
Este mal-entendido explica porque entre nossos adversários, muitos crêem,
de boa fé, que a anarquia é uma coisa impossível; e isto também explica
porque certos camaradas, vendo que a anarquia não pode medrar repentinamente,
tendo em vista as condições morais atuais da massa, vivem entre um dogmatismo
que os põe fora da vida real e um oportunismo que os faz quase esquecer que são
anarquistas e, nesta qualidade, devem combater a favor da anarquia.
Ora, é certo que o triunfo da anarquia não pode ser efeito de um
milagre, assim como não pode produzir-se a despeito de, e em contradição com
a lei da evolução: que nada aconteça sem causa suficiente, que nada se possa
fazer se faltar a força necessária.
Se quiséssemos substituir um governo por outro, isto é, impor nossa
vontade aos outros, bastaria, para isto, adquirir a força material indispensável
para abater os opressores e colocarmo-nos em seu lugar.
Mas, ao contrário, queremos a Anarquia,
isto é, uma sociedade fundada sobre o livre e voluntário acordo, na qual ninguém
possa impor sua vontade a outrem, onde todos possam fazer como bem entendem e
concorrer voluntariamente para o bem-estar geral. Seu triunfo só será
definitivo, universal, quando todos os homens não mais quiserem ser comandados
nem comandar outras pessoas, e tiverem compreendido as vantagens da
solidariedade para saber organizar um sistema social no qual não haverá mais
marca de violência e de coação.
Por outro lado, assim como a consciência, a vontade, a capacidade,
aumentam gradualmente e só podem encontrar oportunidade e meios de se
desenvolverem na transformação gradual do meio e na realização das vontades
à medida em que elas se formam e se tornam imperiosas; assim, também, a
anarquia instaurar-se-á pouco a pouco, para se intensificar e se ampliar cada
vez mais.
Não se trata, portanto, de chegar à anarquia hoje ou amanhã, ou em dez
séculos, mas caminhar rumo a anarquia hoje, amanhã e sempre.
A anarquia é a abolição do roubo e da opressão do homem pelo homem,
quer dizer, a abolição da propriedade individual e do governo; a anarquia é a
destruição da miséria, da superstição e do ódio. Portanto, cada golpe
desferido nas instituições da propriedade individual e do governo, é um passo
rumo à anarquia, assim como cada mentira desvelada, cada parcela de atividade
humana subtraída ao controle da autoridade, cada esforço tendendo a elevar a
consciência popular e a aumentar o espírito de solidariedade e de iniciativa,
assim como a igualar as condições.
O problema reside no fato de saber escolher a via que de fato nos
aproxima da realização de nosso ideal, e de não confundir os verdadeiros
progressos com essas reformas hipócritas, que, a pretexto de melhorias
imediatas, tendem a afastar o povo da luta contra a autoridade e o capitalismo,
a paralisar sua ação e a deixá-lo esperar que algo possa ser obtido pela
bondade dos patrões e dos governantes. O problema consiste em saber empregar o
quinhão de forças que possuímos e que adquirimos de modo mais econômico e
mais útil ao nosso objetivo.
Hoje, em todos os países há um governo que, pela força brutal, impõe
a lei a todos, obriga-nos a nos deixar explorar e a manter, quer isto nos agrade
ou não, as instituições existentes, a impedir que as minorias possam colocar
em ação suas idéias e que a organização social, em geral, possa
modificar-se segundo as variações da opinião pública. O curso regular, pacífico,
da evolução parou pela violência, e é pela violência que será preciso
abrir-lhe caminho. É por isso que queremos a revolução violenta, hoje, e a
queremos sempre assim, pelo tempo que quiserem impor a alguém, pela força, uma
coisa contrária à sua vontade. Suprimida a violência governamental, nossa
violência não teria mais razão de ser.
Não podemos, no momento, destruir o governo existente, talvez não
possamos, amanhã, impedir que sobre as ruínas do atual governo, um outro
surja; mas isto não nos impede, hoje, assim como não nos impedirá, amanhã,
de combater não importa que governo, recusando submetermo-nos à lei toda vez
que isto nos for possível, e opor a força à força.
Toda vez que a autoridade é enfraquecida, toda vez que uma grande
parcela de liberdade é conquistada e não mendigada, é um progresso rumo à
anarquia. Da mesma forma, também é um progresso toda vez que consideramos o
governo como um inimigo com o qual nunca se deve fazer trégua, depois de nos
termos convencido que a diminuição dos males por ele engendrados só é possível
pela redução de suas atribuições e de sua força, não pelo aumento do número
dos governantes ou pelo fato de elegê-los pelos próprios governados. E por
governo entendemos todo homem ou agrupamento de indivíduos, no Estado, nos
Conselhos, na municipalidade ou na associação, que tenha o direito de fazer a
lei ou de a impor àqueles a quem ela não agrada.
Não podemos, no momento, abolir a propriedade individual, não podemos
neste instante dispor dos meios de produção necessários para trabalhar
livremente; talvez ainda não possamos quando de um próximo movimento
insurrecional; mas isto não nos impede, a partir de hoje, assim como não nos
impedirá, amanhã, de combater continuamente o capitalismo. Toda a vitória,
por menor que seja, dos trabalhadores contra o patronato, todo esforço contra a
exploração, toda parcela de riqueza subtraída aos proprietários e posta à
disposição de todos, será um progresso, um passo rumo à anarquia. Assim,
também, será um progresso todo fato que tenda a aumentar as exigências dos
operários e a dar mais atividade à luta, todas as vezes que pudermos encarar o
que tivermos ganhado, como uma vitória sobre o inimigo, não como uma concessão
à qual deveríamos ser agradecidos, toda vez que afirmamos nossa vontade de
tomar pela força, aos proprietários, os direitos que, protegidos pelo governo,
subtraíram dos trabalhadores.
