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Caminhos da Redenção
Lázaro Curvêlo Chaves
Introdução
Há discussões bastante sérias nos meios acadêmicos e
mesmo religiosos sobre se os homens fazemos a nossa própria história ou se
somos meros atores (como marionetes) de uma peça cujo enredo desconhecemos.
Há consenso num ponto pelo menos: Cada indivíduo sozinho é responsável pela
sua própria história. Raramente a escreve. Aqui está uma tentativa de
escrever em modulações variadas a história de que tenho sido protagonista
até os dias de hoje.
Apresento ao leitor uma miscelânea de contos, crônicas, poesias e ensaios
breves, seguindo um ordenamento que julguei o mais adequado para tanto.
Ocorreu-me de trabalhar com certa temática mais séria a que dei
prosseguimento ou ilustração através de um conto ou poema num determinado
momento, ocorrendo o oposto em outro, poesia ou conto ilustrado por tema
consideravelmente sério. Encontrará aqui também contos dentro de contos,
além de redundâncias as mais diversas que se explicam pela dificuldade de
comunicação usualmente encontrada. Algo que almejava ver bem compreendido é
apresentado de diversas maneiras e reiteradamente.
Normas de etiqueta erudita sugeririam informar onde está o ficcional e onde
começam os relatos verídicos. Na prática, uma dificuldade, algumas passagens
de minha própria experiência existencial são melhor compreendidas quando em
formato de conto ou crônica, o real, por outro lado, por vezes supera em
muito as imaginações mais delirantes, o que faz os relatos mais objetivos
parecerem coisa mesmo da esfera do ficcional.
Dizem que aquele que transmite uma mensagem deixa de ser dono dela, cabendo
aos interpretadores ultrapassar os limites de consciência possível do autor.
Que assim seja, então.
Ao final da coletânea - ou deveria enfatizar, miscelânea - arrolo a
bibliografia que consultei tanto para elaborá-la quanto para inspirar-me.
Possivelmente haja cometido alguma omissão, embora tivesse me esmerado muito
no cuidado com relação a este ponto. Rogo, portanto, àquele que acompanhar a
leitura, que seja compreensivo e mesmo compassivo para com eventuais
omissões se, apesar de todo o cuidado, não pude localizar a fonte de onde
extraí alguns dados ou expressões peculiares.
Aforismos da modernidade
Nem tudo o que causa escândalo é verdade,
radical, mas o que não causa escândalo algum neste mundo de falsidades e
hipocrisias é, obrigatoriamente, mentira!
Deixa tua LUZ brilhar mais que as trevas que
te cercam!
Se tens traçada uma meta, um ideal, se
sabes, enfim para onde vais, ainda que seja difícil, hás de conseguí-lo. Se
não sabes sequer para onde, como hás de chegar a qualquer ponto?
Ó povo estúpido que conservas o que precisa
ser renovado e vives a renovar o que se deveria conservar, quando tereis
juízo?
O capital se alimenta de mediocridade. Os
que não blefam, os que não se curvam ao bezerro de ouro chamado Mammon, os
crítico-libertários, enfim, são considerados, via de regra, bestas obscuras,
quando não mentalmente nefandos.
A maioria pediu que soltasse Barrabás, a
maioria apoiou a ditadura hitlerista na Alemanha, a maioria delirou com
Stálin na então União Soviética, a maioria acredita em seus governantes. A
maioria, em síntese, nunca tem razão!
Há muito de suspeito naquilo que todos
dizem. Em geral, onde está o excesso de concordância acrítica, está também a
falta de inteligência, o comportamento bovino ou como dizia o grande
tricolor Nelson Rodrigues, “toda a unanimidade é burra!”
Quando os pequenos se unem no ideal de uma
vida mais cômoda - e são maioria - fica muito difícil trabalhar em prol da
grandeza e dos grandes ideais, pois os mesquinhos tudo farão para não deixar
seu pequeno mundo. Pequeno, mas confortável.
“Cambalache”, esta gíria portenha dá bem
idéia de como estão as coisas hoje em dia. Tudo fora do lugar, tudo de
cabeça para baixo. Os loucos acusando os humanistas de “loucura”, isso
quando ocorre de não tomarem a direção do hospício.
Toda e qualquer pessoa ou instituição que
prospere (“enriqueça” ou coisa que o valha) dentro dos marcos do atual
modelo econômico e social vigente, faz mais que reificá-lo: insere-se
decidida e resolutamente em sua defesa na prática, mesmo que o critique na
teoria.
Entre a mão tácita do amor jovem e a mão
jovem do amor tácito.
Reforma agrária: Dai-me terras, sementes,
uma enxada, uma foice e um martelo: construirei assim a mais linda das
florestas de pão. E nela a minha casa, a minha felicidade, o meu amor...
As pessoas precisam, até para que possam
estruturar-se “bem” psiquicamente, estraçalhar com a reputação de quem
querem despedir-se. Não basta dizer “obrigado, adeus”. É preciso que
acreditem, com todas as fímbrias de seus seres que ‘tratava-se de um(a)
calhorda, já o sabia...’”
Objeções à ortodoxia freudiana:
1 - A “ajuda” psicanalítica visa, em última
instância, permitir ao “paciente” gozar do convívio social, por mais que a
organização social esteja insatisfatória. Mas se foi justamente a
(des)organização social vigente que o levou a precisar daquela “ajuda”...
Qualquer reformador social, poeta, profeta ou artista que se submeta a
qualquer forma de psicanálise estará “matando” justamente a sua fonte de
sabedoria, de inspiração, de... loucura mesmo!
2 - O psicanalista, através de um
sofisticadíssimo jogo de poder, trata-se a si mesmo, sentindo-se
incrivelmente bem se comparado ao lamuriento farrapo humano que se desmancha
sob o seu olhar de esfinge...
Bilhete aos stalinistas: acho que já deu
para perceber que não é expurgando, calando, coagindo ou assassinando
pessoas que se prova a veridicidade de um certo ponto de vista, ao
contrário! O caminho da verdade está em outra direção...
Morra o inferno. Faça-se o sonho!
Não mais fugas ou adiamentos! Se não eu,
quem? Se não agora, quando?
Caminhos da Redenção
Um breve diálogo
“Eis aí o triunfo da publicidade na
indústria cultural, a mimese compulsiva dos consumidores, pela qual se
identificam às mercadorias culturais que eles, ao mesmo tempo, decifram
muito bem.”
Adorno/Horkheimer
Tricotando em frente à
TV, Cláudia concentra-se em pelo menos três coisas ao mesmo tempo: como a
mocinha deve agir para, maquiavelicamente, capturar o arredio galã na
novela, quantos novelos de lã serão ainda gastos na elaboração do casaco que
lhe encomendou Ivã, um ex-namorado daqueles que não largam do pé e, fazendo
um paralelo com a novela, planeja a confecção de um pulôver para Francisco,
gesto tático que considera fundamental para conquistá-lo.
Neste momento chega à sua
casa Ivã, que se aboletara do Rio de Janeiro até lá somente «para ver como
estava andando o serviço de seu casaco». Não se vai do Rio a São João de
Meriti corriqueiramente por motivo tão banal, claro está. Cláudia sabe
que ele ainda nutre por ela algum sentimento mas, de sua parte, já nada mais
existe, afinal, em suas duras palavras ao término do namoro, «Ivã não passa
de um fracassado, que nem mesmo carro tem». De toda forma atende-o com
cortesia, como sempre faz; após três anos, briguinhas à parte, alguma
amizade remanesce...
Já chega sentenciando: _
Você está destruindo a mente com essa porcaria! Bota aí um bom filme do
Costa Gavras no videocassete ou ouça um CD do Pablo Milanés e manda o Sílvio
Santos catar coquinho!
Não dá, querido - ela
sempre utiliza esta expressão quando deseja alfinetá-lo - preciso terminar o
seu casaco e se puser um filme no vídeo, terei de ficar lendo legendas e aí
é que o serviço não anda mesmo; aliás, quem é Pablo Milanés? Aquele chato
que só sabe falar de revolução? Como foi um presente de despedida, até
tentei ouvir, mas concluí que só me deu para chatear, tenho outras
preocupações em mente para ficar pensando, como você, em salvar a
humanidade... Mas não se preocupe, não me deixo influenciar por estas
bobagens de televisão, não, é só um passatempo...
_ Passatempo perigoso - torpedeou! - essa
gente procura ensinar como é que se deve pensar, agir e até sentir! Depois
você internaliza todas estas bobagens e as põe em prática como se suas
fossem, só ajudando com isso a manter as coisas como são. Reificar esse
mundo fantasioso de novelas só serve aos interesses dos poderosos. Além
disso, eles embalam o espectador num sentimentalismo piegas para deixá-los
mais receptivos à porcariada que vendem nos intervalos, mesmo que você não o
perceba.
Não seja tão rabugento,
Ivã! Um dos motivos de vocês, que se dizem de esquerda, se darem tão mal em
política no Brasil é que só sabem criticar e reclamar de tudo, enquanto
estes, que você chama de poderosos - com nítida inveja, isso sim - se
apresentam lindos e maravilhosos, falando de sonhos, esperança, harmonia,
beleza, paz... E depois, por que não manter as coisas como estão? As chances
são iguais para todos e esse papo de revolução ou transformação é conversa
de perdedor. Se você não consegue ter aquilo de que precisa, busque os
motivos dentro de você mesmo e pare de, por pura inveja ou incapacidade,
viver querendo quebrar ou subverter tudo! _ Mãe! - dirige-se à pessoa
no cômodo contíguo - olha só o modelito da Thalia, que gracinha! Você
conhece aquele ponto?
“É mesmo difícil”,
fecha-se sorumbático Ivã, “ela não consegue enxergar a injustiça social a
que estamos todos submetidos e que impede terminantemente a prosperidade
econômica não a alguns, mas à maioria! Mas tem alguma razão quando critica
nossa rabugice; de fato temos sido incapazes de demonstrar o quanto agimos e
pensamos pelo bem da maioria, da verdadeira fraternidade entre todos quando
lutamos por abolir privilégios classistas, quando lutamos por justiça
social. Programas de televisão são, em geral, situados em shopping centers,
mansões, praias maravilhosas e o trabalhador médio só consegue compreender
disso tudo que, somente com o fruto de seu esforço laborativo nada
conquistará para si ou os seus, que jamais obterá um mínimo conforto
material (salvo raríssimas exceções que confirmam a regra geral) unicamente
trabalhando honestamente. Daí tantos jogos, tanta desumanidade. Se os “de
cima” agem de maneira desumana, aqueles que não conseguem altos lucros com
“maracutaias” passam a apelar para a ignorância, a ignorância a que foram
submetidos desde a infância... O sujeito vai aprendendo
que precisa “ser esperto”, “levar vantagem em tudo, certo?”, dar golpes,
enfim, como ensinam ad nauseam as novelas ou mesmo a atitude
complacente com que os sucessivos desgovernos deste país tem tratado alguns
canalhantropos verocidas. Só assim, convence-se o trabalhador ou
desempregado, só mesmo através de meios eticamente condenáveis, poderá ele
fugir do mundo falso da favela em que mora ou dos camelôs por que
passa todos os dias e conquistar o mundo real das mansões, carrões e
praias maravilhosas. Que devastação! Quantos cérebros mais não estão sendo
deseducados neste mesmo momento...”
Dona
Maria serve um autêntico cafezinho brasileiro que, embora de qualidade
inferior àquele que é exportado, dado seu esmero, fica saboroso. Todos
trocam mais algumas palavras e alfinetadas e Ivã se vai, meditando em seus
temas prediletos: “A Vida, o Amor e a Morte”. Na verdade, no ponto em que
hoje se encontra, Cláudia não é mais para ele que uma frágil ponte, através
da qual ainda mantém algum contato com o pensamento geral da gente comum do
povo brasileiro.
Uma
Pequena Cidade
“Que
saudades do meu escritório de folhas de zinco e sarrafos às margens do rio
Pardo...” Euclides da Cunha
O pai de Ivã, um obstinado Engenheiro Eletrônico que, à época do “milagre
econômico brasileiro” conseguira prosperar incrivelmente, chegando a ser,
ali por volta de 1971, um dos mais importantes empresários cariocas, foi
atingido simultaneamente pela glória e pelo câncer - a mais temível das
doenças da época - que, em dois anos, corroeu seu corpo, sua pequena fortuna
e arremessou sua família à órbita econômica do filho mais próspero, Malcon,
funcionário de um Banco em São José do Rio Pardo. Ivã, o mais velho dos
filhos, então com 15 anos, muito apegado ao pai, caiu financeiramente com
ele sendo arremessado no mercado informal de trabalho, passando a trabalhar
numa pequena gráfica clandestina, afeito que era às letras. Quantas e
quantas famílias por este Brasil afora sofreram e ainda sofrem até hoje as
causas da crise do tal “milagre”... Aquela família foi submetida à dor
suplementar da perda do seu chefe justamente no momento em que a inflação
retomava sua escalada temível.
São José do Rio Pardo é
uma beleza de cidade, com um povo simpático e amigo, 48 mil habitantes,
orgulhosa por ser ponto fulcral da gesta de uma das mais importantes Obras
da literatura científica mundial; chamam-na, em seu hino, com justeza “o
berço de Os Sertões”, pois foi às margens do rio Pardo entre 1898 e
1901 que o Imortal Euclides da Cunha deu forma final à sua Obra máxima.
Camponeses, com seu empenho e dedicação obstinada, são o principal esteio de
sustentação da enorme riqueza que circula na Região e faz dali um local
atípico em termos de Brasil. Tem como carros-fortes de sua economia a
cebola, uma das maiores unidades fabris da Nestlé do mundo e um sistema
elétrico privado há mais de um século funcionando excepcionalmente bem.
Cidade situada numa das
regiões mais férteis do globo terrestre, consta que seja uma das primeiras
do Brasil em número de automóveis por habitante e os rio-pardenses têm o
orgulho suplementar de serem pioneiros republicanos. Ananias Barbosa,
Francisco Glicério e um grupo de entusiastas da república anteciparam-se em
três meses ao Brasil, criando a “Cidade Livre do Rio Pardo” a 11 de agosto
de 1889. As forças monarquistas reprimiram brutalmente os republicanos mas,
quando a república se consolidou em novembro do mesmo ano, aquelas tiveram
de submeter-se aos revoltosos.
Ivã morou em São José por seis meses
contados. Após a morte do pai, tornou-se taciturno, amedrontado, um tanto
tímido, recluso aos livros mas transformava-se numa verdadeira “fera ferida”
quando agredido por alguma brincadeira de mal-gosto.
Durante o dia, numa
gráfica clandestina próxima à Igreja Matriz, elaborava material de
propaganda de lojas, panfletos apócrifos, coisas assim. Foi ali que começou
sua paixão pelo jornalismo, chegando até, mais tarde, a aproximar-se do
tradicional jornal “Cidade Livre”. Passou a nutrir amor cada vez maior pela
palavra escrita; lia muito. Os mais velhos, com quem tinha de disputar por
vezes posição no serviço, sempre o intimidavam mas, aprendendo a utilizar
cada vez melhor as técnicas e procedimentos práticos para a elaboração de
textos, cartões de visita, calendários, convites, anúncios, panfletos e até
cartas de amor conquistou o respeito de seus competidores e considerável
reconhecimento profissional; na mente de Ivã as alternativas eram: tornar-se
cada vez melhor ou sucumbir. Gostava de parafrasear Euclides neste ponto -
coisa muito comum em São José, aliás - que certa vez, em sério
pronunciamento na Academia Brasileira de Letras disse: “Ou progredimos ou
desaparecemos!”
À noite, estudava.
Obcecado pelo mesmo tipo de intimidação que sofria no trabalho, entre
colegas e professores percebia que a “regra” era a mesma e somente encontrou
refúgio e segurança nos livros. Sua capacidade intelectual, a partir daí,
começou a ser um tanto mais respeitada. Também naquela pequena escola, cujos
professores eram, em sua maioria, cristãos, Ivã era compelido
irresistivelmente a “ser o melhor”; só assim lograva conseguir respeito
frente a seus pares e superiores.
Nos fins-de-semana, as
missas na Matriz eram as principais atividades sociais da pauperizada
família de Ivã. Era daquele meio que teria de sair sua esposa, “uma jovem
cristã fervorosa, boa e honesta”, assim ensinavam os padres. E a Bíblia, a
“palavra de Deus”, “a verdade absoluta e incontestável”, tinha de ser
memorizada, pelo menos em alguns de seus trechos, considerados mais
relevantes.
Logo surgiu sua primeira
crise: o comportamento rapinante necessário no serviço, onde freqüentemente
é preciso mentir, passar a perna nos outros, e ser mau para sobreviver, algo
absolutamente incompatível com as propostas do humanismo cristão que, por
sua vez, era inaplicável na prática diária de relações com pessoas
“intimidantes”. Por outro lado, a aproximação mais estreita - porque
estudada com mais afinco - com as ciências, trazia uma série de dúvidas
quanto à existência de uma “verdade absoluta” e até mesmo a existência de um
Deus.
Uma crise com pelo menos
três orientações conflitantes uma prático-pragmática, uma cristã e uma
científica - conduziu Ivã a seu primeiro impasse na vida.
Após muito meditar, optou
pela ciência, passando a desprezar significativamente as considerações
teológicas mais afastadas da vida prática. Só muito tempo depois encontrou
as “pontes” que possibilitam a reconciliação entre a ciência social e a fé,
a partir de estudos propostos pela Teologia da Libertação.
Regresso
“Thalassa! Thalassa!” Xenofonte
Concluído o segundo grau
com especialização em eletrônica em Mococa, cidade vizinha a São José do Rio
Pardo, retorna Ivã a beira-mar, Rio de Janeiro, sua terra natal. Foi
contratado como técnico para a manutenção dos telefones internos do maior
hospital carioca. Ali trabalhava de dia, continuando seus estudos à noite,
agora aproximando-se da filosofia visitando, sempre que podia, a família e
seus muitos amigos rio-pardenses com quem conversava, em geral,
chamando sua atenção para a nova tendência humanista radical, cobrando dos
republicanos de agosto de 1889 o mesmo pioneirismo, só que agora na direção
do humanismo.
Apesar dos esforços dos
brasileiros mais patrióticos, abnegados, dedicados e éticos, em 1989 o povo
brasileiro elegeu um canalhantropo verocidate, via o verdadeiro humanismo na
proposta de seu opositor que chegou apenas perto do sucesso...
As propostas por melhoras
sociais no Brasil e no mundo devem ser aquelas oriundas da sensibilidade.
Ernesto Che Guevara dizia ser a sensibilidade o principal traço
caracterológico a ser buscado num governante. Textualmente: “Deixe-me dizer,
com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado
por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário
autêntico sem esta qualidade...” Nossa proposta, hoje, deve ser a de fazer
ver à população, a despeito do poder da mídia eletrônica no Brasil,
que só está capacitado para representar o povo (enquanto este não estiver
dotado de condições objetivas e subjetivas de gerir a si mesmo) aqueles que
são verdadeiramente sensíveis à dor humana de um país como o nosso, tão
prenhe de disparidades sócio-econômicas, de desigualdades e
injustiças.
Em meio a tais propostas,
particularmente voltadas a reacender a chama da sensibilidade nos corações
endurecidos das pessoas e, “de lambuja”, fazendo uma homenagem à sua amada,
escreveu Ivã um breve libelo pacifista em forma de conto, intitulado “Anjos
da Paz”;
Anjos da paz
“A grande maldição foi afastada. É no amor
humano reside a toda a força de regeneração do mundo!” André Breton
A idéia partiu de
Cláudia, uma jovem muito linda, com olhos de paraíso, cabelos de ouro e
trigo, transparente e inocente como um sonho. Perfeita “mulher-criança”
na mais elevada acepção bretoniana da expressão, forte em sua ternura,
nobre em seu amor, incapaz de compreender o ódio entre as pessoas, as
discriminações, as guerras... Lançou um “Manifesto às Mulheres do
Mundo”, conclamando-as todas a um movimento internacional pela paz
no mundo, baseado no Amor à Vida.
Assinado com
anagramático pseudônimo, dizia mais ou menos o seguinte:
“Minha irmã,
Nós, mulheres, somos
fonte de Vida. Em algum momento de nossa existência nosso corpo traz à
luz um novo ser humano que amamentamos e de que cuidamos até que possa
viver por seus próprios meios. Biologicamente dedicadas à geração e aos
cuidados com a Vida, temos o dever de fazer o que possível nos for para
deter este massacre planetário contra o humano, onde há guerras, fome,
violência, xenofobia, miséria, prostituição, toxicomania, enfim, vivemos
num mundo em total desequilíbrio.
Convoco-a, minha irmã,
a uma reunião na ONU o mais breve possível para discutirmos meios de
interromper estas oferendas profanas aos deuses do ódio, da destruição e
das guerras, levando-as ao Deus de Amor à Vida.
Ansiosa por sua resposta com sugestões e propostas sou,
TRILIASTAS”
O curioso manifesto,
enviado a todos os meios de comunicação oficiais e oficiosos do planeta, via
Internet em todos os idiomas, encontrou extraordinária repercussão. Assim
nasceu o contingente que mais tarde ficou conhecido como “Anjos da Paz”.
Após um trabalho absolutamente louco (se a “razão” conduzia os povos à
guerra, só mesmo através da “loucura” se poderiam encontrar formas de
libertação).
De todas as partes do
mundo chegavam voluntárias ao movimento erótico-lúdico-onírico-libertário
conclamado - e isto é o mais sublime - precisamente por uma jovem de coração
puro!
Inicialmente eram cerca
de 1.500 os “Anjos da Paz”, as jovens dispostas a, pelo Amor, anular
os poderes das nefandas divindades da guerra. A elas uniam-se contingentes
cada vez maiores e mais entusiásticos, corajosamente interpondo-se entre os
litigiosos, onde quer que houvesse ódio e destruição. Jovens
norte-americanas encontravam o amor de suas vidas entre bravos
iraquianos; belíssimas odaliscas mouriscas despiam seus véus e antecipavam
aos ocidentais a visão do paraíso, brancas beldades nórdicas uniam-se em
amor aos turcos outrora segregados em plena Alemanha, sensuais ashantis
africanas dissolviam o ódio dos corações neonazistas com o poderoso arsenal
de sua ternura, meigas e sorridentes gueixas orientais uniam-se em amor aos
chineses, bósnios e croatas, judias americanas desafiavam as leis de sua fé
e se uniam em amor aos palestinos, o mesmo acontecendo entre palestinas e
judeus. Pelo mundo todo, a festa do Amor pleno se realizava, sonho de
milênios. Franceses e alemãs, judias e jordanianos, líbias e italianos,
cubanos e norte-americanas, quantos casais felizes, quanto amor verdadeiro
compartilhado, quanta festa!
Em meio a tanto amor, a
tanta festa compartilhada, a horrenda divindade da guerra e suas correlatas
foram literalmente aniquiladas! Nesse instante as autoridades convocam uma
reunião internacional para discutir os termos da paz, dos novos rumos da
civilização mas.... que surpresa! Ninguém tem tempo ou disposição a prestar
atenção às autoridades... O Amor vence a guerra, o ódio, a intolerância, o
autoritarismo e tudo o que os gera. Nada mais natural, portanto, que felizes
casais apaixonados, deixem de prestar atenção às tais autoridades...
Espontaneamente, muito
mais eficazmente que se fosse combinado, muito mais eficazmente que se fosse
coisa decidida em “reuniões de gabinete”, todos passam a dedicar-se à
reconstrução da harmonia perdida.
Envergonhados do passado,
como crianças peraltas arrependidas de uma tola infantilidade, todos os
casais do mundo dedicam-se, com suas proles, a “derreter suas armas e delas
forjar arados”, como Isaías havia previsto; tanques de guerra são
convertidos em tratores para arar a terra - que passa a ser de todos, porque
é de Deus e Deus habita o coração de cada humano... - fábricas de armas
químicas são convertidas em fábricas de medicamentos, de implementos
agrícolas e alimentos; bombas, fuzis, metralhadoras, balas, minas, estátuas
de homens raivosos portando armamentos são fundidos e refundidos em símbolos
de Amor e Paz como cupidos, pombas... Na ONU uma das mais belas peças de
Rodin é reproduzida com material oriundo dos armamentos usados nas últimas
guerras e, numa placa de bronze sob a estátua de Rodin, O Beijo, fica a
inscrição: “Tributo aos ANJOS DA PAZ e sua iniciadora. Somente uma
mulher-criança, pura, sensível e inocente poderia liderar o processo de
redenção daquela época selvagem!”
Dos céus um coral de
anjos envia sua luz a todos os homens de boa vontade no mundo, muitos deles
já atuando em nosso meio há muito para auxiliar no restabelecimento da
Harmonia, da Fé, da Paz... Seria Claudinha um destes anjos?
Obstinação
“Não conto gozar a minha vida,
nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande!
Inda que para isso
Sejam meu corpo e minha alma
A lenha deste fogo
Só quero torná-la de toda a humanidade!
Inda que para isso tenha de a perder
como minha.”
Fernando Pessoa
Na tênue linha entre a
busca de uma Companheira que o plenifique, o complete - que o ser humano
nasce radicalmente incompleto, “pela metade” nesta dimensão - e a luta pelo
aperfeiçoamento das Instituições Políticas Brasileiras, segue Ivã
batalhando.
Conversando com Cláudia,
ficou indignado com seu declarado “maquiavelismo”, voltado à conquista
de um ser humano rico, sem qualquer consideração de cunho ético, sequer com
relação ao Amor correspondido.
Imagina que o ser humano
recém nascido é como uma bolota frágil, constituída como que por um floco de
algodão (algo bom, cálido, macio). Logo ao nascer o bebê é submetido a um
tratamento particularmente cruel, para quem acaba de sair do universo
amniótico, começa a chorar vigorosamente em protesto e já inicia o processo
de construção de defesas contra as inevitáveis agressões do meio humano
hostil em que penetra, começa a construir suas couraças caracterológicas.
Com o correr dos anos, aquele pequeno floco de algodão se recobre de arame
farpado e vai se protegendo como pode. Em graus variados de sofisticação,
encontram-se aqueles que conseguem recobrir ainda suas proteções farpadas
com uma fina camada de espuma artificial (o chamado verniz social). Quem se
lhes aproxime, percebe a maciez da superfície. Se procuram penetrar um pouco
mais fundo em suas personalidades, encontram as pontas do arame farpado e só
muito amor humano pode fazer com que se suporte a dor da travessia das
farpas protetoras e se alcance o calor, a bondade e a maciez existente no
núcleo de todo o ser humano.
Esta visão,
exageradamente otimista do que se poderia chamar de “natureza humana”, torna
incompreensível a enorme satisfação que a maioria das pessoas encontra em
“jogar” umas com as outras, em provar que são mais espertas e capazes de
espetar mais fundo e melhor que alguns raros tolos incautos...
Mas será mesmo tão
absurdo assim imaginar um mundo em que as pessoas se pautem mais pela busca
do que de bom possa haver no homem do que na busca do mal? Haverá no mundo
um meio de superar esta ambigüidade, estas manobras e mesmo “táticas de
guerra” para conquistar seres humanos a fazer seja o que for por um preço?
Será que as pessoas estão todas à venda?
Em certa ocasião, Ivã
quase foi agredido fisicamente por chamar a todos os colegas que com ele
tomavam um chopinho a beira-mar de “prostitutos high-tech”; disse-lhes Ivã:
“_ O que nos diferencia no Modo de Produção Capitalista é que parte do corpo
vendemos a quem, por quanto tempo, que preço e para qual finalidade...” A
radical e profunda união com outrem, algo tão sublime, reconciliação
absoluta do ser humano com a Natureza, perda momentânea dos sentidos onde
não mais existe um «eu» ou um “tu”, mas um afirmativo e feliz “nós”, numa
concha protetora de inigualável felicidade e prazer, isto que a cultura
permite que prolonguemos nesta coisa maravilhosa a que damos o nome de Amor,
isto ser tratado como assunto comercial onde táticas de guerrilha são
freqüentemente usadas? Mas é mesmo irracional!
Com esta mentalidade,
desarranja-se mesmo, não apenas vidas de particulares, como a de toda a
Nação e até mesmo o equilíbrio do Planeta!
Em diálogos nem sempre
descontraídos com amigos no Rio e em São José do Rio Pardo, todos lhe
chamavam a atenção para o fato de “não prestar atenção à realidade da vida e
viver num mundo de sonhos e fantasias” - lindas, sem dúvida, mas
absolutamente utópicas. Eram praticamente unânimes em encurralá-lo para que,
entre outras coisas, interrompesse definitivamente sua militância política,
sob a alegação de que estaria, com isso, não apenas arriscando sua vida, mas
também a segurança dos que lhe são próximos. “_ Ou você se ilude que a
democracia brasileira já está preparada para suportar bem tais sandices?”.
“_ Sandices? Sandice é o que acontece no cotidiano, basta ler os jornais
diários ou dar um passeio pelo centro da cidade para que se o perceba!”
Incapazes, seus
interlocutores, salvo dois que, em silêncio tímido aparentavam aprovar o que
Ivã defendia, de compreender por que se obstinava ele tanto em estudar, a
ponto de consumir todo o seu fabuloso (sic) salário em livros, cursos,
palestras, círculos de estudos e coisas que tais, notando ainda os seus que
ele sempre ficava como que deslocado e ansioso quando era obrigado a
participar de alguma festinha ou recepção. Era praticamente intimado - até
pela família! - a consultar-se com um especialista. Diziam : “Olha, normal,
normal, você não é não!”
Tentando
contra-argumentar, por partes, ao que julgava uma montoeira eclética de
incompreensão e repressão, começava pela expressão realidade. A seu ver,
estamos todos imersos numa situação social injusta em grau superlativo mas,
criação humana que é, humanamente reversível também o é! A organização
social exige que todos os esforços possíveis e imagináveis sejam envidados
em prol da modificação de uma estrutura perversa, pela implantação de uma o
nova ordem social , mais justa, solidária, humana.
Está convencido de que o
mundo real não é este que pregam seus interlocutores (o dos shoppings,
mansões e carrões, acessíveis, como diz Eduardo Galeano, "a minorias mui
minoritárias"); este é apenas o mundo prático, aparente, resultante de uma
estrutura maior, injusta, irracional e carente de
transformação radical. Quando se mergulha intensamente apenas no mundo
prático, fica-se reduzido ao culto pagão da «religião do dia útil», torna-se
tributário e reificador pragmático do mundo tal qual é e consequentemente
incapaz de seguir lutando por modificações. Limitações à Consciência
Possível são assim estabelecidas.
_ E
por que é que você tem de modificar o mundo? Quem foi que te deu procuração
para isso? Não seria melhor você fazer como seus irmãos, que constituem
família, ganham seu dinheirinho honestamente e chegam mesmo a proporcionar
conforto aos mais chegados, particularmente suas famílias... Por que
insistir com essas idéias malucas de modificar o mundo? Não vê que as
pessoas não estão interessadas nesse tipo de coisa, ô «Madre Tereza»!
_ Para começo de conversa, não há quem modifique o mundo sozinho, embora
haja aqueles que se sacrificam e esforçam um pouco mais, dando até, no
limite, sua própria vida em prol das Causas por que lutavam. Vejamos os
exemplos de Jesus Cristo, Che Guevara, Mahatma Gandhi, Tiradentes , Camilo
Torres, e milhões de outros menos conhecidos mas não menos importantes. Em
segundo lugar, desejo muito mesmo construir um lar feliz, desde que para
isso não tenha de prostituir meus ideais mais caros! Finalmente, há mais
pessoas carentes, portanto ansiosas por mudanças do que se imagina e se não
perceberam isso ainda é por causa da hipnose coletiva a que a mídia os
submete todos os dias - o que tem de ser desmascarado pelo bem do progresso
humano.
_
Cristo, né Ivã? Será que você às vezes não se imagina também Napoleão
Bonaparte? Em outros tempos via-se nos hospícios gente estranha com um
chapéu ridículo na cabeça e a mão enfiada na camisa. É o que deseja para
você?
“Incompreensão, incompreensão e mais incompreensão” - retira-se sorumbático
Ivã a pensar – “eis o maior dos problemas com que se tem de lidar neste
mundo. E no entanto amo tanto a estas pessoas!”
O pior de tudo é que estas inevitáveis discussões despertavam alguma coisa
ruim dentro dele. O que tinha ele a apresentar de efetivo e visível às
pessoas? Um militante como milhares de outros, tinha lá algum traquejo com a
palavra escrita, mas nada digno de nota, nada que o notabilizasse. E seu
irmão, agora gerente de Banco, líder de um grupo católico carismático, chefe
de uma pequena família feliz, uma acusação viva á sua pretensa
irresponsabilidade, à sua suposta falta de maturidade, sendo Ivã já quase um
quarentão!
Teria chegado a hora de
sucumbir, de buscar o enriquecimento de alguma forma (uma de suas
idiossincrasias é estar persuadido de que ninguém no Brasil enriqueceu
através de meios 100% lícitos, particularmente do ponto de vista ético...) e
esquecer os graves problemas filosóficos, políticos, macroeconômicos e até
mesmo religiosos que têm afetado tanto as pessoas? Estaria enfim provada
cabal e definitivamente a incompetência catatônica de Ivã que, ao não
conseguir conforto e paz sequer para si, jamais poderia arrogar-se ao
direito de reivindicá-lo para toda a gente? Não... Por este critério
falacioso, Jesus Cristo não teria passado de um mendigo boquirroto e Gengis
Khan seria o protótiopo do sucesso!
“Não! Mil vezes não! Fico
com minha utopia e lembro que utopia é lugar que não existe,
AINDA, não um lugar ontologicamente inviável, desde que os seres humanos
assim o desejem. E dentro da utopia concreta, possível com que muitos
sonhamos, haverá finalmente Liberdade, Igualdade, Fraternidade entre os
homens. Posso ver os olhos brilhantes de amor à vida das Crianças do Futuro,
os sorrisos ternos e fraternos dos vizinhos que se ajudam, a expressão leve
e satisfeita de sinceridade e harmonia nos rostos das pessoas. Espero viver
para constatar na prática a efetivação deste quadro e é com enorme otimismo
esperançoso que vejo crescer o número de pessoas que se preocupam com a
preservação da Vida, com a realização final dos princípios básicos da
Revolução Francesa, ainda inatingidos ao cabo de dois séculos...”
Nossa América Latina,
espoliada e saqueada a quinhentos anos, ainda terá de fazer frente a muitos
sofrimentos, pois aqueles que amam o Mal, o Capital, os egoístas, os
individualistas e demais rapinantes ainda detêm o controle dos meios
materiais e espirituais de produção. Suplantá-los será muito difícil. União
é fundamental para tanto. O trabalho do humanista revolucionário é
ininterrupto, a menos que se alcancem os ideais almejados - já nos dizia o
Che - e deve ser praticado, acima de tudo, dia a dia, minuto a minuto,
pacientemente. Educando, batalhando, aprendendo, ensinando, trabalhando com
amor e dedicação, criando e, acima de tudo, amando! A enormidade da tarefa
não nos deve desanimar pois que nós, gigantesco exército de trabalhadores e
desempregados do mundo somos maioria. Cumpre rasgar o véu da reificação,
unificar propostas e ideais, pulverizar até as fundações a perversa e
pervertedora estrutura social vigente e começar a construir tudo, pedra por
pedra, tijolo por tijolo, letra por letra, aproveitando dialeticamente tudo
o que de bom o cérebro humano já engendrou ao longo de sua história em prol
da Vida. Conservar o que está funcionando bem - há poucas coisas
nestas condições, mas cumpre preservá-las em prol do humano - e destruir até
a raiz tudo o que esteja atravancando a harmonia, a paz , o bem-estar e a
felicidade humanas para que possamos, limpo o terreno iniciar nossa
construção humanista.
Não podemos perder, pois
o que há de mais elevado, sublime e nobre em termos de propostas
ético-humanistas estão do nosso lado. VENCEREMOS!
Sonho com novas harmonias
“Unir a mais firme resistência ao mal com a
maior benevolência para com o malfeitor. Não existe outro modo de purificar
o mundo.” Mahatma Gandhi
Ocorre por vezes de
alguns de nossos irmãos cristãos nos condenarem - por inveja, fraqueza de
caráter ou alguma outra forma de prisão a aspectos tristemente baixos de
nossa existência - até o fundo de nossas existências, numa ou noutra forma
de prisão destas que pululam no mundo contemporâneo.
Pensando nisto e revisando um trecho da
bíblia eis-me diante de uma das mais sublimes histórias das Escrituras.
Razoavelmente conhecida, até, apenas raramente trabalhada em comparações
profícuas com o que está ao nosso redor hoje. Esta tem lugar ali pelo 17º
século Antes de Cristo, segundo está escrito em Gênesis, capítulos 29 a 32.
Jacó - que terá seu nome
mudado para Israel quando da célebre luta com o Anjo - apaixona-se
irremissivelmente por Raquel e só havia, à ocasião, um meio de casar-se com
ela, sendo ele oriundo de família humilde: trabalhar para o pai dela, Labão.
Inicialmente, o futuro sogro o engana e, ao cabo de sete anos trabalhando
como pastor de ovelhas, casa Jacó com Lia, a irmã mais velha de Raquel. Mas
tal era o seu amor que trabalha mais sete anos (segundo o costume) pela mão
de Raquel. E a Escritura registra que aqueles anos todos “foram aos seus
olhos como poucos dias, pelo muito que a amava”. Lia concebe e dá vários
filhos ao patriarca. Raquel, inicialmente estéril, é veículo do milagre da
concepção de José que se torna - ça va sans dire - o filho predileto de
Jacó.
José, além de
intensamente amado por seu pai humano recebia, em sonhos, a Visitação
Divina. Seus irmãos, num misto de inveja, temor e ódio, venderam-no como
escravo aos egípcios por vinte moedas de prata. Jacó, informado pelos filhos
que José havia sido devorado por um animal selvagem, fica inconsolável por
vários anos.
Após muitos percalços e
dissabores - e não é esta, sempre, a senda do Profeta? - José é convidado a
interpretar os sonhos de Faraó e o faz com tal brilhantismo que é logo a
seguir nomeado governador do Egito.
A sete anos de fartura seguem-se sete anos
de fome em toda a região que hoje chamamos de Oriente Médio - segundo sonhou
Faraó, aliás - e só o Egito, por poder contar com a previdente sabedoria de
José, consegue prover mantimentos a seu povo.
Como a fome prevalecia
também em Canaã, terra natal de José, Jacó ordena a seus filhos que vão ao
Egito conversar com as Autoridades e tragam de lá o trigo, alimento vital.
Aqueles pastores pobres de uma terra distante têm enorme dificuldade para
conseguir uma audiência com o poderoso governador da única terra a salvo da
fome. Escrevo estas linhas imaginando a cena: envergonhados, empobrecidos e
suplicantes, ali estão os hebreus, inseguros quanto a seu futuro ou sequer a
decisão do poderoso governador do Egito. Quando finalmente se dá a conhecer,
dirigindo-se a seus irmãos em seu próprio idioma, o que será que se passa na
cabeça daqueles sujeitos? “Eu sou José. Aquele que vocês venderam como
escravo...” E a superioridade moral de José faz com que seus irmãos sejam
recebidos como príncipes, entre lágrimas, abraços e beijos.
Uma das muitas histórias
contadas acerca do papa João XXIII, Angelo Giuseppe Roncalli, informa que
ele, como Chefe de Estado do Vaticano, teria dito estas mesmas palavras ao
receber a delegação de Israel, ali em missão diplomática: “Eu sou José, seu
irmão...”
Ultimamente, as coisas no mundo humano andam
severamente desencaminhadas, com essa história toda de “neo-liberalismo”,
“globalização” e outras coisas que têm beneficiado bem pouca gente, deixando
a maioria à míngua, como diz mui sabiamente Frei Betto, de pão e de
beleza...
Tudo isto, contudo, ainda
uma vez, nos enche de Esperança e, estou seguro de que, em menos tempo do
que se imagina, aqueles que foram incompreendidos, vilipendiados,
atraiçoados ou covardemente perseguidos pela matilha que comanda o mundo
hoje poderão humana e cristãmente, uma vez restabelecida a harmonia perdida,
dizer a seus antigos algozes: “Eu sou José!”
O Dia do Perdão
Uma das coisas mais
lindas que a teologia judaica traz para a humanidade é a noção da
possibilidade de um recomeço de tudo a partir do perdão, o Yom Kippur, “Dia
do Perdão”. E Jesus Cristo, judeu por nascimento, levou ao limite mais sério
a prática do perdão, não apenas em seu discurso, mas em seu exemplo
existencial... “Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, orai
pelos que vos caluniam...” Mat 5, 44. A prática, a demonstração nítida de
seu comprometimento com este raciocínio quando no monte chamado “Caveira”,
já às portas de sua morte física pela cruz, rogou a Deus, intercedendo pelos
que o supliciavam: “Perdoa-lhes, Pai. Eles não sabem o que estão fazendo.”
Lc 23, 34.
Um exemplo bastante
curioso da prática do perdão, encontra-se num conto de Jorge Luís Borges
sobre Caim e Abel. Diz-nos em essência, o grande escritor argentino que os
dois irmãos caminhavam pelo deserto, um em direção ao outro, quando Caim
reconheceu seu irmão pela marca da pedrada que o matou. Convida-o a uma
refeição, evidentemente que kosher (a alimentação lícita), com ele. Após
algum tempo, Caim ergue a voz e pergunta a Abel, sentindo-se culpado ainda:
“Você já me perdoou?” Ao que Abel responde: “Perdoá-lo? Por quê? Foi você
quem me matou ou fui eu a matá-lo? Já se passaram tantos milênios que já nem
me lembro mais...” Esta é a essência do perdão: esquecer completamente o
dano feito. Virar a página. Como é difícil perdoar quando não se tem amor no
coração; como é simples e engrandecedor o perdão oriundo de um coração
impregnado pela alegria do amor.
Fica aqui um convite a
reflexão e ao perdão: Perdoe o empregado relapso que por algum motivo
negligenciou de seus deveres. Perdoe o patrão que ergueu sua voz num momento
de passageira cólera. Perdoe aquela moça o jovem apaixonado que não é
correspondido. Perdoe o jovem aquela menina linda que não tem culpa alguma
em ser incapaz de corresponder-lhe. Perdoe o aluno o professor que,
num momento tenso, ralhou com ele. Perdoe o professor ou a professora aquele
aluno ou aquela aluna que num momento ou noutro foi um tanto ou quanto
inconveniente a ponto de despertar essa coisa feia que é a repressão. Perdoe
a vizinha inconveniente que vive a intrometer-se em sua vida a pretexto de
“ajudá-la”. Perdoe o marido a esposa que não lhe correspondeu às
expectativas numa ou noutra ocasião. Perdoe a esposa o marido que, numa ou
noutra ocasião também foi incapaz de corresponder-lhe às expectativas.
Perdoe o primogênito seus irmãos mais jovens por tudo o que considerou
incorreto que os pirralhos hajam feito. Perdoem os mais moços por qualquer
inconveniência banal do primogênito. Perdoem os pais os filhos quando se
equivocam - afinal, errar é humano. Perdoem os filhos seus pais que, por
vezes, exageram no excesso de zelo. Perdoem os cristãos aqueles que vêem o
mundo de maneira um tantinho diferente, o perdão - particularmente a quem
pensa diferente de nós - é evangélico! Perdoem os não-cristãos se aqueles
que informam seguir os mandamentos do Cristo cometeram atos não consentâneos
com a fé que professam - não devemos nos tornar juizes do nosso próximo.
Perdoem-me os magistrados por estas linhas fortes, mas confesso considerar
dificílima a imparcialidade ou mesmo a neutralidade! Perdoemos os políticos
por algum comportamento menos honroso, lembrando sempre o adágio, também
evangélico: “Vá e não peques mais”. Jo. 8, 11. Perdoem o povo que não tolera
manipulação de suas vontades ou de suas posses à sua revelia. Deixemos todo
o julgamento a Deus.
Quem somos nós, afinal,
para julgar nosso semelhante? No meio do torvelinho desta vida, com tanta
poeira lançada a nossos olhos, como não ter algum cisco que, literalmente,
impede-nos a todos de ver apropriadamente e ousar tirar ciscos dos olhos dos
outros? Não julgar nosso semelhante, abrirmo-nos ao diferente e tolerarmos;
esta parece ser a essência dos mais elevados ensinamentos das mais diversas
tradições místicas. Pensar o perdão com restrições é pensar outra coisa, que
merece quiçá outra denominação. O perdão deve ser integral, irrestrito.
Que bom seria podermos
viver alegre e plenamente sem qualquer dor ou eivor de tensão a nos
incomodar - e algo poderia ser mais tenso que o ódio que, evidentemente, nos
vincula e prende justamente àquele que cometeu falha humana para conosco,
talvez até num laço ainda mais rígido que aquele do amor? E como viver sem
ódio no coração, sem qualquer traço de ódio, enfim? Que o perdão pleno ganhe
este espaço e teremos as respostas!
Não sendo judeus, por que
deveríamos respeitar um costume judaico? Por que é lindo, faz sentido, não
importa onde haja nascido. O que traz leveza e nos engrandece só pode
ser benéfico! Se os cristãos não têm o costume de eleger uma data especial
para ser o “Dia do Perdão”, deve-se ao fato de, idealmente, sendo cristãos,
todos sermos capazes de perdoar imediatamente (perdoar e esquecer, pois
perdoar é esquecer!)
Verdade? Caso contrário, vale a pena pensar,
em reuniões teológicas na implementação de um novo mito multitudinário, em
eleger efetivamente um “Dia do Perdão” e batalhar para viver, após a leveza
da libertação das cadeias do ódio, com a alma limpa, alva, pura.
Estabelece-se uma data
marcante - em nosso caso, por proximidades mil, sugiro o dia de São
Francisco, o 4 de outubro - fica-se 24 horas por conta de refletir acerca de
todas as coisas desagradáveis que andaram acontecendo conosco ou que fizemos
que outros sofressem e, a seguir, página em branco, sem jamais sequer tocar
no assunto que conduziu ao erro e este ao perdão, começar de novo sem
qualquer resquício de ressentimento ou mágoa.
Como somos fracos os humanos, não? Tendo
aqui a solicitar encarecidamente a quantos perdôo, um esforço consciente
para que não me veja compelido a, dentro de um ano após o “Kippur”, perdoar
ou pedir perdão pelas mesmas coisas novamente...
