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Ouro para o Brasil
Não, não vou agora falar sobre Olimpíadas. Falo da campanha governamental voltada à ampliação da participação popular na economia nacional, via despesas, que faz lembrar os momentos mais graves da vida dos povos do mundo. Já assisti a documentários russos, franceses e alemães nos quais o governo daqueles países, em situação de calamidade nacional ou guerra, pedia que se levassem jóias e até mesmo alianças de casamento para locais públicos, onde seriam coletadas e o ouro usado para fazer face ao esforço de guerra ou esforço voltado a superar a situação crítica por que a nação passava. As exportações brasileiras atingem um novo recorde, nosso país está tão rico que até envia tropas armadas para ocupar e dominar uma nação da América Central segundo determinação expressa de Washington e envia um montante incompreensível de recursos sob o título de “pagamento de juros da dívida” que, vale relembrar, só faz crescer. Com tanto dinheiro, por que é necessário que as famílias tenham de remexer em seus baús para empenhar, “colocar no prego” como se dizia antigamente, jóias de família para conseguir fazer face aos seus débitos mensais e quitar algumas dívidas? E quem – como eu e a torcida do flamengo – não tem jóias ou nada a empenhar, como é que faz? O bom governo é aquele que não existe. O ruim é aquele que, existindo, pouco ou nada aparece no cotidiano das pessoas, não se impondo como um peso morto monumental a impedir o desenvolvimento da vida e a circulação da riqueza de uma nação. Um governo que aparece tanto, que nos jugula do amanhecer ao pôr do sol, que nos surpreende a cada dia com uma nova notícia desagradável sobre o encaminhamento econômico tem reservado lugar de destaque no panteão dos piores que já ousaram encaminhar nossa pátria.
Mínimo do mínimo
260 reais. Essa foi triste. Mais uma vez um governo neoliberal suborna o congresso nacional para conseguir a aprovação de uma medida do interesse do governo, contra o povo brasileiro. E os partidos da base de bajulação do mesmo governo ainda comemoram! Não há motivos para comemoração da aprovação na Câmara dos Deputados de um dos menores valores de salário mínimo do planeta Terra. Será que passa no Senado? Paulo Paim, do Rio Grande do Sul, diz que não, ainda que venha a sofrer punição do partido por esta decisão. Contabiliza 53 senadores, dentre os 81 que representam os brasileiros, que não seriam capazes, segundo diz, de convalidar esta farsa. A conferir. Na Câmara, dentre aqueles que se posicionaram contra o mínimo do mínimo, destaque, mais uma vez, para o deputado Babá. Dentre os que se posicionaram a favor, Lindbergh Farias já não surpreende mais ninguém. Dentre os que, para estupefação geral, se omitiram, o destaque vai para Ivã Valente e Chico Alencar, outrora insuspeitos de conspirar – ou se calar em tema tão sério – contra o povo brasileiro.
Brasil e o comércio chinês
Curiosamente, logo após a viagem de Lula à China, voltada a, segundo se alegou, simplificar as relações entre políticos e comerciantes sino-brasileiros, veio a lume uma gigantesca desavença entre um empresário sino-brasileiro de nome Lalau Quin Chongue ou algo assim e José Antônio Medeiros, um importante político brasileiro. As relações entre o Brasil e a China precisam mesmo aprimorar-se! No cenário de terra arrasada, em que a maioria da população vive, por sob os escombros de uma hecatombe que ninguém se lembra de ter acontecido, causa espécie que haja empresários que ainda consigam manter-se economicamente com algum conforto. A política econômica do Brasil contemporâneo prioriza o pagamento de dinheiro ao dinheiro. A chamada “remuneração aos bens de capital” sobrepõe-se a qualquer consideração metafísica sobre esta coisa irrelevante para os cálculos econométricos chamado “ser humano” que, para desespero do governo e sua base aliada, segue subversivamente vivendo! Mais: percebendo com cada vez maior clareza o que está acontecendo. A China há anos abandonou o caminho do comunismo e é um país periférico do capitalismo, entrando em sua participação com o trabalho semi-escravo de uma enormidade de seres humanos. E o empresariado brasileiro (o que resta dele após estes quinze anos de desmantelamento) é convidado a participar do butim da China... Tudo previamente acertado com os patrões estadunidenses e já há uma viagem de Lula, Sucatão e comitiva para prestar contas a seus patrões do que tem feito sob sua ordem. Que haja algum tipo de disputa para ver que burguês tem mais razão do que o outro para explorar que tipo de comércio é interessante para verificarmos a profundidade da crise atual: há até canibalismo entre eles! Mas é pura mistificação considerar as atividades do Lalau Quin Chongue menos legítimas ou legais – do ponto de vista jurídico – que as do Senor Abravanel, por exemplo.
O Haiti não é aqui
Uma das ordens expressas de Washington foi o envio de tropas brasileiras para aquela nação central do Caribe, após a deposição de seu presidente constitucional por forças estadunidenses. Além de estarem envolvidos com o massacre e a tortura a muçulmanos numa guerra que se prolonga além do que imaginavam, visam passar uma imagem de “governo compartilhado”. Daí que nossos soldados foram, municiados da ração conhecida como “rancho 2”, o famoso “boi ralado”, carne moída com arroz, para um lugar sem a menor infra-estrutura e um dos mais altos índices de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis do mundo. Há pouco o noticiário internacional – eu mesmo recebi uns tantos e-mails sobre este assunto – dava conta dos protestos de militares aposentados e familiares contra os salários aviltados, congelados há 10 anos ou mais. Mandar militares mal remunerados, insatisfeitos e sem infra-estrutura sequer alimentar está longe de ser uma das prioridades de uma nação devastada, como a nossa, com tanto para construir e tão pouco de que se vangloriar. Será que o cenário brasileiro – ruas e estradas esburacadas, cidades tomadas pelo crime dito “organizado”, campo tomado por disputas sem solução à vista, uma quebradeira generalizada dos mais variados tipos de comércio, casas abandonadas e sem recursos sequer para restauração – que parece saído de um filme sobre a Alemanha após haver sido bombardeada pelos aliados – é tão diferente assim do cenário haitiano? Será que estamos mesmo com essa moral toda para “ensinar” a um povo soberano como deve ou não se comportar?
Brasil 3 X Argentina 1
E de pênalti. Os 3. Se a Argentina está bem economicamente, completamente recuperada da crise recente, já fazendo até turismo externo, havendo controlado seus índices de desemprego e violência, o Brasil ainda tem o melhor futebol, mesmo que o Ministério da Cultura tenha de mandar uma grana preta para o evento e até o próprio ministro para cantar o hino nacional em companhia de uma corporação militar e de um grupo de batuque popular. Mesmo que se tenha de humilhar os visitantes com o desprezo pelo seu hino, que sequer tocou... As pessoas estão revirando seus guarda-roupas para penhorar antigos valores de família e as prioridades do governo são aviltar o salário mínimo, mandar tropas para o Haiti e fazer de um jogo de bola um mega-evento. Tenha santa paciência!
Lázaro Curvêlo Chaves - 5 de junho de 2004
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