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Condicionantes da
mineração – Até o século XVII, a economia
açucareira era a atividade predominante da colônia e o interesse metropolitano
estava inteiramente voltado para o seu desenvolvimento. Porém, a partir de
meados do século XVII, o açúcar brasileiro sofreu a forte concorrência
antilhana, claro, os holandeses, uma vez “expulsos” passaram a produzir em suas
colônias no Caribe, fazendo com que a Coroa portuguesa voltasse a estimular a
descoberta de metais.
Os paulistas, que conheciam bem o sertão, iriam desempenhar
um papel importante nessa nova fase da história colonial. Já em 1674,
destacou-se a bandeira de Fernão Dias Pais, que, apesar de não ter descoberto
metais preciosos, serviu para indicar o caminho para o interior de Minas. Poucos
anos depois, a bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva – o Anhangüera – abriria
caminho para o Brasil central (Goiás e Mato Grosso).
Descoberta do ouro e
povoamento – A procura de metais preciosos no
Brasil era bem antiga e datava do início da colonização, sobretudo depois da
descoberta da rica mina de prata de Potosí, em 1545, na atual Bolívia. A criação
do governo-geral em 1548, e a sua instalação no ano seguinte, foi um reflexo
daquela descoberta.
De fato, diversas foram as “entradas” (expedições sertanistas
oficiais) que partiram da Bahia, Espírito Santo, Ceará, Sergipe e Pernambuco
para o interior.
Os principais exploradores do sertão, foram os paulistas. Com
um irrisório apoio oficial, Fernão Dias Pais partiu em 1674 para o sertão, onde
permaneceu por seis anos, chegando ao Jequitinhonha. Porém, não descobriu nada
de valor. Em 1681 encontrou turmalinas acreditando serem esmeraldas.
Contudo, durante os anos em que permaneceu no sertão,
desbravou grande parte do interior das Gerais e abriu caminho para futuras
descobertas de importância.
Costuma-se atribuir o início da mineração à descoberta do
ouro feita por Antônio Rodrigues Arzão, em 1693, embora a corrida do ouro
começasse efetivamente com a descoberta das minas de Ouro Preto por Antônio Dias
de Oliveira, em 1698.
Além de se difundir pelo Brasil, a notícia chegou a Portugal
através da correspondência dos governadores ao rei.
De diversos pontos do Brasil começou a chegar grande
quantidade de aventureiros, ávidos de rápido enriquecimento. Mesmo de Portugal
vieram, a cada ano, cerca de 10 mil pessoas, durante sessenta anos.
A primeira conseqüência desse deslocamento maciço da
população para as regiões das minas foi a grave carestia, que se tornou
particularmente catastrófica nos anos 1697 – 1698 e, novamente, em 1700 – 1701.
O jesuíta Antonil, que viveu nesse tempo, escreveu que os mineiros morriam à
míngua, “com uma espiga de milho na mão, sem terem outro sustento”.
População das minas:
paulistas e emboabas – A população era bastante
heterogênea, mas distinguiam-se claramente paulistas e forasteiros. Estes eram
chamados, depreciativamente, pelos paulistas, de “emboabas”, que em língua tupi
queria dizer “pássaro de pés emplumados” - referência irônica aos forasteiros,
que usavam botas; os paulistas andavam descalços.
Nesse tempo a população paulista era de mamelucos e índios
que utilizavam como língua o tupi, mais do que o português. Embora minoritários,
os paulistas hostilizavam e eram hostilizados pelos emboabas. Julgavam-se donos
das minas por direito de descoberta. Mas a rivalidade entre paulistas e emboabas
tinha outros motivos mais significativos. O comércio de abastecimento das Minas era controlado por alguns emboabas que auferiam grandes lucros. Dada a sua riqueza e a importância da atividade que exerciam, passaram a ter grande influência. Manuel Nunes Viana, português que veio ainda menino para a Bahia, era um desses ricos comerciantes e principal líder dos emboabas. Era proprietário de fazendas de gado no São Francisco e estava associado aos comerciantes da Bahia. A Guerra dos Emboabas
– O estopim da guerra foi o desentendimento entre
Nunes Viana e Borba Gato, que era guarda-mor das Minas e, portanto,
representante do poder real. A fim de combater o contrabando do ouro, a Coroa
havia proibido o comércio entre as Minas e a Bahia, com exceção do gado. Apesar
dessa determinação, o comércio proibido continuou, sob a liderança de Nunes
Viana. Borba Gato determinou então a expulsão de Nunes Viana das Minas, mas
este não a acatou e foi apoiado pelos emboabas.
