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O Príncipe ou De Principatibus, de Niccolò di Bernardo dei Machiavelli - Maquiavel  (1469 – 1527) – Apresentação

 

 

Introdução Biográfica

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Cerca de cinco séculos nos separam da época em que viveu Maquiavel. Muitos leram e comentaram sua obra, mas um número consideravelmente maior de pessoas evoca seu nome ou pelo menos os termos que aí tem sua origem. "Maquiavélico e maquiavelismo" são adjetivo e substantivo que estão tanto no discurso erudito, no debate político, quanto na fala do dia-a-dia. Seu uso extrapola o mundo da política e habita sem cerimônia o universo das relações privadas. Em qualquer de suas acepções, porém, o maquiavelismo está associado a ideias como “perfídia”, “astúcia”, “malícia”, “velhacaria”, “comportamento traiçoeiro”, coisas assim. De fato, Maquiavel era um sujeito prático e excepcionalmente erudito que, por enfatizar – particularmente em sua Obra mais famosa, “O Príncipe” – que para conquistar e manter o poder é necessário facear a realidade como ela de fato é e se apresenta de acordo com a sua visão de “natureza humana”; como as coisas são, enfim, não como deveriam ser ou como o líder gostaria ou idealizaria.

Maquiavel é, particularmente no imaginário popular, mal interpretado. A Obra (que nasce sem título, por sinal) “O Príncipe” de fato constituía o equivalente do que chamaríamos hoje de curriculum vitae, pois que, após haver servido à República de Florença durante 14 anos num período em que a pequena mas influente república estava dominada por Carlos VIII, que havia deposto a poderosa Família Médici do poder. Exerceu as funções de Segundo Chanceler, Secretário da República Florentina e do Supremo Tribunal de Liberdade e Paz. Numa Itália ainda não unificada, junto com Piero Soderini, que chega ao poder em 1512, inicia ainda uma série de alterações militares, dentre elas a organização de uma disciplinada milícia florentina, plano que é cortado pela raiz com a retomada do poder pelos Médici em 1513, o que transforma Maquiavel, instantaneamente, de um dos homens mais poderosos a um dos homens mais procurados de Florença, chegando a ser preso e torturado; Maquiavel não cede à tortura e não há evidência alguma de que ele haja participado de qualquer tentativa (pró ou contra) a troca de poder na República. Certa feita, Karl Marx, em carta a seu amigo e colaborador mais fiel, Friedrich Engels, em meados da década de 50 do século XIX, enquanto escrevia “O Capital” e não dispunha de recursos sequer para comprar selos e postar os originais no correio para publicação, disse “poucas vezes um Autor escreveu tão profunda e longamente sobre algo – no caso de Marx, capital, dinheiro mesmo – de que não dispõe...” Quando Maquiavel escreve sua tentativa de trabalhar para Lourenzo de Médici no “opúsculo”, como ele o chamava, escreve basicamente sobre como conquistar e manter o Poder – algo que Maquiavel sem dúvida compreendia muito, mas jamais teria novamente em sua vida... 

A Itália ao tempo de Maquiavel

          A península Itálica, berço da civilização Romana, ao tempo de Maquiavel constituía uma verdadeira colcha de retalhos com pequenos ducados, principados, repúblicas e os “Estados Papais” frequentemente em litígio entre si e com potências vizinhas como a França e a Áustria, de vez em quando formando alianças de umas contra as outras num bailado político tremendamente complexo. A Nação que conhecemos dos mapas escolares no formato aproximado de uma bota, somente se unificará em 1871 sob os auspícios de Vítor Emanuel (detalhes aqui)

    Até 1494, graças aos esforços de Lourenço de Médici, “O Magnífico”, a península experimentou certa tranqüilidade.

    Entretanto, desse ano em diante, as coisas mudaram muito. A desordem e a instabilidade ficaram incontroláveis. Para piorar a situação, que já estava grave devido aos conflitos internos entre os diversos estados constitutivos da península, somaram-se as constantes e desestruturadoras invasões dos países próximos como a França e a Espanha. E foi nesse cenário conturbado, onde nenhum governante conseguia se manter no poder por um período superior a dois meses, que Maquiavel passou a sua infância e adolescência.

    Nascido em Florença em 3 de maio de 1469, numa Itália “esplendorosa mas infeliz”, segundo o historiador Garin, Maquiavel tem origem numa família que não era aristocrática nem rica. Seu pai, típico advogado renascentista, era um estudioso das humanidades, tendo se empenhado em transmitir uma aprimorada educação clássica a seu filho. Maquiavel com 12 anos, já escrevia no melhor estilo e, em latim.