O Socialismo na Modernidade
“O caminho que conduz à liberdade só pode ser a própria liberdade”
ERRICO MALATESTA
Em 1917 ocorreu a
primeira grande revolução socialista bem sucedida no mundo, então em fins da
Primeira Grande Guerra, uma guerra - como todas as outras - suja, eivada de
rapinagens e interesses mesquinhos. Ali disputava-se territórios roubados a
outros povos. De 1917 a 1924, a fim de consolidar as conquistas
revolucionárias, Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, toma algumas medidas
militares, políticas e econômicas contando para tanto com o apoio e o
auxílio direto de personalidades díspares como Jossip Djugashvili, o Stálin
e Lev Davidovitch Bronstein, o Trotski.
Com a morte de Lênin em
1924 abre-se a crise sucessória no Kremlin com Trotski, comandante em chefe
do Exército Vermelho, responsável pelo sucesso da Revolução no campo externo
de um lado, pregando a “revolução permanente”, informando que só se poderá
chegar à sociedade comunista, sem classes, quando todo o mundo passar pela
etapa do socialismo, da economia planificada, estatal. De outro lado, Jossip
Djugashvili, Stálin, encarregado do combate interno à contra-revolução,
arquiteto da temível Tcheká, mais tarde KGB, pregando a “consolidação do
socialismo num só país”. Vence Stálin, acreditam alguns historiadores que
menos pelo brilhantismo da defesa de suas propostas, mais pela
intimidação de quem tinha acesso a tantas informações sobre tantos detalhes
existenciais de tantas pessoas...
Uma vez no poder, Stálin
inicia a perseguição política a seus desafetos e adversários, começando por
Trotski que se transforma numa “pessoa não existente”. Expulso da então
União Soviética refugia-se inicialmente na Turquia enquanto seus
compatriotas são terminantemente proibidos de mencionar sequer o fato de sua
existência. Pregando e escrevendo sempre sobre a “revolução permanente”,
acaba sendo expulso também da Turquia passando a refugiar-se na França,
sendo de lá expulso também por sua postura radical, coerente, intransigente.
Em meados da década de 30 consegue refúgio no México, então governado por
Lázaro Cárdenas (aquele que disse: “Pobre do México, tão longe de Deus, tão
perto dos Estados Unidos...”), onde funda a IV Internacional para
contrapor-se à III Internacional stalinista.
Trotski é assassinado no
México por ordem expressa de Stálin, mas a IV Internacional segue viva até
hoje no mundo. As idéias de “revolução permanente”, de socialismo
internacional são, no Brasil, defendidas pelos trotskistas do Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU. Em tempos de neoliberalismo,
globalização, desemprego e desespero ocorre uma retração no movimento
operário, retrocesso de resto dialeticamente previsível e temporário. “O
choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”, diz-nos a
Escritura.
Há no Brasil também
admiradores de Stálin e do modelo stalinista, majoritariamente representados
no PC do B. Cisão do “antigo” PC do B em 1956 quando Stalin morreu e Nikita
Kruchóv denunciou-lhe os crimes e o culto à personalidade, que centralizava.
Seguindo obediente a linha do Kremlin, o PCB, hoje PPS (aquele do Roberto
Freire e do Ciro Gomes), promove no Brasil uma série de debates acerca da
desestalinização do partido. A ala formada dentro do stalinismo abre
dissidência criando o PC do B ou, como preferem dizer os próprios, “mantêm”
o nome do partido contra o “revisionismo” do antigo PCB.
Ainda no Brasil, de
maneira autônoma, independente, surge o Partido dos Trabalhadores,
corajosamente lutando contra o regime de exceção implantado na América
Latina por ordem dos EUA na década de 60. Interesses trabalhistas
localizados no ABCD paulista ampliam-se desde o nascimento do PT em 1980 a
ponto de o partido lançar seu mais expressivo dirigente, o Lula, candidato à
presidência da república em 1989, quando foi derrotado por Collor de Mello,
uma vez haver o candidato patronal contado com o apoio maciço dos meios de
comunicação, aporte de recursos do empresariado através de seu caixa de
campanha, o Sr. Paulo César Farias.
O PT é um partido
eminentemente ético, após afastar de seus quadros o radicalismo da
Convergência Socialista (o PSTU) pode definir-se como um partido de esquerda
humanista e cristã que almeja chegar às esferas de poder decisório pela via
parlamentar, um ineditismo histórico, claro. O único episódio parecido, o
Chile de Salvador Allende, acabou num banho de sangue no bojo do
autoritarismo norte-americano das décadas de 60 e 70 quando o general
Augusto Pinochet liderou internamente (contando com o apoio ianque) tropas
que literalmente massacraram toda a oposição política.
Aliás, este exemplo faz
pensar... Quando os donos do poder sentem-se seguros, mantêm o
encaminhamento democrático. Quando a insegurança assola, apelam às mais
diversas formas de ditadura e coerção.
Difícil falar em esquerda
e trabalhismo num mundo encaminhado na direção do neoliberalismo, quando
seculares conquistas da Classe Trabalhadora como a previdência social
pública, a segurança do emprego e até mesmo o descanso remunerado - anual ou
mesmo semanal - estão sob questionamento após o colapso do socialismo dito
“real”. Mas, ainda uma vez cumpre enfatizar que avanços e recuos são das
coisas mais comuns na história da humanidade e ainda veremos novos avanços
onde hoje os recuos nos acuam...
O que querem os anarquistas
“O Estado é a negação da humanidade!”
Mikhail Bakunin
Em artigo bastante contundente e expressivo, Errico
Malatesta, discípulo italiano do russo Bakunin, discorre sobre o que é e o
que se deve fazer “Rumo à Anarquia”.
Em primeiro lugar,
deve-se desprezar concepções errôneas segundo as quais “anarquia” seria
sinônimo de “bagunça”. Anarquia é ausência de governo e mesmo de atividade
parlamentar; que os agentes políticos devem atuar diretamente em busca de
manter e ampliar todas as formas de participação nos aspectos decisórios da
sociedade em que vivem. Ação Direta, aliás, é o nome que adotam várias
organizações anarquistas pelo mundo afora.
Diz-nos Malatesta em seus
“Escritos Revolucionários” que “Se quiséssemos substituir um governo por
outro, isto é, impor nossa vontade aos outros, bastaria, para isso, adquirir
a força material indispensável para abater os opressores e colocarmo-nos em
seu lugar *. Mas, ao contrário, queremos a Anarquia, isto é, uma
sociedade fundada sobre o livre e voluntário acordo, na qual ninguém possa
impor sua vontade a outrem, onde todos possam fazer como bem entenderem e
concorrer voluntariamente para o bem-estar geral. Seu triunfo só poderá ser
definitivo quando universalmente os homens não mais quiserem ser comandados
ou comandar outras pessoas e tiverem compreendido as vantagens da
solidariedade para saber organizar um sistema social no qual não mais haverá
qualquer marca de violência ou coação”.
A atividade do
anarquista, do socialista utópico (em sua sublime acepção de conquista da
Esperança possível) não é violenta nem repentina, mas gradual, pedagógica,
passo a passo.
“Não se trata de chegar à
anarquia hoje, amanhã ou em dez séculos, mas caminhar seguramente rumo
à anarquia hoje, amanhã e sempre. A anarquia é a abolição do roubo e
da opressão do homem pelo homem, quer dizer, abolição da propriedade privada
dos meios materiais e espirituais de produção e do governo formal; a
anarquia é a destruição da miséria, da superstição e do ódio entre as
pessoas. Portanto, cada golpe desferido nas instituições da propriedade
privada dos meios de produção e do governo é um passo rumo à anarquia. Cada
mentira desvelada, cada parcela de atividade humana subtraída ao controle da
autoridade, cada esforço tendendo a elevar a consciência popular e a
aumentar o espírito de solidariedade e de iniciativa, assim com a igualar as
condições é um passo a mais rumo à anarquia.”
Os surrealistas, que há
anos estão unidos aos anarquistas afirmam ainda que cada vez que um casal se
une e sua união não é uma fancaria, mas a autêntica expressão do verdadeiro
amor entre duas pessoas que se completam plenamente, ocorre mais um abalo no
que chamam de “gigantesca caserna” em que se tornou a sociedade industrial.
“O ocidente é um acidente!” denuncia Roger Garaudy em “Apelo aos Vivos” com
a autoridade de quem sempre esteve nos pontos mais avançados de defesa
política e filosófica do que promove o humano no mundo.
Seguindo com Malatesta:
“Não podemos, de pronto, destruir o governo existente, talvez não possamos
amanhã impedir que sobre as ruínas do atual governo um outro surja: mas isto
não nos impede hoje, assim como não nos impedirá amanhã, de combater não
importa que governo, recusando-nos a submetermos à lei sempre que isto seja
contrário aos nossos imperativos de consciência. Toda a vez que a autoridade
é enfraquecida, toda a vez que uma grande parcela de liberdade é conquistada
e não mendigada, é um progresso rumo à anarquia. Da mesma forma, também é um
progresso toda a vez que consideramos o governo como um inimigo com o qual
nunca se deve fazer trégua, depois de nos termos convencido que a diminuição
dos males por ele engendrados só é possível pela redução de suas atribuições
e de sua força, não pelo aumento no número de governantes ou pelo fato de
serem eles eleitos pelos governados. E por governo entendemos todo o
indivíduo ou grupo de indivíduos, no Estado, Conselhos etc que tenha o
direito de fazer impor leis injustas sobre quem com elas não concorda”.
Contundente e radical,
repita-se, Malatesta e toda a tradição anarquista que lhe segue proporá a
chegada a um governo auto-gestionário, do qual todos possam participar
livremente. Um sistema auto-gestionário que possibilite participar livre e
alegremente de todo o processo decisório e de execução do que terá sido
decidido coletivamente, para que se chegue ao maior aperfeiçoamento social
promotor do humano no mundo. Toda a vitória, por menor que seja, dos
trabalhadores sobre as classes patronais, todo o esforço contra a exploração
do homem pelo homem, toda a parcela de riqueza subtraída aos proprietários e
posta à disposição daqueles que a geraram, toda a união amorosa plena entre
duas pessoas que se amam intensa e sinceramente, tudo o que se fizer para
melhorar as condições existenciais da maioria enfim, será mais um progresso,
mais um passo rumo à anarquia, “este sonho de justiça e de amor entre
os homens...”
A nossa meta
Onde, a que situação
almejamos chegar, afinal? Parte-se aqui do princípio de que, quando se sabe
para onde, chegar lá fica mais fácil, mais simples. Quando não se sabe
sequer para onde, como se haveria de chegar a algum ponto?
Resumindo, e estou tão no
meu direito quando apresento o resumo no início quanto Proudhon o estava ao
afirmar: “Se a escravidão é o assassinato, a propriedade é o roubo!”
Resumindo portanto, posso dizer que é a um ponto em que o aprimoramento
humano, a cooperação esteja acima da competitividade. Utopia possível e
concreta de que encontramos exemplos raros e episódicos em comunidades
tribais.
Suspender esta corrida de
lobos em que estamos envolvidos, na qual os melhor-sucedidos são em geral
aqueles que menos contribuem para o aprimoramento da coletividade.
Fruto do pensamento
iluminista francês, a idéia de que não se tem ação revolucionária sem teoria
revolucionária, os burgueses em 1789, ao desbancar com a nobreza, tinham por
meta atingir “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Passados pouco mais de
200 anos, que resultado encontramos? Liberdade somente para os mais
poderosos - ainda assim restrita, há que se manter a classe trabalhadora sob
constante vigilância - Igualdade jurídico-formal capenga, na prática
inexistente. Destino pior teve a Fraternidade...
Que os seres humanos
vivam como numa grande família, com amor ao próximo, praticando seu trabalho
como atividade lúdica, não mais como alienação, considerações como estas,
tidas por inexeqüíveis na prática, tratam-nas em geral como sandices ou
absurdidades.
O socialismo científico
de Marx e Engels conduziu às maiores conquistas sociais da história, difícil
negá-lo. Mas inegável mesmo é que existem muitas outras conquistas a
atingir, que ultrapassam os limites estritos e estreitos da ciência, mesmo
da mais avançada ciência social comprometida com a causa popular.
A Razão humana tem os
seus limites traçados e a ciência, fruto desta (Razão), também é limitada.
Felizmente os seres humanos somos dotados não apenas de razão, mas também de
criatividade, de Imaginação, de capacidade onírica, de fé...
Há quem diga que o
socialismo científico teria logrado ser bem-sucedido até certo ponto,
enquanto que o socialismo utópico não o tenha, precisamente por ser aquele
mais condizente que este último com a realidade econômica e social vigente,
o que tolda e limita a atuação política possível àquilo que seja prático ou
pragmático. Penso que aqui resida uma das explicações possíveis para as
dificuldades pelas quais vimos o socialismo científico passar onde teve ele
o parco sucesso histórico que se conhece.
Descredenciar a Utopia ou
a ação do socialismo utópico como “algo baseado num racionalismo sentimental
e ético, muito bonito do ponto de vista humanístico mas inviável na
prática”, como queriam os cientificistas, é banir do cenário justamente o
que move o homem a agir no mundo. Jamais se agiu multitudinariamente para
atingir conquistas pragmáticas como o pagamento do aluguel ou a baixa no
preço do queijo, as multidões somente são levadas a agir se acreditam com
todo o seu coração estar atuando em prol da verdade, da justiça, de algo
muito maior que cada um, se acreditam estar atuando na direção da conquista
do que se julgou mesmo impossível em outros tempos.
Dada a “lógica” que
perpassa a maioria dos corações e mentes do nosso tempo, agir com base no
que é “econômica e socialmente viável” do ponto de vista científico é
proposta excessivamente tímida, dada a crueza da realidade sócio-econômica
atualmente colocada.
Resgatando o pensamento dos socialistas
utópicos, pelo menos até que a nossa caríssima ciência consiga dar novo
“salto qualitativo”, é imperativo manter em vista as metas a serem
atingidas, sob pena de nos perdermos pelo caminho.
Chegar ao reino da
abundância, da fartura, da prosperidade, da vida saudável e fraterna entre
todos os homens, todos, sem exceção, parece hoje algo de mítico a
inatingível na prática. Mas não foram assim consideradas as idéias e
pensamentos dos autores de ficção científica em outros tempos? Se hoje a
realidade tecnológica do mundo ultrapassa a imaginação de alguns autores de
tempos consideravelmente recentes, como Júlio Verne, por exemplo, não é
inimaginável o que alguns autores de ficção ou literatura política
antecipadora (como Platão, Moore, Campanella, Huxley etc), dignos todos de
muita consideração para esta perspectiva, claro, venham a ser considerados
futuramente como pessoas de alguma visão, mas estou seguro de que a
realidade da sociedade futura superará em muito estes pensadores.
O Homem é um animal político
Em diversos momentos na vida encontrei pessoas a deplorar
a atividade política, formal ou informal (através de Organizações Não
Governamentais, por exemplo). A estas gostaria de trazer uma breve reflexão
poética de Bertolt Brecht, acerca do "Analfabeto Político". Poema bastante
conhecido mas freqüentemente esquecido por aqueles que anseiam por omitir-se
de qualquer atividade maior, multitudinária, quiçá por julgá-la
desnecessária ou desprezível ao seu cotidiano. Será? Vamos ao que diz o
grande dramaturgo:
"O pior analfabeto
é o analfabeto
político.
Ele não ouve, não
fala, não participa
dos acontecimentos
políticos.
Ele não sabe que o
custo de vida,
o preço do feijão, do
peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato,
do remédio
depende das decisões
políticas.
O analfabeto político
é tão burro
que se orgulha e
estufa o peito
dizendo que odeia a
política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância
política
nascem a prostituta, o
menor abandonado,
o assaltante e o pior
de todos os bandidos,
que é o político
vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas
nacionais e
multinacionais."
Quando percebemos que este belo e elucidativo poema
foi escrito décadas antes da ascensão da dupla Collor de Mello e PC Farias
ao poder político no Brasil e constatamos terem sido os escritos de Brecht
elaborados em outras paragens e contextos históricos, percebemos estar
frente-a-frente com algo de muito mais grandioso. Maior atenção para com a
política formal e mesmo informal dificultaria a ascensão a poderes maiores
de gente dilapidadora do patrimônio público.
Alegar ignorância política ou pretender-se "apolítico" é o mesmo que assinar
a si mesmo um atestado de incompetência para a cidadania.
Um piquenique nas bordas de um
vulcão
É literalmente assim que
se sente qualquer profissional de qualquer ramo no mundo contemporâneo, como
alguém que faz um piquenique nas bordas de um vulcão. Não é escolha que
ninguém em sã consciência faria uma escolha dessas! É antes uma fatalidade
que se abateu sobre nós e está demorando muito a nos deixar em paz.
As coisas podem estar
dando uma aparência de sossego e amenidades, podemos até mesmo sentir uma
vaga sensação de segurança, pelo menos até que as labaredas se ergam
lambendo todo o entorno impedindo qualquer tipo de argumentação lógica. No
cotidiano, aliás, sente-se que a lógica, o bom-senso e até as medidas
sanitárias humanas mais básicas perdem vez para uma racionalidade impessoal,
desumana, característica do tempo do Capital. Momento que põe em risco os
valores democráticos para todo o povo, momento que, ora aprofunda ora
despreza todos os valores dos avanços iluministas. Instantes há em que seres
que se dizem humanos são capazes mesmo de eliminar todos os valores que não
sejam os seus.
Da democracia
Toda a convivência
democrática supõe dar voz e vez a todos igualmente, em particular àquele que
pensa de maneira diferente. A questão que se coloca aos brasileiros é
uma tremenda manobra das elites para perpetuar-se no poder. Têm-no
conseguido com a ajuda do modelo democrático mesmo, dele só se despedindo em
situações-limite, quando a repressão informa ser a de mocracia brasileira
uma magnânima concessão das elites, desde que a massa saiba manter os mesmos
onde estão, sem grandes traumas ou modificações substanciais.
Por exemplo: pouco antes
de sua passagem pela transição, meu pai deixou com minha mãe um lenço e um
par de luvas brancas com as recomendações de praxe: iluminismo ativo! Em
pouco tempo percebe ela que aquelas recomendações estavam circunscritas
espacial e temporalmente àqueles que chegaram a, de alguma maneira, travar
contato com o grande e benemérito dr. Hely Chaves; a geração subsequente em
locais outros, simplesmente faz ouvidos moucos ao que ele representou em seu
tempo ou ao lidar com o seu legado humano: iluminismo passivo ou destrutivo!
Do Iluminismo
Segundo Max Horkheimer, a
meta do iluminismo é aquela de libertar os homens do medo e fazer deles
senhores. Cada vez que algo mais humano ou humanista volta-se a tornar os
homens mais livres, vemos um avanço do pensar humanista do iluminismo ativo.
A todo o instante em que se percebe coisas como propriedade ou mesquinhos
interesses mercadológicos dos donos dos meios materiais ou espirituais de
produção a manipular os seres humanos ao seu talante, transformando-os em
coisas, objetificando-os, percebemos um grave, um severo retrocesso no
pensamento humanista do Iluminismo: o medo e a conseqüente obediência cega
transformando até os senhores em escravos, o inverso do que pretendia o
pensamento iluminista mais puro.
Iluminismo e democracia
Deve ter sido
dolorosamente brutal a pessoas do quilate de Fromm, Marcuse, Reich, Benjamin
ou Zweig ver e vivenciar a ascensão do autoritarismo na Europa durante a
década de 30 deste século que se finda.
O mais chato é que muitos dos sobreviventes
daquele período negro da história humana, informam perceber grandes
similitudes com a situação atual: maior liberdade para o Capital que para
seres humanos, a recessão tão brutal que o movimento operário sofre uma
paralisia, dá-se muito maior valor à coisa morta, à posse de bens materiais
que propriamente à vida...
Faltam alguns signos e,
graças a Deus a história comprova que, em todo e qualquer instante ou
momento político, não basta apenas “preencher lacunas”. Ansiamos pelo
contrário, mas se o povo, em sua maioria, não encontrar um caminho
solidamente estruturado e lúcido teremos de assistir e vivenciar impotentes
a ascensão e perpetuação das práticas mais autoritárias contra o humano,
democratizando o Capital.
Mas é necessário deixar
bem claro que quando as elites sentem-se seguras, mantém o encaminhamento
político democrático. Quando o movimento popular se torna um “problema”, o
usual é que as elites conclamem à ação o autoritarismo em sua vertente
clássica, ou seja, a “Questão Social” ora é encaminhada como “caso de
política”, ora reprimida como “caso de polícia”, como nos assevera Gisálio
Cerqueira Filho em A “Questão Social” no Brasil, Civilização Brasileira,
1982
Possa o Senhor do
Universo permitir que tudo se encaminhe democraticamente em direção do
bem-estar e da felicidade da maioria!
Dilemas
“Em mim combatem o entusiasmo pelas
macieiras em flor e o horror pelos discursos do pintor de brocha gorda. Mas
só este último me impulsiona a escrever” Bertolt Brecht
“Homens que nascem sob o jugo, que são
criados na servidão, tornam-se incapazes de olhar para lá dela, limitam-se a
viver tal como nasceram, jamais conseguem pensar em ter outro bem que não
aquele encontrado ao nascer. Aceitam como natural o estado encontrado ao
nascer.” Etienne de La Boétie
Parto aqui do princípio
de que não é porque vivemos numa sociedade tão tristemente distanciada do
Ideal - com direito a repressão brutal de qualquer tentativa
auto-gestionária com chances ainda que irrisórias de êxito, como em Canudos,
Palmares ou Colônia Cecília entre diversos outros - terceiro-mundista,
cruel; não é por vivermos numa sociedade na qual imaginar uma justa e
equânime distribuição de rendas, da riqueza por todos produzida e por poucos
apropriada, enfim, já é considerado “pensamento subversivo” que nos devemos
ater a trabalhar apenas pelo “menor dos males”; devemos, antes e sobretudo,
lutar e trabalhar alegremente pela conquista da felicidade positiva, que a
mais avançada Filosofia da Esperança chama, com justa razão de Summum Bonum,
o bem supremo. Conseguí-lo será tarefa - e isso caso haja vontade política
daqueles que detêm o poder decisório - para as gerações futuras. A nossa, a
seguirem as coisa como estão, terá como recompensa, na melhor das hipóteses,
o ver apenas um mundo um pouco melhor nas mãos dos nossos herdeiros, assim
sendo sucessivamente.
Luta-se
internacionalmente hoje, nem mais nem menos, pela cessação das hostilidades
entre as pessoas, pela implantação de uma autêntica “aldeia global”, como
nos dizia McLuhan. Isto só é possível se conseguirmos a substituição da
hegemonia do caráter sado-masoquista (ou mesmo obsessivo-compulsivo) pelo
caráter auto-regulado, generoso, capaz de efetivamente amar e ser amado.
Quando, num dia, todos acordarem dizendo com convicção: “E eu, que vou fazer
hoje para que o mundo se torne mais justo e mais belo?” estaremos bem
próximos de chegar à meta aqui brevemente exposta.
Vamos examinar dois
fatos, um conjuntural, relativamente recente, e outro que vai se tornando
uma coisa institucionalizada mesmo. São daquelas coisas que abalam nossa
alegria, nossa fé no humano de maneira geral.
Uma Casa de Detenção e uma Rede Global de
telealienação jogam sem o menor pundonor nem compaixão baldes de água gelada
em nosso entusiasmo, em nosso calor mas, de novo, não é por isso que devemos
jogar fora nosso otimismo, nossa sacrossanta Esperança.
111. Números oficiais. Em
1992, 111 seres humanos encarcerados em condições subumanas foram friamente
assassinados, sem qualquer justificativa possível. Compreender, até que é
possível: ainda persiste o ódio nas relações sociais e o cristianismo é,
quando muito, vaga consideração intelectual voltada a um mundo distante
desta vida concreta que vivemos, o que seguramente deixa o Cristo muito
triste. Após crucificarem-no, assassinam a parte mais importante e bonita da
sua mensagem: o amor ao próximo. Digo isto pois li estatísticas informando
que algumas pessoas consideram-se cristãs e justificam aquela carnificina:
“Que fizeram aqueles homens para que estivessem presos?”- interrogam alguns
muito pouco dispostos, em verdade, a ouvir respostas sensatas ou concretas;
mais preocupadas estão, isso sim, em justificar através de muito ódio o que
compreendem como “paz” para suas consciências.
Alguns daqueles
presidiários haviam cometido crimes considerados hediondos segundo a
terminologia jurídica clássica. A maioria (cerca de 80% dos assassinados)
cometeu crimes considerados “leves” e há a suspeita de haver dentre os
mortos pelo menos uma dezena de inocentes que para ali foram parar por
equívocos os mais diversos que nosso país é cheio destas coisas...
O caso é o seguinte:
prega-se o rótulo de “criminoso” num cidadão socialmente incômodo,
encerra-se o dito cujo em cárcere em condições ainda menos que sórdidas e
tenta-se não pensar mais no assunto. Não ler. Não ver. Não ouvir falar sobre
isto e, ao ouvir, falar rispidamente para que se possa, comodamente,
ingressar num tema mais ameno. Quando, numa nação, se admite que homens
fardados, defensores da lei e da ordem por definição, cometam delitos desta
gravidade impunemente - não raro com o aplauso de muitos! - algo vai muito
mal e é preciso corrigir esta discrepância!
O caso da Globo é um
poucochinho mais complexo; é de tirar o chapéu mesmo: “Criança Esperança”.
Que campanha bonita. Quanta competência. Que beleza plástica. Uma incrível
catarse coletiva a todas as consciências. Todos, pelo menos uma vez por ano
preocupados com o morticínio cruel e covarde que se perpetra - não apenas às
escâncaras, como no caso em estudo, mas também surdamente - em nosso país:
mais de mil crianças são assassinadas por dia de formas as mais variadas em
nosso Brasil, custa-nos a admiti-lo, não é apenas a violência policial ou
paramilitar, é a violência pecaminosa, institucional, a maior responsável.
Quem freqüenta grandes centros urbanos percebe com clareza: menores
abandonados, carentes, miseráveis, famintos no 6º produtor mundial de
alimentos (alimentos que, dada a racionalidade mercadológica do sistema como
um todo, vão para as barrigas privilegiadas de animais europeus, uma vez
seus proprietários serem capazes de pagar preço melhor pelo alimento que
produzimos do que nossas crianças - falar nisso, que chefe de família
deixaria de alimentar os seus para vender comida de casa a seres que pagam
melhor que os seus pelos gêneros alimentícios em geral?)
A Rede Globo de rádio,
jornal e televisão é uma das mais ricas empresas do Globo Terrestre. Uma das
maiores beneficiárias, portanto, do sistema concentracionista de rendas que
possibilita o surgimento da miséria que conclama, uma vez por ano e de
maneira cada vez mais sofisticada, tão crescente quanto a miséria que ajuda
a disseminar, a que as pessoas se sensibilizem e dêem combate a toda esta
tragédia humana através da esmola, da caridade, se não como solução, pelo
menos como paliativo. E aí, não fazemos nada?
Simplesmente não há como
perceber de perto tanta degradação humana e ficar de braços cruzados. Pelo
menos um pouquinho, só um telefonema, vá lá... Depois mudamos de
assunto ou de canal, tentamos pensar em outra coisa e abandonar estas
questões incômodas até o próximo ano, quando serão novamente apresentadas em
meio a muita festa, alegria e riqueza.
Não há como posicionar-se
contrariamente à iniciativa da Globo em aliança com a UNICEF, não dá. Algo
tem de ser feito, ainda que modesto e pouco ou nada pretensioso.
Mas o que mais dói é ver
a utilização política que se faz da desgraça alheia para a perpetuação do
sistema tal qual é: enquanto se dramatiza a situação, com lágrimas sinceras
e emocionadas e tudo, fatura-se ainda mais em comerciais. A genialidade do
sistema deixa-nos estarrecidos. Fica registrado apenas o grande respeito por
todos os que abrem seus corações e suas carteiras naquelas campanhas
(supondo, claro, que os recursos tenham a destinação prevista - o contrário
seria ainda mais hediondo!) contribuem um pouquinho para minorar o
sofrimento de tantos. O protesto veemente contra a utilização da hecatombe
justamente para - amenizando-a inocuamente - preservá-la. E a perplexidade
de estar “emparedado” num paradoxo aparentemente insolúvel: apoiar
criticamente que seja a iniciativa da Globo só tende a manter os níveis da
catástrofe - e sei lá se tanto; o programa anual “Criança Esperança” está
cada ano mais rico e mais bonito e nossas crianças cada ano em maior número
mais miseráveis e desesperadas... - apoiar esta iniciativa, criticamente que
seja, é fortalecer o próprio sistema que provoca este mal. Não apoiar a
iniciativa é algo tão antipático que fica até esquisito cogitar... Que
fazer?
Pensemos, de maneira
cosmopolita, no que o que há de mais avançado no mundo da cultura está
ocupado em fazer: encontrar meios que possibilitem a cessação total das
hostilidades entre os seres humanos. Chega de destruição. Temos de
construir!
O Bem e o Mal na alegria dos
pobres
“Sem a alegria, a humanidade não compreende
a simpatia
nem o amor” Ramalho Ortigão
Freqüentemente lemos ou
ouvimos críticas severas, às vezes mesmo de publicações ditas esquerdistas,
acerca da alegria que muitas vezes perpassa os movimentos populares. Temos
os pobres motivo para tanta alegria e festa? Celebramos alguma coisa?
Todo o bom cristão sabe
que “o mundo jaz no maligno”. Identificando a origem deste mal que nos
oprime e sufoca no mundo encontramos uma estrutura social que bem merece o
epíteto de satânica, na qual a felicidade de uns poucos assenta-se na
desgraça da maioria. O combate sem tréguas a esta estrutura perversa,
chamada em outros tempos de escravismo, a seguir de feudalismo, hoje de
capitalismo (ou capetalismo, como preferem alguns puristas), a luta contra a
exploração do homem pelo homem, faz parte do combate ao Mal no mundo.
O Mal se compraz sugando
a vida das pessoas de bem. O Mal consegue transformar o trabalho, atividade
humana fundamental, num processo maçante, massacrante e alienante, no qual
se gastam muitas horas por dia em troca de salários pífios, que mal são
suficientes à sobrevivência. E os trabalhadores, responsáveis maiores pela
enorme geração de riquezas, são justamente aqueles que dela menos usufruem.
É justo que haja espanto se, mesmo assim nós, trabalhadores do espírito,
operários do saber, encontramos motivo para alegria e festa. Não está,
seguramente, nos planos do Mal, proporcionar ou permitir a alegria dos
pobres. É um tipo de alegria que não tem preço, não se pode comprar, é
natural, genuína, espontânea, visceral, inacessível, incompreensível até, ao
Capital...
A grande satisfação que o
Mal encontra na tristeza, pode ser comparada ao “renascimento” dos vírus.
Como se sabe, os vírus têm formas de cessar praticamente toda a sua
atividade vital até que encontrem meio propício à sua perniciosa existência.
Uma vez instalado, a satisfação dos vírus é a infelicidade, a doença para o
ser que os carrega. Se amamos a Vida como a conhecemos, devemos ser inimigos
radicais, inconciliáveis mesmo dos vírus, da tristeza, do Mal. A alegria é
subversiva, mata o Mal até de raiva!
Podemos constatar o quão
fundo o Mal penetrou nos corações e mentes das pessoas vendo a arrogância
dos poderosos, o mais das vezes incapazes de tolerar qualquer demonstração
de espontaneidade ou liberdade por parte dos mais fracos. Quem nunca teve de
lidar com um destes crápulas na posição de chefe, patrão, superior
hierárquico, enfim, sempre a fazer questão de coibir qualquer demonstração,
por mais tímida que seja, de espontaneidade por parte daqueles que lhe estão
de alguma forma subordinados?
Alguns acusadores, quase
sempre refugiados em roupas sóbrias, muito medrosos por dentro e arrogantes
por fora, certamente com problemas intestinais severos (e de onde crê o
leitor vir a expressão “pessoa de maus bofes”?) acreditam que toda a
atividade política deveria se dar em clima de velório...
Não vamos,
definitivamente, nos enfiar depressivamente em climas fúnebres somente para
satisfazer a arrogância de quem não consegue entender que é com e pela
alegria que se defendem as causas mais justas, nobres e corretas. Queremos
“vida, e vida em abundância!”
“Tomamos o céu de
assalto!” cantavam felizes os communards parisienses em 1871, até que
representantes do Mal, em mais uma de suas vitórias provisórias - que a
história é cheia destas idas e vindas, destes avanços e recuos - reprimiram
brutalmente aquela “ousadia”.
Que ninguém mais se
espante se lutamos alegremente pelo que é Justo, Bom e Correto sempre com
muita alegria. O aumento da alegria dos participantes de nossas lutas é um
claro indicio de que a vitória do Bem não é apenas inevitável como está
muito próxima!
Que o Brasil se torne uma
grande São José do Rio Pardo!
“Que criaturas lindas vejo aqui! Oh,
admirável mundo novo!” SHAKESPEARE
Para onde se volte o
olhar por aqui, percebe-se que esta cidade é total e completamente atípica
em termos de Brasil. Daí talvez a dificuldade em vermos grassar por aqui - e
quando surgem acabam sendo “truncadas” - teorias radicais que ganhem
corações e mentes. São José do Rio Pardo, por suas peculiaridades múltiplas,
aproxima-se, enormemente, daquilo que os compêndios chamam de “sociedade
auto-gestionada”.
Vejamos: Reforma Agrária
por aqui já foi realizada de maneira natural, por heranças de fazendas que
foram se transformando em pequenas chácaras e sítios, de maneira que a idéia
soa distante - quando não francamente incompreensível - aos rio-pardenses.
Não há por aqui propriedades rurais improdutivas com mais de 2.000 hectares,
o que caracterizaria um latifúndio potencialmente expropriável numa reforma
agrária séria. Por aqui proliferam mesmo os sítios e chácaras de não mais
que 50 ou 100 hectares.
Miséria não se vê.
Sabe-se que há famílias carentes, mas a assistência social rio-pardense é de
causar inveja aos modelos social-democratas mais avançados. Um povo amigo,
simpático, atencioso. Médicos freqüentemente atendem graciosamente quando
percebem que o paciente é carente e o Hospital presta até a indigentes um
tratamento de primeiro mundo! Quando ocorre de surgir mendigos o S.O.S.
corre a atendê-los e tudo flui direitinho.
Longe de imaginar que
vivemos num paraíso, humanos que somos, portanto defeituosos, aqui como em
qualquer parte somos obrigados a reconhecer que os “problemas” com que temos
de lidar nem se comparam com aqueles dos grandes centros urbanos. Se há
roubos ou violência, em nada se comparam ao que ocorre em favelas cariocas
ou no centro paulistano. E a polícia age com eficiência, profissionalismo e
presteza. Se algum problema infra-estrutural é detectado por moradores de
algum bairro, imediatamente vereadores são acionados, a prefeitura
contactada e, via-de-regra, soluciona-se o problema com grande rapidez
apesar da crise por que passa o país.
Os salários
rio-pardenses, se não estão entre os maiores do mundo, definitivamente estão
entre os maiores do Brasil. Um dos dirigentes da ACI (Associação
Comercial e Industrial) asseverou-me que há tempos se pratica o salário
mínimo de cem dólares por aqui, mesmo quando no restante do país o salário
mínimo mais elevado chegava no máximo a US$ 65.
Evidentemente os
problemas que afligem os profissionais de educação e saúde são, em muito,
similares aos de outras paragens, mas com escassos termos de comparação.
Aqui vive um povo mais unido, mais amigo, mais comportado, diria até que
mais saudável que em todas as paragens que tive oportunidade de visitar.
As modificações que uma
administração municipal pode efetivar em relação a outra são tão pequeninas
que as diferenças entre “situação” e “oposição” só são mesmo compreensíveis
a quem mora aqui há pelo menos dois anos. Atribuo a isso o escasso interesse
do rio-pardense médio por assuntos políticos. As pessoas tendem a
mobilizar-se politicamente quando muito insatisfeitas. Quando bem servidas e
administradas nem mesmo percebem que a administração existe!
Com tudo isso, o Brasil
não se resume a esta paradisíaca cidade, tem locais paupérrimos, onde a
injustiça é a regra, não a exceção, como aqui, portanto, “conservadorismo” é
palavrão, é mesmo uma infâmia. Por patriotismo, por solidariedade para com
nossos irmãos compatriotas, temos o dever de lutar por melhorias, por um
processo que permita realizar, a nível nacional, o que os rio-pardenses
estão de parabéns por haver conseguido por aqui.
Direitos Humanos, uma reflexão
necessária
“Quantas mortes ainda serão necessárias para
que se saiba que já se matou demais?” Bob Dylan
O simplismo de considerar
a defesa dos direitos humanos a defesa de direitos de criminosos tem de ser
desmascarado. Aqueles que defendemos o direito à vida de todos, de todos sem
exceção, não podemos ser confundidos com criminosos ou defensores de suas
posturas. O que almejamos mesmo é o fim da barbárie e do ódio.
O Estado brasileiro falha
diante de seus cidadãos, do berço à sepultura. Más condições de educação e
saúde, de moradia, de sobrevida material mesmo, acabam por reduzir o ser
humano à situação desesperadora de louco desviante em muitos casos. Há muita
gente desesperada por providenciar sua sobrevivência e a dos seus, ainda que
para isso tenha de romper com as normas sociais vigentes. Se o Estado
brasileiro é o maior responsável pela elevação no índice de criminalidade,
particularmente tendo em vista a brutal e dificilmente equiparável, em
escala planetária, concentração de renda, o Estado brasileiro carece de
condições morais para dizer “quem tem o direito à vida (assegurado na
Constituição, por sinal) e quem, por seus crimes, deve ser apenado com a
perda deste direito humano básico”, até porque o juízo humano é falho, a
pena-de-morte é uma punição evidentemente irreversível e o “exemplo” deve
vir sempre de cima, jamais dos desesperados. Montar uma fábrica de
desesperados e, para “solucionar”, montar uma máquina de extermínio de
desesperados não me parece racional. É coisa parecida à “Solução Final” dos
nazistas...
Como o neocolonialismo
nos colocou sob a órbita de influência dos EUA, muitos apreciam citar aquela
Nação como exemplo a ser seguido. Talvez a proposta seja válida para alguns
casos, mas especificamente na esfera dos direitos humanos há muito pouco a
aprender com os ianques. Os EUA são a única Nação do primeiro mundo em que
este crime medieval é praticado, quando o Estado mata, com o beneplácito do
aparelho judiciário. Mas a justiça norte-americana tem se equivocado em
diversos casos de apenamento com a morte. Alguém poderia contra-argumentar
que o aparelho judiciário brasileiro seria superior e não cometeria falhas.
Será? Somos todos humanos, sujeitos a falhas, portanto.
Segundo a Seção
Brasileira da Anistia Internacional, as argumentações contra a pena de morte
podem seguir a seguinte direção:
1 - Economia: como se a vida humana
pudesse ter um preço, os defensores do assassinato estatal
institucionalizado, quando o Estado mata ao invés de promover a vida,
“informam” que matar um suposto autor de “crime hediondo” é mais barato que
mantê-lo, por exemplo, aprisionado por toda a vida. Falso. As custas de
processos, cárcere protegido especial (para evitar linchamentos), apelações,
vigias, sacerdotes, maquinário e carrascos custam três vezes mais que um
aprisionamento perpétuo do cidadão a ser assassinado, por exemplo. Embora
esteja bem claro que a prisão perpétua seja medida mais econômica que a
condenação capital, temos de pensar em algo mais humano ainda: a implantação
de colônias penais agrícolas, onde o detento poderia custear seu próprio
sustento, sem onerar os cofres públicos, os contribuintes e, além do mais,
trazer o ressarcimento econômico aos seus erros para com a sociedade.
Estaria, e isso é o mais importante, vivo para que eventuais erros
judiciários fossem reparados. Grupos de extermínio, claro, não sujeitos a
todas estas formalidades, não são onerosos, nem eficientes, nem
eticamente dignos de consideração numa análise séria como esta pretende ser.
2 - Intimidação: Há quem creia que,
num Estado onde exista a pena capital, o assassinato institucionalizado, o
eventual criminoso tenda a “pensar duas vezes” antes de cometer delito
hediondo. Antes de mais nada, os fatos apontam na direção contrária: onde a
pena de morte é praticada os índices de criminalidade são os mais elevados.
Especula-se que o eventual criminoso tenda a eliminar potenciais testemunhas
de um delito praticado em momento não refletido de sua vida. Isso, claro,
quando o sujeito pára para pensar na besteira que estaria fazendo, o que é
raro acontecer. Crimes hediondos, em geral, são praticados por pessoas em
estado de total descontrole, provisório ou permanente, de suas faculdades
mentais.
Vale a pena ressaltar que na França houve
uma significativa diminuição nos índices de criminalidade com a abolição da
guilhotina enquanto que no Irã aqueles índices sofreram significativo
aumento com a reimplantação da pena de morte após a revolução islâmica.
Especula-se neste caso que as pessoas que vivem numa Nação violenta,
competente para matar ou deixar viver, tendem a seguir-lhe o exemplo...
3 - Vingança: O mais sórdido e menos
ético dos argumentos utilizados pelos defensores do assassinato
institucionalizado. Descendo ao nível moral daqueles que qualificam como
criminosos, os pregadores da vingança insistem na “Lei de Talião”, só
possível a não-cristãos, claro, mas que precisa ser considerada também. Ao
invés de ansiar e trabalhar pela elevação dos padrões intelectuais e morais
das pessoas, aqueles que defendem a implantação da pena de morte pregam um
retrocesso do Estado ao nível de barbárie em que se encontram alguns
criminosos produzidos, repita-se, por uma ordem social injusta em última
análise, desigual e cruel em sua essência. Vale lembrar aqui as palavras do
Mahatma Gandhi: “Um olho por um olho acabará por deixar toda a humanidade
cega!” É vital deter a propagação do Mal, não expandi-la!
4 - Desumanidade: “O que é que merece
alguém que comete um crime hediondo (assalto, estupro ou seqüestro com
morte)?” ou “O que é que você faria se algum ente querido seu fosse
sordidamente seviciado e assassinado?” Ora bolas, não cabe a ninguém dizer
quem é humano e quem, pelos seus crimes, deixou de o ser e com isso perdeu
seus direitos! Os nazistas, a quem a história julgou e execrou, agiam assim:
primeiro tiravam o status de humano de criminosos comuns, depois de
criminosos políticos, depois de pessoas consideradas racialmente inferiores
e os iam exterminando a todos. Quanto ao que um homem transtornado por
desejos pessoais de vingança faria é um assunto. Outro assunto é o que o
Estado lúcido e ponderado, na figura de seus magistrados deve fazer.
5 - Banalidade do Mal: O defensor da
pena capital, em geral, não se dá conta de seu grau de comprometimento com a
medida que propõe, pensa que, por caber a outros a execução do que propõe já
nada mais tem a ver com isso. De novo o modelo nazista: o Führer não se
sentia pessoalmente responsável pelo que acontecia fora de seu gabinete
acarpetado onde as penas capitais eram decretadas, nem seus oficiais por
meramente retransmitir ordens dadas, menos ainda os subalternos por cumprir
aquelas ordens, todos burocraticamente distantes uns dos outros. Aqueles que
defendem o assassinato institucionalizado no Brasil contemporâneo não querem
comprometer-se, mas é preciso demonstrar, por mais chocante que isto possa
parecer que cada vez que alguém comete o simples ato de erguer a mão para
votar a favor da implantação desta excrescência em nossa legislação está
sendo cúmplice em potencial de um assassinato a ser cometido pelo Estado.
A título ainda de reflexão, algumas citações
interessantes em torno desta temática:
“Vim ao mundo para que
tenham Vida e Vida em abundância!”
Jesus Cristo
“Nunca pode haver uma
justificativa para a tortura, ou para tratamentos ou penas cruéis, desumanas
e degradantes. Se pendurar uma mulher pelos braços até que sofra dores
atrozes é uma tortura, como considerar o ato de pendurar uma pessoa pelo
pescoço até que morra?”
Rodolfo Konder
“O que é a pena
capital senão o mais premeditado dos assassinatos, ao qual não pode
comparar-se nenhum ato criminoso, por mais calculado que seja? Pois, para
que houvesse uma equivalência, a pena de morte teria de castigar um
delinqüente que tivesse avisado sua vítima da data na qual lhe infligiria
uma morte horrível, e que a partir desse momento a mantivesse sob sua guarda
durante meses. Tal monstro não é encontrável na vida real.”
Albert Camus
“Quando vi a cabeça
separar-se do tronco do condenado, caindo com sinistro ruído no cesto,
compreendi, e não apenas com a razão, mas com todo o meu ser, que nenhuma
teoria pode justificar tal ato.”
Leon Tolstói
“Pedirei a abolição da
pena de morte enquanto não me provarem a infalibilidade dos juízos humanos.”
Marquês de Lafayette
“ A pena de morte é
um símbolo de terror e, nesta medida, uma confissão da debilidade do
Estado.”
Mahatma Gandhi
“Mesmo sendo uma
pessoa cujo marido e sogra foram assassinados, sou firme e decididamente
contra a pena de morte... Um mal não se repara com outro mal, cometido em
represália. A justiça em nada progride tirando a vida de um ser humano. O
assassinato legalizado não contribui para o reforço dos valores morais.”
Coretta
Scott King, viuva de Martin Luther King
O inferno brasileiro
“Mas não é porque Camus viola a palavra
“revolta” que a revolta lhe pertence. a revolta somos nós, e a revolta não
sofre contatos impuros, permanece a revolta. Continuaremos a amar e nos
revoltar e deixaremos os cães ladrarem. Assim forjaremos correntes que os
manterão solidamente presos em seus canis fétidos” Adonis Kyrou
O que distingue a espécie
humana de outras espécies animais, assim como das máquinas, segundo Bakunin,
é a capacidade que temos de nos revoltar, de nos apaixonar e de raciocinar.
Razão estéril, “desapaixonada” é, quando muito, habilidade
matemático-formal igualável ou mesmo superável por computadores bem
programados, nem mesmo razão humana é. A razão nos caracteriza também, mas
somente a paixão e a revolta nos distinguem como humanos!
Povo alegre, mesmo em
meio às maiores dificuldades, fazemos piadas até com nossos problemas mais
severos. Uma delas registra que um determinado cidadão falece e, como
enriqueceu em demasia explorando o trabalho alheio - não havendo espaço para
o culto simultâneo a Deus e a Mammon - deve encaminhar-se para o inferno. No
registro em pauta, consta que haveria três alternativas: o inferno
norte-americano, o inferno alemão e o inferno brasileiro. O recém-falecido
dirige-se ao porteiro do inferno americano: “Como são as coisas por aqui?” O
encarregado responde: “Caldeiras permanentemente ligadas a 500º centígrados
e cem chicotadas de hora em hora”. Dirigindo-se assustado ao inferno alemão
o encarregado local informa: “Aqui as caldeiras ficam ligadas a 1.000º
centígrados e são aplicadas duzentas chicotadas no lombo a cada meia-hora”.