Ora, a maior parte das Minas era ocupada pelos emboabas, e os
paulistas estavam concentrados no rio das Mortes, de onde os emboabas decidiram,
então, desalojá-los. Sendo minoritários, os paulistas se retiraram, mas um grupo
deles, com maioria de índios, foi cercado pelos emboabas, que exigiram a
rendição, prometendo poupar-lhe a vida caso depusesse as armas. Foi o que
fizeram os paulistas. Mas, mesmo assim, foram massacrados no local que ganhou o
nome de Capão da Traição. Expulsos das Minas, os
paulistas penetraram em Goiás e Mato Grosso, onde novas jazidas seriam
descobertas. A organização da
economia mineira – Havia, basicamente, dois
tipos de “empresas” mineradoras: a lavra (grande extração) e a faiscação
(pequena extração). A lavra consistia numa exploração de dimensão relativamente
grande em jazidas de importância e utilizava amplamente o trabalho escravo. À
medida que essas jazidas iam se esgotando e sua exploração tomava-se
antieconômica, ocorria o deslocamento das lavras para outras jazidas, deixando o
que restara da anterior para a faiscação, praticada por pequenos mineradores.
No Brasil, o ouro encontrava-se depositado na superfície ou
em pequenas profundidades: inicialmente exploravam-se os veios (nos leitos dos
rios), que eram superficiais; em seguida, os tabuleiros (nas margens), que eram
pouco profundos; e, finalmente, as grupiaras (nas encostas), que eram mais
profundas. Dizemos, por isso, que predominou o ouro de aluvião, que era
depositado no fundo dos rios e de fácil extração, ao contrário das minas de
prata do México e do Peru, que dependiam de profundas escavações. A extração do
ouro de aluvião era, portanto, mais simples, mas de esgotamento mais rápido.
Por essa razão, mesmo na organização das lavras, as empresas eram concebidas de
modo a poderem se mobilizar constantemente, conferindo à atividade mineradora um
caráter nômade. Por conseguinte, o investimento em termos de equipamento não
podia ser de grande vulto. Seguindo as características de toda a economia
colonial, a mineração era igualmente extensiva e utilizava o trabalho escravo. A
técnica de extração, por sua vez, era rudimentar e mesmo o número de escravos
para cada lavra era reduzido, embora haja notícias de lavras com mais de cem
escravos. Na realidade, a manutenção de uma empresa com elevado e permanente
número de escravos era incompatível com a natureza incerta das descobertas e da
produtividade das minas.
São Paulo
– A descoberta das minas funcionou como um poderoso estímulo às atividades
econômicas em São Paulo. Porém, no início do século XVIII, a sua população mal
ultrapassava 15 mil pessoas e uma boa parte dela foi para as minas. Em
compensação, recebeu um acréscimo populacional proveniente de Portugal e já no
final do século XVIII tinha perto de 117 mil habitantes.
Assim, as lavouras foram se ampliando e multiplicaram-se as
atividades manufatureiras. O porto de Santos ganhou súbita importância como
porta de entrada para escravos e produtos importados europeus.
Como as minas necessitavam de animais de carga e transporte,
alguns paulistas deslocaramse para Paranaguá e Curitiba, onde dedicaram à
criação. Outros foram buscar na região platina (Rio Grande do Sul, Uruguai e
Argentina) o gado muar, essencial para o transporte. Os caminhos para as
minas – Situadas no interior do centro-sul, as
minas eram localidades de difícil acesso. De São Paulo aos núcleos mineradores a
viagem era de sessenta dias. Havia três caminhos de acesso. O que foi aberto
por Fernão Dias Pais passava por Atibaia e Bragança e alcançava a Mantiqueira. O
outro, saindo de São Paulo, percorria Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Jacareí,
Pindamonhangaba, Guaratinguetá e Lorena para chegar às três principais regiões
mineradoras: Ribeirão do Carmo, Ouro Preto e rio das Velhas. Um terceiro caminho
passava por Mogi-Guaçu e correspondia, grosso modo, ao traçado da Estrada de
Ferro Mojiana, hoje desativada.
