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Neoliberalismo e Globalização – o bem-estar da economia às custas da desgraça dos seres humanos

 

Um Ato de Coragem - Nick Cassavettes

O Quarto Poder - DVD Costa Gavras

O Corte - DVD Costa Gavras


 
      Recentemente assisti a 3 filmes de que realmente gostei muito. Elogiados por parte da crítica (a mais próxima dos movimentos sociais) todos de uma ou outra forma ligados ao mesmo tema: a maneira como as modificações econômicas do Capitalismo afetam a vida do cidadão comum. 



Um Ato de Coragem - Nick Cassavettes


O Quarto Poder - DVD Costa Gavras


O Corte - DVD Costa Gavras


Definição


           Neoliberalismo é o nome genericamente adotado pela seita dos economistas ao processo de concentração de renda em grandes empresas, notadamente aquelas mais diretamente ligadas às apostas, aos jogos e à especulação pura e simples, seja através do sistema bancário, seja por parte dos jogadores da bolsa de valores ou outros membros desta mesma escória que controla o poder no mundo.


          A expressão “liberalismo” aparece na definição miseravelmente para tornar o regime dogmático pregado e defendido pela seita dos economistas menos antipático.
 

          As diferenças entre o liberalismo tradicional e o regime de extorsão de recursos dos trabalhadores para os já imensamente ricos – este batizado como “neoliberalismo” – são gritantes. O liberalismo fundamenta-se no “Laissez Faire” preconizado por Adam Smith; uma espécie de busca de “não intervenção” na economia. O capitalismo seria, segundo Adam Smith, basicamente darwiniano, ou seja, focado na sobrevivência do mais forte, sem interferência estatal sobre o sistema.


           O neoliberalismo, para funcionar, precisa vitalmente ter controle sobre o Aparato Estatal e a opinião pública. Constantes injeções de recursos públicos – fruto de impostos, dinheiro do cidadão comum – em companhias privadas em dificuldade são colocadas como conditio sine qua non para o funcionamento apropriado do regime e a seita dos economistas tem o dever de apresentar tudo isto como “o melhor regime do mundo”, “o fim da história e das utopias” ou “a única alternativa viável”. A mídia, patrocinada pelas instituições financeiras, tem o dever de manter a opinião pública sob rígido controle e acreditando rigorosamente que todas as catástrofes que se abatem sobre os cidadãos são exclusivamente responsabilidade de cada um, por incompetência ou falta iniciativa, coisas assim. O controle social desta maneira – com uma seita dogmática travestida em ciência (a Economia já foi científica até meados do século XX, da ascensão desta nova forma de dominação até os dias de hoje, transformou-se em sofisticada seita dogmatica na qual o pensamento único não admite contraponto) de um lado e a Propaganda, de outro – atingindo o pico de sua sofisticação, sem compromisso algum com a verdade dos fatos, apenas com o sensacionalismo, a audiência a qualquer custo, mas principalmente a doutrinação do espectador na direção desejada pelos Donos do Poder, que a imprensa, desgraçadamente, sempre foi áulica no Brasil. Antes de a Rede Globo colaborar e louvar a Ditadura Militar (passando a renegar seu passado quando a maré mudou) já havia os onipresentes áulicos, feladores do poder.

Para uma BOA definição - em filmes - do que seja o processo de Globalização, clique aqui.
 


Escorço histórico

 
       Com o passar dos anos, a luta dos trabalhadores – aqueles que, de fato, produzem a Riqueza das Nações, foi sendo combatida de maneira cada vez mais sofisticada. Começou bem rude, com violência direta. Nos primórdios do capitalismo qualquer organização de trabalhadores, reivindicações ou greves eram tratadas como crimes – os poderosos sempre tiveram controle sobre o aparato judiciário, também de forma crescentemente sofisticada.


      Quem lutasse pelos seus direitos, por melhores condições salariais ou de trabalho era sumariamente executado se em manifestações públicas, era encarcerado e “julgado” de acordo com a legislação, desde sempre elaborada pelos marionetes dos poderosos.


         O insuportável da situação para a maioria e o próprio desentendimento entre os poderosos que, sempre norteados pela ganância e competitividade empurravam trabalhadores de um país contra outro em guerras fratricidas gerando um clima que resultou na eclosão de uma série de revoluções pelo mundo afora sendo a mais relevante para a história do capitalismo a Revolução Russa de 1917.