A esta altura apavorado, dirige-se então à portaria do inferno brasileiro e
já escuta um sambinha ao fundo... “Como é que são as coisas por aqui?”
pergunta ao encarregado. O demônio à portaria do inferno brasileiro informa:
“Caldeiras ligadas a 5.000º centígrados, 300 chicotadas a cada quinze
minutos e, nos intervalos, o condenado tem de ingerir um balde de sujeira”.
“Socorro! Volto ao inferno norte-americano, pelo menos lá as coisas não são
tão dramáticas!” Ouvindo o comentário, o porteiro brasileiro chama o
compatriota num canto e em tom de cumplicidade, corruptor e camarada, tom
que sempre distinguiu o brasileiro de outros povos, informa: “Olha, isso
aqui é o inferno brasileiro... A caldeira está parada há milênios por falta
de peças. O encarregado das chicotadas quase não para por aqui; só vem, bate
o ponto e faz “bico” nos outros infernos. Quanto ao resto, quando há sujeira
não há balde e quando há balde não há sujeira. Assim sendo, o pessoal fica
lá no fundo tocando um sambinha...”
Quantos traços da
formação sociológica brasileira retratados nesta piadinha... A ineficiência
crônica, a burocratização incompetente que leva “séculos” na reposição de
peças nos serviços públicos, o burocrata a “marcar o ponto e fazer bico
alhures”. Sobretudo o “favor”, o “jeitinho brasileiro” que mantém tudo um
inferno, mas ameniza a situação dificultando toda a atuação voltada à
modificação do quadro vigente. Isto é o “Inferno Brasileiro”.
Aceitar as coisas como
estão é um erro. Rir delas sem nada fazer a respeito é omissão criminosa
(erro ainda mais grave!). Resta-nos a Revolta. Revolta contra o “favor”, o
“jeitinho” que pode até salvar-nos a vida em algumas circunstâncias, mas nos
mantém a todos escravos de um modelo pecaminoso, criminoso, infernal mesmo,
mas “azeitado” e macio... As coisas funcionam muito mal; mas funcionam e
permitem viver. Viver pessimamente, mas a vida se mantém.
A rigor, podemos afirmar
que a ideologia do favor, do jeitinho, nasce no Brasil, segundo Maria Sylvia
de Carvalho Franco, entre os “Homens Livres na Ordem Escravocrata”. As
relações entre os senhores de terras e os escravos sempre foi muito clara no
Brasil colonial. Mais complexas eram as relações entre os senhores e os
“homens livres”, europeus, sem posses e sempre dependendo do favor de um
mais poderoso até para poder prover a subsistência para si e sua família.
Seria um absurdo inferir, às portas do terceiro milênio estarmos vivendo no
Brasil o “Modo de Produção Feudal”. Não. Somos um país inserido no
Capitalismo internacional. Periférico e cheio de contradições intrínsecas, o
Brasil guarda contudo algumas “sobrevivências feudais” destacando-se entre
elas este anacronismo, o “favor”, o “jeitinho”, que permite a alguns
despossuídos que caem nas boas graças de um poderoso uma sobrevida um pouco
mais condigna. Dentre estes usualmente estão aqueles que poderiam liderar um
processo de libertação de um sistema entravado, anacrônico mesmo. Cooptados
pelos donos do poder nada mais podem ou desejam fazer, passando, via de
regra, a pensar em seu bem-estar e de seu núcleo familiar.
Esta aliás, a explicação
de tantos contestadores juvenis chegarem à idade adulta transformados em
conservadores mantenedores, voluntários ou involuntários da “ordem”...
“Cesse a filosofia do despojo
e cessará a filosofia da guerra”
O trecho acima é um breve extrato do discurso proferido
por Che Guevara na ONU em 1962. Para quê tantas guerras, revoluções, rixas e
violência meu Deus do céu? Já não basta o trabalhão que temos na tentativa,
nem sempre bem-sucedida, de domesticar a Natureza, ainda temos de nos haver
com disputas fratricidas que aparentemente não levam a nada, “é como correr
atrás do vento”, como diz o Eclesiastes...
Vivemos hoje em dia numa
situação em que a maioria das pessoas, até por uma questão de auto-proteção
ou de mera sobrevivência, adotou uma moral dúbia. Praticamente todos pregam
o que é justo, informam cerrar fileiras ao nosso lado na luta contra o Mal
no mundo por um lado, enquanto que, por outro, na prática fazem
exatamente o contrário.
Não é possível utilizarmo-nos das mesmas
armas do Mal para combatê-lo, pois assim nos transformamos precisamente
naquilo que queremos banir do cenário. O combate ao Mal no mundo ainda é
necessário, mas o grande exemplo ainda é aquele de São Miguel Arcanjo que,
em sua luta contra o demônio disse: “Que o Senhor te repreenda!” Terrível
coisa é ser repreendido diretamente pelo Altíssimo!
Coisas desagradáveis
estão acontecendo no Brasil e forças superiores às minhas movem-me a
falar ou escrever sobre isso sempre que possa encontrar espaço ou platéia
para emprestar-me sua atenção por alguns momentos. Em Exequiel 33, versículo
7 em diante registra-se: “Filho do homem, neste momento te constituo como
atalaia (sentinela). Quando escutares de mim uma admoestação aos filhos do
povo, retransmita-as rapidamente, para que o mal não recaia sobre você. Se o
povo não se arrepender e deixar de cumprir a palavra que te transmito, já
nada terás com isso. Se contudo te calares, de ti cobrarei todo o sangue
derramado em vão.” Vejo o Brasil há séculos mal encaminhado politicamente.
Também vejo disputas fratricidas a acontecerem e de novo esboçarem-se no
horizonte. Às vezes chego a sentir-me mesmo como uma espécie de “atalaia”.
Sentinela, sou também feito de carne e sangue como todo o mundo, mas tendo a
colocar bastante ênfase no que digo ou escrevo. Humano, nem sempre capaz de
seguir a orientação de São Miguel (“Que o Senhor te repreenda!”) uma vez que
junto àquilo que vejo como sentinela, repreendo as pessoas, o que é um erro,
sou meramente humano, não estou “acima do bem e do mal”. Em minha defesa
informo somente da agonia que sinto ao ver sofrerem e morrerem dos nossos
como moscas! Crianças, adolescentes, mendigos... E isso diariamente. Para
não mencionar o aumento da criminalidade, da prostituição e do uso de
entorpecentes como vã tentativa de fuga de uma realidade absolutamente
insuportável. Tudo isso por causa da imoral concentração de riquezas nas
mãos daqueles que só fazem o esforço anti-humanista de explorar seus
semelhantes.
Em certa parte da vasta
Obra de Shakespeare (nem sempre é possível localizar o endereçamento com
precisão), diz ele: “Homem, ó orgulhoso homem, ignorante daquilo de que tem
mais certeza, como um macaco furioso, fazes coisas tão fantásticas perante
os céus que provocas lágrimas nos anjos!”
Os anjos são ainda mais sensíveis que as
criancinhas. Provocar-lhes lágrimas é um verdadeiro crime!
Ganância, eis o cerne do
problema. Parafraseando o “Che”: “Cesse a filosofia da ganância e cessarão
todas as formas de miséria, toda a fome, todas as angústias humanas.”
Quisera eu dizer que não
tenho inimigos ou mesmo adversários de qualquer natureza, mas como
compactuar com o Mal? - Só para relaxar um pouco, conta-se que um eminente
sacerdote estava pregando a uma grande platéia e solicitou que erguesse os
braços aquele que não tivesse nenhum inimigo. Somente um velhinho simpático
levantou a sua mão. Questionado quanto ao segredo de seu sucesso num campo
tão difícil, respondeu: _ Matei todos eles! - Agora voltando, como aceitar
calado que agentes do Capital julguem “patriotas” somente os poucos que
defendem os interesses daqueles que estão no poder há séculos em nosso país,
espoliando a maioria da população, que sorriem diante das objetivas de TV
enquanto, nos bastidores, maquinam meios de ampliar a espoliação da maioria,
como uma história de Robin Hood às avessas?
Esta espécie de pundonor
que me impede de lutar mais aguerrida e gravemente contra os espoliadores é
parecida com aquela que aconteceu com Arjuna no Baghavad Gita: “como posso
erguer-me e lutar contra meus familiares - e nós, humanos, somos todos uma
grande família - que alegria me traria uma tal vitória?” A resposta de
Krishna ao príncipe e guerreiro perfeito segue atual, difícil mesmo é
colocá-la em prática, como sói ocorrer, aliás, com a maioria das assertivas
e recomendações religiosas: “Tens de agir corretamente. O não-agir a nada
conduz. As más ações somente podem conduzir ao castigo divino. Só no reto
agir há a possibilidade de uma vitória, dura, como todas m batalhas, mas uma
vitória sem culpa e com a Redenção.” Mutatis mutandis é o que dizia São
Paulo apóstolo: “Combata o bom combate!”
Possamos todos nós, irmãos que somos, chegar
a viver em harmonia, suplantando todos os antagonismos que nos impedem de
enxergar a verdadeira realidade “eclesiástica”: a vida é curta demais para
que sejamos mesquinhos ou venhamos a agir erroneamente.
A maldição de Malinche
“Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais
simples fosse visto com o mais importante... Mas nos deram espelhos e vimos
um mundo doente...” “Índios”, Renato Russo
“1492”, grande filme de
Ridley Scott faz pensar, entre outras coisas na brutalidade da conquista
colonial. Cristóvão Colombo, típico homem do renascimento, chegou a um Novo
Mundo quando na verdade buscava e morreu persuadido de haver chegado ao
Oriente por uma nova rota ocidental. Leitor ávido das aventuras de Marco
Polo durante sua adolescência em Gênova Colombo persuadia-se de ser possível
chegar ao famoso “Império Catai” - China - próximo às ilhas de Cipango -
Japão - através de uma nova rota marítima, “ao levante viajando em
direção ao poente”. Jamais contando com a possibilidade, sequer remotamente
aventada de existir um continente inteiro entre a Europa e a Ásia, julgou
haver chegado por mar às ilhas de Cipango quando havia atingido o Caribe e
lá ouviu falar de um poderoso Império no continente que nem chegou a
conhecer (os aborígenes referiam-se à Confederação Azteca, mas Colombo
julgava estarem a falar da China...). Como nos esclarece Tzvetan Todorov, é
fascinante perceber como uma pessoa apaixonada e fanatizada por uma
determinada idéia deixa-se levar por ela a tal ponto de todas as
circunstâncias em torno estarem a informar-lhe estar efetivamente
concretizando seus sonhos. A existência de papagaios e pessoas com olhos
amendoados era claro indício a Colombo de haver chegado onde Marco Polo
havia estado três séculos antes por caminho terrestre. Indício também de que
estava próximo da riqueza e do esplendor relatado por seu herói dos tempos
de menino.
Recebido pelos aborígenes
como gente muito importante, “deuses” segundo a visão dos povos do Caribe,
os espanhóis eram presenteados com o tão cobiçado ouro, a prata e ao
perceberem suas intenções os chamados “índios” espertamente iam indicando
direções longínquas onde estariam os grandes veios de riqueza que seus
visitantes tanto buscavam.
Faça-se a ressalva de que
Colombo liderou um movimento inédito e, profundamente cristão, pensava
portar consigo a mesma missão que o santo de seu nome. Assim como Cristóvão
levou Jesus Menino pelas águas de um rio caudaloso, Colombo ansiava por ser
o portador da mensagem crística através do mar oceano aos povos de além-mar.
Movia-lhe ainda o elã cruzadístico que a Europa finalmente conseguia
reconquistar importantes territórios aos “mouros”, como Granada ao sul da
Espanha no mesmo ano da vinda ao Novo Mundo. Queria enriquecer, buscava o
ouro, especiarias e pedras preciosas mas era também movido por ideais
“nobres”, como se percebe.
Somente após a viagem de
Américo Vespúcio em torno do continente recém-descoberto, seguido da
publicação de sua obra Mundus Novus é que a Europa percebe estarem lidando
com um continente novo, não com aquilo que Colombo pensava ou propagandeava.
Tristemente, Colombo pouco contato teve com as informações sequer trazidas
por Américo Vespúcio, morrendo no ostracismo na península itálica o
desbravador do “mar tenebroso”.
Um sujeito muito mais ambicioso e bem menos
escrupuloso que Colombo, Hernán Cortez, com nenhuma cortesia e muita
violência “conquista” o mundo azteca. Amparo Ochoa, poeta e cantora
descendente de aztecas tem uma canção magnífica, intitulada “A maldição de
Malinche” dando-nos uma idéia do que teria acontecido quando da chegada
daquela nova leva de espanhóis...
“Do mar os viram chegar
meus irmãos emplumados, eram os homens barbados, da profecia esperados...”
Quando os aztecas em seu esplendor receberam a notícia da chegada de
gigantescas naves, verdadeiros prédios a atravessar o Oceano, possivelmente
sentiram algo parecido com o que sentiríamos ao receber visitantes de outra
galáxia em nosso planeta hoje. E Quetzalcoatl, a divindade serpente-alada
havia deixado Tenochtitlán, sede da Confederação Azteca, com a promessa de
um brilhante retorno. Muito ligados às profecias em seus famosos “códices”
os aztecas prestavam particular e acurada atenção a todos os sinais dos
tempos. Tudo tinha de estar previsto, o tempo, para eles, não era visto de
maneira linear, como para nós, mas de maneira circular, seguindo aqui Renato
Russo mais uma vez: “O que aconteceu ainda está por vir”, é o eterno
retorno, nenhuma grande novidade, eis que os deuses que partiram com
Quetzalcoatl retornam...
Quarenta séculos, pelo
menos, separam a cultura e a civilização européia daquelas encontradas no
continente americano e, se o Homem do Renascimento aprendeu a utilizar-se
abundantemente da simulação (fingir ser algo que não é), dissimulação
(ocultar o que de fato é), fingimentos e mentiras, os “índios” encaminharam
sua cultura e civilização na direção de manifestar-se com a transparência e
inocência dos sonhos infantis. Diz Amparo Ochoa em sua música que houve um
irrevogável erro de cálculo, um decisivo equívoco na avaliação dos
visitantes, sempre homenageados com ouro e pedras preciosas em troca de
espelhos brilhantes. Além disso, uma crença na boa-fé dos que chegavam com
discursos pacifistas num momento partindo para o massacre e destruição
segundos após o término de uma mensagem de paz, aí é que está, verberada e
traduzida pela Malinche.
Malinche, consorte de
Montezuma, por ter grande facilidade com idiomas, foi cooptada pelos
espanhóis, tornou-se consorte de Cortez e fazia as vezes de intérprete,
quiçá ingenuamente traindo sua própria gente. Como tudo precisa estar
previsto em profecias dentro da mundividência azteca, cria-se mais uma,
retroativa, informando que “caso uma consorte do tlatoani (aquele que fala,
porta-voz do povo, “ditador”, num certo sentido) se passe para o lado do
estrangeiro a Nação, o povo azteca, ficará escravo por trezentos anos”.
Esta a maldição que a
Malinche traz a seu povo: “Ainda hoje, se vemos chegar homens loiros com
alta tecnologia, tudo a ele cedemos. Mas se vemos chegar cansado um índio de
tanto vagar pela terra, o humilhamos e o vemos como estrangeiro em solo que
um dia foi dono dele” - outra característica marcante, jamais se encontrou
no continente americano um povo que considerasse sequer remotamente a
possibilidade de “ser dono da terra”, ao contrário, a terra sempre foi
considerada superior e dona dos homens, daí o estranhamento com respeito às
curiosas propostas de compra de suas terras por parte de seus primeiros e
originários moradores.
“Ó maldição de Malinche,
quando nos deixarás? Quando deixarás livre a minha gente?” clama ao final da
canção, quase aos prantos, Amparo Ochoa. Tornou-se comum para algumas
civilizações aborígenes ver o Estado Nacional colonial como um inimigo, uma
maldição que, cedo ou tarde será varrida do mapa. No caso azteca, como muito
bem nos ilustra a canção a que aqui me refiro. No caso Inca, tem-se um
curioso sincretismo entre o culto solar - Inti, o disco solar em náhuatl - e
o cristianismo. O Inca, imperador de todo o povo dos andes antes da chegada
dos espanhóis, foi aprisionado por um antigo criador de porcos, Francisco
Pizarro, libertado após prometer trazer o cobiçado ouro aos conquistadores,
cumpriu a promessa, foi novamente aprisionado e esquartejado estando hoje,
segundo a crendice andina, à espera do momento da ressurreição. Chamam a
isto de “o Cristo repartido” que estaria se reagrupando e prestes a reerguer
o antigo império Inca contra os colonizadores, o hoje Estado Nacional
Peruano. Os mitos são muito importantes, como já disse, e retratam
vividamente o que anseia a alma de um povo. Há insatisfação? Antigas
profecias e novos mitos informam que este tempo de dores passará e logo virá
a redenção, a abundância e a paz reinará onde se semeou tanta dor e
destruição.
“Que bom! Estamos cercados de
anjos!”
“Os anjos estão a serviço do amor
incondicional de Deus
pelos homens” Terry Lynn Taylor
De tempos em tempos a
angelologia ressurge no mundo, como se aqueles seres divinos, ocasionalmente
se utilizassem de veículos humanos para lembrar-nos a todos de que não
estamos sós. A frase que utilizo aqui como título foi por mim ouvida de uma
menininha numa escola religiosa de educação infantil, o Colégio Santa Inês
de São José do Rio Pardo. A epígrafe aprofunda a mensagem. Terry Lynn Taylor
escreveu um trabalho muito bonito, editado no Brasil pela Cultrix/Pensamento,
intitulado Anjos, Mensageiros da Luz, impelida por impulsos superiores a ela
mesma, segundo diz na Obra, possivelmente verberando e reverberando idéias
confortadoras a todos os que vivem nestes tempos sombrios.
Quantos de nós já sentiu
um amor assim, incondicional? É assim que Deus nos ama. Não importa o que
façamos, pensemos ou sintamos, estamos sempre ao alcance do amor
incondicional de Deus por nós, basta que lhe estendamos as mãos e o
pensamento e a qualquer momento o encontramos disposto ao perdão, à
compreensão ao consolo...
Nós, humanos, usualmente
condicionamos nossos sentimentos de amor a alguma coisa. Nos casos mais
nobres à pura e simples correspondência. Se somos correspondidos em nossos
sentimentos, o amor segue frutífero e, em geral, “a ingratidão desmancha a
afeição”. Se dizemos coisas como “eu te amo enquanto for correspondido por
você” ou “te amo desde que você não ultrapasse esta ou aquela barreira”, de
Deus sabemos e sentimos que nos ama incondicionalmente. E os anjos,
seus mensageiros, espalhados pelo mundo, tal vez pousados entre uma e outra
linha destes escritos, sorridentes, estão integralmente entregues ao serviço
da felicidade de todos os homens, sem exceção, independentemente do que
venhamos a sentir ou pensar acerca de um determinado fato da vida que é em
grande medida uma tremenda ilusão dos sentidos.
De um ponto de vista mais
“científico” ou cientificista, não há mal algum em acreditar em anjos se
isso traz paz de espírito, tranqüilidade e até mesmo saúde física e mental.
Teologicamente falando, são tantas as referências a anjos nos livros
sagrados de todas as religiões que seria ilógico mesmo ser religioso e
acreditar que os anjos estiveram na Terra tempos atrás, não se manifestando
mais nos tempos contemporâneos.
Dentre as recomendações
dos angelólogos, podemos enfatizar a necessidade da leveza, da alegria que
nos fortifica as energias todas no agir cotidiano. Anjo é leveza,
despreocupação, felicidade, otimismo, ajuda imediata em tempos de aflição ou
angústia, até mesmo salvação em casos extremos!
Há quem veja neste
processo de “ressurreição” da angelologia algo como “a nova face do velho
demônio”. Visão tacanha, uma vez que nenhum reino dividido contra si mesmo
sobrevive e, se Satanás promove o bem-estar e a felicidade, deixa de ser um
anjo decaído, claro. Se pensarmos e mesmo conversarmos com os anjos e isso
nos fizer sentir e fazer sempre o bem, qual é o grande problema? O papa João
XXIII, Ângelo Giuseppe Roncalli tinha como costume, quando às vésperas de um
encontro com alguém ou alguma delegação “hostil” ao Vaticano, conversar com
seu anjo da guarda, solicitando que este entrasse em contato com os anjos da
guarda dos outros envolvidos e se fosse estreitando os caminhos para que
quando o encontro físico efetivamente se desse já se tivesse vencido algumas
etapas. Fazer como bom papa, seguir-lhe o exemplo neste ponto só pode
ser benéfico. Mesmo se você for cético, há de concordar não haver mal algum
em se pensar e seguir coisas que apontam na direção da bondade, beleza,
verdade, justiça...
O Dhammapada, livro clássico do budismo
informa:
“Nós somos aquilo que pensamos.
Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.
Com o nosso pensamento construímos o mundo.
Fale ou aja com uma mente impura,
e
os problemas o seguirão
como a carroça segue a parelha de bois.
Nós somos aquilo que pensamos.
Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.
Com o nosso pensamento, construímos o mundo.
Fale ou aja com uma mente pura
e
a felicidade o seguirá
como sua sombra, inabalável.”
Pensamentos e sentimentos
puros, nobres, elevados, sublimes, atraem anjos à nossa volta tão
inexoravelmente quanto o aroma das flores atrai colibris. Os anjos preferem
o aroma agradável da alegria, da despreocupação, da leveza, da descontração.
O fedor da sisudez, da carranca, das feições sérias, severas ou amedrontadas
os repele. E é tão bom e salutar rir. Mas rir com o coração! Se você pensar
bem, verá que não há nada de assim tão mortalmente sério neste mundo no
período que vai de nossa alvorada ao crepúsculo desta curta existência.
Estamos por aqui de passagem.
É certo que o noticiário
do cotidiano do mundo tem muito de desanimador, mas há avanços concretos e
esperançosos, também! Reunificação da Alemanha, fim da “Guerra Fria”,
acordos entre Israel e OLP. Aos poucos os dirigentes percebem que agiam como
meninos peraltas e percebem que suas brincadeiras de mau gosto não agradam a
Deus, nem aos anjos e, o que é mais sério, não são operacionais a eles
mesmos! A isto o grande psicanalista Hélio Pellegrino chamava com
propriedade de “burrice do demônio”.
A vida, em síntese, pode
ser comparada a um grande jogo de xadrez, por exemplo. Podemos jogá-lo
eticamente, correta e até agradavelmente. Ou trapacear, fugir da realidade,
“virar o tabuleiro”. Vencedores finais do jogo da vida são aqueles que, com
a leveza e alegria dos anjos conseguem, malgrado o peso do mundo, tudo fazer
para que um número crescente de pessoas seja cada vez mais feliz.
O Anjo da História
“Onde aparece para nós uma cadeia de
acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que continua a amontoar
destroços sobre destroços e os arroja a seus pés. O anjo gostaria de se
deter, despertar os mortos e reunir o que foi despedaçado, mas está soprando
uma tempestade no paraíso que o impele irresistivelmente para o futuro a que
volta suas costas, enquanto à sua frente o monte de ruínas cresce em direção
ao céu. O que chamamos de “Progresso” é justamente esta tempestade” Walter
Benjamin
Angelus Novus – Paul Klee
Dialogando com alguns
amigos médicos, gente da mais elevada eticidade em tudo o que faz, seres
humanos que têm muito de anjo, auxiliadores dos próximos, agentes ou
lutadores pela cura, pela felicidade das pessoas, percebo o quanto de
afinidades e similitudes existem entre nossas profissões: médicos e
professores, que lidam com o humano, não com a materialidade mercadológica,
têm em geral vida muito difícil, são muito maltratados pelos donos do
Capital.
Filósofo, amante do
saber, sinto falta de maiores conhecimentos acerca do funcionamento orgânico
do ser humano em determinadas circunstâncias. Os médicos, por seu lado,
também buscam conhecer mais acerca das mais diversas maneiras de ver o mundo
que as pessoas têm tido ao longo dos séculos e, quando dialogamos,
percebemos claramente as convergências, por assim dizer, de Hipócrates até
Fritjof Capra.
Um dos pontos mais
polêmicos do que temos visto, eu e alguns amigos humanistas, envolve
justamente a questão do progressismo vago, sem finalidades humanas. Todos
aplaudem os avanços tecnológicos, poucos param para pensar no elevadíssimo
preço humano pago para se chegar a tais conquistas...
Quando Walter Benjamin
analisou o Angelus Novus, tela de Paul Klee retratada na epígrafe a estas
linhas - ressalvando-se que toda e qualquer pessoa que se dê ao trabalho de
observar acuradamente uma dada pintura terá uma visão diferente -
imediatamente seus próprios companheiros, marxistas apontavam falhas numa
análise considerada “não dialética”: “Como? De costas para o futuro? Está
politicamente errado!” Correção ou incorreção política, por sinal, é o que
menos deveria contar na análise de uma Obra de Arte, convenhamos! O artista
tem de ser livre de qualquer ingerência estranha ao seu campo de atuação ou
genialidade. Pelo menos isso a humanidade deveria ter aprendido com as
tentativas autoritárias, por exemplo, de Hitler à direita e de Stálin à
esquerda, tentarem implementar uma forma qualquer de arte “politicamente
correta” do ponto de vista do Estado forte. Arte é arte. Assim como a
Cultura deve ter sua esfera própria e independente. Política é outra coisa,
por favor!
Mas especificamente no
quadro analisado, as duas esferas se entrechocam, instigando o pensamento
crítico: O progresso invade lares, desagrega famílias, transforma e
transtorna a sociedade, traz desemprego, polui, chacoalha, mói e tortura os
humanos e ainda é aplaudido em programas populistas e popularescos da mídia
(também fruto ou produto do “progresso”). Neste sentido, compreende-se o
anjo, face torturada, observando a pilha de escombros a acumular-se à sua
frente sem que nada possa fazer a respeito simplesmente por causa da
“tempestade” chamada progresso. Basta! Ver o quadro, ler a respeito em
Benjamin, faz com que tenhamos ganas de travar, sabotar ( como os franceses
faziam no início da Revolução Industrial: meter o sabout no meio das
engrenagens das máquinas frias!), paralisar o progresso para salvar o humano
perdido na tempestade. Aí já se começa a ingressar no campo da política e a
incomodar os cultores do progressismo, tanto à esquerda quanto à direita
quando bradamos indignados: “Mais humanidade e menos progresso! Que a
máquina sirva ao humano, não mais servindo-se dele!”
Chaplin
“Aos que me podem ouvir eu digo: ‘Não
desespereis!’ A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto
da cobiça em agonia, da amargura dos homens que temem o avanço humano...”
Charles Chaplin
Muito raramente a palavra
“gênio” pode ser empregada com tanta propriedade quanto ao nos referirmos a
Charles Chaplin, comparado por muitos a William Shakespeare. Sim, se o
renascimento produziu gênios do quilate de Shakespeare, Bacon, Da Vinci,
Maquiavel, a revolução industrial produziu gênios como Freud, Marx, Chaplin...
Antonio Gramsci recomenda
comparar o desenvolvimento interno de uma dada teoria filosófica à
estruturação interna de uma religião como o catolicismo, por exemplo. Assim
como há a alta teologia e o catecismo - ambos com o mesmo eixo temático, a
diferença residindo apenas no nível em que a mesma mensagem é transmitida a
públicos distintos - sugeria o filósofo italiano o surgimento de um
“catecismo marxista”, a fim de contribuir para acelerar o surgimento da
consciência de classe para si do proletariado - evidentemente que tanto a
mais elevada teoria marxista do conhecimento e o catecismo proposto
guardando uma grande coesão interna.
Seguindo esta linha de
raciocínio, podemos pensar em freqüências vibratórias. Muitos de nós podemos
estar vibrando na mesma sintonia em que vibrava Chaplin, embora, claro,
dificilmente com a mesma genialidade. Àqueles que conhecem e se importam com
esta vibração, que poderíamos chamar inclusive de Alto Humanismo, recomendo
observar de perto a história de vida do grande ator, diretor e produtor
cinematográfico.
Nascido na Inglaterra nos
últimos lustros do século XIX, a virada do século o encontra menino ainda,
paupérrimo, envolto em severos problemas econômicos e domésticos. Filho de
artistas fracassados, viu no teatro seu único campo de atuação humana
possível. Começava a demonstrar seu enorme talento quando o cinema se impôs
como a “sétima arte” atraindo-o irresistivelmente para Hollywood. Ao longo
de toda a sua vida, protagonizou, dirigiu, produziu, escreveu e musicou mais
de setenta filmes, a maioria dos quais mudos, mesmo quando o som ia se
tornando uma obrigatoriedade dentro da “sétima arte”. Chaplin não queria que
a fascinante figura do “Tramp” * falasse. Quando o cinema falado pressiona-o
a mais não poder, o “Tramp” abre a boca no mais sublime dos discursos
humanistas jamais ouvidos. Dele selecionei pequeno trecho para epigrafar
estas linhas. O famoso “Último Discurso” do filme O Grande Ditador,
desmantela todas as absurdas teses do nazi-fascismo, reclamando ao humano o
lugar que tanto merece.
Impossível a quem quer
que seja falar em tantas coisas extraordinárias (compreendendo aqui a “fala”
como discurso corpóreo também) sem ser pelos mais variados motivos vítima de
intolerâncias e incompreensões. Por exemplo, Chaplin jamais se filiou a
qualquer partido político, mas sua crítica mordaz a todas as formas de
injustiça ou de brutalidade contra o humano - com particular ênfase à
dimensão social - coloca-o claramente no campo da esquerda; seu
perfeccionismo levava-o a passar dias e noites a fio envolvido no acabamento
final de determinados detalhes de seus filmes; como era feito principalmente
de sentimentos e somente circunstancialmente de razão **, apaixona-se
desbragadamente por Hetty Moyra Kelly, então com dezesseis anos, de quem a
vida o afasta cruelmente, sem que ele chegue a sequer tocá-la - e ele passa
o resto de seus dias a buscá-la em todas as mulheres com quem se relaciona.
Chaplin atacava de maneira mordaz e genial
toda e qualquer forma de autoritarismo, agradando a toda a gente que sempre
acha sensacional “chutar o traseiro do guarda”, levando contudo um certo
desconforto aos representantes da lei e da ordem... De todo o modo, esta tem
sido a tônica dos humanistas do século XX: viver entre as paixões políticas
e a busca incansável daquela pessoa que é o complemento humano único e
obrigatório de cada um que, quando Deus nos criou, fez com que fôssemos
radicalmente dependentes de outrem na esfera mais íntima de nossa
constituição física e psíquica.
Quando percebemos quem foi e o que pensou
Charles Chaplin, percebemos como é brilhante aquele que nos leva ao humor
pela dor (ou vice-versa, o que é quase a mesma coisa). Poucos conseguiram
fazer planger as cordas da nossa sensibilidade com tal grau de maestria!
Talvez por isso mesmo tenha sido expulso dos EUA, a “grande democracia”...
Além da básica
filmografia especificamente de Chaplin, dentre os quais destacam-se O
Garoto, Tempos Modernos, O Grande Ditador, e Luzes da
Ribalta (este último verdadeiro “testamento poético” do grande gênio);
há que se assistir também a Chaplin , do diretor britânico Richard
Attenborough, referência obrigatória. Quando a mesquinhez do cotidiano
ameaçar incomodar-nos, façamos como os surrealistas, refugiemo-nos no sonho,
na fantasia, no delírio até - que muitas vezes encontramos mais traços de
realidade no chamado delírio que nas vãs ilusões do cotidiano.
A Ideologia do Trabalho
“Alega-se que, com a abolição da propriedade
privada, toda a atividade cessaria, uma inércia geral se abateria
sobre os homens. Ora, se esta linha de raciocínio estivesse correta, há
muito que a sociedade burguesa teria sucumbido pois os que nela trabalham
mais são aqueles que menos lucram, enquanto os que mais lucram são
justamente os que menos trabalham” Karl Marx
Há algum tempo,
participei de um congresso sobre “Informatização e o aumento da
produtividade de empresas a baixo custo”. Realmente, precisaremos nos
modificar bastante para aceitar um mundo novo, onde não haja necessidade de
tanto trabalho humano quanto hoje para que se obtenha a mesma produtividade.
A se notar a tendência histórica à diminuição da jornada de trabalho, sem
concomitante diminuição salarial. Antes da “onda” neo-liberal tomar conta do
mundo muitos avanços trabalhistas foram conseguidos a partir de muita luta
por parte dos trabalhadores.
Nos primórdios do
capitalismo, o burguês pagava ao operário somente as horas trabalhadas, e
não havia limite - era comum, na Inglaterra do início do século passado
trabalhar-se 12 a 15 horas por dia, sete dias por semana! - hoje temos um
quadro totalmente diferente: férias e repousos semanais remunerados, por
exemplo, previdência social e por aí vai. Entristece um pouco perceber-se
uma tendência a um retrocesso parcial e de resto dialeticamente
inevitável, neste campo...
Mas foram lutas,
freqüentemente violentas, entre a classe trabalhadora e os donos do poder,
que possibilitaram estas e outras conquistas. O 1º de Maio, por exemplo,
relembra justamente um tremendo massacre de trabalhadores grevistas em
meados do século passado em terras do Tio Sam. Virou Dia Internacional do
Trabalho, curiosamente exceto nos EUA.
Se antigamente houve
trabalho escravo, depois trabalho servil, hoje há o trabalho assalariado e
estou 100% seguro de que daqui a uns cem a duzentos anos se falará em
“trabalho assalariado” como hoje se fala em escravidão ou servidão, nos
bancos escolares em aulas de história ou seu equivalente na Sociedade do
Futuro.
Convenhamos, vender o
próprio corpo é mesmo degradante. E que é o trabalho assalariado se não a
venda de partes do corpo para usos diferenciados em locais e finalidades
diversas? Os pedreiros vendem seus braços para a construção civil, os
camponeses os vendem para a lavoura, intelectuais vendem o uso de seu
cérebro para Instituições culturais, as prostitutas vendem outras partes de
seus corpos para outras finalidades e assim o capitalismo segue.
Perceber coisas desta
magnitude num país com elevadas taxas de desemprego a coisa deixa de ser
meramente degradante, tornando-se mesmo vexatória! Como se não bastasse esta
perversidade, esta perversão, ao desempregado acaba sendo imposta a “culpa”
pela sua própria desgraça.
Uma curiosidade apenas: a burguesia
apresenta uma tendência a pensar que é o trabalho e pelo trabalho que os
homens se fazem livres. Chegaram mesmo a, em outros tempos deixar esta
sugestiva inscrição na entrada de alguns de seus grandes templos como o de
Spandau e Treblinka, no centro da Europa antes da metade do século XX. Será
que a assertiva “Arbeit macht Frei”, (o trabalho liberta) pode ser aceita de
maneira completa, total, absoluta, sempre?
Como dizem sabiamente os teóricos da Escola
de Frankfurt, só conseguimos acreditar na existência de uma sociedade como a
nossa porque ela existe. Caso não houvesse um exemplo prático, uma sociedade
assim tão louca seria impensável!
Tempos chegarão, em que
as pessoas exercerão as tarefas que lhes aprazem pelo tempo que possível
lhes for, graciosamente e todos terão o direito de levar consigo tudo aquilo
de que precisam. Acredito na fórmula socialista utópica neste tópico: “De
cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas
necessidades”, sem necessariamente o envolvimento de qualquer tipo de metal
sonante.
Leitor ávido e espectador atento de ficção
científica, vejo no modelo implantado no seriado criado por Gene Rodenberry,
Jornada Nas Estrelas o grande modelo esperançoso para a Sociedade do Futuro;
ali a tecnologia mais avançada está a serviço do humano. Em outras obras,
como O Exterminador do Futuro vemos um futuro possível muito pouco otimista
mas lamentavelmente possível a seguir-se o atual curso de orientação
sócio-econômica: as máquinas dominando o humano e exterminando-o quando se
rebela - em termos metafóricos este último modelo já existe em esboço no
mundo, infelizmente.
Com tudo isso, dentro da
consciência esperançosa e antecipadora, vejo feliz como possível um domínio
da coisa morta, da materialidade mercadológica pelo ser humano vivo, feliz e
trabalhador espontâneo, com a supressão de qualquer forma de coercitividade.
O Homem e o Infinito
“Diante da vastidão do Espaço e da imensidão
do tempo,
é uma felicidade partilhar o mesmo planeta e
a mesma época
que você.” Carl Sagan
“Temos de arder juntos! Se eu não ardo, se
tu não ardes, se nós não ardemos, quem combaterá as trevas?” Nizim Hikmet
Faz tempo me anima a
convicção de que há tanta riqueza no mundo que uma organização minimamente
racional da política econômica internacional erradicaria definitivamente
males que, à beira do terceiro milênio, afligem ainda milhões de seres
humanos. De fato, no nível de desenvolvimento atual da Espécie Humana na
Terra, é chocante vermos os mesmos seres capazes de manter estações
orbitais, viajar à Lua e enviar sondas espaciais ao infinito a disputar
barbaramente entre si o pão, a morada, a roupa, o amor...
Sem interromper os
maiores avanços tecnológicos promotores do humano no universo, apenas
realizando uma justa distribuição das riquezas por todos produzida, as
coisas básicas ao homem como a alimentação, a morada, a vestimenta, a saúde,
a educação, podem ser fornecidas a todos ao mesmo preço que se fornece o ar
ou a água. É o que postula, por exemplo, Erich Fromm, um dos teóricos
humanistas da Escola de Frankfurt.
Que a disputa entre os
seres humanos, se tem de se dar, ocorra em outro nível que não o da
sobrevida material! Enquanto existirem seres humanos desesperados por
conseguir condições mínimas de vida sem lograr êxito por mais que trabalhe
por um lado e, por outro, gente que tem muitíssimo mais do que precisa
fazendo simplesmente o esforço anti-humanista e anti-cristão de conservar a
estrutura concentradora de rendas que lhes é benéfica, enquanto este quadro
persistir, persistirá a barbárie de crimes hediondos, frutos todos eles da
exploração imoral, injusta e injustificável do homem pelo homem. E não
adianta criar máquinas punitivas ou repressivas de desesperados (como
aparelhos de extermínio) à saída da máquina produtiva, isso só faria o
Estado retroceder a um estado de barbárie totalmente anacrônico, além de
combater só os “efeitos”, deixando intocadas as causas da barbárie,
reificando-a, portanto. Há que se combater a miséria e o desespero, não os
miseráveis ou os desesperados!
Tem mais: nós já temos
tantas dificuldades no trato com a Natureza - geadas, chuvas torrenciais,
ausência prolongada de chuvas, tempestades, incêndios, doenças incuráveis
como o câncer ou a AIDS - que a perda de potencial humano em lutas
fratricidas resulta completamente irracional mesmo! A guerra não declarada,
velada, insidiosa, dos donos do poder contra os geradores da riqueza das
nações precisa ser superada para que a Espécie Humana possa efetivamente
progredir e ir mais longe na domesticação, na humanização da natureza e em
conquistas universais muito mais elevadas.
A Nova Era
“... Jesus expelia um demônio que era mudo.
Tendo o demônio saído, o mudo pôs-se a falar e a multidão ficou admirada.
Mas alguns deles disseram: ‘Ele expele os demônios por Belzebu, príncipe dos
demônios’. E para pô-lo à prova, outros lhe
pediam um sinal do céu. Penetrando nos seus pensamentos, disse-lhes Jesus:
‘Todo o reino dividido contra si mesmo será destruído e seus edifícios
cairão uns sobre os outros. Se pois, Satanás está dividido contra si mesmo ,
como subsistirá o seu reino?...’” Lucas 11, 14-18
Há no mundo contemporâneo
um gigantesco movimento, escassamente articulado, com poucos contatos, mas
com seus membros e participantes falando aproximadamente o mesmo “idioma”.
Tomemos, a título de exemplo, alguns de seus expoentes mais notáveis: John
Lennon, Carlos Castañeda, Fritjof Capra, Roger Garaudy, Joseph Campbell,
Plínio Marcos...
O que diz esta gente
toda? O que pensam aqueles que lêem e com eles concordam?
“Haja paz no mundo em que
vivemos!”. Propõem o aproveitamento daquilo de melhor que a mente humana já
pode atingir em termos de filosofia, política e religião; anseiam por um
mundo sem fronteiras, sem ódio, sem medo, sem guerras, sem intolerância. Em
seus projetos consta aproveitar o que de mais avançado existe na Bíblia
cristã, no Alcorão, na Gita, no Tao-te-king etc. Tudo o que tiver valor e
beleza; falar em harmonia e união; em compreensão, tolerância e perdão
precisa ser considerado para a nova perspectiva. E isto é válido não
apenas para os aspectos religiosos em si como também para aqueles
científicos, filosóficos, políticos e tudo o que possa trazer avanços à
humana espécie nesta fase de transição.
Como cristão (claro que
não-ortodoxo), pergunto: é concebível haver paz fora da perspectiva
cristológica ou, como dizem os detratores da Nova Era, “paz sem Cristo”?
Todo o cristão é, por definição, um homem novo e percebe a plenitude da Paz
existente em Cristo. Como poderia um cristão conceber a paz sem percebê-la
em sua perspectiva cristológica? Palavras do Mestre: “Um reino não subsiste
dividido contra si mesmo!” Quem prega e pratica a paz, só pode estar
plantado muito próximo - senão mesmo dentro - da agonística cristã, quer o
assuma formalmente ou não, pois Cristo, filho unigênito de Deus é, entre
outras coisas e por definição teológica PAZ em essência.
Não fosse o aviso dos
pastores sectários principalmente e dos padres ultra-ortodoxos em segundo
lugar, a maioria sequer perceberia haver este movimento no mundo. Quando
vemos uma quase unanimidade dos conservadores contra a chamada “Nova Era”,
ficamos no mínimo curiosos e buscamos maiores informações a respeito. De
fato, rabinos, padres, pastores, pais-de-santo e toda e qualquer espécie de
liderança religiosa ortodoxa expressiva, ao perceber o surgimento no
horizonte dos esboços de algo novo no horizonte, algo realmente incrível
acontece: uma união colocando muçulmanos, judeus, cristãos, budistas,
xintoístas e representantes de outras correntes ortodoxas da religiosidade
no mundo numa espécie de “Santa Aliança” contra o novo. Há alguns que, pouco
informados a respeito, chegam a ponto de dizer sandices como: “nem sei do
que se trata, mas não aprovo!” O irracionalismo humano não tem limites
quando quer se expressar. Pena.
Um destes panfleto
difamatórios, não sei bem se católico ou evangélico, tão similares são as
posturas de ambos ante a Nova Era trazia coisas tão hilariantes que só não
pude chegar sequer a um esboço de sorriso pela seriedade com que utilizavam
palavras contra os humanistas que vemos a possibilidade de chegarmos todos a
um mundo melhor, a uma vida melhor e até mesmo, quem sabe, a um acordo
religioso, pan-ecumênico mesmo.
O panfleto fazia uma
confusão com símbolos e nomenclaturas que, para quem entende um
pouquinho de esoterismo, soa absolutamente ridículo - particularmente pelo
exagerado número de agressões ao vernáculo no texto em pauta... Exemplos: O
Tao, símbolo chinês de mais de cinco mil anos, representaria uma “aliança
entre o homem e o demônio” (e o texto apelida o demônio e suas hostes de
“Forças Cósmicas” seja lá o que for que isso possa significar àquela
mundividência tacanha).
Todos sabem que o Tao
representa o equilíbrio, a busca do “caminho do meio” do reto-agir, a
aliança - aí sim! - entre Deus e o homem, entre o homem e a natureza e mesmo
entre o homem e a mulher. Note-se que, no símbolo em discussão, há um ponto
preto no “peixe” branco e um ponto branco no “peixe” preto, como a recordar
que há um pouco do divino no humano e vice-versa, há um pouco da mulher no
homem e vice-versa, há um pouco da Natureza no homem e vice-versa...
A cruz ansata, que os
egípcios há mais de seis milênios chamavam de Ankh é apresentada no referido
panfleto como “pregadora do desprezo aopudor e à virgindade”. Só que o Ankh
representa, como todos sabemos, a continuidade da vida, a existência de algo
após a morte, coisas rigorosamente sem qualquer eivor de conotação sexual!
O mais escabroso mesmo
foi ver o símbolo da paz criado pelos hippies norte-americanos na década de
60 - o “faça amor, não faça a guerra” - apresentado como “cruz de Nero”, a
que se seguia uma “explicação” de que “trata-se da representação da paz sem
cristo, observem-se os braços da cruz como que caídos...” Mas somente
pessoas com severos problemas psiquiátricos poderiam imaginar possível que o
inimigo de Cristo pregasse a paz fosse como fosse (um reino dividido
não subsiste...) e, o que é pior: sob a chancela de ninguém menos que o
Imperador Nero, morto cerca de vinte séculos antes que aquele símbolo fosse
criado!
Em prol da vida, sejamos
nós capazes de perdoar estas tristes demonstrações de intolerância; os
defensores deste mito novo, desta formação religiosa nova pregam pura e
simplesmente paz e amor entre todos os homens...
Consciência Cósmica
O médico canadense
Richard M Bucke, num trabalho de mais de setecentas páginas que interessa em
muito a todos aqueles que trabalham ou de alguma forma se dedicam a temas
como “educação”, “evolução humana”, “humanismo” e congêneres, trabalho a que
intitulou Consciência Cósmica, editado no Brasil pela AMORC, defende a
interessante tese de que estamos em processo evolutivo milenar, senão
vejamos.
Entre os minerais não
percebemos crescimento notório, reprodução, mobilidade, sensibilidade, etc.
Não são reconhecidamente dotados do que poderíamos - à falta de expressão
mais adequada - chamar de “vida” como a compreendemos.
O reino vegetal, um pouco
mais complexo, comporta reprodução, crescimento, alguma mobilidade, como as
raízes que penetram subsolo abaixo seguindo as correntes hídricas ou os
galhos que, pontuados por folhas buscam a luz solar. Com tudo isso, não se
tem aceitação “científica” de qualquer forma de consciência no reino
vegetal.