Uma vez desaparecido da sociedade humana o direito da força, os meios de
produção colocados à disposição daqueles que querem produzir, o resto será
resultado da evolução pacífica.
A anarquia ainda não estaria realizada ou só o estaria para aqueles que
a desejam, e somente para as coisas em que o concurso dos não-anarquistas não
é indispensável. Ela se ampliará, assim, ganhando pouco a pouco os homens e
as coisas, até abraçar toda a humanidade e todas as manifestações da vida.
Uma vez desaparecido o governo, com todas as instituições nocivas que
protege, uma vez conquistada a liberdade para todos assim como o direito aos
instrumentos de trabalho, sem o qual a liberdade é uma mentira, só pensamos
destruir as coisas à medida em que pudermos substituí-las por outras. Por
exemplo: o serviço de abastecimento é mal feito na sociedade atual. Ele se
efetua de modo anormal, com grande desperdício de forças e de material, e
somente em vista dos interesses dos capitalistas; mas, em suma, de qualquer modo
que se opere o consumo, seria absurdo querer desorganizar este serviço, se não
estamos prontos a assegurar a alimentação do povo de uma forma mais lógica e
eqüitativa.
Existe o serviço dos correios, temos mil críticas a fazer-lhe, mas, no
momento, servimo-nos dele para enviar nossas cartas ou para recebê-las,
suportemo-lo, portanto, enquanto não pudermos corrigi-lo.
Existem escolas, infelizmente muito ruins, entretanto não desejaríamos
que nossos filhos permanecessem sem aprender a ler e a escrever, esperando que
possamos organizar escolas-modelos suficientes para todos.
Vemos, portanto, que para instaurar a anarquia não basta ter a força
material para fazer a revolução, mas é também preciso que os trabalhadores
associados, segundo os diversos ramos de produção, estejam em condições de
assegurar, por eles próprios, o funcionamento da vida social, sem o auxílio
dos capitalistas e do governo.
Pode-se também constatar que as idéias anárquicas, longe de estarem em
contradição com as leis da evolução estabelecidas pela ciência, como o
garantem os socialistas científicos, são concepções que se adaptam
perfeitamente a elas: é o sistema experimental, transportado do campo das
pesquisas para o das realizações sociais.
A ORGANIZAÇÃO I
Agitazione de Ancone, 04/07/1897.
Há anos que muito se discute entre os anarquistas esta questão. E como
freqüentemente acontece quando se discute com ardor à procura da verdade,
acredita-se, em seguida, ter razão. Quando as discussões teóricas são apenas
tentativas para justificar uma conduta inspirada por outros motivos, produz-se
uma grande confusão de idéias e de palavras.
Lembraremos, de passagem, sobretudo para nos livrarmos delas, as simples
questões de frases empregadas, que, às vezes, atingiram o cúmulo do ridículo,
como por exemplo: “Não queremos a organização, mas a harmonização”,
“Opomo-nos à associação, mas a admitimos”, “Não queremos secretário
ou caixa, porque é um sinal de autoritarismo, mas encarregamos um camarada para
se ocupar do correio e outro do dinheiro”; passemos a discussão séria.
Se não pudermos concordar, tratemos pelo menos de nos compreender.
Antes de mais nada, distingamos, visto que a questão é tripla: a
organização em geral, como princípio e condição da vida social, hoje, e na
sociedade futura; a organização das forças populares, e, em particular, a das
massas operárias, para resistir ao governo e ao capitalismo.
A necessidade de organização na vida social – direi que organização
e sociedade são quase sinônimos – é coisa tão evidente que mal se pode
acreditar que pudesse ter sido negada.
Para nos darmos conta disso, é preciso lembrar que ela é a função
específica, característica do movimento anarquista, e como homens e partidos
estão sujeitos a se deixarem absorver pela questão que os interessa mais
diretamente, esquecendo tudo o que a ela se relaciona, dando mais importância
à forma que ao conteúdo e, enfim, vendo as coisas somente de um lado, não
distinguindo mais a justa noção da realidade.
O movimento anarquista começou como uma reação contra o autoritarismo
dominante na sociedade, assim como todos os partidos e organizações operárias,
e se acentuou com os adventos de todas as revoltas contra as tendências autoritárias
e centralistas.
Era natural, em conseqüência, que inúmeros anarquistas estivessem como
que hipnotizados por esta luta contra a autoridade e que eles combatem, para
resistir à influência da educação autoritária, tanto a autoridade quanto a
organização, da qual ela é a alma.
Na verdade, esta fixação chegou ao ponto de fazer sustentar coisas
realmente incríveis. Combateu todo o tipo de cooperação e de acordo porque a
associação é a antítese da anarquia. Afirma-se que sem acordos, sem obrigações
recíprocas, cada um fazendo o que lhe passar pela cabeça, sem mesmo se
informar sobre o que fazem os outros, tudo estaria espontaneamente em harmonia:
que a anarquia significa que cada um deve bastar-se a si mesmo e fazer tudo que
tem vontade, sem troca e sem trabalho em associação. Assim, as ferrovias
poderiam funcionar muito bem sem organização, como acontecia na Inglaterra
(!). O correio não seria necessário: alguém de Paris, que quisesse escrever
uma carta a Petersburgo... Podia ele próprio levá-la (!!) etc.
Dir-se-á que são besteiras, que não vale a pena discuti-las. Sim, mas
estas besteiras foram ditas, propagadas: foram autêntica das idéias
anarquistas. Servem sempre como armas de combate aos adversários, burgueses ou
não, que querem conseguir uma fácil vitória sobre nós. E, também, estas
“besteiras” não são sem valor, visto que são a conseqüência lógica de
certas premissas e que podem servir como prova experimental da verdade, ou pelo
menos dessas premissas.