           Uma vez implantado um regime que se auto proclamou “socialista” mas foi, desde sempre, uma forma de capitalismo estatal, houve avanços e recuos, erros e acertos, como tudo o mais no mundo humano. Somos obrigados a reconhecer que uma Nação atrasada e periférica como a Rússia do início do século XX não chegaria a seu final como uma superpotência se o regime não tivesse acertado em diversos pontos. Pessoalmente vejo a Economia Planificada como a principal responsável pelo avanço do progresso, principalmente social, HUMANO, na ex-União Soviética


           Colocaram-se os pingos nos “ii”, o que dificultou bastante a propaganda dos biliardários. Se no que se apelidou “democracia” o que há de fato é a ditadura de uma minoria de poderosos enriquecidos contra a maioria do povo trabalhador, na URSS o sistema era chamado de “ditadura do proletariado”. Uma ditadura idealmente (mas na prática não era bem assim, já sabemos da maioria sobre a minoria – como o poder estatal, para ser exercido, precisa ser concentrado, surgiu um pequeno grupo de burocratas que acabou se corrompendo, como se verá adiante.


           O capitalismo estatal foi muito mais benéfico ao povo trabalhador que o capitalismo tradicional, em que o Estado existe, na prática, para simplificar a vida de poucas empresas de gente endinheirada. A Rússia saiu de uma situação em que se usavam arados de tração humana para a de segunda superpotência do mundo, a primeira a enviar uma missão espacial tripulada e única a manter uma estação orbital durante anos em volta de nosso planeta; os maiores salários jamais ultrapassavam 8 vezes os menores e a distribuição de produtos à venda, embora escassa devido aos bloqueios, era feita de maneira justa: os preços estavam todos sob controle do governo e o pãozinho – que acaba de sofrer novo aumento no Brasil/2007 – esteve congelado em 60 copeques (menos de 1 centavo de real) durante mais de 70 anos! Esta foi a única e grande diferença: o Estado subvencionava, principalmente, o bem-estar dos seres humanos ao contrário do lado capitalista tradicional, em que o Estado sempre se colocou em defesa dos poderosos, contra o povo trabalhador, embora sempre fazendo propaganda do contrário.


             O colapso do regime capitalista estatal no Leste Europeu aconteceu por uma série de motivos, dentre os quais podemos ressaltar:


_ A corrida armamentista,que obrigou um regime capitalista estatal preocupado principalmente com o bem-estar de sua gente a gastar muito dinheiro com armamento – e se tratava de uma Nação que não tinha colônias a explorar, diferentemente dos EUA, por exemplo – para defender-se durante o processo conhecido como guerra “fria” mas que foi bem “quente” em diversos pontos do planeta, como a América Latina, o Sudeste Asiático, o Oriente Médio e a África.


_ O boicote dos EUA, suas colônias e outros países centrais do capitalismo à importação de produtos vitais aumentou as filas e a insatisfação popular – lembremo-nos de que os preços estavam congelados, sob controle, portanto, todos os bens eram colocados à disposição de todos ao mesmo preço. Como se conseguia pouco, havia filas e insatisfação, esvaziando as estantes dos mercados rapidamente. Hoje está muito mais simples: com o retrocesso ao estado semi-colonial da Rússia, o os preços dispararam, os boicotes cessaram, as prateleiras vivem cheias e há muito o que o cidadão russo médio nelas olhar, embora a aquisição esteja fora de seu alcance...


            Com o retrocesso, houve também o retorno da mesma situação que se vislumbra em todos os países governados pelo neoliberalismo, também chamados de "globalizados": desemprego, subemprego, concentração de rendas públicas em mãos privadas, tráfico de drogas, prostituição, mendicância...