Quando chegamos aos
animais, o que os caracteriza mais ostensivamente é a percepção de que são
efetivamente dotados de uma forma, ainda que rudimentar, de consciência. Uma
consciência coletiva, integrada à natureza em sua plenitude. Têm memória,
reflexos, mobilidade, reprodução (na maior parte dos casos sexuada)... Não
são dotados de uma autoconsciência, ou seja, de serem separados da natureza
individualmente.
Ao chegarmos aos seres
humanos, percebemos que, além das características simples existentes no
reino animal, encontramos o surgimento da autoconsciência, plenamente
desenvolvida hoje entre homens desde aproximadamente os três anos de idade;
esta característica nova, a autoconsciência, começou a surgir entre os
primeiros hominídeos em raros e esporádicos casos, nos quais alguns seres
humanos, por algum motivo, davam este “salto evolutivo” naquela
direção, via-de-regra, entre 35 e 42 anos de idade, passando, a partir daí,
a fazer parte do patrimônio genético-biológico da humana espécie e hoje,
somente em raros casos de esquizofrenia, oligofrenia, idiotismo ou outra
patologia nesta direção deixa-se de encontrar a consciência de ser alguém à
parte da Natureza entre os seres humanos.
Agora o avanço mais difícil: segundo dr.
Bucke, há cerca de cinco milênios começaram a surgir casos raros e
esporádicos, sempre também via-de-regra entre os 35 e os 42 anos de idade,
de seres humanos que transcenderam a sua condição, atingindo aquilo que o
Autor chama de Consciência Cósmica. Dentre os casos perfeitos e completos de
Consciência Cósmica arrolados pelo Autor, cito aqui Akhenaton, Lao-Tse,
Moisés, Pitágoras, Buda, Jesus Cristo, São Paulo, Maomé e Walt Whitman.
Esta nova consciência,
esse novo “salto evolutivo” traz consigo algumas características que passam
a distinguir seu detentor, quais sejam:
Iluminação Súbita - Após um período mais ou
menos longo de meditações numa vida dedicada a ideais religiosos,
unificadores, o homem cosmicamente iluminado entraria num período mais ou
menos prolongado de Paz Profunda.
Grande Elevação Moral - A consciência
cosmicamente iluminada raramente comete erros conscientes ou demonstra ter
quaisquer defeitos na dimensão moral especificamente falando.
Grande Elevação Intelectual
- O homem cosmicamente iluminado está tão distante do homem dotado de mera
autoconsciência quanto o indivíduo auto-consciente está distante daquele que
manifesta ainda uma consciência indivisa, ou seja, aquele que atingiu a
Consciência Cósmica está para o homo sapiens como este para os outros
animais.
Perda do Temor da Morte - Pela simples
conscientização de que a morte é pura ilusão dos sentidos. Não existe um
“fim” para a vida; esta segue sempre em frente!
Imantação da Personalidade
- Um grande encanto é acrescentado à personalidade do Iluminado, fazendo com
que se transforme num verdadeiro ímã atrator irresistível de outros seres
também sequiosos por chegar àquele novo degrau evolutivo.
Como nos outros casos,
claro, dentro de mais alguns milênios este novo “salto evolutivo” estará
geneticamente incorporado aos seres humanos que passarão a ser - todos -
dotados de Consciência Cósmica já na infância. Uma visão ou perspectiva no
mínimo otimista e esperançosa e todos precisamos de uma boa dose de otimismo
e de esperança nos dias que correm.
Esperança
“É preciso ter esperança até que nossos
inimigos morram de raiva” Nizim Hikmet
Quando no fundo do poço,
o melhor a fazer é ter fé, confiar, sorrir e mantermo-nos abertos ao retorno
do sucesso. Assim como o perdão possibilita-nos um maior controle sobre o
passado, o mesmo o faz a Esperança quanto ao Futuro.
Será preciso esboçar,
traçar, construir, elaborar maquetes, ensaios e poesia que falem acerca
daquilo que almejamos para o futuro. É fundamental ter as metas traçadas,
ainda que apenas em esboço, vital sabermos para onde queremos nos dirigir
caso contrário seremos levados por outrem a lugares e situações
não-almejadas.
Em momento amargo de
minha existência, cheguei a desabafar coisas como “a esperança é um mal, o
último dos males da caixa de Pandora, como dizia Nietzsche”. Não! Mil vezes
não! A Esperança é uma das coisas mais importantes e relevantes de nosso
viver no mundo. Não importa quantas vezes a vida nos acene e brinde com as
mais duras provações. Quantas e quantas vezes pensamos em desistir de um
dado projeto para, minutos depois, recebermos o prêmio há muito ansiado?
Numa de suas Cartas a Milena, Franz Kafka enfatizava: “... mas pouco depois
chegaram cartas e flores, bondades e consolação!” Esta única frase fecundou
em meu inconsciente o único de meus contos de que até hoje não me arrependo
de ter escrito, o Felipe, que faz parte desta suma. Fala de um sujeito,
humilhado e ofendido de maneira gravíssima que chega à última desistência,
ao fim mesmo de sua existência mas, pouco depois, tudo aquilo por que
esperava chega de maneira abundante e plena. A mensagem fica em várias
modulações ao longo dos séculos: Jamais esmoreça! Nunca desista! Siga em
frente! Se não por amor próprio, para fazer ferver de raiva aquela absurda e
sempre presente “torcida contra”.
Fé e certeza
Curiosamente, a filosofia
nos leva a tanta incerteza que por vezes sentimos o chão faltar-nos sob os
pés. Ocorre que não há quem ou o quê se sustente ou subsista debaixo da
incerteza. Nossas certezas, por precárias e imperfeitas - por definição
imprecisas - que sejam, nos sustentam vitalmente no mundo. Não teríamos como
apreciar a beleza de um crepúsculo, de preferência bem acompanhados, se a
todo o instante nos assaltassem certezas outras que nos deixassem aturdidos
como o estar num planetinha a girar, daí a impressão crepuscular de um belo
“por-do-sol”, ao lado de um curioso conglomerado orgânico à base de carbono.
Sabe do que mais? A incerteza, além de fazer mal ao romantismo faz mal à
saúde! Recordo-me de haver feito trabalho de campo junto a algumas pessoas
da terceira idade - nonagenários, mesmo! - na única Igreja Positivista do
mundo, lá na Glória, zona quase sul do Rio de Janeiro, e fiquei
espantadíssimo com a vivacidade daquelas senhoras e senhores. Todos têm
“certezas” que a maioria de nós repudia, por exemplo: “o homem tem
capacidade intelectual superior à da mulher”, “o aprendizado das pessoas
deve dar-se por fases e etapas complementares, conforme preconizava Comte”,
“o conhecimento humano, aquele que leva à Religião da Humanidade, deve
dar-se em três etapas obrigatórias: metafísica, monoteísta e positiva” e
outras congêneres, algumas ainda bonitas, outras nem tanto, mas todas com
muita ênfase e certeza. A saúde daquelas pessoas as levará cada vez mais
longe na existência.
Nós outros, vacilantes e
temerosos amantes do saber, aprendemos a relativizar tanto que mesmo
perguntas banais merecem reflexão em profundidade. Pergunte-se a alguém de
nosso tempo se está quente ou frio, não importa a temperatura que faça ou a
época do ano e a resposta, se a pergunta tem eivores de profundidade, será
invariavelmente: “depende”. Até porque por aqui está sempre mais quente que
no Ártico e mais fresco que no Saara...
Nem mesmo sobre o tempo se pode conversar
banalmente hoje em dia.
Foram-se os dias em que se tinha em comum
com a outra pessoa pelo menos a sensação de tempo. Num dezembro destes
queixei-me de chuvas torrenciais e fui advertido: “É uma bênção! Já pensou
se isto aqui fica igual ao sertão nordestino?” Então tá. Fica assim: a chuva
é uma bênção para a lavoura e um castigo para professores pedestres.
A Estrela Verde
“Assim como o perdão nos possibilita o
controle sobre o passado, a Esperança nos permite o controle sobre o
futuro.”
Hannah Arendt
Com licença da AMORC -
Brasil, passo neste ponto a compilar um belo conto narrado pelos rosacruzes
brasileiros em momentos de divulgação de seu pensamento:
“Era um vez, milhões e
milhões de estrelas no céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas,
lilases, prateadas, douradas, vermelhas e azuis. Um dia, elas procuraram o
Senhor Deus Todo-Poderoso, o Senhor Deus do Universo e disseram-lhe: ‘Senhor
Deus, gostaríamos de viver na Terra, entre os homens...’ “Assim será feito”
- respondeu Deus - “conservarei todas vocês pequeninas como são vistas e
podem descer até a Terra.” Conta-se que naquela noite houve a mais linda das
chuvas de estrelas. Algumas aninharam-se nas torres das igrejas, outras
foram brincar e correr com os vaga-lumes dos campos, outras misturaram-se
aos brinquedos das crianças e a Terra ficou maravilhosamente iluminada.
Passado algum tempo
porém, as estrelas resolveram abandonar os homens e voltar para ao céu,
deixando a Terra outra vez escura e triste. “Por que voltaram?” perguntou
Deus à medida em que chegavam novamente ao céu. “Senhor, não nos foi
possível permanecer na Terra; lá existe muita desgraça, muita fome, muita
violência, muita injustiça, muita maldade, muita doença.” E o Senhor lhes
disse “Claro, o lugar real de vocês é aqui no céu, estamos no lugar da
perfeição, no lugar onde tudo é imutável, onde nada perece.” Depois de
chegadas todas as estrelas e conferindo-lhes o número, Deus tornou a falar:
“Mas está faltando uma estrela... Perdeu-se pelo caminho?” Um anjo, que
estava perto, replicou: “Não, Senhor, uma estrela resolveu ficar entre os
homens. Ela descobriu que o seu lugar é exatamente onde existe imperfeição,
onde há limites, onde as coisas não vão bem.” “Mas que estrela é essa?” -
voltou Deus a perguntar. “Por coincidência, Senhor, é a única estrela dessa
cor.” “E qual a cor dessa estrela?”- insistiu Deus. E o anjo disse: “A
estrela é verde, Senhor, a estrela verde do sentimento da esperança.” Quando
então olharam a Terra, a estrela já não estava só. A Terra estava novamente
iluminada, porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa. Porque
o único sentimento que o homem tem e Deus não tem é a esperança. Deus já
conhece o futuro, enquanto que a esperança é própria da Natureza Humana.
Daquele que cai, daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que
não sabe ainda como será o seu futuro.”
A Incrível Religião do
Individualismo
Vivemos numa sociedade
competitiva, de mercado, periférica ao capitalismo central, subdesenvolvida
econômica e espiritualmente que só consegue encontrar “saídas” - raras,
raríssimas - para indivíduos. E o indivíduo que consegue libertar-se, não
raro desonestamente, de toda a opressão imposta, tende a reificá-la
transformando-se em opressor também. E esta secular e perversa estrutura
individualista se reproduz como um câncer, obliterando a razão, as emoções e
os sentimentos das pessoas. Quer-se, acima de tudo, o “bem” para si próprio
- seja lá o que for que isto signifique dentro de um contexto humano!
Raramente se pensa ou se trabalha em prol da coletividade, e isso mesmo
dentro do meio político, com situacionistas e oposicionistas acusando-se
mutuamente de utilização privada do espaço público!
Como regra geral as
pessoas buscam individualmente uma saída qualquer para a escravidão, a
miséria, a loucura em que o século XX se enfiou. Em sua luta individual pela
libertação, o homem se esquece de fatores fundamentais, como o fato de haver
mais gente em igual situação e a ação coletiva tenderia a ser muito mais
eficaz que a busca solitária.
Ou há liberdade para
todos ou ela não existe de todo!
As poucas liberdades
individuais conseguidas em raríssimas ocasiões são aquelas em que o “prego”
passa a ser martelo mas a pancadaria continua. Que “liberdade” é essa,
afinal?
Além desta loucura
institucionalizada, há mais, talvez até em decorrência disto: clientelismo,
analfabetismo, desemprego, frustrações, ignorância, prostituição, violência,
miséria... Para onde se volte o olhar, vemos o mesmo quadro. Estamos
devastando o mundo, agredimos a natureza e agredimos a nós mesmos ao
agredirmos outras formas de expressão da natureza além da sociedade humana.
A sociedade industrial
encontra-se aparatada para estraçalhar a Vida, que, apesar de tudo, segue
subversivamente existindo, vivendo, amando. O tremendo e quiçá inconsciente
suicídio coletivo que a sociedade humana está em vias de cometer e foge à
percepção da maioria é de tal modo absurdo que mal dá para acreditar! Desta
maneira, encontrar uma forma de inserção social no mundo que agrida o menos
possível o que de mais inocente e nobre existe em cada um é dificílimo, mas
fundamental.
O homem, já nos aponta
José Carlos Mariátegui em O Homem e o Mito é um “animal metafísico”: não se
vive fecundamente sem uma concepção metafísica de vida. Estou convencido de
que a forma de inserção no mundo que todos temos, como pulsão básica a reger
nossas vidas, como uma alternativa ou probabilidade de saída da loucura é a
religião em seu sentido mais sublime.
Há a religião cristã, a
muçulmana, a judaica, a hindu, a budista... Há também a “Incrível Religião
do Individualismo” que, hoje, conglomera o maior número de seguidores jamais
imaginado como possível! Enfim, quando os homens defendem seus pontos de
vista frente a outros homens, freqüentemente utilizam-se do artifício de
“disfarçar” o nome da proposta para não assustar seu ouvinte. Com a
proliferação das seitas pseudo-cristãs, do tipo templo é dinheiro, há
aqueles que pregam coisas como: “Não é religião, é Cristo!” Os defensores da
incrível religião individualista apresentam-se, de fato, em seus discursos
anti-humanistas como “defensores da livre-iniciativa”. No ritualismo demente
da Incrível Religião do Individualismo, o burguês médio acende uma vela para
si mesmo e outra para Mammon.
Aquele que, contra a
natureza, correu sozinho até a liberdade, agrediu tanto a sua própria alma
que hoje precisa de um “médico de almas”. E a religião individualista
apresenta orgulhosa seus novos sacerdotes: é o psicólogo, o psicanalista, o
psiquiatra, psi... E o poder individual, o Führerprinzip da sociedade
moderna encontra plenas justificativas aqui nestas novíssimas ciências.
Ainda assim há o homem. O ser humano natural, sepultado debaixo de grossas
camadas de hipocrisia com que se protege do seu próprio medo e do ódio dos
demais. Por trás disso tudo não há mais que uma criança inocente, boa,
alegre mas muito assustada. O homem natural busca satisfações naturais a
seus anseios naturais.
A cultura, saber
coletivo, é tão natural para o homem quanto sua herança genético-bilógica. O
desvio da cultura (saber coletivo) “para dentro” é tão incrivelmente
despropositado quanto as guerras. Já temos tantos problemas na domesticação
da natureza, na humanização das forças naturais que o desvio das
considerações intelectuais humanas na direção da destruição tecnológica de
outros seres humanos é, evidentemente, um despropósito!
A criação ou o surgimento
de uma cultura individualista é uma fantástica contradição, só crível porque
existente. Pior: hegemônica!
Urge superar a violência
da sincrética religião burguesa/individualista e criar um mito novo, fundado
no Amor, na livre imaginação, nos sonhos e na Verdade. Isto só pode fazer
sentido, claro, numa atuação coletiva em busca de uma nova forma de
convivência social que liberte os seres humanos do medo e do ódio, fundando
novas formas de relacionamento que abalarão até os fundamentos de uma
sociedade assim absurda!
Na sociedade do futuro,
fraternidade, liberdade, igualdade serão mais do que meras bandeiras
levantadas por escassos idealistas ou mesmo por intelectuais que sequer
conseguem sair da academia para a rua em busca de unir-se ao povo em suas
justas reivindicações. Na sociedade do futuro, o bem-estar físico e mental
de todos os seres humanos do planeta estará erguido à posição prática
coletiva daquilo que se pode chamar, com licença da Teologia da Libertação,
de Construção do Reino de Deus na Terra.
O fanatismo da descrença
Quantas religiões existem
no mundo comprovam que o ser humano é, com efeito, um animal metafísico. Não
se vive fecunda ou plenamente sem uma visão cosmogônica, que dê respostas
satisfatórias a todas as perguntas.
Independentemente de se
crer em seres supra ou infra-humanos, como deuses, anjos ou demônios em
teologias várias, os credos todos caracterizam-se, antes de mais nada, por
uma união de sentimentos, emoções e visões de mundo. Segundo os positivistas
Comte e Durkheim, quando as pessoas se reúnem em alguma espécie de templo
estão, em verdade, reafirmando sua cultura, seu apreço pelos que
compartilham das mesmas opiniões acerca de várias coisas, sua unidade ética,
enfim. Os positivistas compreendem, nesta acepção, a palavra “templo” como
algo a ter com exemplos, portanto, mesquitas, sinagogas, academias, igrejas,
centros espíritas, colégios, quartéis, partidos políticos, movimentos
multitudinários em geral.
Não se deve atacar
frontalmente qualquer crença, que todas são dignas de respeito! Chega de
intolerância para com o diferente. o apreço ao ser humano em toda a sua
riqueza interior implica, principalmente, saber apreciá-lo em sua
multifacetária capacidade de expressão.
Há, contudo, uma coisa
fantástica, fanática e absurdamente irracional, só crível porque existente e
que, coadjuvada pela Incrível Religião do Individualismo acaba por afastar
as pessoas umas das outras em prol de nada. Chamo a esta deplorável
deformação de “Fanatismo da Descrença”, que só tem um dogma básico
inapelável: “Nada é digno de crença, de fé, não existe transcendência.”
Embora São José do Rio Pardo seja uma saudável exceção, é inacreditavelmente
enorme o número de pessoas que são encantadas pelo “fanatismo da descrença”,
particularmente nos meios intelectuais e acadêmicos. A grande maioria das
pessoas tidas por inteligentes repetem as mesmas fórmulas litúrgicas
dementes, os mesmos esgares de desprezo por qualquer tipo de fé, qualquer
crença em qualquer coisa de transcendental.
Digo acima e sustento:
não se deve atacar qualquer crença; já pagamos preço elevado demais por
nosso descaso ou desprezo pela fé do próximo, seja ele originário das
Américas, africano, asiático, hebreu, caldeu, romano, “diferente”, em
síntese. O que estou atacando tão severamente quanto me é possível aqui é
justamente a ausência de fé e mais, todo e qualquer entrave à fé tem de ser
desmascarado. É preciso ter fé e esperança. Assim como Jesus Cristo nos
aponta uma saída para que possamos ter controle sobre o passado, os
filósofos da Esperança apontam saídas para o futuro. Cristo aponta
lucidamente na direção do PERDÃO como forma de controle sobre o passado. A
ESPERANÇA, por seu lado, nos possibilita controlar o futuro; é porque temos
certeza do advento de um tempo de paz, abundância e humana fraternidade que
toleramos as bobas injustiças de hoje como marcas, que são, de um tempo
moribundo.
A descrença, por seu
lado, leva a quê? Individualismo, ódio, rancores, mágoas pessoais, etc. Medo
por dentro e muito ódio por fora, eis a raiz da descrença. Também em vão se
procurará por aí um templo da descrença ou coisa que o valha. O fanático da
descrença não o é em relação a uma fé específica, mas em relação a todo o
tipo de fé. Cada um deve descrer de um modo, levando os fanáticos da
descrença à paralisia generalizada, à destruição generalizada, sem que nada
tome lugar da antiga fé. Fica-se a meio-caminho. Se toda essa destrutividade
estivesse voltada à construção de algo ainda mais sublime, uma síntese
dialética da ciência e da religião, por exemplo, seria compreensível.
Incompreensível e injustificável mesmo só a descrença.
Se no sincretismo da
Incrível Religião do Individualismo encontramos o burguês médio acendendo
uma vela para si mesmo e outra para Mammon, no fanatismo da descrença vemos
o burguês (ou seus prepostos voluntários ou involuntários) apagando as
velas acesas a todos os deuses. Por que é que nas Universidades - que sempre
respondem abstratamente a problemas também abstratos - a “moda” é descrer?
Porque a descrença é paralisante, é mais operacional ao Capital que seus
sacerdotes maiores sejam capazes de fazer descrer e alienar; “divide e
governa”, diz Maquiavel em O Príncipe.
Quando a maioria deixa de crer e luta e
trabalha para fazer deixar de crer, o mundo segue sendo o que é, um
interminável vale de lágrimas, até onde a vista alcança (massacres de
pessoas inocentes sob as mais diversas formas são apenas a ponta do
iceberg). Quando há crença, quando a fé é recolocada, muitos passam a, em
função da fé, trabalhar e lutar para a construção de um mundo melhor,
começamos a ver surgir no horizonte, finalmente, a belíssima Esperança, com
seu cortejo de Bondade e Beleza, Verdade e Justiça, trazendo luzes a um
tempo sombrio que tem tudo para ser muito feliz. Espero viver para vê-lo e
vivenciá-lo!
Primeira vítima do positivismo
Relendo a excelente
introdução do professor José Arthur Giannotti ao exemplar da coleção “Os
Pensadores”, relativa à vida e obra de Comte, presto atenção a algo que me
havia passado desapercebido antes: Clotilde de Vaux, sua grande musa
inspiradora, morreu um ano após travar contato com o pai do positivismo.
Exercícios de psicanálise ao longo da história são uma recomendação enfática
de gente do quilate de Peter Gay, por exemplo em Freud Para Historiadores.
Reflitamos acerca de uma possibilidade: seria exagero atribuir àquele
trágico encontro a causa maior daquele falecimento?
Augusto Comte foi, sem dúvida, um ser
atormentado. Uma alma angustiada e sofrida, sem jamais encontrar um porto
seguro, um ninho onde reclinar a cabeça - e não é este o caminho do gênio em
nossa sociedade?
Por um momento assaz
fugidio, brilhou um breve estrela. Na verdade menos que um fogo-fátuo que
Comte considerou suprema ventura; tinha 50 anos de idade quando conheceu
Clotilde de Vaux. Uma paixão absolutamente avassaladora que, reza a
tradição, não foi levada a termo pois ela, embora separada de seu marido -
preso - considerava o casamento uma união indissolúvel.
Aquela jovem trouxe uma
aragem, uma brisa matinal, sorridente e fresca, à árida alma do filósofo.
Justo que lhe ficasse devedor, admirado, apaixonado. Aquela atenção tão
próxima - fato absolutamente inédito na existência do grande gênio - oriunda
de tão meiga, gentil e idealizada figura feminina foi o quanto bastou para
que Comte fosse tomado de todo por um belíssimo Coup de Foudre (“Paixão
Avassaladora).
Para a alma atormentada e
árida do pai do positivismo, aquele breve repouso em tão cálida amizade
feminina foi uma das melhores coisas que aconteceram em sua existência.
Realizou-se, completou-se e, com certeza, confessou-lhe sempre seu infinito
amor, direta ou implicitamente.
Acontece que os elevados princípios morais
da moça - que Comte tanto admirava (princípios e moça) - não lhes permitiam
levar a cabo o que ambos desejavam ardentemente.
Ele, “descasado”, sem
qualquer tipo de restrição moralista quanto a isto para si mesmo, podia
extravasar em sua plenitude e constantemente tudo o que sentia, repita-se
diretamente ou através de metáforas, brindando-a com longas conversas
brilhantes nas quais, subjazendo a enorme erudição do filósofo estava sempre
- novamente - implícito o seu desejo. Sem problemas psicológicos, sem
crises, sem conflitos de qualquer natureza quanto àquele relacionamento, sua
saúde física, mas particularmente mental dificilmente poderia ser melhor!
Já a jovem Clotilde de
Vaux, abrasada por um enorme desejo carnal pelo filósofo, desejo que não
ousava confessar sequer a si mesma, via seu mundo desmoronar. Já não amava
ou desejava o marido, distante e preso; além disso, amava e desejava
ardentemente alguém que lhe era interdito. Não é muito supor que a isto se
siga uma severa crise depressiva, baixa no tônus vital e capacidade de
reagir a males e doenças e, conseqüentemente, morte.
Como sabemos, nos anos
que se seguiram a quantidade de cadáveres acumulados, vitimados, em última
análise, por dirigentes políticos tributários em grande medida daquele
pensador francês (e não poucos aqui mesmo, em nosso Brasil...) tem sido,
literalmente, astronômica. Com tudo isso, Clotilde de Vaux foi o caso mais
dramático e mais próximo.
Não creio ser operacional
descartar a hipótese de Comte haver sido levado a trazer o seu rosto como
símbolo da “Humanidade” na nova religião que fundou, como forma de expiar-se
por sua parcela de culpa na morte daquela que foi, sem sombra de dúvida, a
primeira vítima do positivismo...
Messianismo
“A ciência sem a religião é manca, a
religião sem a ciência é cega!” Albert Einstein
“O importante não é o que um homem diz de
sua fé, mas o que essa fé faz esse homem realizar” Roger Garaudy
“Uma teoria só se concretiza num povo na
medida em que é a concretização de suas necessidades” Karl Marx
A dimensão profética é
uma dimensão básica da constituição humana. A filosofia hindu, por exemplo,
informa que “sempre que a justiça fraqueja na Terra, Deus encarna no mundo”.
No Alcorão está escrito que “Deus sempre envia profetas que falem em
linguagem compreensível ao povo”.
Os sociólogos definem “cientificamente” a
espera messiânica como a ânsia pela vinda de um enviado divino que, dotado
de poderes extraordinários, restaurará a ordem entre aqueles que nele crêem.
Weber toma de empréstimo
à teologia cristã a expressão “carisma”, literalmente “dom da graça” e
informa que os líderes carismáticos são aqueles que conseguem, por
demonstrar qualidades sobre-humanas (exagerada capacidade bélica, de
liderança, oratória ou outra qualidade superior ao comum dos mortais),
conglomerar em torno de si grupos significativos de pessoas que passam a
nele crer e, dentro do grupo, a palavra do líder carismático transforma-se
na mais plena expressão da verdade (magister dixit, como no medioevo...)
Entre os milhares de
líderes carismáticos que conhecemos ou de que ouvimos falar podemos citar, a
título de mero exemplo e guardadas as suas devidas proporções de espaço,
tempo, missão e propósitos os Profetas Bíblicos, Maomé, Lênin, Mahatma
Gandhi, Hitler, Stálin, Mussolini, Antônio Conselheiro, Fidel Castro,
Muammar Khadafi, Saddam Hussein e por aí vai. Enfatizo não estar fazendo
aqui qualquer colocação de cunho ético ou valorativo. Trata-se da mera
constatação do fato de aquelas pessoas supracitadas serem líderes
carismáticos que, durante um bom tempo, conseguiram conglomerar um
significativo número de adeptos e fiéis às suas prédicas (não está aqui em
questão, passe a redundância, se foram líderes de seus povos para o bem ou
para o mal seja qual for a acepção que se queira dar a estes termos). Para o
que estamos aqui observando, a palavra messiânico como definida acima também
se aplica.
Mariátegui, sociólogo
peruano, informa em O Homem e o Mito que a revolução científico-racionalista
do ocidente deixou um grande vazio no homem, uma vez que, tanto a razão
quanto a ciência não podem constituir-se em mitos, não têm o poder de mover
as massas à ação. Na modernidade, pensadores como Joseph Campbell, anseiam
pelo surgimento de um mito novo, de uma nova religião mesmo que, como todas
as outras surgidas no mundo, possa dar conta dos aspectos mais avançados de
nosso tempo, sejam eles o ético, o jurídico, o científico... A nova
religião, da qual ouvimos notícias embrionárias aqui e ali, precisa ser,
como o foram todas as outras em seu tempo, de ponta em todos os aspectos do
conhecimento e da vivência humana, com particular ênfase à dimensão ética.
Quase desnecessário
enfatizar que uma liderança carismática surge nos momentos de maior crise em
uma dada comunidade.
Em todos os tempos há
pessoas que surgem com pregações diferentes ou inovadoras, nem sempre
encontrando eco às suas prédicas. Quando o que dizem e principalmente o que
fazem está em sintonia com a situação prática da vida das pessoas, surge
fulgurante o fenômeno do messianismo. Talvez estejamos vivendo um tempo
assim em escala global, quem poderá dizê-lo são os pósteros, claro. Há os
que surgem com pregações em nada ou quase nada sincronizadas com a vida do
povo. Estes, normalmente, são tidos e havidos como tresloucados, lunáticos,
coisas assim, não passando mesmo de alienados mentais.
Quando em momentos de
crise em qualquer comunidade humana, surgem estas tentativas desesperadas de
ver alguma ordem no caos que ameaça imperar ou já impera. No Brasil, por
exemplo, quando ainda o chamavam de Pindorama, os Tupinambás, segundo nos
relata Pierre Clastres em A Sociedade Contra o Estado, viviam uma situação
de superpopulação, carências materiais e crise de autoridade. Muitos seguiam
verdadeiros “messias” - na acepção antropológica do termo - saindo do
litoral em direção à Amazônia, onde haveria “uma terra sem mal”. Vale
ressaltar que os Tupinambás há muito deixaram de existir. Contra eles os
colonizadores, nossos ancestrais, praticaram o genocídio sem a menor
contemplação.
Segundo Douglas Teixeira
Monteiro em Um Confronto Entre Juazeiro, Canudos e o Contestado, na segunda
metade do século XIX houve por um lado uma grave crise no sertão nordestino
e, por outro, um estímulo do Vaticano a um revivescer da fé católica, com o
apoio institucional da Igreja, mesmo, vários leigos eram levados a
aproximar-se mais da religião e, dentro dos rudimentos de sua capacidade de
compreensão, assim como daquela gente simples a quem se dirigiam, a mensagem
evangélica era retransmitida.
Neste contexto surgem
pregadores os mais diversos, dentre os quais Antônio Vicente Mendes Maciel,
o “Conselheiro”, “um gnóstico bronco”, “um heresiarca do século II em plena
idade moderna”, “um monstro”, segundo ajuíza Euclides da Cunha em Os
Sertões. Um homem do povo que, falando na língua do povo, dizia o que o povo
queria e precisava ouvir e fazia o possível para suplantar o caos em seu
tempo pelo menos até onde chegava sua esfera de influência.
Conglomerando milhares de
adeptos ao seu redor, tentando construir um projeto civilizatório diferente,
atraiu a si a fúria, em primeiro lugar dos “coronéis” das redondezas
privados da mão-de-obra barata que, evidentemente, preferia ir para o Belo
Monte com toda a beleza poética e profética que a circundava a trabalhar em
condições muito pouco satisfatórias. Isso, claro, quando havia serviço no
sertão... Por outro lado, bastante ligado às tradições católicas, Antônio
Vicente Mendes Maciel protesta e luta contra a república - não que tivesse
qualquer contato ou vínculo com os Orleans e Bragança, sua pregação era
sebastianista! Com efeito, o orgulhoso positivismo republicano tirou da
Igreja uma série de prerrogativas, por exemplo com a criação do casamento
civil e a laicização dos cemitérios... Lutando com dificuldade - e
conseguindo - melhorias existenciais para sua gente, Antônio Conselheiro
acaba por atrair a repressão brutal de uma república incipiente, acaba por
atrair a ira fanática daqueles que o julgavam (ou assim faziam crer através
de maciça propaganda) “um monarquista disposto a lutar pela restauração do
império de Pedro II” quando na verdade, o que ele queria mesmo era ver o
império da “lei de Deus”, contra a “lei do Cão” da república velha.
Como várias outras
tentativas de construção utópica na concretude, é brutalmente combatido - e
ao lermos a Obra máxima de Euclides da Cunha verificamos que fica
estarrecido com a barbárie de que é capaz a tropa republicana; não menos,
aliás, que o fica com o “fanatismo” dos conselheiristas...
No Brasil inúmeros foram
os casos de tentativas de implantação de um projeto civilizatório diferente,
todos implacavelmente massacrados pela sociedade afluente: Palmares, Colônia
Cecília, a República Comunista Cristã dos Guaranis, Canudos, o Contestado...
Somente os episódios que tiveram evento em Canudos contaram com a cobertura
de alguém do porte genial de Euclides da Cunha, deixando-nos o legado de ter
mais amor, compreensão e tolerância para com o diferente, enfim. Cada
comunidade humana tem um pouco de diferente, de crenças e convicções aí meio
esquisitonas mas todos somos irmãos afinal; como galhos da mesma árvore ou
ondas de um mesmo oceano.
As idéias e a cicuta
"Si vivi vicissent qui morte vicerunt"
(Como tudo seria diferente se vencessem na
vida aqueles
que venceram na morte...) Cícero
Buscando na história
pistas possíveis para soluções aos problemas contemporâneos, deparamo-nos
com fenômenos em certa medida repetitivos e quase sempre ineficientes.
Atenas, Grécia, quinto
século antes de Cristo: Sócrates é condenado à morte, em última análise, por
atentar contra a democracia ateniense (é o que defende, por exemplo I. F.
Stone em O Julgamento de Sócrates, Cia das Letras, 1988). Ao invés do
governo do povo ou democracia, pregava o governo “daquele que sabe” liderar
um povo como um pastor lidera suas ovelhas. Se nos recordarmos que o pastor
cuida de suas ovelhas para tosquiá-las, ordenhá-las e sacrificá-las,
tendemos a refletir se esta seria a melhor forma de encaminhamento para a
coisa pública... De mais a mais, dotados que somos todos nós de razão, quem
pode ousar supor saber gerir melhor a nossa vida que cada um de nós?
Sócrates, por sua pregação autoritária, antidemocrática, atraiu a si a ira
da democracia ateniense que, contudo, sendo ele já um ancião digno de
consideração e respeito, é contemplado com a possibilidade de propor um
apenamento alternativo. Arrogantemente afrontando os membros da Agora,
informa julgar que esteve fazendo um bem, não um mal à juventude ateniense
e, em conseqüência, propõe ser sustentado no Pritaneu - algo equivalente a
um condomínio de luxo nos jardins paulistanos com todas as despesas pagas...
Propusesse ele pagar uma moeda que fosse e a Agora, satisfeita, comutaria a
pena, por exemplo ao ostracismo - ser expulso da cidade por um dado período.
Sócrates prefere morrer pelas idéias que julga corretas. Ocorre que suas
idéias aristocráticas, não “bebendo cicuta” com ele, permanecem nos corações
e mentes de todos os que até hoje idolatram as mais diversas formas de
autoritarismo pelo mundo afora.
Palestina,
aproximadamente ano 30 da nossa era; Jesus de Nazaré, por seu apego
inamovível à verdade e à justiça, à bondade e à beleza, num mundo impregnado
de regras políticas e religiosas exageradamente rígidas, desagrada
autoridades civis e eclesiásticas de seu tempo, sendo por isso condenado à
morte infamante na cruz em pleno feriado judaico, o mais importante deles,
por sinal, a Páscoa, momento em que todos se uniam em preces e recordações
da libertação miraculosa do cativeiro no Egito, liderados que foram por
Moisés.
Como se sabe, as idéias de Cristo não foram
crucificadas com ele e, na época heróica do cristianismo, ganharam a maioria
do povo. Hoje deploravelmente, alguns dos cultores do Cristo, chamam a si
mesmos de “cristãos” mas apenas lhe prestam honras com palavras. Sua memória
e sua suas obras não têm sido honradas na prática cotidiana dos que se dizem
seguidores do divino Mestre.
Minas Gerais, fins do século dezenove;
ecoando idéias de liberdade que grassavam na Europa e América do Norte, um
grupo romântico de brasileiros procura viabilizar um projeto político sério
para o Brasil, principalmente cortando a evasão de divisas para o exterior
(é bem antiga esta demanda, como se percebe). Os principais integrantes da
chamada “Inconfidência Mineira” foram condenados à morte, pena comutada ao
degredo, com exceção daquele que foi então considerado o líder, o alferes
Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes. Hoje questiona-se se um simples
alferes lideraria um movimento que era composto inclusive por coronéis,
juizes e altos sacerdotes... Somente ele, que hoje é visto por muitos
historiadores como um “bode expiatório” daquela coisa toda, foi enforcado e
esquartejado.
Como os esbirros da
Metrópole, então Portugal, não tiveram com as idéias o mesmo tipo de sucesso
que tiveram com os corpos de alguns de seus portadores, cerca de meio século
depois o Brasil conquista sua emancipação política e, um século a seguir,
chegamos à república, não propriamente a república desejável, como já nos
dizia Euclides da Cunha, mas avançou-se, pelo menos. É muito útil recordar
estes sacrifícios todos para que não venhamos a, desprezando-os, dificultar
novos avanços, exigência dos tempos.
Da história nos ficam algumas lições
tremendamente significativas: podem-se matar homens, mas não se pode obrigar
suas idéias a beber cicuta, crucificá-las, enforcá-las, esquartejá-las ou
degredá-las. Cada pequena lanterna intelectual que se apaga pela
intolerância política ou religiosa de uns poucos traz severo ônus à humana
espécie, senão vejamos; que rumos teria tomado a história do ocidente se ao
invés de ser condenado à morte Sócrates houvesse tido a oportunidade de
defender livremente suas idéias autoritárias? Talvez a participação política
dos cidadãos fosse ainda mais ampliada e, ao invés de termos uma democracia
representativa, restrita, tivéssemos o que os gregos conseguiram em Atenas,
uma democracia direta, com plena participação de todos os cidadãos nas
decisões de todas as temáticas afeitas à coletividade, enfim. Dizem - não
posso dar testemunho ocular deste fato - que na Suíça contemporânea é
praticamente assim que as coisas funcionam no mundo político, com plena
participação e poder decisório de todos os cidadãos que são chamados a
opinar acerca de todos os temas coletivos por telefone, correio ou, hoje em
dia, Internet...
De todo modo, já está
mais do que comprovado historicamente ser muitíssimo mais vantajoso a todos
discutir abertamente todas as idéias e opiniões possíveis e imagináveis, de
maneira tal que possamos sempre evitar novas injustiças e, baseados na
aceitação mais plena possível do princípio da igualdade jurídica entre todos
os seres humanos, possamos chegar a formas mais plenas e saudáveis de
convívio social. Que possamos chegar bem próximos pelo menos do tão almejado
consenso.
Um pouquinho de teoria
Um tipo específico de
racionalidade, que compreende o Universo como um todo, com todas as coisas
harmoniosamente interligadas e se desenvolvendo continuamente numa relação
dialética sucumbe de maneira triste e dificilmente reversível num período
histórico em que outro tipo de racionalidade torna-se hegemônica.
Reporto-me aqui à
professora Orsely Guimarães, do departamento de filosofia da UFF que, em
sala de aula defendia estas posturas e anunciava “para breve” uma publicação
a respeito. Até onde me é dado saber, sua publicação ou suas teses lúcidas e
bem fundamentadas jamais vieram a público. São contudo, posturas sérias, com
grande embasamento teórico e gostaria de aqui, a partir de suas colocações,
propor uma reflexão de temas do Brasil contemporâneo.
Em primeiro lugar, reunir
e enfeixar sob a denominação absurda e até pejorativa de “pré-socráticos”
uma série enorme de pensadores (alguns inclusive contemporâneos de Sócrates,
como Protágoras, outros posteriores a ele como às vezes fazem com Epicuro...),
é um sinal da vitória secular de um tipo específico de racionalidade em
detrimento de diversas outras possíveis.
Em segundo lugar, dois dos maiores
seguidores do pensamento socrático, Platão e Aristóteles, fundaram
estabelecimentos de ensino que têm séculos de predominância: a Academia e o
Liceu.
A Academia deve seu nome
por funcionar, sob a égide de Platão, nos jardins do herói ateniense
Academo; seu mais eminente discípulo, que tornou-se referencial obrigatório
para o conhecimento da Idade Média, Aristóteles (e o fato de haver ele sido
preceptor de Alexandre Magno, da Macedônia, mostra claramente o quão
“confiável” aos poderes constituídos este gigante do pensamento humano era),
ministrava suas aulas em diálogos e passeios pelo bosque dos lobos, lukeion
em grego, sendo o nome do terreno de propriedade de Apolo Lyceo. O fato de
estar o mundo ocidental polvilhado de academias e liceus é claro indício do
predomínio do tipo de racionalidade pregado e proposto por estes dois
grandes gênios do pensamento humano.
É verdadeiramente
lamentável que ensinamentos de pensadores do quilate de Epicuro, Demócrito,
Protágoras mas fundamentalmente Heráclito de Éfeso fiquem silenciados, sem
desenvolvimento posterior até meados do século passado é sinal transparente
da vitória - política por definição - de um determinado tipo de
racionalidade, em detrimento de todos os outros; é possível traçar-se uma
linha que nos conduz do pensamento socrático-platônico-aristotélico até o
positivismo francês e suas coletas autoritárias pelo mundo afora.
Mas quantas estradas
abertas dentro das potencialidades físicas e intelectuais humanas não terão
sido interditadas em nome da racionalidade vitoriosa, quantos pensadores
mais não terão desenvolvido suas idéias ao longo de sua vida porém, sem
encontrar quem tivesse suficientes virtude e fortuna para dar-lhes
prosseguimento, minguaram, murcharam e desapareceram da contemplação
erudita...
É justo deduzir que o
tipo de racionalidade fundado na Grécia por aqueles três gigantes do
pensamento humano em sucessão, acabam por desembocar no Modo de Produção
Capitalista ao nível da infraestrutura e, no da superestrutura a
“compartimentalização dos saberes”.
Até que Hegel e Nietzsche
fizessem a redescoberta de Heráclito de Éfeso em meados do século passado,
toda a forma de pensamento que apontava na direção de uma inter-relação
dialética entre todos os fenômenos da vida - que se pode constatar
empiricamente, por sinal! - esteve praticamente fora do cenário intelectual
e assim, chegamos às super-especializações específicas, sentindo falta do
incentivo a um desenvolvimento mínimo de consideráveis parcelas do potencial
humano.
Como tudo seria diferente
se tivéssemos mais jardins epicuristas e menos academias e liceus. Que
avanço humanista isto representaria para a pedagogia brasileira!
Que carreira seguir?
“... que nos mantenhamos, sem qualquer
reticência, às ordens da Transcendência, a única pátria do verdadeiro
pensamento”
Louis Aragon
Ao término do segundo
grau - fim do período “obrigatório” de estudos - o jovem se encontra numa
encruzilhada, com uma miríade de caminhos possíveis à sua frente. E agora?
Advogado, Policial, Médico, Poeta, Carpinteiro, Agricultor, Professor,
Engenheiro, Empresário, Artista... São tantas as opções, tantos clamores de
tantos lados diferentes que se fica meio “perdido”, mesmo, particularmente
se tomarmos em conta a tenra idade em que se tem de decidir a profissão para
o resto da vida! Às vezes demoramos bastante até que encontremos nossa
verdadeira vocação. A maioria das pessoas, segundo recente pesquisa da OIT
(Organização Internacional do Trabalho), realiza tarefas que não têm
absolutamente nada a ver com suas pulsões internas, particularmente no
terceiro mundo, onde a questão monetária se impõe como um pesadelo do qual
não se consegue despertar.
Há tempos ouvi de uma
jovenzinha aí com seus 17 anos a seguinte assertiva: “Estou concluindo o
cursinho pré-vestibular. ADORARIA ser psicóloga, mas o campo não está bom
neste setor, de maneira que vou cursar administração de empresas. Depois
realizo o meu sonho”. Este adiamento sistemático dos sonhos tornou-se a
tônica geral destes tempos de crise interminável que vivemos. Não se pode,
claro, abstrair pura e simplesmente a questão pecuniária. O Capital, antigo
vampiro sugador de sangue humano, tem suas exigências e há que cumpri-las,
goste-se disso ou não!
E a vocação, como é que
fica?
A moça do exemplo acima,
é hoje próspera em sua função, casada e, quando questionada sobre o antigo
sonho diz: “Ah... Aquilo era coisa de adolescente, na vida real os sonhos
não se realizam...”
Ao término do segundo
grau, o jovem já sabe quais são os anseios de seus pais quanto à carreira
profissional que ele deve seguir - já ouvi de alguns brincalhões coisas como
“a vocação de meu pai é que eu seja agrônomo” ou o que o valha - quais os
anseios de seus amigos e até mesmo tem ouvido o aconselhamento de
professores. Caso se esforce um pouco descobre ainda o que é que o Capital
quer num dado momento: hoje medicina “dá mais dinheiro”, ou informática, ou
engenharia. Mas e as pulsões internas, os anseios íntimos, como descobrir
precisamente o que desejo mesmo e como chegar lá?
Deve-se ter em mente que
se tem, ao cabo da adolescência, pelo menos mais setenta anos pela frente e
ninguém vai vivê-los no lugar do interessado. Cada jovem deve parar em
momentos meditativos e fazer a si mesmo a pergunta básica: ONDE ESTÁ O
CAMINHO DA MINHA BEM-AVENTURANÇA? O quê me faz feliz? Que atividade
laborativa posso exercer com alegria? O que afinal me realiza como gente?
Descoberta a vocação
íntima é agarrar-se a ela e, apesar de tudo e de todos, ou com sorte
contando com algum apoio, mover céus e terras para fazer neste mundo o que
veio fazer.
De que adianta ser um
razoável administrador se tem tudo para ser um extraordinário psicólogo?
Qual o valor de um diploma de medicina a ser entregue e demonstrado - com
orgulho até - a quem tanto insistiu e trabalhou para que se seguisse aquela
carreira se o coração mora na filosofia?
Siga a sua bem-aventurança, sempre. Eis o
segredo do sucesso.
A Pérola
Dizem algumas tradições
muito antigas que nossas almas viviam no seio da Criação até que um dia cada
um de nós sentisse uma forte compulsão a resgatar a pérola preciosa, perdida
do paraíso desde a queda de Lúcifer. Ao chegarmos no mundo, tantos são os
clamores e distrações a nos atraírem a atenção que nos esquecemos
completamente da pérola passando a prestar atenção a uma porção de coisas
ilusórias que aprendemos a chamar - às vezes até a deplorar - de cotidiano,
o cotidiano mesquinho, amesquinhante e amesquinhador. Esquecermo-nos da
pérola e passarmos a pensar em termos prático-pragmático é um dos mais
severos equívocos a que estamos sujeitos. By, by, redenção, transcendência;
olá, olá, dinheiro, materialidade, carnalidade... É preciso muito cuidado
com tudo isso!
