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Política
Externa
do II Reinado e a Guerra do Paraguai (1865-1870) Origens
da
Guerra Os interesses
em
conflito – Durante cinco anos, o Brasil, a
Argentina e o Uruguai, apoiados financeiramente pela Inglaterra, fizeram
uma
guerra suja, que tinha por meta a destruição do Paraguai. Esse confronto
militar
ficou conhecido como Guerra do Paraguai e foi a mais longa e sangrenta
das
guerras ocorridas na América do Sul. Os motivos dessa guerra foram muito
complexos, pois abarcaram inúmeros interesses, que, por fim, acabaram
voltando-se contra o Paraguai. O terreno para compreender a origem do
conflito é
o Prata, durante o processo de independência da região. A origem dos
países
platinos. A Argentina, o Uruguai e o
Paraguai
faziam parte do Vice-reino do Prata, uma possessão espanhola.
Em 1810, quando a Argentina proclamou a sua
independência ---
posteriormente reafirma da em 1816 no Congresso de Tucumán -, deuse o
primeiro
passo no sentido da independência total do Prata da dominação espanhola.
Em 1811, José Gaspar Rodríguez Francia proclamou a
independência do Paraguai. Mais tarde, em 1828, o Uruguai libertou-se do
Brasil,
formando um outro país independente. Com isso, desfez-se a antiga
unidade do
Prata.
A fragmentação do antigo Vice-reino não estava,
contudo nos
planos dos poderosos comerciantes de Buenos Aires, que esperavam manter a
unidade sob sua direção. Isso equivalia a dominar e anexar o Paraguai e o
Uruguai.
O Paraguai, considerado por Buenos Aires uma
província
argentina, tinha motivos de sobra para temer por sua independência.
Situado no
interior do Prata, sem acesso direto ao mar, encontrava-se à mercê de
Buenos
Aires, que controlava o estuário. É fácil perceber que, para o Paraguai,
o
direito de navegar com segurança e a garantia de manter aberta a sua
comunicação
com o exterior eram questões vitais. Os ditadores
paraguaios. Por tudo isso, o Paraguai era
um país
vulnerável. Bastaria bloquear o estuário do Prata ou qualquer trecho do
rio
Paraná para que o seu isolamento do resto do mundo fosse completo.
Assim, desde
a sua independência, o Paraguai desenvolveu uma política voltada para
dentro, a
fim de depender o mínimo possível do exterior. Essa política foi
inaugurada por
Francia (1811-1840) e aprimorada por Carlos Antonio López (18401862) e
seu
filho e sucessor Francisco Solano López (1862-1870). Foram esses os três
ditadores que imprimiram ao Paraguai uma direção histórica peculiar. O modelo
paraguaio.
Francia compreendera muito cedo que o desenvolvimento do Paraguai com
base numa
economia exportadora daria muitos poderes aos grandes proprietários
rurais e à
burguesia mercantil. Dependendo do mercado externo, dependeria
igualmente de
Buenos Aires, pois a produção teria que ser embarcada ali, com o devido
pagamento de taxas. Os grandes proprietários e comerciantes paraguaios
fariam
então concessões a Buenos Aires, tendo em vista seus interesses
particulares,
mesmo à custa da soberania do país. Grandes proprietários e comerciantes
podiam
ser considerados, portanto, aliados em potencial de Buenos Aires;
conseqüentemente, eram categorias sociais perigosas para a segurança do
Estado.
Esse era o ponto de vista de Francia.
Entende-se, assim, por que Francia optou por um
modelo
econômico voltado para dentro, com ênfase ao mercado interno. Para
enfrentar o
desafio, Francia estimulou as pequenas e médias propriedades dirigidas à
produção de alimentos para o consumo local; confiscou, depois de lutas,
as
propriedades dos grandes empresários rurais e monopolizou o comércio
exterior.
A essa combinação de pequenas propriedades e economia
com
elevado grau de estatização correspondeu, no âmbito político, um poder
despótico
e ditatorial. Portanto, os traços que fizeram a originalidade paraguaia
foram:
pequena propriedade, estatização e ditadura.