_ Corrupção: seguramente este foi um fator importante na mudança do regime. Onde há controle Estatal, este se encontra em poucas mãos e a proximidade de muitos recursos acaba se transformando numa tentação, em que caem muitas pessoas de má-índole, existentes em qualquer latitude e longitude do Globo. No caso russo, uma burocracia estatal mantinha um nível de vida superior ao da maioria – o que estava em contradição direta com os próprios propósitos do regime – e, embora fosse um nível infinitamente inferior a este dos Mensalões e impostos polpudos malversados, foi suficiente para enfurecer o povo russo e deixá-lo ansioso por mudanças no regime.
Hoje estes mesmos corruptos ou seus sucessores seguem no comando nominal de uma Rússia que, a exemplo do resto do mundo, é governada segundo os preceitos do dogmatismo neoliberal e suas seitas defensoras, representadas pelos economistas e homens de mídia em geral.
 


Não havendo mais o contraponto de uma Nação Poderosa com Economia Planificada, Racional, a rapina do capital e o massacre contra o humano avançam mais


 
        Como sempre fazem os dominadores do mundo, desde os faraós do Egito Antigo, os Imperadores Romanos, os globalizadores Portugueses, Espanhóis, Ingleses e Nazistas; atualmente chegando ao Império Estadunidense as seitas representantes do neoliberalismo pregam, como sempre o fizeram, “este é o melhor dos regimes que o ser humano já conseguiu atingir” a “Inexistência de Alternativas” ou, com maior ênfase o repetido chavão de mais de 5.000 anos: chegamos ao “Fim da História e das Utopias”.


           Nada indica que o discurso dos escribas e fariseus contemporâneos venha a lograr mais êxito que o de seus antecessores, ao contrário!


          Mas de fato, a vida humana atingiu um de seus níveis mais baixos dentro do regime dominante do mundo contemporâneo. Segue-se cegamente a uma seita dogmática que recebe outros nomes, mas como na Idade Média, há expurgos e punições as mais diversas aos desviantes. Um mínimo de lucidez hoje traz tantos problemas quanto aqueles enfrentados por Galileu Galilei. Confira
Direitos trabalhistas são sucessivamente suprimidos, mas não há sequer luta por melhorias: a eficiência do dogmatismo oriundo de uma aliança entre a seita dos economistas e a mídia silencia o movimento social, seja através de um egocentrismo patológico, como ocorre nos países centrais do capitalismo, onde se prega que “a culpa da desgraça que se abateu sobre você é exclusivamente sua”, seja colocando marionetes travestidos de “socialistas” nas colônias como Brasil e Venezuela, por exemplo. Se a maioria acredita que estes marionetes dos bancos representam o povo, perde-se o motivo para lutar.
 

      A via eleitoral é apresentada como potencial solução e todos os candidatos apresentam as mesmas plataformas. O eleito é sempre aquele que consegue mais recursos financeiros com os bancos para cumprir seus ditames e convencer a maioria de que fará o oposto do que prometeu a seus comandantes. De certa forma a maioria tem plena consciência de que o processo eleitoral não mudará nada, mas a propaganda intensa obriga a todos que se conformem. Até mesmo a Justiça Eleitoral faz campanha contra o direito de não participar desta farsa chamada “eleição”. O voto é obrigatório e se, diante da urna, nos decidimos por um número inexistente (única forma de anular o voto) surgem mensagens de erro assustadoras e aterrorizantes, com vistas a bloquear o exercício deste direito democrático, o de não participar da farsa.O voto nulo é desestimulado pela mídia, pelos intelectuais venais de todos os matizes e mesmo na urna eletrônica – sofisticação brasileira, já que o resultado é amplamente conhecido antes mesmo do processo eleitoral, por que não agilizar o teatrinho que se faz? Nos países com um pouco mais democracia e menos analfabetismo político esse processo fraudulento, “urna eletrônica” é inaceitável.
Nossos impostos custeiam a lucratividade do Capital enquanto escolas, hospitais, estradas, portos, aeroportos, indústria e fazendas estão abandonadas de qualquer eivor de apoio estatal na prática embora, naturalmente, seja constante nos discursos.
A sofisticação é aterrorizante! Confira: Brasil controlado pelo crime organizado

 

Um Ato de Coragem – Título Original John Q.


 
Ficha Técnica
 
Roteiro: James Kearns


Produção: Max Burg


Direção: Nick Cassavetes


 
Elenco Principal: Denzel Washington, Robert Duvall, James Woods, Anne Heche e Ray Liotta
 
      O filme começa com o ator principal Denzel Washington, assistindo pela TV a um discurso de George Bush – o pequeno – dizendo que “a economia está diminuindo de ritmo; quem perde o emprego ou fica com o cartão de crédito em débito sabe do que estou falando...”