Surrealismo, a mais elevada
expressão do Humanismo na modernidade
“... o surrealismo é um movimento de
liberação total, não uma
escola poética. Via de reconquista da
linguagem inocente e renovação do pacto primordial, a poesia é a escritura
de fundação do
homem. O surrealismo é revolucionário
porque é uma volta ao
princípio do princípio.” Octavio Paz
Ponte entre a psicanálise
e a revolução social, pregando “Mudar a vida! Transformar o mundo!, os
surrealistas insurgem-se contra a “ordem” estabelecida que amesquinha e
avilta o ser humano, proclamando, com firmeza, a insubmissão a todas as
normas estabelecidas, a onipotência e superioridade do sonho e do
inconsciente sobre o real, o desregramento de todos os sentidos, o poder
redentor do humano existente em todas as formas de paixão - e quanto mais
desmesurada e louca, mais bela será, a paixão.
Como se vê, é
praticamente impossível expressar seja o que for sobre o surrealismo de
maneira fria, ponderada e imparcial. O chamado racionalismo, estrito e
estreito por definição, não pode apreender o surreal em sua plenitude. Este
movimento é a maior acusação levantada contra a cisão, historicamente
provocada, entre Razão e Paixão no Ocidente. Retomando a temática
surrealista, os principais filósofos da Escola de Frankfurt (Marcuse, Fromm,
Benjamin, Adorno, Horkheimer, Bloch) propõem a busca de uma “re-erotização”
da Razão ou, o que vem a ser o mesmo, a busca de uma Razão Apaixonada!
André Breton, principal
expoente do movimento surrealista, em Arcano 17 proclama: “É vital que o
homem se passe, de armas e bagagens, para o lado do homem”. Insurgir-se
contra as regras estabelecidas não significa - ao contrário! - agredir ou
trazer qualquer forma de violência contra o humano. É antes contra tudo o
que tolhe o humano que se insurge o surrealismo. “Será preciso começar por
retirar da guerra todos os seus títulos de nobreza!”, proclama Breton na
Obra supracitada. Trata-se de um magnífico poema em prosa à mulher amada que
condensa todas as esperanças dos surrealistas numa nova era, num mundo novo,
transformado, onde não mais exista a figura do animal humano irado, raivoso,
esbravejando ou lutando contra seu semelhante. Na civilização surrealista,
na Sociedade do Futuro, o homem encontrará finalmente a plenitude da
harmonia com o mundo.
Seria um exagero afirmar
que os surrealistas, ao se insurgirem contra todas as formas de expressão
religiosa também não estariam, no fundo, buscando uma nova forma de pacto
político-social e, por que não, também religioso? Ou, quem sabe, estariam no
epicentro de uma monumental proposta pan-ecumênica, fermentando o nascimento
do homem novo na nova sociedade humana...
Haveria, então uma
“natureza humana”? Contrariamente ao que afirmam os sociólogos positivistas
Breton dirá que sim sem dar espaços contudo a visões maniqueístas.
Convidando a pensar nos primórdios (bebês, por exemplo) dirá que o ser
humano é essencialmente inocente, sendo portanto todas as suas falhas
circunstanciais, socialmente determinadas e portanto social e
individualmente superáveis.
Como encontrar o acesso à
magia, ao reencantamento do mundo, sem a religião? Através da poesia, dos
sonhos, do amor louco, do escândalo, da ida ao encontro do acaso objetivo,
da disponibilidade para o humano, sempre!
Toda a ética, assim como a estética
surrealista é fruto do inconsciente. No primeiro Manifesto do Surrealismo,
Breton nos ensina os segredos da arte mágica surrealista: “Faça com que lhe
tragam com o que escrever depois de ter encontrado um local, tão favorável
quanto possível, para a concentração de seu espírito nele mesmo. Coloque-se
no estado mais passivo ou receptivo que puder. Abstraia sua genialidade,
talento e também o dos outros. Diga que a literatura é um dos mais tristes
caminhos que levam a qualquer lugar. Escreva rapidamente, sem tema
preconcebido (...) continue pelo tempo que quiser. Fie-se no caráter
inesgotável do murmúrio.”
Daí poder-se dizer que,
longe do que pensam alguns “críticos” miseravelmente racionalistas, o
surrealismo nada tem de “irrealismo” sendo, ao contrário, a busca
intransigente de uma supra-realidade. Seu ponto de partida é o próprio cerne
do que há de mais elevado e sublime no coração de cada ser humano. Superando
as tensões e as más-caras que a burguesia utiliza e quer obrigar a todos a
utilizar também, o surrealismo busca atingir e expressar a transparência do
sonho.
Na esfera do amor louco,
eletivo, a mulher, via de reconciliação do homem com a natureza, é ADORADA.
Os surrealistas são, neste particular, herdeiros modernos dos românticos. De
fato, a mulher mantém, pela sua composição biológica e formação social
milenar, em medida muito mais expressiva que o homem, uma forma de vida mais
inocentemente ligada ao mistério e à magia. A beleza da mulher, promessa de
felicidade, é um atentado vivo ao “princípio de desempenho” da sociedade
afluente, como bem o enfatiza o frankfurtiano Herbert Marcuse em Eros e
Civilização. O amor louco deve ser recíproco e único. Existe um e apenas um
ser humano do sexo oposto em todo o planeta que efetivamente é o complemento
necessário de cada um. As escolhas infelizes que, por vezes, fazemos,
devem-se sobretudo às condições sociais sórdidas em que nos encontramos,
onde vemos brutalmente tolhida, cerceada nossa liberdade de escolha.
Transformar a vida em
poesia. Que o ato de amor seja um ato poético em sua mais elevada inteireza.
E que todo o ato humano seja um ato de amor. Manter elevada a esperança.
Construir, com a consciência antecipadora, o mais lindo dos castelos de
sonhos, unindo poesia e transformação social, a seguir mover céus e terras
para dar-lhe expressão no mundo real. Esta a motivação maior dos
surrealistas de todos os tempos e Nações. Aliás, fronteiras, pátrias,
espaço, tempo, tudo isso é considerado ilusório, questionável por todos os
surrealistas.
O “facteur Cheval”
“Como o dia depende da inocência, o mundo
inteiro depende
de teus olhos puros” Paul Éluard
Ferdinand Cheval, quando
funcionário dos correios, tinha um sonho louco, uma idéia fixa, uma
esperança a um só tempo fanática e fantástica: construir um castelo. Iniciou
a construção aos 43 anos de idade com os piores recursos da sorte. Pedras
que ele mesmo carregava num carrinho de mão debaixo de chacotas... Durou 32
anos a construção do castelo Cheval em Hauterives, região do Drôme, França,
que hoje ainda está orgulhosamente de pé, à disposição de quantos queiram
conhecê-lo. No castelo, dizem os que o viram, encontra-se uma prodigiosa
mistura de todos os estilos artísticos e arquitetônicos, do gótico ao hindu,
passando pelo árabe e românico. Não por acaso os surrealistas chamam a
atenção, quando as dificuldades do mundo prático-pragmático parecem
intransponíveis para o famoso facteur Cheval, que possibilita romper com as
pesadas cadeias da lógica formal e, erguendo alto a bandeira da imaginação e
da Esperança, com muita labuta, vencer qualquer dificuldade.
Os positivistas, em
geral, vêem o mundo de maneira lógica, formal, racional-cientificista, FEIO,
em síntese. Às vezes me parece que, para eles, as coisas do mundo só fazem
sentido se passíveis de redução a “bits” de computadores... A pergunta “qual
o significado de uma flor?” para eles soa ridícula ou incompreensível. Sinto
uma compaixão enorme desta gente desumanizada. A resposta à questão colocada
foi dada pelo místico Ângelus Silésius, séculos atrás, mas pouco sentido
fará aos positivistas, por mais linda que seja a sua mensagem: “Die Rose
ist ohne warum, Sie blüet weil Sie blüet" “A Rosa é sem por quê.
Floresce porque floresce!”.
É preciso re-humanizar
também a Natureza. O Capital coisificou o homem, o surreal quer humanizar a
coisa. É preciso ver o mundo com olhos novos mesmo, reaprender a apreciar o
encantamento existente na vida!
Quedar-se extasiado ante um belo por-do-sol,
às vésperas do luar e não dizer nem tentar explicar nada - sempre que
possível, claro, em boa companhia... Se lágrimas vierem aos olhos,
maravilha! Ver uma árvore florida e perceber o quanto de amor e vida está
ali contido. Sabe de uma coisa? Se você olhar BEM, com os olhos do coração,
como diria talvez Exupéry, no fundo do olhar de uma criança a sorrir está
Deus a sorrir para você...
Às vezes o “tique-taque”
do cotidiano mesquinho, medíocre, amesquinhante, mediocrizante, nos impede
de perceber que há coisas muito maiores, coisas que passam por nós e nem
mesmo percebemos por causa da droga da rotina.
Mas enquanto houver
por-de-sol, luar, flores, lágrimas, casais de namorados e crianças a sorrir
a Esperança ainda morará nesta terra.
Mito e Natureza
“Todas as pesquisas da inteligência
contemporânea sobre a crise mundial deságuam nesta unânime conclusão: a
civilização burguesa sofre da ausência de um mito, de uma fé, de uma
Esperança.
Ausência que é a expressão de sua falência
material”
José Carlos Mariátegui
Há tempos anseio
condições objetivas - que as subjetivas sobejam, graças a Deus - que
favoreçam o desenvolvimento de uma pesquisa intensiva e extensiva na direção
da Verdade. Suspeito haver traços significativos de verdade em todas as
visões de mundo (religiosas, científicas, filosóficas, etc) existentes. Até
por isso, quando não são declaradamente eivadas de má-fé ou mentira, as
respeito a todas. Captar-lhes a quintessência em busca de uma construção de
proposta universalizante e unificadora, minha ambição maior.
Quando encontramos algum tipo de postulação que confirme aquilo de que
desconfiamos ou suspeitamos, somos inevitavelmente tomados de intensa
emoção. Tal aconteceu comigo ao travar contato com o antropólogo
norte-americano Joseph Campbell (falecido a 1987). Houve pelo menos um ser
humano que dedicou sua vida ao estudo sério e aprofundado da mitologia
comparada, do ponto de vista do agente e com plena sinceridade quanto a
isso. Dos bosquímanos aos esquimós, dos judaico-cristãos aos hindus, dos
zulus aos aztecas, todas as formações míticas apontam na direção da
existência efetiva de um algo além. Campbell desenvolveu teoria segundo a
qual todos os mitos religiosos apontam, cada qual a seu modo, na direção da
existência de um mundo invisível além deste imediato, cotidiano, controlado,
um mundo onde visível e invisível, sonho e vigília, homem e Deus, cessam de
ser apreendidos contraditoriamente. Um mundo no qual tudo conflui, apontando
na direção da Unidade!
O ser humano jamais viveu
de maneira fecunda e plena sem uma concepção unificadora, mitológico-social.
Em palavras claras: cada tempo histórico e cada povo tem o seu mito. Qual o
atual? Não há UM ainda, há vários, pulverizados, fragmentados,
antagônicos... É nesse sentido que Renato Russo fala em “Vento no Litoral”
ser “a própria fé o que destrói”. Há séculos não surge um mito novo que
ultrapasse a epiderme do tecido social ocidental. A ciência vem desbancando
e destronando todos os mitos sem nada colocar em seu lugar. Fica um vazio,
uma lacuna que a ciência não pode preencher. E aí reside a mensagem de
otimismo enviada pelo tempo, espaço e ondas hertzianas a todos nós pelo
professor Joseph Campbell: há um mito novo, cujas características se
esboçam, em processo de parturição. Mais: o ódio devotado a este mito pelas
vozes do passado é extremamente significativo. Também o cristianismo teve
problemas com as ortodoxias judaica e romana de seu tempo ao surgir
autenticamente no Oriente Médio expandindo-se como a grande religião do
Ocidente por dois mil anos. Aliás, também a ciência viu queimar muita
produção intelectual no altar da ortodoxia cristã medieval.
Fala-se, no surgimento de um mito novo, em Nova Era, na hipótese GAIA. Todo
o planeta como um gigantesco organismo vivo, com todas as coisas e seres
vivos relacionando-se de maneira interdependente e tendente à harmonia. A
psicanálise e a antropologia nos informam que alguns sujeitos, após alguma
forma traumática de cisão esquisofrênica, em geral na adolescência, visitam
um mundo diferente deste cotidiano e, quando regressam, o fazem como
autênticos porta-vozes de Divindades. Fenômeno também universal.
Este mesmo padrão se
repete em todas as sociedades humanas. Ora, “dois mais dois ainda são
quatro”. Surpreende que, ao longo do tempo surjam novos profetas, desta vez
como porta-vozes de algo como “A Consciência da Terra”? O profeta, em geral,
é aquele que se coloca sem restrições a serviço da Divindade, cuja boca fala
do que a Divindade tem a dizer aos demais mortais.
Falar em “Consciência da
Terra” seguramente encontrará entusiastas entre os ecologistas. Alguns de
seus profetas chegam mesmo a manifestar-se como se fosse a própria mãe-terra
falando: “parem de poluir meus rios, meu ar, minhas praias!” ou “Se
declarardes guerra à Natureza e fordes vencedores, triste vitória a vossa,
da qual sereis as principais vítimas.” Infelizmente se haverá de encontrar
também resistências por parte de uma certa ortodoxia que “informa”: “Só Deus
é Pai! E não há mãe! Endeusar a Natureza é uma forma de idolatria”. Também
os críticos do cristianismo nascente foram incapazes de decodificar-lhe os
signos.
O acompanhamento diário
dos noticiários causa-nos grande e cruel indignação: pastores sendo
aprisionados como estelionatários, bebês abandonados a morrer à míngua por
mães desesperadas, relações psicóticas provocando a morte de quem se lhes
interponha, rios e mares poluídos pegando fogo, fome, miséria, concentração
de rendas, guerras localizadas, corrupção, massacres... Cedo ou tarde, todo
este ódio ao humano e à Natureza, de que o humano é originário, se esgotará.
Aí virão incansáveis aqueles que se levantarão em defesa da Vida, lutando
sempre, com todas as forças para restabelecer a harmonia perdida.
“Ficar” ou não “ficar”, eis a
questão
“O homem, não podendo ser coisa, não
pode ser objeto de
propriedade” José Bonifácio
Conversando e convivendo
com jovens e adolescentes esta temática, percebemos que o “ficar” pode ser
oriundo de uma tentativa sincera de “acertar” o parceiro com quem se
dividirá a bela e dolorosa jornada pela vida afora ou, mais comumente, fruto
de um sistema e um tempo que transforma até mesmo as pessoas em objeto de
uso e trocas mercantis...
Assim como se usa uma
cadeira, um automóvel ou outro objeto qualquer, usa-se pessoas. Seja durante
a produção na linha de montagem de uma fábrica capitalista - quando se
contrata o esforço de músculos e nervos por um determinado tempo em troca de
um salário - seja quando se aposta com colegas quem consegue “ficar” com o
maior número de parceiras numa única noite.
Não se está aqui
criticando, evidentemente, quem busca com sinceridade de coração “acertar” e
sabemos sobejamente como isto é difícil no mundo em que o equívoco prima
sobre o unívoco.
Os problemas começam a se
manifestar quando há insinceridade, disputa, possessividade, uma
“insuportável leveza do ser”. Apaixonar-se, desejar ardentemente que alguém
especial nos deseje - e cabe aqui a clássica fórmula freudiana: “eu desejo o
desejo do outro” - faz parte da constituição humana que cada um de nós,
nesta esfera específica existe apenas pela metade. Quando estamos iniciando
nossa vivência neste campo, ficamos simplesmente hipnotizados por aquela
pessoa especial e tudo nos lembra dela: perfume, músicas, paisagens...
Quando começamos a olhar
as coisas e as vemos de maneira diferente é “batata”: estamos apaixonados!
Vamos a um restaurante com amigos e, face um cardápio variado pensamos
coisas como: “Ah... Se tão somente ela estivesse aqui para saborear este
acepipe comigo...” Ou se, ao caminharmos pelo comércio vemos coisas que em
outras circunstâncias deixariam de causar sequer indiferença e nos lembramos
dela e do quanto gostaria de se aproximar do que está exibido numa dada
vitrine. Nestes e noutros casos similares, quando aquela pessoa especial
freqüenta nossos sonhos, seja adormecidos, seja acordados a paixão,
prenúncio de um grande amor, está colocada.
Mais: se há correspondência plena à paixão
que se sente, é o paraíso. Caso contrário, é a danação! Uma das
características mais radicais do envolvimento amoroso é esta mesmo: ou
estamos no paraíso ou no inferno. Não há meio-termo ou “purgatório” sequer.
Em sendo a
correspondência plena, em havendo reciprocidade, comunhão de interesses e
gostos, fidelidade e até mesmo cumplicidade vive-se o paraíso na Terra. Caso
contrário, fica-se “de luto” por um certo período, passeia-se com amigos,
freqüenta outros ambientes, conhece-se gente nova, busca-se outras vivências
e a vida continua.
Estranha coisa é o
“ficar” vazio, interessado apenas no momento, no gostoso e gozoso “roçar da
pele”. Em sendo um “ficar” mais intenso, além dos perigos biológicos que
todos conhecemos há ainda os perigos de danos psicológicos de difícil
reversibilidade.
Uma pessoa que se
acostume a usar outras ou a ser usada por outras, tenderá a ver isto como
coisa natural e tenderá ainda a tornar-se incapacitada para o livre
desabrochar do Amor verdadeiro, pleno, único, recíproco. Não devemos também
nos enganar com relação a isto: quem mais critica os belos e sublimes
enamorados nada mais quer que “derreter-se” também, mas com honra! Mais
severa a crítica ao Amor realizado, maior o desejo de vivenciar coisa
parecida.
Situação diferente
encontramos no hábito estranho de “ficar” quando vemos, por exemplo, um
jovem chegar a uma festa, um baile, uma recepção que seja, disposto a
“abater o maior número possível de vítimas do sexo feminino” - o que já Don
Juan fazia - e, ao cabo gabar-se de haver estado intimamente com uma dezena
de meninas e pelo menos duas delas a sonhar com o início de um
relacionamento mais sério. Enquanto o rapaz pode sair da festa gabando-se de
haver “ficado” com uma dezena de meninas, uma delas pode sair da festa
pisando em nuvens enquanto pensa: “puxa vida, estou com um namorado novo...”
Claro está que quando se transforma até esta dimensão da vivência humana num
“negócio” pode-se vivenciar coisa parecida com sinais trocados, ou seja, uma
moça levando a vida levemente encontrando pelo menos um tolo incauto a
pensar que ela se tornou, a partir dali, sua namorada... A única ressalva
que cabe aqui é o fato de vivermos numa sociedade falocrática, machista
demais para admitir como válido este comportamento para as moças, enquanto o
aplaude nos rapazes...
Sim, embora a
Constituição preveja direitos iguais para todos, numa sociedade falocrática,
se o rapaz “fica” com várias moças acaba sendo alvo de inveja e aplausos dos
colegas. Caso a moça proceda assim a ela serão apodados uma série de
adjetivos menos abonadores da sua moral. Dois pesos e duas medidas,
portanto.
Concluindo, repito aqui o
que a tradição esotérica sugere há milênios: Siga seu coração! Tenha a
coragem de sentir e assumir o caminho que trilha. Se sentir que é este o seu
“caminho com coração”, vá em frente! Se o caminho que você escolheu
apresenta-se tedioso, frustrante, conflituoso ou mesmo destrutivo, tenha a
coragem de abandoná-lo e encontrar o seu “caminho com coração”.
Dizia o poeta: “É
impossível ser feliz sozinho”. Assevero que mal-acompanhado é ainda pior!
Alguns dizem que há outras vidas a viver depois desta. Outros que ao final
desta vida vem o juízo e a eternidade. Dando a importância concreta que esta
vida concreta tem, nem mais nem menos, o que se deve fazer em qualquer
circunstância é seguir o seu sonho o seu coração a sua bem-aventurança, o
que transporta você a visões e vivências transcendentais. A atingir esta
meta, qualquer preço é válido! Lembrando sempre o grande mandamento de “amar
ao próximo como a si mesmo” conceito vago a quem não consegue amar a si
mesmo antes de mais nada. Amar e respeitar, ver o outro com os olhos do
outro, tratar o outro como você gostaria de ser tratado, eis o resumo do que
aqui se coloca.
Amor pleno e recíproco: ver
Deus face a face
“Em todas as tradições espirituais, a união
do masculino e do feminino representa o retorno à Unidade Divina.
Ultrapassando as opressões puritanas e as complacências libertinas
disfarçadas de liberação, a sexualidade pode ser uma verdadeira meditação,
um autêntico caminho de transformação interior e de despertar da
consciência.” Cécile Sagne
Toda a tradição mística,
assim como toda a tradição científica - esta última bem mais recente no
cenário histórico, por sinal - quando fala dos primórdios, do início, do
surgimento, das origens - leva-nos a refletir que o diferenciado nasceu do
indiferenciado. Ou seja, todas as pesquisas de nossas civilizações informam
que no princípio havia o UM, do UM fez-se tudo o que mais existe.
A civilização ocidental,
enveredada e presa nas malhas do capitalismo, que faz ver toda e qualquer
atividade humana como atividade comercial, com valor de troca mercantil,
leva-nos a situações absurdas. O filósofo francês Jean-Paul Sartre, por
exemplo, dizia que, em nossa civilização, “O que diferencia a prostituição
do casamento burguês é o preço e a duração do contrato”. A mulher, o mais
das vezes, é vista como objeto da concupiscência masculina, quando assume
seu papel de passividade; quando resolve erguer-se à estatura de um ser
humano pleno e com iguais direitos e deveres que os do sexo masculino, via
de regra é vista como feiticeira perigosa, demoníaca, desafiadora, enfim. A
mulher, numa sociedade falocrática, está cada vez mais sendo afastada da
verdadeira experiência do Amor integral. “Fada ou feiticeira, anjo ou
demônio, qualquer coisa menos ela mesma...” De novo se vê aqui reeditado o
sadismo da sociedade ocidental, consumista, banindo para longe todo e
qualquer eivor do que seja o Amor Natural, mútuo e recíproco entre duas
pessoas que se completam, nas dimensões física, emocional, intelectual e
espiritual.
Os surrealistas,
herdeiros modernos dos românticos do século passado, vêem na mulher a única
via possível de reconciliação do homem com o mundo, uma vez haver ela
mantido praticamente inalterada a sua condição intuitiva, ligada à Terra-mãe
provedora, com ciclos, como a Lua - que partilha seu duplo etéreo com a
Terra também - e tudo o mais. Mas demorará ainda até que a sociedade
ocidental compreenda o que significa efetivamente a integralidade do que
seja o movimento surrealista e seus desdobramentos. Nesta esfera, por
exemplo, percebe-se claramente que o filósofo, o poeta, o artista surreal
enfim, só se relacionará plenamente com uma única mulher que lhe será a
companheira da vida inteira em toda a sua plenitude, que o verdadeiro
surrealista sabe encontrar seu complemento humano. Algo de impensável a
ridicularizável numa sociedade que, vale repetir, reduz tudo, até a relação
intersubjetiva a “jogos de interesse” ou, por outro lado, à concupiscência
lasciva, libertina ou ao puritanismo castrador, ambos imbecis faces da mesma
moeda falsa.
Se de nada valem as
relações “de conveniência”, tidas por todos aqueles que, em qualquer
tradição filosófica ou religião superior, tiveram uma experiência íntima com
a transcendência como algo menor, apequenador, amesquinhante, só sendo
válido o Amor pleno, imenso, mútuo e recíproco como retorno à Unidade,
jogamos o puritanismo e a fornicação na mesma vala comum: patologia!
Nossa querida Cécile
Sagne, em sua bela obra O Erotismo Sagrado, vai ainda um pouco mais longe,
colocando a conquista do Amor Único descrito acima como o mais belo e
eficiente passo na direção da completa Iluminação do Casal. A cabalista
britânica Dion Fortune informa: “o casal que chega à plena união de todas as
dimensões de seu ser não mais pode ser visto por olhos humanos, pois atingiu
um patamar completamente novo na existência dos seres”.
Fala-se, entre outras
coisas na Obra em pauta, do absurdo do puritanismo ( e isso quando praticado
mesmo, quando somente pregado vira pura hipocrisia, nem merece atenção.)
assim como da fornicação libertina (“uma masturbação a dois”, onde o ego
segue sendo o foco das atenções, não o UM ou o mágico nós intersubjetivo...)
acompanhei a leitura com grande aplauso em concordância. Ou o Amor é transe,
plenitude, natureza, reciprocidade e altruísmo ou não é sequer Amor! A
solidão é dolorosamente cruel. Mais cruel ainda a tentativa de união com a
pessoa errada. Mas a alternativa verdadeiramente redentora atravessa nosso
caminho pelo menos uma vez na vida, freqüentemente quando menos esperamos.
André Breton, principal epígono do surrealismo, por exemplo, encontrou
Elisa, já quarentão, com mais do dobro da idade de sua musa, com quem foi
alucinadamente feliz até o último de seus suspiros neste planeta. Mas
enquanto não a encontrou manteve-se irredutível. No Ocidente, os exemplos
famosos são raros, no Oriente antigo, ou seja, antes de a infecção
capitalista chegar por lá, esta era a regra. Hoje e por aqui é exceção. Como
diz Carlos Eduardo Novaes, o capitalismo funciona como “uma vara de condão
às avessas”: onde havia algo sincero, puro, poético e lindo hoje há apenas
um negócio e, se pensarmos bem, péssimo negócio para todos.
Com tudo isso, a
capacidade de regeneração do humano é surpreendente, até para os médicos. Se
a sociedade conseguir suplantar a ganância, grande e pior dos sintomas da
infecção capitalística, sobreviverá. Se a humana espécie sobreviver, toda
esta camada formada por séculos e mais séculos de hipocrisias, máscaras e
mentiras ruirá e o verdadeiro Amor, busca de União e até de transcendência,
voltará a ser regra, deixando de ser exceção. Só no amor humano reside toda
a possibilidade de regeneração do mundo! O resto, é mero detalhe.
A magia do matrimônio
Primeiro o encantamento à
distância, aquela significativa troca de olhares, breves diálogos, o toque
de mãos, o enrubescer-se, os inocentes beijinhos de despedida na porta da
casa dela, as juras de amor eterno, os planos para o futuro juntos quando
todos estiverem em paz com Mammon...
Em relacionamentos amorosos desta categoria algumas dificuldades são até
procuradas, pois que estimulantes e desafiadoras (ambiência plena dos
jovens!) mas não pode ser algo de impeditivo, um impedimento taxativo,
beirando interjeições-tabu por qualquer incompreensão das Escrituras, pois
isso tornaria a vida do novo casal um verdadeiro inferno. Obstáculos
transponíveis são desejados e desejáveis, bloqueios impeditivos são
repudiados, claro.
Nas circunstâncias
normais, o jovem, com um emprego razoável, em fase de conclusão de curso
superior (o que possibilitará o tempo necessário para que o casal se conheça
melhor na intimidade até a formatura, que deve ser próxima à data do
matrimônio, numa dupla celebração feliz). Uma moça da mesma faixa etária -
há mesmo quem defenda a idéia de que a moça deva ser uns anos mais jovem,
pessoalmente não creio que isto seja tão relevante - que comungue dos mesmos
ideais e propósitos completa o encantamento - nem o absurdo de uma união com
uma jovenzinha desmiolada, ainda adolescente, nem com uma pessoa egressa de
um relacionamento infeliz, para que uma vida nova a dois não comece a
partir da infelicidade.
Hipocrisias e
pseudo-moralismos à parte, não há nada que o brasileiro médio almeje mais
que ser o primeiro. A virgindade da mulher é uma coisa tão importante para o
homem quanto para ela mesma. Sei que entro num terreno polêmico por aqui -
nestes tempos de liberdades e libertinagens nada mais parece fazer sentido a
sério - mas faço minhas as palavras do padre Paul Eugenne Charboneau: “A
mulher fica definitivamente marcada, naturalmente submissa em seu próprio
corpo àquele a quem ela primeiro se entregou”. A partir deste conhecimento
aprendemos a repudiar com toda a ênfase do mundo agressões vexaminosas como
o estupro e aprendemos também a respeitar a postura da Igreja com relação à
indissolubilidade do matrimônio.
Voltando ao casal que,
quem sabe em sala de aula no colegial ou mesmo na faculdade, começou com a
troca de olhares e, conversando, descobre que têm muitos pontos em comum e
muitos pontos complementares. O passo seguinte é aquele “ver o mundo com os
olhos do outro”: ele, que jamais havia pensado nestas coisas, surpreende-se
por vezes embasbacado diante de um belo vestido numa vitrine de loja
pensando “como ficaria lindo nela!” Ela, por sua vez, jamais interessada em
política ou esporte passa por um jornaleiro, vê uma manchete curiosa
começando já a pensar nele e em suas reações ao que ali vai impresso.
O tempo evolui. O amor
entre os dois aumenta. Aumenta o desejo de estar junto por mais tempo. As
condições de montar uma casa estão dadas - e o Senhor do Universo é tão
misericordioso que providencia para que tal ocorra no momento certo, de nada
adiantando ao humano tentar apressar ou retardar o processo.
Diante do Altar, cercados
por familiares lacrimosos de felicidade, o “sim” - a Autoridade Divina,
dizer “sim” no Templo Sagrado é muito mais importante que a esfera temporal!
A seguir, o fórum, indefectível nos tempos modernos, e duas vidas são agora
uma só, numa união, passe a redundância, indissolúvel segundo orientação do
Vaticano. Mas convenhamos, o casal que entra em lua-de-mel não está nem um
pouquinho preocupado com o Vaticano ou a “indissolubilidade do matrimônio”,
querem conhecer-se mais na intimidade, entregar-se intensamente um ao outro,
descobrindo as manhas e maravilhas do universo interior do novo cônjuge.
Pouco tempo depois, que
as coisas voam no mundo moderno, a confirmação: “ela vai ser mamãe!” A
alegria do pai é absolutamente indescritível. Sai a celebrar com amigos o
fato de em breve, também ele, deixar descendência. Transido de emoção, ébrio
de felicidade, fala de maneira desconexa: Amor, Matrimônio, Casamento, Troca
de Fluidos Corporais, Filhos, Companhia, Cumplicidade, Felicidade!
Com que orgulho ela vê,
na certidão de batismo da criança recém-nascida o nome do pai e o dela, que
incluiu o patronímico em sua certidão de casamento também, como é praxe. Por
algum motivo digno de estudos psicológicos e antropológicos, a mulher se
sente mais segura, amparada e forte se porta consigo o nome do marido.
Poucos o admitiriam
publicamente, mas é óbvio que a maioria dos homens anseia por alguém a quem
unir-se, a quem possa apodar seu nome na sacralidade do matrimônio e com
quem possa gestar a criança mais linda e inteligente do mundo! Vê-la sempre
a orgulhar-se dele, mesmo que entre quatro paredes com palavras
simples e diretas: “tenho muito orgulho do que o meu Amor faz e gostaria
muitíssimo de estar sempre ao seu lado, auxiliando-o em tudo o que se
propuser a fazer”. Partilhar com ela cada momento feliz que a vida trouxer e
ouvir dela que as dificuldades são passageiras, obter dela aquele apoio
pessoal e moral diverso daquelas pessoas que só estão por perto quando a
sorte sorri, fugindo com quantas perna tenha quando as dificuldades, por
menores que sejam, ameaçam aproximar-se.
Que homem solteiro não
adormece rogando ao Deus do seu coração que ponha em seu caminho aquela que
seja sua alma-gêmea, a coadjutora prometida desde os primórdios dos tempos,
que o homem sozinho vive somente meia-vida, se tanto...
Quando dois astros
abandonam suas órbitas usuais e solitárias e se unem, surge um verdadeiro
pulsar, fonte de Luz e Energia ao universo. Claro que minha abordagem
ontológica deste assunto, por motivos óbvios é masculina, talvez até mesmo
machista. Seria interessante conferir uma abordagem ontologicamente feminina
desta temática, para ver se o caminho da magia é mesmo este e pode
completar-se assim.
Aos solteirões, como eu,
no meio do caminho desta vida, parafraseando Dante, uma reflexão amarga: o
tempo passa implacavelmente tornando-nos cada vez menos atraentes enquanto
os costumes vão levando as jovens a iniciar-se no Amor cada vez mais cedo...
De quem é a culpa?
Por que é que esta
pergunta incômoda surge, sempre que um casal se separa? Nos tempos em que
vivemos, de carências generalizadas, é absurdo culpabilizar qualquer dos
ex-cônjuges pela separação que se dá, o mais das vezes, efetivamente por
falhas mútuas na avaliação inicial do parceiro e, no limite, ruptura no
limiar de tolerância de ambos à radical alteridade do outro em determinado
momento ou, em outras palavras, por incompatibilidade pura e simples, mais
cedo ou mais tarde - e quanto mais cedo melhor! - detectada.
Por que motivos deveria ser ela a culpada, se em nome do relacionamento fez
tudo quanto estava ao seu alcance, chegando mesmo a sacrificar anseios de
infância para tanto. Ora, então a culpa é dele: não soube reconhecer seus
esforços, sua tentativa sincera de transformação, de disponibilidade humana,
de entrega total, quiçá nunca a amou de verdade embora sempre dissesse que
sim... Ele é o grande canalha, o grande culpado, então!
Mas, de novo, por que é
que ele tem de ser culpabilizado se desde o primeiro momento se esforçou ao
máximo para satisfazer todas as suas demandas, seus anseios consumistas,
sacrificando muito do que desejava ter ou fazer para que ela chegasse a ser
feliz? Acompanhou-a ajudando-a em praticamente todas as atividades, fez com
que ela crescesse humanamente, entregou-se com carinho sincero e profundo
buscando fazer, enfim, tanto bem a ela quanto ela o fez a ele. Sim ele
também se esforçou, se sacrificou bastante.
Aqui notamos o primeiro
problema; muito sacrifício (sacrum faccere, tornar sagrado) num mundo
basicamente profano...
Um “belo” dia, com toda a
coorte de dores que sempre envolvem uma ruptura a este ponto, ambos
reconheceram que estavam juntos mais por carências afetivas mútuas - coisa
muito comum, aliás - que propriamente por aquele sincero e profundo Amor de
dois corações apaixonados que se vêem completados um no outro nas dimensões
física, emocional, intelectual e anímica - o caso analisado trazia única e
exclusivamente a completude física, ficando as dimensões emocional,
intelectual e anímica de ambos “solteira”, por assim dizer. Não havia, dada
a radical diferença de aspirações e anseios um do outro, como prosseguir com
o relacionamento sem ampliar multiplicando as mutilações, as concessões cada
vez maiores que afastavam cada dia mais cada um do seu próprio ser em busca
da construção de seres diferentes, disformes, deformados.
Só se pode falar em Amor
pleno e recíproco se todas as esferas ou dimensões que compõem o humano
estiverem em sintonia. Aquele amor total, que toma todo o ser, não pode,
obviamente, comportar qualquer tipo de coercitividade ou culpa. Tanto a
coerção quanto a culpa são antitéticas ao que no ser humano existe de
erótico, de lúdico e de onírico. São antitéticas ao amor verdadeiro,
portanto.
Fato é que aquele
relacionamento, complicado como fosse desde o início, trazia algum grau de
completude e satisfação a ambos em diversas esferas, de maneira que a
separação é, de fato, dolorosa para ambos. A esta dor, dada a “lógica” que
rege a maioria das cabeças em nosso mundo, tem-se de somar agora a dor da
culpa.
Acontece que o discurso
da culpa é o discurso daquilo que o psicanalista Wilhelm Reich chama com
toda a propriedade de “Peste Emocional”. Culpado é este sisteminha de
aviltamento e cretinização em que estamos enfiados e que nos impele, muitas
vezes, a escolhas infelizes. Contudo o sistema é poderoso; criticá-lo, jogar
nele o peso merecido da culpa - se é que mesmo aqui faz algum sentido falar
em culpa... - resulta exercício demasiado complexo. Mais simples e direto,
do ponto de vista da mentalidade da gente simples do povo, é culpabilizar um
dos dois que se separam, ou mesmo um ao outro.
Racional, do ponto de
vista do humano, numa situação de ruptura, é extrair - por cima de toda a
dor, de todo o sofrimento ligado a qualquer processo desta natureza -
lições, crescer em aprendizado, em conhecimento do humano real, concreto
diante de nós mesmos, percebermos que, ou amamos o outro como ele é ou não e
ponto final. Absurdo querer transformar as pessoas em algo que nem elas
jamais cogitaram vir um dia a ser. Mais absurdo ainda querer, de maneira
auto-coercitiva, transformar-se para agradar a outrem. Absolutamente
ridículo, totalmente mesquinho que se fique buscando “o grande culpado”, “o
grande canalha”, entre os dois!
O tempo contemporâneo é o
primado do equívoco sobre o unívoco e se houve equívoco, sendo o casal
incapaz de completar as esferas física, emocional, intelectual e anímica ou
erótica, lúdica e onírica um do outro, não há culpa nem culpados. Há um
equívoco colocado e agora ambos estão mais maduros e fortes para um novo
relacionamento. Se se puder preservar pelo menos alguma amizade, estaremos
bem próximos de uma situação ideal!
Te amei
Te amei, Amiga;
Talvez o amor ainda exista...
Em minh’alma não se apagou completamente;
Mas não te inquietes.
Não quero que fiques triste por motivo tão fútil.
Te amei, Amiga;
Em silêncio, sem esperanças,
Acanhado, terno, atormentado...
Te amei, Amiga;
Tão sincera, tão ternamente,
Que possa Deus permitir que tu sejas assim amada
Por outro, se a mim rejeitas.
(
tradução livre do original russo de Púshkin)
E por falar em amor...
É uma desgraça que
dependamos tanto das outras pessoas, e desgraça maior que, mesmo assumindo
conscientemente o fato de nossa enorme dependência das outras pessoas,
freqüentemente tenhamos de prescindir delas.
Isto me ocorreu num
boteco perto de casa, enquanto tentava decidir se sou um intelectual que
bebe para se inspirar ou um bebedor que bebe para julgar-se um intelectual.
Cheguei à conclusão que esta é uma questão ociosa, mas já que estava ali
justamente cultuando o ócio, não vi motivos para deixar de formulá-la.
Na verdade minto, ao
dizer que fui ao boteco “cultuar o ócio”; estava lá afogando as mágoas após
um caso de amor mal resolvido.
Eu a quis com meu corpo,
com meu coração e finalmente com o meu cérebro; afinal , havia acabado de
descobrir que a vida é algo totalmente sem sentido, que só o amor pode
tornar suportável. Ela contudo não dizia me querer, mas se não me queria,
também não o dizia. Apenas mostrava-se satisfeita e receptiva às minhas
pequenas homenagens. Um sorriso seu, um cruzar de olhos cheio de
significado, uma carícia casual e inocente, tudo enfim era para mim naquela
época motivo de alegria.
Sou operário; filho, neto
e bisneto de operários - a diferença é que meus antepassados aqui
mencionados não eram, como eu, “operários das letras” - e assim serão meus
filhos e netos se um dia chegarem a existir. Ela também tinha a mesma
origem, mas suas ânsias e expectativas de vida eram tão radicalmente
diferentes das minhas que agora, olhando de longe, desta distância saudável
que só o tempo pode proporcionar, fico surpreso por me haver envolvido num
relacionamento tão desigual.
Leio acima as palavras
“envolvido” e “relacionamento”, e não posso refrear um sorriso. O
“envolvimento”, embora físico e intenso, disso não passou. E
“relacionamento” é um termo forte demais, sagrado demais paraexpressar o que
de fato aconteceu.
Se eu bradava: “Paz na
Terra! É preciso abrir o caminho para a Paz e Justiça Social em nossa terra,
ainda que para isso tenhamos de, por momentos, deixar de ser cordiais,
particularmente para com os opressores!” Ela me ouvia entre atenta e
surpresa, aplaudia meu entusiasmo e me acariciava com palavras, dizendo que
o mundo criado por Deus é bom e que, se existem injustiças, cabe a nós
suportá-las e tudo fazer para que sejamos dignos da Vida Eterna, essa sim
importante. Seguramente, jamais estudou a Cabala ou sequer ouviu falar na
sagrada esfera marciana de Geburah!
De todo modo, embora
fosse uma divergência séria, não a considerava insuperável. O problema
surgiu mesmo quando mais tarde lhe disse que minha “solução romântica” -
através da busca de um grande amor correspondido em sua plenitude ou através
da busca de justiça para todos - valia tanto quanto a sua “solução
religiosa” ou quanto qualquer outra pois dizia eu, passando que estava por
uma fase existencialista, “o problema básico, a vida, é de fato insolúvel! O
que as pessoas fazem é forjar razões ou motivos para seguir vivendo”.
Tinha a clara impressão
de que ela correspondia aos meus sentimentos quando, após a total entrega no
ato de amor, voltava ao assunto e me repreendia entre terna e magoada
dizendo haver um ordenamento prévio no universo criado por Deus e que ela,
mesmo apaixonada como estava, só viveria até o fim de seus dias com um homem
que “estivesse também a serviço do Senhor”. Crentes são difíceis. Mas como
foi possível julgar-me a serviço de outro Senhor em tão pouco tempo? E olha
que a própria religião deles proíbe o julgamento a-priorístico!
Tais conceitos, tal
visão, tacanha, soavam-me, no mínimo, como absurdidades. Cumpre apenas
observar que meu cinismo não foi tão longe que me permitisse simular uma
súbita conversão a suas idéias, nem meus argumentos fortes o bastante para
trazê-la ao meu ponto de vista - nem tinha esta pulsão messiânica da
conversão de outros seres humanos ao meu ponto de vista à ocasião.
Procurei reduzir a
importância de nossas discordâncias e enfatizar os pontos em que
concordávamos, mas sem sucesso. Se ela tinha a convicção inabalável de que
“o mais importante é a salvação da alma”, encontrava em mim uma certeza, das
poucas que tinha à ocasião: “o mais importante é entregar a vida a uma
causa, a um grande amor, só isto pode torná-la suportável”. Assim a perdi.
Uma pessoa muito sábia me
disse que jamais se “perde” alguém. Quando acontecem coisas assim, o ser
humano em questão nunca foi nosso em verdade e jamais o seria. A isto posso
acrescentar que seres humanos jamais deveriam ser objeto de possessividade;
ou estão juntos porque se amam ou não o estarão jamais - embora aparentem
estar por algum tempo ilusório, por trás dos véus de Mâra.
Felipe
"Mas, pouco depois, chegaram cartas e
flores,
bondades e consolação" Franz Kafka
Felipe estava
desempregado. Procurou, em dezenas de locais colocação pelo menos
equivalente a seu último emprego, sem encontrar qualquer que fosse. Escreveu
para jornais, revistas, universidades e emissoras de rádio e TV enviando seu
currículo invejável em busca de nova inserção profissional. Tudo sem
resultado. Talvez devesse isso à sua timidez, talvez à sua falta de talento
mesmo, uma vez que as "autoridades" esmeravam-se em assegurar que as taxas
de desemprego eram "inexpressivas", insignificantes mesmo.
"Bem", pensava, "então
estou ocupando uma posição inexpressiva e insignificante da escala social.
Resta-me reduzir minhas pretensões e aceitar qualquer oferta que obtenha,
mas o farei amanhã. Pode ser que hoje ainda me chegue alguma proposta
honrada pelo correio."
Vã ilusão! Pelo correio
chegavam várias cartas - em sua maioria de cobrança por contas em atraso,
vale a remarca - com um atraso pavoroso. O retardo do funcionamento do
correio fazia aumentar-lhe a expectativa: "Talvez minha ‘oferta digna’
esteja a caminho; deve apenas estar retida em algum ponto no correio. Têm
havido queixas e reportagens com relação a isso, aliás. Talvez em mais uns
dois ou três meses o que espero acabe chegando..."
Concentrando toda sua expectativa na
correspondência diária - mesmo porque as entrevistas com prováveis
empregadores acabavam tornando-se acidentadas; a postura idiossincrásica de
Felipe deixava ao empregador esperto com clareza a superioridade intelectual
de quem lhe estava adiante a pleitear cargo até modesto... - escrevia mais e
mais cartas enviando seu currículo e esperava, esperava, esperava....
Até Cláudia, sua
namorada, perdeu a paciência com ele. Como de praxe numa nação como a
brasileira, condicionava seu imenso e sincero amor ao bem-estar material que
poderia proporcionar a ambos. Quando o conheceu, recém-formado em
jornalismo, muito bem empregado num grande jornal carioca, com todo o futuro
à frente, cheio de perspectivas sorridentes, julgou que jamais havia
conhecido alguém com olhos tão tristes, rosto tão belo, tão límpidos e belos
ideais e voz tão cálida. Após feliz reportagem-denúncia, que lhe valeu um
prêmio internacional e a perda do emprego, levando-o à falência material e a
uma crise depressiva, Cláudia começou a perceber que, afinal, Felipe era
calvo, míope, um tanto obeso e até mesmo se admirava por haver um dia se
apaixonado por ele.
As coisas começaram a
ficar tenebrosas na fértil imaginação de Felipe. Sua namorada já não o
queria; seu irmão, que lá do interior de Mato Grosso, enviava-lhe generosa
contribuição até que se aprumasse, ameaçava cortar-lhe a mesada se não
arranjasse um emprego - qualquer que fosse - e rápido; a crise econômica,
mal crônico do Brasil Real, parecia afetar-lhe mais que a qualquer outra
pessoa. A par de uma abundância de oferta de bens de consumo, absolutamente
nada que lhe possibilitasse a eles ter acesso.
Premido pelas circunstâncias, acabou
aceitando emprego como sitiante, trabalhando de sol a sol na lavoura de cana
em troca de um salário ainda menos que insultuoso à dignidade humana, mas
era uma ocupação. Pelo menos teria alguma renda que, somada àquela que
generosamente lhe cedia seu irmão, haveria de proporcionar-lhe uma
existência digna enquanto aguardava colocação melhor.
Animou-se com seu novo
emprego e até conseguiu fazer planger novamente a velha lira órfica
dedicando um poema à sua amada. "Cláudia". Um poema menor, conceda-se, mas
fazia nele as comparações mais mirabolantes: olhos com estrelas, hálito com
primavera, cabelos com trigais maduros, pele com pêssego...
As pessoas se acomodam a
todas as situações; fazer o quê? Ninguém respondia a seus pedidos de
emprego; nem mesmo agora, que a correspondência parecia encaminhar-se a um
estágio de permanecer "em dia".
Felipe se adaptava, se acomodava. Com sua
pequena renda, conseguia construir modestíssimo patrimônio e dispunha de
tempo livre para ler e escrever; pouco, mas já era alguma coisa. Faltava
apenas reatar o fio do romance interrompido para que sua vida tivesse
ligeiros ares de "normalidade".