Lembremos apenas que a solução foi uma resposta à
ameaça dos
portenhos (habitantes de Buenos Aires) contra a independência paraguaia,
e não
se deve concluir que o modelo de desenvolvimento econômico foi livre
opção de
ditadores afeiçoados ao povo. É inegável que o povo foi beneficiado, mas
isso
ocorreu como efeito indireto de uma política apoiada na "razão de
Estado”. Os sucessores
de
Francia. Depois de ter governado por
trinta anos,
Francia foi sucedido por Carlos Antonio López, que se preocupou em
desenvolver a
indústria. Em vez de consumir divisas obtidas com as exportações de
couro e
erva-mate e com a importação de manufaturas, o novo ditador tratou de
equipar
tecnicamente o país, visando a produção interna. A criação da fundição
de Ibicuí
foi a mais famosa dessas iniciativas. Ao lado disso, estudantes
paraguaios eram
mandados para o exterior e técnicos estrangeiros eram contratados. Com
Solano
López chegou ao fim essa experiência original. A guerra destruiu o país,
que,
embora não houvesse atingido um nível europeu de desenvolvimento, tinha
praticamente eliminado a miséria. Quando a guerra começou, o
analfabetismo era
praticamente desconhecido no Paraguai. O Confronto
As tensões no
Prata.
O Brasil e a Argentina eram os dois países mais poderosos com interesses
diretos
na bacia do Prata e tinham no Uruguai um ponto muito sério de atrito. A situação da guerra civil uruguaia entre blancos (apoiados pela Argentina) e colorados (apoiados pelo Brasil), que se vinha arrastando desde 1850, despertou profundas preocupações no Paraguai.
Do ponto de vista paraguaio, a independência do
Uruguai era a
melhor garantia para manter livre o trânsito no estuário do Prata.
Qualquer
outra solução punha em risco a única saída do Paraguai para o mar. E
isso era
considerado intolerável.
O motivo imediato da guerra foi a intervenção do
Império
brasileiro em favor de Venâncio Flores, chefe colorado no Uruguai. Esse
fato
desfez o equilíbrio de forças no Prata, alarmando o Paraguai, que se
sentiu
diretamente ameaçado pelo Império brasileiro. Em represália, no dia 11
de
novembro de 1864, Solano López ordenou que fosse apreendido no rio
Paraguai o
navio brasileiro Marquês de Olinda, que conduzia o presidente da
província de
Mato Grosso, fazendo-o prisioneiro. Sem perda de tempo, as relações com o
Brasil
foram rompidas e já no mês de dezembro o Mato Grosso foi invadido. Em
março de
1865 as tropas de Solano López penetraram em Corrientes (Argentina),
visando o
Rio Grande do Sul e o Uruguai.
A firme e fulminante iniciativa de López, procurando
o
rápido domínio do sul de Mato Grosso, de Corrientes, do Rio Grande do
Sul e do
Uruguai, mostrou que o ditador paraguaio tinha um plano prévio e
definido. Esse
projeto era o de transformar o Paraguai numa potência continental
hegemônica - o
Paraguai Maior - que teria por base o território das antigas missões
jesuíticas.
Além disso, a pronta mobilização de 64 mil homens,
contra os
18 mil do Brasil e os mil do Uruguai, demonstrou que o Paraguai não
estava
improvisando em matéria militar. É o que sugere a conclusão de que, além
da
política visando a auto-suficiência econômica para diminuir o grau de
vulnerabilidade, os ditadores paraguaios não haviam descuidado de um
preparo
militar adequado. O Significado
da
Guerra – Em 1864, diante das agressivas e
decididas ofensivas, estava claro que o Paraguai havia se transformado, à
sombra
da rivalidade entre Brasil e Argentina, numa potência respeitável e
desafiadora. A política iniciada por Francia estava dando os seus
frutos: uma
economia sólida e uma força militar considerável.
Mas foi precisamente devido ao êxito dessa política
que se
alterou a correlação de forças na região, favorecendo a aliança entre
Brasil e
Argentina, que esqueceram momentaneamente suas diferenças a fim de
impedir a
emergência de uma terceira potência no Prata. E isso interessava também
a um
outro país: a Inglaterra.