Alguns indivíduos, de espírito limitado, mas providos de espírito lógico
poderoso, quando aceitam premissas, extraem delas todas as conseqüências até
que, por fim, e se a lógica assim o quer, chegam, sem se desconcertar, aos
maiores absurdos, à negação dos fatos mais evidentes. Mas há outros indivíduos
mais cultos e de espírito mais amplo que encontram sempre um meio de chegar a
conclusões mais ou menos razoáveis, mesmo ao preço da violentação da lógica.
Para eles, os erros teóricos têm pouca ou nenhuma influência na conduta prática.
Mas, em suma, desde que não se haja renunciado a certos erros fundamentais,
estamos sempre ameaçados por silogismos exagerados, e voltamos sempre ao começo.
O erro fundamental dos anarquistas adversários da organização é crer
que não há possibilidade de organização sem autoridade. E uma vez admitida
esta hipótese, preferem renunciar a toda organização, ao invés de aceitar o
mínimo de autoridade.
Agora que a organização, quer dizer, a associação com um objetivo
determinado e com as formas e os meios necessários para atingir este objetivo,
é necessária à vida social, é uma evidência para nós. O homem isolado não
pode sequer viver como um animal: ele é impotente (salvo em regiões tropicais,
e quando a população é muito dispersa) e não pode obter sua alimentação;
ele é incapaz, sem exceção, de ter uma vida superior àquela dos animais.
Conseqüentemente, é obrigado a se unir a outros homens, como a evolução
anterior das espécies o mostra, e deve suportar a vontade dos outros (escravidão),
impor sua vontade aos outros (autoritarismo), ou viver com os outros em
fraternal acordo para o maior bem de todos (associação). Ninguém pode escapar
dessa necessidade. Os antiorganizadores mais imoderados suportam não apenas a
organização geral da sociedade em que vivem, mas também em seus atos, em sua
revolta contra a organização, eles se unem, dividem a tarefa, organizam-se com aqueles que compartilham suas idéias, utilizando
os meios que a sociedade coloca à sua disposição; com a condição de que
estes sejam fatos reais e não vagas aspirações platônicas.
Anarquia significa sociedade
organizada sem autoridade, compreendendo-se autoridade como a faculdade de impor
sua vontade. Todavia, também significa o fato inevitável e benéfico que
aquele que compreende melhor e sabe fazer uma coisa, consegue fazer aceitar mais
facilmente sua opinião. Ele serve de guia, quanto a esta coisa, aos menos
capazes que ele.
Segundo nossa opinião, a autoridade não é necessária à organização
social, mais ainda, longe de ajudá-la, vive como parasita, incomoda a evolução
e favorece uma dada classe que explora e oprime as outras. Enquanto há harmonia
de interesses em uma coletividade, enquanto ninguém pode frustrar outras
pessoas, não há sinal de autoridade. Ela aparece com a luta intestina, a divisão
em vencedores e vencidos, os mais fortes confirmando a sua vitória.
Temos esta opinião e é por isso que somos anarquistas, caso contrário,
afirmando que não pode existir organização sem autoridade, seremos autoritários.
Mas ainda preferimos a autoridade que incomoda e desola a vida, à desorganização
que a torna impossível.
De resto, o que seremos nos interessa muito pouco. Se é verdade que o
maquinista e o chefe de serviço devem forçosamente ter autoridade, assim como
os camaradas que fazem para todos um trabalho determinado, as pessoas sempre
preferirão suportar sua autoridade a viajar a pé. Se o correio fosse apenas
esta autoridade, todo homem são de espírito a aceitaria para não ter de
levar, ele próprio, suas cartas. Se se recusa isto, a anarquia permanecerá o
sonho de alguns e nunca se realizará.
A ORGANIZAÇÃO II
Agitazione de
Ancone, 11/07/1897.
Estando admitida a existência de uma coletividade organizada sem
autoridade, isto é, sem coerção, caso contrário, a anarquia não teria
sentido, falemos da organização do partido anarquista.
Mesmo nesses casos, a organização nos parece útil e necessária. Se o
partido, ou seja, o conjunto dos indivíduos que têm um objetivo em comum e se
esforçam para alcançá-lo, é natural que se entendam, unam suas forças,
compartilhem o trabalho e tomem todas as medidas adequadas para desempenhar esta
tarefa. Permanecer isolado, agindo ou querendo agir cad um por sua conta, sem se
entender com os outros, sem preparar-se, sem enfeixar as fracas forças dos
isolados, significa condenar-se à fraqueza, desperdiçar sua energia em
pequenos atos ineficazes, perder rapidamente a fé no objetivo e cair na
completa inação.
Mas isto parece de tal forma evidente que, ao invés de fazer sua
demonstração, responderemos aos argumentos dos adversários da organização.
Antes de mais nada, há uma objeção, por assim dizer, formal. “Mas de
que partido nos falais? Dizem-nos, nem sequer somos um, não temos um
programa”. Este paradoxo significa que as idéias progridem, evoluem
continuamente, e que eles não podem aceitar um programa fixo, talvez válido
hoje, mas que estará com certeza ultrapassado amanhã.
Seria perfeitamente justo se se tratasse de estudantes que procuram a
verdade, sem se preocuparem com as aplicações práticas. Um matemático, um químico,
um psicólogo, um sociólogo podem dizer que não há outro programa senão o de
procurar a verdade: eles querem conhecer, mas sem fazer alguma coisa. Mas a anarquia e o socialismo não são ciências:
são proposições, projetos que os anarquistas e os socialistas querem por em
prática e que, conseqüentemente, precisam ser formulados como programas
determinados. A ciência e a arte das construções progridem a cada dia. Mas um
engenheiro, que quer construir ou mesmo demolir, deve fazer seu plano, reunir
seus meios de ação e agir como se a ciência e a arte tivessem parado no ponto
em que as encontrou no início de seu trabalho. Pode acontecer, felizmente, que
ele possa utilizar novas aquisições feitas durante seu trabalho sem renunciar
à parte essencial de seu plano. Pode acontecer do mesmo modo que as novas
descobertas e os novos meios industriais sejam tais que ele se veja na obrigação
de abandonar tudo e recomeçar do zero. Mas ao recomeçar, precisará fazer novo
plano, com base no conhecimento e na experiência; não poderá conceber e
por-se a executar uma construção amorfa, com materiais não
produzidos, a pretexto que amanhã a ciência poderia sugerir melhores
formas e a indústria fornecer materiais de melhor composição.
