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Três Mitos: Prometeu, Deméter e Tântalo

 

 

 

 

Prometeu, Pandora, o roubo do fogo e a punição aos humanos e ao Titã

 

Em “O Trabalho e os Dias”, Hesíodo nos relata que no início havia somente os Deuses, os Homens (não as mulheres ainda) e os Animais. Prometeu se empenhou arduamente em criar os Homens a partir da argila, pedindo a Atena que neles infundisse o sopro da vida.

Prometeu era filho de Jápeto, irmão de Cronos, que foi destronado por Zeus, portanto, é primo-irmão de Zeus e, embora da mesma geração não é considerado pelos gregos mais um Deus, mas um Titã.

Os homens eram limitados: não sabiam fazer uso de seus membros, nem da centelha divina recebida. Enxergavam e nada viam, escutavam mas não sabiam ouvir. “Vagavam como vultos de sonhos, e não sabiam utilizar-se da criação”.

Aproximando-se com cuidado, carinho e atenção de suas criaturas, Prometeu vai aos poucos ensinando a observar as estrelas; a subjugar os animais; ensinou aos homens, enfim, a enfrentar todas as circunstâncias da vida.

Zeus, que reinava no Olimpo há pouco tempo, convoca Prometeu e os Homens a se reunir num lugar de nome “Mikone” – não fica claro pela narrativa, nem há referência corroboradora de ser um local físico ou mitológico – com a finalidade de estabelecer o ritual de sacrifícios aos Deuses Olímpicos.

Um touro é sacrificado e suas partes são cuidadosamente separadas. Prometeu oculta as partes comestíveis do touro para os Homens, escondendo debaixo de gordura apenas os ossos do animal para os Deuses. O pressuposto é de que aquele seria o estabelecimento de uma norma perpétua acerca de como os rituais sacrificiais deveriam ocorrer para todo o sempre.Zeus percebe rapidamente a trapaça de Prometeu, aceita os ossos sacrificados mas se decide a punir Prometeu castigando os Homens, a quem é negado o fogo: o último atributo de que necessitavam para o estabelecimento da cultura, da civilização.

Prometeu usa um estratagema: toma o caule de uma árvore sagrada altamente inflamável chamada Nártex, aproxima-se da Carruagem do Sol, acende o fogo e o distribui aos Homens. Ao ver o brilho do fogo entre os mortais, Zeus percebe que não há mais como privá-los daquela dádiva. Toma a decisão de, mais uma vez, punir Prometeu castigando os Homens, mas também Prometeu, que é amarrado a uma montanha e uma águia imortal (ave sagrada a Zeus) lhe devora o fígado que renasce a cada dia, por toda a Eternidade. Como vimos antes, Héracles liberta Prometeu de seu castigo eterno quando se dirige ao Jardim das Espérides para, com a ajuda de outro Titã, Atlas, colher delas o Pomo de Ouro.

Prometheus - Gustave Moreau - 1868

Os Homens, por sua vez, recebem como castigo a Mulher – sem nome em “Teogonia” e chamada de “Pandora” em “O Trabalho e os Dias”, de Hesíodo – que foi concebida como um ser de extrema formosura e sensualidade, extremada educação e uma mente perfeitamente malévola. Seu nome significa “Doadora de Tudo”; recebe de cada um dos deuses um atributo específico (a beleza de Afrodite, a sabedoria de Atena, a esperteza de Hermes, etc.). Recebe de Zeus a incumbência de se dirigir ao irmão de Prometeu, Epimeteu, com uma jarra de presentes (segundo Hesíodo, era uma jarra, na evolução do mito, transformou-se numa caixa). Prometeu havia alertado seu irmão a jamais aceitar presente algum de Zeus. Seduzido pelo charme e pela beleza de Pandora, Epimeteu aceita a oferenda – ela mesma e a jarra com os presentes. Na primeira oportunidade ela abre a jarra e liberta todos os males do mundo: doenças, frustrações, cizânia, seca, etc. Não fica claro no relato o motivo que a leva a fechar a jarra antes que a esperança dela saísse. Friedrich Nietzsche interpreta a esperança como “mais um dos males da caixa de Pandora”, o que faria algo de bom em meio a tanta desgraça?

