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Abaixo a Globalizacao!

 

Globalizados e Globalizadores: O Que é Globalização

As Globalizações

 

 

Os povos do mundo já estiveram submetidos a várias "Globalizações" ao longo de sua dolorosa trajetória histórica e de todas saíram com mais ou menos sangue, suor e lágrimas. A atual não terá melhor destino, evidentemente. A única questão em aberto é se estaremos ou não vivos (ou mesmo se o Planeta Terra ainda terá condições de sustentar a vida como a conhecemos) quando a atual globalização chegar a seu final como as anteriores chegaram. A Propaganda, sempre que fala em "Globalização", cita como uma de suas maiores realizações os avanços tecnológicos (mais velocidade em comunicações e transportes) que, como veremos abaixo, inevitavelmente ocorreriam independentemente da forma político-ideológica de encaminhamento das coisas no mundo humano.

Dentre as muitas globalizações que já subjugaram diferentes povos, separo aqui algumas, dignas de nota, por estarem mais próximas da nossa cultura e civilização, além de guardarem impressionantes similitudes: todas se consideravam “civilizatórias” e todas se consideravam “o máximo a que a espécie humana pode almejar em termos de organização social, política e econômica”. E todas entraram para a história.

Vejamos algumas...

 

Globalização Macedônica - 336 - 168 - Antes da Nossa Era

*No mapa acima, o Império Macedônico esta posicionado ao fundo da sede do Império de Wall Street para fins de comparação

Globalização Romana - 27 Antes da Nossa Era até 476 da Nossa Era

 

Globalização Católica - 476 - 1527

 

Globalização Ibérica - 1425 - 1824

 

Globalização Britânica - 1600 - 1917

 

Globalização Neoliberal (a atual) 1917 aos dias de hoje

 

 

Todas (menos a última, até o presente momento em prática trazendo crises cada vez maiores, mais abrangentes e numerosas) com começo, meio e fim; todas com nomenclaturas e justificativas oficiais distintas. Somente a última, a mais recente, adotou em verdade o nome "Globalização" para um processo que já foi chamado de "Conquista", de "Colonialismo", etc. Chamar a todos estes processos de "Globalização" não é exatamente apurado, mas nos possibilita uma aproximação isenta do que significam para dominadores e dominados, cerne de todos os processos pretensamente civilizatórios pregressos como do atual.

 
 

 

Entendendo melhor a “Etapa Superior” de um dado processo histórico

 

            Em 1917, o homem mais influente do século XX segundo o Historiador Britânico Eric Hobsbawm, Vladimir Lênin, publicou sua Obra “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”. Dado o retrocesso em vários setores educacionais neste mundo neoglobalizado por Wall Street, cabe ressaltar alguns pontos a fim de esclarecimento aos mais jovens:

Ao ver as expressões “capitalismo” e “superior” na mesma frase, o leitor atual pode considerar tratar-se de algo vagamente elogioso. Nada mais distante! Na pena de Lênin não haveria espaço algum para elogiar a rapina burguesa sobre os trabalhadores, praxe no Modo de Produção Capitalista. Utilizemos um paralelo religioso, a título de exemplo – mera tentativa de simplificação da compreensão – um Santo Inquisidor Jesuíta na Idade Média poderia publicar uma obra com um título como “Possessão demoníaca, etapa superior do satanismo”, Lênin fala em “Imperialismo como etapa superior do capitalismo” com a mesma carga de cautela, ressalvando-se ainda que, naturalmente, o grande intelectual materialista dialético refere-se a coisas e fatos reais, que ocorrem no mundo da concretude, não em preconceitos de origem religiosa ou qualquer outra.

Lênin detalha a formação de grandes conglomerados (principalmente os trustes, nos quais as empresas controlam todas as etapas da produção até a circulação da mercadoria e os cartéis, que se sobrepõem às antigas formas de competição entre empresas – eufemisticamente chamadas de “livre concorrência” – os cartéis estipulam preços e locais para extração de matéria prima, contratação de mão de obra e condições de comercialização do produto final) e de como, por serem os recursos materiais do mundo finitos por definição e a avidez capitalista não apresenta limites de cunho ético, crises se sucederiam, como a que antecede e, em grande medida fomenta, a I Grande Guerra (1914 – 1918).

A partilha da África e da Ásia entre as potências europeias, da América Latina explorada colonialmente pela grande potência do Norte e de partes da Ásia disputadas pelas potências ocidentais, pelo Japão e pela Rússia Czarista, em linhas gerais, está na raiz das Duas Guerras Mundiais, assim como da forma atual que o capitalismo adota, a forma que se auto-intitula “Globalização”.

A forma atual, a Globalização Neoliberal, é a forma mais avançada do capitalismo no mundo contemporâneo. Surge aos poucos e ganha cada vez mais força à medida que os especuladores da Bolsa de Valores de Wall Street sentem-se seguros com o fim da União Soviética; desde meados da década de 80, passam a adotar uma série de medidas que os trabalhadores chamam de Imposição de Wall Street, popularizada na Propaganda Oficial como “Consenso de Washington”, destinada principal, mas não exclusivamente aos países subdesenvolvidos (também chamados de “em desenvolvimento” ou “emergentes”), alegadamente para “promover o ajustamento macroeconômico" dos países em desenvolvimento e traz como regras fundamentais, principalmente:

1) Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas)

2) Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições (os países globalizados devem reduzir ao máximo suas barreiras alfandegárias protecionistas e os países globalizantes as ampliam, fortalecendo sua dominação)

3) Redução dos gastos públicos (com o público, naturalmente; o Estado deve se colocar a serviço “dos mercados”)

