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A palavra agora é “blindagem”

 

            De uma coisa não podemos nos queixar – refiro-me, claro, aos analistas políticos e jornalistas, mas exclusivamente no mérito a que me refiro – este governo é pródigo em nos fornecer material. Pródigos também em se queixar da imprensa ou dos analistas políticos por ousarem registrar os seus desmandos. Lembro-me do final do governo Figueiredo, quando de uma manifestação em Brasília, o general Newton Cruz dirigiu-se a um colega nos termos: “Cala a boca, jornalista!”

            Aos olhos e ouvidos do Poder, o problema não é a forma como se utilizam da máquina pública para suas finalidades privadas e escusas, mas as denúncias publicadas. Tentaram silenciar a imprensa através de um espúrio “Conselho Federal de Jornalismo”, tentaram monitorar e censurar até mesmo páginas na Internet através de uma certa “ANCINAV”. Mas as resistências foram maiores que os podres poderes que eles exercem. Graças a Deus!

            Semana que passou, até mesmo o Ministério Público foi acusado de ser responsável pela ligeira alta do dólar e queda da bolsa na sexta-feira, 19. Na lógica tortuosa do Planalto e adjacências, não são os erros do governo que ocasionam estes abalos na economia, mas o fato de haver quem os divulgue. Não foi o fato de Antônio Palocci receber propina quando prefeito em Ribeirão Preto e admitir o tráfico de influência dentro de seu feudo o motivo do “abalo”. O motivo teria sido a divulgação do fato. Se a imprensa, os analistas políticos e o Ministério Público se calassem, eles contariam com maior liberdade e desenvoltura para dilapidar o patrimônio público sem que a opinião pública disso ficasse sabendo.

 

O que significa “Blindar a economia”?

 

            A denúncia de sexta-feira, 19 motivou um pronunciamento imediato do Ministro da Fazenda, negando “enfaticamente” os crimes de que o acusa seu ex-assessor. Mas tomou o cuidado de não processá-lo por calúnia ou difamação. Por quê?

            O pronunciamento do Ministro ocorreu no domingo e foi seguido de elogios rasgados por parte de todos os partidos tradicionais e conservadores em termos econômicos, do PT ao PP, passando pelo PC do B e chegando mesmo ao PSDB.

            Lula apressou-se em tomar uma carona no Ministro – que demonstrou muito maior coragem e caráter que seu superior hierárquico – e elogiar o seu pronunciamento. Logo ele, que se afasta da imprensa e se recusa a um diálogo franco com a sociedade.

            Enfim, todos os poderes constituídos à direita e que dominam este país há 505 anos foram unânimes em aplaudir a tal “blindagem” da economia. “Com Palocci ou sem Palocci a economia seguirá no mesmo rumo em que se encontra”.

            Traduzindo: mesmo que o Ministro caia – o que provavelmente é questão de dias ou semanas – os juros seguirão estratosféricos, o superávit primário seguirá elevado, o Orçamento da União seguirá contingenciado – nada de investimentos em saúde, educação ou infraestrutura – garantindo que os de cima lucrem cada vez mais ao custo do sacrifício literalmente mortal dos humilhados e ofendidos desta Pátria.

            Blindar a economia é garantir que tudo permaneça precisamente como determinam os economistas estadunidenses autores do pensamento único.

            Na Idade Média se dizia que “fora da Igreja não há salvação nem perdão”. O dogma contemporâneo impõe que “fora do capitalismo e do neoliberalismo qualquer alternativa é aventureira e está fadada ao fracasso” – a despeito da realidade dos países que, por desrespeitar esse dogma, crescerem e lograrem uma distribuição de renda muito melhor que a dos países que seguem o dogma neoliberal do pensamento único.

            A Idade Média, sob os dogmas eclesiásticos, significaram 1.000 anos de trevas para a Razão e a Ciência. Hoje a razão sucumbe ao capitalismo e a única “ciência” reconhecida como válida é a do dogmatismo neoliberal. Quantos anos durará isso? Com a palavra o Futuro.

 

Alternativas

 

            Romper com a política econômica fratricida da quadrilha formada na cúpula e que comanda os rumos deste país. Constatar que a dívida externa não existe para ser paga, mas para nos manter sob subserviência. E que a dívida interna é fruto de uma política econômica voltada exclusivamente para concentrar cada vez mais a riqueza, tomando dos pobres e encaminhando para os que moram no andar de cima.

            Que o dinheiro de nossos impostos – os mais elevados do mundo – seja revertido na direção de uma boa administração de nosso país, não mais para a ciranda financeira.

            Sem mencionar a questão da corrupção, que o PT institucionalizou, é preciso inverter radicalmente o encaminhamento econômico deste país sob pena de sacrificarmos mais e mais a presente e as futuras gerações.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 25/08/2005

 

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