        É a moda internacional ditada pela grande Metrópole: o marionete que ocupa o poder Executivo precisa fazer em público discursos dissonantes de sua prática cotidiana. O mesmo tem valido para o Brasil de Lula da Silva, a Venezuela de Hugo Chavez e outras colônias além dos países centrais do capitalismo, de uma forma ou de outra dependentes da grande potência do Norte.


          A economia tem de obedecer a um ritmo suficientemente lento para que possa ser previsível e controlável pelos verdadeiros donos do poder, os banqueiros, jogadores da bolsa de valores e toda essa escória parasita dos trabalhadores do mundo. Só assim, se garante a lucratividade destes parasitas e o povo trabalhador não pode mesmo entrar no cômputo senão como massa de manobra em discursos vazios. Naturalmente, a seita dos economistas se incumbirá, com o suporte crucial da mídia patrocinada pelo crime organizado, de persuadir de ser este “o único maneira possível” e outros pseudo alegatos que se transformaram em dogma, em lugar-comum – em qualquer birosca remota de qualquer país, todos sabem repetir letra por letra a pregação da seita dos economistas e a maioria nela acredita...


          Na cena seguinte, o carro da esposa de John Q. – Denzel Washington – é sumariamente rebocado, segundo informa o motorista do guincho, “por débitos bancários”.
 

          A história de John Q. é a mesma de milhões de trabalhadores do mundo, seja nas Metrópoles, seja aqui nas Colônias: tinha um emprego de período integral mas o desaquecimento da economia obrigou a empresa em que trabalha a uma redução que foi forçado a aceitar: meio período, meio salário e meio plano de saúde.
 

        Ao sair de seu emprego de meio período, John Q. se dirige a uma outra companhia em busca de um novo trabalho. Como sói acontecer, há quase meio milhar de pessoas pleiteando a única vaga disponível e o resultado é previsível... “Seu currículo é realmente impressionante, Mr. Q, mas creio que o Sr. é qualificado demais para o trabalho que oferecemos. Manteremos sua documentação em nossos registros e entraremos em contato se for o caso”. Aparentemente, não é a primeira e não será a última entrevista deste tipo por que passa...
 

        O realmente grande problema aparece quando o jovem filho do casal, Michael, de 9 anos de idade, tem uma queda brusca de pressão e desmaia em meio a um jogo de beisebol.
Dirigindo-se ao hospital mais próximo, enquanto os médicos atendem a criança, seus pais são levados à burocracia do nosocômio onde são obrigados a apresentar documentos comprobatórios de que seu Plano de Saúde cobre as despesas com o tratamento do menino.
 

         John Q. realmente não foi avisado de que, após trabalhar mais de uma década em período integral e pagar o valor integral de um plano de saúde com plena cobertura, devido aos cortes na empresa em que trabalha seu plano de saúde também foi reduzido e o caso – complicadíssimo! – de Michael será tratado pelo hospital como “particular”, ressalto aqui o fato de, com a Globalização ser possível promulgar leis com efeito retroativo prejudicando gravemente o réu. Antes desta nova Idade das Trevas o único paralelo histórico ocorreu na França ocupada pelos Nazistas e também brilhantemente explorada pelo filme de Costa-Gavras, Seção Especial de Justiça.
 

          Numa reunião com a direção do hospital, John Q. fica sabendo que seu filho, para sobreviver, precisa de um transplante cardíaco, procedimento orçado em mais de U$ 250.000, valor que seu plano de saúde, agora que está em meio período, não cobre.


          A direção do hospital toma o cuidado de verificar detalhadamente as posses do casal e conclui que eles não possuem sequer a própria casa em que moram – pagam aluguel – não têm ações em bolsas de valores e sua conta bancária está baixíssima com várias pendências e restrições. Assim sendo, embora o cardiologista deixe claro que, sem um transplante o menino pode morrer em poucas semanas ou mesmo dias, a diretora do hospital informa ao casal que precisam considerar “outras opções”, como levar o menino para casa e dar a ele a maior alegria possível vivendo com ele seus últimos momentos...