4) Privatização de empresas estatais (prega-se o “estado mínimo” no que tange ao atendimento social enquanto este é fortalecido na defesa dos interesses “dos mercados”)

5) Reforma tributária (aumento extorsivo nos impostos a serem revertidos “aos mercados”, não mais ao bem-estar dos que pagam e seguem sendo chamados eufemisticamente de “contribuintes”)

6) Disciplina fiscal (ênfase na utilização do fruto dos impostos arrecadados segundo os interesses “dos mercados”, não dos seres humanos)

7) Câmbio de mercado (as moedas ditas “fortes” como o dólar e o euro devem ter cotação privilegiada em detrimento das moedas locais dos países globalizados)

8) Abertura comercial (o capital financeiro deve ter liberdade total de transitar, particularmente no que tange à remessa de seus lucros auferidos nos países globalizados na direção dos globalizadores)

9) Juros de mercado (ou seja, elevados para os subdesenvolvidos e reduzidos nos países centrais do capitalismo)

10) Direito à propriedade intelectual (e dentro do conceito de “propriedade intelectual” se inserem patentes de medicamentos, vacinas, sementes para plantações, etc. O globalizado não tem a liberdade de produzir o necessário ao bem-estar de seu povo sem a autorização e devido pagamento ao globalizador) 

 

 

Avanços tecnológicos

 

            Como se viu na URSS, a despeito de todos os desvios das postulações iniciais dos formuladores do Socialismo Científico, saiu-se de uma Nação que usava arados de tração humana no início do século XX para a Corrida Espacial do final do século. O avanço tecnológico, em síntese, não tem coloração ideológica; nasce da necessidade de mais eficiência e velocidade nos transportes e comunicações e, com isso, encurtam-se distâncias.

            Jean-Paul Sartre disse, em “O Ser e O Nada”: “não importa o que fizeram de nós aqueles que nos criaram, mas somos inteiramente responsáveis por aquilo que fazemos do que fizeram de nós”. O avanço tecnológico nasce de necessidades humanas básicas, fundamentais, mas o uso que se faz da tecnologia é que está em questão no mundo neoglobalizado deste início de século XXI. Utilizamos nossas conquistas tecnológicas para ampliar a subserviência de povos dominados ao invés de aprimorar o bem-estar dos seres vivos, que amam e trabalham? É uma escolha a ser feita e o juízo do erro ou acerto desta escolha somente poderá ser dado pela História.

A Espécie Humana conta hoje com uma rede de telecomunicações sem paralelo na História Humana (telefonia fixa e móvel, internet, televisão, fax...) isto torna possível aproximar os distantes, mas curiosamente tem servido mais para distanciar os próximos. O diálogo entre diversas etapas de produção de empresas – e mesmo entre empresas diferentes – ficou mais veloz. O reconhecimento de “Personalidades Jurídicas” poderia facilitar a realização de tarefas grandiosas demais para pequenas associações de pessoas físicas mas, na prática, impera a impessoalidade em todas as relações, fortalecendo o que Karl Marx (em teoria mais tarde aprofundada pelo Húngaro Georg Lukács) chamava de “reificação”, ou seja, “coisificação” do ser humano. Entre uma pessoa física em contato com um dos muitos porta-vozes anônimos das personalidades jurídicas e se verá como a desumanização do humano avança célere nesta etapa do capitalismo. A velocidade impõe impessoalidade e mesmo desprezo ao humano.

 

Reflexos Políticos

 

            Francis Fukuyama – um pequeno analista da empresa privada Rand Corporation – projetou-se intelectualmente no mundo decretando “o fim da história e das utopias”, asseverando que, apesar de seguirem ocorrendo coisas que enchem o noticiário jornalístico, a forma por ele chamada de “democrática liberal” seria o ápice a que a Espécie Humana poderia almejar e os países subdesenvolvidos (magnanimamente promovidas a “emergentes”) devem encaminhar-se a este tipo de formato governamental.

            Na prática, é indiscutível ser este formato superlativamente inadequado para representar os seres humanos e lhes trazer mais bem-estar e tranquilidade no cotidiano. Paralelamente a isso, logo após sua “profecia” os fundamentalismos religiosos e nacional-chauvinistas começaram a fazer vítimas pelo mundo afora, em particular onde formas distintas de encaminhamento político haviam se enraizado.

            Vai mal a Humanidade se o máximo a que podemos almejar é escolher no mercado de candidatos aquele que a marquetagem oficial vende como mais palatável ao eleitorado-consumidor desse tipo de mercadoria.

            Se nos países centrais do capitalismo o problema da representatividade se apresenta questionado de maneira veemente: “que adianta trocar um governo por outro se o que está em disputa é quem jugula melhor os seres humanos, por consenso ideológico, por exemplo, a fim de ampliar os espaços de dominação dos mercados”? Esta é a questão mais candente no centro do capitalismo, dentro mesmo do regime que Fukuyama considerava o ápice do ápice, a democracia liberal...

            Naturalmente, como já é de amplo conhecimento de todos, este problema não existe no Brasil! Aqui usamos um tipo único de urna eletrônica pré-programada, sem controle popular algum, dentro de um processo tão obrigatório quanto fraudulento. Tem a única finalidade de manter o respeitável público sob controle e iludido de que decide alguma coisa, além de criar uma base de dados confiável com detalhes diversos acerca da privacidade de cada cidadão. Breve, além do voto obrigatório em urnas eletrônicas pré-programadas, teremos um cadastro nacional de impressões digitais e, por que não, quiçá ainda de retinas, para que o Estado amplie seu controle sobre o consumidor, eufemisticamente chamado de “cidadão”...

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 05/10/2013

Indicações para aprofundamento

 

 

 
 

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