Cultura Brasileira

Introdução

      Aqui apresentamos uma série de observações de nativos da América do Norte (onde hoje se localizam os países conhecidos como Estados Unidos da América e Canadá), apenas para retratar o Pensamento Selvagem (na mais pura acepção usada por Claude Lévi-Strauss para referir-se às diferentes formas de pensamento que se desenvolveram na América antes da chegada dos Europeus ao continente).

           Infelizmente, a brutalidade ibérica sobre os nativos do Brasil e outros pontos da América Latina NADA ou muito pouco deixou do que havia de original. Para o Europeu em geral e para o Ibérico em particular, os seres aparentemente humanos encontrados no novo continente eram povos "sem cultura, sem rei, sem lei", portanto todos os seus costumes - sem a exclusão óbvia dos portadores Humanos daqueles costumes - foram violentamente suprimidos. Dos habitantes da América do Norte e, em parte da Meso América, algo ainda restou. Este o mote destas linhas.

 

Palavras de índios

Uma velha Wintu religiosa fala com tristeza da destruição brutal e desnecessária de sua terra pelos brancos...

 

      “O homem branco jamais se preocupou com a terra, nem com o veado, nem com o urso. Quando nós, índios, matamos um animal, comemos ele todo. Quando queremos arrancar uma raiz, fazemos peque­nos buracos no chão. Quando construímos casas, também fazemos pequenos buracos. Quando queimamos a erva contra os gafanhotos, não arruinamos tudo. Recolhemos as bolotas e as pinhas. Não derrubamos árvores. Usamos apenas madeira morta. Mas os brancos reviram a terra, arrancam as árvores, matam tudo. A árvore diz “Não! Eu sou sensível. Não me fira”. Mas eles a derrubam e a cortam em pedaços. O espírito da terra os odeia. Eles destroem as árvores e as puxam pelas entranhas. Eles serram as árvores. Isto as fere. Os índios nunca ferem nada, enquanto os brancos destroem tudo. Explodem rochas e as espalham pelo chão. A pedra diz “Não! Você está me ferindo”. Mas o branco não pres­ta atenção. Quando os índios usam pedras, escolhem as menores e arredondadas que servem para a cozinha. Como é que o espírito da terra pode gostar do homem branco? Onde o branco põe a mão há sofrimento.”

 

 

Hehaka Sapa, ou Alce Negro, chefe e místico Sioux Oglala explica-nos a importância e o simbolismo do círculo para o índio...

 

“Vocês já perceberam que tudo o que um índio faz está dentro de um círculo, isto porque o Poder do Mundo trabalha sempre em círculos e as coisas todas tentam ser redondas. Nos velhos dias, quando ainda éramos um povo forte e feliz, o nosso poder provinha do anel sagrado da nação, e enquanto este anel manteve-se intacto o povo floresceu. A árvore florida era o centro vivo do anel e o círculo dos quatro quadrantes a alimentava. O leste trazia a paz e a luz; o sul, o calor; o oeste, a chuva; e o norte, com seu vento rijo e frio, trazia a força e a paciência. Este conheci­mento foi a religião que nos trouxe do mundo exterior. Tudo o que o Poder do Mundo faz é feito em círculo. O céu e redondo e ouvi dizer que a terra é redonda como a bola, e as estrelas também. O vento, no seu máximo poder, rodopia. Os pássaros constroem ninhos em círculos, pois a religião deles é igual à nossa. O sol vem e vai num círculo, como a lua, e ambos são redondos.

Mesmo as estações formam um grande círculo em suas mudanças, voltando sempre ao ponto em que estiveram. A vida de um homem é um círculo de infância a infância, e assim em tudo o que o poder move. Nossas tendas eram redondas como os ninhos dos pássaros e dispostas em círculo, o anel da nação, um ninho de muitos ninhos que o Grande Espírito nos deu para gerar nossos filhos.”

 

Um chefe índio Gaspesian (atualmente Micmac), no ano de 1676, dirige-se a um grupo de capitães franceses na Nova Escócia, rebatendo suas afirmações sobre a superioridade da civilização francesa...