          O casal não aceita, decide manter o menino no hospital e, desesperado, sai à cata de recursos. Vende toda a mobília da casa, o carro, comunica aos membros da congregação religiosa que freqüenta de suas necessidades e obtém tímida ajuda financeira. Tudo somado, não chega à metade do valor necessário a pagar as despesas do menino em seus primeiros dias no hospital. Já deve U$ 35.000 e consegue, a duríssimas penas, levantar menos da metade deste valor.
Procura um programa televisivo mas sequer obtém atenção para o seu caso.
Quando o cardiologista, seguindo ordens da diretora do hospital “dá alta” ao menino para que morra longe dali, John Q. se dirige ao hospital e parte para seu primeiro “Ato de Coragem”. Armado, tranca as portas do setor de emergência fazendo o cardiologista, uma médica e um residente, além de vários pacientes reféns.


           Com isso, finalmente, consegue alguma atenção da mídia. Hospital cercado pela polícia, pela imprensa e uma multidão de curiosos, John Q. tem uma única demanda: SALVEM A VIDA DO MEU FILHO!


            Uma série curiosa de eventos tem lugar na sala de emergência e nos diálogos entre John Q. e os policiais. Consegue a simpatia de todos e quase cai em duas armadilhas:


_ Um atirador de elite consegue se infiltrar no hospital e tenta mata-lo. John Q. domina o atirador e o leva, sem as calças, à porta do hospital sob o aplauso da multidão. Demanda: “tragam meu filho de volta ao hospital e eu solto seu assassino!” – dizendo isso arremessa a arma usada para tentar matá-lo, mais uma vez sob o aplauso da multidão.


            Menino de volta ao hospital, nova armadilha, a diretora finge que o hospital aceita arcar com as despesas do tratamento do menino. Percebido o ardil e no limite do desespero, John Q. parte para seu segundo “Ato de Coragem”: intima o cardiologista a transplantar o SEU coração (de John Q.) para o peito de seu menino. Quando prestes a meter uma bala na cabeça, já com o menino preparado para a cirurgia, sua esposa chega com a notícia: uma moça faleceu num acidente automobilístico e seu tipo sanguíneo, tamanho do coração e todas as características são compatíveis com o corpo de Michael. Reféns são liberados, um deles se faz passar por John Q. e vai preso para que o pai possa acompanhar o transplante que finalmente é realizado.
No último momento, movida pela pressão popular, a diretora do hospital decide que a entidade arcará com as despesas.


            Alguns anos depois, com Michael novamente bem de saúde, John Q. é submetido a julgamento e inocentado da maioria das acusações que lhe fazem.
Fica-nos a nítida impressão de que ninguém na vida real teria logrado êxito em tal embate contra os poderes constituídos.
 

           Esta e outras pequeninas falhas não nos impedem de perceber, com cruel clareza, a gravidade do momento político que vivemos sob o neoliberalismo.
 

             Trata-se de um regime desumano, centrado em especuladores endinheirados que controlam a opinião pública através da mídia, de seus políticos fantoches e de sua casta sacerdotal de economistas.


              O resultado das medidas que tomam para tornar a economia mais previsível e sob seu inteiro controle, sem riscos para a especulação se reflete em todos os setores da sociedade.
John Q. – Um Ato de Coragem – apresenta-nos os efeitos do neoliberalismo no tratamento de saúde da Nação mais rica do planeta. Em várias outras circunstâncias – filmes, documentários, noticiários, análises em livros sérios, etc. – vemos os efeitos do neoliberalismo sobre a educação, a segurança das pessoas, a relação entre as Nações e a própria produção.


           Reflexão final: se na Metrópole a situação chega a nível assim catastrófico, não é surpreendente que aqui nas Colônias estejamos passando por tantos e tão mais graves problemas...
 

 

O Quarto Poder – Título Original Mad City


 
Ficha técnica


O QUARTO PODER


Título Original: Mad City


País de Origem: EUA


Ano: 1997


Duração: 114 min


Diretor: Costa-Gavras


Elenco: John Travolta, Dustin Hoffman, Alan Alda, Mia Kirshner.
 