A Bahia possuía uma ligação com Minas muito anterior à
descoberta do ouro. O caminho foi aberto pelos bandeirantes paulistas no século
XVII do sul para o norte. A vantagem dessa via era a sua segurança e conforto.
Não faltavam pastos para os cavalos, nem alimento para os viajantes. As estradas
eram mais largas e podiam ser percorridas sem medo de ataques indígenas.
A Bahia estava apta a se integrar à economia mineira por
várias razões: era um centro antigo de colonização e, como tal, tinha uma
economia mais bem preparada para atender às demandas de Minas; a sua pecuária
havia se expandido para o sertão e pelo rio São Francisco dirigindo-se para as
minas; além disso, era um grande centro importador de produtos europeus e tinha
a vantagem de estar mais próximo de Portugal do que os portos sulinos.
Como aconteceu com outras regiões, grande contingente de
baianos foi atraído pelas minas. Até senhores de engenho abandonaram tudo e se
mudaram para lá com todos os seus bens e escravos.
Mas as autoridades coloniais não viam a integração da Bahia
na economia mineira com bons olhos. Não interessava ao rei que os baianos
abandonassem a economia açucareira. Havia ainda a preocupação com a venda de
escravos dos engenhos para as minas. Por outro lado, o contrabando do ouro era
difícil de ser controlado na estrada de Minas à Bahia. Por isso, a Bahia foi
proibida de fazer comércio com as Gerais, exceto no que se refere ao gado. A
proibição, entretanto, foi inútil. Contrariando as determinações, os baianos
continuaram tão ativos no comércio com as minas quanto os paulistas e os
fluminenses.
De qualquer modo, para efeitos legais, o comércio muito
intenso mantido pelos mercadores baianos com as minas era considerado
contrabando. E uma das maiores figuras desse contrabando era, justamente, Manuel
Nunes Viana, que teve um destacado papel no episódio da Guerra dos Emboabas.
O Rio de Janeiro, no começo, não dispunha de acesso direto às
minas, o que dificultava o seu comércio. Mas rapidamente se beneficiou com a
abertura do “caminho novo”, construído em três anos (de 1698 a 1701) e
aperfeiçoado entre 1701 e 1707.
Com a sua abertura, a viagem do Rio para Minas poderia ser
realizada em doze ou dezessete dias, conforme o ritmo da marcha. A vantagem do
“caminho novo” era óbvia comparado com o de São Paulo a Minas, no qual se
gastavam sessenta dias. E essa vantagem teve importantes conseqüências, pois
transformou o Rio no principal fornecedor das minas e na principal rota de
escoamento do ouro. São Paulo sofreu os efeitos da nova situação, mas graças à
descoberta de minas em Goiás e Mato Grosso as perdas foram contrabalançadas.
Sendo uma economia essencialmente importadora, a mineração
dependia do abastecimento externo de alimentos, ferramentas, objetos
artesanais, incluindo os de luxo, gado, principalmente o muar, para transporte e
tração e, finalmente, escravos. Três agentes se encarregaram desse
abastecimento: o tropeiro, que trazia alimentos e outras mercadorias; o
boiadeiro e os comboieiros, que chegavam com os escravos. A articulação
econômica – Ao abrir-se como um grande mercado, a
mineração foi responsável pela articulação econômica da colônia, integrando não
apenas São Paulo, Rio e Bahia, mas também, através de São Paulo, a região sulina
como um todo.
O gado muar era essencial como meio de transporte. E o
principal centro produtor estava localizado na região platina, que,
tradicionalmente, fornecia esse gado para as minas peruanas. Com a decadência
destas últimas, um novo estimulo para a sua criação veio de Minas. Assim se
intensificou a ocupação da região platina, que resultou, no final, na
incorporação do Rio Grande do Sul ao domínio português.
Minas era também um grande mercado de escravos. A crescente
demanda de mão-de-obra escrava provocou significativas alterações no tráfico. Na
África, a moeda de compra de escravos era o fumo. A Bahia e Pernambuco
tornaram-se, ao mesmo tempo, grandes produtores de fumo e agenciadores de
escravos africanos, propiciando o aparecimento de armadores e traficantes
brasileiros.