Pandora - Jules Joseph Lefebvre - 1882

Alguns autores comparam a criação de Eva (que também introduz o Mal no mundo, segundo a mitologia judaico-cristã) à criação de Pandora. Talvez não seja tão simples. Talvez a esperança devesse ser traduzida como “expectativa”, que pode ou não ser cumprida – e usualmente não o é, fazendo com que os Homens sonhem em vão com coisas impossíveis. De mais a mais, Eva foi concebida como uma adjutora a Adão e é enganada pela Serpente, enquanto Perséfone foi concebida pelos Deuses Gregos como uma PUNIÇÃO aos Homens. O debate está em aberto no mundo acadêmico.

Um detalhe talvez curioso é que a maior parte dos Hinos Homéricos aos Deuses nos chegaram através da tradição Ateniense. Assim, Pandora representa mais uma visão Ateniense da Mulher que propriamente uma visão grega, bem diferente, por exemplo em Esparta, Delfos, Lesbos, etc.

Em Atenas, por exemplo, as meninas se casavam bem jovens, tão logo ingressavam no que hoje chamamos de adolescência (entre os doze e os quatorze anos de idade), o que nos permite explicar porque tantos Atenienses se casavam tantas vezes na vida após enviuvar: a morte no parto era um problema sério em Atenas.

Já em Esparta, onde as meninas somente podiam se casar ao atingir dezoito a vinte anos de idade, ocorriam bem menos casos de segundos casamentos de Espartanos por viuvez, por exemplo.

 

 

Deméter, Perséfone e a Conquista da Morte

            Em Atenas o casamento era acertado entre os pais dos noivos (as mães não eram convidadas a emitir sequer uma opinião) e Hades pede a Zeus para se casar com sua sobrinha, Perséfone, filha de Zeus com Deméter, deusa dos grãos e da fertilidade, que havia atingido a idade certa para o matrimônio (os deuses gregos amadureciam até a idade apropriada a seus atributos, assim permanecendo por toda a Eternidade: Afrodite e Perséfone, por exemplo, terão eternamente entre treze e quatorze anos de idade).

            A tristeza monumental de Deméter faz com que a Terra se torne estéril por longo período de tempo até que o Sol, que havia testemunhado o rapto de Perséfone por Hades, revela à sua mãe onde ela está. Desolada, Deméter se dirige a Zeus e pede sua filha de volta. Zeus recusa. Enquanto no Hades, Perséfone come uma sementinha e, ao se alimentar com algo do Hades fica-se a ele ligado por toda a Eternidade, portanto, não havia nada a fazer.

            Deméter insiste em sua dor e provoca tal penúria na Terra que os Homens ficam em vias de ficar completamente sem alimento, menos ainda – o que é mais grave e move Zeus – fazer os tradicionais sacrifícios.

            Chega-se a um acordo e Zeus convence Hades a permitir que Perséfone fique com sua mãe no Olimpo durante dois terços do ano e more com o marido no Hades por um terço do ano: o período correspondente ao inverno, e esta é uma das maneiras iniciais de os gregos explicarem a modificação nas Estações do Ano.

            Um dos únicos (creio mesmo que o único) casos em que um ser divino ou mortal Conquista a Morte, ainda que por meros quatro meses a cada ano...

The Returno f Perspephone - Frederic Leighton -1891

             Atualmente, graças a séculos de observações astronômicas e estudos científicos, sabemos que a causa da modificação nas Estações do Ano em nosso Planeta se deve à inclinação de 23,5º do Eixo da Terra em relação à Eclíptica (a direção em que revolve ao redor do Sol), Veja foto abaixo. Sem aquele conhecimento, cada povo explicava a mudança nas Estações do Ano de sua própria forma...

          A fim de compararmos, veja como é a inclinação de cada Planeta do Sistema Solar em relação à Eclíptica. Repare particularmente que Vênus tem uma inclinação de quase 180ª, fazendo com que o movimento de Rotação em torno de seu próprio eixo seja na direção oposta àquela em que todos os outros planetas revolvem. Urano surpreendeu o Astrônomo que o descobriu em 1781 (William Hershel) dada a sua inclinação de quase 90ª fazer com que seja visto quase como um "alvo", uma vez que conta com um tênue conjunto de anéis ao seu redor; bem menos imponentes que os Anéis de Saturno, mas lá estão...