    Apesar da formação esmerada, somente em 1498, com 29 anos Maquiavel exerce seu primeiro cargo na vida pública. Foi nesse ano que Nicolau passou a ocupar a segunda chancelaria. Isso se deu após a deposição de Savonarola, acompanhado de todos os detentores de cargos importantes da república florentina. Nessa atividade, cumpriu uma série de missões, tanto fora da Itália como internamente, destacando-se sua diligência em instituir uma milícia nacional.

    Em fins tempos de feudalismo, quem não era “bem nascido” precisava de “padrinhos” e Maquiavel conta, de perto, como Piero Soderini que, como ele, está a serviço de Savonarola (aliado de Carlos VIII). Em 1512, a dinastia Médici volta ao poder, desesperando Maquiavel, que é envolvido em uma conspiração, torturado e deportado. Após todo o processo, como se diz acima, nada fica provado e Maquiavel recebe autorização – talvez “ordem” seja uma palavra mais apropriada que autorização, neste caso... – para se mudar para São Cassiano, cidade pequena próxima de Florença onde tinha uma pequena propriedade. Ali nasce a Obra que ficaria conhecida como “O Príncipe”, entre outros trabalhos menores.

    Maquiavel levava uma vida tranqüila em S. Cassiano. Pela manhã, ocupava-se com a administração da pequena propriedade a que estava confinado. À tarde, jogava cartas numa hospedaria com pessoas simples do povoado. À noite, segundo palavras do próprio Autor

          “...volto para casa, dispo a roupa cotidiana, cheia de barro e lodo, visto roupas dignas de rei e da corte e, vestido assim condignamente, penetro nas antigas cortes dos homens do passado onde, por eles recebido amavelmente, nutro-me daquele alimento que é unicamente meu, para o qual eu nasci; não me envergonho ao falar com eles e perguntar-lhes das razões de suas ações. Eles, por sua humanidade, me respondem, e eu não sinto, durante quatro horas, qualquer tédio, esqueço todas as aflições, não temo a pobreza, não me amedronta a morte: eu me integro inteiramente neles...”

    A obra de Maquiavel é toda fundamentada em sua própria experiência, seja ela com os livros dos grandes escritores que o antecederam, ou os anos como segundo chanceler, ou até mesmo a sua capacidade de olhar de fora e analisar o complicado governo do qual terminou fazendo parte.

    Seu opúsculo – tentativa baldada de seguir prestando seus serviços a Veneza através de quem exercia o poder durante aqueles anos; dedicado a “Lourenço, o Magnífico, Príncipe de Médici” escrito entre 1513 e 1516 – é recebido com frieza e não há sequer registro formal de que Lourenço o haja sequer lido... Enfim, em 1527, com a queda dos Médici e a restauração da república, Maquiavel, que considerava findos os seus problemas, viu-se identificado pelos jovens republicanos agora no poder como alguém que tinha ligações com os “tiranos” depostos. Então viu-se vencido. A República o considerava seu inimigo. Desgostoso, adoece e morre em junho. Cinco anos depois de sua morte “De Principatibus” é finalmente publicado, recebendo este título a partir de uma frase usada por Maquiavel na Obra, tudo indica que por mera decisão editorial.

          Pensar nas tribulações de Maquiavel traz à memória a citação clássica de Marcus Tullius Cicero – “Si vivi vicissent qui morte vicerunt”; sim, como as coisas seriam diferentes se vencessem na vida aqueles que triunfaram somente após a morte...

 

 

O Príncipe – Separando a ética da política

          Num tempo de violento fundamentalismo religioso, o maior silêncio da Obra diz respeito a um eventual “juízo final”, quando, segundo a Igreja, todas as coisas seriam reveladas e todas as pessoas julgadas segundo seus atos. Maquiavel aparentemente considera isso uma superstição infantil (e de fato o é, convenhamos...) e insta o príncipe, por exemplo a governar de acordo com os dados concretos da realidade, não de acordo com este ou aquele valor da dimensão ética pessoal. O que vale para a ética pessoal pode estar – frequentemente o está, aliás... – em contradição com as necessidades do Estado e o Príncipe deve saber “...quando não ser bonzinho.”