Os traficantes nordestinos chegaram a superar a concorrência
de nações poderosas como Inglaterra, França e Holanda, batendo também os
portugueses. Beneficiados com a
abertura do “caminho novo”, mercadores do Rio de janeiro se dedicaram
intensamente ao tráfico, utilizando, como moeda de compra de escravos,
aguardente (pinga), açúcar e até ouro.
A intensificação do tráfico teve efeitos internos
importantes. Na Bahia e em Pernambuco ocorreu a expansão da cultura do tabaco e,
no Rio, do engenho de aguardente, destacando-se Parati.
Assim, atuando como pólo de atração econômica, a mineração
favoreceu a integração das várias regiões antes dispersas e desarticuladas.
Surgiu, desse modo, um fenômeno antes desconhecido na colônia: a formação de um
mercado interno articulado. Outra conseqüência importante da mineração foi a de
ter deslocado o eixo econômico do nordeste para o sul, valorizando
principalmente o porto do Rio de Janeiro. Não foi por acaso que em 1763, na
administração pombalina, â capital da colônia acabou transferida da Bahia para o
Rio de Janeiro.
Contrabandeando –
Portugal tinha, nesse quadro, uma posição
parasitária. A Coroa procurava extrair o máximo de benefício através da cobrança
de impostos, adotando medidas para evitar â sonegação e o contrabando. E não
perdia nenhuma oportunidade para carrear o ouro para os seus cofres. Ela
cobrava impostos nas alfândegas portuguesas e brasileiras, impunha taxas para â
passagem de rios, estabelecia impostos para lojas e vendas e também sobre â
comercialização de escravos, sem contar os impostos que incidiam diretamente
sobre â mineração, como o quinto.
Porém, Portugal tinha um ponto fraco: â sua indústria
manufatureira era muito pouco desenvolvida, de modo que â maioria das
mercadorias vendidas às minas era importada da Inglaterra.
Os ingleses possuíam, só em Lisboa, cerca de noventa casas
comerciais. Assim, lucravam indiretamente com o comércio entre Portugal e o
Brasil e, também, diretamente através do contrabando. E esse contrabando era
feito abertamente e, muitas vezes, com â cumplicidade das autoridades coloniais
portuguesas.
Os holandeses e franceses, que não tinham esse mesmo acesso,
conseguiam introduzir suas mercadorias através do contrabando realizado com
navios brasileiros na África, que, além de escravos, traziam seus produtos para
serem vendidos nas minas. Mineração e urbanização.
A atividade minerados era altamente especializada, de modo que toda mercadoria
necessária ao consumo vinha de fora. Por isso, ao lado dos milhares de
mineradores, foram se estabelecendo artesãos e comerciantes, dando à região das
minas um povoamento com forte tendência urbanizados. Também â administração,
preocupada em evitar o contrabando e â sonegação, favoreceu a urbanização. O
agrupamento em cidades facilitava o controle sobre â produção minerados.Assim,
rapidamente os arraiais de ouro se transformavam em centros urbanos: Vila Rica
do Ouro Preto, Sabará, Ribeirão do Carmo (atual Mariana), São João del Rei, etc.
Por serem grandes as incertezas, â atividade mineira não
permitia â constituição de empresas de grande vulto, em caráter permanente,
salvo em casos reduzidíssimos dos grandes mineradores. Para as empresas de menor
tamanho, devido às incertezas e à voracidade fiscal, â situação geral era â
impermanência, o que resultou numa forma muito especial de trabalho escravo. Não
podendo arcar com os custos da manutenção de uma escravaria numerosa, os
pequenos mineradores davam aos escravos, em geral, uma autonomia e liberdade de
iniciativa que não se conheceu nas regiões açucareiras. Muitas vezes trabalhavam
longe de seu senhor ou mesmo por iniciativa própria, obrigados apenas à entrega
da parte de seus achados. Essa situação possibilitou aos escravos acumularem
para si um certo volume de riqueza que, posteriormente, foi utilizado na compra
de sua alforria (liberdade).
Apesar disso, não se deve concluir que â escravidão fosse
menos rigorosa nas minas. Tal como nos centros açucareiros, â desigualdade foi
reproduzida com â mesma intensidade e â pobreza contrastava com â opulência de
uma minoria. Ao contrário do que se acreditava, â mineração não foi mais
democrática. E mais: as grandes fortunas não tiveram origem na atividade
minerados, mas no comércio.