 
      Não por acaso este filme é apresentado como uma crítica ao poder que a mídia – sempre controlada por pessoas inescrupulosas, exceções confirmam a regra – exerce sobre a maioria da população. Uma delas diz simplesmente: “ex-vigia é vítima de repórter ambicioso e inescrupuloso”. Este é só um aspecto, a meu ver inclusive menor, de todo o trato do filme...


      No início, Max Bracket (Dustin Hoffman) espreita a saída de um empresário inescrupuloso que lesou usuários de um plano de saúde em alguns milhões de dólares (talvez seja mesmo um dos que faturaram com o tipo de coisa praticado sobre pessoas como John Q., do outro filme aqui analisado).

      Na porta do banco em que o empresário se encontra um senhor de idade vestido de palhaço executa uma dança ridícula em busca de uns níqueis – tudo isso informa alguma coisa acerca da saúde da economia contemporânea.
 

      Quando Sam Bailey (John Travolta) ingressa em seu antigo emprego, de guarda de segurança num museu do qual havia sido recentemente demitido, começa de fato a ação. Bracket havia acabado de entrevistar a diretora do museu com vistas a saber dela acerca das dificuldades financeiras por que a Entidade (a exemplo de milhões de prestadoras de serviços públicos pelo mundo afora). Enquanto Bracket está no banheiro, Bailey chega carregando uma bolsa e pede, pelo que se percebe, pela enésima vez, uma audiência com a diretora do museu para propor uma solução intermediária – ele aceitaria uma redução salarial, qualquer coisa, mas não pode ficar desempregado – por aí se percebe a situação de quem está desempregado neste mundo, hoje globalizado pelo Império Estadunidense.
 

      Ela não se abre à menor possibilidade de diálogo, ordena que se retire e ele então, desesperado, tira uma escopeta da bolsa em que carregava também uma grande carga de dinamite e diz: “agora você me escuta?” – ela não acredita que ele tenha coragem de usar o armamento e ele, num gesto tresloucado e acidental, dispara na direção da porta onde estava precisamente o outro guarda, que manteve o emprego e agora tem uma bala na barriga...
 

      Crianças chegam correndo atraídas pelo burburinho e Sam Bailey percebe que está numa situação muito delicada. Pede calma às crianças e informa, uma vez mais, que só deseja um diálogo, buscar uma alternativa que lhe permita manter o emprego perdido.
 

       Do banheiro do museu Max Bracket, o jornalista que perdeu posição na empresa televisiva em que trabalhava por não cooperar com seu chefe inescrupuloso em grau superlativo (Alan Alda) percebe uma chance de regressar “na crista da onda”: há um homem armado no museu e as crianças são feitas reféns. O tema é pungente e seguramente dará grande audiência à emissora, Bracket tem consciência disso. Mas também há nele a pulsão de buscar formas de auxiliar Sam Bailey senão a recuperar o emprego – possibilidade que se esvai rapidamente com o cerco da mídia, da polícia e de um batalhão de curiosos. A obra de Costa-Gavras é ficcional, isso não se discute! Mas sempre que alguém sai do normal, regular, cotidiano e parte para a luta pelos seus direitos por meios menos ortodoxos atrai mesmo a atenção de um batalhão de apáticos. É como se a sociedade, no fundo, buscasse mesmo uma alternativa, um caminho...
 

      Entre carrinhos de pipocas e churros (que todo o mundo está em dificuldades e, quando se junta uma multidão sempre se tenta faturar uns trocados mesmo) o jornalista vai aos poucos assumindo o controle dos atos e discursos tanto do pobre coitado que se vê na condição de “perigoso seqüestrador de crianças” quanto da própria mídia.
 

      O final é trágico. Costa-Gavras tem pouco ou nenhum compromisso com finais “água-com-açúcar” ao gosto popular. Quando finalmente percebe que não tem saída senão a prisão, Sam Bailey resolve dar cabo da própria vida. Suas balas acabaram. Ele dinamita o museu e morre em pedaços sob o olhar ávido, curioso e lucrativo de muitas grandes empresas televisivas.
Cai o pano.
 