 

 

O Suplício de Tântalo

            Tântalo era irmão de Níobe, mãe de quatorze filhos e a quem vimos desrespeitando gravemente as duas únicas coisas comparáveis a Leis Religiosas para os gregos: Gnōthi Seauton (conhece-te a ti mesmo; lembre-se de quem você é; saiba se enquadrar no esquema cósmico das coisas...) e Mēdén Ágan (nada em excesso). Níobe foi punida com a morte de todos os seus filhos por haver desafiado Hera. Examinemos agora o caso de seu irmão.

            Extraordinariamente rico e famoso, Tântalo conquista a amizade dos deuses sendo-lhe dado inclusive o direito de sentar-se à mesma mesa que Zeus e os outro Olímpicos. Vaidoso, demonstrou-se indigno da confiança nele depositada: revela segredos dos deuses aos mortais; rouba néctar e ambrosia de suas mesas distribuindo-os aos mortais. De inconfidência em inconfidência perde as graças dos deuses e cai claramente em desgraça após um ato brutal e desastroso.

            Agora o infrator ousa desafiar os deuses acerca de seu conhecimento. Diferentemente do deus judaico-cristão, os Olímpicos sabiam muitas coisas mas não eram oniscientes nem onipotentes.

            Tântalo faz matar seu próprio filho, Pélope e serve sua carne como refeição em banquete aos deuses. Somente Deméter, mergulhada no sofrimento de estar passando pelo afastamento de sua filha, raptada por Hades, chega a devorar um pedaço do ombro de Pélope. Os demais deuses percebem o crime monstruoso, juntam os pedaços do menino e, com a ajuda de uma das Parcas, lhe restitui a vida. Seu ombro foi substituído por marfim.

            Foi o derradeiro dos crimes de Tântalo que é arrojado ao Hades onde permanece por toda a Eternidade atormentado pela fome e pela sede. Tem água fresca que lhe chega até o queixo mas, sempre que se aproxima para bebê-la, ela se retrai. Desesperado de fome, vê à margem do lago a que está confinado um magnífico pomar, podendo sentir o cheiro dos frutos saborosos que o vento lhe traz: peras suculentas, maçãs rosadas e frescas, romãs reluzentes, figos perfumados, olivas verdejantes... Tão logo se aproxima para tocar uma das frutas sopra um vento forte e afasta os galhos de seu alcance.

            Até os dias de hoje, quando diante de algo que desejamos muito e parece ao nosso alcance sem que de fato o esteja, dizemos que sofremos um “suplício de tântalo”. Coisas agradáveis à vida humana, à nossa vista mas fora de nosso alcance, são coisas “tantalizantes”...

Lázaro Curvêlo Chaves - 15/04/2015

 
 

 

Outros Mitos Gregos (e Romanos...)

            Nosso próximo ponto dirá respeito a um aprofundamento entre as diferenças entre as Cidades-Estado Gregas, em particular Atenas e Esparta assim como ao ataque monumental que o maior e melhor estruturado Império da Região executa contra uma pequenina Grécia composta de Cidades-Estado geridas de maneira distinta. Veremos como é possível vencer um Império apesar de todas as complexidades nisso envolvidas. Traz Esperança... Estudo trazer aqui novos mitos gregos em resumo, se assim desejado, pois há tantos que uma vida inteira seria insuficiente para relatá-los a todos. Arrolo alguns que conhecemos um pouco melhor, aguardando sugestões...

Édipo Rei

A Queda de Faetone

Jasão e os Argonautas

Pégaso, a Quimera e Belerofonte

Dédalo e Ícaro         

Teseu e o Minotauro

A Roda de Ixião

O Tonel das Danaides

 
 

 
Mitos já estudados

Zeus destrona Cronos e reina sobre o Olimpo

Héracles, O Maior de Todos os Heróis Pan-Helênicos - Os Doze Trabalhos

A Guerra de Tróia (alguns de seus principais aspectos)

 

Outros trabalhos aqui publicados sobre o Mundo Grego e a Ciência Contemporânea

Gnōthi Seauton e Mēdén Ágan, inscrições eternas no Templo de Apolo, em Delfos

A Guerra de Tróia e Seus Desdobramentos para a Nossa Cultura

Introdução ao Estudo da Grécia Clássica (entre 2.000 e 250 anos Antes da Nossa Era)

O Mito de Sísifo

As Sete Maravilhas do Mundo Antigo

De Onde Viemos (do Big Bang aos nossos dias)

De Onde Viemos – Continuação – Evolução e Seleção Natural

 

 

 
 

Leitura Recomendada para Aprofundamento Teórico

 

 
 
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