Um dia, comentou numa rodinha de peões
(todos um tanto ébrios pois que o frio da madrugada por vezes exige doses um
tanto mais generosas da "teimosa") que era jornalista formado,
considerava-se politicamente injustiçado, tinha um currículo portentoso e
esperava a qualquer momento saltar daquela situação para uma melhor e passar
a auxiliar com maior empenho seus novos camaradas. A reação, um coro de
vaias, assobios, gargalhadas e insultos oriundos da dúvida de sua
sinceridade ou da inveja dos que o rodeavam - ambos dolorosos - deixou-o
profundamente aturdido: "Se nem consegue trabalhar direito na lavoura, como
ousa pensar em ascensão social? Quer tomar o lugar do Luizão? Vê se te
enxerga, carioca!"
Quando Luizão, um sujeito
bronco mas com a força de cinco búfalos marajoaras, ficou sabendo que alguém
queria tomar-lhe o prometido bastão de capataz, desceu a porrada no coitado
que ficou uns quinze dias sem capacidade de ação, hospitalizado.
Novamente a imaginação de
Felipe - riquíssima, mas freqüentemente auto-destrutiva - começou a
trabalhar vigorosamente contra ele. Faltava-lhe "ambiente" no serviço. A
expressão "jornalista" ficou gravada como que em bronze na memória de seus
colegas que não perdiam uma única ocasião para lembrá-lo, com pouquíssima ou
nenhuma sutileza, de sua atual posição social e do quanto achavam impossível
qualquer forma de promoção, menos ainda projeção social, dentro ou fora da
fazenda em que trabalhava. Cláudia não respondia, e já fazia mais de um mês
que lhe enviara o poema.
Quando sentiram sua falta
na fazenda, já fazia uma semana que não aparecia. Sabendo que morava sozinho
e não tinha sequer telefone em casa, os poucos que sentiam por ele alguma
compaixão - que seu espírito forte não despertou sequer simpatia em ninguém
- organizaram uma comissão e foram visitá-lo.
Talvez estivesse magoado
com os colegas, não sem motivo. Talvez tivesse tirado a "sorte grande" numa
das muitas loterias que pululam por aí - verdade que Felipe sempre
manifestou-se contrário a todas as formas de jogo, mas no desespero... - num
caso, buscariam desculpar-se, no outro, exigiriam um empréstimo compulsório.
Estava morto. Sabe-se lá
desde quando, sabe-se lá de quê. Talvez suicídio. Talvez "overdose" de uma
destas porcarias que se compra em qualquer birosca sem receita médica.
Talvez puro desgosto ou desilusão amorosa mesmo. O estado do cadáver
encontrado e o desinteresse dos que o encontraram inviabilizaram uma
necropsia esclarecedora.
Seu irmão levou cinco
dias para chegar de Mato Grosso ao interior de São Paulo, onde Felipe se
refugiara para trabalhar. Péssimas estradas, greves e piquetes de
caminhoneiros só permitiram a Malcon chegar muito após o sepultamento. De
todo o modo, seja por superstição ou respeito, todo o material deixado por
Felipe, inclusive correspondência recém-chegada, estava intocado. Ao
organizar os papéis do mano com o fito de providenciar o codicilo, encontrou
cerca de trezentos manuscritos sobre os temas mais diversos, de poesia a
arquitetura, passando pela política, filosofia e geografia, além de contos,
novelas, crônicas e um diário detalhadíssimo. "Bem administrados, estes
escritos renderiam um bom dinheiro nas mãos certas..."
Examinou as cartas mais
recentes. "Pode-se abrir cartas de defuntos? Ora, quem reclamaria?" Havia
algumas contas antigas, ainda não pagas, mas três dentre as dezenas de
cartas encontradas chamaram mais a atenção de Malcon. Uma era de Cláudia, a
quem Felipe dizia amar tanto. Outra de uma importante emissora
internacional, a terceira de uma universidade européia.
Começou pela carta de Cláudia, que dizia
mais ou menos o seguinte:
"Meu Amor,
Se você soubesse como
estou arrependida! Fiquei muito feliz ao saber de seu novo emprego que,
embora modesto, comporta chances de ascensão social e tem até moradia
individual! Que bom o seu sucesso, querido. Jamais deixei de acreditar em
você e sei que o futuro te fará justiça. Por favor, venha visitar-me o
quanto antes. Você saiu sem se despedir, sem dizer para onde e até hoje
mamãe está aborrecida. Só falando com ela para ver! Ainda assim te admira e
manda também o seu amor." Tinha um "P.S." - "Bonitinho aquele poeminha?
Copiou de onde?"
A carta da emissora
trazia um convite sedutor, um brinde e um pedido de desculpas pela demora.
A universidade européia
dizia (segundo a tradução do pessoal do consulado) aguardar sua ida para lá
o quanto antes pois prometia dar prosseguimento ao desenvolvimento de um
projeto de ponta que estava, até aquele instante, sem quem lhe desse
continuidade. Mais. O salário mensal ultrapassava em muito o que um
pesquisador brasileiro recebe anualmente, mais um próprio para moradia da
família com despesas (luz, gás, água, telefone, correio, etc) pagas.
Malcon mal conseguia
manter-se com a boca fechada. Estava estupefato, atônito. "Se meu irmão
vivesse para ler estas cartas, certamente a história teria sido bem outra. E
que mais estaria por vir?"
Estava certíssimo! Por cinco meses chegaram
ainda várias cartas, de vários jornais, revistas e universidades, do Brasil
e do exterior. A maioria se desculpava por não poder empregar seu irmão
embora houvesse unanimidade no reconhecimento de seu valor. Poucas
traziam as mais sedutoras ofertas.
A algumas respondeu, explicando o
inexplicável falecimento do mano. Outras ficaram sem resposta, como Felipe
havia ficado tanto tempo...
Amor e Humanismo
Não. Não posso conceber
nossa felicidade apartada da felicidade do nosso povo.
Quero te amar com loucura
sabendo que no mundo lá fora não se cometem violências ou injustiças, que os
homens se irmanam e cantam juntos as mesmas canções. Que constroem, olhos
brilhantes, o mundo bonito em que um dia nossos filhos e filhas brincarão
despreocupados do que quer que seja.
Quero, com o suor do meu
rosto, trabalhar satisfeito para construir a felicidade do nosso povo.
Causa-me tristeza e dor
que tantos de nossa gente estejam sendo chacinados pela miséria, desemprego,
desespero e inseguranças as mais diversas. Que trabalham como loucos e o
fruto de seu trabalho somente engorde os crápulas que os tiranizam há 500
anos.
Amada, não quero morrer
pela felicidade do meu povo. Quero viver na luta pela paz e pela felicidade.
Quero viver por você, por nós, pela nossa felicidade, por um futuro melhor
para os nossos filhos e filhas que, espero, serão muitos...
Peço perdão se esta vida
não me permite dar a você os confortos materiais que tanto merece e que foi
treinada desde o berço para obter. É que o conforto de poucos sempre custa
muita dor e muito sangue extraído do alheio... Não saberia ser feliz com um
“conforto” estabelecido sobre tais bases.
Quero deitar-me numa cama
de madeira cortada por mim, recoberta com plumas de aves dos campos e
forrada com tecidos sedosos urdidos por suas próprias mãos, estas mãozinhas
que não consigo parar de beijar e acarinhar. Nesta cama tranqüila nos
deitaremos e assim serão criadas as crianças do futuro.
E nossas crianças
brincarão felizes nos jardins que tu plantares. Comerão as frutas do pomar
que cultivarmos. Abraçarão os amigos felizes de sua infância, vindos de
jardins tão belos quanto o nosso.
Sim, amada, nosso amor frutificará! De nosso
amor nascerão as crianças felizes que, mais tarde, construirão o Mundo Novo,
a Nova Era de Paz Profunda!
Antes que este amor se
realize, nós, “profetas da nova era”, apartaremos os urubus da velha ordem.
Compadecidos afastaremos aqueles que de sangue operário se nutrem.
Combateremos cada injustiça que virmos no mundo!
Dos escombros deste mundo demolido ou caído
por putrefação, sairemos nós, e reconstruiremos tudo de bom que o inimigo
haja desfeito. Manteremos as belezas que conseguirmos preservar. Acabaremos
de demolir o mal que ainda restar.
Ali sim, teremos nossa
casa, nosso jardim, nosso pomar, nosso amor, nossas crianças...
E o homem será amigo do
homem. Não mais haverá tristes corvos a lamentar, uma decadência que não
compreendem...
Avizinha-se a tempestade.
Nuvens já se formam no horizonte e informam que a atual situação é pouco
mais que um aviso.
Avizinha-se a tempestade!
Bramindo, urrando, clamando, gritando:
“Pão, Paz, Terra!”
“Liberdade, Igualdade,
Fraternidade!”
Ó geração hipócrita, não
ouves o clamor do teu povo? Não percebes a noite negra que sobre ti se
abaterá?
Quem escapará à negra
tempestade?
Tu, falso cristão, que
habitas ricos templos a prova de bombas? Não será com bombas, mas com gente
que teus templos serão destruídos!
Acaso tu, burguês
covarde, crês que teus quartéis te protegerão dos frutos da injustiça que
plantaste entre aqueles que por séculos a fio exploraste?
Ouves o rufar dos
tambores? É a “plebe ignara” de que tanto foges, a cantar, plenos pulmões,
as mais sublimes canções e marchas humanistas.
Escutas o clamor do povo
- que um dia quiseste que fosse teu por propriedade ou por direito divino -
por “pão, liberdade, justiça”?
Sai da frente porco, que
te atropelará a gente!
Hoje vences, mensageiro
que sois de teus superiores. Manda-me ao teu inferno, falso crente cretino
que constróis templos luxuosos com dinheiro de gente pobre. Cala minha boca
se o podes. O amanhã te trará as respostas: Cada um que silenciares será
substituído por milhares!
Tu, tribuno falso que
afias nas páginas da Bíblia os instrumentos de exploração do homem pelo
homem: hás de responder, não a um Deus distante, tirânico e cruel, que tal
não existe senão em teus delírios mas a teus irmãos terrenos pela tua
ignomínia!
A massa já se reúne e
explode. Explosões ciclotímicas e sem muito sentido ainda, mas dia chegará
em que um líder, da massa saído, decretará o fim da exploração do homem pelo
homem.
E então, finalmente, terá
início a era da paz e da prosperidade para todos.
A Canção do Albatroz
Em 1901, Máximo Gorki
escreveu este belo poema sentindo o tempo que vivia e do qual se avizinhava
poderosa tempestade revolucionária na Rússia heróica de seu tempo. A palavra
albatroz (burieviestnik) em russo pode ser traduzida como mensageiro (viéstnik)
da tempestade (buria), por ser ele o único animal que sai alegremente a voar
e sente-se perfeitamente à vontade em meio a qualquer tormenta. A mensagem é
clara: no meio do caos, não devemos temer as tempestades, mas voar com elas
e contribuir para que elas transformem efetivamente o mundo!
Quando verti este poema
para o português anos atrás, a então União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas estava em seus estertores. Convém lembrar que o poema foi escrito
às vésperas de um tempo de sonho, sonho do qual se precisou acordar...
“Sobre a superfície cinzenta do mar,
O
vento reúne
Pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro,
Entre as nuvens e o mar,
Paira orgulhoso o albatroz,
Mensageiro da tempestade.
E
ora são as asas tocando as ondas,
Ora é uma flecha rasgando as nuvens,
Ele grita.
E
as nuvens escutam a alegria
No ousado grito do pássaro.
Nesse grito - sede de tempestade!
Nesse grito - as nuvens escutam a fúria,
A
chama da paixão,
A
confiança na Vitória.
As gaivotas gemem diante da tempestade,
Gemem e lançam-se ao mar,
Para lá no fundo esconderem
O
pavor da tempestade.
E
os mergulhões também gemem.
A
eles, mergulhões,
É
inacessível a delícia da luta pela vida:
O
barulho do trovão os amedronta...
O
tolo pingüim, timidamente
Esconde seu corpo obeso entre as rochas...
Apenas o orgulhoso albatroz voa,
Ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.
Tonitroa o trovão.
As ondas gemem na espuma da fúria.
E
discutem com o vento.
Eis que o vento
Abraça uma porção de ondas
Com força e lança-as
Com maldade selvagem nas rochas,
Espalhando-as como a poeira,
Respingando uma noite de esmeraldas.
O
albatroz paira a gritar
Como um raio negro,
Rompendo as nuvens como uma flecha,
Levantando espuma com suas asas.
Ei-lo voando rápido como um demônio;
Orgulhoso e negro demônio da tempestade;
Ri das nuvens, soluça de alegria!
Ele - sensível demônio -
Há muito vem escutando
Cansaço na fúria do trovão.
Tem certeza de que as nuvens não escondem,
Não, não escondem...
Uiva o vento... Ribomba o trovão...
Sobre o abismo do mar,
Um monte de nuvens pesadas
Brilham como centelhas.
O
mar pega as flechas de relâmpagos
E
as apaga em sua voragem.
Parecem cobras de fogo.
Os reflexos desses raios,
Rastejando sobre o mar e desaparecendo.
_
Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!
Esse corajoso albatroz
Paira altivo entre os raios
E
sobre o mar furiosamente urrando
Então grita o profeta da Vitória:
QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!”
HAMLETIANAS – I
Assustam-me os seres humanos
Serei eu também assim?
Um
conglomerado orgânico a agitar-se, confundir-se
E
pensar que os gonzos do universo giram a seu redor?
Irmano-me a todos os que um dia disseram:
"Sou
um estrangeiro numa terra estranha"
Estou só, como todos,
Mas
desgraçadamente tenho consciência desta solidão.
Não
é coisa que se deva ou possa corrigir.
A
solidão é minha e eu a sinto estoicamente,
Embora não a ame
Ou
talvez já ame.
Após
tantos anos a gente se acostuma...
Tenho poucas coisas em comum com os demais seres humanos,
Talvez nada mesmo.
Vejo
um ser humano caminhar, sorrir, falar
E
penso: "que ridículo!
Será
que não percebe?
E se
percebe, como tolera?"
Pensar...
Pensar é uma faculdade singular!
Valerá a pena aderir a alguma Causa (ou quiçá liderá-la)
Seja
ela qual for ou quão "justa" pareça?
Vivo
num lugar estranho.
Aqui
os criminosos têm estátuas
E os
heróis são esquartejados.
Que
é melhor?
Ganhar uma estátua como criminoso
Ou
ser esquartejado como herói?
Ou
fugir?
Fugir de tudo, da vida, do mundo, dos homens,
Dos
perversos e inescrupulosos seres humanos...
HAMLETIANAS – II
Primeiro
a frustração de viver num mundo tão cruel e desumano,
Depois a dor de saber-se num mundo onde o amor é uma quimera,
Frustração, dor, amor, sentimentos...
Até
que ponto isso é necessário?
Até
que ponto isso é ... suportável?
Amor, ódio, deuses, demônios,
Tudo
se une e se confunde em minha mente.
E o
homem, portador de tais conceitos,
Precisa viver num mundo
Que
elegeu o blefe e a fraude
Como
bezerros de ouro.
Precisa aprender a ser falso, a mentir,
Até
a fingir e usar más-caras para se proteger.
Eis
porém que a morte, vencedora final,
Sempre cobra o seu quinhão:
"Você que amou, abrace-me agora!"
"Você que odiou, possua-me agora"
"Você que foi feliz, sorria agora!"
"Você que sofreu, alivie-se agora!"
E
todos, amantes e assassinos,
Heróis e mendigos,
Pobres e cretinos,
Unem-se finalmente ao pó,
De
onde jamais deveriam ter saído!
A serpente que queria voar
Cobras rastejam, mas eu
gostaria de voar. Alto como as águias, livre, longe das tocas, dos ninhos
promísquos e do próprio perigo que as águias nos trazem.
Passei mais de dois meses
sem comer o que quer que fosse. Sapos, insetos, ovos, nada. Só podia pensar
em voar, em construir meu ninho nas montanhas ou na mais alta das árvores;
em mergulhar dos céus à busca de caça, como só as gigantescas aves de rapina
o fazem.
Após muito meditar, sem
encontrar solução para um tal problema, profundamente deprimido mas quase
conformado, topei com uma lagarta pendurada num pequeno arbusto, dedicada à
laboriosa tarefa de construir seu casulo. Voltou-me o apetite e a devorei
sem compaixão, com casulo e tudo. Fez-me mal. Após tão longo jejum não se
deve comer lagartas...
Naquela noite sonhei que
subia a duras penas numa árvore íngreme e construía, eu mesmo, um casulo do
qual, após longa espera, saía transformado em poderosa águia. Inquieto,
acordei sobressaltado no meio da noite, incomodando as outras serpentes
enrodilhadas a meu redor. "Começarei meu casulo amanhã mesmo", decidi então,
antes de adormecer novamente.
Procurei uma árvore
frondosa em local seguro. Precisava de muito preparo para a construção de
meu casulo, mas estava seguro de que sairia de lá transformado em poderosa
águia.
Passei dois meses a me
alimentar profusamente. Não comentei meu projeto com quem quer que fosse por
temor de ser taxado de insano, egoísta ou megalômano; ademais, precisaria de
paz, tranqüilidade e segurança para o período da metamorfose.
Quando temos uma idéia
fixa, faltamos, às vezes, com nossos deveres para com o grupo. Procurei
comportar-me de forma a mais natural possível, a fim de não despertar
suspeitas. Mas as exigências internas de minha natureza em busca de
mudanças, por momentos excediam minhas forças e me tornavam quase que
totalmente inapto ao trabalho no grupo.
Minhas coisas no mundo
ofídico tornaram-se tão desarranjadas que, ao exigirem de mim excesso de
atenção, dificultaram cada vez mais, quase inviabilizando mesmo, o
cumprimento de meu projeto pessoal. Com tudo isso consegui construir
meu casulo! Tosco. Frágil. Transparente como os ovos das serpentes.
Mas era tudo de que dispunha. Não sabia quanto tempo levaria para que a
metamorfose se completasse. Meditava.
No primeiro mês, farto
que estava de tudo e de todos no mundo em que até então vivia, só podia
pensar em técnicas de vôo e mergulho, em outros céus, em novas paisagens,
enfim, numa vida nova. Naquele mês fiquei cego. Não tinha importância,
estava seguro de que me nasceriam olhos de águia.
A partir do segundo mês
voltei a pensar em minhas irmãs serpentes e em como faria para ensinar-lhes
a realizar também a sua metamorfose, para dizer a todas quanto seria melhor
o mundo se, ao invés de disputarmos e devorarmo-nos uns aos outros,
passássemos a cooperar e viver em harmonia, ajudando-nos uns aos outros na
nobilíssima tarefa da auto-superação em prol de um mundo melhor. Minhas
escamas caíam. Não me importava, para que servem escamas a quem breve estará
a voar?
Assim se passavam os
meses, cada qual com uma nova preocupação e uma nova perda física.
No oitavo mês começaram a
nascer-me penugens. Numa ocasião, algumas pequenas serpentes - crianças,
naturalmente - galgaram a árvore em que estava encastelado e, por pura
brincadeira, derrubaram meu casulo ao solo e o destruiram.
Agora estou aqui, nu,
cego, esquecido do idioma das serpentes, incapaz de locomover-me por conta
própria, me escondendo da luz e chorando nas sombras o meu fracasso. Quase
cheguei onde ninguém antes de mim havia sequer pensado ser possível ir....
Todavia, permaneço
otimista. Sei que um dia uma serpente terá êxito onde fracassei. Quase posso
vê-la a descer dos céus trazendo no bico sua mensagem de vitória, de paz e
de um mundo melhor para todos.
Não atirem!
Em meus caminhos
meditativos tenho parado regularmente em alguns temas recorrentes que me
afligem, inclusive em sonhos.
O mais severo diz
respeito a São Miguel arcanjo, ao Sul, que dominou o dragão e segue
orbitando nas esferas do Divino. Como combater o mal - e até mesmo “o que é
o mal” - no mundo e seguir sendo amigo de Deus e do Bem? Dizia Wilhelm Reich
que o braço do Bem só consegue contaminar-se caso se dedique a castigar o
Mal, nele se transformando por utilizar justamente as suas armas, ainda que
contra ele...
A meditação seguinte,
também recorrente e dolorosa, começou a tomar corpo em meu existir a partir
do momento em que comecei a trabalhar, no quartel, em escolas, lidando com
pessoas distintas, diferentes: por vezes sinto-me agredido, atacado, sem que
possa compreender os motivos daqueles ataques que acabam parecendo gratuitos
e somente consigo retrucar timidamente: “não atirem!”
Suplico que deixem a mim
pelo menos a alegria, fundamental, visceral, aquela que vem de dentro,
independente das circunstâncias ou condições externas.
Existe por aí a prática
anti-cristã de enfurecer, confundir e desamparar o humano, buscando
reduzi-lo a um farrapo lamuriento após sucumbir a cruéis limitações a ele
apodadas: não pode isso, não pode aquilo, não pode errar (tem que ser
“bonzinho”, hem!) não pode acertar (todo mundo erra, quem acerta sozinho é
louco!), não pode ficar sem trabalhar (“quem não trabalha não tem o direito
de comer!” diz o autoritarismo vigente), não pode trabalhar (as taxas de
desemprego são uma verdadeira calamidade em nosso país), não pode ficar sem
carro, telefone, TV por assinatura, telefone celular, computadores,
videocassete, filmadora, roupas de luxo e muito dinheiro no bolso (caso
contrário se estará vergonhosamente “fora de moda”), mas não pode ter carro,
telefone, TV por assinatura, telefone celular, computadores, videocassete,
filmadora, roupas de luxo e muito dinheiro no bolso (para quem ainda não
notou há crise, desemprego, subemprego, salários baixíssimos...)
O sistema como um todo
acaba funcionando como a espora e o freio do desejo, deixando a vítima sem
alternativa honrosa qualquer que seja. Propagandas televisivas ou
boca-a-ouvido intimam os trabalhadores a adquirir coisas que nem mesmo em
séculos de trabalho honesto conseguiriam. Um sistema sádico, pecaminoso,
anti-cristão, deixa a maioria das pessoas no nível da mais ínfima condição
de sobrevida material (freqüentemente nem mesmo isso!) e aponta, dedos
acusadores: “Mas como? Você ainda não tem (este ou aquele bem da moda)
ainda? Vergonha!” Não pode ficar triste (se permitirmos o mais baixo dos
sentimentos, a auto-compaixão, tomar conta de nós, estamos perdidos!), não
pode ficar alegre (“de que ri tanto em meio a tanta calamidade, parece
hiena!”). Não pode! Não pode! Não pode!
Se permitirmos que nos
governe o que existe de mais elevado no coração de cada um (uma definição
ética da divindade), se o HUMANO, obra máxima da criação divina é promovido
e não desrespeitado, se a Criação é preservada e não destruída - inclusive
num pensamento ecológico bem mais ampliado - Podemos todas as coisas naquele
que nos fortalece! (Flp 4, 13).
É claro que, sem uma
alternativa honrada que seja, fica mesmo muito difícil seguir vivendo. Se,
contra o Evangelho, tudo é proibido, fica-se sem alternativa e pode-se até
mesmo chegar ao extremo da auto-agressão como última grande fuga. Em nome de
Deus, em nome da Vida, em nome do Amor, temos de lutar com todas as armas
para evitar que isto aconteça. Temos de impedir, a todo o custo, o cruel
massacre contra o humano no mundo. Só há Esperança, repito, se houver Fé,
Amor, Compreensão, particularmente no seio das famílias. Aos cruéis e
sádicos anti-humanistas, anti-cristãos que nos querem roubar até o canto
alegre da garganta, brademos, plenos pulmões como numa antiga tentativa de
poema:
“...Não atirem!
Não a tirem de mim!
Minha história é bem íngreme,
Minha sina é ruim.
Não atirem!
Não tirem a alegria de mim!”
RMGF
O Reto-Agir, Caminho da
Sabedoria
“Bom é agir e bom é abster-se da atividade;
tanto isto como aquilo conduz à meta suprema. Mas, para o principiante, bom
é agir
corretamente” Bhagavad Gita
Estudar e respeitar todas
as religiões, compreendendo-as como metáforas é altamente elucidativo, não
sectário e confortador. Há tantos pontos comuns em tantas religiões do
mundo... Saber que são diferentes é fácil. Basta conversar poucos minutos
com qualquer seguidor de qualquer religião e se perceberão as diferenças.
Mas chega um tempo em que nos cansamos de ver a moeda cair sempre com a
“cara” para cima e decidimo-nos a virá-la para ver o outro lado. Surpresa:
seja por difusionismo (um mito ou uma idéia se origina num ponto e vai se
difundindo entre os povos), seja por considerações acerca do inconsciente
coletivo junguiano, ficam claríssimos os pontos de contato entre todos os
buscadores sinceros da verdade pelo mundo afora.
Diz-se que Vyasa teve a
idéia de deixar um relato escrito da criação do mundo até os seus dias.
Assim nasceu o Mahabharata, do qual a Gita é um pequeno trecho - há em vídeo
um magnífico filme do diretor britânico Peter Brook, de mesmo título do
tradicional livro hindu, que é altamente recomendável a quem se interesse
pelo tema.
Na Obra, escrita alguns
séculos antes do nascimento de Cristo, consta que a virgem Devaqui deu à luz
uma criança divina, filho direto do deus Vishnu, a suprema divindade hindu
que “encarna no mundo sempre que a justiça fraqueja e o Caos ameaça tomar
conta de tudo”. O jovem Krishna leva algum tempo para perceber quem ele
realmente é, que é diferente dos demais e tem a divindade dentro de si
mesmo. Muito recorrente, dentro da cultura hindu, por sinal, relatos de
experiências usualmente traumáticas conducentes ao auto-conhecimento. O
próprio Lênin gostava de relatar a tradicional historieta hindu do
filhotinho de águia criado num galinheiro que, após muito ciscar e nutrir-se
de minhocas, somente descobre quem ele realmente é quando um viajante o
retira do cativeiro o arremessa-o de um despenhadeiro; a águia, já adulta,
cacareja e, numa desesperada tentativa de sobrevivência abre as asas e voa,
percebendo seu imenso poder. Acerca de Rosa Luxemburgo, Lênin contava esta
historieta em suas exéquias dizendo ao cabo: “Uma águia pode descer até onde
vivem as aves domésticas, mas as aves domésticas jamais poderão voar alto
como as águias. E Rosa Vermelha foi uma águia entre aves domésticas.”
Algo similar se passa com Krishna, que é
“morto” e jaz no fundo de uma lagoa quando a terra sacode e faz com que
perceba quem ele é, filho da divindade suprema, imortal. Tão logo o percebe,
derrota os anti-deuses do seu tempo e parte para a instrução de seu mais
eminente discípulo, o príncipe Arjuna* . Este brevíssimo resumo da
introdução daquela epopéia hindu, chega neste ponto à Bhagavad Gita,
“Sublime Canção”, um dos textos mais reverenciados na complexa teologia
hindu.
Pandu, o monarca, havia
sido deposto pelos seus próprios parentes auxiliados por alguns amigos com
quem Arjuna, o príncipe, havia passado praticamente toda a infância,
adolescência e chegado à idade adulta. Deposto e obrigado a exilar-se com a
família na floresta, ouve de longe histórias dando conta de que o reino
estava entregue a cegos e estava em seu período mais escuro de existência.
Neste momento Arjuna deve, sob a segura orientação e proteção da própria
encarnação do deus supremo, Krishna, para restaurar a ordem e retirar o
mundo do Caos, destruir os maus e tomar o poder.
Arjuna, o guerreiro
perfeito, amparado pelo deus supremo, sem a menor possibilidade de derrota,
reluta: “Como posso matar meus tios, meus primos, meus amigos de infância?
Que alegria me traria tal vitória? Melhor retirar-me e tornar-me um asceta!”
Difícil decisão para o
príncipe, reconheçamos, mas é facilmente solucionada por seu mais alto guru,
Krishna. O reto-agir, diferente do agir mau ou mesmo da inação, ainda é o
melhor caminho, ensina o Mestre, para se chegar à suprema iluminação. Dizem
os que crêem em reencarnações que agir incorretamente traz enorme peso em
termos de uma dívida que tem de ser saldada em outra existência em algum dos
mundos possíveis, assim como que o reto-agir traz consigo compensações
vantajosas para outras existências ou - caso se chegue à plena Iluminação -
conduz ao paraíso! A isto os hindus chamam “carma”. Muitos crentes desta fé
optam pelo não-agir, a fim de não sobrecarregar o seu “carma” e que possam
encarnar-se de maneira digna em outra vida. Krishna explica a Arjuna - e
isto quando os dois portentosos exércitos estão face a face, prestes à luta!
- que a ausência de ação ou o ascetismo a nada mais conduziria que à
estagnação do processo evolutivo e do crescimento espiritual.
Melhor é agir
corretamente, mas, e é um mas de elevadíssimo peso, não devemos nos apegar
aos frutos de nossa atividade. Todo o agir movido por interesse ou paixão
egoística é um erro. Só o agir natural, correto, nos promove. Deve-se fazer
como a Natureza ensina o tempo todo: as flores dão seu perfume, a terra dá a
fertilidade, o sol brilha sobre justos e injustos, os pássaros cantam sem
preocupar-se com aplausos ou apupos da platéia... Simplesmente vivem, fazem
o que tem de ser feito. E a Natureza é tão sábia que “o que tem de ser
feito” é claramente demonstrado a cada um de nós no momento certo. Deixar de
fazê-lo, isso sim seria estagnar-se, seria enfim errar. Fazer o oposto do
que a Natureza dita é ainda pior, é um grave retrocesso em nossa jornada.
A única grande
recomendação da sabedoria secular da Índia - que tem claros reflexos na
teologia judaico-cristã posterior a ela - é a de agir simples e puramente de
acordo com o que nos aconselha o coração. O que o nosso corpo pede, nosso
corpo precisa (chamo a auxiliar-me neste arrazoado as mulheres grávidas, com
seus desejos aparentemente inexplicáveis; alguma substância existente
naquilo que a mulher deseja é necessária à criança embrionária, lógico!)
Se ficarmos quietos
alguns minutos antes de tomar alguma decisão solene e séria, se ouvirmos
atentamente a voz do nosso coração, faremos o que tem de ser feito e
estaremos no caminho certo. Como diz Renato Russo em uma de suas canções:
“... mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.”
Finalizando a história, Arjuna se decide a
agir, ainda que precise usar de violência contra parentes e amigos para
banir o Caos e recompor o equilíbrio no reino, o que realiza
efetivamente com um poderoso exército e os “Pandava”, filhos de Pandu,
solares e luminosos, fazem-se reconduzir ao trono e governam com sabedoria e
decência por muitos séculos.
Consciência Cósmica no Oriente
“O degrau máximo da vida de um ser humano é
chegar
à compreensão de que tudo é ilusório” Buda
São curiosas mesmo as
similitudes entre as mais diversas religiões do mundo quando as estudamos de
perto. O que o Eclesiástico chama de “vaidade”, a tradição hindu chama de
“ilusório”. A dor, mera ilusão, o mesmo valendo para os prazeres.
Aplausos? Ilusão.
Sucesso? Ilusão. Fracasso? Ilusão. Vaias? Ilusão.
Morrem aqui todas as dicotomias de um mundo
religiosamente fundado em pontos de vista éticos. Mesmo aquilo que
ousaríamos chamar valorativamente de “bem” ou de “mal”, não passa de ilusão;
tudo são manifestações da Mente Superior que tudo vê e a tudo criou. E como
é que poderia ser diferente?
A história de Sidarta
Gautama, o Buda, O Iluminado, Aquele que despertou, amplamente conhecida por
nós no ocidente não é “novidade” para a tradição hindu.
A “pedagogia” religiosa
hindu clássica sempre pautou-se pela busca do mais elevado degrau da
iluminação. Na infância e pré-adolescência, estudava-se os Artha (como lidar
com o mundo das aparências, com o prático-pragmático em termos nossos). A
transição da adolescência para a idade adulta trazia o ensino dos Kama
(relações de plenificação e realização com o sexo oposto). A maturidade era
contemplada com o aprendizado das leis do Dharma (“política” no sentido de
“relações intersubjetivas em todas as esferas de atuação no cotidiano
ao longo da vida”. Estes três primeiros degraus de aprendizado eram
inclusive acompanhados de manuais, o Sutra; assim temos o Artha
Sutra (manual de orientação profissional), o Kama Sutra (manual de
orientação para o amor) e o Dharma Sutra (manual de ciência
política).
Aqueles cujas ânsias e
pulsões internas apontassem naquela direção, após sucesso comprovado nas
esferas anteriores eram orientados pessoalmente por grandes líderes
espirituais (os gurus) podendo chegar ao Moksha (Iluminação, o grande
despertar das percepções psíquicas superiores).
O caminho seguido por Sidarta, contudo, é
exemplar. Rememoremo-lo, portanto: abandonando o luxo e a luxúria em que
vivia, primeiro Sidarta foi viver entre os anacoretas, os mendicantes,
depois abandonou-os também quedando-se meditativo na chamada “Árvore do
Conhecimento”, onde sofre as três tentações clássicas; a luxúria, o medo da
morte e a de viver preso aos deveres sociais.
Vale remarcar aqui que
Cristo também passou por três tentações no deserto. Não foram as mesmas
tentações, mas também foram três; primeiro a tentação “econômica”, quando
satanás sugere que transforme pedras em pães e é repreendido; a seguir a
tentação política, quando lhe são oferecidos os reinos da Terra e, de novo,
Cristo o repreende; finalmente a tentação espiritual, quando é convidado a
arremessar-se do alto do Templo para que anjos o amparem: a repreensão
final, não tentarás o Senhor teu Deus! faz o demônio desaparecer.
Algo similar, guardadas
todas as proporções, ocorre com Sidarta. Primeiro surgem as três belíssimas
filhas de Mâra, Senhor da Ilusão e do Medo, que são sopradas para longe, o
iniciando não se move por aquele tipo de convite e um forte vento as tira do
cenário.
A segunda tentação é o
surgimento de um monumental exército atirando as armas mais avançadas do
tempo contra o iniciando (diz-se que até montanhas lhe são arremessadas);
sem problemas. Sem nem mesmo piscar os olhos, vê Sidarta cada faca, lança,
seta ou pedra transformadas em flores que lhe caem aos pés. Bela metáfora:
“Atirais-me pedras? Recebo-as como homenagens!” Com tudo isso, pouquíssimos
de nós consegue ver a rosa por dentro da cruz de sofrimentos que carregamos
ao longo da nossa existência nesta terra.
Finalmente a tentação
para com os deveres sociais, quando lhe é sugerido que não tem o direito de
ficar ociosamente meditando ao pé de uma árvore quando há tantas coisas no
mundo da concreção a demandar cuidados e atenções. Neste momento Sidarta dá
um leve sorriso, toca a Terra e é a própria Terra que responde ao Senhor da
Ilusão: “Que deveres sociais têm precedência a encontrar a Iluminação, o
caminho para a Libertação de toda a espécie humana?”
Mâra desaparece assim que
percebe ser, também ele, mais uma ilusão...
Que bela dádiva seria
receber tudo o que se nos oferece como pétalas de flores, por mais que a
intenção de quem nos presenteia fosse diversa desta.
Viver inatingido e permanecer impassível
ante aplausos ou vaias, ante sucessos ou fracassos, que a vida é cheia
destas ilusões todas; isto é atingir o mais elevado degrau da Iluminação, o
que os hindus classicamente chamavam Moksha e a tradição budista ensinou a
nomear Nirvana.
Quem chega neste estágio
não mais precisaria permanecer no mundo e se o faz por compaixão, para
ensinar aos seus irmãos humanos os degraus da iluminação, é reverenciado
pelos hindus como o Jivan-Mukta ( o “libertado vivo”) ou Bodhisatva, aquele
cujo ser (satva) é iluminação (bodhi).
Os Loucos de Deus
“Quando um dia perguntaram a Ma Anandamayi
sobre a história de sua vida, ela declarou: “Há tão pouco a dizer... Minha
consciência jamais se identificou com este corpo. Antes de existir nesta
terra eu era a mesma menininha. Quando me tornei mulher, eu ainda era a
mesma. Quando a família em que nasci tomou as decisões para que este corpo
se casasse, eu era a mesma. Agora, diante de vocês, ainda sou a mesma. Mais
tarde, quando a dança da criação turbilhonar à minha volta nos campos da
eternidade, serei ainda a mesma.” Patrick Ravignant
É uma prática salutar,
dentre diversas outras, meditar ou ler algo leve e religioso nos minutos que
antecedem o adormecer. Passar o dia trabalhando estressantemente seja com o
que for pode nos conduzir até mesmo ao niilismo, à falta de fé no homem por
julgarmos real esta ilusão fantasiosa que nos agride os sentidos no
cotidiano.
Uma boa sugestão são
livros religiosos, ortodoxos, como a Bíblia ou mesmo heterodoxos -
pessoalmente prefiro os menos sectários... - como por exemplo Os Loucos de
Deus, de Patrick Ravignant, ediouro, 1987.
A análise do fenômeno
profético, messiânico, é fascinante mesmo e tangenciamos a nossa vontade, a
nossa compulsão mais sincera e profunda quando esbarramos em relatos de
pessoas que abandonaram tudo na vida para chegar próximo à santidade,
próximo à Divindade - todas estas pessoas nos levam ao êxtase, ao transe, no
mínimo à reverência: São Francisco de Assis, Sidarta Gautama Buda, Swami
Ramdas, Ma Anandamayi e por aí vai.
Concordo plenamente com o
que diz, entre outros grandes humanistas, Roger Garaudy em Apelo aos
Vivos, Nova Fronteira, 1979: “Se há saída para o Ocidente esta se encontra
num diálogo entre as civilizações, no encontro do que existe de melhor e
mais sublime em todo o pensamento científico, político, filosófico e
religioso de nosso tempo, independentemente de fronteiras”. Estar aberto a
todos estes aportes parece a direção correta. Fechar-se em apenas um deles e
decidir, a partir do domínio pleno de um deles num determinado momento
histórico, num certo local “é a verdade absoluta” só pode conduzir mesmo a
hecatombes e tragédias. Ninguém pode ser “dono da verdade”, na melhor das
hipóteses, viver “em busca da verdade” pode ser o melhor caminho.
É curioso que perguntem a
um profeta despojado (ou profetiza, como a Ma Anandamayi) sobre ela mesma,
que se explique, enfim: como é que uma rosa - supondo-a dotada de
consciência e fala - poderia “explicar” sua beleza, sua fragrância? Acaso o
sol pode explicar-se? Como responderia o rouxinol se questionado quanto ao
seu canto mavioso? Assim aquele que escolhe o caminho da santidade não
consegue explicar-se; trata-se de um ser humano como qualquer de nós pode
vir a ser caso permita que a Natureza flua livremente dentro de si mesmo.
O traço comum a todos os
que escolheram este caminho, além do total desapego a qualquer tipo de
mundanidade, é uma poderosa irradiação de beatitude, de calma placidez
diante de tudo.
E daí se as
idiossincrasias que regem o nosso psiquismo nos encaminham em outra direção
como a da luta prática no cotidiano, que os mestres consideram ilusório?
Todos os caminhos são válidos se vividos com eticidade e naturalidade.
Seguir a sua pulsão ou, como dizia Joseph Campbell, “seguir a sua
bem-aventurança” é o caminho.
Mas por diversos motivos
é sempre muito difícil travar contato pessoal com um iluminado. A tradição
mística informa que “antes que a voz possa falar na presença do Mestre, tem
de ter perdido a capacidade de ferir”, mas quantas vezes, no cotidiano
mesmo, utilizamo-nos da palavra para ferir, magoar, ofender ou mesmo
castigar? O Mestre chegou onde chegou por seu elevadíssimo grau de
sensibilidade. Sensibilidade necessariamente não seletiva: sensibilidade ao
bom, ao belo, ao justo, ao rude, a tudo o que existe, enfim. Este o
principal motivo, penso eu, de ser tão difícil se chegar até onde se
ocultam: sua sensibilidade exagerada, traço distintivo, os faria sofrer
muito face a um agressor verbal cruel. Isto explica também todas as provas e
traumas por que tem de passar aquele que almeja chegar próximo que seja da
Iluminação: é preciso ampliar sua sensibilidade...
Entre os hindus é muito
respeitada a figura do Bodhisatva, o ser(satva) Iluminado(bodhi). Alguém que
se desligou completamente do mundo, atingiu a iluminação e, por compaixão e
amor, permanece entre os homens para instruí-los no reto caminho. Sua
consciência é plena e refugia-se alhures sempre que o julgam necessário. Seu
corpo físico é o veículo de sua mensagem, só prestam atenção a ele para
mantê-lo em bom estado de funcionamento, sem qualquer eivor de hedonismo.
Permanecem no umbral da consciência para instruir a humanidade. Um caminho
admirável, sem dúvida!
Deus faz tudo pelo melhor!
Um dos buscadores da
verdade de outros tempos conta uma lenda exemplar, a fim de que saibamos um
pouco mais acerca da grandeza das decisões de Deus para a nossa breve
existência no mundo, para que saibamos que, aconteça o que acontecer, algo
de muito bom está por trás de todas as circunstâncias da vida. No Rio de
Janeiro sofri perseguições por defender o que considerava justo em mais de
uma circunstância. Em São José do Rio Pardo, passado o primeiro alumbramento
da novidade de um intelectual com formação radical, humanista, não-ortodoxa,
acaba-se por perceber dificuldades similares... Poucos estão interessados na
Verdade ou em sua busca; impera, na maior parte das vezes o “faz-de-conta”,
as falsidades e hipocrisias. Creio ser assim em qualquer parte mesmo...
Enfim, Deus faz sempre
tudo pelo melhor e vou encontrando, com dificuldades, embora, o meu espaço,
o meu caminho na vida. A história que vou resumir é atribuída a Swami Ramdas
e transmitida por tradição oral. Ramdas foi um daqueles “Loucos de Deus”,
que deixaram de viver normalmente entre os seus semelhantes para que
pudessem compreender suas vidas na plenitude da União com o incriado. Aqui
ilustra-se bem como o Criador “escreve certo por linhas tortas”. Aliás, nós
é que entortamos as linhas, Deus sempre escreve retamente...
Vamos à história, portanto:
“Um monarca tinha um
ministro célebre por sua sabedoria. Muitos vinham de longe para consultá-lo
acerca dos mais variados temas, recebendo como resposta e consolo sempre a
assertiva: “Deus faz tudo pelo melhor” saindo de sua presença reconfortados.
Um dia, o rei
levou-o consigo e comitiva para uma caçada na selva. Cercando uma fera, o
soberano e o sábio foram separados da comitiva real e acabaram por perder-se
no meio da floresta.
Ao meio-dia o calor
tornou-se insuportável. O rei, cansado e faminto, deixou-se cair desanimado
à sombra de uma árvore:
_ Ministro - gemia o
monarca - estou perdendo as forças, sinto uma fome insuportável. Trate de
encontrar algo para eu comer.
O sábio foi colher
frutos frescos e os ofereceu ao seu senhor que, num acesso de gulodice
febril, fez um movimento brusco com a faca e decepou um de seus dedos.
_ Ai, ministro, que
dor! Que dor!
O outro contentou-se
em observar tranqüilamente: “Deus sempre faz tudo pelo melhor”.
A essas palavras, o
rei exasperado, o expulsa de sua presença entre insultos e, a seguir, começa
a fazer uma bandagem em seus ferimentos.
Solitário, recebe a
visita de alguns bandoleiros que, mais tarde, descobre serem seguidores de
uma poderosa deusa devoradora de homens, a Khâli tão temida pelo hindus.
“Mas eu sou o rei!”, bradava em vão o monarca, enquanto os bandoleiros
observavam, “melhor, muito melhor, nossa deusa jamais teve como sacrifício
um acepipe tão nobre!”
Chegando diante do
sacerdote que o sacrificaria, este percebe a mutilação na mão do rei e diz:
“Tirem este homem daqui! Nossa deusa não deve ser insultada recebendo um
homem mutilado como oferenda!”
O rei, aliviado,
compreende finalmente seu ministro sábio e sai a procurá-lo encontrando-o,
horas depois, à sombra de uma árvore em posição tranqüila e meditativa. Pede
que o perdoe, conta a história toda e ouve do ministro o seguinte:
_ Senhor, nada tenho a
vos perdoar e não me ofendeste de maneira alguma. Pelo contrário, eu vos
devo a vida! Se não me tivesses expulsado de vossa presença, eu teria sido
capturado convosco e os sacerdotes de Khâli teriam necessariamente me
imolado em seu lugar, uma vez estar o meu corpo intacto. Assim, como vê,
verdadeiramente, DEUS FAZ TUDO PELO MELHOR.
Minha vida
(autobiografia precoce)
De Niterói para São José
A chegada, discreta, a
São José do Rio Pardo, foi antecedida de pequenas intervenções jornalísticas
na imprensa local desde 1986. A família mora na cidade desde 82, quando
comecei a conhecê-la, assim como a seus mais ilustres habitantes, em visitas
esporádicas.
Morando em Niterói, vivia
modestamente, de uma aposentadoria proporcional aos quinze anos de serviços
prestados à FAB, por ingresso no magistério público. Ministrava aulas
numa escola pública na Tijuca e em mais duas grandes instituições
educacionais privadas de Niterói, mas salário de professor, em rede pública
ou particular no Brasil não chega a ser assim a oitava maravilha do mundo,
não.
Niterói é um bom lugar
para se viver, sem dúvida, mas uma sobredeterminação de crises e problemas
os mais diversos fizeram-me optar pela busca de um lugar mais sossegado
onde, quem sabe, pudesse desenvolver um trabalho intelectual mais profundo.
E São José, definitivamente, é uma cidade que respira cultura, entre outros
motivos porque foi aqui que Euclides da Cunha escreveu Os Sertões,
referência obrigatória na literatura científica brasileira. Das poucas
Semanas Euclidianas que tive oportunidade de participar desde 82 marcaram-me
o belíssimo desfile de abertura e uma ou outra palestra que tive
oportunidade de, anônima e discretamente, acompanhar.
Quando me decidi a
mover-me para a paradisíaca cidade em julho de 1992 e principiei meus
trabalhos no magistério rio-pardense, muitos me perguntavam curiosos: “mas
como é que você veio parar justamente aqui?” É certo que não existe acaso e,
embora a causalidade desta mudança ainda me escape, sempre respondia: “estou
fugindo da violência urbana, as grandes cidades estão invivíveis”, estava
informando somente parte da verdade. Vamos às crises que me trouxeram até
aqui, ou antes, vamos voltar um pouquinho mais no tempo e verificar como foi
que minha família veio parar aqui.