O Brasil e a Argentina estavam perfeitamente
integrados à
ordem mundial, dominada pela Inglaterra. Não era o caso do Paraguai, que
adotara
uma política de pouca dependência em relação ao exterior. Já por isso,
era
razoável supor que a Inglaterra tomaria partido dos países que, em 1° de
maio de
1865, formaram a Tríplice Aliança: Brasil, Argentina e Uruguai. Havia
outros
motivos ainda.
Quando a Guerra do Paraguai começou, em 1865, a
Inglaterra
acabara de aprender a lição com a Guerra de Secessão (1861-1865) dos
Estados
Unidos: a de que não deveria depender de um único fornecedor. A
Inglaterra
importava algodão, que era a matéria-prima de seu principal ramo
industrial - a
fabricação de tecidos -, dos estados sulistas norteamericanos. Com a
Guerra de
Secessão, o fluxo de matéria-prima foi interrompido, ameaçando a
indústria
têxtil inglesa. Assim, a Inglaterra começou a buscar a diversificação de
suas
fontes de suprimentos. Nesse quadro, países como o Paraguai, fechados
para o
mercado externo, estavam fora de cogitação. Por isso, a destruição do
sistema
vigente no Paraguai harmonizava-se com a nova política inglesa.
Com esse propósito, a Inglaterra sustentou
financeiramente a
Tríplice Aliança contra o Paraguai e foi a principal beneficiada pela
sua
derrota. O exército
brasileiro.
Apesar de sua imensidão territorial e densidade populacional, o Brasil
tinha um
exército mal-organizado e muito pequeno. E, na verdade, tal situação era
reflexo
da organização escravista da sociedade, que, marginalizando a população
livre
não proprietária, dificultava a formação de um exército com senso de
responsabilidade, disciplina e patriotismo. Além disso, o serviço
militar era
visto como um castigo sempre a ser evitado e o recrutamento era
arbitrário e
violento. Um reforço era, portanto, necessário. Para enfrentar o
Paraguai, recorreu-se à Guarda Nacional e à formação dos Voluntários da
Pátria,
organizados em batalhões que incluíam maciçamente negros alforriados. Vitória dos
aliados.
Foi no setor naval que o Brasil, mais bem preparado, ' infligiu, logo no
primeiro ano de guerra, uma pesada derrota aos paraguaios na batalha do
Riachuelo, sob o comando do almirante Barroso. No ano seguinte, 1866,
as forças
aliadas procuraram invadir o território paraguaio, tentando desfazer o
forte
esquema defensivo montado por Solano López na confluência dos rios
Paraguai e
Paraná. Ali os paraguaios sofreram nova derrota na batalha de Tuiuti.
Nesse
mesmo ano de 1866, desentendimentos entre Venâncio Flores (Uruguai) e
Mitre
(Argentina) fizeram ambos se retirarem do combate, deixando o Brasil
praticamente sozinho na guerra. No final de 1866, ainda um outro evento
importante aconteceu: o comando das tropas brasileiras foi entregue a
duque de
Caxias, que organizou o exército, dando-lhe novo alento.
Em 1867, a atuação de Caxias no exército se fez notar
com o
isolamento da fortaleza de Humaitá, principal ponto de defesa paraguaia,
na
confluência dos rios Paraguai e Paraná.
No ano seguinte, 1868, finalmente, caiu a resistência
paraguaia em Humaitá. Novas vitórias de Caxias ocorreram nas batalhas de
Avaí,
Itororó e Lomas Valentinas. No ano de 1869,
Caxias
finalmente chegou a Assunção, enquanto Solano López recuava para
Peribebuí,
depois para Cerro-Corá, onde resistiu até 1° de março de 1870, quando
foi
derrotado e morto. O
estabelecimento da
paz. Embora a guerra tenha terminado em
1870, os
acordos de paz entre os quatro países não foram concluídos de imediato.