Entendemos por partido anarquista o conjunto daqueles que querem
contribuir para realizar a anarquia, e que, por conseqüência, precisam fixar
um objetivo a alcançar e um caminho a percorrer. Deixamos de bom grado às suas
elucubrações transcendentais os amadores da verdade absoluta e de progresso
contínuo, que, jamais colocando suas idéias à prova, acabam por nada fazer ou
descobrir.
A outra objeção é que a organização cria chefes, uma autoridade. Se
isto é verdade, se é verdade que os anarquistas são incapazes de se reunirem
e de entrarem em acordo entre si sem se submeter a um autoridade, isto quer
dizer que ainda são muito pouco anarquistas. Antes de pensar em estabelecer a
anarquia no mundo, devem pensar em se tornar capazes de viver como anarquistas.
O remédio não está na organização, mas na consciência perfectível dos
membros.
Evidentemente, se em uma organização, deixa-se a alguns todo o trabalho
e todas as responsabilidades, se nos submetemos ao que fazem alguns indivíduos,
sem por a mão na massa e procurar fazer melhor, esses “alguns” acabarão,
mesmo que não queiram, substituindo a vontade da coletividade pela sua. Se em
uma organização todos os membros não se interessam em pensar, em querer
compreender, em pedir explicações sobre o que não compreendem, em exercer
sobre tudo e sobre todos as suas faculdades críticas, deixando a alguns a
responsabilidade de pensar por todos, esses “alguns” serão os chefes, as
cabeças pensantes e dirigentes.
Todavia, repitamos, o remédio não está na ausência de organização.
Ao contrário, nas pequenas como nas grandes sociedades, excetuando a força
brutal, a qual não nos diz respeito no caso em questão, a origem e a
justificativa da autoridade residem na desorganização social. Quando uma
coletividade tem uma necessidade e seus membros não estão espontaneamente
organizados para satisfazê-la, surge alguém, uma autoridade que satisfaz esta
necessidade servindo-se das forças de todos e dirigindo-as à sua maneira. Se
as ruas são pouco seguras e o povo não sabe se defender, surge uma polícia
que, por uns poucos serviços que presta, faz com que a sustentem e a paguem,
impõe-se a tirania. Se há necessidade de um produto e a coletividade não sabe
se entender com os produtores longínquos para que eles enviem esse produto em
troca por produtos da região, vem de fora o negociante que se aproveita da
necessidade que possuem uns de vender e outros de comprar e impõe os preços
que quer a produtores e consumidores.
Como vedes, tudo vem sempre de nós: quanto menos estávamos organizados,
mais nos encontrávamos sob a dependência de certos indivíduos. E é normal
que tivesse sido assim.
Precisamos estar relacionados com os camaradas das outras localidades,
receber e dar notícias, mas não podemos todos nos correspondermos com todos os
camaradas. Se estamos organizados, encarregamos alguns camaradas de manter a
correspondência por nossa conta; trocamo-os se eles não nos satisfazem, e
podemos estar informados sem depender da boa vontade de alguns para obter uma
informação. Se, ao contrário, estamos desorganizados, haverá alguém que terá
os meios e a vontade de corresponder; ele concentrará em suas mãos todos os
contatos, comunicará as notícias como bem quiser, a quem quiser. E se tiver
atividade e inteligência suficientes, conseguirá, sem nosso conhecimento, dar
ao movimento a direção que quiser, sem que nos reste a nós, a massa do
partido, nenhum meio de controle, sem que ninguém tenha o direito de se
queixar, visto que este indivíduo age por sua conta, sem mandato de ninguém e
sem ter que prestar contas a ninguém de sua conduta.
Precisamos de um jornal. Se estamos organizados, podemos reunir os meios
para fundá-lo e fazê-lo viver, encarregar alguns camaradas de redigi-lo e
controlar sua direção. Os redatores do jornal lhe darão, sem dúvida, de modo
mais ou menos claro, a marca de sua personalidade, mas serão sempre pessoas que
teremos escolhido e que poderemos substituir. Se, ao contrário, estamos
desorganizados, alguém que tenha suficiente espírito de empreendimento fará o
jornal por sua própria conta: encontrará entre nós os correspondentes, os
distribuidores, os assinantes, e fará com que sirvamos seus desígnios, sem que
saibamos ou queiramos. E nós, como muitas vezes aconteceu, aceitaremos ou
apoiaremos este jornal, mesmo que não nos agrade, mesmo que tenhamos a opinião
de que é nocivo à Causa, porque seremos incapazes de fazer um que melhor
represente nossas idéias.
Desta forma, a organização, longe de criar a autoridade, é o único
remédio contra ela e o único meio para que cada um de nós se habitue a tomar
parte ativa e consciente no trabalho coletivo, e deixe de ser instrumento
passivo nas mãos dos chefes.
Se não fizer nada e houver inação, então, certamente, não haverá
nem chefe, nem rebanho; nem comandante, nem comandados, mas, neste caso, a
propaganda, o partido, e até mesmo a discussão sobre a organização, cessarão,
o que, esperamos, não é o ideal de ninguém...
Contudo, uma organização, diz-se supõe a obrigação de coordenar sua
própria ação e a dos outros, portanto, violar a liberdade, suprimir a
iniciativa. Parece-nos que o que realmente suprime a liberdade e torna impossível
a iniciativa é o isolamento que produz a impotência. A liberdade não é
direito abstrato, mas a possibilidade de fazer algo. Isto é verdade para nós
como para a sociedade em geral. É na cooperação dos outros que o homem
encontra o meio de exercer sua atividade, seu poder de iniciativa.