A administração das minas. Diferentemente das outras
atividades econômicas da colônia, â mineração foi submetida â rigorosa
disciplina e controle por parte da metrópole. Aqui, as restrições atingiram o
seu ponto culminante.
Desde o século XVII â mineração já se encontrava
regulamentada. Os Códigos Mineiros de 1603 e 161 S, embora admitissem â livre
exploração das minas, impunham uma fiscalização rigorosa na cobrança do quinto
(quinta parte do ouro extraído).
Com as descobertas do final do século XVII, â metrópole
elaborou um novo código, que substituiu os anteriores e perdurou até o final do
período colonial: o Regimento dos Superintendentes, Guardas-mores e Oficiais
Deputados para as Minas de Ouro, que data de 1720.
Para a aplicação efetiva das medidas contidas no regimento,
foi criada â Intendência das Minas para cada capitania em que o ouro havia sido
descoberto. A principal característica desse órgão era a sua completa
independência em relação a outras autoridades coloniais. A intendência
reportava-se diretamente ao Conselho Ultramarino.
O mais alto cargo da intendência pertencia ao superintendente
ou intendente, que aplicava a legislação e zelava pelos interesses da Coroa.
Outro funcionário importante era o guarda-mor, a quem competia a repartição das
datas (lotes de jazidas auríferas) e a fiscalização e observância do regimento
em locais distantes; em certas circunstâncias cabia ao guarda mor nomear, pára
substituí-lo, os guardas-menores.
A fim de evitar as sonegações, outro elemento veio a se
agregar à administração: a Casa de Fundição. Na verdade, ela existia desde 1603
e, de acordo com o Código Mineiro da mesma data, deveria ter uma função
importante na arrecadação do quinto. Todo o ouro extraído deveria ser levado a
essa casa e fundido em forma de barra, da qual se deduzia, automaticamente, o
quinto da Coroa. Nas barras assim fundidas ficava impresso o selo real e só
assim o ouro podia circular.
Todas as descobertas deveriam ser comunicadas à intendência.
Em seguida, os guardas-mores delimitavam a zona aurífera em diferentes datas. Em
dia, hora e local previamente anunciados, fazia-se a distribuição das datas: a
primeira cabia ao descobridor, a segunda à Coroa, que a revendia posteriormente
em leilão, e, a partir da terceira, procedia-se por sorteio, embora a dimensão
das datas fosse proporcional ao número de escravos do pretendente.
A exploração das datas deveria iniciar-se num prazo de
quarenta dias. Caso contrário, o proprietário era obrigado a devolver o seu
lote. Em caso de perda dos escravos, a data poderia ser vendida.
Tributação em Minas
– O objetivo da Coroa era garantir, por todos os meios, a sua renda. Desde o
século XVII, existia uma legislação minerados que estipulava o pagamento de 20%°
(1/5) do ouro descoberto e explorado. Com a descoberta do ouro em Minas, o
primeiro problema foi o de saber de que modo esse imposto - o quinto - deveria
ser cobrado:
Utilizaram-se, basicamente, três formas: a capitação, o
sistema de fintas e as Casas de Fundição.
A primeira a ser aplicada foi a capitação, que era, na
prática, um imposto que incidia sobre o número de escravas de cada minerador,
esperando-se, com isso, que a arrecadação correspondesse ao “quinto”. Mas essa
medida gerou revoltas, pois os mineradores ficavam sujeitos ao pagamento mesmo
que seus escravos não encontrassem ouro algum.
Tentou-se, por isso, adotar o sistema de fintas, que
consistia no pagamento, pela população minerados, de 30 arrobas anuais fixas,
que, teoricamente, corresponderiam ao quinto. Mas quem não concordou dessa vez
foi o rei, que obrigou à volta ao regime de capitação. Devido a novas revoltas,
ele recuou e aceitou o sistema de fintas, cujo pagamento foi garantido pelas
Câmaras Municipais locais. Esse sistema foi adotado em 1718.
O rei continuava insatisfeito. Secretamente fez os seus
funcionários trabalharem para a instalação das Casas de Fundição nas Minas.
Segundo esse novo regime, os mineradores seriam obrigados a enviar o ouro em pó
para ser fundido e transformado em barras com o selo real nas Casas de Fundição,
onde o ouro seria automaticamente quietado.
