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Não atirem!

    Em meus caminhos meditativos tenho parado regularmente em alguns temas recorrentes que me afligem, inclusive em sonhos.

    O mais severo diz respeito a São Miguel arcanjo, ao Sul, que dominou o dragão e segue orbitando nas esferas do Divino. Como combater o mal - e até mesmo "o que é o mal" - no mundo e seguir sendo amigo de Deus e do Bem? Dizia Wilhelm Reich que o braço do Bem só consegue contaminar-se caso se dedique a castigar o Mal, nele se transformando por utilizar justamente as suas armas, ainda que contra ele...

    A meditação seguinte, também recorrente e dolorosa, começou a tomar corpo em meu existir a partir do momento em que comecei a trabalhar, no quartel, em escolas, lidando com pessoas distintas, diferentes: por vezes sinto-me agredido, atacado, sem que possa compreender os motivos daqueles ataques que acabam parecendo gratuitos e somente consigo retrucar timidamente: "não atirem!"

    Suplico que deixem a mim pelo menos a alegria, fundamental, visceral, aquela que vem de dentro, independente das circunstâncias ou condições externas.

    Existe por aí a prática anti-cristã de enfurecer, confundir e desamparar o humano, buscando reduzi-lo a um farrapo lamuriento após sucumbir a cruéis limitações a ele apodadas: não pode isso, não pode aquilo, não pode errar (tem que ser "bonzinho", hem!) não pode acertar (todo mundo erra, quem acerta sozinho é louco!), não pode ficar sem trabalhar ("quem não trabalha não tem o direito de comer!" diz o autoritarismo vigente), não pode trabalhar (as taxas de desemprego são uma verdadeira calamidade em nosso país), não pode ficar sem carro, telefone, TV por assinatura, telefone celular, computadores, videocassete, filmadora, roupas de luxo e muito dinheiro no bolso (caso contrário se estará vergonhosamente "fora de moda"), mas não pode ter carro, telefone, TV por assinatura, telefone celular, computadores, videocassete, filmadora, roupas de luxo e muito dinheiro no bolso (para quem ainda não notou há crise, desemprego, subemprego, salários baixíssimos...)

    O sistema como um todo acaba funcionando como a espora e o freio do desejo, deixando a vítima sem alternativa honrosa qualquer que seja. Propagandas televisivas ou boca-a-ouvido intimam os trabalhadores a adquirir coisas que nem mesmo em séculos de trabalho honesto conseguiriam. Um sistema sádico, pecaminoso, anti-cristão, deixa a maioria das pessoas no nível da mais ínfima condição de sobrevida material (freqüentemente nem mesmo isso!) e aponta, dedos acusadores: "Mas como? Você ainda não tem (este ou aquele bem da moda) ainda? Vergonha!" Não pode ficar triste (se permitirmos o mais baixo dos sentimentos, a auto-compaixão, tomar conta de nós, estamos perdidos!), não pode ficar alegre ("de que ri tanto em meio a tanta calamidade, parece hiena!"). Não pode! Não pode! Não pode!

    Se permitirmos que nos governe o que existe de mais elevado no coração de cada um (uma definição ética da divindade), se o HUMANO, obra máxima da criação divina é promovido e não desrespeitado, se a Criação é preservada e não destruída - inclusive num pensamento ecológico bem mais ampliado - Podemos todas as coisas naquele que nos fortalece! (Flp 4, 13).

    É claro que, sem uma alternativa honrada que seja, fica mesmo muito difícil seguir vivendo. Se, contra o Evangelho, tudo é proibido, fica-se sem alternativa e pode-se até mesmo chegar ao extremo da auto-agressão como última grande fuga. Em nome de Deus, em nome da Vida, em nome do Amor, temos de lutar com todas as armas para evitar que isto aconteça. Temos de impedir, a todo o custo, o cruel massacre contra o humano no mundo. Só há Esperança, repito, se houver Fé, Amor, Compreensão, particularmente no seio das famílias. Aos cruéis e sádicos anti-humanistas, anti-cristãos que nos querem roubar até o canto alegre da garganta, brademos, plenos pulmões como numa antiga tentativa de poema:

Por vezes nos sentimos acuados, ameaçados... É preciso estar atento e forte, sempre!

"...Não atirem!

Não a tirem de mim!

Minha história é bem íngreme,

Minha sina é ruim.

Não atirem!

Não tirem a alegria de mim!"

 

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