Evidentemente, organização significa coordenação de forças com um
objetivo comum, e obrigação de não promover ações contrárias a este
objetivo. Mas quando se trata de organização voluntária, quando aqueles que
dela fazem parte têm de fato o mesmo objetivo e são partidários dos mesmos
meios, a obrigação recíproca que a todos engaja obtém êxito em proveito de
todos. Se alguém renuncia a uma de suas idéias pessoais por consideração à
união, isto significa que acha mais vantajoso renunciar a uma idéia, que, por
sinal, não poderia realizar sozinho, do que se privar da cooperação dos
outros no que acredita ser de maior importância.
Se, em seguida, um indivíduo vê que ninguém, nas organizações
existentes, aceita suas idéias e seus métodos naquilo que têm de essencial, e
que em nenhuma organização pode desenvolver sua personalidade como deseja, então
estará certo em permanecer de fora. Mas, se não quiser permanecer inativo e
impotente, deverá procurar outros indivíduos que pensem como ele, e tornar-se
iniciador de uma nova organização.
Uma outra objeção, a última que abordaremos, é que, estando
organizados, estamos mais expostos à repressão governamental.
Parece-nos, ao contrário, que quanto mais unidos estamos, mais
eficazmente nos podemos defender. Na realidade, cada vez que a repressão nos
surpreendeu enquanto estávamos desorganizados, colocou-nos em debandada total e
aniquilou nosso trabalho precedente. Quando estávamos organizados, ela nos fez
mais bem do que mal. Assim também no que concerne ao interesse pessoal dos
indivíduos: por exemplo, nas últimas repressões, os isolados foram tanto e
talvez mais gravemente atingidos do que os organizados. É o caso, organizados
ou não, dos indivíduos que fazem propaganda individual. Para aqueles que nada
fazem e ocultam suas convicções, o perigo é certamente mínimo, mas a
utilidade que oferecem à Causa também o é.
O único resultado, do ponto de vista da repressão, que se obtém por
estar desorganizado é autorizar o governo a nos recusar o direito de associação
e tornar possível monstruosos processos por associação delituosa. O governo não
agiria dessa forma em relação às pessoas que afirmam de modo altivo e público,
o direito e o fato de estarem associados e, se ousasse fazê-lo, isto se
voltaria contra ele e em nosso proveito.
De resto, é natural que a organização assuma as formas que as circunstâncias
aconselham e impõem. O importante não é tanto a organização formal, mas o
espírito de organização. Podem acontecer casos, durante o furor da reação,
em que seja útil suspender toda correspondência, cessar todas as reuniões:
será sempre um mal, mas se a vontade de estar organizado subsiste, se o espírito
de associação permanece vivo, se o período precedente de atividade coordenada
multiplicou as relações pessoais, produziu sólidas amizades e criou um real
acordo de idéias de conduta entre os camaradas, então o trabalho dos indivíduos,
mesmo isolados, participará do objetivo comum. E encontrar-se-á rapidamente o
meio de nos reunirmos de novo e repararmos os danos sofridos.
Somos como um exército em guerra e podemos, segundo o terreno e as
medidas tomadas pelo inimigo, combater em massa ou em ordem dispersa: o
essencial é que nos consideremos sempre membros do mesmo exército, que obedeçamos
todos às mesmas idéias diretrizes e que estejamos sempre prontos a nos
reunirmos em colunas compactas quando for necessário e quando se puder fazer
algo.
Tudo o que dissemos se dirige aos camaradas que são de fato adversários
do princípio da organização. Àqueles que combatem a organização, somente
porque não querem nela entrar, ou não são aceitos, ou não simpatizam com os
indivíduos que dela fazem parte, dizemos: façam com aqueles que estão de
acordo com vocês outra organização. É verdade, gostaríamos de poder estar,
todos nós, de acordo, e reunir em um único feixe poderoso todas as forças do
anarquismo. Mas não acreditamos na solidez das organizações feitas à força
de concessões e de restrições, onde não há entre os membros simpatia e
concordância real. É melhor estarmos desunidos que mal unidos. Mas gostaríamos
que cada um se unisse com seus amigos e que não houvessem forças isoladas, forças
perdidas.
ANARQUIA E ORGANIZAÇÃO
1927
Um opúsculo francês intitulado: “Plataforma de organização da União
geral dos Anarquistas (Projeto)” caiu-me nas mãos por acaso. (Sabe-se que
hoje os escritos não fascistas não circulam na Itália.)
É um projeto de organização anárquico, publicado sob o nome de um
“Grupo de anarquistas russos no estrangeiro” e que parece mais especialmente
dirigido aos camaradas russos. Mas trata de questões que interessam a todos os
anarquistas e, além do mais, é evidente que procura a adesão dos camaradas de
todos os países, inclusive pelo fato de ser escrito em francês. De qualquer
forma, é útil examinar, pelos russos assim como por todos, se o projeto em
questão está em harmonia com os princípios anarquistas e se sua realização
serviria realmente à causa do anarquismo. Os objetivos dos promotores são
excelentes. Eles lamentam que os anarquistas não tenham tido e não tenham,
sobre os eventos da política social, influência proporcional ao valor teórico
e prático de sua doutrina, assim como a seu número, à sua coragem, a seu espírito
de sacrifício, e pensam que a primeira razão deste insucesso relativo é a
falta de uma organização vasta, séria, efetiva.
Até aqui, em princípio, estou de acordo.
A organização outra coisa não é senão a prática da cooperação e
da solidariedade, é a condição natural, necessária, da vida social, é um
fato inelutável que se impõe a todos, tanto na sociedade humana em geral
quanto em todo grupo de pessoas que tenha um objetivo comum a alcançar.