 

Quero que todos saibam que não estou disposto a vender parte alguma de minha terra, nem quero os brancos cortando nossas árvores ao longo dos rios, sobretudo o carvalho. Tenho uma predileção especial pelos pequenos bosques de carvalhos. Gosto de olhar para eles, porque suportam as tempestades de inverno e os calores do verão, e - da mesma forma que nós - parecem florescer por causa disso.

Tatanka Yotanka, ou Touro Sentado, guerreiro Sioux.

 

  "Vocês nos censuram injustamente, alegando que nosso país é um pequeno inferno na terra em contraste com a França, um paraíso terrestre, já que possui, como dizem, todo tipo de provisão em abundância. Também afirmam que somos os mais miseráveis e infelizes dos homens, vivendo sem religião, sem educação, sem honra, sem ordem social, numa palavra, sem regras, como os animais dos bosques e florestas, privados de pão, vinho e uma infinidade de outros confortos que são comuns na Europa. Bem, irmãos, se ainda não sabem o que os índios realmente pensam do vosso país e das vossas nações, eu vou dizer agora.

Peço que acreditem, por mais que pareçamos miseráveis aos olhos de vocês que nos julgamos muito mais felizes, porque nos contentamos com o pouco que temos. Vocês se decepcionarão enorme­mente se pensam em nos convencer de que vosso país é melhor do que o nosso. Se a França fosse um paraíso terrestre como estão dizendo, seria sensato deixá-la? Por que abandonariam mulheres, filhos, parentes e amigos ? Por que arriscariam a vida e as propriedades? E por que se entregariam, com todos esses perigos, às tempestades e tormentas no mar, a fim de chegar a uma terra estranha e bárbara que consideram a mais pobre e menos afortunada do mundo? Quanto á nós, que estamos convencidos do contrário, dificilmente iríamos à França, pois temos boas razões para acreditar que lá encontraríamos pouca satisfação, visto que os próprios franceses a abandonam para vir enriquecer em nossas praias. Além disso acreditamos que vocês são incomparavelmente mais pobres do que nós, e não passam de simples operários, criados, servos e escravos, ainda que aparentem ser grandes senhores e capitães, pois vemos que se glorificam em nossos velhos trapos, vestindo as miseráveis peles de castor que já nem mais usamos, da mesma forma que vêm pescar conosco o bacalhau para encontrar o sustento e o conforto à miséria e à pobreza que os oprime. Nós, em contrapartida, encontramos todas as riquezas e comodidades entre nós mesmos, sem confusão, sem expor nossas vidas aos perigos que enfrentam constantemente em suas longas viagens. E se, de um lado, nos compadecemos de vocês na doçura de nosso repouso, de outro ficamos espantados com as atribulações que passam, dia e noite, a fim de carregar seus navios. Percebemos que vocês vivem, de um modo geral, apenas do bacalhau que pescam. Eterna­mente bacalhau de manhã, ao meio-dia, à noite, sempre bacalhau. A tal ponto que, se querem comer algo melhor, é às nossas custas. Pois vocês são obrigados a recorrer aos índios, que tanto desprezam, e a acompanhá-los nas caçadas, das quais tiram proveito. Agora digam-me apenas isto, se ainda possuem bom senso: qual dos dois é o mais sábio e o mais feliz? O que trabalha sem cessar e só consegue, com muito esforço, o bastante para sobreviver, ou aquele que descansa na tranqüilidade e tem tudo o que precisa no prazer da caça e dá pesca?

É verdade que jamais fabricamos o pão e o vinho que a vossa França produz. Antes, porém, da chegada dos franceses a está terra, não viviam os Gaspesian muito mais do que agora? Se já não temos nenhum daqueles velhos de 130 a 140 anos é porque vamos adotando aos poucos vossa maneira de viver. A experiência mostra que os mais longevos dentre nós são aqueles que dispensam o pão, o vinho e a aguardente de vocês, contentando-se com a alimentação natural de castor, veado, ave aquática e peixe, conforme os costumes dos nossos ancestrais e de toda a nação Gaspesian. Saibam, portanto, de uma vez por todas; quero abrir meu coração a vocês, irmãos: não há um índio sequer que não se considere infinitamente mais feliz e mais saudável que os franceses.