      Aqui no Brasil um cidadão, logo no segundo ano do primeiro mandato de Lula da Silva um cidadão se auto-imolou na Praça dos Três Poderes por ser recusado em uma audiência que requisitava e na qual seguramente pleitearia emprego, um mínimo de atenção presidencial. Fosse ele banqueiro ou industrial e seria recebido rapidamente entre tapetes vermelhos e se dirigiria às salas luxuosas do Palácio Presidencial deste marionete dos bancos. O presidente elitista, no exercício de um governo direitista, não poderia mesmo, publicamente fazer tal concessão a um trabalhador desconhecido. Acaba se tornando brevemente conhecido (até seu nome já está envolto em brumas de esquecimento) pelo gesto desesperado e vigoroso que tomou...
 
       Pessoalmente utilizaria o dado crucial do regime econômico em que estamos imersos para uma resenha decente e, se tivesse de resumir numa frase, diria algo como “trabalhador vitimado pela recessão que toma conta dos serviços públicos torna-se também vítima da mídia”, o “Quarto Poder” de uma cidade enlouquecida.”

      
 
 

O Corte – Le Couperet


 
Ficha Técnica


O Corte


Título Original: Le Couperet


Países de Origem: Bélgica/ França/ Espanha


Ano: 2005


Direção: Costa-Gavras


Elenco: José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils, Christa Theret, Ulrich Tukur, Olivier Gourmet, Yvon Back, Thierry Hancisse, Olga Grumberg, Yolande Moreau.


Duração: 122 min.
 
      José Garcia interpreta Bruno Davert, um competente engenheiro que trabalhou durante 16 anos numa fábrica de papel. Sua companhia – e ficamos sabendo de diversos casos semelhantes ao longo do filme em diversas referências – sofre um corte de recursos e, em função disso, Bruno Davert é demitido – a expressão Le Couperet refere-se à lâmina da Guilhotina, mais apropriado seria dizer que Davert foi degolado pelo avanço do capitalismo em sua feição neoliberal na França.
Durante algum tempo, os recursos oriundos dos fundos compensatórios existentes em todo o planeta hoje – aqui no Brasil são os vários “PDV’s = Planos de Demissão Voluntária” – chegam ao final e, ao final de 2 anos afastado, Bruno Davert segue enviando em vão currículos a empresas que, como de costume, dão sempre a mesma desculpa; variações de “manteremos seu currículo impressionante em nossos registros e entraremos em contato” o que, claro, se traduz mais claramente por “aqui não, jacaré, vai procurar outro pântano!”
 

      Já sem TV a Cabo ou carro suplementar, a família passa a ser integralmente sustentada pela esposa, Marlène (Karin Viard), que mantém dois pequenos empregos.
 

      Capitalismo é competição, certo? Então Bruno Davert se decide a eliminar a competição através de um estratagema em perfeita consonância com o capital, praticando o que se considera crimes. Aqui no Brasil, por exemplo, os crimes cometidos no cotidiano pelos banqueiros e pelo seu marionete no Planalto ou representantes no Legislativo e Judiciário são muito bem tolerados, mas a medida adotada por Bruno Davert – que, empobrecido, desempregado e desesperado, não conta com o suporte do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário de seu país. O que passa a executar é uma seqüência de crimes que o colocam na lista dos “serial killers” contemporâneos.
 

      Cria uma empresa fictícia para atrair seus concorrentes a uma vaga em emprego no ramo de papel e passa a analisar os currículos que lhe são enviados. De pronto descarta a maioria. Ele realmente é competente no que faz e só encontra, dentre todos os competidores, 5 que efetivamente reconhece como melhores do que ele – ou com melhores chances de emprego – no ramo por um ou outro motivo.
 

      A questão moral se esvai nos primeiros momentos e é mesmo simples ao espectador brasileiro, acostumado com um governo de criminosos guiados por interesses de banqueiros e extorsores, que sorriem para as câmeras de TV, simpatizar com a metodologia adotada por Bruno Davert para se livrar da concorrência.
 

     Decide matar seus concorrentes para o que, a princípio, utiliza uma antiga Lugger Nazista herdada de seu pai, que participou da Segunda Grande Guerra e deixou inclusive farta munição.
Verifica de perto a vida e os hábitos de cada um de seus competidores e os mata, em geral com um ou dois tiros de uma arma arcaica que dá um coice fenomenal em seu braço a cada disparo.
Davert fica exasperado com a quantidade de currículos que lhe chega pela caixa postal. Certa feita, a atenciosa atendente dos correios coloca toda a sua imensa correspondência numa bolsa e ele se espanta inclusive com a quantidade enorme de pessoas presentes ali naquele dia. A funcionária explica: é começo de mês, são as filas para receber o seguro-desemprego...
 