Em 1719, o governador de Minas, o conde de Assumar, anunciou
a instalação, para o ano seguinte, das Casas de Fundição. A notícia deu origem a
boatos, e os mineradores se revoltaram em vários lugares. O governo de Minas,
entretanto, contava com uma tropa recémcriada, os dragões, que foi
imediatamente utilizada para sufocar as rebeliões. Em junho de 1720 eclodiu em
Vila Rica um sério levante organizado por grandes mineradores, ao qual aderiram
também os setores populares encabeçados por F’ Filipe dos Santos. No processo, o
movimento se radicalizou e acabou sendo controlado por este último.
Provavelmente por sua sugestão, os revoltosos chegaram a pensar em assassinar o
governador e declarar a independência da capitania.
Dezesseis dias depois da eclosão da revolta, Assumar ocupou
Vila Rica com 1500 soldados e pôs fim ao movimento. Filipe dos Santos foi
sumariamente condenado e executado e o seu corpo esquartejado.
Cinco anos depois dessa revolta, finalmente entraram em
funcionamento as Casas de Fundição (1725).
A Coroa e as autoridades coloniais achavam que o único modo
de evitar o contrabando e a sonegação era retirar o máximo das minas. Assim, o
desvio do ouro, se continuasse, seria menor. Por isso, dez anos depois, o rei
ordenou o retorno ao sistema da capitação. Em 1751 a capitação foi novamente
abolida para se adotar um sistema conjugado: Casas de Fundição e cobrança de
cotas anuais fixadas em 100 arrobas (1500 kg). Além disso, ficou estabelecido
que, se as cotas não fossem pagas, toda a população ficaria sujeita à derrama
(cobrança forçada para completar as 100 arrobas). Esse recurso extremo e odiado
pelos mineiros foi um dos fatores que levaram à Inconfidência Mineira em 1789.
Distrito Diamantino
– A opressão colonial havia se intensificado consideravelmente na mineração do
ouro. Mas foi na extração do diamante que se estabeleceu a forma mais extrema
dessa opressão.
Os primeiros diamantes foram encontrados em 1729, e o regime
de extração era semelhante ao do ouro até 1740. Dos diamantes extraídos
pagava-se o quinto. Em 1740 alterou-se o regime de sua exploração, mediante o
regime de concessão e contrato, que consistia na concessão de exploração a um
único contratador, ficando este obrigado à entrega de uma parte da produção
diamantífera. O primeiro contratador foi João Fernandes de Oliveira, sucedido
mais tarde por Felisberto Caldeira Brant. Esse sistema perdurou até 1771, quando
então se estabeleceu o monopólio real, com a instalação da Real Extração.
No tempo de Pombal (1750 - 1777), a extração ficou limitada
ao Distrito Diamantino, atual Diamantina, absolutamente isolado do resto da
colônia. Sua administração era exercida pela Intendência dos Diamantes, cuja
criação data de 1734. No distrito, o intendente possuía poder virtualmente
absoluto, incluindo o direito de vida e morte sobre as pessoas de sua
jurisdição. Ninguém podia entrar ou sair do distrito sem sua expressa
autorização. A fim de evitar o contrabando, instalou-se um verdadeiro regime de
terror, com estímulo à delação, o que favoreceu a criação de um clima de medo e
total insegurança.
O declínio da mineração. A partir da segunda metade do século
XVIII, a atividade mineradora começou a declinar, com a interrupção das
descobertas e o gradativo esgotamento das minas em operação. O predomínio do
ouro de aluvião, de fácil extração, não requeria uma tecnologia sofisticada.
Porém, à medida que esses depósitos aluvionais se esgotavam, era necessário
passar para a exploração das rochas matrizes (quartzo itabirito) extremamente
duras e que demandavam uma tecnologia com maiores aperfeiçoamentos. Chegando
nesse ponto, a mineração entrou em acentuada decadência.
A quase completa ignorância dos mineradores (o conhecimento
que se tinha era fruto da experiência) e a utilização pouco freqüente de novas
técnicas, por falta de interesse e de capital, selaram o destino das minas no
Brasil. A atividade se manteve porque a área de exploração era grande e as
explorações foram conquistando essa região até que ela se exaurisse
completamente nos inícios do século XIX. À Coroa só interessava o quinto. Assim,
a partir de 1824, já na época do Brasil independente, concedeu-se o direito de
prospecção a estrangeiros, que recomeçaram a explorar com melhores recursos
técnicos e mão-de-obra barata.