O homem não quer e não pode viver isolado, não pode sequer tornar-se
verdadeiramente homem e satisfazer suas necessidades materiais e morais senão
em sociedade e com a cooperação de seus semelhantes. É, portanto, fatal que
todos aqueles que não se organizam livremente, seja por não poderem, seja por
não sentirem a imperativa necessidade, tenham de suportar a organização
estabelecida por outros indivíduos ordinariamente constituídos em classes ou
grupos dirigentes, com o objetivo de explorar em sua própria vantagem o
trabalho alheio.
A opressão milenar das massas por um pequeno número de privilegiados
sempre foi a conseqüência da incapacidade da maioria dos indivíduos em se
entender, em se organizar sobre a base da comunidade de interesses e de
sentimentos com outros trabalhadores para produzir, para usufruir e para,
eventualmente, defender-se dos exploradores e opressores. O anarquismo vem
remediar este estado de coisas com seu princípio fundamental de livre organização,
criada e mantida pela livre vontade dos associados sem nenhuma espécie de
autoridade, isto é, sem que nenhum indivíduo tenha o direito de impor aos
outros sua própria vontade. É natural, portanto, que os anarquistas procurem
aplicar à sua vida privada e à vida de seu partido este mesmo princípio sobre
o qual, segundo eles, deveria estar fundamentada toda a sociedade humana.
Certas polêmicas deixariam supor que há anarquistas refratários a toda
organização; mas, na realidade, as numerosas, muito numerosas discussões que
mantemos sobre esse assunto, mesmo quando são obscurecidas por questões de semântica
ou envenenadas por questões pessoais, só concernem, no fundo, ao modo e não
ao princípio de organização. Assim é que camaradas, os mais opostos, em
palavras, à organização, organizam-se como os outros e amiúde melhor do que
os outros, quando querem fazer algo com seriedade. A questão, eu repito, está
toda na aplicação.
Eu deveria ver com simpatia a iniciativa destes camaradas russos,
convicto como estou de que uma organização mais geral, melhor formada, mais
constante do que aquelas que foram até aqui realizadas pelos anarquistas, mesmo
que não conseguisse eliminar todos os erros, todas as insuficiências, talvez
inevitáveis num movimento que, como o nosso, antecipa-se ao tempo e que, por
isso, debate-se contra a incompreensão, a indiferença e freqüentemente a
hostilidade da grande maioria, seria pelo menos, com toda certeza, um importante
elemento de força e de sucesso, um poderoso meio de fazer valer nossas idéias.
Creio ser necessário e urgente que os anarquistas se organizem, para
influir sobre a marcha que as massas impõem em sua luta pelas melhorias e pela
emancipação. Hoje, a maior força de transformação social é o movimento
operário (movimento sindical) e de sua direção depende, em grande parte, o
curso que tomarão os eventos e o objetivo a que chegará a próxima revolução.
Por suas organizações, fundadas para a defesa de seus interesses, os
trabalhadores adquirem a consciência da opressão sob a qual se curvam e do
antagonismo que os separa de seus patrões, começam a aspirar a uma vida
superior, habituam-se à vida coletiva e à solidariedade, e podem conseguir
conquistar todas as melhorias compatíveis com o regime capitalista e estatista.
Em seguida, é a revolução ou a reação.
Os anarquistas devem reconhecer a utilidade e a importância do movimento
sindical, devem favorecer seu desenvolvimento e fazer dele uma das alavancas de
sua ação, esforçando-se em fazer prosseguir a cooperação do sindicalismo e
das outras forças do progresso numa revolução do sindicalismo e das outras
forças do progresso numa revolução social que comporte a supressão das
classes, a liberdade total, a igualdade, a paz e a solidariedade entre todos os
seres humanos. Mas seria uma ilusão funesta acreditar, como muitos o fazem, que
o movimento operário resultará por si mesmo, em virtude de sua própria
natureza, em tal revolução. Bem ao contrário: em todos os movimentos fundados
sobre interesses materiais e imediatos (e não pode estabelecer-se sobre outros
fundamentos um vasto movimento operário), é preciso o fermento, o empurrão, a
obra combinada dos homens de idéias que combatem e se sacrificam com vistas a
um futuro ideal. Sem esta alavanca, todo movimento tende fatalmente a se adaptar
às circunstâncias, engendra o espírito conservador, o temor pelas mudanças
naqueles que conseguem obter melhores condições. Freqüentemente, novas
classes privilegiadas são criadas, esforçando-se por fazer tolerado, por
consolidar o estado de coisas que desejaria abater.
Daí a urgente necessidade de organização propriamente anarquista que,
tanto dentro como fora dos sindicatos, lutam pela realização integral do
anarquismo e procuram esterilizar todos os germes da corrupção e da reação.
Todavia, é evidente que para alcançar seu objetivo as organizações
anarquistas devem, em sua constituição e em seu funcionamento, estar em
harmonia com os princípios da anarquia. É preciso, portanto, que não estejam
em nada impregnadas de espírito autoritário, que saibam conciliar a livre ação
dos indivíduos com a necessidade e o prazer da cooperação, que sirvam para
desenvolver a consciência e a capacidade de iniciativa de seus membros e sejam
um processo educativo no meio em que operam e uma preparação moral e material
ao futuro desejado.
O projeto em questão responde a estas exigências? Creio que não. Acho
que, ao invés de fazer nascer entre os anarquistas um desejo maior de se
organizar, ele parece feito para confirmar o preconceito de muitos camaradas que
pensam que se organizar é submeter-se a chefes, aderir a um organismo autoritário,
centralizador, sufocando toda livre iniciativa. Com efeito, nesses estatutos, são
precisamente expressas as proposições que alguns, contra a evidência e apesar
de nossos protestos, obstinam-se em atribuir a todos os anarquistas qualificados
de organizadores.
***
Examinemos:
Inicialmente, parece-me que é uma idéia falsa (e em todo o caso
irrealizável) reunir todos os anarquistas numa “União Geral”, isto é,
assim como o precisa o Projeto, em uma única
coletividade revolucionária ativa.