 

 

Adario, chefe Huron no século XVII, era também conhecido por Kondiaronk (seu nome índio) e O Rato (como lhe chamavam os franceses) . Possui a grande reputação de bravura e sagacidade, e teve participação destacada na Guerra do Frontenac (1689 - 1697) - uma série de conflitos entre franceses e ingleses, e entre os franceses com seus aliados índios e os Iroqueses. Sua habilidade diplomática e em confederar as tribos fez dele um aclamado pacificador. Morreu em Montreal durante uma importante conferência de paz em 1701. Adario viajou muito:

 

“Estive na França, em Nova Iorque e em Quebec, disse ele, estudando os costumes e as doutrinas dos ingleses e franceses”. O seguinte discurso foi feito por Adario diante do barão de Lahontan, um explora­dor francês, e do governador da colônia francesa de Placentia, na Terra Nova, Canadá. Lahontan havia acabado de dizer a Adario que, sem punir os maus e premiar os bons, o crime se espalharia por toda aparte e o homem branco em breve se tornaria o povo mais miserável da terra. Adario responde, dizendo como vê as leis do homem branco.

“Não, vocês já são bastante miseráveis, não vejo como possam se tornar ainda mais. Que espécie de homens são os europeus? Que espécie de valores cultivam? Os europeus, forçados a fazer o Bem e não podendo evitar o Mal a não ser pelo medo da Punição... Se lhe perguntasse o que é um homem, você me responderia: “É um francês”. No entanto posso provar que seu Homem é muito mais um Castor. Porque o Homem não merece este nome por saber andar sobre duas pernas, ou por saber ler e escrever, ou por exibir mil outros sinais de sua inteligência, . .

Quem lhes deu as terras que agora habitam? Com que direito as possuem? Elas sempre foram dos Algonkin. Na verdade, meu irmão, sinto pena de você do fundo de minha alma. Ouça o meu conselho e torne-se um Huron. Pois vejo uma enorme diferença entre sua condição e a minha. Eu sou senhor do meu próprio corpo, disponho absoluta­mente de mim mesmo, faço o que eu quero, sou o conjunto da minha nação, não temo nenhum homem e só dependo do Grande Espírito. Enquanto que o seu corpo, como a sua alma, estão condenados à depen­dência dos seus superiores, às ordens do vice-rei. Você não tem a liberdade de fazer o que pensa, tem medo de ladrões, assassinos, falsas testemunhas, etc., e depende de uma. infinidade de pessoas que estão acima de você. E verdade ou não é?

 

Chefe Curly, um índio Pawnee, relata um dos primeiros contatos en­tre seupovo e os europeus, entre 1800 e 1820.

 

“Ouvi dizer que houve um tempo, há muito tempo, em que só ha­via índios nesta terra. Depois se ouviu falar de homens que tinham a pele branca; haviam sido avistados a leste. Antes de eu nascer, vieram à nossa terra e nos visitaram. O homem que veio era do governo. Queria fazer um tratado conosco e nos trouxe presentes, cobertores, espingardas, pederneiras, ferro e facas.

Nosso chefe disse a ele que não precisávamos de nenhuma daquelas coisas. "Temos o búfalo e o milho, que o Soberano nos deu, e é tudo o que precisamos. Veja esta roupa: ela me aquece no inverno. Não preciso de cobertor", ele falou.

O homem branco trazia consigo algumas reses e o chefe Pawnee disse: “Solte um novilho aqui no campo!” Quando a rês foi solta, o chefe disparou uma flecha que a atingiu no quarto dianteiro, matando-­a. "Viu como a flecha mata?"            disse o chefe. "Não preciso de suas es­pingardas. " Em seguida pegou uma faca de pedra e esfolou o animal, cortando um naco de carne gorda. Ao fazer isso, disse: "Por que usar suas facas? O Soberano deu-me com que cortar" .

Tomando enfim as madeiras de acender fogo, fez uma fogueira para assar a carne e, enquanto ela cozinhava, falou: "Você está vendo, meu irmão, que o Soberano nos deu tudo o que precisamos para obter a carne ou cultivar a terra. Agora volte ao lugar de onde veio. Não queremos seus presentes e também não o queremos aqui.”