A Economia nos Fins do Século XVIII O
“Renascimento Agrícola” – A partir da decadência
da mineração na segunda metade do século XVIII, a agricultura exportadora
voltou a ocupar posição de destaque na economia colonial. Esse fenômeno foi
chamado, pelo historiador Caio Prado Jr., de “renascimento da agricultura”. Mas
não foi apenas o esgotamento das jazidas que explica esse renascimento. Outros
fatores devem ser destacados.
O esgotamento do ouro ocorre no contexto da crise do Antigo
Regime, motivada pelas profundas transformações na Europa. O renascimento
agrícola esteve ligado, de um lado, ao incremento demográfico do século XVIII e,
de outro, à grande alteração da ordem econômica inglesa em meados do século, com
a Revolução Industrial.
Com isso, criou-se na Europa uma demanda intensa de produtos
agrícolas para alimentar a população em crescimento. Por outro lado, a Revolução
Industrial, que se iniciou no setor têxtil do algodão, ampliou consideravelmente
a demanda por essa matéria-prima. O fornecedor tradicional do algodão era a
Índia, agora incapaz de suprir satisfatoriamente a. crescente demanda. No século
XVIII, as colônias sulistas dos atuais EUA, importantes fornecedoras do algodão,
paralisaram suas remessas em virtude de seu rompimento com a Inglaterra e do
início da Guerra de Independência (1776 - 1781). As pressões das circunstâncias
levaram a Inglaterra a se voltar para outros mercados, favorecendo então o
Brasil, que intensificou a produção algodoeira.
A produção açucareira retomou, por seu turno, um ritmo
acelerado de expansão, também na segunda metade do século XVIII, em virtude da
Revolução Francesa (1789 - 1799), que estimulou as rebeliões coloniais
antilhanas de dominação francesa, desorganizando a produção açucareira e
favorecendo a exportação brasileira. Importantes centros de produção açucareira
como o Haiti (colônia francesa) conheceram uma agitação sem precedentes. Em
razão disso, os engenhos do Brasil foram reativados, beneficiando-se da nova
conjuntura. Por fim, a neutralidade portuguesa diante dos conflitos europeus,
desencadeados com a Revolução Francesa, criou condições para o incremento de seu
comércio colonial.
Todos esses acontecimentos contribuíram para alterar a
fisionomia geoagrícola do Brasil. De fato, a nova conjuntura estimulou a
diversificação da produção. A produção do algodão teve como centro o Maranhão.
Outras regiões também se dedicaram ao seu cultivo, embora em menor escala, como
o extremo norte do Pará, Ceará, região do agreste nordestino, Minas e Goiás. No
caso do açúcar, além dos centros tradicionais nordestinos, novas áreas foram
ativadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em São Paulo o quadrilátero do açúcar
formado pelas cidades de Mogi-Guaçu, Sorocaba, Piracicaba e Jundiaí iria
preparar, no século XIX, o ingresso da cultura cafeeira. Desenvolveu-se também o
plantio do arroz no Maranhão e no Rio de janeiro, e de anil ou índigo em Cabo
Frio. Nesse quadro de diversificação, a pecuária sulina teve um papel importante na definição de fronteiras no Prata. Essa atividade teve a sua origem na destruição das missões jesuíticas pelos bandeirantes paulistas. O gado criado pelos jesuítas se dispersou pelos campos do sul e encontrou condições favoráveis para a sua multiplicação. As primeiras atividades pecuárias no sul limitavam-se ao apresamento do gado solto para dele extrair o couro, que era exportado (a carne não era consumida). Posteriormente, com a mineração, a capitania de São Pedro (atual Rio Grande do Sul) ganhou vitalidade com a exportação do gado, conforme já vimos. Com o declínio da mineração, a região se integrou definitivamente ao resto da colônia com a produção do charque (carneseca), que será exportado para os centros urbanos e toda a região litorânea do Rio à Bahia. Com as charqueadas consolidou-se o domínio português na região platina. Recomendada: Mineração e Metalurgia no BRASIL - CANDIDA VILARES GANCHO & VERA VILHENA
Para conhecer mais:
Aleijadinho e a Arte Barroca no Brasil Bibliografia: História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
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