          Um dos mais famosos capítulos deste pequeno livro de cerca de 90 páginas (dependendo da tradução que você tenha em mãos) é o de número XVII que leva o título “Da Crueldade e da Piedade; se é melhor ser amado que temido, ou antes ser temido que amado”. Neste capítulo fica patente como não apenas Maquiavel, mas O Homem do Renascimento em geral, percebe o que se considerava ser “a natureza humana”; diz ele naquelas linhas que “...seria necessário ser uma coisa (amado) e outra (temido); mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas, é muito mais seguro ser temido que amado. Isso porque dos homens se pode dizer, geralmente que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho (...) e se esquecem mais rapidamente da morte do pai que da perda do patrimônio...” Ainda sob o título de “Crueldades Bem Praticadas” Maquiavel menciona, no capítulo VII, o episódio que ele mesmo testemunhou, citando César Bórgia como o homem Virtuoso (compreendida a Virtù em seu sentido amplamente renascentista) que se utiliza de um ardiloso estratagema para “pacificar” a rebelada região da Romanha. Bórgia contrata o mercenário crudelíssimo Ramiro d'Orco que, por meio de uma tirania impiedosa e inflexível põe fim à rebelião e se faz detestado por toda parte. Região “pacificada”, César Bórgia convoca a população da Romanha a uma grande praça em Casena onde se dirige à população ao lado de Ramiro D’Orco, o algoz do povo local. Com um golpe de espada e para a surpresa total de seu até então comandado, mata seu mercenário cortando-o ao meio em plena praça e conquistando a simpatia do povo por haver libertado a todos de um homem tão cruel...

          Fins e Meios – O que Maquiavel postula no igualmente debatido capítulo XVIII de seu “opúsculo”, intitulado “De que modo os Príncipes devem manter a fé da palavra dada” em síntese é que somos julgados pelos resultados que obtivermos, raramente (se alguma vez) pelos meios usados para atingi-los. Não necessariamente que uma coisa justifique outra, no original isto fica mais claro: “accusata/scusata” em dialeto toscano, “algo que te acusa, mas te desculpa”. É neste capítulo que Maquiavel recomenda ao Príncipe manter “a força do Leão para combater os lobos da política, mas a esperteza da raposa, para escapara às armadilhas da política”. Conclui: “...um senhor prudente não pode nem deve manter a palavra empenhada quando isso for prejudicial aos seus interesses e desapareceram as causas que o levaram a empenhá-la”. O Príncipe deve aparentar e vangloriar-se de todas as virtudes consideradas boas pelo povo em geral, contudo, o Príncipe “...é frequentemente obrigado, para manter o Estado, a agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião (...) não apartar-se do bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessário”.

          O Príncipe é um manual esmerado no qual Maquiavel cita numerosos casos históricos de sua imensa erudição, desde Dario da Pérsia, passando por líderes gregos e romanos clássicos e chegando até seus contemporâneos, colocando claramente os artifícios que usaram para conquistar e manter o poder.

          Para Maquiavel, o Ser Humano em nada mudou em sua ânsia pelo poder desde a antiguidade mais remota até o seu tempo – penso mesmo podermos estender o pensamento até nossos dias e não é casual que “O Príncipe” haja sido livro de cabeceira de gente tão diferente como Napoleão Bonaparte, Benito Mussolini, Joseph Stálin, Richard Nixon, Henry Kissinger...

          Uma curiosidade a mais: Frans de Waal, o mais famoso primatologista da modernidade, Autor, entre outras Obras de grande valor, de “Chimpanzee Politics”, confessa que precisou estudar O Príncipe para compreender melhor as tramoias e esquemas de poder entre os chimpanzés, ali encontrando mais informações que em livros de biologia ou antropologia para a compreensão deste nosso primo tão próximo (há menos de 1% de diferença entre o DNA Humano e o DNA do Chimpanzé ou do Bonobo, mas este é outro tema)

          Entre outros Autores influenciados por Maquiavel nos dias de hoje, podemos citar Robert Greene em “As 48 Leis do Poder”, Sean Bean Autor do Seriado “Game of Thrones” e Eric Roth do Seriado “House of Cards”.

          É, enfim, o livro de cabeceira de todos os políticos contemporâneos, tão lido quanto negado pelos que o lêem...

 

Estátua de Maquiavel, de autoria do escultor Lorenzo Bartolini (1777 - 1850) na Galleria degli Uffizi (Museu dos Ofícios), em Florença 

 

 

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