Origens
Em 72 meu pai contraiu
leucemia justamente no momento em que a sorte havia se decidido a sorrir
para ele, particularmente em termos econômicos. Fato é que expendeu todos os
recursos que logrou amealhar em dois anos de tratamentos infindáveis:
quimioterapia, radioterapia, terapias alternativas, viagens... Morreu em 74,
aos 39 anos de idade, deixando-nos uma fazenda enorme e uma casa na cidade
de Caçu, interior de Goiás, não nos restando outra alternativa que
movermo-nos para lá, minha mãe, meus quatro irmãos e eu. Estou seguro de que
era intenção do velho morrer perto dos seus e de onde tinha nascido (nossa
fazenda era vizinha à do meu avô). Um dos terapeutas alternativos com quem
se consultou costumava afirmar não existir nada melhor para a saúde de uma
pessoa que os alimentos e a água do lugar em que nasceu. Pode ser.
Sendo o filho mais velho,
estava entrando na adolescência e meu irmão caçula estava então com dois
anos de idade. Minha mãe não compreendia nada de negócios, menos ainda de
fazenda, terras, plantio, sistema de parceria, essas coisas. Optamos por
vender a fazenda para ter um pouco mais de conforto e flexibilidade na vida.
Foi vendida por um bom preço mas, na administração dos recursos não fomos
muito felizes, não.
Em Caçu trabalhei um
tempinho como auxiliar do único técnico em eletrônica da cidade, pois era a
única praia em cujas águas sabia nadar razoavelmente. A seguir, percebi que
era necessário estudar mais para poder chegar mais longe na vida. Morei um
ano em Goiânia, em casa de uns parentes e lá cursei o 1º colegial. No ano
seguinte movi-me para Uberlândia, casa de outros parentes, e lá concluí o
segundo grau, prestando a seguir concurso para o ingresso na Escola de
Especialistas de Aeronáutica. Havia outras alternativas a jovens de minha
idade à época, mas não o sabia e acabei cursando aquela escola em
Guaratinguetá pelos dois anos regulamentares. Quando me formei, terceiro
colocado numa turma de 500, escolhi servir no Rio de Janeiro e para lá me
desloquei - ê vida cigana!
Enquanto isso, digo às
vezes brincando, às vezes seriamente, que “vendi minha primogenitura por um
prato de lentilhas, como Esaú”. Deixei os meus aos cuidados de meu segundo
irmão, bancário bem-sucedido e, como se sabe, os bancos propõem
transferências diversas a seus funcionários a lugares diferentes e por vezes
“fora de mão” pelo que a remuneração aumenta um pouco. Assim, de
transferência em transferência a família decidiu-se a parar por aqui. Alguém
poderia censurar decisão assim? São José é um lugar excelente para se viver!
Isolamento e estudos
De certa forma, a palavra
escrita começou a ter muito maior importância para mim desde o falecimento
de meu pai. “Refugiei-me nos livros”, talvez. Um tio jornalista, também já
falecido, foi de grande influência em minha formação também. Trabalhou por
cinquenta anos para as “Organizações Globo” e seu principal legado a mim
foram os longos diálogos que travamos, particularmente quando uma catarata
levou-lhe embora a visão e eu o visitava aos domingos, fazendo-lhe - e a mim
mesmo - o obséquio de ler os jornais e tirar conclusões acerca da conjuntura
político-econômica, um grande exercício intelectual.
Curiosamente, após a Bíblia, o primeiro
livro que li tinha como título algo assim: “Como se livrar das preocupações
e começar a viver”. Publicação norte-americana bem antiga, um dos pioneiros
no tal filão da “auto-ajuda”. Um sujeito com quem travei contato não me
lembro muito bem a propósito de quê quando lia o tal livro remarcou que a um
adolescente deveria ser mais importante “masturbação” que “preocupação”. A
seguir aproximei-me do expressionismo alemão de Hermann Hesse, depois do
existencialismo francês de Sartre e Camus e, daí em diante vieram os
trabalhos marxistas, dos socialistas utópicos, a psicanálise reichiana, a
seguir junguiana, análises de mitologia comparada, clássicos religiosos do
mundo inteiro - em função da antropologia, creio eu - o misticismo e muitos
trabalhos pedagógicos. Aliás, está aí um traço marcante e curioso. Quando
surge uma crise qualquer, refugio-me, ainda hoje, na leitura, nos trabalhos
escritos. Num momento crucial de minha formação peguei tal ojeriza à
penetração ianque na cultura pátria que me dediquei de corpo e alma aos
europeus (particularmente alemães e russos) no campo da literatura, havendo
até hoje uma considerável lacuna em termos de literatura brasileira que
preciso o quanto antes recuperar. Indentifiquei-me bastante com o que li de
Castro Alves, Lima Barreto e Graciliano Ramos, nesta ordem.
Mãe
Mãe é uma só... D. Lygia
precisou facear-se a um mundo novo, hostil, diferente. Pior, com cinco
filhos menores a encaminhar. Não teve grande formação acadêmica. Fruto de um
tempo em que à mulher estava reservada a vida doméstica, os cuidados com o
lar, jamais havia pisado num banco até a viuvez. Carinhosa, atenciosa,
compreensiva, humana na mais elevada acepção do termo, jamais teve antes
acesso ao mundo prático-pragmático dos negócios... É seguro que para a boa
formação humana é muito mais importante o carinho e a atenção materna que
propriamente estar em boas relações com Mammon, e isto graças a
Deus os cinco tivemos. Suportou uma barra pesadíssima no embate
prático-pragmático com o mundo e a todos eles venceu com a força de seu
grande amor por todos nós.
A viuvez em idade tenra
desestrutura qualquer ser humano excepcionalmente apaixonado como é o caso e
imagino que minha doce mãezinha jamais se tenha refeito apropriadamente da
perda do grande ser humano que foi meu pai - engenheiro eletrônico, pedreiro
livre e de bons costumes, um dos principais industriais do Rio de Janeiro no
período do chamado “milagre econômico” - uma perda humana inegavelmente
irreparável.
Mamãe teve de encontrar forças onde jamais
supor existir para fazer valer os seus direitos num mundo em tudo e por tudo
aparatado a estilhaçar com sonhos de raros românticos, seu caso. Ainda assim
conseguiu orientar-nos adequadamente, em detrimento de si mesma, de forma a
ter todos os filhos “formados e encaminhados na vida”, com problemas, claro,
que todos nós os temos nestes tempos sombrios. Mas dentro de suas limitações
fez tudo o que esteve ao seu alcance para que fôssemos todos bem
encaminhados no caminho da felicidade, via de regra negando-se a si mesma em
prol de sua prole. A gratidão de todos os filhos a ela é algo tão
indescritível, tão profundamente enraizado nos corações e mentes de todos
nós que não como aqui descrever em detalhes tudo o que realizou consciente
ou inconscientemente, só posso dizer, entre lágrimas de gratidão, que sem
ela nenhum de nós teria chegado onde chegou hoje! De minha parte, tive de
deixá-la aos cuidados de meu irmão, que havia logrado maior prosperidade
material e seguir meu caminho em outras direções sempre, claro, pensando e
me comunicando com os meus a todos os momentos.
Formação
Enquanto minha família
estava ainda no Estado de Goiás, consegui graduar-me na Escola de
Especialistas da Aeronáutica.
Especialista em eletrônica percebia na prática de meu trabalho cotidiano lá
na Base Aérea em que servia que deveria ter seguido o oficialato, tão a meu
alcance quanto a escola de formação de sargentos mas quando isso era
possível, a informação não me chegou, quando recebi a informação, já não era
mais possível aproveitá-la.
Mas foi bom. Fiz boas
amizades, aprendi a tomar um chopinho gelado à beira-mar, sempre em boa
companhia, assisti a todos os filmes e peças teatrais possíveis e
imagináveis, que o tempo era farto, e minha preferência era sempre o
circuito alternativo das artes, que achava o chamado circuitão muito
impregnado de cultura ianque e havia então tomado “birra” dos ianques e de
tudo o que eles representam para a América Latina. Foi minha fase de ateu
materialista, compreendendo aqui a palavra materialista não em seu sentido
vulgar, de ânsia por posse de coisas materiais mas no sentido filosófico, de
Diderot, que informava primeiro haver surgido a matéria e, da matéria
profundamente elaborada, no formato de um ser humano, por exemplo, só
poderiam resultar idéias humanas, dentre elas a idéia de divindades e coisas
assim. Fui ateu mesmo por uns oito anos, creio.
No começo procurei
estudar eletrônica. Fui “adestrado” para isso desde o berço. Aquela coisa de
“o que é que você vai ser quando crescer?” Bom, a resposta certa, mesmo sem
saber o significado daquelas palavras era: “Engenheiro Eletrônico”. Fiz três
anos de engenharia numa instituição privada lá na zona norte do Rio, longe à
beça de onde trabalhava - o curso completo é de seis anos - e acabei
fascinado com a precisão da matemática chegando à conclusão de que as
pessoas a quem eu poderia eventualmente agradar exibindo um certificado de
conclusão de curso de engenharia já haviam morrido ou estavam pouco se
lixando, tranquei matrícula e prestei novo vestibular. Um ano de matemática
numa universidade federal foi o tempo suficiente para perceber que o grande
barato mesmo era a filosofia da matemática. Tales de Mileto foi iniciado nos
mistérios de elêusis, Pitágoras foi iniciado no Egito, onde aprendeu o
famoso teorema que leva seu nome e sem o qual a construção daquelas
pirâmides teria sido bem mais difícil, fundou um escola
interessantíssima em Samos, etc.
Filosofia somente em
período integral (manhã, tarde e noite dedicados aos estudos, deve ser algo
muito bom!) e, como precisava trabalhar, somente dispunha da noite,
levando-me, em novo vestibular à mesma universidade federal, para o curso de
Ciências Sociais, o mais próximo da filosofia. Graduei-me sociólogo e
comecei logo a ministrar aulas de filosofia, sociologia e história nas redes
pública e particular do Rio e Niterói, além de meu serviço militar. Não era
muito fácil. Algumas pessoas têm dificuldade em aceitar que “subalternos”
tenham conseguido, malgrado o sistema inteiro estar aparatado na direção
oposta, adquirir tão vasto conhecimento. Uma tremenda bobagem por uma série
de motivos; em primeiro lugar, em que é que uma pessoa letrada pode
atrapalhar o serviço? E depois, que coisa é esta, “vasto conhecimento?”
Quanto mais você estuda mais se dá conta de que conhece pouco das coisas no
mundo das letras e, de mais a mais, sempre fui tão canhestro na
administração da vida prática, nenhum dos grandes cursos que fiz deu
qualquer lição minimamente útil ao trato das coisas do cotidiano. Aliás,
quando você se dedica por muito tempo a abstrações passa a literalmente
deplorar o que usualmente se chama de útil, prático, pragmático, utilitário
ou coisas do gênero. São conceitos-tabu, por assim dizer, na maior parte das
correntes filosóficas. A única que se aproxima, mesmo assim em nada,
literalmente nada, ajuda no viver cotidiano é a chamada filosofia da praxis,
minha predileta.
Quando se estuda mitologia ou religiões
comparadas - e, em antropologia foi necessário fazer “trabalhos de campo” em
terreiros de candomblé, igrejas pentecostais, sinagogas, mesquitas... -
aprende-se a respeitá-las todas e acaba-se por aprender também que, como
dizia Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa
vã filosofia”. Some-se a isso um verdadeiro milagre na minha frente e eis-me
católico novamente. Mas um católico mais aberto ao diálogo, nem um pouquinho
sectário. Sabedor de que, havendo respeito e seriedade, o mesmo Deus se
apresenta com nomes diferentes (até mesmo “sem nome”, o que me parece mais
adequado) nas diferentes correntes religiosas do mundo.
Surgem os problemas
Catolicismo mais filosofia da praxis acabam
resultando em Teologia da Libertação e aí sim começam a surgir os problemas.
Na militância política - e também aprendi que o homem é um animal político,
que toda a atuação coletiva, multitudinária é política por definição -
desconfiavam de mim por ser eu militar. É certo que vivíamos o Brasil da
abertura política mas fica muito ranço de paranóia na militância até hoje
após o período difícil que todos vivemos de 64 a 82. Por outro lado, na
caserna a desconfiança também: “o que é que este sujeito está procurando
entre os comunistas?”
Suportei estoicamente a situação por um bom
tempo, até que a crise econômica chegou também aos quartéis e, já na “Era
Collor” houve uma diminuição no tempo de serviço diário nos quartéis,
passando de 8 para 4 horas, cortando despesas com as refeições, que seriam
obrigatórias nos ranchos caso se seguisse em período integral. Por uns meses
foi até bom. Não houve diminuição salarial, somente reduziu-se o tempo de
serviço diário nos quartéis, o que tornava possível “fazer bicos”. Tenho até
hoje vários colegas na ativa trabalhando, em seus momentos de folga, com
taxi, com informática, com eletricidade, eletrônica e mesmo magistério. No
meu caso, um sujeito tornou-se implicante e fazia-me cumprir um horário mais
extenso que os demais num serviço para o qual sequer tinha qualificação. Uma
“tungada” salarial difícil de suportar em tempos de crise: trabalhava mais
na Base pelo mesmo salário (o militar é remunerado pelo posto ou graduação,
não pelo tempo de trabalho expendido, claro está) e meu tempo para o
magistério e auto-aperfeiçoamento decresceu insuportavelmente.
Abro aqui um parêntese para relatar um
episódio hilariante - bom, agora é hilariante, quando talvez o estivesse
vivenciando haja sido um tanto quanto doloroso... - por que talvez tenha
passado na caserna:
Coronel
Peçonha
Havendo sido militar
por 15 anos e sempre me orgulhado muito por estar trabalhando pelo progresso
de minha pátria, em determinados momentos passamos coisas muito estranhas no
Brasil. Eis aqui um dos fatores de alguma certa desilusão.
O cidadão, cujo nome
me escapa por uma destas razões inconscientemente explicáveis, granjeou este
apelido graças à sua postura. O dia podia estar lindo, com pássaros cantando
e flores se abrindo, mas quando ele aparecia, “em peçonha”(daí o apelido), o
tempo fechava, nuvens negras cobriam o horizonte, os pássaros recolhiam-se a
seus ninhos, as flores murchavam...
Sendo 2º sargento
técnico em eletrônica, estava eu um dia calmamente ajustando a temporização
de um relê na Central Telefônica da Base Aérea em que trabalhava (naquele
tempo ainda se usava relês em centrais telefônicas...) - coisa tão
complicada que já nem me lembro mais como é que se faz, só sei que exige um
osciloscópio, paciência e, sobretudo, muita concentração e raciocínio lógico
- quando chegou o Coronel Peçonha: “A partir deste momento você está
transferido para a Seção de Serviços Gerais e sua primeira tarefa por lá é,
em vinte minutos, efetivar reparos na latrina da suíte do comandante da
base, que se encontra enguiçada.”
À ocasião nem mesmo
parei para pensar no que poderia levar o sujeito a almejar que eu fizesse
aquilo. Mais tarde me disseram que ele tinha inveja de mim; por algum
motivo, diziam-me, não podia admitir que um sobordinado seu tivesse tanto
conhecimento específico e utilizasse com sabedoria palavras “pomposas” - não
me lembro de haver recoberto com “pon-pons” expressões que tenha utilizado
quando próximo de meu “superior hierárquico” a ponto de suscitar tanto ódio.
Mas é a única explicação plausível e Sherlock Holmes, criação de Arthur
Connan Doyle, em sua metodologia ensinava algo como: “quando você elimina o
impossível, o que resta, por mais improvável que seja é a verdade!”
Olhei para ele um
tanto distraído, sem o menor eivor de medo ódio ou qualquer sentimento. Se
perdesse tempo para prestar atenção nele, talvez o que sentisse mesmo fosse
desprezo. Fato é que, naquele momento, estava ali na minha cadeira, na minha
bancada, montada a duras penas após anos de criteriosa seleção de material,
tentando desesperadora mas lucidamente resolver com rapidez um problema
lógico quando chega alguém e diz alguma coisa que ameaça fazer-me perder o
fio-da-meada do raciocínio com uma espécie de ordem que escuto como que
vinda de algum calabouço medieval envolto em brumas: “Não vou”, disse
calmamente, “só há uma pessoa em toda esta base capaz de fazer esta central
telefônica funcionar novamente, e este sou eu. Há dezenas de encanadores na
Seção de Serviços Gerais capazes de fazer o tipo de reparo necessário pelo
comandante da base. Agora me dá licença que tenho mais o que fazer!”
Ficou lívido. Meus
colegas ficaram todos lívidos, que a coisa foi meio “pública”, como se eu
tivesse proferido gravíssima blasfêmia. Acontece que ninguém, sendo
subalterno, pode ousar dizer não a alguém em posição hierárquica mais
elevada. Pode, e freqüentemente era assim que conseguíamos resolver nossos
problemas, dizer entusiasticamente “Sim , Senhor!” e nada fazer a seguir,
mas há que manter as aparências. Acontece que eu estava ocupado, distraído e
nem me recordei deste detalhe... Coronel Peçonha nem voltou a falar comigo.
Lá consigo devia estar a pensar: “Este sujeito é doido e lugar de doido é no
hospício”.
Não sei por que
caminhos coercitivo-ilegais fui levado a ter uma entrevista com um major
psiquiatra no hospital da base e ele precisava dizer se eu estava ou não em
gozo de minhas perfeitas faculdades mentais, o que me acarretaria uma
punição severa por desobediência testemunhada a ordem superior, ou se
eu estaria sofrendo de alguma forma de desequilíbrio mental e precisaria de
tratamento específico (uma forma “branca” de punição pela rebeldia, no fim
das contas...). Como conhecia o Coronel Peçonha de outras oportunidades
parecidas, o major riu muito quando lhe contei o caso e concedeu-me 15 dias
de descanso “por estafa”. Meio chata mesmo foi a onda de insultos a que
aquele coronel se submeteu, pois todos os que desejavam livrar-se de sua
nefanda influência tentavam fazer conscientemente o que fiz
inconscientemente e acabavam sofrendo punições por isso. Fato é que é sempre
muito difícil lidar com aqueles que se julgam “donos da verdade”...
Ao regressar do
“repouso”, que até me valeu grande respeito entre meus colegas, estava
transferido para setor diferente daquele em que trabalhava. Nada a ver com a
minha formação profissional específica, mas o principal era que não tinha
mais nada a ver com peçonhenta chefia daquela triste figura. Transferências
assim são prática típica quando, nas Forças Armadas se pune o oficial
superior por ato arbitrário. Só fico pesaroso por causa daquele relê,
coitadinho, sem temporização até hoje...
Da FAB ao Magistério
No magistério público,
recordo-me que a hora-aula valia tanto quanto uma banana nanica (numa greve
de professores portávamos um botton com a inscrição: “não trabalho em troca
de banana!”) se não me equivoco o governador à época era o Brizola que,
consideravelmente boicotado pelo governo federal pouco ou nada podia fazer
pelos professores, não que não fosse sensível à causa, mas estava mesmo
manietado.
Na rede privada, os
salários estavam também baixíssimos e também comigo a coisa foi um pouco
mais severa. Sendo um profissional, no mínimo mediano, recebia um salário
equivalente a 1/5 daquele de outros colegas pelo mesmo tipo de aulas - havia
mesmo quem considerasse minhas intervenções superiores às de outros colegas
- e isso, além de fazer brotar o sentimento de revolta, de estar sendo
injustiçado, dificulta mesmo a vida prática no cotidiano de uma cidade
grande, onde se tem mais necessidades de aportes financeiros, pois o custo
de vida é mais elevado e os apelos consumistas são muito maiores, por
exemplo, é inadmissível a um professor deixar de assistir a um determinado
filme ou peça teatral, deixar de estar atualizado com boas e recentes Obras
literárias e específicas à sua atividade, ou mesmo acompanhar uma defesa de
tese inovadora; sem automóvel numa cidade grande a vida fica muito mais
complicada, à época a inflação galopava e os salários permaneciam lááá
embaixo. Sem condições!
Apesar dos pesares, “me
encontrei” como professor! A legislação vigente permite ao militar que
abrace a carreira do magistério afastar-se do serviço ativo levando consigo
uma aposentadoria proporcional ao tempo de serviço. Servi 15 anos, recebo
15/30 avos ou metade do que recebe um militar da ativa, claro que sem as
inúmeras vantagens pecuniárias que o pessoal da ativa recebe. Mas tinha de
optar e optei idealisticamente pelo magistério. O tempo provaria que não foi
a mais sábia decisão do ponto de vista prático, o que comprova o que digo
acima, nem sempre, creio mesmo que quase nunca, conhecimento teórico é o
mesmo que sabedoria prática. Tenho mesmo algum conhecimento teórico, embora
a estrada à minha frente seja infinitamente mais longa, fato é que, em
termos utilitários ou pragmáticos vinha sendo um exemplo de burrice. Se
tivéssemos de ilustrar num dicionário a expressão “burro”, bastaria colocar
ali uma fotografia 3x4 minha... Próximo do meio do caminho de minha vida
julgo estar ficando mais “sabido” no sentido utilitário, pragmático mas,
paradoxalmente isso me incomoda muito. Será que não estou perdendo algo em
outras esferas?
Em 91 me envolvi
emocionalmente de maneira muito intensa com uma pessoa bastante complicada.
Com todas as coisas boas daquele relacionamento, um dia chegamos à conclusão
de que estávamos fazendo mais mal do que bem um ao outro. A ruptura foi
dificílima, justo no momento em que havia complicações também na esfera
financeira. Foi muito demorado e dilacerante administrar todas as tensões a
que estava então submetido mas creio haver conseguido, com um mínimo de
trauma para todo o mundo, afastar-me de meus trabalhos e de uma pessoa de
difícil convivência, particularmente sendo-o eu também...
Tempo de mudanças
Somente em meados de 92
consegui colocar as coisas em razoável estado de ordem e mover-me “com mala
e cuia” e meus livros para São José do Rio Pardo. Passei seis meses
praticamente enclausurado, estudando muito, até para recuperar o tempo
perdido. Terminada a licença e não podendo dedicar-me exclusivamente a meus
estudos, por mais interessantes que os julgue, precisei apresentar-me para
trabalhar.
Já no início de 93 ministrava aulas em
Escola Estadual e em duas instituições privadas. Cautelosos, meus
empregadores concederam-me inicialmente uma carga-horária modestíssima, mais
para ver como era meu desempenho mesmo. Penso haver agradado, pois os
convites foram aumentando e já no segundo semestre de 93 estava com boa
parte do tempo tomada por atividades docentes.
Em 94 então foi uma
loucura. Em seis cidades diferentes, uma carga-horária superior a todo o
bom-senso: mais de 70 (setenta!) aulas por semana, o que deixa o professor
sem tempo para preparar melhores aulas, corrigir adequadamente todos os
trabalhos e provas e, o que é mais grave, sem tempo algum para o
auto-aprimoramento. Isso para não mencionar que, mesmo o Estado de São Paulo
sendo mais rico e generoso que o do Rio de Janeiro, a situação econômica do
professorado sempre esteve distante de ser confortável.
Repetiu-se o quadro em
95, quando procurei otimizar meu tempo dedicando-me a trabalhar mais onde
pagavam melhor - não era o melhor que um verdadeiro humanista deveria fazer,
mas era o possível e recomendável diante da situação difícil que se
apresentava. Mais aulas em mais cidades que em 94 e o mesmo problema que
havia encontrado no Rio com relação à valorização profissional. Debaixo da
desculpa de as instituições privadas precisarem pagar pelo valor do “show”
que o professor se esmera em dar, os salários são tremendamente
diferenciados e sempre encontrei dificuldade em me conformar em receber
menos do que pessoas que executavam, no mínimo, um trabalho similar ao meu
e, em certas instituições e circunstâncias as pessoas considerarem um
verdadeiro “favor” pagar o minguado salário mensal. Os meninos não têm
rigorosamente nada a ver com isso mas o profissional acaba esmerando-se mais
onde vê o seu trabalho salarialmente melhor reconhecido e aceito, claro.
Foi uma alegria muito
grande a excepcional receptividade da coletividade com relação ao meu
trabalho, particularmente no início. A novidade de aulas ao ar-livre quando
o tempo estava bom e não eram necessárias as anotações, temas novos a todos,
até porque boa parte de minha formação é mesmo não-convencional, atraindo
alunos com aulas vagas para a minha classe e mesmo pedidos de familiares
para acompanhar algumas prédicas como ouvintes, os aplausos sinceros ao
final, a honra de ser paraninfo de diversas turmas. Cabe aqui uma remarca: é
excepcionalmente salutar que as cidades do interior paulista (que da capital
conheço pouco) tenham “cerimônias de formatura”. No Rio isso deixou de
existir antes que eu ingressasse no magistério. São como “ritos de
passagem”, bastante úteis ao psiquismo de todos que se vão conscientizando
de estar passando para uma outra etapa, mais elevada, de suas vidas. Mas
isso é discurso de paraninfo, voltemos ao fio-da-meada.
Se, como as plantas,
pudesse nutrir-me de luz, calor, chuva e terra fértil, a enorme quantidade
de alegria que os meninos e seus pais sempre me deram no exercício do
magistério, com seriedade, competência e muita alegria - numa palavra,
profissionalismo - estaria tudo bem. Mas, humano, vivo de meu trabalho e, se
as condições econômicas deixam de ser um estímulo, passando a ser quase que
um castigo, entra-se novamente em crise.
As aulas na faculdade sempre foram as mais
compensadoras, não apenas pelo salário melhor como pelo verdadeiro desafio
que é trabalhar com adultos sequiosos de saber, muitos deles já dotados de
algum conhecimento teórico, o que sempre possibilita interlocuções mais
fecundas, claro.
Considerações sobre metodologia
Uma formação libertária
faz colocar o saber à disposição do educando, jamais deve o professor
colocar-se esparramado como um gigantesco obstáculo entre o aluno e o
conhecimento. Deve antes ser um facilitador, buscar sempre elogiar os
acertos e desprezar os equívocos - deixando-os, contudo bem esclarecidos -
como pequeninas falhas humanas a que todos estamos sujeitos mesmo. Devem
professores e alunos, “caminhar juntos” na busca do saber.
Sempre começo meus cursos
“depondo armas”. Não se está em guerra, estamos todos juntos em busca de
mais conhecimento e as reprovações - exceto em casos extremos - tornam-se
desnecessárias. Os mais dedicados e empenhados, respeitando as normas
vigentes, recebem nota máxima. Quem se empenha menos, tem pelo menos a nota
mínima para a aprovação. Entre um extremo e outro, as gradações de praxe e
ponto final.
Escândalo entre os
conservadores, acostumados a conter a disciplina em sala de aula com ameaças
de cortes de pontuação na nota. Uma alegria inicial por parte dos alunos
menos dedicados, aqueles que “vão à escola porque o papai mandou” - receio
ser grande o número destes diante do quadro atual da educação em nosso país.
Digo alegria inicial até porque logo percebem existir um tipo mais profundo
e severo de repressão, a repressão moral. Os próprios alunos ficam
aparvalhados quando não atingem a “nota máxima” e já cheguei a ouvir, tanto
lá no Rio, onde este método funciona muito bem, quanto por aqui pela Região
mesmo, de um aluno para outro: “U quê? Cê num tirô nota boa logo him
filosufia?” Pessoalmente acho curioso perceber que eles estão a controlar-se
espontaneamente. Mas não deixo de me sentir um repressor moral num nível
mais profundo. Incomoda um pouco, mas pelo menos fica o disfarce. Parece não
haver qualquer restrição ou repressão e eles mesmos se controlam para
atingir os objetivos estabelecidos por nós logo no início do período letivo.
Em nossa sociedade,
ocidental, burguesa etc, aprendeu-se que o “bom professor” é aquele mais
sisudo, carrancudo, inacessível, eivado de conteúdos impenetráveis e pródigo
em reprovações. Por esta leitura, não seria eu propriamente um “exemplo”,
pois nada comporto de sisudez, gosto muito de rir e brincar com meus alunos
e acredito firmemente que rindo e brincando todos nós - professores e alunos
- aprendemos muito mais. Sinto nojo de gente que fala e não consegue
fazer-se compreender e ainda ousa chamar a isso de erudição. Se falo e não
me compreendem, que mensagem estou transmitindo, afinal? Optei pela
suspensão da égide do medo. Nenhum de meus alunos precisa, em circunstância
alguma temer o que quer que seja de mim, nem reprovação castradora, coatora,
nem repressão em excesso. Mesmo porque o essencial nesta vida não se aprende
na escola; só se aprende a viver vivendo!
Mas, em toda a classe sempre tem algum engraçadinho que, fora do contexto do
que se está discutindo quer saber coisa diversa. Aprendi na prática uma
solução sensacional. Se, enquanto estou explicando alguns princípios
iluministas alguém me pergunta, por exemplo, “quem envernizou a asa da
barata”, respondo rapidamente: “à tarde, na sexta-feira, hora da ‘aula
livre’ esclareço este ponto, não o esqueça. Voltando a Diderot...” E na
sexta-feira à tarde é aquela festa. Todos os alunos de todos os cursos, numa
tentativa de implementar algo similar a uma aula aristotélica, estão
convidados a comparecer para ouvir a explanação, em 20, 30 minutos de um
tema diferente como “namoro”, “legalização do aborto”, “pena-de-morte” ou
algum questionamento sério de alguém durante a semana e, a seguir, fica
livre o debate para perguntas e questionamentos os mais diversos e livres
que se pode fazer. Como estive trabalhando em diversas cidades, ocorria às
vezes de, além de alunos de turmas diferentes e até de escolas diferentes,
familiares aparecerem e vir gente de cidades vizinhas para a famosa “aula
livre”. Às vezes ficava difícil explicar ou justificar num relatório escrito
o tipo de atividade, nitidamente pouco ortodoxa que exercitava. E jamais
recebi um único centavo furado pelo trabalho que fazia com mais satisfação.
Tentando me conformar, achava que era assim mesmo. Você dificilmente recebe
alguma coisa para fazer o que gosta. No Modo de Produção Capitalista você
executa tarefas que não têm nada a ver com você, que lhe são estranhas (é o
que se chama de “alienação”) e até detestadas e, ao fim do período combinado
de trabalho, recebe a sua paga, raramente justa, por sinal.
Hoje penso diferente,
creio que as “aulas livres” deveriam constar dos planejamentos formais e ser
excepcionalmente bem-remuneradas, sempre exercidas por profissionais
capacitados para tanto. Em primeiro lugar porque é o locus por excelência de
melhor aproveitamento por parte de todos os participantes, em segundo porque
é uma atividade profissional desgastante e todo o exercício laborativo deve
ser remunerado mesmo.
Da ascensão à queda e da queda à
ressurreição
Em meados de 95, dada a
elevada carga de trabalhos e, segundo meu presente sistema de crença, a
carga energética nem sempre das mais positivas a que estava submetido,
entrei num processo de estafa que por pouco não me leva à depressão. É uma
das coisas mais comuns no magistério, esse tipo de coisa, aliás. Professores
estafados, deprimidos, insatisfeitos, sentindo-se injustiçados...
O finzinho de 95 pegou-me
com uma boa notícia: haveria um concurso público para o provimento dos
cargos efetivos de professores da faculdade. Aproveitei muito bem as férias
para reciclar-me, estudar muito e preparar-me. No início de 96 deu-se
efetivamente o concurso. Lembro-me de que havia uma vaga para professor de
sociologia (que é minha principal credencial) e quatro candidatos.
Professores dotados de elevada titularidade - doutorado, livre-docência -
vieram examinar-nos. Uma prova escrita com tema sorteado na hora, quinze
páginas escritas definitivamente esgotando o tema proposto. Uma aula que
ministrei com particular cuidado e esmero. Além da graduação, concluí em
Niterói um curso de extensão universitária, lato-sensu, que me credencia a
ministrar aulas a cursos superiores em caráter provisório, até que consiga
encaminhar meu mestrado que ficou emperrado quando meu orientador lá no Rio
demitiu-se da Instituição em que trabalhava e até agora não encontrei quem
esteja trabalhando com a temática que me proponho a estudar - pontes entre o
socialismo utópico, o surrealismo e a psicanálise - tem gente muito boa
trabalhando com esta temática, mas muito distante da minha atual capacidade
econômica...
O resultado do concurso
foi uma consternação geral. Houve um primeiro lugar, um segundo lugar, um
terceiro lugar e uma reprovação. Sim, pela primeira vez na minha vida tive
de passar pela experiência desagradabilíssima de ser reprovado. Esse troço
ficou preso a mim como uma cruz que carreguei por muito tempo e à qual
dormia pregado. Jamais consegui compreender. Todos sempre me elogiaram
tanto, os entrevistadores com grande respeito somente me perguntavam coisas
como: “o que é que um profissional do seu gabarito está fazendo aqui? Seu
lugar é numa Instituição com muito mais possibilidades e recursos!” Por ter
certeza da prova que fiz, da aula que ministrei e lisonjeado com a
observação da “banca”, cheguei mesmo a celebrar, sozinho, em casa, como um
louco dançando em cima da mesa enquanto ouvia repetidamente o primeiro
movimento da ópera “Carmina Burana” no último volume. Demorou um bocado de
tempo até que pudesse ouvir aquela peça novamente sem traumas ou más
recordações.
Justo no início do ano
letivo, quando estava escolhendo os melhores horários para as unidades em
que me propunha a trabalhar, essa Letra Escarlate parecia estampada em meu
semblante, com um menino tocando tambor à minha frente o tempo todo.
Repassava os momentos do concurso. Tudo tão certo. Não recorri legalmente.
Algo me dizia que além de não adiantar nada (os examinadores já se haviam
retirado, o voto-de-minerva seria dado por outros que tinham motivos de
sobra para não demonstrar clemência etc) ainda ficaria duplamente vexado.
Preferi a margem de dúvida possível com que pudesse trabalhar o psiquismo.
Difícil. E as pendências salariais em escolas particulares, mesmo com a
inflação controlada, seguiam agudas. Parecia-me ver injustiça para onde
voltasse o olhar, credo! Triste recompensa a quem tem um elevadíssimo nível
de auto-crítica e pensa fazer o melhor trabalho possível. A própria notícia
pública, impressa em vários lugares, da minha reprovação desvalorizou meu
trabalho. De novo a cruz pesada: “seria a falta da titularidade pelo menos
de mestrado? Mas como é que ninguém me preveniu desta possibilidade?”
Muito estranho, de fato.
Pela enésima vez em meu presente estado de existência, ouço as vozes que me
saudavam até às vésperas a ensaiar um coral de vaias. Vejo aqueles que um
dia trouxeram tochas para iluminar o meu caminho a ameaçar incinerar-me vivo
com aquelas mesmas tochas. Em situações assim parece-nos que o chão nos some
sob os pés...
Vive-se, leva-se,
suporta-se com tanto estoicismo quanto se pode a tensão toda.
Inconscientemente, se vai colocando as contas em dia e formalizando um
pedido de afastamento das unidades em que trabalhava para meados do ano
letivo, quando me movi, “com mala e cuia” e meus livros, para a casa de meus
familiares, o que, convenhamos, é sempre um dissabor para todos.
Mais seis meses de
introspecção e estudos, agora com ênfase à metafísica que o mundo da
concreção só me apresentava dores e dissabores. Minha religiosidade
aprimorou-se bastante e estive muito próximo de seguir o caminho dos “Loucos
de Deus”, aqueles que largam tudo para aproximar-se da Divindade. Em longas
meditações a revelação: “meu caminho é o da conquista da matéria densa, da
vida na concretude mesmo, o ascetismo somente paralisaria meu processo
evolutivo”. Esta revelação trouxe-me de volta ao mundo prático-pragmático
que vou, aos poucos, tentando compreender melhor e domesticar...
* * *
Educação para a Redenção
“Este ensaio de Lázaro Curvêlo Chaves
explicita humana e cientificamente seu objeto. O espectro de leituras, o
crivo metodológico, o enlace unívoco do sujeito com seu tema atestam a
vocação intelecto-espiritual do Autor. Seu perfil, seu tônus moral, sua
medula ética são, inescapavelmente, alento especial àqueles que, como eu,
acreditam na assunção final da espécie humana”.
Ricardo Máximo Gomes Ferraz
“O caráter político da prática pedagógica
não depende, porém, somente dos que trabalham na área de educação. Não é que
alguns educadores, devido a suas convicções políticas e ideológicas, façam
de seu trabalho um trabalho político, assim como outros o manteriam em sua
esfera específica, resguardando sua pureza original. Queiram ou não os
educadores, tenham ou não consciência dessa realidade, seu trabalho é
necessariamente político. Nem mesmo a “santa” ingenuidade dos que têm plena
convicção do caráter desinteressado de sua pratica educativa elimina essa
dimensão política. Numa palavra, o político constitui o próprio ser do ato
educativo enquanto ato humano e, como tal, inserido na luta concreta dos
homens.”
Ildeu Coelho, “A Questão Política do
Trabalho Pedagógico”, in: BRANDÃO, Carlos, O Educador, Vida e Morte.
Educação para a Redenção
(Uma proposta educacional
libertária)
I - Visitando
o ventre do monstro
Vivemos numa sociedade
injusta em grau superlativo, haja visto que cerca de 10% da parcela mais
privilegiada da população detêm cerca de 70% da renda nacional, enquanto
vemos cerca de 60% da população brasileira a viver muito abaixo da linha da
pobreza, segundo dados da FIBGE de 1995 (o processo concentracionista de
rendas, sem dúvida, agudizou seriamente este quadro, já caótico, de 1995
para cá). Em recente reportagem da “Folha de São Paulo” percebemos um grande
acréscimo no consumo de bens de altíssimo luxo, como automóveis e outros
bens importados, tudo levando a crer que, para aqueles que se situam no topo
da pirâmide de distribuição de rendas no Brasil as condições de vida em
poucos momentos históricos lhes foram tão favoráveis, felizes e plenas como
agora. Segundo relato acurado do padre John Drexel e da professora Leila
Rentróia Iannone, 1% da população do Brasil detêm mais de 50% da renda
nacional. A dupla coletou estes dados no relatório do Banco Mundial de 1985
enquanto elaborava um libelo humanista em prol das crianças carentes e
abandonadas no terceiro mundo, intitulado Criança e Miséria, Vida ou Morte?,
ed. Moderna. Ainda neste riquíssimo libelo, somos informados de que o Brasil
é o quarto produtor mundial de alimentos mas, como proprietários de animais
domésticos do primeiro mundo pagam melhor preço pela comida que produzimos,
nosso país acaba sendo o 6º do mundo em subnutrição, ao lado de Bangladesh,
por exemplo. Cerca de 1.000 crianças por ano são assassinadas no Brasil de
formas variadas - o Capital tem se mostrado particularmente criativo neste
tipo específico de crueldade - fome, doenças infecto-contagiosas, violência
policial ou paramilitar de “esquadrões da morte” etc. O sistema cria o
problema e providencia o seu extermínio, literalmente falando.
A recessão a nós imposta
pela política econômica internacional, Estados Unidos à frente, afeta de
maneira desigual a população, como se percebe nas dobras dos discursos das
autoridades ou mesmo em dados como os relatados acima. Ainda assim,
proliferam discursos de empresários e investidores “se queixando” da
recessão. Dada a crueza da situação concreta em que vivemos, a dedução óbvia
é que tais discursos não passam de peça de propaganda voltada a que todos
pensem - a despeito do testemunho dos fatos e dados estatísticos - estarmos
todos sofrendo, embora em gradações diferentes numa sociedade como a nossa,
com a recessão programada, na verdade, para agudizar este
processo concentracionista absurdamente perverso, inapelavelmente imoral e
totalmente injustificável.
Ao factual acima um dado
mais recente, publicado na “Folha de São Paulo” de 11/02/98, baseado na
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 96: de cada 1.000
alunos que iniciam a 1ª série nas escolas públicas, apenas 43 chegam a
formar-se em oito anos, ou seja, 4,3% apenas dos alunos que se matriculam em
escolas públicas concluem o 1º grau... Há mais, ainda segundo o Pnad, cerca
de 750.000 estudantes na faixa dos 8 aos 12 anos não sabem ler. Fica no ar a
pergunta: o quê aprendem nas escolas?
Os casos de prostituição
infanto-juvenil (havendo não raros casos de escravidão sexual,
particularmente em áreas fronteiriças e de garimpo) envergonham a Nação
diante do mundo. Há miríades de menores famintos abandonados por pais
desesperados, morrendo à míngua de pão, vestimenta, educação básica (sem
mencionar o amor, o afeto, o carinho da família...). Torna-se comum e há até
um certo nível de complacência para com a toxicomania como fuga a uma
realidade absolutamente insuportável; os índices de criminalidade estão
assustadores. Por outro lado há abundância, fartura, éden e cornucópia no
topo da pirâmide social, com direito a importação de produtos de alto luxo,
como vimos acima; investimentos de recursos sociais em obras
não-prioritárias (NB: Não são “obras desnecessárias”, são simplesmente “não
prioritárias” dada a crueza da situação existencial atual e exemplifico: se
ao invés de construir novas escolas e hospitais se valorizasse salarialmente
o trabalho dos profissionais de ensino e da saúde as verbas estariam
seguramente melhor empregadas!). Outra questão é a das privatizações. Não há
como recusar que muitas coisas funcionam melhor nas mãos da iniciativa
privada, mas é preciso reconhecer que, em muitos casos, os serviços
prestados pelo poder público são primorosos e lucrativos - estes, que estão
passando por processo de privatização também, precisam ser mantidos na
esfera estatal ou pelo menos o processo todo repensado. Ofende a Razão
perceber a devastação perpetrada contra a Natureza: florestas seculares
sendo abatidas por industrias madeireiras; o plantio da cana em “terra roxa”
é quase um crime, pois ali se poderia plantar vegetais vitais ao consumo
humano, deixando o fabrico do álcool combustível para um outro plano.
O Brasil se mostra,
efetivamente, como observava muito bem Roger Bastide, uma Terra de
Contrastes. Contrastes. Com trastes a dirigir e orientar os rumos que a
Nação deve seguir, mantendo o concentracionismo de rendas e todas as mazelas
dele decorrentes. Aguarda-se o momento em que uma tempestade varra estes
trastes e os contrastes deles decorrentes. Como dizia André Breton em A
Lâmpada no Relógio: “Do seio da terrível miséria física e moral deste tempo,
espera-se sem desesperar ainda que energias rebeldes a toda a domesticação
retomem pela base a tarefa da emancipação humana!”
A leitura dos jornais diários, nos
proporciona uma indignação cruel e um forte sentimento de injustiça! Lado a
lado notícias de infelicidade humana daqueles que estão na base da pirâmide
social brasileira (morticínio, latrocínio, prostituição, desemprego,
inadimplência e desespero) com as de abundância e plenitude dos sempre e
permanentemente privilegiados (desfiles de moda de alta costura
internacional, anúncios de vestimentas suntuárias, colunas sociais
desprovidas de eticidade num país com tão severos problemas sociais etc).
Sendo, como é de fato, uma sociedade injusta
- insisto aqui no adjetivo: superlativamente injusta - urge remanejá-la,
transformar a organização social em algo que venha a promover, efetivamente,
a vida, a plenitude requerida por todos os seres humanos, por todos, sem
exceção, sem exclusão. O grande pré-requisito para tanto, claro, é a
abolição da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de
produção - e como é difícil falar sobre isso no momento de mais severo
retrocesso histórico do mundo, com o colapso do socialismo dito real e a
proliferação modista do neoliberalismo com todo o seu cortejo de retrocessos
nos direitos trabalhistas fundamentais! É preciso criar condições ao livre
desabrochar da autogestão, de uma justa e equânime distribuição da riqueza
por todos produzida mas apropriada por pouquíssimos, como nos informam as
estatísticas mais recentes.
O irracionalismo, a
pseudo-racionalidade que rege o sistema, esta orientação sócio-econômica
aviltante, cujas regras favorecem sempre os mais fortes, já detentores do
poder político e econômico, não havendo - e quando as há, dificilmente são
cumpridas - leis que protejam os menos favorecidos, tem sido o corrente
na sociedade afluente.
É necessário e urgente
lutar em todos os campos possíveis e imagináveis para que seja fundada uma
nova organização social, voltada agora à promoção da vida dos seres humanos,
transformar o mundo, enfim, na morada do homem. Para isso:
1 - Submeter a realidade irracional da
organização social existente a um julgamento a partir de um critério maior,
a Razão Radical!
2 - Atuar em conjunto e mesmo isoladamente
com o mínimo possível de submissão às “normas” vigentes, irracionais porém
hegemônicas, visando a quebra da espinha dorsal desta estrutura social
aviltante. Uma submissão prático-pragmática em sua plenitude ao
irracionalismo que rege o todo inviabilizaria a luta por transformações
sociais radicais reificando, portanto, a estrutura social atualmente
vigente.
Os anarquistas,
humanistas radicais, de Gandhi a Thoureau, de Buber a Kropotkin, passando
pelos marxistas heterodoxos, de linhagem humanista como Ernst Bloch, Leon
Trotski, Rosa Luxemburgo, Roger Garaudy, Herbert Marcuse, José Carlos
Mariátegui, Camilo Torres, Che Guevara, entre milhares de outros diferem
radicalmente dos liberais e mesmo dos marxistas filo-liberais num ponto
nodal: os primeiros rompem claramente com as normas vigentes, entendendo ser
impossível criar o novo a partir da velha e ossificada “ordem” ou mesmo
mentalidade tradicional, entendendo, por fim, ser vital banir a
possibilidade de composições com o necrosado, com o moribundo,
particularmente onde a realidade social é de tal sorte anômica, de tal forma
assimétrica e desigual que não há mesmo como ceder espaços sem que com isso
se acabe por preservar o existente. Os segundos (liberais e filo-liberais)
consideram ser possível aperfeiçoar gradualmente a sociedade sem qualquer
tipo de ruptura ou transformação social súbita, aceitando composições de
ocasião com a chamada “ordem” em alguns aspectos, visando pequenos e pífios
“avanços” que pouco mais fazem no fundo que arrefecer, amortecer o conflito
de classes, trabalhando assim, em última análise, em prol da preservação do
existente - isto em sua vertente, digamos, “otimista” que, involuntariamente
quiçá, trabalha em prol da perpetuação da “ordem” injusta em que vivemos
enquanto em seu discurso (e possivelmente em sua vontade) haja uma plêiade
de propostas bem-intencionadas de chegar a uma sociedade com novas
características. A vertente “realista” deste grupo ocupa-se mais, no campo
intelectual, em “provar” que “não tem jeito”, “tudo será como está, sempre
foi assim e assim sempre será”, “chegamos ao fim da história e das utopias”
e outros pseudo-alegatos reificadores do Modo de Produção Capitalista, que
existe há não mais de 400 anos em cerca de 5.000 anos de história humana no
mundo.