Nós, anarquistas, podemos nos dizer todos do mesmo partido se, pela
palavra partido, compreende-se o conjunto de todos aqueles que estão de um mesmo lado, que possuem as mesmas aspirações gerais que, de
uma ou de outra maneira, lutam com o mesmo objetivo contra adversários e
inimigos comuns. Mas isto não quer dizer que seja possível – e talvez não
seja desejável – reunirmo-nos todos em uma mesma associação determinada.
Os meios e as condições de luta diferem muito, os modos possíveis de ação
que dividem a preferência de uns e dos outros são muito numerosos, e muito
numerosas também as diferenças de temperamento e as incompatibilidades pessoas
para que uma União Geral, realizada de modo sério, não se torne um obstáculo
às atividades individuais, talvez mesmo uma causa das mais árduas lutas
intestinas, ao invés de um meio para coordenar e totalizar os esforços de
todos.
Como, por exemplo, poder-se-ia organizar, da mesma maneira e com o mesmo
pessoal, uma associação pública para a propaganda e para a agitação no seio
das massas e uma sociedade secreta, obrigada pelas condições políticas, onde
opera, a esconder do inimigo seus objetivos, seus meios, seus agentes? Como a
mesma tática poderia ser adotada pelos educacionistas
persuadidos de que basta a propaganda e o exemplo de alguns para transformar
gradualmente os indivíduos e, portanto, a sociedade, e os revolucionários convictos da necessidade de destruir pela violência
um estado de coisas que só se sustenta pela violência, e criar, contra a violência
dos opressores, as condições necessárias ao livre exercício da propaganda e
à aplicação prática das conquistas particulares, não se amam e não se
estimam, e, entretanto, podem ser igualmente bons e úteis militantes do
anarquismo?
Por outro lado, o autores do Projeto declaram inepta a idéia de criar
uma organização que reúna os representantes das diversas tendências do
anarquismo. Uma tal organização, dizem, “incorporando elementos teóricos e
praticamente heterogêneos, outra coisa não seria senão um aglomerado mecânico
de indivíduos que têm concepção diferente de todas as questões concernentes
ao movimento anarquista; ela se desagregaria, com certeza, logo após ser
colocada à prova dos fatos e da vida real”.
Muito bem. Mas então, se eles reconhecem a existência dos anarquistas e
das outras tendências, deverão deixar-lhes o direito de se organizar, por sua
vez, e trabalhar pela anarquia de modo que acreditarem ser o melhor. Ou eles têm
a intenção de expulsar do anarquismo, excomungar todos aqueles que não
aceitam seu programa? Eles dizem desejar reagrupar numa única organização
todos os elementos sãos do movimento
libertário, e, naturalmente, terão tendência a julgar sãos
somente aqueles que pensam como eles. Mas o que farão com os elementos doentes?
Certamente há, entre aqueles que se dizem anarquistas, como em toda
coletividade humana, elementos de diferentes valores e, pior ainda, há quem faça
circular em nome do anarquismo idéias que só tem com ele duvidosas afinidades.
Mas como evitar isso? A verdade anarquista
não pode e não deve tornar-se monopólio de um indivíduo ou de um comitê.
Ela não pode depender das decisões de maiorias reais ou fictícias. É necessário
somente – e isso seria suficiente – que todos tenham e exerçam o mais amplo
direito de livre crítica, e cada um possa sustentar suas próprias idéias e
escolher seus próprios companheiros. Os fatos julgarão, em última instância,
e darão razão a quem a tem.
***
Abandonemos, portanto, a idéia de reunir todos os anarquistas em uma única
organização; consideremos esta “União Geral” que nos propõem os russos
com o que ela seria na realidade: a união de certo número de anarquistas, e
vejamos se o modo de organização proposto está conforme aos princípios e métodos
anarquistas, e se ele pode ajudar no triunfo do anarquismo. Mais uma vez,
parece-me que não. Não ponho em dúvida o anarquismo sincero desses camaradas
russos; eles querem realizar o comunismo anarquista e procuram a maneira de
chegar a ele o mais rápido possível. Mas não basta desejar uma coisa, é
preciso ainda empregar os meios oportunos para obtê-la, assim como para ir a um
lugar é preciso tomar o caminho que a ele conduz, sob pena de chegar a outro
lado. Ora, sendo a organização proposta inteiramente do tipo autoritário, não
somente não facilitaria o triunfo do comunismo anarquista, mas ainda
falsificaria o espírito anarquista e teria resultados contrários àqueles que
seus organizadores esperam.
Com efeito, esta “União Geral” consistiria em tantas organizações
parciais que haveria secretariados para dirigir ideologicamente a
obra política e técnica, e haveria um Comitê Executivo da União
encarregado de executar as decisões tomadas pela União, “dirigir a ideologia
e a organização dos grupos em conformidade com a ideologia e com a linha de tática
geral da União”.
Isso é anarquismo? É, na minha opinião, um governo e uma igreja.
Faltam-lhe, é verdade, a polícia e as baionetas, assim como faltam os fiéis
dispostos a aceitar a ideologia ditada de cima, mas isso significa apenas que
esse governo seria um governo impotente e impossível, e que esta igreja seria
fonte de cismas e heresias. O espírito, a tendência, permanecem autoritários,
e o efeito educativo sempre seria antianarquista.
Escutai o que se segue: “O órgão executivo do movimento libertário
geral – a União anarquista – adota o princípio da responsabilidade
coletiva; toda a União será responsável pela atividade revolucionária e política
de cada um de seus membros, e cada membro será responsável pela atividade
revolucionária e política da União”.
Depois dessa negação absoluta de qualquer independência individual, de
toda liberdade de iniciativa e de ação, os promotores, lembrando-se serem
anarquistas, dizem-se federalistas, e gritam contra a centralização cujos
resultados inevitáveis são, segundo dizem, a subjugação e a mecanização da
vida social e da vida dos partidos.