 

O chefe de um dos principais grupos de índios Pés-Pretos rejeita os valores monetários do homem branco, respondendo aos delegados norte­americanos que lhe pedem para assinar um dos primeiros contratos de venda de terra na região de Milk River, perto da fronteira norte-noroeste de Montana.

 

“Nossa terra vale mais do que seu dinheiro. Ela irá durar para sempre. Nem mesmo as chamas do fogo poderão destruí-la. Enquanto o sol brilhar e as águas correrem, ela continuará aqui dando vida aos homens e aos animais. Não podemos vender as vidas dos homens e dos animais; portanto, não podemos vender essa terra. Foi o Grande Espírito que a destinou para nós e não podemos vendê-la porque não nos pertence. Vocês podem contar seu dinheiro - e guardá-lo no chifre de um búfalo, mas só o grande Espírito pode contar os grãos de areia e as folhas de grama desta planície. Nós daremos de presente o que quiserem. Mas a ter­ra, jamais.

A orgulhosa tribo dos Nez Percé (Nariz Furado) era chefiada por um homem notável chamado Hin-mah-too yah-lat-kekht, ou Trovão-­das-Alturas-Sublimes-da-Montanha, ou apenas Chefe Joseph, referido anteriormente numa passagem em que descreve a morte do pai. Seu amor pela terra natal era inesgotável, e Chefe Joseph perseverava no esforço de permanecer nos vales e montanhas em que havia nascido. Neste trecho ele deixa claro (como costumava fazer) seus sentimentos com relação à propriedade da terra.

A terra foi criada com o auxílio do sol e deveria ser deixada como está... O campo foi feito sem linhas de demarcação e não compete ao homem demarcá-lo... Vejo os brancos por toda a parte buscando riquezas, e vejo que querem nos dar terras sem valor... A terra e eu somos uma coisa só. A medida da terra e a medida de nossos corpos é á mesma. Digam-­nos, se puderem, que o Poder Criador os enviou para falar conosco. Vocês talvez pensem que foram enviados para fazer de nós o que bem entenderem. Se eu achasse que foi o Criador quem os mandou, consenti­ria que vocês têm direitos sobre mim. Não interpretem mal meu senti­mento de amor à terra. Eu nunca disse que a terra era minha para fazer com ela o que eu quisesse. O único com direito a dispor da terra e aquele que a criou. O que exijo é o direito de viver em minha terra e lhes concedo o privilégio de viverem na de vocês.

 

Smohalla, fundador da religião do sonhador, nasceu entre 1815 e 1820 e pertencia aos Sokulk, pequena tribo dos Nez Percé que vivia em Priest Rapids, margem oriental do rio Columbia, no Estado de Washington Smohalla destacou-se como guerreiro, começando a seguir a pregar a “religião do sonhador”.

O Chefe Joseph dos Nez Percé, adepto da sua “religião do sonhador” propunha e preconizava um retorno às concepções nativas, particularmente as da Terra-Mãe benigna, os sonhos sendo a única fonte de poder sobrenatural. O texto a seguir mostra alguns aspectos da doutrina, que atraiu muitos adeptos, entre os jovens:

 

“Meus jovens não devem trabalhar. Os homens que trabalham não podem sonhar, e a sabedoria nos vem através dos sonhos.

Vocês me pedem para lavrar a terra. Devo então pegar uma faca e enterrá-la no peito de minha mãe? Assim, quando eu morrer, não poderei entrar em seu seio para descansar.

Vocês me pedem para cavar à procura de pedras. Devo então rasgar-lhe a pele para arrancar seus ossos? Assim, quando eu morrer, não poderei entrar em seu corpo para nascer de novo.

Vocês me pedem para cortar o capim, fazer o feno, vendê-lo e ficar rico como o homem branco. Mas como posso cortar os cabelos de minha mãe?”

 

A Carta do Cacique Seattle, em 1855

Original in English; hit here to read it on line!

Chefe Sioux Touro Sentado - Clique sobre a imagem para vê-la ampliada

Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz já 147 anos. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

   
"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
     Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
     Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
    De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

    Para conhecer um pouco mais sobre os "Índios" do Brasil e as lúcidas análises de Claude Lévi-Strauss recomendamos


 

Uma outra versão da famosa Carta do Índio pode ser conferida aqui

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