É absurdo, ilógico, cruel
do ponto de vista do humano que nossa espécie consiga enviar sondas ao Cosmo
ou às profundezas abissais dos oceanos, viajar com velocidade inacreditável
a distâncias enormes e tenha, em síntese, atingido tantas conquistas na área
da tecnologia por um lado e, por outro, esteja lidando com condições tão
sórdidas ao nível mais básico da sobrevivência material. Tornou-se
lugar-comum nos meios radicais, mas nunca é demais enfatizar, que balas de
fuzil são muito mais caras que o leite, granadas são incrivelmente mais
dispendiosas que livros, tanques custam mais que escolas... Mas no
mundo não há falta de balas, granadas, tanques ou fuzis; falta leite, falta
pão, faltam escolas, falta fazer o que os surrealistas vêm verberando e
reverberando há décadas: RECONHECER E VALORIZAR O AMOR COMO PRINCIPAL MOTOR
ÉTICO DA HUMANIDADE! Quem ama está, por princípio, plantado numa agonística
humanista radical. Aquele que de fato ama, quer o melhor para si e os seus.
Como posso ser feliz se há irmãos meus morrendo de fome à noite,
abandonados, sem lar nem carinho? Como é que posso estar em paz com a
“ordem” se esta “ordem” condena arbitrariamente, “por nascença”, milhares de
seres humanos à miséria material e afetiva, com requintes de crueldade, onde
se percebe que milhares de menininhas são submetidas, anualmente, a formas
diversas de brutalidade na esfera mais bela e sublime de suas vidas? Quem
pode ousar erguer-se em defesa desta “ordem”? Uma “ordem” que consegue banir
a satisfação dos anseios mais básicos e seus primeiros derivados, uma
“ordem”, como diz nosso querido dominicano Frei Betto, que deixa a maioria
dos seres humanos “faminta de pão e de beleza”... Não! Uma tal “ordem” é
total e absolutamente indefensável!
Nem um minuto de
descanso! Guerra à “ordem”. É necessário quebrar a cadeia do Mal,
cortar a garganta do diabo do Capital, parafraseando aqui Nikos Kazantzakis
em A Última Tentação de Cristo. A Grande Recusa que aqui se propõe só é
viável se universal. Passo a palavra, neste ponto, a Herbert Marcuse, que
defende este ponto de vista em seu prefácio político a Eros e Civilização:
“...Hoje, a recusa
organizada dos cientistas, matemáticos, técnicos, psicólogos industriais e
pesquisadores de opinião pública poderá muito bem consumar o que uma greve,
mesmo em grande escala, já não pode conseguir, mas conseguia noutros tempos,
isto é, o começo da reversão, a preparação do terreno para a atuação
política. Que a idéia pareça profundamente irrealista não reduz a
responsabilidade política subentendida na posição e na função do intelectual
na sociedade industrial contemporânea. A recusa do intelectual pode
encontrar apoio noutro catalisador, a recusa instintiva entre jovens em
protesto. É a vida deles que está em jogo e, se não a deles, pelo menos a
saúde mental e a capacidade de funcionamento deles como seres humanos livres
de mutilações. O protesto dos jovens continuará porque é uma necessidade
biológica. “Por natureza”, a juventude está na primeira linha dos que vivem
e lutam por Eros contra a Morte e contra uma civilização que se esforça por
encurtar o atalho para a morte, embora controlando os meios capazes de
alongar esse percurso. Mas, na sociedade administrativa, a necessidade
biológica não redunda imediatamente em ação; a organização exige
contra-organização. Hoje, a luta pela vida, a luta por Eros, é a luta
política.”
Esta Grande Recusa, esta
ruptura política, precisa ter a força sugerida por Maurice Blanchot, citado
também por Marcuse, desta vez em A Ideologia da Sociedade Industrial, ed.
Zahar:
"Ce que nous refusons n’est
pas sans valeur ni sans importance. C’est bien à cause de cela que le refus
est nécessaire. Il y a une raison que nous n’acceptarons plus, il y a une
apparence de sagesse qui nous fait horreur, il y a une offre d’accord et de
conciliation que nous n’entendrons pas. Une rupture s’est produite. Nous
avons été ramenés à cette franchise qui ne tolère plus la complicité.
" - "O que nós recusamos não é
destituído de valor ou de importância. Precisamente por isso a recusa é
necessária. Há uma razão que não aceitaremos mais, há uma aparência de
sabedoria que nos causa horror, há um apelo de acordo e de conciliação a que
não mais atenderemos. Ocorreu uma ruptura. Fomos reduzidos àquela franqueza
que não tolera mais a cumplicidade". Maurice Blanchot
Nenhuma conciliação
possível com as propostas dos ideólogos da sociedade afluente. Devemos lutar
pelo fim da opressão, da repressão, da exploração do homem pelo homem.
queremos um mundo no qual as pessoas possam viver mais felizes. Um mundo,
enfim, mais bonito.
A primeira providência a
se tomar, perfeitamente realizável na era de abundância econômica em que
vivemos em termos planetários, é que haja alimento, moradia e vestimenta
garantidos a todos os seres humanos vivos. Ver a cessação das hostilidades
entre os seres humanos na esfera da mera sobrevivência material já seria um
grande passo! Em O Capital, capítulo VIII, Marx informa ser este o vampiro
da vida humana; textualmente: “O Capital é trabalho morto que como um
vampiro se reanima sugando o trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte
se torna”.
E nós nascemos num tempo
em que a autoridade tornou-se difusa, ou, como diz Erich Fromm em O Medo à
Liberdade, anônima, invisível, é o lucro, a opinião pública, o mercado o
senso-comum... Se este tipo de autoridade promovesse o humano de alguma
forma, seria tolerável, mas acontece precisamente o oposto, trata-se de uma
autoridade irracional, tolhedora, inibidora, fator de limitação do humano. E
as pessoas nascidas e criadas em sociedades com as características aqui
descritas tornam-se, via-de-regra, inseguras, subnutridas, acuadas,
esfarrapadas, em suma, transformadas em seres abúlicos pelo vampiro da vida.
Que tipo de educação se pode oferecer dentro de uma tal “organização”
social?
Estou persuadido de que
chegamos sempre - às vezes com alguma dificuldade - a bom porto se sabemos
para onde nos dirigimos, se temos uma meta ou, como o dizem sabiamente os
surrealistas, um graal a conquistar. Se não sabemos sequer para onde nos
encaminhamos, a chegada, evidentemente, será muito mais difícil... Neste
sentido, mencionando palavras de Ernst Bloch, citadas por Pierre Furter em
Dialética da Esperança:
“O filósofo é um
militante especializado na interpretação dos sinais do nosso tempo. Tem como
tarefa específica distinguir onde está a esperança dos homens e para onde
estes conduzem o nosso tempo (...) Um revolucionário, portanto, é um
sonhador, é um amante, é um poeta, porque não se pode ser revolucionário sem
lágrimas nos olhos, sem ternura nas mãos. Os poetas de hoje, os verdadeiros
poetas de hoje, são os que desenham o amanhã, os artistas estão construindo
com palavras, com argila, com aquarelas, as maquetes que vão servir de base
à Sociedade do Futuro.”
Este o mote principal
destas notas: a partir da constatação empírica da inadiável necessidade de
um movimento multitudinário que transforme o mundo, efetivamente, na morada
do homem, serão traçados alguns esboços do que se tem proposto em termos
educacionais para a sociedade ácrata que, estou seguro, será a tônica no
mundo em algumas décadas.
II - Educação para a
Esperança: Programa Educacional Libertário
Tendo uma visão peculiar
da necessária e impostergável revolução social, os anarquistas lutam pelo
fim do Estado, pelo fim da velha ordem ao mesmo tempo em que se constrói -
sem forma alguma de ditadura intermediária - a ordem social libertária. Ou
seja, a “revolução da esperança” por eles proposta é um ato de destruição de
tal ordem que traz já dentro de si a nova sociedade.
Nada mais distante do
pensamento libertário, antiautoritário por definição, que a instituição de
alguma forma de governo revolucionário provisório. Seria ilusório supor - e
a história o tem comprovado - que um governo revolucionário, fosse de que
natureza fosse, se satisfizesse com a interinidade. Ao contrário o poder,
onde existe, busca sua perpetuação e é precisamente contra isso que se
insurgem os defensores da sociedade ácrata. “O caminho que conduz à
liberdade, só pode ser a própria liberdade”, reza antigo ditado anarquista.
Não somos “inversivos”, caso em que desejaríamos a tomada do poder político
e econômico para um partido ou classe social, somos antes subversivos, ou
seja, queremos atingir o fim do Estado, do poder e da dominação política,
econômica ou de qualquer natureza preservando apenas e unicamente aquela
Autoridade natural, emancipatória, estimuladora do crescimento e realização
humanas.
A temática da educação,
de resto presente em praticamente todas as correntes do pensamento social, é
privilegiadíssima nos clássicos do pensamento anarquista como Kropotkin,
Bakunin, Proudhon, Buber, Landauer, Robin e Malatesta, principalmente porque
sem uma real modificação na mentalidade das pessoas - e a educação cumpre
papel crucial, basilar neste ponto - a revolução social poderia não alcançar
o êxito desejado.
Cumpre fazer aqui uma breve digressão acerca
do êxito da Revolução, a partir do pensamento de Mariátegui, bem como de
Ernst Bloch, ambos marxistas heterodoxos, de linhagem humanista. O
revolucionário peruano, citando Sorel, fala do vigor inesgotável dos
lutadores por justiça social no mundo informando que nunca se abatem: “A
cada experiência frustrada, recomeçam. Não encontraram a solução: a
encontrarão! Jamais lhes assalta a idéia de que a solução não exista. Eis aí
sua força!” Já o Filósofo da Esperança compara o niilista ao revolucionário
nos seguintes termos: “Enquanto o niilista conclui do Não ao Nunca, o
revolucionário ascende do Não ao Ainda-não. (“NOCH-NICHT-SEIN”). Não vamos,
contudo, ficar de braços cruzados à espera da inevitável vitória da
revolução social, pois somos nós mesmos os seus protagonistas. Mas a certeza
da vitória final renova, a cada recuo histórico - de resto dialeticamente
inevitável - a nossa força e, por que não dizê-lo, a nossa FÉ!
A elaboração de um
Programa Educacional Libertário foi precedida por uma crítica feroz à
educação burguesa e teve lugar na Europa em meados do século passado.
Sendo a grande meta comum
a todos os combatentes em prol da Justiça Social no mundo o fim da luta de
classes * , como dizia Errico Malatesta: “...Anarquia, este sonho de justiça
e de amor entre os homens...”
Outra crítica importante
ao sistema educacional burguês era dirigida à educação religiosa, cada vez
mais conflitante com as descobertas das ciências naturais da época, além de
desviar a atenção dos educandos dos problemas deste mundo **. Também a falta
de unidade no ensino era ferozmente combatida pelos anarquistas; a divisão
formal entre “educação científica” e “educação profissional”, entre “ensino”
e “aprendizagem”, segundo Proudhon só ser via para manter a divisão da
sociedade de classes, perpetuando a condição existente entre subalternos e
trabalhadores. Hoje, por compreendermos a verdadeira religiosidade como
elemento importantíssimo não apenas da emancipação humana, como também de
sua elevação intelectual e moral, pensamos que a educação religiosa deve
ocorrer, sim, mas de maneira obrigatoriamente não-dogmática! Nosso combate,
passe a redundância, deve dar-se, isso sim, contra todas as formas de
dogmatismo, seja ele religioso, científico, filosófico ou de qualquer
natureza (Esta temática será devidamente aprofundada no capítulo III - Da
metodologia).
Bakunin, insurgindo-se
contra a existência de dois tipos de educação, uma mais aprimorada, para a
burguesia, outra bastante simplificada, limitada e limitadora dirigida aos
trabalhadores, já neste momento influenciado pelas teorias educacionais de
Paul Robin, proporá a criação de uma educação integral.
Em 1882 o Comitê Para o
Ensino Anarquista reúne-se e prepara seu Programa Educacional que
centraliza-se, num primeiro momento, na supressão de três práticas, muito
habituais nos estabelecimentos de ensino mas sem dúvida execráveis; são
elas:
1. A disciplina artificial, coativa, à
margem da vida. Esta precisa ser suprimida pois causa dispersividade e medo,
além de fomentar mentiras e delações entre professores e alunos. Mais tarde
os Anarquistas proporão uma disciplina conciliada com a naturalidade humana,
uma disciplina em nome da esponteinade humana que, com base na Autoridade
Natural, possa promover o humano, conduzir e despertar, EDUCAR no sentido
mais elevado e sublime desta expressão: possibilitar a cada um o
desenvolvimento daquilo que cada um tem de melhor em si mesmo em termos de
espontaneidade e humanidade. Esta proposta tem a vantagem suplementar de
possibilitar ao educador libertário crescer intelectual e humanamente
também, como bem o enfatiza Mário Lodi, quando fala da “Criatividade
Liberada”, na coletânea de textos Educação e Liberdade, inicialmente
publicado no volume 1/87 da revista italiana Volontà, traduzido e publicado
no Brasil por Nelson Canabarro, ed. Imaginário, 1990.
2. Os programas apriorísticos e
genérico-formais, também à margem da vida, onde não se dá voz ou vez aos
interessados, os educandos. Numa etapa posterior, os anarquistas proporão a
implantação de programas sérios, voltados a auscultar as particularidades,
onde não mais haverá o culto do indivíduo em favor do social. Ai do social
que não possa contar com indivíduos sazonados! Os programas apriorísticos,
genérico-formais, têm de ser suprimidos pois tolhem a liberdade dos
educandos, sua originalidade, sua capacidade de iniciativa e mesmo inibem a
sua responsabilidade fazendo com que pensem que só “de cima” podem vir
verdades acerca das relações dos homens entre si e destes com a natureza.
3. As classificações, finalmente, deveriam
ter o mesmo destino (a lata de lixo da história), por serem fonte de
comportamentos baseados na rivalidade, na inveja e no rancor, além de
provocar distinções dos educandos entre si com base exclusivamente na
avaliação subjetiva do professor. Também neste item, em etapa posterior, os
Anarquistas passam a pensar em classificações sim, mas nunca de maneira
apriorística, sempre suscetíveis de modificações, onde o respeito às
particularidades subjetivas seja o centro das considerações. Vale ressaltar
ainda uma vez que o indivíduo pleno, sazonado, é decisivo para a perspectiva
anarquista. Só podemos ter o coletivo salvo se tivermos salvo o particular.
Qualquer forma de classificação que não contemple a dimensão da promoção
intelectual e moral do humano será permanente anátema para a perspectiva
anarquista!
Reformuladas estas práticas nocivas, o
ensino, segundo o Programa Educacional Anarquista, poderá ser
verdadeiramente integral, racional, misto e libertário.
Integral,
porque poderá “favorecer o desenvolvimento harmonioso de todo o indivíduo e
fornecer um conjunto completo, coerente, sintético e paralelamente
progressivo em todos os domínios do conhecimento intelectual, físico, manual
e profissional, sendo as crianças exercitadas nesse sentido desde os
primeiros anos” Flávio Luizetto, Utopias Anarquistas, Brasiliense, 1992.
Racional,
porque liberto do dogmatismo religioso ou mesmo científico (hoje em dia mais
pernicioso e perigoso este último), fundamentado na Razão e de acordo com os
princípios da dignidade e independência do homem, não mais na obediência
cega a qualquer forma de orientação exterior ao humano ou ao racional.
Misto,
ou seja, voltado a favorecer a co-educação sexual, onde a figura da
discriminação nesta esfera não passe de triste recordação de um tempo
sombrio - há que se reconhecer que muito se avançou nesta área específica do
século XIX às margens que estamos do século XXI.
Libertário
ou, “numa palavra, consagrar em proveito da liberdade o sacrifício da
autoridade repressora, uma vez que o objetivo final da educação é formar
seres humanos livres que respeitem e amem a liberdade alheia!” Flávio
Luizetto, op. cit.
Traçar, a este ponto,
mais que um esboço, além de extrapolar em muito os modestos conhecimentos e
habilidades de quem assina estas notas, encontra ainda a dificuldade
suplementar de serem planos e programas anarquistas consideravelemente
incompletos, o que é perfeitamente compreensível, traçar mais que um esboço
do que se propõe ultrapassaria também os limites dialéticos recomendáveis; a
construção da Sociedade do Futuro é tarefa eminentemente social, coletiva,
daí dever dar-se com o assentimento e o entendimento de todos os
interessados no processo ensino-aprendizagem (pais, professores e alunos,
fundamentalmente) de modo livre, evidentemente.
Liberdade é a
palavra-chave em todo o processo ensino-aprendizagem. Assim como é
inimaginável, em relacionamentos amorosos que alguém diga a outrem por quem
se interesse: “me ame!” como numa ordem, é ridiculamente ilógico ordenar ou
coagir as pessoas a estudar o que quer que seja. Assim como na conquista
amorosa, também nesta esfera tudo deve dar-se em termos de persuasão, de
conquista mesmo!
Também os professores
que, em sua esmagadora maioria, ministram aulas em condições tão aviltantes
(baixos salários, classes abarrotadas, excessiva carga horária etc) sendo
até levados muitas vezes a exercer atividade tão nobre como o magistério por
imperativo categórico de necessidade financeira, inexistindo a vocação,
propriamente dita, para ensinar e aprender, caminhar junto com os educandos
rumo ao saber com amor e alegria precisam ser trabalhados, persuadidos,
conquistados às propostas libertárias...
Uma grande campanha de
elucidação e persuasão, a nível federal - diria mesmo que internacional -
através dos meios de comunicação é fundamental ao sucesso de tal empreitada.
Trata-se aqui, nem mais nem menos, que de uma guinada radical à forma como a
educação vem sendo encaminhada há séculos.
Platão, discípulo de
Sócrates, ministrava suas aulas na famosa Academia, residência do herói
ateniense Academo. Aristóteles, “a inteligência”, discípulo mais eminente de
Platão, no Bosque dos Lobos ( Lukeion em grego arcaico), em aulas
peripatéticas, criou o Liceu. Tempos depois, já por ocasião do domínio
macedônico sobre o mundo grego, Epicuro criou o Jardim, onde se cultuava
acima de tudo o amor, a liberdade e a alegria.
Hoje em dia percebemos
haver muitos “liceus” e “academias” pelo mundo afora, numa claríssima
manifestação do tipo de comprometimento daquelas instituições com o
pensamento socrático, platônico e mesmo aristotélico, em grande medida
autoritário.
O “jardim” até pouco
tempo existia somente para crianças, eram famosos e agradabilíssimos os
“Jardins da Infância”. Hoje, nem isso, a tendência mundial é a de se
preparar a criança desde a mais tenra idade para o que encontrará pela
frente nos níveis mais avançados, ou seja, vão desaparecendo do cenário os
“jardins-de-infância”, substituídos pela chamada “pré-escola”...
Sem problemas, avanços e
recuos são comuns na história da humanidade e, se vivemos um tempo de recuo
na direção autoritária do platonismo ou do aristotelismo (sem demérito algum
à grande riqueza intelectual e erudição daqueles gênios da humanidade, menos
ainda a seus ricos aportes à filosofia) por um lado e um recuo do epicurismo
ético, tempo chegará em que se assistirá e vivenciará uma inversão - também
provisória, ou estaríamos exorbitando a dimensão da dialética - de todo este
quadro.
III - Da Metodologia
Em primeiro lugar, é
necessário enfatizar a diferença entre o saber científico e aquele do
senso-comum. Aquilo que Erich Fromm chama em O Medo à Liberdade de
“validação consensual”, ou seja a opinião da maioria acerca de um dado fato,
quase nunca é bom começo à pesquisa científica, embora seja útil ao
dia-a-dia das pessoas. Todos “percebem” a solidez da Terra e como o Sol
segue o seu caminho nos céus no período que vai da aurora ao crepúsculo, mas
a pesquisa científica séria e aprofundada demonstra que a Terra tem vários
movimentos, como rotação, translação etc, e é precisamente o movimento de
rotação que nos dá a percepção de “nascer e por-do-sol”, além disso, em
relação à Terra, o Sol está imóvel no céu, mas também esta estrela de sexta
grandeza tem um movimento em torno da Via Láctea que, por sua vez,
desloca-se em grande velocidade também, como estilhaços da grande explosão
que especula-se ter dado início a tudo, o “Big Bang”.
Tais descobertas
científicas, num tempo em que o dogmatismo religioso detinha todo o poder,
por pouco não custou cabeças privilegiadíssimas como a de Galileu Galilei,
que precisou retratar-se diante do Tribunal do Santo Ofício para salvar-se
mas si muove... Ocorre que a verdade da constatação científica empírica se
impõe finalmente e hoje não se encontra mais quem conteste seriamente o
movimento dos astros no universo.
O segundo passo é
perceber as diferenças cruciais entre a metodologia das ciências humanas e
aquela das ciências naturais. O filósofo romeno-francês Lucien Goldmann em
Ciências Humanas e Filosofia, Difel, 1986, às pág. 31 e seguintes coloca:
“Na realidade, sabemos
hoje que a diferença entre as condições de trabalho dos “fisiólogos, físicos
e químicos” e a dos sociólogos e dos historiadores não é de grau, mas de
natureza; no ponto de partida da investigação física ou química há um acordo
real e implícito entre todas as classes que constituem a sociedade atual a
respeito do valor, da natureza e do fim da pesquisa. O conhecimento mais
adequado e mais eficaz da realidade física e química é um ideal que hoje (a
situação não era a mesma nos séculos XVI e XVII) não choca nem os interesses
nem os valores de qualquer classe social (...) Nas ciências humanas, ao
contrário, a situação é diferente. Pois se o conhecimento adequado não funda
logicamente a validade dos juízos de valor, é certo porém que favorece ou
desfavorece psicologicamente essa validade na consciência dos homens. A
assimilação do revolucionário ao criminoso, por exemplo, é de natureza a
afastar o leitor do primeiro (...) em tudo o que respeita aos principais
problemas que se colocam para as ciências humanas, os interesses e os
valores sociais divergem totalmente. Em lugar da unanimidade implícita ou
explícita nos juízos de valor sobre a pesquisa e o conhecimento que está na
base das ciências naturais, encontramos nas ciências humanas diferenças
radicais de atitude, que se situam no início, antes do trabalho de pesquisa,
permanecendo muitas vezes implícitas e inconscientes (...) Nas ciências
humanas não basta, pois, como o queria Durkheim, aplicar o método
cartesiano, por em dúvida verdades adquiridas e abrir-se inteiramente aos
fatos, pois o pesquisador aborda muitas vezes fatos com categorias e
pré-noções implícitas mas não conscientes que lhe fecham de antemão o
caminho da compreensão objetiva.”
Como se percebe, em
ciências humanas encontra-se uma produção de conhecimento comprometida com a
manutenção do statu quo ante ou, para utilizar expressão própria, com a
manutenção da “ordem” como a conhecemos e uma outra produção de conhecimento
voltada à transformação radical deste mesmo statu quo ante a partir da
constatação empírica de que esta “ordem” está transformando nosso mundo num
verdadeiro inferno. Neste pequeno trabalho, parto da constatação da
existência da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de
produção e, num juízo de valor voltado à emancipação do homem de toda e
qualquer forma de opressão ou tolhimento da liberdade, proponho um
reordenamento social, para longe da opressão e do tolhimento da liberdade em
todas as esferas. Neste caso específico, na esfera das relações
profissionais, no processo ensino/aprendizagem. Aqui passo a mais uma breve
citação, agora de Errico Malatesta em Escritos Revolucionários, Novos Tempos
Editora, 1989 que no escrito “Um pouco de teoria”, pág. 39 em diante
informa:
“Nós desejamos a
liberdade e o bem-estar de todos os homens, de todos sem exceção. Queremos
que cada ser humano possa se desenvolver e viver do modo mais feliz
possível. E acreditamos que esta liberdade e este bem-estar não poderão ser
dados por um homem ou por um partido, mas todos deverão descobrir neles
mesmos suas condições, e conquistá-las. Consideramos que somente a mais
completa aplicação do princípio da solidariedade pode destruir a luta, a
opressão e a exploração, e a solidariedade só pode nascer do livre acordo,
da harmonização espontânea e desejada de todos os interessados (...)
Evidentemente, não queremos tocar sequer num fio de cabelo de ninguém,
enxugando as lágrimas de todos, sem fazer verter nenhuma. Mas é necessário
combater no mundo tal qual é, sob pena de permanecermos sonhadores estéreis
(...) É por amor aos homens que somos revolucionários; não é nossa culpa se
a história nos obriga a esta dolorosa necessidade.”
Quanto à questão
religiosa, ainda uma vez, percebe-se na citação do revolucionário italiano
que muitas das metas dos anarquistas são comuns às metas mais elevadas de
correntes religiosas sérias como o cristianismo, por exemplo. Combatendo num
tempo em que o dogmatismo religioso aliava-se ao Capital em prol da
manutenção do statu quo ante, da “ordem”, socialistas autoritários (os que
pregam a ditadura do partido único), assim como socialistas libertários, que
propõem uma caminhada de lutas sem cessar rumo à anarquia, à sociedade
ácrata, sem classes, não contemplando ditadura de qualquer natureza entre os
dois instantes, estes socialistas todos, ao se contrapor ao dogmatismo
religioso “pró-ordem”, acabam por criticar e propor mesmo a erradicação do
fenômeno religioso in totum. No mundo atual, contudo, ao percebermos haver
cientistas da área de humanas a fazer profissão de fé socialista, por vezes,
caindo em outras formas de dogmatismo ainda mais nefandas que aquelas
encontradas pelos primeiros socialistas nos religiosos de outros tempos,
percebemos que o combate não é mais ao fenômeno religioso, mas ao
dogmatismo, seja ele de que natureza for. Nossa perspectiva é aquela do
humanismo radical, queremos a emancipação do homem de todos os entraves à
sua liberdade, por conseguinte, à sua felicidade e saúde plenas. Hoje em dia
encontramos entre os mais sérios e abnegados religiosos, homens de elevada
fé e amor ao humano, grandes aliados à causa libertária. Roger Garaudy, por
exemplo, em Apelo aos Vivos, Nova Fronteira, 1979, à pág. 248 coloca:
“Nossa longa busca
através da sabedoria e do profetismo de três mundos revelou-nos que podemos
viver de outro modo.
Viver de outro modo as
relações com a natureza, quer dizer, as relações econômicas.
Viver de outro modo as
relações do homem com a sociedade, quer dizer, as relações políticas.
Viver de outro modo as
relações do homem consigo mesmo e com o divino, isto é, as relações da
sabedoria e da fé.
Como conceber,
realizar, nestes três níveis, o projeto necessário à sobrevivência da vida
da espécie? O projeto é necessário para passar de um crescimento cego, sem
finalidade humana e suicida para o mundo, a um desenvolvimento do homem e do
desabrochar daquilo que nele é divino. Ele exige radical inversão em nossas
relações com a natureza, com a sociedade, conosco mesmos e com o divino
(...) Compreender a vida é, em primeiro lugar, percebê-la em sua unidade.
Restaurar a unidade perdida no Ocidente entre o homem e a natureza, o senso
da comunhão com o Todo. Tomar consciência de que pertencemos ao real e de
que toda a realidade se resume e se mira em nós.”
Como fica bem claro, não
se faz aqui apologia da metodologia científica exclusivamente, embora a sua
aplicação seja consideravelmente necessária ao mundo contemporâneo. É
fundamental encontrar os aportes do que há de mais elevado e avançado nas
ciências humanas (mais em seu aspecto humano que em seu aspecto científico),
na filosofia portanto e no fenômeno religioso ou profético em seu sentido
mais amplo.
Há finalmente uma questão
terminológica, a incomodar alguns espíritos mais sensíveis, o que é
compreensível dado o poder da máquina propagandística que trabalha para a
“ordem” impedindo a clara visão dos fatos em ciências humanas, como se
percebe na citação supra de Lucien Goldmann. Que a Revolução Francesa tanto
quanto a Revolução Americana foram fatores de avanço para o Ocidente, não se
questiona, mas a expressão “revolução” ou “revolucionário” é tida, lida e
vista com preconceitos infundados, ou melhor, fundados apenas na mencionada
máquina de propaganda, o que Adorno e Horkheimer chamam de Indústria
Cultural. Outra expressão que precisa ser lida, vista e tratada com mais
respeito, a despeito da indústria cultural, é aquela que fala de
“subversão”. Chamamos de aos defensores da “ordem” tal qual está de “versivos”.
Aqueles que almejam alcançar o poder para impor coercitivamente sua
mundividência a outros sem alterar as estruturas existentes em qualquer
ponto, são os “inversivos”. “Subversivos” somos os que propomos a cessação
das hostilidades entre os homens, o fim da luta de classes, os que lutamos
por um mundo de Paz, Harmonia, Plenitude e Fartura, um mundo no qual todos
os seres humanos, “todos sem exceção”, possam viver livres do medo e do
ódio, possam ter enfim plenificados seus anseios por FELICIDADE.
Lamentavelmente, todos os subversivos da história têm sido por ela muito
maltratados em vida, como já nos informa Wilhelm Reich em O Assassinato de
Cristo: numa sociedade fundada em falsidades e hipocrisias, que elegeu o
blefe e a fraude como “bezerros de ouro”, todo o subversivo sofre os
ataques constantes da Peste Emocional, que leva seres humanos encouraçados a
suprimir (não raro fisicamente mesmo) aquele que luta por Amor, Liberdade,
Fraternidade... Mario Lodi, em sua entrevista no trabalho já mencionado, tem
de se haver com estas dificuldades. Colegas professores, pais encouraçados,
portadores de verdadeiras blindagens por vezes, alunos aprisionados nas
malhas da “ordem”, vêem o quão humanisticamente BOM (bom cidadão, bom
profissional, bom familiar, bom cristão, bom ser humano, enfim) se pode ser.
Não conseguindo fazer ou mesmo ou verem-se retratados ou espelhados naquele
exemplo, farão de tudo, de acordo com a atuação neles da Peste Emocional,
para perseguir, buscar afastar ou, no limite, levar à supressão física mesmo
se possível lhes for, o subversivo inovador. Claro, depois de morto e bem
morto o revolucionário inovador, a sociedade afluente hipócrita lhe erguerá
estátuas ou mesmo templos, que tempos...
É doloroso perceber que
todos os que tiveram como objeto privilegiado de análise a alma humana,
colocando em prática suas descobertas e inovações, em suas múltiplas
manifestações, foram negligenciados - freqüentemente sepultados - em favor
dos que privilegiaram a coisa, o Capital, o produto inerte, a materialidade
mercadológica, o tecnicismo cientificista, como eixo de seu pensamento. O
mercado pode contar como uma de suas realizações mais representativas o
haver podido fundar a legenda, tão disseminada, do técnico superior ao
humanista.
IV - Proposta
educacional libertária
Urge revolucionar toda a
sociedade, subvertê-la recolocando o ser humano no cerne de todas as
considerações políticas, sociais e econômicas, isto já está claro.
Vejamos agora o que pode
fazer o educador libertário em sua profissão para aperfeiçoar o homem e o
mundo a caminho da sociedade ácrata que, estou seguro, será a tônica do
terceiro milênio.
Tomemos inicialmente a
experiência de A. S. Neil em Summerhill. Ao contrário do que muitos pensam,
não é inédita, nem se trata de “um lugar em que se brinca ao invés de
estudar” menos ainda fracassou. Os jovens são recebidos naquele
estabelecimento de ensino aos cinco ou seis anos de idade, ali podendo
permanecer até os dezesseis ou dezessete e têm total liberdade para escolher
os rumos a dar à sua própria educação. Neil deixa claro lá haver sempre
professores gabaritados a preparar os jovens a todo e qualquer exame a que
porventura deseje submeter-se na sociedade afluente, sendo seu desempenho
naqueles casos, muitas vezes superior ao de jovens egressos de outros
estabelecimentos de ensino autoritários. A impressão que se tem, ao travar
contato com relatos acerca daquela “república de crianças” é a de que, por
não haver ali qualquer forma de coerção, os jovens dela saem com enorme
erudição nos campos de saber de seu livre interesse e, o que é mais
importante, delas saem livres do medo!
O processo pedagógico,
com amor e como o amor precisa contemplar amplamente as esferas erótica *
, lúdica e onírica de todos os envolvidos. Ora, todo o tipo de coerção é
antitético tanto ao erótico, quanto ao lúdico, quanto ao onírico, antitético
ao amor portanto, assim como a todo o verdadeiro e sério trabalho
pedagógico. Educação sem coerção não é pouca coisa, como se percebe.
Inclusive pela sua raridade no mundo atual. Talvez nisso, na abolição da
égide do medo na Instituição, para os jovens tanto quanto para seus
educadores, resida o sucesso deles em sua vida profissional e, o que é mais
importante, em sua vida afetiva - pelo menos até que a sociedade afluente
acabe por fagocitá-los também.
Mas Summerhill, com toda
a sua beleza, está bem longe de nós no espaço e, o que é mais grave, na
ideologia.
Passo portanto, a falar
de minha experiência como professor de história, filosofia e sociologia a
jovens e adultos nas redes secundária e de terceiro grau, tanto públicas
quanto privadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Descrevo o quadro caótico-enlouquecedor que encontro e passo a fazer
propostas emergenciais, embora utópicas (lembrando aqui e sempre que utopia
é algo possível e atingível; trata-se, numa definição clara, de “local ou
situação que não existe”, AINDA. Não de uma proibição ontológica
definitiva).
O professor vê-se, em
geral, diante do seguinte quadro:
_ Salários da ordem de US$ 250 por
estabelecimento em que trabalha.
_ Precisa trabalhar, ministrar aulas mesmo,
em pelo menos quatro estabelecimentos de ensino onde dá - uma dádiva quase
que literal mesmo - aulas em cada um a cerca de dez turmas diferentes para
que possa auferir rendimentos compatíveis pelo menos com sua sobrevida
material.
_ Cada turma tem, em média, cinqüenta
alunos, sendo freqüente encontrar estabelecimentos de formação (uma
deformação, isso sim!) secundária ou mesmo de terceiro grau com até cento e
vinte alunos por classe!
_ Os estabelecimentos de ensino, em geral,
têm sua filosofia própria, sendo enormemente refratários a qualquer tipo de
inovação não-ortodoxa.
Percebe-se que o professor precisa lidar com
mais de mil seres humanos por ano letivo, em sua maioria carentes material
e/ou afetivamente nestes tempos de crise interminável, muitas vezes trazidos
a estudar de maneira coercitiva, sem persuasão ou convencimento minimamente
diplomático. Via-de-regra vêem-se compelidos a expressar a insatisfação para
com a repressão a que se vêem submetidos pelos pais e/ou pelo
estabelecimento de ensino em classe, seja fazendo estardalhaço, seja
“fugindo” da situação em desenhos, rabiscos, poemas e atividades paralelas
congêneres.
O educador se vê,
portanto, face a uma situação que, para ser classificada como meramente
caótica teria de melhorar muito: onde conseguir memória suficiente para
gravar os nomes de mais de mil seres humanos por ano letivo que estão, em
sua maioria, passando pela fase em que mais precisam de carinho e atenção
para que possam adequadamente auto-afirmar-se na vida? De que forma
conseguir tempo para reciclar-se, auto-aprimorar-se e aperfeiçoar seus
métodos e conteúdos se precisa trabalhar em classe freqüentemente mais de 50
(cinqüenta) horas semanais, além do tempo que fica, em casa, corrigindo e
preparando aulas trabalhos e testes? De onde tirar o bom estado de ânimo que
permita o transe empático, VITAL a qualquer processo pedagógico, com
quarenta turmas diferentes, quase sempre abarrotadas de jovens, alguns dos
quais expressando ruidosamente sua insatisfação, seu justificado
inconformismo ou mesmo necessidade de auto-afirmação? Como conjugar a arte
de transmitir e receber conhecimentos no processo ensino/aprendizagem
entabulando interlocuções fecundas com os jovens à repressão, quase sempre
necessária para conter aqueles que se manifestam de maneira inadequada? De
que maneira manter permanente concentração e elevado nível intelectual e
moral em classe com os diversos compromissos sociais dele exigidos por uma
sociedade assim tão desequilibrada?
Minha prática pedagógica,
que data aí de uns doze anos quando reescrevo estas linhas, tem permitido
algumas soluções emergenciais, embora esteja bem claro que o problema é
muito mais amplo do que comporta este breve estudo.
Há que considerar a
permanente luta por melhorias salariais, através da união sindical, embora
limitada e dificílima - o medo perpassa corações e mentes de colegas em
situação profissional precária, a compaixão para com a situação dos
educandos, que em nada ou quase nada são culpados pela situação a que os
professores foram jogados - é uma das mais severas armas patronais e por aí
vai - traz, contudo pequeníssimos resultados positivos no sentido de
sensibilizar as autoridades governamentais para com a questão.
Como trabalho com matérias bastante
flexíveis em termos programáticos e as consigo tornar interessantes por si
mesmas, optei por não ser nada rígido quanto a cobrança de presenças nem
mesmo impor qualquer tipo de coerção nos estudos das matérias que ministro.
Quem se esmera mais tem nota máxima e aqueles menos dedicados - guardados os
limites impostos pelas instituições em si - recebem pelo menos o grau mínimo
à aprovação, com as gradações justas entre aqueles e estes últimos.
Entre meus pares, às
vezes encontro incompreensão, uma vez ser quase de praxe o controle
disciplinar através da avaliação, ocorrendo mesmo de a “disciplina em
classe” freqüentemente constar dos itens de avaliação dos alunos, o que
deploro. Em certos casos, mais severos, admoestações como “cuidado, sua
atitude, não sendo você quem é, pode ser interpretada como simples descaso
para com a educação...” Fato é que o índice de absenteísmo de minhas aulas
jamais foi superior a 2%, sendo freqüentes os casos de jovens que trazem
colegas de outras turmas ou mesmo familiares para ouvir minhas prédicas.
Paralelamente a isso, os trabalhos que solicito em caráter opcional, os
alunos podem ser avaliados apenas “por participação”, são apresentados em
profusão e, não raro, têm elevadíssimo nível intelectual, alguns até
chegando mesmo a ser publicados!
Sentindo-se livres os
jovens produzem mais e melhor, participando sempre com grande entusiasmo e
motivação. O que vou relatar não deveria ser motivo de surpresa, mas muitas
vezes me pego verdadeiramente estupidificado diante da dedicação e esmero de
alguns. Uma jovem aí com seus quinze anos de idade apresentou um bom
trabalho, todavia com pequenas imprecisões que me impossibilitavam de
conceder-lhe nota máxima. Atribuí o segundo melhor conceito possível e
recomendei maior atenção para com as pequenas imprecisões que encontrei. A
jovem decidiu-se a reelaborar o trabalho inteiro - e era longo -
enriquecendo-o com novos aportes e me senti obrigado a atribuir-lhe a então
justa e merecida nota máxima.
Aos que não compreendem
bem esta postura, argumento: não estaria eu, com esta atitude, sendo um
repressor moral num nível ainda mais profundo que o trivial e grosseiro? Os
jovens ficam tristes, envergonhados mesmo quando não são aquinhoados com uma
nota ou conceito elevado, o que faz com que estudem mesmo e elaborem
trabalhos cada vez melhores. Difícil expressar em palavras o quão
compensador se mostra esse retorno dos alunos, podendo aqui repetir as
palavras do já citado Mário Lodi naquele mesmo trabalho: “Das crianças um
professor antiautoritário recebe muito!” Pura verdade!
Vamos agora arrolar
algumas propostas sérias e emergenciais para a educação no Brasil -
aproveitem-se as idéias; fica aos detentores de poder decisório o “dever de
casa” de encontrar os meios mais adequados de colocá-las em prática:
1. Limitação no número de alunos por turma,
para que o educador possa melhor acompanhar o desenvolvimento de cada um de
seus pupilos e para que também não se veja lançado numa situação em que, por
não haver espaço temporal à livre manifestação e criatividade de cada
educando, acabe reduzido à condição de palestrante ou, no limite, repressor
em seu sentido mais grosseiro mesmo. Um educador pode acompanhar bem, de
perto, o desenvolvimento intelectual, moral, humano, enfim, de cada um de
seus alunos em turmas de, no máximo, vinte alunos.
Fica claro que qualquer intelectual
competente é capaz de proferir palestras a verdadeiras multidões. A
situação, evidentemente, é bem outra no cotidiano dos jovens estudantes.
Aula é para formar, palestra, para informar.
2. Limitação na quantidade de turmas em que
o educador deve exercer suas atividades. Lidar com um máximo de cinco turmas
com vinte alunos em cada uma por ano permitirá ao educador acompanhar de
perto, com toda a seriedade, gravidade e atenção o desenvolvimento de cada
um dos cem jovens cujos nomes e características pode memorizar
tranqüilamente, com rapidez e facilidade até. Este ponto fala do respeito
humano que possa permitir aos alunos terem suas identidades particulares
reconhecidas, ponto também fundamental numa proposta pedagógica séria.
3. Autonomia pedagógica, melhor aceitação de
metodologias alternativas. Não é concebível que se trate seres humanos como
máquinas. Que as instituições educacionais tenham suas próprias filosofias é
compreensível. Acolher com urbanidade, reconhecimento e respeito idéias
diferentes, contudo operacionais, diria mesmo que ainda mais operacionais
que as anteriores, é o mínimo que a prática democrática pede às vésperas do
terceiro milênio. Seguir com práticas medievais às margens do 21º século é
um disparate!
4. Ponderável aumento salarial. É isso
mesmo, chegamos a uma situação tão absurda que somente com propostas
aparentemente “loucas” se pode reverter o quadro. Estou propondo uma
diminuição na jornada de trabalho de 50 aulas semanais para no máximo 25 e
uma contrapartida salarial condigna ao respeito que merece o profissional
formador de seres humanos para a vida.
Com salários melhores e
mais tempo livre, o profissional do ensino poderá dedicar-se com maior
empenho a seu auto-aperfeiçoamento, exercendo um trabalho cada vez melhor.
O que está aqui proposto,
com todas as letras, em síntese, é que se coloque a ênfase no ser humano, na
atividade pedagógica em si, não mais na lucratividade da “empresa” escola ou
mesmo nas regras draconianas do mercado. Discutir a situação do mercado, a
“corrida de lobos” da sociedade industrial é, quiçá, tema para outro
trabalho. Aqui digo que mercado é uma coisa e atividade educacional é outra
totalmente diferente. Dentro das atuais regras colocadas pelo mercado - daí
a expressão “emergenciais” que apodo às medidas propostas - o professor
precisa resgatar o seu valor mesmo. Caso se prefira um
linguajar diferente, enquanto o mercado ditar suas regras, a
“mercadoria” professor precisa ser melhor valorizada!
Expondo estas idéias em
seminários a colegas professores, obtive muita solidariedade e a crítica
solitária: “trata-se de um sonho, de um delírio”, mas ocorre o contrário! A
realidade é que se transformou num pesadelo macabro e irracional, só crível
porque existente de forma material, só por esse motivo falar no racional soa
como sonho ou delírio.
De todo o modo, enquanto
nosso modelo educacional estiver, como está, distanciado da Razão - embora
obedeça a algum tipo de lógica que me escapa - estaremos assistindo e
vivenciando o inferno dantesco da deterioração assombrosa das condições
intelectuais e morais de nossa gente. Urge reverter este quadro!
Agradecimentos
A Deus, acima de tudo,
que em meio a tantas atividades e dificuldades do cotidiano esteve a me
amparar, proteger e apoiar, cercando-me de anjos ao longo da elaboração e
sistematização de todo este trabalho.
Há tempos meus muitos amigos anseiam que
registre num trabalho mais facilmente “manuseável” a montoeira de
inquietações, dilemas e mesmo inovações estéticas e ideológicas que venho
escrevendo aqui e ali ao longo desta minha existência além de aulas orais
que ministrei sem deixar registro escrito anterior a este e esboços de
propostas de novos textos a aprofundar oportunamente também.
Este trabalho não seria
possível sem o apoio decisivo do Eduardo Roxo Nobre, da CPEE, que me
franqueou condições plenas à sua elaboração. A ele e ao pessoal da Companhia
Paulista devo o fato deste opúsculo chegar às suas mãos.
Meu grande amigo há cinco
anos, Luís Trinca Filho foi figura nodal para a elaboração e apresentação
esmerada de todo o trabalho. Se algum mérito tenho com relação ao conteúdo
do que aqui vai escrito, a forma não seria tão perfeita sem a ajuda do
Trinca.
Desde o início do projeto
contei com total apoio e compreensão da minha família. Irrealizável o
trabalho sem o carinho de minha mãe e a atenção de minhas irmãs, cerrando
fileiras a meu lado e clareando minha mente com relação a uma série de
pontos relativos à nossa história comum.
Também o Paulo Flamínio,
amigo querido, que aprendi a admirar por seu denodo, empenho e dedicação
exemplar, sempre a aconselhar-me nos momentos mais dramáticos de meu viver.
Meus queridos professores
do Rio de Janeiro, o Gisálio, a Gizlene, o Ricardo, a Diana, o Alex, o
Emílio, o Cláudio... Tantas influências benéficas tive de tantos humanistas
completos que reluto a assumir este trabalho como somente meu.
Os jovens que me deram a
honra de estudar comigo, sendo alunos exemplares nestes quinze anos de
atividades docentes em mais de dezessete cidades diferentes e tanto me
ensinaram ao longo da jornada. Como disse o Rubem Alves, “o professor é
aquele que, de repente, aprende...”
Registro também o estímulo que recebi do
Celso Amato, do Padilha, do Márcio Lauria e da Maria Helena Bertocco em tudo
o que tenho feito em termos educacionais e culturais em São José do Rio
Pardo e Região.
Não poderia deixar de
registrar também o quanto aprendi com outras pessoas que estiveram a me
desestimular e criticar ao longo do caminho. Me desafiaram a fazer coisas e
aqui está o primeiro resultado de tudo. Fosse eu uma planta e ansiaria por
um meio propício, que me facilitasse o crescimento. Humano, agradeço aos que
me proporcionaram obstáculos ao crescimento, movidos que somos os humanos
por desafios. Ao desenvolver um pequeno projeto pessoal que seja, muitas
vezes falhamos para com aqueles que, de uma maneira ou de outra, contam
conosco. Obtive muito apoio e muita solidariedade. Muita incompreensão e
intolerância também, o que me desafiou a efetivamente levar o projeto a
cabo.
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