As
negociações foram obstadas pela recusa argentina em reconhecer a
independência
paraguaia, o que foi feito somente na Conferência de Buenos Aires, em
1876,
quando a paz foi definitivamente estabelecida. Conseqüências
da
guerra. Naturalmente, o país que mais
sofreu com a
guerra foi o Paraguai, que teve seu território devastado e sua população
dizimada, marcando profundamente sua história a partir daí. Para o Brasil, que sustentou praticamente sozinho a guerra, as conseqüências foram também desastrosas. De fato, a monarquia teve de concentrar esforços para vencer o Paraguai, e isso contribuiu em grande parte para trazer à tona as contradições do Império brasileiro: a escravidão, que até então se mantinha como sua mais sólida base, começou a ser contestada com grande intensidade. Ao mesmo tempo, ao se fortalecer, o Exército, que então superou a tradicional Guarda Nacional, tomou consciência de seu poder, recusando as lideranças civis que ocupavam as pastas militares. Assim, na Guerra do Paraguai, embora o Brasil tenha saído vitorioso, a monarquia foi derrotada. Seu declínio foi concomitante à guerra, e as críticas atingiram o seu ponto vital: a escravidão. Por essa brecha que se abriu, os ideais republicanos se propagaram.
Evolução Política do
Brasil
durante a Guerra do Paraguai
As modificações no cenário político. Bem
antes da
Guerra do Paraguai, criou-se no Brasil o cargo de presidente do Conselho
de
Ministros, em 1847, que dera origem ao nosso "parlamentarismo às
avessas”. Dessa
data, até a guerra, os dois partidos - Liberal e Conservador - vinham
regularmente se alternando no poder. A vida política continuou bastante
agitada.
No Segundo Reinado foram formados 36 gabinetes ou ministérios,
geralmente de
curta duração, e por nove vezes a Câmara foi dissolvida pelo imperador.
Contudo,
as rivalidades entre liberais e conservadores que deram origem a essas
mudanças
de gabinete, como já mencionamos, não eram profundas porque os partidos
se
entendiam no essencial: ambos eram escravistas. Discordavam apenas
quanto à
forma da organização administrativa: os conservadores eram
acentuadamente
centralistas, ao passo que os liberais inclinavam-se pela
descentralização.
Graças a essa identidade de princípios, através de um acordo, liberais e
conservadores começaram a governar juntos, inaugurando a era da
conciliação em
1853, que perdurou até 1868. A
conciliação. A era da conciliação
iniciouse com
Honório Carneiro Leão - marquês de Paraná -, que formou o chamado
Ministério da
Conciliação, em 1853, composto tanto por liberais quanto por
conservadores.
A conciliação caracterizou-se pela alternância
pacífica entre
liberais e conservadores, que adotavam a mesma política, tanto no
governo quanto
na oposição.
Porém, já por volta de 1860, a situação do país
começava a se
modificar. De um lado, a expansão cafeeira estava transformando a feição
do
Brasil e, de outro, a abolição do tráfico negreiro em 1850 havia
colocado a
escravidão em xeque. Por fim, a eclosão da Guerra do Paraguai
(1865-1870) pôs
fim ao clima de entendimento político.
Um dos sintomas da crise da política de conciliação
foi a
criação da Liga Progressista (1861), por um grupo de conservadores que
evoluíram
para uma posição moderadamente liberal, que, no entanto, se dissolveu em
1864.
Paralelamente, ressurgiram tendências políticas mais radicais que iriam
desembocar, futuramente, na fundação do Partido Republicano.
Com a radicalização das posições políticas, o
imperador
interferiu pessoalmente a favor dos conservadores.
D. Pedro II havia colocado o marquês de Caxias na
direção da
guerra contra o Paraguai. Caxias, entretanto, desentendeu-se com o
Gabinete de
Conciliação chefiado por Zacarias de Góis. O imperador resolveu, então,
compor
um gabinete totalmente afinado com Caxias - um conservador -, rompendo
com o
espírito da conciliação. Com a queda do Gabinete Zacarias, em 1868,
encerrou-se,
portanto, a era da conciliação. Daí para a frente, as facções políticas tenderam à radicalização. Depois de 1870, com o fim da Guerra do Paraguai, o republicanismo ganhou um grande impulso, na mesma medida em que a monarquia foi se debilitando. Estava preparado o terreno para a queda da monarquia.
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Bibliografia: História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP |
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