Mas se a União é responsável do que faz cada um de seus membros, como
deixar a cada membro em particular e aos diferentes grupos a liberdade de
aplicar o programa comum do modo que eles julguem melhor? Como se pode ser
responsável por um ato se não se possui a faculdade de impedi-lo? Conseqüentemente,
a União, e por ela o Comitê Executivo, deveria vigiar a ação de todos os
membros em particular, e prescrever-lhes o que devem ou não fazer, e como a
condenação do fato consumado não atenua a responsabilidade formalmente aceita
de antemão, ninguém poderia fazer o que quer que fosse antes de ter obtido a
aprovação, a permissão do Comitê. E, por outro lado, pode um indivíduo
aceitar a responsabilidade dos atos de uma coletividade antes de saber o que fará
ela? Como pode impedi-la de fazer o que ele desaprova?
Além disso, os autores do Projeto dizem que a União quer e dispõe. Mas
quando se diz vontade da União, entende-se vontade de todos os seus membros?
Neste caso, para que a União possa agir seria preciso que todos os seus
membros, em todas as questões, tenham sempre exatamente a mesma opinião. Ora,
é natural que todos estejam de acordo quanto aos princípios gerais e
fundamentais, sem o que não estariam unidos, mas não se pode supor que seres
pensantes sejam todos e sempre da mesma opinião sobre o que convém fazer em
todas as circunstâncias, e sobre a escolha das pessoas a quem confiar a tarefa
de executar e dirigir.
Na realidade, assim como resulta do próprio texto do Projeto – por
vontade da União só se pode entender a vontade da maioria, vontade expressada
por Congressos que nomeiam e controlam o Comitê Executivo e decidem sobre todas
as questões importantes. Os Congressos, naturalmente, seriam compostos por
representantes eleitos por maioria em cada grupo aderente, e esses
representantes decidiriam o que deveria ser feito, sempre pela maioria dos
votos. Desta forma, na melhor hipótese, as decisões seriam tomadas por uma
maioria da maioria, que poderia muito bem, particularmente quando as opiniões
em oposição fossem mais de duas, não representar mais do que uma minoria.
Deve-se, com efeito, observar que, nas condições em que vivem e lutam
os anarquistas, seus Congressos são ainda menos representativos do que os
Parlamentos burgueses, e seu controle sobre os órgãos executivos, se estes
possuem um poder autoritário, raramente se manifesta a tempo e de maneira
eficaz. Aos Congressos anarquistas, na prática, vai quem quer e pode, quem tem
ou consegue o dinheiro necessário e não é impedido por medidas policiais. Há,
nesses Congressos, tantos daqueles que só representam eles mesmos, ou a pequeno
número de amigos, quantos daqueles que representam, de fato, as opiniões e os
desejos de uma coletividade numerosa. Salvo as precauções a serem tomadas
contra os traidores e espiões, e também por causa dessas mesmas precauções
necessárias, é impossível uma séria verificação dos mandatos e de seu
valor.
De qualquer modo, estamos em pleno sistema majoritário, em pleno
parlamentarismo.
Sabe-se que os anarquistas não admitem o governo da maioria (democracia),
assim como também não admitem o governo de um pequeno número (aristocracia,
oligarquia, ditadura de classe ou de partido), nem o de um único (autocracia,
monarquia ou ditadura pessoal).
Os anarquistas fizeram mil vezes a crítica do governo dito de maioria, o
que, na aplicação prática sempre conduz ao domínio de uma pequena minoria.
Será preciso que eles a refaçam para o uso de nossos camaradas russos?
É verdade, os anarquistas reconhecem que, na vida em comum, é com freqüência
necessário que a minoria se conforme com a opinião da maioria. Quando há
necessidade ou utilidade evidente de fazer uma coisa e, para fazê-la, é necessário
o concurso de todos, a minoria deve sentir a necessidade de se adaptar à
vontade da maioria. Por sinal, em geral, para viver juntos, em paz e sob um
regime de igualdade, é necessário que todos estejam animados de espírito de
concórdia, de tolerância, de flexibilidade. Todavia, esta adaptação, de
parte dos associados à outra parte, deve ser recíproca, voluntária, derivar
da consciência da necessidade e da vontade de cada um em não paralisar a vida
social, por sua obstinação. Ela não deve ser imposta como princípio e como
regra estatutária. É um ideal que, talvez, na prática da vida social geral,
será difícil realizar de modo absoluto, mas é certo que todo agrupamento
humano é tanto mais vizinho da anarquia quando a concordância entre a minoria
e a maioria é mais livre, mais espontânea, imposta somente pela natureza das
coisas.
Assim, se os anarquistas negam, à maioria, o direito de governar a
sociedade humana geral, onde o indivíduo é, todavia, obrigado a aceitar certas
restrições, visto que não pode isolar-se sem renunciar às condições da
vida humana, se querem que tudo se faça pelo livre acordo entre todos, como é
possível que adotem o governo da maioria em suas associações essencialmente
livres e voluntárias e que comecem por declarar que se submetem às decisões
da maioria, antes mesmo de saber quais elas serão?
Que a anarquia, a livre organização sem domínio da maioria sobre a
minoria, e vice-versa, seja qualificada, por aqueles que não são anarquistas,
de utopia irrealizável, ou somente realizável em um futuro longínquo, isto se
compreende; mas é inconcebível que aqueles que professam idéias anarquistas e
desejariam realizar a anarquia, ou, pelo menos, aproximar-se dela, seriamente,
hoje, ao invés de amanhã, reneguem os princípios fundamentais do anarquismo
na própria organização pela qual eles se propõem combater pelo seu triunfo.
***
SINDICALISMO E ANARQUISMO
A GREVE GERAL
O CONGRESSO DE AMSTERDÃ
CAPITALISTAS E LADRÕES
EM TORNO DE “NOSSO” ANARQUISMO
MIKHAIL BAKUNIN
(20/05/1814 – 01/07/1876)
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