      Fica claro o estágio em que o capitalismo – internacional por definição – se encontra hoje, seja nas Metrópoles, seja aqui nas colônias: a economia é desaquecida para simplificar os cálculos dos jogadores e outros parasitas que ganham rios de dinheiro, fruto do trabalho alheio e, como resultado, o número de desempregados e desassistidos pelo Estado é cada vez maior.
No estágio chamado de “neoliberalismo” o Estado passa a ser “mínimo”, o poder decisório fica concentrado em grandes empresas especuladoras, que o Estado representa e o que Noam Chomsky chama apropriadamente de “arena política” se reduz cada vez mais, individualizando e tornando os problemas coletivos (como o desemprego causado por esta política econômica rapinante, por exemplo) assunto pessoal de cada um.
 

      É mesmo assim tão surpreendente que um cidadão perca o tino e se decida a buscar uma saída pessoal para seu problema pessoal? Os risos e aplausos da platéia dão conta de serem estes “problemas pessoais” tão espraiados por todos os quadrantes que seriam mais bem tratados dentro do quadro da arena política, não como busca de soluções individuais e desesperadas, como o são as taras e crimes. A isto fica reduzido o cidadão no estágio em que nos encontramos. Mas não se preocupe. A tendência é piorar...
 

      Após “massacrar a concorrência” termo empresarial muito comum, Bruno Davert está num restaurante festejando e o filme termina com a fina ironia de Costa-Gavras focando uma moça simpática com o currículo de Bruno Davert nas mãos a checar seus hábitos e tudo indica que há mais uma predadora disposta a eliminar a concorrência...
 
 


Considerações finais


 
      O mundo já esteve governado pelo capitalismo em seu tipo clássico ou “puro”: grandes empresas concentravam a riqueza produzida pela maioria, mas ainda era um capitalismo centrado na produção. O problema maior era mesmo a maneira como essa produção era distribuída.
Hoje o mundo inteiro está norteado por um tipo de política econômica concentrada nos especuladores, portanto voltada a reduzir o ritmo da produção, provocar retenções monstruosas de recursos públicos para carreá-los ao capital especulativo.
 

      Somente em 2006 e somente o Brasil de Lula da Silva, o marionete dos bancos, “economizou” cerca de 100 Bilhões de Reais para pagar juros de uma dívida que já foi paga várias dezenas de vezes e segue sempre crescente – o foco principal é impedir a queda da lucratividade dos especuladores. Em situações ensandecidas assim é até constrangedor! Ficamos com saudades do tempo em que éramos explorados por grandes produtores; a produção era estimulada! Esta orientação voltada à engorda do capital especulativo é a mais destrutiva que já governou o mundo!
Não posso eu, que critico a seita de macumbeiros que se auto-proclamam cientistas na área da economia fazer um exercício de macumba ou futurologia. Mas me é dado o direito de especular e refletir em outra direção.
 

      Se uma criança de 3 ou 4 anos pega um grande vasilhame, sobe numa cadeira, que sua altura não chega à boca de chamas do fogão, enche de óleo e o leva ao fogo há uma grande probabilidade de acontecer um acidente sério.
 

       Se um jovem passa a noite na “balada” se embriagando de diversas maneiras e, ao fim da festa, convida seus colegas, toma as chaves do carro e parte para um “racha” a mais de 140 Km/h numa avenida movimentada de uma grande capital, as probabilidades de desastre são consideráveis.
 

       Assim, se seguirmos governados por esse norteamento voltado à paralisia da economia para que a lucratividade dos especuladores seja grande, há uma probabilidade muito grande de vermos o desemprego aumentar, de haver cada vez menos recursos – quem os gera, afinal se o trabalho é tão aviltado? – não apenas para a educação, a saúde, a infra-estrutura ou a segurança das pessoas. A seguirmos neste ritmo, de onde sairá esse crescente rio de dinheiro de endividamento que enriquece os especuladores?
 
Lázaro Curvêlo Chaves - 03/02/2007
Revisado em 15 de julho de 2011

 

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